7th of April

Pela defesa da vida através da descriminalização do aborto: uma nota de apoio ao CFM


Em apoio ao Conselho Federal de Medicina, que se manifestou pelo aborto legal e seguro, eis uma argumentação sucinta que desenvolvi dois anos atrás:
1 – A questão sobre o aborto não diz respeito à “vida”, mas à “vida humana”, ou seja, ao indivíduo. Não é uma questão de saber como começa a vida, é uma questão de saber em que etapa do desenvolvimento o nosso Estado laico deve aceitar um embrião como um cidadão digno de direitos.
2 – Para estabelecer se um embrião é um cidadão, o Estado deve ser informado pela ciência sobre quando surgem no desenvolvimento os atributos mais caracteristicamente humanos.
3 – Os atributos mais caracteristicamente humanos não são ter um rim funcionando, nem um coração batendo, mas ter um cérebro em atividade. Isto é razoavelmente estabelecido porque é a morte cerebral que é considerada o critério para dizer quando uma pessoa morreu, e não a morte de outros órgãos. Por isso mesmo transplante de coração não é acompanhado de “transplante” de registro de identidade.
4 – Se a morte do cérebro é o critério médico que o Estado aceita para considerar o indivíduo humano como morto, o início do cérebro deve ser logicamente e necessariamente o critério para considerar o início do indivíduo, e não a fecundação.
5 – Considerar a fecundação como o início do indivíduo humano é perigoso, porque é definir um indivíduo apenas por seus genes. Isso é determinismo genético.
6 – O cérebro não tem sua arquitetura básica formada no mínimo até o terceiro mês da gestação. Isso significa que o embrião não percebe o mundo, não tem consciência, é um punhado de células como qualquer pedaço de pele. Por isso não é moralmente condenável que as mulheres tenham direito de escolher não continuar a gestação antes deste período.
7 – Usar o argumento de que o embrião ou o zigoto tem o potencial de dar origem a um ser humano para protegê-lo não vale, porque seria o mesmo que tentar proteger os óvulos que se perdem logo antes das menstruações em todas as mulheres, ou os espermatozoides que são jogados fora na masturbação masculina. Além disso, hoje a ciência sabe que toda célula humana, até as células da pele, tem o potencial de dar origem a um ser humano inteiro, bastando para isso alguns procedimentos de clonagem. No entanto nós destruímos essas células diariamente: arrancando a cutícula, roendo as unhas, passando a mão no rosto, arrancando fios de cabelo, etc. Potencial não concretizado não é argumento para defender coisa alguma.
8 – Se você acha que o embrião precoce ou o zigoto tem consciência, é responsabilidade sua provar isso, não é o que os cientistas dizem. E num Estado laico, vale o que pode ser estabelecido independentemente da crença religiosa. Se sua crença religiosa diz que uma única célula é consciente, você não tem o direito de impor sua crença a ninguém ao menos que possa prová-la e torná-la científica. Todos os que tentaram fazer isso falharam até hoje: uma célula formada após a fecundação não é essencialmente diferente de qualquer outra célula do corpo.
9 – A vida, em sentido mais amplo, que inclui os outros animais, as plantas e os microorganismos, é um processo ininterrupto que começou neste planeta há aproximadamente 4 bilhões de anos atrás. Por isso é importante reiterar: não é o “começo da vida” que está sendo debatido, mas sim o começo do indivíduo humano como um ser consciente, dotado de uma mente e digno de proteção do Estado.
10 – Concluindo, é a mulher, um ser humano adulto, uma cidadã com direitos, quem merece prioridade de proteção, e não um embrião de poucas semanas. Se ela não se sente preparada para cuidar de uma criança, ela deve ter o direito de interromper sua gestação, caso esta gestação esteja no começo e o embrião não tenha cérebro desenvolvido. Deixar as mulheres terem poder de decisão sobre seus próprios corpos é reconhecer um direito natural delas e assegurar que só tenham filhos quando sentirem que podem trazê-los a este mundo com amor e saúde, para que o próprio mundo em que crescerão seja também mais saudável.
E é por isso que defender que o aborto seja uma escolha, e não um crime, é também defender a vida humana.
P. S.: Se você já se chocou com imagens sangrentas usadas pelo lado sem argumentos, o lado dos autointitulados “pró-vida”, há uma forma de tratar seu trauma: ver qual é a aparência de um aborto legal e seguro, feito respeitando o limite de 12 semanas que o Conselho Federal de Medicina defende. Você pode fazer isso neste site, e prometo que não vai se chocar: http://www.meuaborto.com.br/
29th of December

Por que não sou mais onívoro: resposta a mim mesmo – parte 1


Lisa Simpson crescida, por Jordan MeadEm abril de 2010 escrevi um texto que até hoje consta como primeiro resultado nas buscas para seu título, “por que não sou vegetariano”. Dois anos e meio depois, vim a tomar uma decisão que contradiz a posição que tentei defender – hoje vejo que de forma incorreta e até irracional – naquele texto. A maior guinada, que não pretendo justificar aqui nesta primeira parte, foi o abandono da ideia de que teorias éticas dependem de emoções para se justificar. Acredito no oposto hoje em dia: que embora emoções sejam importantes para motivar a ação ética ou importantes de outras formas para a moral (e ética e moral são muito melhor tratadas como sinônimos), até mesmo um psicopata completamente desprovido de empatia poderia tomar decisões eticamente corretas usando apenas a reflexão racional. A decisão que tomei foi de mudar minha dieta. Não há, até onde sei, um rótulo para as restrições alimentares e de consumo que adotei. Este primeiro texto de resposta não pretende ser uma resposta exaustiva a mim mesmo e aos erros que cometi neste assunto. Mais partes virão em algum tempo.

Eis, então: Breve diálogo fictício sobre minha decisão de não consumir mais carne vermelha.

– Não como carne vermelha porque tentei achar motivos pelos quais isso é correto e não achei nenhum. Na verdade só achei, inclusive no que eu próprio pensava a respeito, apelos irracionais à emoção (inclusive ao prazer gustativo) e tentativas de furar buracos nos argumentos de quem não come em vez de um caso completo defendendo a prática. Não saí por aí acusando ninguém de “imoralidade”, só penso que uma pessoa honesta deve reconhecer que ela come carne vermelha pelos mesmos motivos que eu baixo mp3 ilegalmente: porque não tem recursos / motivação / coragem / heterodoxia suficientes para parar algo que, olhando bem de perto e julgando a média dos modos como é feito e as consequências que traz, é errado.

– Mas você come milho, não come? Há uma grande probabilidade do milho que você come estar vindo de lavouras em que são colhidos com colheitadeiras que inevitavelmente matam ratinhos inocentes que ficam por ali. Portanto, você tem sangue nas mãos tanto quanto eu, o que eu faço é pegar da mão e botar na boca, e se isso tem algo de prejudicial é apenas a mim na eventualidade de ser comida pouco saudável.

– Este é um problema interessante porque lembra os experimentos mentais em ética sobre o bonde desgovernado. Enquanto a maioria das pessoas acha correto puxar uma alavanca para mudar um bonde de trilho para que ele mate menos pessoas, pouca gente acha correto atirar um homem gordo em cima dos trilhos para obter o mesmo efeito. Enquanto puxando a alavanca você só está matando pessoas indiretamente, empurrar o gordo é algo que parece mais com assassinato. Comprar e comer carne vermelha me parece trazer problemas inevitáveis, por estar muito mais diretamente ligado a causar sofrimento ou atentar contra a individualidade de um ser capaz de sofrer e capaz de experimentar o mundo ao ponto de ter interesse em viver, do que comprar vegetais, que são possivelmente colhidos com a consequência indireta e evitável de animais sofrerem e morrerem. Financiar o abate pecuário diretamente lembra empurrar o gordo, e comprar o milho parece puxar a alavanca.

– Mas de qualquer forma você não é isento de estar provocando – mesmo que mais indiretamente que eu – a morte e sofrimento do tipo de animal que você acredita ter status para consideração moral. Como pode então achar que pessoas que fazem o que você não faz deveriam reconhecer que o que fazem é errado?

– Seu argumento é que dois errados fazem um certo? Quando deixa de pagar impostos tenta se justificar dizendo que Al Capone também não pagava? Isso seria falácia, uma escapada à discussão em vez de uma resposta a ela. O que estou dizendo é outra coisa: que duvido que pessoas que comem carne vermelha (vamos deixar outros tipos de carne para outro debate) possam justificar este hábito como coisa correta, recomendável, justa ou louvável a se fazer. Se têm outros motivos para continuar fazendo, posso imaginar quais sejam e até imaginar explicações para eles, por isso mesmo não acho que repreensão e acusação sejam úteis (como não são úteis para o caso de consumo de obra intelectual e artística sem levar em conta os direitos de quem a criou). As pessoas fazem as mais variadas coisas pelos mais variados motivos. Mas só uma fração dessas coisas é correta, e só uma parte dessas coisas é justificável racionalmente. Deixar de comer carne vermelha é tanto correto quanto justificável. A atitude contrária não é – ainda mais quando consideramos como é feita hoje, e é claro que varia em mais e menos incorreta dependendo de como é feita, mas creio que ser incorreta é uma de suas propriedades fundamentais.

– Extratos de pulmões de porcos são necessários para dar surfactantes para bebês recém-nascidos, sem os quais os bebês não conseguem respirar. Surfactantes sintéticos, até onde sei, não funcionam tão bem. Está dizendo que abater porcos para este fim é errado?

– Não. Estou dizendo que abater porcos é geralmente errado. Não que é errado em absolutamente todas as circunstâncias possíveis e imagináveis – o que também vale para assassinatos e mentiras. É geralmente errado, e principalmente para fins de consumo dispensável e diversão. Porque porcos são seres capazes de sofrer e seres que têm interesse em viver. Abatê-los é interferir injustamente com este interesse e na maior parte dos casos causar-lhes dor desnecessária. Isso significa que, objetivamente falando, se ética diz respeito a evitar sofrimento e respeitar interesses, porcos devem necessariamente ser seres dignos de serem lembrados quando pensamos no que é a coisa certa a se fazer. Que eles próprios não tenham linguagem e capacidade complexa de julgamento não importa – isso significa que eles não podem ser agentes morais, mas não significa que não podem ser pacientes morais. Ou seja, não podem decidir eticamente, mas devem ser incluídos no grupo de seres que merecem a piedade de seres pensantes.

– Se porcos merecem esse status moral, então, se uma fazenda estivesse sendo invadida por um tsunami e você tivesse um helicóptero, você daria igual prioridade para salvar as pessoas e os porcos?

– Não. Porque eu acredito que porcos são dignos de serem pacientes morais, não significa que eu acredite que todos os pacientes morais têm a mesma prioridade. Pode-se tentar orientar as prioridades pelos interesses – pessoas têm mais interesses (e potencialidades, que talvez possam ser incluídas nos interesses) que porcos, portanto, em geral, têm mais prioridade. Mas uma pessoa em iminência de ralar um joelho com certeza tem menos prioridade que um porco em risco de morrer com uma facada no coração, para mim. De novo, a prioridade em geral ser maior para uma espécie não significa que ela seja sempre maior em toda e qualquer circunstância concebível. E não é, na verdade, a espécie que define a prioridade, mas a natureza dos indivíduos em determinado problema moral, além de, como ilustrei, as possíveis consequências de uma ou outra decisão. Num prédio em chamas com uma única criança num quarto e trezentos mil embriões humanos em outro, eu com certeza daria prioridade total a salvar a criança, e minha prioridade de evitar que os embriões fritassem seria equivalente à prioridade que eu dou a evitar que minha salada apodreça na geladeira. Porque não parece ser o caso que embriões humanos mereçam o mesmo tratamento de indivíduos humanos.

– Foda-se, vou comer minha picanha porque é gostosa e ponto final, ninguém pode me impedir.

– Ninguém tentou tirar seu direito legal de fazê-lo. O que é imoral nem sempre tem que ser ilegal, e vice-versa. Pense nisso. E pense, se quiser é claro, se “porque é gostosa” é realmente um motivo que justifique alguma coisa. Hannibal Lecter diria o mesmo sobre cérebros de gente viva.

29th of December

Mistérios


Há ao menos duas formas de pensar em mistérios. Uma é a forma mística. Consiste em contemplá-los pelas emoções que incitam, geralmente boas emoções. As emoções são boas porque o místico, ainda que alegue o contrário, pensa saber algo sobre o mistério sem esforço algum para desvendá-lo. É assim porque somente com algum tipo de conhecimento, ou pretenso conhecimento, alguém pode se sentir edificado por algo que é, ao menos no rótulo, desconhecido para a maioria das pessoas. A segunda forma de se pensar em mistérios é a forma genuinamente curiosa. Pouco importa se o mistério é "edificante" – aliás, aqui, sequer faz sentido falar em mistérios edificantes. Como alguém poderia se sentir edificado por não saber alguma coisa? O curioso tem a possibilidade de se sentir bem ao desvendar um mistério: o que geralmente não é fácil, a dificuldade pode até ser mínima (procurar no Google, por exemplo), mas existe. Mas ter um mistério flutuando na mente pode até ser incômodo. Curiosidade incomodada é algo mais ou menos parecido com aquela vontade de ter uma coisa inacessível, aquela saudade do que não se tem. Machado de Assis não nos conta se Capitu traiu Bentinho com Escobar porque queria nos incomodar. Queria incomodar a todos os leitores para sempre. E isso agrega valor à obra dele, pois incômodo cola nas memórias e chama a atenção. Adultos inteligentes não costumam gostar de obras de ficção que apenas tentam afagar sua psicologia – gostam de suspense, terror e drama. Quando você olha ao seu redor (olhe aí), vê um monte de coisas aparentemente banais. Vejo aqui, por exemplo, calças dependuradas, um cartaz, um guarda-chuva fechado. Todas essas coisas contém mistérios, alguns são mistérios para mim, outros são mistérios para muitos, e outros são mistérios para a humanidade inteira – e um subgrupo deles serão mistérios para sempre. Há quanto tempo usamos roupas? Cerca de 80 mil anos é o que eu acredito com base em algumas fontes que julguei confiáveis. Para alguns essa aproximação é um mistério, um milhão de anos seria um palpite igualmente bom para esses. Do que são feitas as tintas no cartaz? Sei que muitas cores diferentes são obtidas de metais oxidados, outras de compostos orgânicos como os carotenoides, mas não faço ideia do que é popular na centenária indústria de tinturas (deve ser quase tudo inorgânico), não tenho ideia de que tipo de tinta é mais provável de ser usada nesse tipo de material. Então, coisas bem básicas sobre o cartaz são mistério para mim. Entre todas as chuvas durante um ano, qual é a frequência média de chuvas para as quais esse guarda-chuva serve? Chuva horizontal deve ser rara num ano, mas não sei o quão rara por aqui. Mais mistérios. Fica evidente que, tanto para a abordagem mística quanto para a abordagem curiosa, há filtros de que tipo de mistérios chamam a atenção. Esses filtros variam de pessoa para pessoa, comunidade para comunidade, e cultura para cultura. Eu sei que o mistério da ressurreição de Jesus é a preferência para o misticismo de muitos brasileiros do século XXI, por exemplo. Mas não é um mistério que atiça minha curiosidade, e para mim o que é de fato um mistério é como essa crença pode ser tão popular. Quem prefere a abordagem curiosa dos mistérios e quer se debruçar sobre este em particular, não vai ter muitos elementos com que trabalhar, vai acabar tendo que partir para inferências probabilísticas duvidosas e terminar com uma imensa falta de saciedade da pulsão curiosa (e, espera-se, um ceticismo sobre as respostas mais populares). Mas o tratamento místico desse mistério geralmente vem acompanhado da crença de que isso realmente aconteceu, tem uma significância existencial e até ética, portanto seria um mistério digno de atenção. Eu não estou dizendo que os dois tipos de tratamento de mistérios não podem existir numa só pessoa, nem que um é exclusivo da religião e outro exclusivo dos empreendimentos seculares. Muita gente trata de forma mística os mistérios narrados por Stephen Hawking n’O Universo numa casca de noz. Já conheci gente para quem as quatro equações de Maxwell são um mistério (porque assim como eu não as estudaram nem as compreendem), mas isso não as impedia de ter admiração mística por elas. Também conheci quem tivesse legítima curiosidade pelas psicografias do Chico Xavier ao ponto de investigá-las a fundo, levando em conta todo tipo de relato e evidência – inclusive os negativos. A forma curiosa de abordar mistérios tem suas vantagens. Aponte-me qualquer coisa que, por mais que eu seja ignorante sobre ela, vou poder dizer ao menos um mistério a respeito dela – de preferência os mistérios que não são apenas mistérios para mim na minha ignorância, mas mistérios para todos nós. Posso errar miseravelmente nisso, mas é justamente nisso que tenho oportunidade de perscrutar meu nível de ignorância sobre esta coisa, e ainda ter a oportunidade de julgar se os mistérios que ela parece ter são dignos da minha atenção, se me interessam profissionalmente, se me interessam intelectualmente, se vou abrir a Wikipédia e ler dois parágrafos ou se vou comprar um livro e botar na fila de leituras de curto, médio ou longo prazo. No fundo isso é uma prospecção sobre o nível de incômodo que cada um desses mistérios me dá, e se é um incômodo suficiente para me impulsionar com velocidade de escape da atração gravitacional da minha preguiça, indolência e desinteresse. Por isso eu concordo plenamente com Paulo Freire quando ele disse que ser um bom professor é, no fundo, causar mal estar intelectual nos alunos. Quanto à forma mística de observar mistérios, não estou certo de que ela é recomendável – se é, deve ser para algum tipo de terapia psicológica, pois ser fortemente curioso sobre coisas demais pode incomodar ao ponto de atrapalhar a vida, então "adorar" certos mistérios para os quais se favorece sua hipótese favorita sem crítica pode ser algo terapêutico. Acho que todo mundo tem ao menos um mistério que trata dessa forma. Mas muitas coisas sobre mistérios são mistérios para mim. Outras são mistérios para todos. E talvez um subconjunto dessas serão mistérios para sempre.

14th of December

Oswaldo Porchat e um sintoma de falta de filosofia nos departamentos de filosofia brasileiros


No fim da década de 1990, o professor Oswaldo Porchat, experiente professor de filosofia da USP, descobriu que não havia sido um filósofo em toda a sua carreira, mas no máximo um historiador de filosofia. Também concluiu que havia formado uma parte considerável dos professores de seu próprio departamento com esta mesma impressão equivocada sobre o fazer filosófico.

Escreveu, então, com quase 70 anos, um discurso com esta revelação para os estudantes e professores da USP. Trechos a seguir.

“Errare humanum est, sed perseverare in errore diabolicum [errar é humano, perseverar no erro é diabólico], diziam os medievais. Não quero ter parte com o diabo. Quero ter, no momento em que caminho a passo acelerado para os meus 70 anos, para o momento em que serei forçado a deixar a universidade, a coragem de rejeitar duramente meus erros passados, denunciar meus procedimentos equivocados, pedir humildemente desculpas pelas consequências infelizes que possam ter deles resultado. E tentar contribuir para que se busquem outros rumos. Para que a História da Filosofia, entre nós, comece a dar lugar finalmente à Filosofia.

(…) Dever-se-ia dar também atenção especial, porém, àqueles problemas filosóficos que são problemas para nossos estudantes, questões que naturalmente os preocupam. Aliás, inseridos que estão e não poderiam deixar de estar no mundo contemporâneo, muitos dos problemas desses jovens refletem compreensivelmente parte da problemática com que estão lidando os filósofos de hoje. Parece-me, por exemplo, que os problemas de filosofia moral têm aí um lugar especial. Têm acaso sido eles objeto importante de nossos cursos e atividades de ensino e pesquisa? Temo sinceramente que não.

(…) [É] muito desejável que nossos estudantes sejam fortemente incentivados, desde o início, desde o primeiro ano, a exprimirem livremente nos seminários, nos trabalhos e nas aulas os seus próprios pontos de vista sobre os assuntos tratados. A tomarem posição, a criticarem, a ousarem criticar, se isso lhes parecer ser o caso, mesmo as formulações dos grandes filósofos e suas teses.

(…) [E]m História da Filosofia a autoridade parece contar muito, em Filosofia a autoridade não conta nada. Seja qual for a minha erudição historiográfica, minha opinião filosófica conta tanto, na esfera do saber e no domínio das verdades filosóficas, quanto a de qualquer um de meus alunos, minhas performances “magistrais” não garantem a verdade do que eu possa afirmar.

(…) Há espaço de sobra nele [no departamento de filosofia] para a crítica e para a indispensável autocrítica. Basta abrir algumas salas que estão fechadas, as salas da discussão, da polêmica, do debate, da crítica, da autocrítica. Disseram-me que vocês têm as chaves.”

Discurso completo aqui: http://www.revistafundamento.ufop.br/Volume1/n1/vol1n1-2.pdf

A “queda da graça” do professor Porchat é, como ele sugere, revolucionária, e ainda extremamente relevante por vários motivos.

As coisas ainda estão bem como ele descreve. Muitos departamentos e professores de filosofia no Brasil ainda mantém um ambiente acadêmico hostil ao racionalismo. Pois é hostil ao racionalismo ensinar aos alunos que devem apenas comentar o que Fulano disse sobre Cicrano, não tentar criticar Fulano e Cicrano ou elaborar seus próprios argumentos com base nos erros ou descobertas de ambos. É hostil ao racionalismo pensar que pesquisa filosófica é comentário de obras de arte e associações vagas ou triviais de ideias repletas de nomes importantes e palavras de baixa frequência de uso na língua portuguesa, além é claro de neologismos dispensáveis e maneirismos de escrita e demais adornos desnecessários para quem de fato tem argumentos a apresentar.

O Brasil, talvez, nunca esteve tão necessitado de bons filósofos quanto hoje. A população de baixa escolaridade, apesar de amar a erudição e sonhar em ver seus filhos estudando, transita entre ideias da grande mídia, da igreja e do senso comum, como “bandido bom é bandido morto” e “sem Deus tudo é permitido”. Quando conseguem alguma educação, quase sempre recebem ideias repletas de preconceitos como o cientificismo. E são essas pessoas que pagam as bolsas de mestrado e doutorado de estudantes que passam anos nas universidades públicas para terminar com trabalhos que muitas vezes não têm qualquer compromisso com originalidade argumentativa ou mesmo a clareza (que não implica rejeição a qualquer jargão, mas implica que o jargão usado pela comunidade tenha algum escrutínio criterioso).

Isso não é justo. E não é justo que o cidadão leigo em filosofia tenha como personalidades filosóficas famosas em seu país figuras como Olavo de Carvalho e Luiz Felipe Pondé, que vivem de regurgitar senso comum com adornos linguísticos da norma culta.

O exemplo do professor Oswaldo Porchat Pereira é um exemplo de coragem e um exemplo a ser seguido. Que outras carreiras longas como a dele não sejam gastas em exercícios historiográficos fora de departamentos de história e cultos a personalidades mal travestidos de debate crítico.

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Publicado originalmente no Facebook da LiHS.

14th of September

Muito além do ‘Muito Além do Nosso Eu’ de Miguel Nicolelis, com P.S.


Publicado anteriormente no Amálgama.
A arte da capa também não ajuda.
Em Muito além do nosso eu, de Miguel Nicolelis, somos conduzidos a páginas e mais páginas de um relato exaustivo dos motivos pelos quais o autor está no time correto de neurocientistas. Em algo que lembra aquelas discussões de torcedores do Palmeiras contra torcedores do Corinthians, o autor tenta nos convencer de que os distribucionistas, que acreditam que o cérebro trabalha como um todo integrado de processamento paralelo distribuído em populações de neurônios, ganharão inexoravelmente o debate contra os ingênuos e tolos localizacionistas, que, por acreditarem que existem áreas cerebrais especializadas em certas funções mentais, só podem ser herdeiros da pseudociência de Franz Gall (frenologia), que buscava prever habilidades psicológicas a partir de assimetrias cranianas.
Um exército de metáforas desfila, às vezes num ritmo tão caótico quanto o das tempestades cerebrais de que tanto fala Nicolelis, para nos mostrar que o “reducionismo” está fora de moda e o caminho correto das ciências da mente será o de considerar populações de neurônios como a unidade funcional do cérebro, não o neurônio como tentam nos convencer os desatualizados e obscurantistas livros-texto de neurociência. Leões caçam em bandos, um leão solitário nada pode. A campanha das Diretas Já com multidão de centenas de milhares de manifestantes, que Nicolelis testemunhou in loco, de nada adiantaria se fosse um único manifestante bradando palavras de ordem contra a ditadura militar. E é por isso, além é claro também pelos inúmeros dados experimentais apresentados no livro, que devemos adotar o distribucionismo e suas consequências.
Longe de desmerecer os interessantíssimos dados empíricos apresentados por Nicolelis, já nos primeiros capítulos há uma pedra no meio do caminho, e é uma pedra conceitual: o autor faz um balaio de gatos, para não dizer espantalho, entre a visão localizacionista e a visão “reducionista” do cérebro. O leitor é levado a pensar que existe um time de teimosos que quer reduzir pensamentos a um único neurônio, que é a mesma turba que quer nos arrastar de volta para a frenologia. Temos no mínimo duas posições aqui sobre o funcionamento do cérebro, que devem interagir de modo mais complexo que os pares de estruturas cerebrais cujas conexões foram simuladas em algoritmo pelo cientista em seu trabalho na pós-graduação. Não nos é apresentada evidência, no entanto, das razões pelas quais deveríamos culpar os modernos localizacionistas por associação aos extintos frenologistas, e o autor não parece interessado em fazer a mesma justiça que faz à complexidade de conexões entre estruturas cerebrais para a complexidade de opiniões que podem adotar aqueles que discordam dele.
Da mesma forma que o autor culpa seus adversários por associação ao refugo da história da ciência do cérebro, ele alegremente se associa a gênios como Thomas Young e Albert Einstein.
Nicolelis descreve os prodígios da carreira de Thomas Young (1773-1829) como um baluarte de como deve ser a atitude de um cientista, no exemplo da teoria da percepção de cores que Young apresentou no começo do século XIX (antes da descoberta dos neurônios), propondo que haveria três receptores para cores na retina, o que foi confirmado apenas no século XX. Mas uma provocação interessante é que Thomas Young poderia estar correto por acidente, nessas ironias lógicas que permitem a premissas falsas levar a conclusões corretas. Ele pode ter tirado sua ideia de que há três receptores de cor na retina humana do fato trivial conhecido por pintores de que a variedade de tons usados por um Monet pode ser produzida a partir da mistura de tintas com cores fundamentais. Juntando-se isso à teoria ondulatória da luz (parcialmente incorreta, como se mostrou mais tarde), temos a teoria de Young sobre a percepção de cores.
Diz-se que o filósofo Epicuro de Samos, um atomista como seus antecessores Demócrito de Abdera e Leucipo de Mileto (apesar de nunca ter-lhes dado o devido crédito), diferia deles ao propor que além de o universo se reduzir a átomos e movimento, não é um universo puramente determinístico porque os átomos são capazes de dar guinadas imprevisíveis (cf. Foster et al. 2008). Isso lembra mecânica quântica? Sim, mas alegar que Richard Feynman e outros teóricos da quântica são herdeiros diretos de Epicuro seria no mínimo uma incorreção histórica, no máximo uma especulação baseada em correlação espúria de conclusões.
Considerar-se um “discípulo de Young” e acusar os ditos localizacionistas de serem discípulos de Gall comete exatamente essa injustiça, obscurecendo o que deveria ser um tratamento justo da história e da herança cultural que levou às pesquisas modernas, que de modo algum se divide no time dos corretos contra o time dos errados (exemplificados ao longo do livro em anedotas históricas como a de Golgi versus Cajal), mas numa comunidade comprometida com valores epistêmicos de interrogação honesta da realidade e debates fundamentados nesta secreção acumulada de nossas glândulas racionais nos últimos quatro séculos, chamada corriqueiramente de ciência. Para um tratamento menos futebolístico da história da ciência por parte de um cientista, cf. Gribbin (2003).
O termo reducionismo tem se tornado um xingamento no ambiente acadêmico. Um xingamento nebuloso e por vezes injusto. Como lembra Daniel Dennett (cf. Dennett 1998), o problema não é o reducionismo – encontrar as unidades ontológicas nas quais se ancoram determinado fenômeno natural –, mas oreducionismo ganancioso: atribuir todas as facetas e manifestações deste fenômeno a entidades que não têm, individualmente ou em conjunto, propriedades suficientes para explicar e prever o fenômeno em questão. Dennett cita como exemplo o reducionismo ganancioso de Skinner, com suas altas esperanças de explicar toda a mente como resultado de uma simples sucessão de condicionamentos. O que Nicolelis trata como isolamento da unidade funcional da mente – populações de neurônios – é uma clara e distinta baforada de reducionismo, tanto quanto enxergar o rim como um conjunto de néfrons (o que até o momento não só é visto como correto, como leva nefrologistas a salvar vidas todos os dias nos hospitais). A história dirá qual dos dois reducionismos – o celular ou o populacional – é ganancioso para explicar o cérebro, se algum é. E se as esperanças científicas de Nicolelis se concretizarem, vencerá o reducionismo populacional, e nenhum valor negativo deve ser atribuído a esta redução, pois reduzir neste caso significa tornar inteligível.

Mas há no mínimo dois tipos diferentes de reducionismo (cf. Martínez 2011): o ontológico e o teórico. Se alguém diz que a “unidade funcional” do cérebro é o neurônio, está sendo reducionista ontológico, mas não necessariamente reducionista teórico. Um reducionista teórico acreditaria que tudo o que precisamos saber sobre o cérebro pode ser descrito em termos que envolvem o funcionamento de um neurônio (a teoria só precisa falar do neurônio, e dela derivamos o resto). Parece-me que Nicolelis defende bem razões pelas quais o reducionismo teórico ao neurônio é infrutífero, mas isso não obriga um reducionista ontológico a segui-lo. Motivo muito mais forte para abandonar o reducionismo ontológico ao neurônio é a existência de inúmeras células da glia que crescentemente têm sido mostradas como moduladoras e participantes em transmissão de sinais no sistema nervoso central, mas estas células sequer ganham menção no índice remissivo do livro de Nicolelis. Um sinal de reducionismo a neurônios, ainda que em populações?
Difícil julgar. O autor tem declarado que máquinas jamais poderão simular o funcionamento do cérebro humano, pois sua cantilena holista de que o todo do cérebro é maior que a soma das partes dita que as propriedades emergentes do órgão são irreprodutíveis artificialmente. Eu não apostaria todas as minhas fichas nisso, pois, se alguma lição pode ser derivada da história do “reducionismo” na ciência, é que o vitalismo vai mal das pernas desde que a ureia foi sintetizada por Friedrich Woehler em 1828, e este “neo-vitalismo de propriedade emergente” pode ter o mesmo destino. Reduzimos as propriedades da vida, ontologicamente, à física e à química. Mas não precisamos reduzir teoricamente – ninguém até hoje conseguiu reduzir a seleção natural, por exemplo, a explicações que só mencionam ondas e partículas.
É um problema, aliás, que pesquisadores da área biológica ainda considerem as teorias da física o grande quadro de referência ao qual devem prestar tributo todas as novas teorias em áreas como a neurofisiologia. Nicolelis soa exatamente assim quando constrói uma analogia cerebral da relatividade de Einstein para suas conclusões sobre o funcionamento do cérebro, falando em “continuum espaçotemporal” de neurônios e – o que parece uma derrapada – “princípio da incerteza da neurofisiologia”. Os próprios físicos ainda não sabem como unir o princípio da incerteza de Heisenberg com o universo relativístico de Einstein, juntar as duas coisas numa metáfora neurobiológica não parece prestar um grande serviço de esclarecimento.
Voltando à biologia e ao que chamei de “neo-vitalismo” de Nicolelis, Darwin, a propósito, dizia que a diferença de comportamento (e, portanto, de cérebro) entre o ser humano e os outros animais (especialmente vertebrados, cf. Dalgalarrondo 2011) é mais uma diferença de grau do que de tipo de capacidades e propriedades. Se não há muitos motivos para duvidar que conseguimos simular todos os comportamentos de um verme hoje, talvez não devemos ser tão dogmáticos quanto à incapacidade de simular o cérebro humano num futuro remoto, até porque a pesquisa de ponta de Nicolelis tem mostrado que máquinas podem “ler pensamentos” e traduzi-los em comandos computacionais, fazendo com que um primata em seu laboratório controle um robô do outro lado do mundo. Mas o debate entre defensores da inteligência artificial forte e fraca está longe de estar encerrado.
É importante tomar neurônios conjuntamente, mas nem todas as analogias do livro valem. Uma analogia que me interessa particularmente é a da herança multifatorial/poligênica, usada pelo autor como um exemplo de que os genes também são manifestantes das Diretas Já na democracia da manifestação do fenótipo. Não é bem assim. Em fenótipos complexos como a síndrome de Down, por exemplo, já se mostrou que a importância de cada gene é assimetricamente distribuída pela natureza, de forma que há uma “região crítica” do cromossomo 21 na qual há genes sensíveis à dosagem, como o DYRK1A, que são mais importantes que outros no resultado observado. Outro caso é o do famoso gene FOXP2, cujos estudos evolutivos e funcionais mostraram que também na manifestação da base genética da cognição o “voto” de cada gene não tem igual valor. Se a analogia populacional de Nicolelis tem essas nuances em genética, por que não teria na própria neurofisiologia, admitindo, heresia das heresias, algo de localizacionismo?
Se a história da neurociência pode ser reduzida a dois times – os localizacionistas-reducionistas de um lado, e os distribucionistas-holistas de outro –, parece algo que vale a pena disputar no livro de Nicolelis. Ainda mais quando os próprios autointitulados distribucionistas usam modelos teóricos de mapas somatotópicos (homúnculos cerebrais) que ironicamente lembram uma visão em que há regiões especializadas no cérebro (há no livro até uma imagem do mapa somatotópico provável do Pelé, localizando a área de representação da bola de futebol bem junto ao pé do homúnculo cortical).
Já fui a duas palestras de Nicolelis, em ambas não deixei de me impressionar com as possibilidades abertas pelo seu trabalho, e de me entusiasmar com a retórica Santos-Dumontista que está transformando a vida de crianças carentes no IINN-ELS em Natal. Muito além do nosso eu não deixa a desejar ao passar esta atmosfera mental do autor. Desde milhões de anos atrás nossos ancestrais hominídeos foram muito além de seus eus usando ferramentas, e hoje o trabalho de Nicolelis é de fato um ponto de inflexão em nosso entendimento do que significou, em termos funcionais, este passo em direção a um cérebro capaz de simular mais que um mapa de nossos corpos, mas um mapa de uma representação do próprio mundo em nossas habilidades mais valiosas – incluindo o pincel no cérebro de Da Vinci, o avião no cérebro de Santos Dumont e a bola no cérebro do Pelé.
A excelente linha de pesquisa de Nicolelis faz dele um cientista cotado para o Nobel. Seria mais que um orgulho nacional se ele fosse laureado: seria uma restauração da injustiça histórica contra Carlos Chagas, duas vezes nomeado formalmente, duas vezes nomeado informalmente, mas nunca laureado, em grande parte por causa da ação de grupos de detratores entre seus concidadãos cientistas (cf. Coutinho et al. 1999; talvez isso dê alguma pausa aos detratores mais ferinos de Nicolelis no Brasil). O grande mérito deste livro é mostrar como é a vida de um cientista heterodoxo no Brasil e no mundo. E, se minha humilde opinião de leitor e de biólogo pós-graduando em genética vale de alguma coisa, penso que Nicolelis merece seu Nobel de fisiologia/medicina – ainda que não mereça o de literatura.

::: Muito além do nosso eu ::: Miguel Nicolelis ::: Cia. das Letras, 2011, 504 páginas :::

– LEIA TAMBÉM –

Science: A history (1543-2001), de John Gribbin.
– Martínez, Sergio F. Reducionismo em biologia: uma tomografia da relação biologia-sociedade. In Abrantes, Paulo C. et al. Filosofia da Biologia. Artmed, 2011.
– Coutinho, Marilia; Freire-Jr., Olival & Dias, João Carlos Pinto. The Noble Enigma: Chagas. Nominations for the Nobel Prize. Mem Inst Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Vol. 94, Suppl. I: 123-129, 1999.

Post Scriptum

Perguntei ao Nicolelis pelo Twitter o que ele achou da minha resenha. A resposta e a discussão que se seguiram vieram como uma surpresa para mim.
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P.P.S.:

“Nossa liberdade de duvidar nasceu de uma luta contra a autoridade nos primeiros dias da ciência. Foi uma luta muito profunda e forte: permitir-nos questionar – duvidar – não ter certeza. Penso que é importante que não nos esqueçamos desta luta e percamos assim o que ganhamos.” (1955)
“… foi uma reação que aprendi do meu pai: não tenha nenhum respeito pela autoridade; esqueça quem disse e em vez disso olhe com que ele começa, onde ele termina, e pergunte-se ‘é razoável?’” (1988)
– Richard Feynman

“2) Respondendo ao tom

Nesse nível superior começamos a ver respostas ligadas diretamente ao conteúdo do texto, ao invés de serem ligadas ao autor. A forma mais inferior desse tipo de argumento é discordar do tom utilizado pelo autor no texto. Por exemplo:
“Eu não posso acreditar que o autor rebate o Design Inteligente de maneira tão arrogante.”

Apesar de ser melhor do que atacar o autor, esse ainda é uma forma fraca de divergir. É muito mais importante saber se o autor está certo ou errado do que apontar os dedos para o tom utilizado em seu escrito. Especialmente porque é difícil julgar um tom de maneira isenta. Alguém que está emocionalmente envolvido com determinado tema pode sentir-se ofendido por um determinado tom, enquanto o mesmo pode ter sido percebido como neutro por outros leitores.

Então, se a pior coisa que você pode dizer a respeito de algo é criticar o seu suposto tom, então você não está dizendo muito. O autor é rude, porém correto em seus argumentos? Melhor isso do que ser grosseiro e estar errado. E se o autor está errado em alguma afirmação, aponte onde está o erro e refute.”
Mais sobre a Hierarquia do desacordo de Graham no Bule Voador.
8th of May

Vulnerável como um filósofo na savana: Plantinga tenta atacar ateísmo com evolução


Autor: Eli Vieira

O filósofo cristão Alvin Plantinga elaborou mais um argumento contra o naturalismo/materialismo ateu, porque parece que os anteriores não adiantaram. Ele alega que a teoria da evolução e o naturalismo são como “água e óleo”. Ele lembra, corretamente, que a maior parte dos cientistas atualmente é naturalista, inclusive os biólogos (“biólogos evolucionistas” é algo já meio pleonástico), mas parece que esses cientistas sofrem de algum mal cerebral terrível, por serem ao mesmo tempo evolucionistas e naturalistas, quando as duas posições são logicamente incompatíveis entre si, coisa que, obviamente, somente iluminados como Plantinga são capazes de enxergar.
Você pode ler tudo o que ele diz no blog Coletivo Ácido Cético. O filósofo parece imitar seu colega também cristão William Lane Craig, ao alegar que a maioria dos cientistas são irracionais. No caso de Craig, como mostrou o filósofo Michael Martin quase 15 anos atrás, a implicação lógica de sua epistemologia do Espírito Santo é que a maior parte da humanidade é irracional ao nível dos zumbis. Isso não impede, é claro, que Craig continue repetindo os mesmos argumentos até hoje. No caso de Plantinga, a implicação é que a maior parte dos cientistas é mais irracional que uma cobra comendo o próprio rabo.
O argumento de Plantinga pode ser resumido no exemplo que ele mesmo usou, do sapo que captura uma mosca. Em termos evolutivos, argumenta ele, é tão vantajoso evolutivamente (ou seja, adaptativo) que o sapo creia que a mosca seja mesmo uma mosca quanto que ele creia que a mosca é uma pílula capaz de transformá-lo num príncipe. O que interessa para a evolução é que o sapo que capturar a mosca terá vantagem em sobrevivência e reprodução. Se a seleção natural não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do sapo, também não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do nosso cérebro primata, tornando improvável que uma crença no naturalismo seja verdadeira, pois as nossas capacidades cerebrais teriam sido moldadas pela evolução de qualquer forma como estão, ainda que todas as nossas crenças fossem falsas (Plantinga até ensaia um cálculo de probabilidades, extremamente questionável, mas não vou me dar ao trabalho de atacar isso). Em poucas palavras, a evolução são sabe o que é a verdade, porque a verdade não interessa para as chances de sobrevivência e reprodução.
23rd of November

Nietzsche segundo Russell e Heidegger