17th of December

Os novos carolas Como ativistas irracionais prejudicam suas causas


Uma moça foi contratada para posar de maiô junto a móveis de aço inoxidável, na publicidade de uma empresa que os vende. Em resposta, por considerarem isso errado, muitos ativistas atacaram a página em bando, chamando por avaliações baixas para a página e em consequência a empresa inteira. A empresa, muito espertamente, fez uma campanha nova oferecendo doar somas cada vez maiores a uma associação de deficientes conforme a avaliação de sua página subir, em reação às avaliações dos ativistas.

Algo similar aconteceu em Londres, quando em 2015 uma empresa que vende shakes de proteína botou no metrô uma campanha com uma modelo usando um biquíni amarelo, acompanhada de uma pergunta: “você está com o corpo pronto para a praia?”. Centenas de reclamações choveram sobre a autoridade responsável por regular anúncios no metrô, e o anúncio acabou sendo retirado por isso. Em resposta, a empresa foi a um país com mais liberdade de expressão publicitária, Estados Unidos, e simplesmente botou o mesmo anúncio na Times Square. A empresa ganhou popularidade e suas vendas aumentaram. Algumas outras marcas, também espertas, embarcaram na controvérsia, com imitações mais simpáticas às crenças dos ativistas. Mas a estrela acabou sendo a empresa que provocou a ira dos ativistas.

Muitos desses ativistas são incapazes de articular o que exatamente está errado, e são só seguidores de uma onda ideológica que se analisada de perto por sociólogos pode revelar como surgem novos tabus (religiosos), como o tabu bíblico contra tecer panos misturando fibras diferentes. Alguns poucos, no entanto, tentam explicar seu ultraje. Alguns dizem que diz respeito à imagem corporal, que há pessoas cuja auto-imagem depende bastante do que está na mídia popular, e que falta de sensibilidade com essas pessoas pode criar ou piorar problemas como a anorexia nervosa. Já ouvi também a alegação de que se trata de “objetificação” sexista, que causa ou piora o estereótipo de que mulheres devem ser valorizadas pela aparência acima de tudo.

Embora haja um ou outro ponto justo nisso, há pouca coisa que se aproveite nessas tentativas de justificação. Quem acha que a responsabilidade do cuidado a anoréxicos, bulímicos e vigoréxicos está na mídia é culpado de futilidade. O problema das pessoas que se deixam influenciar tão profundamente por mídia popular é principalmente falta de repertório cultural, falta de desligar a TV e deslogar do Facebook. É de impressionar como hoje as pessoas ficam comentando assuntos superficiais, como Tilda Swinton ser escalada para interpretar um personagem que nos quadrinhos é um homem asiático velho e sábio (outro estereótipo), como se estivessem libertando Mandela da cadeia ou repetindo o feito heroico de Rosa Parks. Desculpem-me os ativistas (ingenuidade minha achar que está sobrando nuance para me desculparem por qualquer coisa, eu que já sou difamado com todo tipo de adjetivo), mas eles deveriam baixar a bola: estão apenas comentando assuntos que em última análise são apenas passatempos para a maioria das pessoas, em que elas se engajam por futilidade. Se isso é ativismo, é uma forma inferior de ativismo.

É estranho também dar o nome “objetificação” ao problema, quando é fato que nossos corpos são objetos e o tempo todo fazemos uso desse objeto: se você utiliza os serviços de um motorista do Uber, você está “objetificando” o corpo dele para se deslocar de um ponto ao outro. Mulheres não são crianças, se elas trabalham o próprio corpo ao ponto de alugá-lo para a publicidade (e por mais que seja irracional, funciona), estão “objetificando” a si mesmas, e todos os envolvidos estão ganhando alguma coisa: elas estão sendo pagas, as empresas estão fazendo sua publicidade. Nada que ativistas disserem vai reduzir a soberania de mulher bonita ou homem sarado nenhum sobre seus próprios corpos, e corpos são objetos. Negar a realidade alegando que não existe atratividade intrínseca em certos tipos de corpos mais que em outros só piora a mensagem e só faz com que pareçam mais loucos ainda. A mídia existe por causa da sociedade e por causa do que as pessoas são, há muito pouco que a mídia de fato pode fazer para mudar o que as pessoas já consideram atraente. No máximo, ondas ideológicas podem convencer um certo setor da população a se engajar em ilusão coletiva alegando que obesidade mórbida é tão atraente quanto a média dos corpos.

Muitos dos ativistas não estão vendo, mas já são os novos carolas. São os novos moralistas que, devido a seus tabus injustificados, mais e mais pessoas consideram divertido ofender (e é tão fácil ofendê-los!). Muita gente fã de telenovelas adora ver a personagem carola se dando mal: da Perpétua em “Tieta” ao inquisidor em “A Muralha”. Continuem assim, que logo a cultura vai usar o arquétipo do ativista irracional, ofendido por tudo, nas novelas, séries e filmes brasileiros (se é que já não usaram – eu lembro de rir em “Tropa de Elite” dos estudantes rococós pomposos falando de Foucault). Estereótipos não surgem do nada. Se ativistas estão sendo estereotipados assim, é porque mais e mais ativistas que se comportam assim são visíveis. E, como já sugerido em pesquisa empírica*, o estereótipo do ativista raivoso e irracional, que nem mesmo explica o porquê de tanta ira, serve para prejudicar as próprias causas que ativistas tentam defender. Tentam, mas falham frequentemente, tudo porque sucumbem ao pensamento de manada, e estão mais interessados em abusar da ferramenta de avaliação do Facebook do que em discutir adequadamente ou ensinar alguma coisa. O caso é que não se pode ensinar o que não se sabe. Tabu e ultraje moral estão correlacionados com ignorância, não com conhecimento.

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* Bashir, Nadia Y., et al. “The ironic impact of activists: Negative stereotypes reduce social change influence.” European Journal of Social Psychology 43.7 (2013): 614-626.

25th of June

Izquierdo tem razão, psicanálise é obsoleta E é um desperdício de recursos que prejudica autistas e suas famílias


Há algumas semanas, sonhei que minha mãe molestava minha irmã. Não comentei a respeito com elas, não me preocupei com isso, e teria esquecido se não estivesse numa semana com sonhos particularmente vívidos. Graças à Santa Mielina, não houve detalhes gráficos no pesadelo, apenas algumas cenas da minha irmã reclamando do problema e eu me chocando (no sonho) que nossa mãe católica e amável fosse capaz de uma coisa tão abominável. Mas ela não é – foi apenas um pesadelo besta. Não li grandes mistérios por trás disso.

Durante o meu dia, é comum que eu pense em quebra-cabeças éticos. Disputo a crença de muita gente de que emoções são necessárias para a moralidade, e o incesto é um exemplo interessante pois incita na maioria de nós uma forte repulsa (anedoticamente, parece que a repulsa é mais forte em quem tem irmãos do que em filhos únicos, o que faz sentido dada a raiz biológica do tabu do incesto), enquanto é possível imaginar situações em que não é errado, no sentido de não gerar consequências negativas para ninguém. Ou seja, embora tenhamos sentimento de repulsa, ele não é suficiente, e talvez sequer necessário, para o julgamento moral de toda situação que envolve incesto (lembre-se, aqui, que nem todo incesto envolve abuso sexual de menores). Outro exemplo de que emoções são divorciáveis da conduta ética está num experimento mental que propus: imagine que uma criança precisa ser operada para não morrer de apendicite, e o cirurgião é um psicopata com prazer em abrir pessoas. Os sentimentos ruins a respeito de um sádico cortando uma criança por prazer – medo, repulsa, nojo – precisam ser deixados de lado para salvar a vida da criança – o que será feito pela consideração racional dos riscos e benefícios. Essas emoções não são nem necessárias nem suficientes para decidir o que é melhor para a criança, podem até atrapalhar. O melhor desse experimento é que posso informar que o cirurgião psicopata realmente existe e vive no nordeste brasileiro. Fui comunicado da existência dele por uma amiga em comum. É um ótimo cirurgião. A família notou cedo que ele tinha prazer em desmembrar animais e o direcionou para a medicina, redirecionando os impulsos que poderiam ter gerado sofrimento no mundo para salvar vidas. Ele não teve problema em se acostumar a ver pessoas abertas e ensanguentadas, como outros cirurgiões têm em início de carreira. E ele, é claro, tem a racionalidade para julgar suas ações, e o fato de que psicopatas podem ser éticos reforça minha hipótese de que as emoções (das pessoas comuns) não são necessárias, ou suficientes, para a moralidade.

No dia em que tive o pesadelo, pensei na minha família e pensei em incesto em momentos distintos, e na hora de consolidar as memórias do dia meu cérebro juntou as duas coisas, num emaranhado maluco com um enredo sem pé nem cabeça, o que é uma descrição sucinta da maioria dos sonhos, especialmente os que ocorrem nas fases de movimento rápido dos olhos, que têm probabilidade mais alta de serem lembrados. Enquanto o enredo dos sonhos não faz muito sentido – o que em si é um sinal de que os sonhos estão ligados à consolidação das memórias em fases específicas do sono – faz sentido que família e incesto sejam memórias ligadas por contexto, e nossas memórias têm essa característica: em vez de serem catalogadas como a memória do computador, são armazenadas de acordo com a co-ocorrência contextual. Devo acrescentar que a cena do pesadelo acontecia na casa em que passei a maior parte da minha infância, o que informa aos neurocientistas que se trata de memória episódica antiga sendo reconsolidada e acomodada de acordo com memórias mais recentes. Com essa informação, os neurocientistas conseguem até prever com certo grau de precisão em que fase do sono eu tive o pesadelo, e que, como foi na fase final do sono, de manhã, tem algo a ver com os efeitos da concentração crescente do hormônio cortisol no hipocampo, como discutem, por exemplo, Jessica Payne e Lynn Nadel numa revisão de 2004.

Mas, segundo psicanalistas, eu deveria ter lido alguma coisa mais “profunda” que uma mera consolidação  de memórias do dia nesse pesadelo. Por que um homem gay como eu sonharia com uma coisa desse tipo? A psicanálise não concluiria nada sobre minha mãe e minha irmã com esse pesadelo, espero, embora psicanalistas pareçam ser particularmente obcecados com “complexos” incestuosos. Antes, concluiria algo sobre mim. Com que métodos? Adivinhação e evidências anedóticas.

Foi justamente na obra “A Interpretação dos Sonhos” (1899) que Sigmund Freud começou a propor sua teoria do “complexo de Édipo”. Que podemos resumir assim: toda criança tem atração sexual pela mãe, pelo pai, ou pelos dois. Segundo Freud, os sonhos existem para que o inconsciente encontre uma forma de realizar nossos desejos mais íntimos. Segundo os psicanalistas, meu sonho quer dizer que eu, que acho Henry Cavill extremamente atraente, desejo ver envolvimento lésbico entre membros da minha família. Você deve estar brincando, Dr. Freud! Isso, à luz do que sabemos graças à neurociência e ciências cognitivas, é um disparate pseudocientífico, e deve ser tratado como tal.

É claro que os psicanalistas modernos alegarão que estou fazendo um espantalho da sua “teoria” (que mal merece o status de hipótese), embora tudo isso que eu disse esteja em Freud e em muitos de seus defensores modernos. Farão um esforço de reinterpretar meu pesadelo de uma forma que faça mais sentido e soe menos como um disparate pseudocientífico. Mas esse não será um exercício de pesquisa e de mudança de opinião com base em novas evidências coletadas: será um exercício de construção de epiciclos. Quando os astrônomos ptolomaicos antes de Kepler tentavam insistir que a órbita dos planetas era perfeitamente circular, por um viés estético herdado de Platão e Aristóteles, eles tentavam explicar as anomalias na órbita observável dos planetas com a introdução de círculos no topo dos círculos de translação em torno da Terra (pois acreditavam no geocentrismo): os epiciclos. Alguns botavam tantos epiciclos hipotéticos na órbita dos planetas que os cálculos ficavam quase impossíveis de verificar, então poderia ser verdade que só há círculos na órbita dos planetas, e isso é tudo o que importa. Para muitos psicanalistas de hoje, o que importa é que a psicanálise poderia ser verdade, não que ela não parece ser verdade de acordo com as evidências coletadas por cientistas. Alguns chegam a abandonar o barco das pretensões científicas da psicanálise, alegando que psicanálise jamais se pretendeu ciência (o que é revisionismo histórico conveniente), ou se juntam ao comboio amalucado dos pós-modernistas, construindo frases sem sentido como essa:

“A psicanálise não se propõe a disputar com a ciência o lugar de portadora da verdade, mas interroga os efeitos que têm sobre nós, sujeitos humanos, as palavras e discursos que nos constituem – que são necessários, porém sempre insuficientes para dar conta de nossa experiência.” – Paulo Gleich no Sul 21.

Em primeiro lugar, como se interroga algo sem pretensão de portar a verdade, especialmente quando o intuito é lidar com os problemas psicológicos de um indivíduo? Devo assumir, então, que se eu me deitar no divã do Paulo Gleich não devo esperar resposta quanto a ser verdade ou inverdade que estou estressado, quanto a ser verdade ou falsidade que preciso de um namorado, etc.? Além disso, quais são as palavras e discursos que me constituem? Essas que estou escrevendo agora me constituem? Se eu rejeitá-las ou esquecê-las amanhã (certamente durante um sonho em que o Scooby Doo sodomiza o Scrappy Doo), deixarão de me constituir? As coisas que Gleich disse são um exemplo clássico do que Harry Frankfurt descreveu como “bullshit”.

São também exemplo de algo que aconteceu justamente pela falha da psicanálise em se manter de pé diante do avanço das ciências rigorosas do cérebro e da mente: uma fuga para o dadaísmo conceitual, em que verdade, objetividade e outras facetas da razão são coisa de gente “ingênua”, provavelmente gente ingênua que deseja charutar seus progenitores. Muito se discute sobre Freud (num personalismo também incompatível com o proceder científico), mas, mesmo entre acusações de fraude e de tolice – quando por exemplo ele diagnosticou críticas da psicanálise como neuroses – poucos duvidam que ele tinha grande respeito pela ciência e gostaria de saber mais sobre o cérebro. Se realmente é assim, ele deve girar mil vezes no túmulo quando escuta que seu suposto discípulo Jacques Lacan alegou que o pênis é análogo à raiz quadrada de -1 (i), entre outros disparates psicanalíticos abusando da matemática resenhados em “Imposturas Intelectuais” de Alan Sokal e Jean Bricmont. Freud também se espantaria de ver a péssima influência dos psicanalistas sobre a integração social e tratamento de autistas e suas famílias, culpando os pais pelas dificuldades de neurodesenvolvimento das crianças autistas. Tudo, novamente, baseado em evidência anedótica e especulação, que, como os homeopatas, os psicanalistas preferem chamar de “estudo de caso”/”pesquisa qualitativa” e “teorização”. Enquanto isso, a genética descobre que mais da metade da variação do autismo é explicável por variantes genéticas comuns em combinações raras.

No Brasil estamos agora discutindo bastante a corrupção política. Mas ainda precisamos lidar com outro tipo de corrupção: a corrupção intelectual de comunidades dogmáticas herméticas, entre elas a da psicanálise e da homeopatia, que parasitam recursos públicos sem ter evidência da verdade de suas teorias, a um ponto tão cínico que alguns até dizem que verdade de teorias não é o que mais importa. Pois estão errados. Mais errados que o incesto.

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Não deixe de ler este texto sobre Freud e o início da psicanálise na revista Crítica.

Confira referências da minha entrevista com uma mãe de autista no post Autismo: Teoria e Prática.

Referências:

Payne, J. D., & Nadel, L. (2004). Sleep, dreams, and memory consolidation: The role of the stress hormone cortisol. Learning & Memory, 11(6), 671–678. http://doi.org/10.1101/lm.77104
Sokal, A., & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos. Rio de Janeiro: Record, 198–200.

Frankfurt, H. G. (2005). Sobre falar merda. Tradução Ricardo Gomes Quintana. Rio de Janeiro: Intrínseca.

P.S.: Aparentemente, a crítica mais comum que estou recebendo pelo texto é por dizer que “segundo psicanalistas” meu sonho seria interpretado literalmente como um desejo inconsciente meu. Eu concordo que usar a expressão “segundo psicanalistas” foi sugestivo de que algum psicanalista realmente disse isso, quando nenhum disse isso a mim diretamente. Eu apenas segui as implicações da alegação de que os sonhos são manifestações de desejos inconscientes. Desde o princípio psicanalistas propuseram interpretações convolutas de sonhos, e realmente não eram tão literais, só que eram, sim, interpretações do conteúdo dos sonhos. Essa história de que a psicanálise “rejeita a visão hermenêutica dos sonhos” (uma forma desnecessariamente complicada de alegar que não faz interpretação do conteúdo dos sonhos) é contradita pela própria história da psicanálise. Na verdade os psicanalistas insistiam em fazer interpretação dos sonhos, contanto que quase tudo virasse sexo. Até subir uma escada em sonho é interpretável como o ato sexual para psicanalistas históricos: http://criticanarede.com/freud.html Mas como eu previ no próprio texto, nenhum psicanalista de hoje admitira seguir as próprias alegações psicanalíticas sobre os sonhos para o meu sonho, e me acusariam de falácia do espantalho. O que isso mostra é mais uma faceta do caráter pseudocientífico dessa prática intelectual: o obscurantismo. Não importa se está fortemente sugerido em obras seminais da psicanálise que os sonhos devem realmente ser interpretados como manifestações de desejos inconscientes, sempre há algum epiciclo a ser levantado para manter a ideia obscura e “profunda” quando alguém tenta esclarecê-la e mostrá-la falsa. É uma estratégia comum em adeptos dogmáticos dos mais variados tipos de crenças: afirma-se algo obscuro, que se for esclarecido cai em alguma afirmação excitante mas falsa ou verdadeira porém apenas um truísmo enfadonho. Para manter a versão excitante e falsa, acusa-se quem esclareceu a afirmação obscura de falácia do espantalho e de não estudar o suficiente. O caso é que não há como estudar o suficiente. Críticos jamais serão ouvidos ao menos que parem de criticar e virem adeptos.

13th of June

Teologia do Coração Por Bertrand Russell


“Por mais ardentemente que eu, ou toda a humanidade, possa desejar uma coisa, por mais que seja necessária para a felicidade humana, isso não é base para supor que essa coisa exista. Não há lei da natureza que garanta que a humanidade deva ser feliz. Todos podem ver que este é o caso da nossa vida aqui na Terra, mas por uma guinada curiosa nossos próprios sofrimentos nessa vida são transformados em argumento para uma vida melhor no além. Não devemos empregar tal argumento em qualquer outra situação. Se você tivesse comprado dez dúzias de ovos de um homem, e a primeira dúzia estivesse toda podre, você não concluiria que as nove dúzias restantes devem estar com qualidade excelente; ainda assim esse é o tipo de raciocínio que ‘o coração’ encoraja como uma consolação para nossos sofrimentos aqui em baixo.

Da minha parte, prefiro o argumento ontológico, o argumento cosmológico e o resto do velho estoque [de argumentos pela existência de Deus] à ilogicalidade que começou com Rousseau. Os velhos argumentos ao menos eram honestos: se válidos, provavam seu ponto; se inválidos, estava aberto a qualquer crítico prová-lo. Mas a nova teologia do coração dispensa argumentos; não pode ser refutada, pois não professa ter provas para seus pontos. No fundo, a única razão oferecida para sua aceitação é que ela nos permite desfrutar de sonhos prazerosos. Essa é uma razão indigna, e se eu tivesse de escolher entre Tomás de Aquino e Rousseau, ficaria sem hesitar com o santo.”

Bertrand Russell, A History of Western Philosophy. Tradução minha.

2nd of May

“Apropriação cultural”, mais uma vez


Contribuí dando entrevista para uma matéria d’O Fluminense sobre “apropriação cultural”, assunto de que já tratei aqui. Como é normal, não houve espaço para tudo o que eu disse na matéria, então reproduzo minhas respostas na íntegra abaixo.

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O termo “apropriação cultural” pode descrever o interesse de alguém de adotar elementos de uma cultura estrangeira. Mas, recentemente, foi ressignificado numa parte radical (e radicalmente errada) do ativismo como não apenas isso, mas também, adicionalmente, como algo imoral, indesejável. Esse novo conceito vem do norte do continente americano, especialmente dos Estados Unidos, onde houve uma história recente de segregação racial codificada em lei, onde pessoas ditas “brancas” e as ditas “negras” eram coagidas socialmente a se separarem.

O lema dessas políticas racistas era “separados, mas iguais”. Como muitos outros lemas, incoerente, pois se você precisa se apartar de alguém por causa da cor da sua pele, isso já presume que você não trata essa pessoa como um igual, ou seja, como alguém cujos interesses têm tanta prioridade em serem atendidos quanto os seus: afinal, quando os interesses forem os mesmos (por exemplo, o interesse de ser contratado num bom emprego), a segregação será algo que dificultará o atendimento dos interesses de uma ou ambas as partes, por isso a segregação é imoral. E essa segregação foi obliterada por lá graças a ativistas como Martin Luther King Jr. e Rosa Parks. Mandela e outros também tiveram sucesso contra o Apartheid sul-africano.

O Brasil teve uma história mal resolvida de abolição da escravidão, pois não ofereceu plenas oportunidades para os libertados, mas jamais chegou a codificar em lei essa segregação. Hoje, quem mais chama por segregação no Brasil são justamente as pessoas que reclamam de “apropriação cultural”. São as que abominam (em vez de celebrar) a miscigenação brasileira como se fosse puramente um fruto da “política de embranquecimento”.

Essa política racista de fato existiu, mas não é mais responsável pela miscigenação brasileira que outros fatos históricos sobre o país – por ter inúmeras populações nativas, por ter sido colonizado por europeus, por ter importado mão-de-obra escrava da África e semi-escrava de lugares como Itália e Japão. A política do embranquecimento veio numa época de grande ignorância sobre genética. Talvez os racistas pensassem que os genes europeus eram “mais fortes” e que “melhorariam a raça” (uma expressão racista que infelizmente ainda está na boca de alguns brasileiros) através da mistura. Mas isso é uma noção ridícula. Como sabemos hoje, quando há relação de dominância mendeliana (que não contém qualquer noção moral ou estética de “melhor” e “pior”) nos genes que participam da cor da pele, geralmente a pele mais escura é favorecida nos filhos de uniões entre pessoas de cores diferentes. Mas, por causa de um fenômeno chamado de “equilíbrio de Hardy-Weinberg”, todos os fenótipos, do olho claro à pele escura (às vezes uma coisa junto com a outra, como aconteceu com o comediante Hélio de La Peña), continuarão se manifestando nas gerações subsequentes de miscigenados. O Brasil não é um país destituído de racismo, mas a população brasileira, com sua enorme variação, é vista pelo resto do mundo como um modelo de diversidade genética (modelo porque em um mundo com menos racismo presume-se que há mais mistura dos fenótipos). E eu acho que também é um modelo de diversidade cultural em alguns sentidos. Não faz qualquer sentido tentar barrar essa diversidade alegando, como alegam as pessoas contrárias à “apropriação cultural”, que há problema em um paulista loiro usar tranças ou dreadlocks mais frequentemente associados a pessoas negras. Problema há em tentar impedir que indivíduos sigam suas preferências estéticas e se apropriem de elementos culturais de qualquer lugar. É a liberdade do indivíduo, não a identidade de grupos, o que tem prioridade na declaração universal dos direitos humanos.

Nós estamos na era genômica, ou seja, na era em que temos acesso a quase todas as informações genéticas que são parte integral do indivíduo. Digo quase todas porque, mesmo se você tiver em mãos a sequência completa do DNA de todos os seus cromossomos, haverá algumas coisas sobre a sua biologia que permanecerão um mistério, porque a pesquisa ainda não revelou o que certas partes da sequência fazem, ou porque essas coisas estão em outro tipo de codificação nas suas células (como a codificação epigenética), ou porque são resultado de acidentes de desenvolvimento e influência do ambiente. Para azar dos racistas, é quase consenso entre biológos e antropólogos físicos que raças não existem na espécie humana, então sequer faz sentido a sua tola busca por superioridades e inferioridades essenciais a grupos na diversidade humana. Alan Templeton é um dos cientistas que deram os melhores argumentos a respeito: nós temos mais variação dentro de cada um dos grupos vistos como “raças” do que entre eles, e o que se entende por “raça” parece ser mais próximo do que pode ser descrito como “subespécie” em biologia, e não há subespécies entre humanos. Poderá haver no futuro, se alguns de nós formos para outro planeta e seguirmos um curso de mudanças genéticas (inevitáveis) diferente. Nem nesse futuro hipotético em que raças existem o racismo se tornará correto.

Nós já temos pessoas que são biologicamente diferentes das outras, biologicamente menos capazes que outras de realizar certas tarefas: são os deficientes físicos. E a atitude correta é ajudá-los a superar suas dificuldades, não segregá-los. Ou seja, o racismo é incorreto mesmo se fosse verdade que raças humanas existem e que diferem em habilidades. Os racistas perderam o debate, e hoje o termo “racista” é uma arma, pois qualquer pessoa que seja rotulada de forma justa com ele na nossa sociedade irá perder certos confortos e privilégios (o que é também justo). Como toda arma, essa rotulação pode ser usada para fins escusos. E um desses é a acusação de racismo por “apropriação cultural”, que faz parte, na verdade, até de uma tentativa de ressignificar o que a palavra “racismo” quer dizer, enquanto se mantém sua marca poderosa de desqualificação. Algumas pessoas, influenciadas por acadêmicos que perderam a fé em noções como verdade, justiça, imparcialidade e individualidade, e as substituíram todas por jogos de poder, estão tentando defender que racismo não é preconceito e discriminação injusta por causa de características superficiais (cor de pele, textura de cabelo, etc.). Querem mudar a definição de “racismo” para algo que inclui “desequilíbrios de poder estruturais” na sociedade, uma linguagem propositalmente mal definida e pouco clara, para tornar impossível que grupos que não eram alvos de racismo na história brasileira possam ser vistos como alvo de uma onda de acusação racista por fazerem dreadlock em cabelo da cor e da textura “erradas”. Para quem é astuto com lógica, dada a definição clássica de racismo, atacar pessoas dessa forma, tentando, por causa de sua cor de pele, evitar que usem turbantes ou façam tranças de certo tipo, é claramente racista. Afinal, isso é tratar diferentemente as pessoas com base em sua cor de pele, em vez de com base no conteúdo de seu caráter: é fazer o contrário do que Martin Luther King aconselhou.

A intelectualidade brasileira deve resistir contra essa onda de irracionalidade neorracista nas redes sociais. O que é apenas, afinal de contas, resistir ao racismo em toda a sua diversidade – às vezes, ideias ruins também têm manifestações diversas. É trocando de máscara que ideias ruins como o racismo sobrevivem. A atitude cada vez mais comum de xingar homens negros que namoram mulheres brancas de “palmiteiros”, de fazer ataques em bando a quem usa turbante ou dreadlocks sem ser negro, é racismo e deve ser tratada como tal.

9th of April

“Objetificação” não faz sentido O conceito usado frequentemente no ativismo como justificação de tentativas de censura não resiste à análise


Ouve-se com frequência a queixa de que o emprego de mulheres com pouca roupa em peças de mídia, especialmente obras de arte popular e publicidade, seria “objetificação”. E que essa “objetificação” seria discriminação injusta do tipo sexista, por vários motivos. O termo sugere que um desses motivos é que isso desumaniza as mulheres e as transforma em objetos, ou que a objetificação incentiva que sejam tratadas como objetos. Exibir mulheres como seres sensuais seria, portanto, algo problemático.

Um exemplo comum dessas peças de mídia é a propaganda de cerveja, em que a mulher sexy é vista tomando ou servindo a cerveja. Enquanto isso, os homens são mostrados como os “agentes” da situação, os seres com quem os espectadores devem se identificar, em oposição ao ser que devem desejar junto com a cerveja. Ao menos essa é a interpretação dos críticos.

Em primeiro lugar, é importante lembrar que mulheres ganharem fama e dinheiro por serem “gostosas” é algo pelo que elas tiveram que lutar também, especialmente contra conservadores antigos, estilo beata de igreja, que acham que mulher deve ser “pura” (leia-se destituída de sinais explícitos de interesse em sexo). Esta é uma opinião comum e ainda praticada por religiosos ao redor do mundo, inclusive os que fazem pressão para que elas se escondam com véus e burcas. Uma opinião que está errada, pois termina por violar os interesses daquelas mulheres que querem dar vazão às suas libidos e às suas preferências estéticas sobre a própria aparência.

A alegação é que ser “objetificada” é pouco “empoderador”, ou seja, uma coisa que pouco contribui para que mulheres sigam seus próprios interesses livremente. Mas poucas pessoas são mais “empoderadas” que a “gostosa” famosa do momento. Se ela, uma pessoa adulta, entende a que tipo de risco está se expondo por sua escolha de carreira, mas decidiu mesmo assim aceitar o dinheiro e mostrar um pouco de decote e glúteos, por que ela deveria dar ouvidos às carolas da igreja ou às pessoas que combatem a “objetificação”? A reclamação é que não há tantos homens que se submetem a isso? Que a pressão sobre a aparência das mulheres é maior? Se ambas alegações forem verdade, é relevante notar que há profissões insalubres em que há mais homens que mulheres, e eles também aceitaram certos riscos em troca dos benefícios. Fica difícil ver, portanto, como esses problemas têm a ver com uma “objetificação”, quando boa parte das profissões que pagam bem envolvem riscos ao corpo e à imagem, e as pessoas que entram nessas profissões têm liberdade de fazê-lo, como pessoas que são, não como “objetos”.

E é estranho que o nome do suposto problema seja “objetificação”. Em primeiro lugar, quase ninguém realmente prefere um objeto a uma pessoa para sexo. São relativamente raras as pessoas que estão dispostas a ignorar completamente os atributos psicológicos das pessoas com quem querem transar, especialmente se for mais de uma vez. Pense no sadomasoquismo, por exemplo: o que excita seus adeptos são quase que completamente atributos psicológicos: há aqueles que são dominantes e aqueles que são submissos – os apetrechos são só acessórios orbitando em torno dessa atmosfera psicológica. Mesmo se as tais bonecas de sexo ficarem impossíveis de distinguir na aparência de mulheres de verdade, eu duvido que os homens heterossexuais vão preferir as bonecas a mulheres de verdade (se realmente puderem optar). A atração sexual, além de ter o elemento psicológico (automaticamente personalizante, e não objetificador), também envolve elementos inconscientes chamados popularmente de “química” (o cheiro, a atitude etc.). Levando tudo isso em conta, é falso dizer que o uso publicitário da libido masculina heterossexual em direção à figura feminina sensual é uma “objetificação”, pois eles se atraem por elas por serem pessoas de feminilidade exuberante, e não por serem objetos. Até a diversão de um adolescente que se masturba diante de um objeto como uma revista de mulheres nuas está mais dentro da cabeça dele que nos pixels das fotos que ele homenageia, está mais em imaginar seres humanos femininos. E muitas lésbicas se comportam exatamente assim.

Outro sentido possível de “objetificação” é que, ao se submeter a esse tipo de emprego, essas mulheres estariam abdicando de seus atributos mais humanos, por assim dizer, e se reduzindo ao objeto que é seu corpo. Se o que se quer dizer com “objetificação” é que o corpo é um objeto e a pessoa é mais que seu corpo, e que essas atrizes dos comerciais de cerveja são valorizadas apenas por seu corpo, a resposta contrária é que existem outros empregos em que há (presumilvemente) pouca aplicação de esforço mental e consistem mais no uso do corpo como um objeto, especificamente como um instrumento. São os trabalhos braçais, boa parte deles feitos por homens, e a enorme maioria por gente da classe baixa. São indignos? Se não são, então não é indigno usar o corpo como chamariz sexual para produtos (por mais irracional que isso pareça). Não parece ser indigno usar seu corpo como instrumento para seu ganha-pão. E sim, estou incluindo prostituição aqui.

Por fim, é preciso comentar uma alegação frequente: que a mulher “objetificada” perde sua agência, enquanto os homens héteros babões continuam sendo vistos como seres capazes. Mas essa interpretação do ato de sedução é nova. Existe outra, presente como paródia em desenhos antigos como os do Pernalonga: quem é capaz de seduzir tem muito poder, enquanto quem é seduzido é o “otário”, que se deixa abusar. Certamente uma interpretação com sua contraparte verdadeira acontecendo no mundo. A verdadeira parte hipossuficiente da sedução, nessa interpretação, é o seduzido. Essa é uma verdade imemorial que nossos tempos querem negar. Por que? Porque o poder de seduzir dessa forma poderia ser tipicamente feminino, ainda que tenha suas contrapartes masculinas, e muitas feministas querem negar que homens e mulheres são em média naturalmente diferentes e não há problema necessário nisso. A equidade está em poder perseguir seus interesses sem amarras, até o de ficar rica por ser gostosa. Por dogmaticamente negar que homens heterossexuais são factualmente diferentes de mulheres heterossexuais especialmente na manifestação da libido, essas feministas precisam alegar que a mulher gostosa na propaganda não é um recurso que a publicidade naturalmente usaria quando seu público alvo tem um excesso de homens heterossexuais. O problema em fazer isso, com um conceito mal construído de “objetificação”, é que essas feministas estão se aproximando daqueles religiosos conservadores na finalidade, mesmo que não nas premissas.

Há sexismo nessas peças de mídia? Pode ser que sim, mas não por causa da “objetificação”. Demonstrar que o sexismo está ali é mais difícil que isso. Na dúvida, ficamos do lado da liberdade, não no lado que quer banir e censurar.

30th of January

O pior texto do meu blog Um exercício de falibilidade e revisão crítica de opinião


29th of January

Aborto e Vida


Detesto quando começam uma discussão sobre ‪aborto‬ falando em “vida”. É como ver alguém tentando reinventar a roda, mas criando uma coisa quadrada que não realiza a função da roda com a mesma eficiência.

A discussão do aborto não é uma discussão sobre o que é vida. É uma discussão sobre o que é vida humana. E termos mais claros existem: é uma discussão sobre o conceito de pessoa. Há condições necessárias para uma entidade ser uma pessoa, e estar vivo certamente é uma delas. Mas estar vivo não é uma condição suficiente para definir uma entidade como pessoa. Um pé de alface está vivo mas não é uma pessoa. Outras condições então devem ser investigadas ou descobertas para sabermos o que faz uma pessoa ser uma pessoa. Não que nós precisemos de um conceito científico completo de pessoa – essa é uma tarefa hercúlea e em curso há milênios, e não estará completa tão cedo. Só precisamos de um conceito de trabalho, no caso, um conceito legal de trabalho, para que possamos decidir corretamente em questões morais e legais, respeitando o princípio de defender o direito à vida, que é um direito fundamental do qual gozam as entidades do mundo que chamamos de pessoas.

A minha resposta até o momento é que uma pista está em como tratamos os casos de morte cerebral. Nós sabemos que um paciente com morte cerebral e mantido por aparelhos está vivo, mas num certo sentido deixou de ser uma pessoa. Não que nós sejamos desrespeitosos para com ele e achemos que ele é uma coisa e que pode ser tratado com o grau de negligência com que tratamos objetos quaisquer, como cascas de banana. Nós não fazemos isso com cadáveres, por boas razões. Então também não faríamos com alguém que teve morte cerebral. Mas nós permitimos que as famílias decidam, se assim quiserem, desligar os aparelhos e doar os órgãos desse paciente. O paciente com morte cerebral é vivo, mas nós não aplicamos a ele a proteção que aplicamos a pessoas, então isso quer dizer (embora não o digamos com todas as palavras por respeito) que ele perdeu o status de pessoa. Há portanto algo na atividade cerebral que faz de um ser humano vivo uma pessoa. A atividade cerebral parece ser uma condição necessária para fazer uma pessoa. Se isso se aplica a pacientes em hospitais, por que não se aplica a fetos?

“Dividir os seres humanos em raças distintas, com base num erro científico, pois poucos países possuem raças verdadeiramente puras, só pode levar a guerras de extermínio, a guerras ‘zoológicas’, se me permitem, análogas àquelas encontradas entre espécies diversas de roedores ou mamíferos carnívoros. Isso seria o fim daquele fértil amálgama que chamamos de humanidade, que é composto de muitos elementos, todos eles necessários. Vocês levantaram uma nova bandeira política no mundo para substituir o liberalismo; essa sua política etnológica e arqueológica vai lhes matar.”*

Esta citação visionária é de Ernest Renan (1823–1892). Antecede as grandes guerras e faz uma previsão acertada.

Antes, Renan era favorável às ideias nacionalistas de “sangue e terra” que surgiram como reação aos universalismos dos iluministas, especialmente os mentores da Revolução Francesa. Quando veio a guerra franco-prussiana e a anexação da Alsácia-Lorena justificada por intelectuais dos dois países como justa por causa da identidade cultural germânica dos alsacianos, mesmo à revelia deles próprios, Renan retornou aos valores de cidadania iluministas que enfatizavam a vontade e o contrato implícito de indivíduos autônomos em vez de uma subserviência deles a forças históricas associadas à cultura e à língua. Ainda hoje no meio intelectual há quem enfrente essas ideias e ponha em dúvida o indivíduo racional abstrato como ideia de cidadão, enfatizando interesses maiores, supostas forças históricas e culturais, por exemplo quem ataca a ideia de direitos humanos com relativismo cultural. A pureza racial foi substituída pela pureza cultural. Estou com Renan nessa e considero essas ideias perigosas.

* Apud Alain Finkielkraut. The Defeat of the Mind. Columbia University Press. 1995.

26th of January

Santos Morais Por que a santidade moral não é desejável


por Susan Wolf 

 Não sei se existem santos morais. Mas se existem, fico feliz por nem eu nem aqueles com quem mais me preocupo estarmos entre eles. Por santo moral estou me referindo a uma pessoa cuja totalidade de ações é tão moralmente boa quanto possível, isto é, uma pessoa que é tão moralmente digna quanto se pode ser. Embora em breve eu vá reconhecer a variedade de tipos de pessoas que poderiam satisfazer essa descrição, parece-me que nenhum desses tipos serve como um ideal pessoal inequivocamente convincente. Em outras palavras, creio que a perfeição moral, no sentido de santidade moral, não constitui um modelo de bem-estar pessoal pelo qual seria particularmente racional ou bom ou desejável para um ser humano lutar.

Fora do contexto da discussão moral, isso vai parecer para muitos uma coisa óbvia. Mas, dentro desse contexto, a conclusão, se for aceita, será aceita com algum desconforto. Pois, dentro desse contexto, geralmente é assumido que se deve ser tão moralmente bom quanto possível e que os limites que há para a impressão da moralidade sobre nós são delimitados por facetas da natureza humana das quais não devemos nos orgulhar. Se, como eu acredito, os ideais que são deriváveis do senso comum e das teorias morais filosoficamente populares não apoiam essas presunções, então algo tem de mudar. Ou precisamos mudar nossas teorias morais de formas que as façam gerar ideais mais palatáveis, ou, como discutirei, precisamos mudar nossa concepção do que está envolvido na afirmação de uma teoria moral. (…)

[O santo moral] terá os valores morais comuns em um grau incomum. Será paciente, ponderado, equilibrado, hospitaleiro, caridoso tanto no pensamento quanto na ação. Ele terá grande relutância em fazer julgamentos negativos de outras pessoas. Terá cuidado para não favorecer algumas pessoas sobre outras com base nas propriedades que elas não poderiam não ter.

[S]e o santo moral está devotando todo o seu tempo a alimentar os famintos, curar os enfermos e arrecadar dinheiro para a Oxfam, então necessariamente ele não está lendo romances vitorianos, tocando oboé, ou melhorando suas habilidades no tênis. Embora nenhum desses interesses ou gostos na categoria contendo essas atividades possa ser alegado como sendo um elemento necessário numa vida bem vivida, uma vida na qual nenhum desses possíveis aspectos de caráter são desenvolvidos pode parecer uma vida estranhamente estéril. (…)

Por exemplo, uma inteligência cínica ou sarcástica, ou um senso de humor que aprecia esse tipo de inteligência nos outros, requer que se tome uma atitude de resignação e pessimismo para com os defeitos e vícios a serem encontrados no mundo. Um santo moral, por outro lado, tem motivo para tomar uma atitude oposta a isso – ele deve tentar ver o melhor nas pessoas, dar-lhes o benefício da dúvida tanto quanto possível, tentar melhorar situações desagradáveis enquanto houver qualquer esperança de sucesso.

Um interesse em algo como a cozinha gourmet será, por razões diferentes, difícil para um santo moral aceitar de bom grado. Pois parece-me que nenhum argumento plausível pode justificar o uso de recursos humanos envolvidos em produzir um paté de canard en croute contra fins beneficientes alternativos possíveis para os quais esses recursos poderiam ser aplicados. Se há uma justificação para a instituição da alta cozinha, é uma que depende da decisão de não justificar cada atividade contra alternativas moralmente benéficas, e essa é uma decisão que um santo moral jamais faria. (…)

Um santo moral precisará ser muito, muito gentil. É importante que ele não seja ofensivo. A preocupação é que, como resultado, ele terá de ser enfadonho, ou sem humor ou sem graça. (…)

Parece que, quando observamos nossos ideais para pessoas que atingem variedades não-morais de excelência pessoal em conjunto com ou coloridas por alguma versão de alta tonalidade moral, procuramos nos nossos baluartes de excelência moral por pessoas cujos feitos morais ocorrem em conjunto com ou são coloridos por alguns interesses ou características que têm uma baixa tonalidade moral. Em outras palavras, parece que há um limite para quanta moralidade podemos aguentar.

***

Leia o artigo completo, em inglês, em:
Wolf, Susan. “Moral saints.” The Journal of Philosophy (1982): 419-439.
http://philosophyfaculty.ucsd.edu/faculty/rarneson/Courses/susanwolfessay1982.pdf

13th of September

Neerja Bhanot e o sentido da vida


5 de setembro de 1986, 5 da manhã. O vôo 73 da Pan American, vindo de Mumbai, pousa em Karachi. É um Boeing 747-121 com 360 passageiros. Os planos de continuidade do vôo após essa escala são interrompidos, uma hora após o pouso, quando quatro palestinos armados tomam controle da aeronave. Eles estavam disfarçados de seguranças do aeroporto de Karachi e traziam rifles, pistolas, granadas e explosivos plásticos; usaram também uma van disfarçada de veículo de segurança para embarcar no avião. Há duas hipóteses para os planos dos terroristas: sequestrar o avião para buscar prisioneiros palestinos no Chipre e em Israel, ou usá-lo como arma, à maneira do 11 de setembro de 2001, contra Israel.

Eles entram dando tiros com arma automática. É aí que entra em ação Neerja Bhanot, uma das comissárias de bordo. Talvez foi ela o membro da tripulação que alertou piloto, co-piloto e um engenheiro de vôo, que logo fugiram por uma porta da cabine. Com essa manobra, os terroristas são forçados a ficar em solo e negociar com a polícia.

Safarini, o líder dos terroristas, exige que o piloto volte, caso contrário atiraria em Kumar, um cidadão americano. Dá 15 minutos aos negociadores. Impaciente com a demora, cumpre a ameaça na frente dos passageiros. Kumar morre a caminho do hospital.

Os terroristas então mandam a tripulação coletar os passaportes dos passageiros. Neerja novamente pensa rápido: os passageiros americanos provavelmente serão alvos de mais assassinatos. Ela esconde uma parte dos passaportes de americanos sob uma poltrona, e joga o resto numa conduta de lixo. O plano parece funcionar, pois Safarini escolhe um britânico, Michael Thexton para ir até o local onde havia executado o americano. O terrorista conversa com o britânico, num aparente lampejo de humanidade diz que não gosta de toda essa violência, mas que era forçado a fazer isso por causa da atuação dos americanos e israelenses na Palestina (o que torna provável que se Thexton fosse americano, teria sido executado). Em vez de executado, o britânico é mandado de volta ao seu assento.

Durante a espera de uma decisão, uma aeromoça arranca instruções para a abertura de uma porta de emergência, bota numa revista e instrui um passageiro perto de uma dessas portas a ler a revista.

A noite cai, o avião fica sem luz, e os terroristas ficam impacientes. Reconhecendo sua derrota, mudam seus planos para um fim sinistro. Após uma oração, um deles mira num explosivo na cintura de outro, planejando causar uma grande explosão e matar todos a bordo. Por causa da pouca luz, o tiro causa uma pequena explosão, não sendo suficiente para matar a todos, nem mesmo aos terroristas. Outras pequenas explosões de granadas também acontecem, igualmente contidas pela confusão do breu. Mas as balas dos terroristas começam a matar os passageiros. Os planos da tripulação com o passageiro próximo à porta de emergência funcionam, ele consegue com sucesso abrir a porta. Neerja se põe a ajudar os passageiros a sair do avião.

22 passageiros morreram, 150 ficaram feridos. Um dos mortos foi Neerja Bhanot. Ela se fez de escudo humano para salvar três crianças das balas dos terroristas. Ela estava a dois dias de completar 23 anos. Neerja recebeu condecorações de honra póstumas da Índia e do Paquistão por sua coragem, batendo recordes com seu gênero, idade e status de civil.

Safarini hoje está cumprindo uma sentença de mais de 100 anos numa prisão do Colorado, depois de um tempo foragido após ser sentenciado a prisão perpétua no Paquistão. Em 2010, outro sequestrador do avião foi morto por um drone americano no país.

***

Depois de alguns séculos quase esquecido, o sentido da vida foi recentemente ressuscitado como problema filosófico na filosofia analítica com o trabalho seminal de filósofos como Susan Wolf. Desidério Murcho, filósofo português e professor da UFOP, resume essas ideias lapidadas de sentido da vida como “entrega ativa a projetos de valor”. Desidério crê que podemos objetivamente saber se uma vida tem sentido ou não. Nenhum desses filósofos duvida que pessoas com atitudes heróicas como Neerja Bhanot são exemplos claros de vidas com sentido. Não é à toa que heróis atraem tanta admiração. Todos nós queremos ter sentido nas nossas vidas.

Fontes da história:
https://en.wikipedia.org/wiki/Pan_Am_Flight_73
https://en.wikipedia.org/wiki/Neerja_Bhanot
http://timesofindia.indiatimes.com/world/us/24-yrs-after-Pan-Am-hijack-Neerja-Bhanot-killer-falls-to-drone/articleshow/5454295.cms?referral=PM

Volume com trabalho de Susan Wolf e discussões dele:
http://www.amazon.co.uk/Meaning-Life-Why-Matters-University/dp/0691154503/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1442148146&sr=8-1&keywords=meaning+of+life+susan+wolf

Volume em português sobre o sentido da vida editado pelo prof. Murcho, incluindo tradução de um artigo de Wolf:
http://criticanarede.com/viverparaque.html