13th of June

Você tinha razão: honestidade intelectual e falibilidade na prática Um pequeno exercício autobiográfico de mea culpa


Há menos de cinco anos, eu comecei a fazer ativamente o que muita gente recomenda da boca pra fora: ler e considerar calmamente as ideias de quem eu considerava defensor do exato oposto do que eu defendia. Não tenho total crédito por isso: colecionei amigos que estão dispostos a seguir o coelho para dentro da toca, muitas vezes mais que eu, e que puxaram o meu pé antes de entrar, me derrubando das minhas posições confortáveis e crenças sem mínima justificação.

Vamos sair do campo abstrato: eu era um típico membro da dita “esquerda progressista”. Co-fundador de uma das associações secularistas/ateias mais conhecidas da América Latina. Ousado defensor de tudo o que me parecesse verdadeiro e fosse impopular. (Talvez isso tenha a ver com a minha homossexualidade, que impôs uma necessidade de não ser o que queriam que eu fosse, e há tanto um lado bom quanto um lado ruim nisso.) Quando atraí a atenção de milhares de pessoas com uma resposta cientificamente embasada ao Silas Malafaia (da qual me orgulho), deixei claro nas redes sociais: “sou feminista, defendo o direito ao aborto, defendo os direitos dos LGBT, denuncio o racismo”, etc. Não se empolguem nem temam pela conclusão desse parágrafo: em certos sentidos, ainda sou tudo isso, mas agora com mais vergonha de sinalizar virtudes, um dos males dos nossos tempos: muita sinalização, pouco trabalho.

Claro, já não uso nem recomendo usar o termo “feminista”: na maioria dos casos, é uma coisa tola, pois ao adotá-lo você já está botando o foco em você mesmo(a), em vez de no diagnóstico do problema e prescrição cuidadosa e crítica das soluções (sem falar em propagar falsos problemas com estatísticas sem fonte, que são fofocas matemáticas). E, ao fazer isso, você está convidando seus instintos mais primitivos de lealdade a tribos para tomar a frente na sua imagem, apresentação e até estilo de vida, em vez de se focar em apresentar razões para o que você pensa. E, antes de você apresentar suas próprias razões, você tem a responsabilidade de não ignorar totalmente o que já foi feito no passado a respeito: fazer uma amostragem representativa do trabalho já feito não só é virtuoso, é uma norma do bom pensamento e uma marca de respeito aos seres humanos que já trabalharam no problema. Em resumo: palpitar sem estudar é outro mal dos nossos tempos, e Deus sabe, em toda a sua inexistência, que eu sou culpado disso e em eterna vigilância nos meus melhores dias. Ao menos posso dizer, sem temer exagero, que minha fase de adoção do fútil rótulo “feminista” foi marcada por mais leitura da literatura (especialmente a crítica à ortodoxia, em Daphne Patai, Janet Radcliffe Richards, Susan Haack, David Benatar etc.) do que jamais fará a maioria dos militantes virtuais da “causa” (sua verdadeira causa é com frequência a sinalização de virtudes, não problemas morais em torno dos sexos).

O mesmo padrão — foco egoico, sinalização de virtudes, tribalismo irracional — se repete em todos os outros assuntos em que se criou algum “movimento”. Boa parte dos participantes do “movimento ateu” não respeita a filosofia da religião e comete erros fundamentais, como o de alegar que ateísmo é “ausência de crença”. Uma parte influente dos participantes do “movimento negro” é — digamos sem rodeios — racista. Boa parte dos ditos defensores dos LGBT trabalham ativamente para fazer os LGBT parecerem apartados da população em geral, quando desaparecer em meio a ela era o propósito dos melhores ativistas da causa. Os movimentos fazem com a nuance e a análise o mesmo que massas justiceiras fazem com acusados de crimes como o estupro. A primeira vítima de linchamento em qualquer “movimento social” é a razão. E isso custa vidas, como os linchamentos literais: basta ver o caso do desabamento do edifício Wilton Paes de Leme este ano. As palavras “Luta” e “Movimento” aparecem no nome das organizações que ignoraram os riscos de abrigar famílias sem-teto no prédio.

Mas não estamos aqui só para criticar os movimentos sociais. Nem para dizer que o problema está só na esquerda (embora o flerte crescente com tribalismos identitários faça com que eu me pergunte se não está majoritariamente nela). Vim dar uma lista mais abrangente de assuntos em que eu errei e quem discutiu comigo é que tinha razão.

— Vegetarianismo. Já fiz até vídeo lendo e respondendo a um texto ruim que escrevi contra o vegetarianismo. Por enquanto ele fica no ar, para me lembrar da minha falibilidade e húbris. Para ver onde eu errei basta saber o fundamental sobre falácias, e para aprofundamento se digladiar com o que os eticistas dizem a respeito.

— Aborto. Aqui, eu fiz um trabalho melhor, concordando com os eticistas profissionais e debatendo cordialmente a respeito com conservadores. Mas isso não é desculpa para meus erros de substituir às vezes argumento por slogans e técnicas de propaganda. Num mundo com a enorme influência danosa das redes sociais, é fácil cair na armadilha de tentar assentar assuntos complexos com frases de efeito de 280 caracteres. Não, eu não “venci” o debate porque fiz um meme comparando fetos a nozes, mesmo que isso leve a algum raciocínio interessante. “Vencer” no sentido de dar os melhores argumentos em defesa do meu ponto de vista e sendo justo ao retratar o ponto de vista oposto — ver debates como competições por troféu é parte do que irracionaliza as pessoas. Quando debate é competição, quem sai perdendo é a verdade.

— Feminismo. Foram poucas vezes, mas eu cheguei a contrair o vírus feminista de ver sexismo em tudo e trair meu professado compromisso com evidências. Dica para quem ainda está nessa tribo: Jordan Peterson não é, evidentemente, um pensador perfeito, chega a ter algumas opiniões classificáveis como “pseudocientíficas”, mas o que ele diz sobre relações entre os sexos tem amplo apoio em evidências. É verdade que países mais igualitários desenvolvem mais diferenças entre os sexos, não menos, e que atribuir essas diferenças ao “patriarcado” é algo próximo de teorias da conspiração e criacionismo. Difamação e tentativas de assassinato de reputação não funcionarão para responder a isso. Felizmente, meus anos de identificação com o feminismo raramente incluíram esse tipo de estratégia de ataque pessoal, e há textos que produzi nesse período, neste assunto, que são bons.

— Pseudociências. Por falar nelas, eu não acredito mais numa lista que eu fiz de pseudociências de A a Z. Não é que eu tenha simpatias renovadas pelas tradições que eu busquei atacar com a lista. Todas as que eu classifiquei como pseudociências (tirando as piadas) têm mesmo problemas epistemológicos em graus variados, tanto na construção de suas proposições quanto na sua base evidencial. Psicanálise é um caso claro de pseudociência, não muito longe de casos mais claros ainda como homeopatia e criacionismo do tipo “design inteligente”, além, é claro, do construcionismo social que eu tanto menciono por ainda ser dogma em algumas áreas. O meu erro nesse assunto foi justamente ignorar a variação de graus de imprecisão ou erro em cada área, e confiar demais na minha amostragem de material de cada uma (que não é zero em nenhuma delas, em minha defesa). Esses graus de imprecisão e erro geram um espectro que vai de ciência ruim à salada verbal disparatada. Além disso, definir o que é pseudociência é muito mais difícil do que parece, especialmente para quem, como eu, não acredita que demarcar ciência é tão simples quanto Popper propôs.

— Economia. Minhas manifestações nesse assunto (praticamente ausentes neste blog) foram na maior parte cuidadosas. Responder a marxistas raivosos não é um erro e eu faria tudo novamente, pois estamos num país em que por muito tempo a propaganda ideológica transformou “liberal” em xingamento. Analogamente, também não me arrependo de ter respondido a anarcocapitalistas igualmente utópicos. Mas eu me lembro de uma ocasião específica em que eu estava errado, e o “debate” foi horrendo. Foi quando divulguei alguns poucos estudos que questionam a fibra moral das pessoas ricas, insinuando que ser rico deteriora o caráter. Não era material meu, era um cartaz que citava fontes que eu resolvi traduzir. Claro, é uma hipótese a se testar, mas até onde vi com mais cuidado, é ridícula. Talvez fosse um resquício de preconceito contra a liberdade econômica que eu — como toda pessoa criada na atmosfera intelectual largamente canhota no Brasil — tive por muito tempo até também abrir a cabeça para o enorme legado de sensatez do liberalismo e sua quase identidade com o iluminismo que eu alegava defender por inteiro. Neste caso em específico, a pessoa que se encarregou de me responder fez um trabalho pior que o meu, degenerando nossa interação num bate-boca infantil, e um bate-boca em estilo linchamento de muitos incapazes de argumentar com um indivíduo com argumento ruim e fontes insuficientes (esse ponto da insuficiência de fontes sequer foi feito, até onde lembro). Talvez essa pessoa poderia tomar um pouco das doses cavalares de semancol que eu tomei.

Epílogo

Não percebo a lista acima como um exercício de autoflagelação (que no fim das contas seria ainda mais sinalização de virtudes). Vejo como um passo importante num processo de aperfeiçoamento pessoal, que era um dos benefícios que Kant apontava no seu projeto de esclarecimento. Uso meu próprio exemplo para que a jornada de outras pessoas talvez seja facilitada, para que sua estrada seja menos esburacada e seu comando do volante seja melhor que o meu.

5th of March

“Revista Hélade” ilustra o “Criacionismo de Humanas”


Caros editores da Revista Hélade: vocês devem ser o primeiro caso explícito de revista acadêmica que chama por artigos anunciando qual conclusão eles deverão ter.

A comparação com o “método criacionista” dessa antiga tirinha é inevitável, não só pela metodologia idêntica, mas pelo construtivismo social ser um tipo de criacionismo comum nos intelectuais da tribo política oposta à tribo política dos criacionistas tradicionais. O primeiro criacionismo é o criacionismo da Tabula Rasa.

Há muitos pontos que me chamam a atenção no seu “call for papers”.

– O pressuposto de que somente Jesus é o caminh… digo, somente na crença da construção social do gênero é que se pode combater os preconceitos. Bem, tenho evidências de que vocês estão errados nesse pressuposto, e já publicadas, se o caso da homossexualidade servir de comparação: quanto mais as pessoas acham que a homossexualidade é natural (inata em vez de adquirida), menos homofóbicas elas ficam.¹ Evidentemente, não é a utilidade de uma tese ao ativismo o que faz dela verdadeira ou falsa. Felizmente, as evidências apoiam o “essencialismo” e a “naturalização” (termo curioso, já que não se “naturaliza” o que sempre foi natural).

E não são evidências só da biologia. Também são provas históricas. O que me leva a mais um pressuposto seu, a saber,

– o pressuposto de que uma análise histórica de uma característica comportamental humana está fadada a concluir que essa característica (gênero, orientação sexual) é construção social. O historiador Rictor Norton analisou os registros da homossexualidade na Europa do início da idade moderna, especialmente Inglaterra do século XVIII, e concluiu que as evidências históricas apoiam um “modelo essencialista” da homossexualidade, em oposição ao dogma foucaultiano da “construção social”.² E se for o mesmo caso do gênero? Eu não sei ao certo, tenho minha opinião, mas, se eu fosse editor de uma revista acadêmica, eu não enviesaria uma chamada por artigos para que a conclusão que eu favoreço seja sobrerrepresentada.

– Finalmente, a sua afirmação de que é uma “pressuposição” dizer que o gênero é um “dado natural” é pressuposição sua e nada mais. Não contem com o ovo antes da galinha. Quem tira conclusões com base em fé é a igreja, não a academia.

Referências

1 – L. M. Overby. Journal of Homosexuality 2014. Trecho em tradução livre: “Aqueles que veem a homossexualidade como enraizada na biologia tendem a favorecer a extensão de direitos a gays e lésbicas.”

2 – R. Norton. “F*da-se Foucault”. Xibolete, 2018.https://xibolete.uk/foucault

29th of September

A vingança das intuições Sobre os relativismos


– Você pode alegar que não acredita em padrão de beleza, mas quando vê uma pessoa com aquela razão entre cintura e quadril, ou entre ombro e quadril, aquele timbre de voz agradável, e aquela pele saudável, sabe que fica impactado.

– Pode dizer que moral é relativa à subjetividade, à cultura e aos tempos; mas quando vê um animal sendo torturado, sente que há algo de realmente errado naquilo e se esquece de qualificar “errado para mim”, “errado para os brasileiros de século XXI”.

– Pode se pavonear de entendido e dizer que a ciência é só uma narrativa entre várias igualmente boas, que verdade é poder, que quem fala em verdade é positivista antiquado; mas quando é acusado de um crime que não cometeu, quer que a verdade objetiva venha à tona, quer que a investigação seja imparcial, neutra e melhor que meras narrativas fictícias.

Relativismos são projetos falidos, cognitivamente insustentáveis, e seus defensores não cansam de hipocritamente contrariá-los todos os dias das formas mais banais.

6th of August

O alto preço da pseudociência


“A falta de interesse pela pseudociência em alguns rincões da filosofia deriva de uma presunção tácita de que algumas ideias e teorias são tão obviamente erradas que nem mesmo vale a pena discuti-las. A pseudociência é ainda considerada por vezes demais um passatempo inofensivo de um relativamente pequeno número de pessoas com uma propensão rara à adoração de mistérios. Isso está longe da verdade. Na forma de criacionismo e seus desafios ao estudo da evolução, a pseudociência causou grandes danos à educação do público nos Estados Unidos e alhures; surrupiou bilhões de dólares na forma de medicina “alternativa” como a homeopatia; causou danos emocionais a muita gente, por exemplo, às pessoas que ouvem de místicos e variados chatlatães que podem falar com seus entes queridos falecidos. Teorias da conspiração sobre a AIDS, que são comuns em muitos países da África e até nos Estados Unidos, literalmente mataram inúmeros seres humanos ao redor do mundo. O negacionismo das mudanças climáticas, que parece ser impossível de erradicar em círculos políticos conservadores, pode até ajudar a trazer uma catástrofe global. Seitas perigosas como a cientologia, que são baseadas em sistemas de crença pseudocientíficos, continuam atraindo seguidores e causando estragos nas vidas de muitas pessoas. Fora as consequências muito reais da pseudociência, devemos dar um momento de atenção para considerar a enorme quantidade de recursos intelectuais que são desperdiçados em conter teorias em descrédito como criacionismo, homeopatia e psicanálise, sem falar na busca sem fim por evidências do sobrenatural e o incansável ativismo dos teóricos da conspiração.”

Trecho traduzido livremente de “Philosophy of Pseudoscience: Reconsidering the Demarcation Problem” de Massimo Pigliucci & Maarten Boudry (eds): http://amzn.to/2aXbLow

13th of June

Teologia do Coração Por Bertrand Russell


“Por mais ardentemente que eu, ou toda a humanidade, possa desejar uma coisa, por mais que seja necessária para a felicidade humana, isso não é base para supor que essa coisa exista. Não há lei da natureza que garanta que a humanidade deva ser feliz. Todos podem ver que este é o caso da nossa vida aqui na Terra, mas por uma guinada curiosa nossos próprios sofrimentos nessa vida são transformados em argumento para uma vida melhor no além. Não devemos empregar tal argumento em qualquer outra situação. Se você tivesse comprado dez dúzias de ovos de um homem, e a primeira dúzia estivesse toda podre, você não concluiria que as nove dúzias restantes devem estar com qualidade excelente; ainda assim esse é o tipo de raciocínio que ‘o coração’ encoraja como uma consolação para nossos sofrimentos aqui em baixo.

Da minha parte, prefiro o argumento ontológico, o argumento cosmológico e o resto do velho estoque [de argumentos pela existência de Deus] à ilogicalidade que começou com Rousseau. Os velhos argumentos ao menos eram honestos: se válidos, provavam seu ponto; se inválidos, estava aberto a qualquer crítico prová-lo. Mas a nova teologia do coração dispensa argumentos; não pode ser refutada, pois não professa ter provas para seus pontos. No fundo, a única razão oferecida para sua aceitação é que ela nos permite desfrutar de sonhos prazerosos. Essa é uma razão indigna, e se eu tivesse de escolher entre Tomás de Aquino e Rousseau, ficaria sem hesitar com o santo.”

Bertrand Russell, A History of Western Philosophy. Tradução minha.

23rd of May

Profetas da parcialidade e da irracionalidade no mundo do jornalismo Respondendo a modas irracionalistas no mundo da comunicação


Começou em 2012, talvez antes, numa palestra a que assisti. Segundo o palestrante, era “ingênua” a ideia de que o jornalismo pode ser imparcial. Naquele momento não vi muito motivo para objetar: “o especialista é ele”, pensei. Voltei a ouvir versões disso nos anos seguintes, e muitas vezes da boca de profissionais de comunicação.

Quando pressionados, alguns reformam a afirmação para dizer que jornalistas em particular é que não podem ser imparciais, em vez de varrer o jornalismo inteiro para a parcialidade inescapável. Mas isso não resolve muita coisa. Se você acredita que nenhum jornalista pode ter sucesso em ser imparcial ao menos em parte do que faz, então o jornalismo como um todo está condenado a uma disputa partidária sem fim, em que ninguém sabe se ao menos parte das notícias são verdadeiras. Aparentemente, a coisa rara de se ver nos debates públicos a respeito é quem defenda, destemidamente, a imparcialidade como algo a ser perseguido, e, mais raro ainda de se ver, quem defenda que é atingível, se estivermos dispostos a tirar a aura de santidade em torno da ideia e vê-la em coisas pequenas.

Pensemos em um fato noticioso: ou é verdade que aviões atingiram as torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, ou não é verdade. Um jornalista que afirma que isso aconteceu, porque viu com os próprios olhos ou teve acesso a fontes primárias, está sendo imparcial e verdadeiro, se a informação é verdadeira. Um jornalista que diz que o ataque aconteceu não porque fez investigação, mas porque odeia os Estados Unidos da América e teria prazer em vê-los sofrendo, está sendo verdadeiro ao noticiar o ataque, mas é parcial (ou seja, ele está certo por acidente). Se a notícia do ataque fosse falsa, no entanto, aqueles jornalistas que nos dissessem que o ataque aconteceu estariam dizendo inverdades, mas seu engano poderia ser um engano imparcial (após uma investigação errônea, mas desinteressada) ou um engano parcial (poderiam, por exemplo, estar dando essa notícia falsa por interesse de vender jornais). Ser imparcial, portanto, não significa ter sempre a verdade. Nós todos, incluindo jornalistas, somos seres falíveis e erramos. Mas podemos errar por interesse, desinteressadamente (imparcialmente), e por motivos que nada têm a ver com interesse ou desinterresse (como erros de digitação).

É aqui que fica clara a similaridade entre a investigação jornalística e a investigação científica. A cientista é um ser falível, mas ela deve buscar ser objetiva. Ela precisa estar alerta para suas próprias fontes de viés, e resistir contra elas. Se soa absurdo que um órgão regulador ou financiador de pesquisas científicas aconselhe aos cientistas que a objetividade é impossível e que não vale a pena buscá-la, é igualmente absurdo aconselhar jornalistas a desistir da tentativa de serem imparciais ao noticiar fatos. Para opiniões, já existem editoriais e artigos de colunas de opinião. Mas o propósito central do jornalismo é, sim, noticiar fatos, e jornalistas deveriam ver com certa vergonha quem acha que para ser um bom jornalista é preciso em primeiro lugar assumir um alinhamento político e buscar um veículo de alinhamento similar que publique suas notícias parciais. Quem perde com esse entrincheiramento ideológico é o público que deseja ser informado, em vez de doutrinado ideologicamente ou tratado com condescendência como se quisesse sempre ver sua cartilha e suas crenças sendo repetidas de volta para si.

Chafurdar na parcialidade é um beco sem saída. Qualquer tentativa de mostrar que alguém ou alguma instituição foram parciais em um assunto específico obriga o acusador a pelo menos tentar fazer uma avaliação imparcial da parcialidade. Do contrário, vira um jogo infinito de acusação interessada, o que parece se encaixar na “metafísica dialética” de alguns. Mas o fetiche de alguns com conflitos infindáveis não deve ser confundido com uma avaliação racional de como as coisas devem ser, ou com uma descrição de como elas são. E mesmo se a tal “dialética” for uma descrição de como as coisas são (parece que há aqui um elemento de profecia autocumprida: quem espera que discussões de ideias sejam conflitos irracionais de interesses, algo como quedas de braço de retórica, age de forma a deixar as coisas exatamente assim), isso de modo algum equivale a estabelecer que devem ser assim.

Imparcialidade, objetividade, esforço para encontrar a verdade são facetas da racionalidade. Os profetas da parcialidade, da subjetividade e do dadaísmo epistemológico são irracionalistas, e alegam estar esposando a irracionalidade em nome de si próprios, ou dos mais fracos, ou às vezes até dos mais fortes. Trasímaco, um sofista da Grécia antiga, dizia que a justiça é a perseguição dos interesses dos mais fortes. Trasímacos reversos, como Paulo Freire, alegam que a justiça está no abandono da imparcialidade e na busca dos interesses dos mais fracos – por isso alegam (por interesse?) que imparcialidade é impossível. São ambas posições absurdas e auto-refutantes: se você está sendo imparcial ao alegar que a imparcialidade é impossível, então a imparcialidade não é impossível. Se você está sendo  parcial ao alegar que a imparcialidade é impossível, sua afirmação está sendo feita por interesse e é destacada da verdade. Portanto, a imparcialidade é, sim, possível.

A falácia cometida pelos profetas da parcialidade é a “falácia do Nirvana”: que, se não há forma perfeita de fazer uma coisa, então não vale a pena nem tentar, ou não existe quem faça melhor que outros. Se marceneiros acreditassem nisso, passariam a vida sonhando com uma cadeira perfeita impossível de fazer, com ângulos e cilindros matematicamente elegantes impossíveis de atingir com toras, serras, lixadeiras etc, em vez de fazer as melhores cadeiras que pudessem. Por que então alguns especialistas em comunicação e jornalismo convenceram a si mesmos que não devem nem tentar fazer as peças mais imparciais possíveis de jornalismo? Ou que podem, sim, atingir a imparcialidade em coisas triviais como anunciar, após a melhor investigação possível, que a inflação subiu, ou que o desemprego caiu, etc.?

O que bota um proverbial último prego na tampa do caixão dessa opinião incoerente a favor da parcialidade é que a parcialidade é uma amiga da onça. Se você vai defender os oprimidos apenas por interesse, qualquer um com interesse oposto dirá que não há força nos seus argumentos para defender os pobres, que são baseados nos seus delírios pessoais e ganhos pessoais ao dizer isso, e não em razões desinteressadas. E se você pode agir de forma parcial, por que os outros, com interesses opostos, não fariam o mesmo? Qualquer defesa eficaz de oprimidos passa pela avaliação imparcial de sua opressão, para determinar que sua sina é real e não inventada, o que é um misto de investigação da verdade e argumentação ética para asseverar que essa verdade é injusta e deve ser mudada.

O resto é interesse. Ingênuo é quem acha que ser conivente ou cantar loas à parcialidade, à subjetividade e à bullshit* é algo que promoverá justiça no mundo, ou que especialistas parciais, subjetivistas e cheios de bullshit são especialistas dignos do nome. As pessoas têm interesses? Sim. As instituições têm interesses? Sim. Às vezes esses interesses ficam na frente do compromisso de ser honesto, verdadeiro, imparcial? Claro que sim. Mas até para mostrar quando e como isso acontece é preciso que quem investiga a mentira, a parcialidade e a injustiça seja alguém com interesse de buscar e atingir a verdade, a imparcialidade, e a justiça. Porque enquanto somos seres capazes de interesses, também somos capazes de pensar e proceder de formas racionais.

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* O uso da palavra bullshit (literalmente “merda de touro”, em inglês) não é para ser pedante, mas uma referência à exposição que o filósofo Harry Frankfurt fez dessa categoria de engano em um livro homônimo. Enquanto quem mente engana duas vezes: quanto ao conteúdo do que diz, e quanto ao próprio mentiroso acreditar no que está dizendo; quem “fala merda” (de touro?) não se importa se o conteúdo do que diz é falso ou verdadeiro.