1st of February

Estudei o conservadorismo com um amigo. Ele virou conservador. Eu não. Por quê?


Desde 2014 venho me informando melhor sobre o que é o conservadorismo. Roger Scruton, Edmund Burke, John Kekes e Thomas Sowell são alguns dos nomes que estudei. Um amigo que estudou comigo virou conservador. Eu não. Continuei “laconicamente” liberal. Buscarei explicar aqui o porquê, depois de uma breve discussão terminológica.

A primeira coisa que estou presumindo é que você só está realmente aberto ao liberalismo e ao conservadorismo quando desistiu de achar boas respostas na cartilha batida da esquerda que quase todo mundo conhece: igualdade acima de liberdade. Revolução acima de evolução. Trabalhadores acima de patrões (como se um jogo de soma zero capturasse completamente a natureza dessa relação). Não acredito em “posições políticas com sobrenome”: liberal conservador, conservador nos costumes e liberal na economia, esquerda liberal. Para mim, essas posições com sobrenomes, embora possam ser uma tentativa de dar nuance e variedade ao cardápio, podem ser resultado de um tribalismo estilhaçado e racionalizações sobre posições mínimas mal compreendidas e adotadas pela metade. Mas esse é outro assunto, que não será desenvolvido aqui.

O liberalismo e o conservadorismo oferecem heurísticas mentais diferentes. Heurísticas são receitas para resolver problemas que são imperfeitas, mas que as circunstâncias nos obrigam a adotar. Por exemplo: uma solução heurística para a malária seria secar todos os mangues. Funcionaria, mas não vai realmente à causa do problema, que são mosquitos infectados com o plasmódio. As heurísticas se fazem presentes especialmente quando você tem informações imperfeitas para apontar para a melhor solução, o que em política é a maior parte do tempo.

A heurística do liberalismo é priorizar um valor, a liberdade, num universo de outros valores. É maximizar a liberdade individual. Notem que é implausível que a liberdade sempre seja o valor mais importante em cada situação. É por isso que se trata de uma heurística: uma receita sujeita a erro mas que se espera que funcione na maior parte do tempo. Aqui cabe a famosa analogia conservadora contra o liberalismo: a liberdade é um cavalo que a gente monta. A montaria nada diz sobre o destino para onde devemos ir. Só defender que se tenha a montaria é insuficiente. E o conservadorismo supostamente ofereceria um norte.

A heurística conservadora é outra. Ela diz que, se você não vê razão para a existência de algum hábito, instituição ou crença, isso não significa que não existe razão nenhuma. Podem haver razões não articuladas pelos aderentes. Inovações que substituam esses hábitos, instituições e crenças, portanto, poderiam estar atropelando boas razões para que fiquem como estão. Essas inovações vêm na forma de ideias para reforma social que a heurística conservadora vê como arrogância intelectual e pressa de revolucionários. É isso que chamam de um ceticismo político característico do conservadorismo.

Ambas as heurísticas têm sua sensatez. Se sou liberal e não conservador, é porque considerei a heurística liberal melhor que a heurística conservadora. Devo dar minhas razões para rejeitar o conservadorismo, portanto.

O conservadorismo e o liberalismo ambos resultam do iluminismo (Esclarecimento). O primeiro surgiu com uma reação de Burke aos erros da Revolução Francesa, e o segundo veio das especulações de Locke e posteriores. Como indica a origem, o conservadorismo na verdade é uma receita sobre o que não deve ser feito, não um norte definido.

Por isso, não é realmente um norte para a montaria da liberdade, mas uma cerca: “Não pise para além desta cerca com seu cavalo. Lá há dragões. Coisas terríveis vão acontecer.” Essa cerca independe do terreno sendo cercado. Crenças absurdas podem ser protegidas por essa cerca.

E às vezes há dragões mesmo. Às vezes há comunismo cuspindo fogo, esperanças de engenharia social que ignoram a natureza humana, e elas não vêm apenas da esquerda, mas também de liberais (considere, por exemplo, as propostas de reforma da educação do libertário Bryan Caplan e de reforma da democracia do libertário Jason Brennan). E às vezes dá em tragédia, sim, que podemos contabilizar em dezenas de milhões de mortos só no século XX. Apesar de tudo isso, essa disponibilidade ao risco, de cruzar a cerca, ecoa com um antigo conselho: sapere aude. Ouse saber. Lema do iluminismo.

Essa disponibilidade a correr riscos é característica de um ser cognoscente que busca ser livre. Sem riscos, a razão é um mero instrumento de manutenção de estruturas herdadas cuja justificação frequentemente já foi esquecida, se existente — como quer a heurística conservadora.

Levar a razão às últimas consequências, abandonando as tradições se preciso (dentro da própria cabeça, não necessariamente recomendando isso à sociedade), é algo que lembra mais o liberalismo que o conservadorismo. O liberalismo é o filho favorito do Esclarecimento, portanto. Tanto é assim que a afirmação de que o conservadorismo e a esquerda são filhos do iluminismo é mais controversa. Alguns conservadores podem considerar que a real raiz do conservadorismo é o conhecimento de tentativa e erro acumulado nas comunidades tradicionais ao longo das gerações: um pacto entre os vivos, os mortos e os que estão para nascer, como belamente descreveu Burke; não as ideias do próprio Burke. E muitos consideram que muitas das ideias populares da esquerda são reações ao iluminismo dentro do idealismo alemão e mais tarde dentro da moda pós-moderna que hoje nos dá de presente a péssima moda da política identitária, embora outros considerem a esquerda outra filha do iluminismo, desde Rousseau, que já expressou tantas das ideias que perduram na esquerda até hoje.

Dizer que o liberalismo é o filho favorito do projeto da razão não é o mesmo que xingar conservadores de burros ou de irracionais. Não é o caso, claramente, e há muitos conservadores mais racionais que muitos liberais. Mas isso explica por que o tal ceticismo dos conservadores costuma ser apenas político e poucos deles são ateus ou agnósticos, por exemplo.

Tomemos como exemplo o Caio Coppola. É um cara inteligente, jovem, racional que está merecidamente popular entre os conservadores brasileiros. Na complexa rede de crenças dele, ele abandonou o ateísmo para abraçar um conservadorismo completo que vem com religião. E, o que é mais importante: ele confessa que os motivos dele para abandonar o ateísmo e abraçar a religião não foram racionais.

O fato de ele e outros adotarem uma “teologia do coração” (como dizia Bertrand Russell) é uma evidência a favor da minha tese: preferem a cerquinha segura, preferem não arriscar uma crença ousada como o ateísmo, e explicitamente confessam que, nesse assunto, largaram a “montaria” racional/liberal. Isso não quer dizer que os liberais são ou devem ser na maioria ateus ou agnósticos (a maioria não é), a tese é outra: liberais são mais abertos a novas ideias avançadas racionalmente, não importando tanto assim o risco delas para as tradições.

É por isso, senhoras e senhores, que eu não posso ser um conservador, por mais que critique a esquerda e respeite o conservadorismo. Estou comprometido com o ideal do Esclarecimento (e, portanto, liberdade) em todas as avenidas e vielas. Não abro exceções. Se não há que filosofar, há que filosofar. Desconfio de todas as alternativas.

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P.S.: Alguns que leram meu Manifesto Isentão podem perguntar como é que minha postura de defender abandonar os rótulos e as tribos políticas poderia ser compatível com a minha defesa do liberalismo. A resposta é que, como dito acima, o liberalismo deve ser considerado como um conjunto de ideias que resultam de uma heurística. Ainda assim, é preciso ter cuidado com a adoção do rótulo “liberal” e a participação de grupos que o adotam, pois, como eu disse no manifesto, nenhuma ideologia é imune à tribalização, que é uma tendência natural.

31st of December

Não é água, é úgua


Estamos acostumados com a ideia de que a água é H2O e apenas isso, com boas razões. Duzentos anos atrás, se você perguntasse a cientistas / filósofos naturais se a água é infinitamente divisível, muitos responderiam que sim. Hoje sabemos que as moléculas dotadas de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio são o limite do que podemos considerar água, e que, havendo divisões além disso (como na eletrólise), o resultado não será água, mas outra coisa.

Podemos dizer que H2O é o limite ontológico da água nas dimensões espaciais.

Mas podemos dizer também que ainda não sabemos tudo sobre o que é água, pois não temos teorias completas do seu comportamento em condições de turbulência. A turbulência dos fluidos ainda é uma coisa que deixa os físicos perplexos.

Sabemos mesmo, então, que água é só H2O? Essa é realmente a definição de água? Aqui não há escapatória para problemas filosóficos como a definição de definição. Teorias científicas são um esforço de definir da melhor forma possível o que são as coisas que elas descrevem. Se um ser de um universo paralelo nos perguntar o que é água, mas exigir saber como a água se comporta em condições de turbulência, passaremos alguma vergonha.

Recorro ao exemplo da água quando estou pensando em propriedades humanas como sexo, sexualidade, comportamento político, autoengano, motivações explícitas, motivações inconspícuas, valores estéticos, etc.

Façamos a seguinte analogia: dada a dificuldade de gerar agora uma definição da água que dê conta da turbulência, faria algum sentido dizer que temos sim uma definição completa de água, mas que em condições de turbulência temos outra coisa que não é água, mas “úgua”? A invenção do termo “úgua” para separar o conceito de água “bem comportada” do conceito de água sob turbulência parece uma manobra intelectual no mínimo desnecessária.

Penso que a invenção de termos como “gênero” é quase perfeitamente análoga ao que descrevi sobre a “úgua”. Temos o fenômeno sexo, que nada na biologia impede que tenha implicações comportamentais, sociais e culturais. Algumas pessoas tomam a “turbulência” das relações sociais e da herança cultural e consideram que seria melhor separar sexo de “gênero”. Eu discordo, é uma atividade intelectual que não nos ajuda a ter boas definições de sexo, que precisam tomar por completo suas dimensões “bem comportadas” e “turbulentas”.

Outras analogias são uma tentativa de separar entre orientação sexual e identidade de gênero (compreendo os efeitos didáticos, mas não está claro que é uma distinção com diferença); padrão de beleza de atração sexual e “biofilia”; enfim, todas as instâncias em que algum instinto humano pode ter expressões bem além das que os genes podem influenciar de forma direta e determinante.

A ideia por trás do problema é chamada pelos filósofos de “partir a natureza em suas juntas”, ou seja, fazer descrições que não fazem distinções inúteis com motivações políticas, ideológicas ou outras; mas apenas distinções conceituais que correspondem a diferenças reais.

28th of December

Entrevista à Vice sobre Olavo de Carvalho


Como de praxe no meu blog, publico na íntegra minhas respostas a perguntas de jornalistas, já que o trabalho deles requer usar pouco do que digo em resposta a entrevistas. Publiquei na íntegra, por exemplo, uma entrevista sobre genética do comportamento a O Diário, e outra entrevista à BBC sobre ateísmo. Agora, na íntegra, o que eu disse à Vice sobre Olavo de Carvalho. Usaram muito pouco do que está a seguir na matéria original.

VICE: Entre artigos em jornais e postagens em redes sociais, Olavo de Carvalho já acusou o evolucionismo de ser “o pai do comunismo e do nazismo” e que, ao contrário do criacionismo, “não pode ser provado, nem refutado”. Qual sua opinião a respeito? Qual dessas declarações considera a mais descabida ou sem sentido? Apontaria outra(s)? Qual(is)?

EV: É uma afirmação descabida que denuncia uma confusão fundamental entre questões de fato e julgamentos de valor (que filósofos reais não fazem), e, além disso, é uma tentativa de uso da falácia de culpa por associação para tentar desacreditar uma teoria muito bem embasada em evidências, especialmente hoje, com a genética molecular. Por muitos séculos, os marinheiros sofreram com o escorbuto, que é o resultado de deficiência de vitamina C. Durante todo esse tempo, eles carregaram genes para a produção de vitamina C no próprio corpo, mas um deles, o gene GLO, foi desligado por uma mutação. Todos os primatas antropoides carregam essa mutação, que ocorreu no nosso ancestral em comum milhões de anos atrás, e, por isso, se postos num ambiente pobre em vitamina C como uma caravela portuguesa do século XVI, também sofreriam de escorbuto. Já os cães e gatos não sofreriam, pois produzem a própria vitamina C. Evidências como essa são a razão do domínio inconteste da teoria da evolução sobre todas as ciências biológicas. Darwin jamais leu Marx, apesar de serem contemporâneos, e, como mostrado num livro biográfico chamado “A Causa Sagrada de Darwin” (Desmond & Moore, 2009), Darwin não apenas descendia de dois avós abolicionistas, como era contra o racismo e a escravidão, e portanto também seria contra qualquer outra forma de opressão racial como as premissas do nazismo. Mesmo se Darwin tivesse sido uma má pessoa, isso em nada afetaria a teoria da evolução. Se ele não tivesse nascido, a pessoa famosa por ter proposto a teoria seria Alfred Russell Wallace, co-descobridor independente da seleção natural.

Olavo também já afirmou que Darwin plagiou o próprio avô Erasmus na proposição da teoria, mas Erasmus apenas escreveu um poema chamado Zoonomia em que defendia ideias similares às do francês Lamarck, faltando ali o principal, que era a seleção natural, à qual Darwin chegou como analogia da seleção artificial de pombos, cães e outros animais domesticados. Olavo também escreveu que os biólogos de hoje consideram falsa a seleção natural. Quase sempre que fala de ciência, Olavo não sabe do que está falando. E é algo preocupante para alguém que quer ser reconhecido como filósofo, pois algum contato com a ciência é importante nesse sentido, sendo a ciência uma filha da filosofia.

VICE: Em 2006, o senhor elaborou um abaixo-assinado pela “refutação das imposturas intelectuais de Olavo de Carvalho”. Nele, diz que o colunista “trava uma batalha contra o conhecimento científico, especialmente contra a evolução biológica” e “não parece estar minimamente credenciado ou capacitado para falar de ciência”. Doze anos depois, o que mudou? A que o senhor atribui o fato de Olavo de Carvalho ser um “negacionista científico”? O que há por trás disso?

EV: Eu tinha 19 anos quando fiz o abaixo-assinado, e hoje me parece uma ideia meio boba fazer um abaixo-assinado pela refutação de erros científicos. O número de assinaturas nada faz pelos argumentos, mas ao menos mostra alguma oposição e protesto pela má escolha de colunista por parte dos jornais. Eu poderia simplesmente ter escrito cartas a esses jornais respondendo às falsidades que Olavo estava divulgando sobre ciência. No entanto, como muitos sabem, produzir bobagens demanda muito menos energia do que refutá-las, e é uma tarefa ingrata sair desmentindo cada falsidade que o professor Olavo emite no mundo. Ainda não sei se ele faz de propósito, provavelmente não, mas deveria aprender a virtude da humildade no campo da ciência.

O professor não é exatamente um “negacionista” da evolução, ele alega que é neutro a respeito da sua veracidade. No entanto, jamais chegou a mim qualquer crítica dele aos criacionistas, o que levanta dúvidas sobre esse suposto agnosticismo. Há ao menos um motivo que explica a desconfiança dele contra a comunidade científica e o mundo acadêmico em geral, que é a prevalência de opiniões de esquerda nesse meio. Segundo uma pesquisa de Mitchell Langbert deste ano, há 21 professores de esquerda na biologia para cada professor de direita nas 51 melhores universidades americanas. Nas humanidades a desproporção é ainda maior, na sociologia é 44 para 1, e zero professores de direita (Republicanos) foram achados na área da comunicação e da antropologia entre mais de 5 mil amostrados. Não creio que a biologia precise refletir a proporção de opiniões políticas da população em geral, mas a quase ausência de discordância política em áreas que formam jornalistas e sociólogos gera um problema sério, pois são áreas mais destacadas das evidências empíricas, em que a popularidade entre os colegas às vezes é o mais importante critério de julgamento da qualidade do trabalho. Olavo tem razão em se preocupar com isso, mas Jonathan Haidt e a organização Heterodox Academy fazem um trabalho melhor que ele em analisar o problema.

Não creio que não haja valor algum na obra dele; algumas coisas que ele afirma sobre uma aprovação de autoridades ao declínio nos padrões de arte e cultura me parecem corretas. Algumas críticas à esquerda que ele faz são pertinentes. Mas, se eu fosse um conservador, eu preferiria mil vezes ler Roger Scruton, Thomas Sowell, John Kekes e Burke a ler o Olavo, pois o ruído de teorias da conspiração, grosserias e ataques à ciência seria muito menor.

VICE: Considerado o mentor intelectual de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho já indicou, até o momento, dois ministros: Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores. Quais as chances de essas e outras teorias pseudocientíficas, como o criacionismo, por exemplo, serem incorporadas, aos poucos, ao currículo escolar ou, quem sabe, influenciar as decisões do futuro presidente? Por quê? 

EV: Intelectuais adoram exagerar a sua importância no mundo. Acho um enorme exagero creditar a Olavo de Carvalho alguma parte importante na eleição de Jair Bolsonaro, ao menos uma parte tão importante quanto as descobertas da Lava Jato e a recessão econômica resultante das péssimas políticas econômicas do PT, por exemplo. Sobre as nomeações, é importante ver caso a caso, se é verdade que o indicado foi indicado por competência. É importante lembrar ao presidente eleito que essa foi a promessa: nomear ministros por competência, e não por alinhamento ideológico. E parece que às vezes ele se esquece da promessa. Na minha opinião, Olavo acertou numa dessas indicações e errou na outra. Então ele geralmente tem a mesma probabilidade de acerto que o lançamento de uma moeda.

26th of December

Um YouTuber contra o Utilitarismo


Um YouTuber político da linha libertária ensina seus seguidores a xingar John Stuart Mill e o utilitarismo. Isso gerou um fenômeno curioso, que é um tabu contra essa teoria filosófica e suas filhas com uma frequência não-negligenciável nas redes sociais. Tabu pois tudo o que têm a oferecer são xingamentos, não argumentos sobre o porquê da sua desaprovação.

O utilitarismo clássico teve como fundadores, além de Mill (1806-1873), Jeremy Bentham (1748-1832) e Henry Sidgwick (1838-1900). Todos ingleses. Sidgwick é considerado o mais cuidadoso dos três nessa teoria ética, e, para variar, é o menos conhecido dos três. Os sensatos e moderados geralmente não têm sua sensatez e moderação premiada com a fama.

O que é, então, o utilitarismo (clássico)? É uma teoria metaética, ou seja, que visa a dar diretrizes sobre como chegar a conclusões morais com rigor. Essas diretrizes são que a decisão moral correta visa a diminuir a dor e maximizar o prazer para o maior número possível de pessoas. Ao conjunto dessas duas ações deram o nome “utilidade”, daí “utilitarismo”. Essa ideia pode soar plausível à primeira vista, mas leva a problemas fatais, então basicamente ninguém mais, ao menos entre filósofos, é um utilitarista clássico hoje em dia. É correto selecionar ao acaso um paciente num hospital, ou um visitante saudável que estiver passando por lá, matá-lo, extrair seus órgãos e doar para os pacientes que esperavam por transplante, maximizando a utilidade? Segundo essa teoria, parece que sim, o que conflita com nossa intuição comum de que isso é errado, e uma intuição que parece mais moralmente sólida que as invenções dos três filósofos. O que é o sentido da vida? É aparentemente um problema moral que não parece ser prontamente solucionável com a sugestão metaética de falar só em dor e em prazer. As discussões modernas do problema levam mais à proposta de que o sentido da vida tem a ver com uma “entrega ativa a projetos de valor”, como resumiu o professor Desidério Murcho.

Em certo sentido, o utilitarismo é uma ideia radical. O YouTuber se diz defensor de ideias radicais outras a favor da liberdade. O problema das ideias radicais em geral, como diz a filósofa Susan Haack, é que são na maior parte radicalmente implausíveis.

É necessária uma classificação de ideias como essa entre verdadeiras e falsas, mas às vezes isso turva o fato de que há diferentes formas de estar errado. Há erros tão grotescos que sequer são inteligíveis. Não é o caso do utilitarismo clássico, que foi um erro na direção certa. Digo isso porque, examinando a vida desses três, vê-se logo que sua teoria ou causou ou foi resultado de sua inteligência aliada à sua correção moral.

Mill famosamente foi o primeiro parlamentar a tentar estender direitos plenos às mulheres britânicas. Bentham esteve à frente de seu tempo ao propor que gays tinham liberdade de exercer sua sexualidade e que era imoral a crueldade contra animais. Quanto a Sidgwick preciso confessar que também sou afetado pela falta de fama dele e não sei o suficiente de sua vida.

Então, especialmente no caso de Mill e Bentham, vemos que, ao tentar fundar a ética sobre um alicerce secular e objetivo, eles se libertaram de preconceitos morais de suas próprias culturas e propuseram progressos bem além de seu tempo. Não propuseram o desmembramento de indivíduos inocentes em hospitais nem nenhuma atrocidade do tipo. O que tinham era uma teoria errada por ser incompleta, não errada por ser propositalmente cruel.

Em consequência, propuseram a expansão das liberdades que esse YouTuber alega querer para o Brasil. Se quer mesmo, respeite mais os utilitaristas e pare de criar uma legião de difamadores dos filósofos e da teoria.

5th of September

O que é preconceito, afinal? Discutindo o preconceito com calma e contra a irracionalidade ativista dos nossos tempos


Em tempos em que as pessoas usam a sua postura contra o preconceito como o pavão usa o rabo dele, faz-se necessário pensar com alguma precisão o que é preconceito afinal. Assim poderemos ter esperança de distinguir a preocupação genuína com justiça do mero adorno.

Essas são as definições do dicionário Priberam, mantido por portugueses e meu favorito na nossa língua (eles inventaram essa joça, então devem saber do que estão falando):

pre·con·cei·to
(pre- + conceito)
substantivo masculino
1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial.
2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objectivos. = INTOLERÂNCIA
3. Estado de abusão, de cegueira moral.
4. Superstição.

O dicionário serve para capturar o significado dado pelo uso das palavras, e isso é importante: é o uso que faz o significado. O sentido das palavras que usamos depende literalmente de um concurso de popularidade de sentidos nos contextos sociais em que as usamos. Mas, como as palavras denotam coisas que estão no mundo, e o preconceito é uma delas, raramente os significados propostos pelo dicionário são satisfatórios.

O dicionário é útil aqui, em primeiro lugar, para afastar o jeito mais preguiçoso de definir preconceito: o uso literal da etimologia. Não, o preconceito que nos interessa aqui, que é o tipo social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta, não é simplesmente “pré-conceito”, como a etimologia parece sugerir. Se fosse só isso, significaria que todas as crianças são ativamente preconceituosas, quando são só ignorantes, com uma ignorância geralmente benigna: só têm noções superficiais das coisas (pré-conceitos) até aprenderem conceitos sobre elas. A etimologia é via de regra um guia impreciso para o sentido das palavras: ao menos na matemática, “cálculo” não é uma pedrinha (sentido literal da palavra de origem no latim), embora na nefrologia ainda seja. O Priberam dá a etimologia de preconceito, como é comum em dicionários, mas não a lista como definição. No entanto, a definição 1 parece influenciada pela etimologia. Tudo bem, há frases em que usamos realmente esse sentido: “meu preconceito sobre abrir uma empresa é que precisarei de muito capital inicial”.

Perceba que já comecei a definir de que preconceito estamos falando ao diferenciá-lo da definição influenciada pela etimologia. Mas eu não precisei fazer isso antes: apostei que o primeiro sentido de preconceito que você pensou ao ler o título deste texto foi justamente o social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta. Pois é um uso comum da palavra, especialmente nos nossos tempos, e o uso — com o perdão da repetição — faz o significado.

Pois continuemos. Na definição 2, sugere-se o sinônimo “intolerância”, e que o preconceito não é baseado em dados objetivos. É aqui que começaremos a nos distanciar do dicionário. Sempre que o assunto é tratado, é comum que se diga que preconceito tem a ver com estereótipos e que estereótipos são ideias imprecisas sobre certos grupos de pessoas. Manchetes de jornal e palavras de ordem chegam a tratar estereótipo como uma coisa intrinsecamente negativa que precisa ser quebrada, talvez sinônimo de preconceito (que as definições 3 e 4 também tratam como imoral, o que discutiremos a seguir sem voltar a elas).

Um fato testado e retestado pela psicologia social é que os estereótipos são precisosO estereótipo de que meninos gostam de carrinhos e o estereótipo de que meninas gostam de bonecas, por exemplo, mais acertam do que erram: englobam a maioria das meninas e dos meninos, deixando de fora as exceções. É isso o que queremos em qualquer teoria sobre a sociedade: que seja precisa o suficiente, descreva com sucesso a maior parte do grupo estereotipado. De fato, algumas das teorias mais respeitadas na própria psicologia social não chegam ao grau de precisão dos estereótipos. Sobre a precisão deles, as pesquisas mostram outra coisa interessante: os estereótipos são estatísticas intuitivas, que as pessoas formam por sua própria experiência como coletoras intuitivas de dados. E mais: as pessoas são racionais, atualizam suas crenças de acordo com novas informações: ao saberem de informações individualizadoras sobre uma pessoa, elas geralmente deixam de julgá-la com base nos estereótipos dos grupos aos quais essa pessoa pertence. E, se virem um número suficiente de pessoas de algum grupo com informações individualizadoras que contrariam o estereótipo, ele é atualizado com as novas informações.

Evidências empíricas mostram, portanto, que não serve alegar que o preconceito é baseado sempre em informações falsas. É importante aqui lembrar que os dados são coletados pela experiência. E que os estereótipos são levados em diferentes versões em cada cabeça, se cada cabeça tiver uma experiência diferente. Mas há consensos de estereótipos e esses são os mais precisos, assim como na ciência as teorias mais corroboradas são as que nascem de consensos de diferentes áreas de pesquisa: a evolução biológica, por exemplo, é apoiada por um consenso de geneticistas, paleontólogos, zoólogos, botânicos, microbiólogos etc., com base em diferentes evidências que contam a mesma história.

Se o preconceito pode ser baseado em informações verdadeiras, qual é o motivo de tanta desaprovação? Ainda é errado ter preconceito? A resposta é sim, nessa definição revisada:

pre·con·cei·to

  1. Juízo de valor moralmente enganoso sobre informações verdadeiras ou falsas a respeito de grupos de pessoas; frequentemente acompanhado de
  2. atribuição falaciosa de causa inevitável entre características biológicas ou identitárias (falsas causas) e mau comportamento (falsa consequência); e também
  3. atitude autoritária segundo a qual um indivíduo tem o dever de se comportar em conformidade com estereótipos a respeito de grupos aos quais pertence.

Creio que assim fica claro qual é o problema de ser preconceituoso e qual trabalho as pessoas contrárias ao preconceito deveriam estar fazendo.

Qual é o problema do preconceito, em três exemplos seguindo as três partes da definição:

  1. Não é que é falso que homens homossexuais são mais “promíscuos” que outros grupos de sexualidade: quem pensa que fazer muito sexo é antiético é que tem responsabilidade de mostrar que é mesmo imoral. Se não há problema moral inescapável na quantidade de sexo que gays fazem, a condenação desse comportamento é preconceituosa: é um juízo de valor enganoso.
  2. Não é que nunca é verdade que assaltantes são negros: em determinadas áreas, esse é um estereótipo preciso para boa parte dos assaltantes. No entanto, quem acredita que a causa do comportamento de roubar as pessoas com ameaças de violência é a cor da pele e demais características raciais de pessoas negras está enganado e é preconceituoso.
  3. Não é mentira que poucas mulheres gostam de engenharia e programação. Mas isso definitivamente não é desculpa para tentar obrigar Maria da Silva, uma engenheira de software, a largar a área, ou para alegar que ela não deveria ter entrado na área. Essa atitude e essa opinião são imorais, autoritárias e preconceituosas.

Atitudes recomendáveis para combater as três facetas do preconceito:

1. Discussão moral racional do julgamento de valor enganoso, para demonstrar que é mesmo enganoso. A vida sexual agitada dos gays solteiros não parece, à primeira vista, ser imoral. Afinal, estamos falando de pessoas adultas buscando o prazer privado com consentimento. O resultado disso é mais felicidade no mundo. Do ponto de vista dessas consequências, é perfeitamente moral. Do ponto de vista da liberdade, imoral seria impedi-los. Alguém pode dizer que essa “promiscuidade” pode resultar na propagação de doenças venéreas e, a longo prazo, depressão e falta de sentido na vida por ser correlacionado com falta de sucesso em relacionamento amoroso. Há respostas para isso: há prevenção para as doenças (e no caso, imoral é quem não se previne e põe outras pessoas em risco, e o problema deixa de ser a quantidade de sexo); e há relacionamentos abertos. O debate pode continuar, e pode até ser que alguém demonstre no futuro que excesso de sexo realmente é imoral. Neste caso, o preconceito é bom? Não, pois aí teremos a parte 2 da definição: ser gay não é a causa inescapável de ser promíscuo, portanto condenar a homossexualidade junto com a promiscuidade não faz muito sentido.

2. Para combater a segunda faceta do preconceito, é necessário ter curiosidade disposição para trabalhar em achar respostas. Duas coisas muito em falta na maior parte dos ativistas. E, para ser curioso e diligente, é preciso não ter medo do autoritarismo politicamente correto, que é uma resposta errada ao preconceito. É preciso não ter medo de achar informações que confirmem estereótipos, por saber que há uma separação rígida entre descrever como as pessoas são e julgar como deveriam ser. Não há, até hoje, motivo para suspeitar que ser negro causa uma propensão ao crime (para continuar no exemplo de preconceito dado antes). Mesmo se, em hipótese, as evidências levassem para esse lado, não há motivo para pânico ou para concordar com racistas: nós já sabemos com bastante segurança que as pessoas não são autômatos de propensões e que indivíduos sempre podem decidir não cometer crimes. Para forçar mais uma hipótese, e mais mirabolante: mas e se as pessoas forem autômatos? Afinal, há filósofos que não acreditam em livre arbítrio. Neste caso, a interpretação da informação precisaria ser muito mais afastada da punição do que seria hoje. Pois, como esclareceu Kant, “dever” implica “poder”: se um indivíduo não tem capacidade de agir diferente (não tem livre arbítrio), então não faz sentido alegar que ele deveria agir diferente, muito menos puni-lo. Mas não precisamos nos perder em especulações filosóficas: independentemente da diversidade das pessoas que cometem um crime, o problema moral continua sendo o crime, não as características biológicas ou identitárias das pessoas que o cometem, que provavelmente não são as causas mais determinantes do crime.

3. A solução para a mania dos preconceituosos de alegar que você deve se comportar de acordo com algum estereótipo não é a alegação falsa e popular de que o estereótipo não corresponde em nenhuma medida à realidade. Muito menos, como também é popular entre ativistas, criar políticas autoritárias que forçam “representação” de algum grupo em algum lugar em que ele é incomum. A solução é realçar a importância da liberdade, a importância de poder agir diferente das outras pessoas. A solução é também apontar para as qualidades de quem é exótico, excêntrico, incomum. Ninguém gosta de ser só mais um na multidão, sem nada em que se destaca. Apelemos para a empatia (mania de ativista, mas fazem errado também): se o preconceituoso não é igual aos outros em relação a alguma característica dele que é incomum (e sempre tem uma), por que você não pode destoar do estereótipo? Se ela é uma enfermeira apaixonada por Fórmula 1, por que você não pode ser um gaúcho que não gosta de chimarrão?

Com a idade as pessoas perdem velocidade no aprendizado de coisas novas. Não surpreende, portanto, que geralmente as pessoas mais preconceituosas da família são as mais velhas: elas não atualizam tão bem os estereótipos com base em novas informações, e elas fazem julgamentos morais inadequados sobre esses estereótipos sobre os quais os jovens se debruçaram e pensaram melhor. Na nossa sociedade, idade está correlacionada com menos oportunidades educacionais. Também não surpreende que as pessoas menos escolarizadas costumem ser consideradas mais preconceituosas. Esses são dois estereótipos sobre pessoas mais idosas e sobre pessoas com baixa escolaridade, que — agora sem surpresa para nós — são precisos, e coincidem com as pesquisas de opinião sobre grupos como os gays ao menos no último caso.

Cito isso porque também é o estereótipo das pessoas preconceituosas: mais velhas, menos escolarizadas, talvez com algum problema mental. Pensando assim, estereotipadamente, é até possível também repensar preconceitos contra preconceituosos, e lembrar que quem tem preconceito também é um ser humano, e que as respostas ao preconceito não precisam escalar a intolerância. Se não praticaram a discriminação injusta, mas só expressaram pensamentos intolerantes, por exemplo, é justo que os preconceituosos percam seus empregos, sejam forçados a uma vida de privação, ou sejam vítimas de agressões físicas? Sendo o preconceito imoral, tudo a respeito dele deve ser também ilegal? Certamente uma sociedade em que tudo o que é imoral é também ilegal é um Estado policial opressivo. Entendendo melhor o preconceito, ficamos mais preparados para agir contra ele da forma mais eficaz e humana, sem gritaria e sem pânico.

13th of June

Você tinha razão: honestidade intelectual e falibilidade na prática Um pequeno exercício autobiográfico de mea culpa


Há menos de cinco anos, eu comecei a fazer ativamente o que muita gente recomenda da boca pra fora: ler e considerar calmamente as ideias de quem eu considerava defensor do exato oposto do que eu defendia. Não tenho total crédito por isso: colecionei amigos que estão dispostos a seguir o coelho para dentro da toca, muitas vezes mais que eu, e que puxaram o meu pé antes de entrar, me derrubando das minhas posições confortáveis e crenças sem mínima justificação.

Vamos sair do campo abstrato: eu era um típico membro da dita “esquerda progressista”. Co-fundador de uma das associações secularistas/ateias mais conhecidas da América Latina. Ousado defensor de tudo o que me parecesse verdadeiro e fosse impopular. (Talvez isso tenha a ver com a minha homossexualidade, que impôs uma necessidade de não ser o que queriam que eu fosse, e há tanto um lado bom quanto um lado ruim nisso.) Quando atraí a atenção de milhares de pessoas com uma resposta cientificamente embasada ao Silas Malafaia (da qual me orgulho), deixei claro nas redes sociais: “sou feminista, defendo o direito ao aborto, defendo os direitos dos LGBT, denuncio o racismo”, etc. Não se empolguem nem temam pela conclusão desse parágrafo: em certos sentidos, ainda sou tudo isso, mas agora com mais vergonha de sinalizar virtudes, um dos males dos nossos tempos: muita sinalização, pouco trabalho.

Claro, já não uso nem recomendo usar o termo “feminista”: na maioria dos casos, é uma coisa tola, pois ao adotá-lo você já está botando o foco em você mesmo(a), em vez de no diagnóstico do problema e prescrição cuidadosa e crítica das soluções (sem falar em propagar falsos problemas com estatísticas sem fonte, que são fofocas matemáticas). E, ao fazer isso, você está convidando seus instintos mais primitivos de lealdade a tribos para tomar a frente na sua imagem, apresentação e até estilo de vida, em vez de se focar em apresentar razões para o que você pensa. E, antes de você apresentar suas próprias razões, você tem a responsabilidade de não ignorar totalmente o que já foi feito no passado a respeito: fazer uma amostragem representativa do trabalho já feito não só é virtuoso, é uma norma do bom pensamento e uma marca de respeito aos seres humanos que já trabalharam no problema. Em resumo: palpitar sem estudar é outro mal dos nossos tempos, e Deus sabe, em toda a sua inexistência, que eu sou culpado disso e em eterna vigilância nos meus melhores dias. Ao menos posso dizer, sem temer exagero, que minha fase de adoção do fútil rótulo “feminista” foi marcada por mais leitura da literatura (especialmente a crítica à ortodoxia, em Daphne Patai, Janet Radcliffe Richards, Susan Haack, David Benatar etc.) do que jamais fará a maioria dos militantes virtuais da “causa” (sua verdadeira causa é com frequência a sinalização de virtudes, não problemas morais em torno dos sexos).

O mesmo padrão — foco egoico, sinalização de virtudes, tribalismo irracional — se repete em todos os outros assuntos em que se criou algum “movimento”. Boa parte dos participantes do “movimento ateu” não respeita a filosofia da religião e comete erros fundamentais, como o de alegar que ateísmo é “ausência de crença”. Uma parte influente dos participantes do “movimento negro” é — digamos sem rodeios — racista. Boa parte dos ditos defensores dos LGBT trabalham ativamente para fazer os LGBT parecerem apartados da população em geral, quando desaparecer em meio a ela era o propósito dos melhores ativistas da causa. Os movimentos fazem com a nuance e a análise o mesmo que massas justiceiras fazem com acusados de crimes como o estupro. A primeira vítima de linchamento em qualquer “movimento social” é a razão. E isso custa vidas, como os linchamentos literais: basta ver o caso do desabamento do edifício Wilton Paes de Leme este ano. As palavras “Luta” e “Movimento” aparecem no nome das organizações que ignoraram os riscos de abrigar famílias sem-teto no prédio.

Mas não estamos aqui só para criticar os movimentos sociais. Nem para dizer que o problema está só na esquerda (embora o flerte crescente com tribalismos identitários faça com que eu me pergunte se não está majoritariamente nela). Vim dar uma lista mais abrangente de assuntos em que eu errei e quem discutiu comigo é que tinha razão.

— Vegetarianismo. Já fiz até vídeo lendo e respondendo a um texto ruim que escrevi contra o vegetarianismo. Por enquanto ele fica no ar, para me lembrar da minha falibilidade e húbris. Para ver onde eu errei basta saber o fundamental sobre falácias, e para aprofundamento se digladiar com o que os eticistas dizem a respeito.

— Aborto. Aqui, eu fiz um trabalho melhor, concordando com os eticistas profissionais e debatendo cordialmente a respeito com conservadores. Mas isso não é desculpa para meus erros de substituir às vezes argumento por slogans e técnicas de propaganda. Num mundo com a enorme influência danosa das redes sociais, é fácil cair na armadilha de tentar assentar assuntos complexos com frases de efeito de 280 caracteres. Não, eu não “venci” o debate porque fiz um meme comparando fetos a nozes, mesmo que isso leve a algum raciocínio interessante. “Vencer” no sentido de dar os melhores argumentos em defesa do meu ponto de vista e sendo justo ao retratar o ponto de vista oposto — ver debates como competições por troféu é parte do que irracionaliza as pessoas. Quando debate é competição, quem sai perdendo é a verdade.

— Feminismo. Foram poucas vezes, mas eu cheguei a contrair o vírus feminista de ver sexismo em tudo e trair meu professado compromisso com evidências. Dica para quem ainda está nessa tribo: Jordan Peterson não é, evidentemente, um pensador perfeito, chega a ter algumas opiniões classificáveis como “pseudocientíficas”, mas o que ele diz sobre relações entre os sexos tem amplo apoio em evidências. É verdade que países mais igualitários desenvolvem mais diferenças entre os sexos, não menos, e que atribuir essas diferenças ao “patriarcado” é algo próximo de teorias da conspiração e criacionismo. Difamação e tentativas de assassinato de reputação não funcionarão para responder a isso. Felizmente, meus anos de identificação com o feminismo raramente incluíram esse tipo de estratégia de ataque pessoal, e há textos que produzi nesse período, neste assunto, que são bons.

— Pseudociências. Por falar nelas, eu não acredito mais numa lista que eu fiz de pseudociências de A a Z. Não é que eu tenha simpatias renovadas pelas tradições que eu busquei atacar com a lista. Todas as que eu classifiquei como pseudociências (tirando as piadas) têm mesmo problemas epistemológicos em graus variados, tanto na construção de suas proposições quanto na sua base evidencial. Psicanálise é um caso claro de pseudociência, não muito longe de casos mais claros ainda como homeopatia e criacionismo do tipo “design inteligente”, além, é claro, do construcionismo social que eu tanto menciono por ainda ser dogma em algumas áreas. O meu erro nesse assunto foi justamente ignorar a variação de graus de imprecisão ou erro em cada área, e confiar demais na minha amostragem de material de cada uma (que não é zero em nenhuma delas, em minha defesa). Esses graus de imprecisão e erro geram um espectro que vai de ciência ruim à salada verbal disparatada. Além disso, definir o que é pseudociência é muito mais difícil do que parece, especialmente para quem, como eu, não acredita que demarcar ciência é tão simples quanto Popper propôs.

— Economia. Minhas manifestações nesse assunto (praticamente ausentes neste blog) foram na maior parte cuidadosas. Responder a marxistas raivosos não é um erro e eu faria tudo novamente, pois estamos num país em que por muito tempo a propaganda ideológica transformou “liberal” em xingamento. Analogamente, também não me arrependo de ter respondido a anarcocapitalistas igualmente utópicos. Mas eu me lembro de uma ocasião específica em que eu estava errado, e o “debate” foi horrendo. Foi quando divulguei alguns poucos estudos que questionam a fibra moral das pessoas ricas, insinuando que ser rico deteriora o caráter. Não era material meu, era um cartaz que citava fontes que eu resolvi traduzir. Claro, é uma hipótese a se testar, mas até onde vi com mais cuidado, é ridícula. Talvez fosse um resquício de preconceito contra a liberdade econômica que eu — como toda pessoa criada na atmosfera intelectual largamente canhota no Brasil — tive por muito tempo até também abrir a cabeça para o enorme legado de sensatez do liberalismo e sua quase identidade com o iluminismo que eu alegava defender por inteiro. Neste caso em específico, a pessoa que se encarregou de me responder fez um trabalho pior que o meu, degenerando nossa interação num bate-boca infantil, e um bate-boca em estilo linchamento de muitos incapazes de argumentar com um indivíduo com argumento ruim e fontes insuficientes (esse ponto da insuficiência de fontes sequer foi feito, até onde lembro). Talvez essa pessoa poderia tomar um pouco das doses cavalares de semancol que eu tomei.

Epílogo

Não percebo a lista acima como um exercício de autoflagelação (que no fim das contas seria ainda mais sinalização de virtudes). Vejo como um passo importante num processo de aperfeiçoamento pessoal, que era um dos benefícios que Kant apontava no seu projeto de esclarecimento. Uso meu próprio exemplo para que a jornada de outras pessoas talvez seja facilitada, para que sua estrada seja menos esburacada e seu comando do volante seja melhor que o meu.

1st of June

Suicídio e Liberdade


As liberdades individuais são importantes especialmente no contexto social: de dentro para fora, em como o indivíduo se comporta para com a sociedade, e de fora para dentro, em como a sociedade interfere na vida dele. As preocupações liberais estão em maximizar o que indivíduo pode fazer em interesse próprio e minimizar as interferências sociais sobre ele que são autoritárias.

São nesses níveis que o suicídio pode ser tratado à luz das liberdades. De dentro para fora: as pessoas são livres para tirar a própria vida? De fora para dentro: evitar um suicídio é uma interferência autoritária sobre a liberdade de outrem?

Acho que uma resposta dependerá do quanto a decisão do suicídio pode ser racional. Há exemplos de suicídios assistidos e eutanásia que têm toda aparência de decisão racional: a pessoa decide dar um fim pois não fazê-lo dá em uma morte mais lenta e mais sofrida. Dessa forma, num simples cálculo de consequências, o indivíduo está justificado em tirar a própria vida (tem boas razões para isso).

Seria racional um suicídio feito porque alguém julga que não tem “perspectiva de vida” (não vê sentido na própria vida) nem afetará negativamente outras pessoas, mesmo sem estar terminalmente doente? Parece que a resposta é sim, mas que esse tipo de exemplo seria raríssimo, pois não é tão difícil encontrar uma forma de ter uma vida produtiva e com propósito. Quem tem dois braços e duas pernas pode botar isso à prova ajudando os deficientes.

O que esse último exemplo hipotético sugere é que com frequência as pessoas que dizem que sua vida não vale nada e deve ser eliminada estão enganadas. Neste caso, estão sob alguma influência que explica o seu erro de avaliação, como a depressão. Assim, um bombeiro está plenamente justificado em vigorosamente evitar que pulem de uma janela: a probabilidade de estarem erradas, e, mais importantemente, a probabilidade de estarem ferindo a alguém (diretamente — ex.: familiares — e indiretamente — ex.: contágio social de suicídio), são mais altas que a probabilidade de estarem certas.

Esse raciocínio exige um abandono de todo tipo de relativismo. É incompatível com um relativismo moral (“se ela diz que precisa morrer isso é correto para ela”) e um relativismo epistêmico (“se ela diz que sua vida não vale nada, essa é a verdade dela”). A aceitação ou rejeição racional da decisão de um suicida (fora dos casos de eutanásia de pacientes terminais) depende da possibilidade de julgar se ele está objetivamente certo tanto no campo da ética quanto no campo do conhecimento. Sendo assim, a moda dos relativismos, ensinada hoje nas universidades e em parte da cultura popular, é uma moda muito mais perigosa do que parece à primeira vista.

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P.S.: Esse texto resulta de uma discussão do assunto no Fórum Livres. Não há motivo para preocupação com o autor. A pintura é “A Morte de Chatterton” (1856), de Henry Wallis (1830-1916).

5th of March

“Revista Hélade” ilustra o “Criacionismo de Humanas”


Caros editores da Revista Hélade: vocês devem ser o primeiro caso explícito de revista acadêmica que chama por artigos anunciando qual conclusão eles deverão ter.

A comparação com o “método criacionista” dessa antiga tirinha é inevitável, não só pela metodologia idêntica, mas pelo construtivismo social ser um tipo de criacionismo comum nos intelectuais da tribo política oposta à tribo política dos criacionistas tradicionais. O primeiro criacionismo é o criacionismo da Tabula Rasa.

Há muitos pontos que me chamam a atenção no seu “call for papers”.

– O pressuposto de que somente Jesus é o caminh… digo, somente na crença da construção social do gênero é que se pode combater os preconceitos. Bem, tenho evidências de que vocês estão errados nesse pressuposto, e já publicadas, se o caso da homossexualidade servir de comparação: quanto mais as pessoas acham que a homossexualidade é natural (inata em vez de adquirida), menos homofóbicas elas ficam.¹ Evidentemente, não é a utilidade de uma tese ao ativismo o que faz dela verdadeira ou falsa. Felizmente, as evidências apoiam o “essencialismo” e a “naturalização” (termo curioso, já que não se “naturaliza” o que sempre foi natural).

E não são evidências só da biologia. Também são provas históricas. O que me leva a mais um pressuposto seu, a saber,

– o pressuposto de que uma análise histórica de uma característica comportamental humana está fadada a concluir que essa característica (gênero, orientação sexual) é construção social. O historiador Rictor Norton analisou os registros da homossexualidade na Europa do início da idade moderna, especialmente Inglaterra do século XVIII, e concluiu que as evidências históricas apoiam um “modelo essencialista” da homossexualidade, em oposição ao dogma foucaultiano da “construção social”.² E se for o mesmo caso do gênero? Eu não sei ao certo, tenho minha opinião, mas, se eu fosse editor de uma revista acadêmica, eu não enviesaria uma chamada por artigos para que a conclusão que eu favoreço seja sobrerrepresentada.

– Finalmente, a sua afirmação de que é uma “pressuposição” dizer que o gênero é um “dado natural” é pressuposição sua e nada mais. Não contem com o ovo antes da galinha. Quem tira conclusões com base em fé é a igreja, não a academia.

Referências

1 – L. M. Overby. Journal of Homosexuality 2014. Trecho em tradução livre: “Aqueles que veem a homossexualidade como enraizada na biologia tendem a favorecer a extensão de direitos a gays e lésbicas.”

2 – R. Norton. “F*da-se Foucault”. Xibolete, 2018.https://xibolete.uk/foucault

10th of November

Por que sou contra a criminalização “da homofobia” Boas intenções escondem um cavalo de Troia de autoritarismo


Começou uma mobilização partidária pela “criminalização da homofobia”.

Trata-se de modificar a lei 7.716/1989* e incluir orientação sexual numa lista de categorias já protegidas. Eu li a lei na íntegra e meu principal problema com ela é este artigo:

Art. 20. [É crime] Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Isso é demasiado vago. O que seria, por exemplo, “incitar o preconceito”? Uma piada que brinque com o estereótipo (preciso) de que homens gays são mais promíscuos seria uma indução ao preconceito?

A lei já é vaga o suficiente para ser interpretada de modo a censurar ateus, por exemplo. É por sorte que as associações de ateus não tenham sido censuradas ainda, especialmente a ATEA, que é cheia de deboches. Basta os evangélicos terem sucesso em seu projeto de poder para os ateus começarem a pagar o preço de os juízes, sob influência evangélica, começarem a interpretar a lei dessa forma, e ela dá ampla abertura para interpretações expansivas e injustamente limitadoras da liberdade de expressão. E nem é a única lei problemática que temos para a liberdade de expressão nesse campo específico de críticas às religiões, temos um artigo do Código Penal (208) que diz que é crime

Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa.**

Se este artigo não fosse letra morta pelas práticas de agora, eu já estaria na cadeia por ter criado uma paródia do Smilingüido focada nas piores passagens da Bíblia, o Smilinguarudo. Mas não quero depender da boa vontade da jurisprudência atual: quero que na reforma do Código Penal caia o artigo 208, e que também se reveja o artigo 20 desta lei em nome do direito à liberdade de expressão.

Como o que querem é incluir orientação sexual nesse rol de assuntos para os quais a lei daria ‘direito ao cala-boca’, sou contra “criminalizar a homofobia”. Sou a favor de criminalizar, por exemplo, discriminações objetivas como demissões de pessoas por serem LGBT. Mas não as palavras ofensivas de ninguém, pois esse seria o primeiro passo para criminalizar pensamentos.

Quem faz parte de um grupo que demorou muito a ter plena liberdade deveria valorizar um pouco mais a liberdade de todos, inclusive a de dizer coisas ofensivas contra o grupo.

 

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* A lei aqui.

** O código aqui.

29th of September

A vingança das intuições Sobre os relativismos


– Você pode alegar que não acredita em padrão de beleza, mas quando vê uma pessoa com aquela razão entre cintura e quadril, ou entre ombro e quadril, aquele timbre de voz agradável, e aquela pele saudável, sabe que fica impactado.

– Pode dizer que moral é relativa à subjetividade, à cultura e aos tempos; mas quando vê um animal sendo torturado, sente que há algo de realmente errado naquilo e se esquece de qualificar “errado para mim”, “errado para os brasileiros de século XXI”.

– Pode se pavonear de entendido e dizer que a ciência é só uma narrativa entre várias igualmente boas, que verdade é poder, que quem fala em verdade é positivista antiquado; mas quando é acusado de um crime que não cometeu, quer que a verdade objetiva venha à tona, quer que a investigação seja imparcial, neutra e melhor que meras narrativas fictícias.

Relativismos são projetos falidos, cognitivamente insustentáveis, e seus defensores não cansam de hipocritamente contrariá-los todos os dias das formas mais banais.