5th of March

“Revista Hélade” ilustra o “Criacionismo de Humanas”


Caros editores da Revista Hélade: vocês devem ser o primeiro caso explícito de revista acadêmica que chama por artigos anunciando qual conclusão eles deverão ter.

A comparação com o “método criacionista” dessa antiga tirinha é inevitável, não só pela metodologia idêntica, mas pelo construtivismo social ser um tipo de criacionismo comum nos intelectuais da tribo política oposta à tribo política dos criacionistas tradicionais. O primeiro criacionismo é o criacionismo da Tabula Rasa.

Há muitos pontos que me chamam a atenção no seu “call for papers”.

– O pressuposto de que somente Jesus é o caminh… digo, somente na crença da construção social do gênero é que se pode combater os preconceitos. Bem, tenho evidências de que vocês estão errados nesse pressuposto, e já publicadas, se o caso da homossexualidade servir de comparação: quanto mais as pessoas acham que a homossexualidade é natural (inata em vez de adquirida), menos homofóbicas elas ficam.¹ Evidentemente, não é a utilidade de uma tese ao ativismo o que faz dela verdadeira ou falsa. Felizmente, as evidências apoiam o “essencialismo” e a “naturalização” (termo curioso, já que não se “naturaliza” o que sempre foi natural).

E não são evidências só da biologia. Também são provas históricas. O que me leva a mais um pressuposto seu, a saber,

– o pressuposto de que uma análise histórica de uma característica comportamental humana está fadada a concluir que essa característica (gênero, orientação sexual) é construção social. O historiador Rictor Norton analisou os registros da homossexualidade na Europa do início da idade moderna, especialmente Inglaterra do século XVIII, e concluiu que as evidências históricas apoiam um “modelo essencialista” da homossexualidade, em oposição ao dogma foucaultiano da “construção social”.² E se for o mesmo caso do gênero? Eu não sei ao certo, tenho minha opinião, mas, se eu fosse editor de uma revista acadêmica, eu não enviesaria uma chamada por artigos para que a conclusão que eu favoreço seja sobrerrepresentada.

– Finalmente, a sua afirmação de que é uma “pressuposição” dizer que o gênero é um “dado natural” é pressuposição sua e nada mais. Não contem com o ovo antes da galinha. Quem tira conclusões com base em fé é a igreja, não a academia.

Referências

1 – L. M. Overby. Journal of Homosexuality 2014. Trecho em tradução livre: “Aqueles que veem a homossexualidade como enraizada na biologia tendem a favorecer a extensão de direitos a gays e lésbicas.”

2 – R. Norton. “F*da-se Foucault”. Xibolete, 2018.https://xibolete.uk/foucault

15th of January

“Negacionistas” não são a maior ameaça à compreensão pública de ciência Sobre a apresentação enviesada do que realmente fica do caminho de um público mais bem informado


O termo “negacionismo” não é nenhum termo técnico que resulte de pesquisa sobre as atitudes das pessoas em relação às proposições dos cientistas. Se “negacionistas” são pessoas que continuam acreditando em alguma falsidade mesmo diante de evidências abundantes de que é mesmo uma falsidade, “negacionistas” são raros. A maioria das pessoas que têm interesse de ignorar alguma conclusão baseada em dados suficientes e argumentos cogentes ignora o que não quer ouvir da ciência através da desenfatização de evidências.

Temer o “negacionismo” em vez do “desenfatizacionismo” é um erro análogo ao de quem tem mais medo de leões do que do Aedes aegypti no Brasil. O leão pode parecer uma fera medonha em vídeo, e podemos encontrar casos de pessoas mutiladas e mortas por suas presas. Mas é raríssimo por aqui, especialmente algum leão livre para andar pelas nossas ruas. Já o Aedes é comum, a picada não dói, produz apenas uma coceirinha, mas o resultado da picada pode ser dramático: Chikungunya, Zika e Dengue Hemorrágica. Assim como temos mais mosquitos que leões, temos muito mais desenfatizadores de evidências, que desenfatizam por vieses diversos – especialmente religiosos e políticos – do que criacionistas de terra jovem e terraplanistas no campo dos negacionistas.

Por exemplo, um colunista da Carta Capital, como bom membro caricato da turma da “justiça social”, respondeu a mim, quando divulguei mais resultados sobre diferenças cerebrais e comportamentais entre homens e mulheres, que “ninguém nega que há diferenças fisiológicas”. Fisiológicas! E quando eu disse que a coisa vai muito além de “fisiologia”, ele prontamente se pôs a esticar o que quer dizer “fisiologia” para incluir neurociências e ciências cognitivas dentro dela. É assim que se desenfatiza o que não se quer ouvir.

E isso vem de todos os lados. São truques lógicos que as pessoas tendem a usar para manter intactas as suas crenças quando elas conflitam com fatos. É uma tendência tão terrível quanto ubíqua. No grande campo de quem estuda as contribuições de natureza (genética) e cultura (ambiente) para o comportamento humano, há um enorme medo de se estar cometendo algum “ismo” horrível ao se atribuir qualquer papel à genética. Então temos um estranho fenômeno: até entre os pesquisadores da genética, há um duplo padrão de rigor para explicações hereditárias e explicações de cunho sócio-cultural-ambiental: para as primeiras lembra-se o tempo todo que correlação não implica necessariamente causa; já para as últimas, é perfeitamente aceitável fazer conclusões causais pelas portas dos fundos das correlações. São dois pesos e duas medidas de rigor: uma que afaga nossos vieses, outra que é uma arma contra nossos percebidos adversários.

E é importante saber que os desenfatizadores ou aplicadores de dois pesos de rigor não são só os leigos: eles circulam na academia, estão entre os cientistas, entre as pessoas que deveriam dar exemplo de rigor intelectual e vigilância contra seus próprios vieses.

Em 2002, Caspi e colaboradores descobriram, por exemplo, que um alelo associado à baixa atividade da enzima Monoamina Oxidase A (MAO-A), que atua no cérebro, estava também associado a tendências violentas dos indivíduos que o carregavam. Interessantemente, os dados indicavam que alguns portadores do alelo não tinham essas tendências, especialmente quando não criados por famílias abusivas. Concluiu-se, então, que era um gene que predispunha seus portadores a comportamentos violentos, mas somente se recebessem um gatilho ambiental de serem criados por progenitores violentos. “Que ótimo”, celebrou a comunidade de pesquisa. “Aí está um exemplo excelente do enorme papel do ambiente ao mediar os recursos genéticos”. Mas o problema é que a hipótese de este ambiente familiar ser causa importante e direta do fenótipo violento, no caso, sequer havia sido testada. Apesar disso, os autores estavam contentes em eleger esta causa como a explicação mais plausível. Pouco se discutiu outra hipótese: além de herdar o ambiente violento, as crianças também estavam herdando os genes dos pais violentos, de modo que poderia haver uma “correlação ativa” de um ambiente com um genótipo, em que o ambiente é causado por esse genótipo paterno, e o mesmíssimo genótipo nas crianças repetiria as tendências violentas e o ambiente violento, num ciclo vicioso de base genética mais importante que os efeitos ambientais. É uma hipótese. Mas é uma hipótese mais feia do que dizer às pessoas que no fim das contas o que importa realmente é o ambiente (que é o que geralmente querem ouvir). Daí um duplo padrão de rigor, a depender de a hipótese sob análise favorecer genes ou ambientes como fontes causais do que se observa. Daí uma desenfatização seletiva de evidências, ao gosto do freguês.

Outro exemplo, mais recente, foi a manifestação dos especialistas quando se perguntou a eles por que, nas notas mais altas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), há mais pessoas do sexo masculino do que do feminino. O viés de desejabilidade social, que alguns chamam de politicamente correto, dita aqui que é perigoso e arriscado dizer que há razões biológicas para mulheres e homens diferirem quanto à inteligência, ou que a nota do Enem poderia refletir, além do esforço dos estudos, também inteligência. Daí os especialistas usam linguagem de tabu:

“‘A explicação não deve ser buscada na Biologia, embora cérebros de homens e mulheres não sejam iguais. Mas isso não afeta a cognição, em áreas do raciocínio lógico, muito menos na inteligência’, diz o professor titular de neurociência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Roberto Lent. Para ele, o que mais influencia são as posições da família e os estereótipos da sociedade.” (Do Estadão, ênfase minha.)

A afirmação de que a diferença (em média) dos cérebros de homens e mulheres não afeta a cognição na inteligência é falsa. Que fique claro: na média do QI há nenhuma ou pouca diferença entre homens e mulheres. Mas homens variam mais em QI que as mulheres (e QI é uma medida de inteligência com amplo apoio em evidências replicadas, é uma das áreas de maior replicação da psicologia). A variação na inteligência é uma coisa mensurável, e essa medida da variação (variância) é maior entre homens que entre mulheres. O que se espera disso é que, quando se seleciona a porção das maiores notas do Enem, haja mais  homens, pois a variação das mulheres se concentra mais em torno da média.

O fenômeno da maior variação no sexo masculino em várias características, especialmente as relacionadas ao sexo e ao sucesso reprodutivo, tem explicações evolutivas. Ou seja, tem boas explicações biológicas que têm a ver com a seleção sexual e o papel do sexo feminino de sustentar a prole enquanto dentro do útero.

Isso não quer dizer que alguma diferença social é explicada em todo ou em parte majoritária pela biologia. Isso precisa ser testado, de preferência sem tabus. O método da herdabilidade é um bom método para prospectar inicialmente a partição de variâncias explicáveis por biologia ou cultura, e é um método largamente ignorado por construtivistas sociais, que preferem se fechar numa bolha fazendo estudos “qualitativos”. Deixar a biologia de fora em dados como esses do Enem é aplaudir a ignorância, e estabelecer que a biologia não deve ser buscada é papel de pregador moralista, não de cientista. Nós podemos ter a discussão paralela de que os resultados podem inspirar más aplicações que potencialmente afetam a vida de indivíduos. Mas é obscurantismo não separar a discussão moral da busca desinteressada pela verdade. Jogar fora a navalha de Hume é voltar a um estado pré-científico e pré-iluminista, é tomar partido da proverbial Igreja da época da Renascença em vez de ficar do lado de Galileu.

A compreensão pública da ciência é mais afetada por milhões de pequenas picadas dos mosquitos da representação enviesada de resultados, da desenfatização de dados e evidências que estão em dissonância com os interesses dos divulgadores, pesquisadores e do público, do que por negacionistas teimosos que batem o pé diante de evidências de que estão errados. E quem fala contra os vieses do próprio enxame é alvo de ostracismo, quando não silenciamento.

From "In a Heartbeat", YouTube.
28th of September

Retirar a homossexualidade da lista de doenças foi decisão moral, e não há problema nisso


A classificação de algum comportamento como “transtorno” em psiquiatria depende de considerações morais. Não há muita novidade nisso. Eu não tenho problema nenhum com isso, pois não sou um não-cognitivista moral, acredito que há sim fatos morais e objetividade em ética (e que ética e moral são sinônimos, apesar de certas distinções sem diferença que só servem para obscurecer). Daí, a meu ver a psiquiatria nada perde como ciência por incluir fatos morais junto a fatos científicos (que continuam separados como ditou Hume).

Pregar que não há fatos morais gera mais problemas epistemológicos que soluções. Mas reconheço que há alguns intelectuais influentes, como Jonathan Haidt, que são não-cognitivistas morais. É por isso que, quando ele discute, por exemplo, que as universidades precisam escolher entre verdade e justiça social como valores, ele veste o jaleco de cientista e age como se a escolha fosse, em último caso, indecidível. Ele claramente favorece mais a verdade, mas sua teoria da psicologia social do comportamento moral traça analogias com crenças dogmáticas religiosas: existe divergência política não porque as pessoas são irracionais na política (como prega Michael Huemer), mas porque um grupo sacraliza mais certos valores que outros, enquanto todos concordam, geralmente, sobre o que é positivo e desejável. Outros, como Haidt, acham muito informativa a proposição de que a política vulgar está enganada ao se polarizar entre bons e maus, que na verdade os grupos adversários apenas valorizam diferencialmente mais uma coisa que outra, mesmo concordando que ambas são boas. Isso também está em Bobbio, que alega que esquerda valoriza igualdade mais que liberdade, e que a direita tem uma quantificação contrária de valorização de ambas. Por ter uma posição análoga sobre valores de grupos sociais, Haidt é relutante em alegar que é objetivamente melhor valorizar a verdade e que quem quer botar “justiça social” em seu lugar está simplesmente enganado.

Talvez alguém que não crê que se pode fazer progresso cognitivo em ética, na direção de respostas objetivamente melhores, tenderá a fazer uma ênfase na navalha de Hume (“é” não implica “deve ser”) e interpretá-la como significando que, se a psiquiatria tem algo a dizer sobre o que é normal ou não, então essa valoração deve ser puramente descritiva e factual, destituída de considerações éticas.

Um caso para discussão: a despatologização da homossexualidade. Francisco Razzo citou recentemente, sem muito comentário, um artigo de 2015 de Robert Kinney III, em que este médico argumenta que a decisão de importantes instituições profissionais americanas da psicologia e psiquiatria foi baseada em evidências controversas, artigos obscuros e anedotas. O propósito é mostrar arbitrariedade na decisão dessas instituições, o que sugere que os profissionais poderiam estar sendo igualmente objetivos ao continuar considerando a homossexualidade um transtorno (doença).

O que Kinney não discute o suficiente, no entanto, é que a “normalidade” é ambígua, e traz em si tanto o domínio dos fatos e descrições (o domínio do “é”) quanto o domínio ético (o domínio do “deve ser”). É preciso desambiguar. Mas essa desambiguação ficará do lado da decisão dos psiquiatras e psicólogos (e da OMS).

– Normalidade em fatos: uma característica normal é a que tem uma frequência alta o suficiente para ser considerada comum, em vez de rara. Há arbitrariedade aqui porque o senso comum não é exato, não define o que exatamente é comum ou raro. A escolha fica a gosto do freguês. A homossexualidade está em cerca de 10% dos homens e cerca de 5% das mulheres (Dawood et al. 2009). Isso é comum (normal) ou raro (desviante/aberrante/anormal)? Tudo o que os profissionais precisam é ter consistência, aqui: se esses números estão dentro da normalidade, ou seja, fazem dessa característica algo comum, então outras características com distribuição similar também são normais, comuns.

– Normalidade em ética: normal é uma característica eticamente justificada, aceitável; ou, alternativamente, eticamente neutra, inconsequente. Aqui acontece o debate ético, e é aqui que eu julgo que o não-cognitivismo moral, o absolutismo moral e o relativismo moral atrapalham. Aqui a alegação é que adultos que se sentem atraídos por adultos do mesmo sexo DEVEM ter liberdade para agir em conformidade com seu desejo como adultos heterossexuais fazem (inclusive em instituições seculares que partem desse desejo, como o casamento), e portanto homossexualidade é normal, e é objetivamente bom que seja assim. Aqui, as organizações profissionais da saúde estão tomando uma decisão que é ética, e que é incorporada às suas teorias do bem-estar humano. Quem está incomodado com essa decisão deve argumentar por que a liberdade dos homossexuais é moralmente inaceitável e convencer esses profissionais disso. A tradição anterior que patologizou a homossexualidade não fez isso. A decisão anterior foi simplesmente herdada, junto com leis de criminalização da sodomia como a que existiu no Reino Unido desde o século XVII até a metade do século XX. É meio desonesto que quem crê que homossexualidade é imoral abuse da ambiguidade do termo “normalidade” para alegar que a arbitrariedade na definição do que é “comum” é que é o problema, quando obviamente não é bem assim.

Finalmente, o nosso conceito de “normalidade” já é informado pela pesquisa em genética psiquiátrica. Os níveis “normais” de atenção e atividade são predizíveis a partir de modelos gerados com a variação patológica do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Ou seja, nós já conseguimos antecipar como são as pessoas “normais” a partir do estudo das pessoas “doentes”. O que sugere que a normalidade está dentro da variação da patologia e vice-versa, não havendo uma linha nítida entre uma coisa e outra em psiquiatria, o que está em conformidade com a arbitrariedade factual que comentei acima.

5th of June

Identidade de gênero e orientação sexual: militância versus evidência


O que diz a militância:
 
Identidade de gênero e orientação sexual são coisas completamente separadas. Identidade de gênero é como a pessoa se vê (se homem, mulher, ou nenhum dos dois), orientação sexual é por quem a pessoa se atrai. Dessa forma, identidade de gênero e orientação sexual variam independentemente.
 
O que dizem as evidências:
 
Os fatores que causam a orientação sexual e a identidade de gênero são intimamente relacionados. Se não são os mesmos, ao menos a intersecção entre os dois conjuntos de fatores causais é grande. De outra forma não se poderia explicar por que, através das culturas, a maioria (90% ou mais) das pessoas são heterossexuais e mais de 99% não sofre disforia de gênero nem é intersexo.
 
Disforia é a sensação de sofrimento psíquico por crise identitária de quem não se conforma ao gênero com que foi rotulado ao nascer. Nos casos mais severos, manifesta-se bem cedo em crianças e pode levar à automutilação.
 
Pessoa intersexo era conhecida antes pelo termo “hermafrodita”, um termo bonito, que vem dos deuses gregos Hermes e Afrodite, termo que o politicamente correto – sisudo e sem poética – condenou ao ostracismo. 1 em 2000 pessoas são intersexo, apresentando variados graus de ambiguidade de características sexuais primárias e secundárias.
 
Claramente identidade de gênero é relacionada à orientação sexual também porque uma parte substancial (quiçá a maioria) de pessoas homossexuais apresentam alguma não-conformidade de gênero na infância e adolescência (em outras palavras: muitos homens gays foram meninos que já usaram vestidos, sapatos e maquiagem da mãe – é um indicativo, não uma sentença). Além disso, a maioria, entre 50 e 88%, das crianças que manifestam disforia a resolvem com o tempo sem transição para outro gênero. Isso sugere que a transição só é terapêutica para uma minoria das crianças que manifestam disforia. A maioria, que não cresce trans, geralmente é gay. Novamente: identidade de gênero e orientação sexual são intimamente relacionadas.
 
Isso contradiz a insistência de que tudo o que é necessário para considerar uma criança “trans” é que ela manifeste disforia. Na verdade, a probabilidade maior é que não seja trans, mas gay. Também contradiz a noção de que basta uma criança dizer que é de outro gênero para aceitar que é mesmo. Não é transfóbico pensar que há uma probabilidade substancial de ela não ser: é o resultado mais provável. Isso, obviamente, não é desculpa para forçar a minoria que cresce para ser trans a não ser trans: estamos falando aqui do resultado mais terapêutico para seu desenvolvimento, e repito que para 12 a 50% dos casos o melhor curso de ação é a transição. Se você acha que uma pessoa trans sofre (e geralmente sofre, disforia é horrível), imagine então como sofre uma pessoa que fez transição, retirou mamas, tomou hormônios, porque ouviu que essa era a sua única opção, e depois se descobre não-trans e tem que viver com resultados permanentes de uma decisão tomada sem clareza suficiente sobre quem ela é. É a minoria de transicionados, mas existem (a idéia não é proteger minorias?).
 
Disforia está correlacionada com outros trantornos psiquiátricos. Não se pode atribuir todos os problemas psíquicos das pessoas trans à resistência da sociedade à sua transição. Sim, há muita transfobia e sofrimento causado por ela. Mas há mais coisas. A narrativa de “nasceu no corpo errado” não se aplica a todas as pessoas trans.
 
Finalmente, para botar um último prego no caixão da idéia de que identidade de gênero e orientação sexual são totalmente distintas e não relacionadas, vou falar de um tipo de transexualidade que essencialmente é uma orientação sexual. Trata-se da autoginecofilia. Autoginecófilas são mulheres trans (nascidas com sexo masculino) que têm atração sexual por si mesmas como mulheres. O conceito é um pouco difícil de entender quando se ouve falar nele pela primeira vez, mas existe e já foi descrito pelo cientista do sexo Ray Blanchard em detalhes. As autoginecófilas, como as outras trans (estas mais próximas de “nascidas no corpo errado”), podem fazer a transição hormonal e genital como terapia. Não é um fetiche, mas uma orientação-sexual-identidade-de-gênero que é parte fundamental de quem elas são. Alice Dreger, estudiosa da intersexualidade e de conflitos entre pesquisadores e ativistas, descreve o caso de uma mulher trans autoginecófila que chegou a raspar cirurgicamente o osso acima da sobrancelha, e conta que teve uma sensação de êxtase quando, depois da cirurgia, nos banhos o xampu passou a escorrer dos cabelos e chegar aos olhos, irritando-os. Porque tomar banho com um “guarda-chuva natural” acima da sobrancelha formado por esse osso seria coisa de homem. Alice, que é mulher nascida com vagina, diz que em toda a sua vida como mulher nunca tinha pensado nisso. Conto a história não para apontá-la como bizarra, mas para apontar o quão profunda é a identidade feminina para uma trans autoginecófila, tanto quanto para outras trans. (Outra evidência de que há ao menos esses dois tipos de mulheres trans é que as autoginecófilas tendem a gostar de mulheres e as outras tendem a gostar de homens.)
 
Portanto, enquanto ainda há muita ignorância sobre as origens tanto da orientação sexual quanto da identidade de gênero, está claro o suficiente que os dois conceitos são separados apenas para facilitar a compreensão de certas questões (ou por dogmatismo de ativistas), mas o mundo em si não os separa tão bem assim. Se engana quem pensa que não têm nada a ver com biologia, ou quem pensa que têm a ver apenas com biologia – os mais astutos devem ter percebido que a mulher trans de uma cultura pode ser o homem gay de outra.
 
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Referências
 
Sobre a provável maioria das crianças disfóricas não transicionar, vide Associação Psicológica Americana. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf
 
Sobre a proporção de intersexos na população, sobre histórias cabeludas de ativistas atrapalhando o avanço da ciência nessas questões, vide Alice Dreger: Galileo’s Middle Finger. https://g.co/kgs/oiUoOU
 
Sobre mulheres nascidas com pênis se assemelharem no cérebro a mulheres nascidas com vagina, e sobre homossexuais manifestarem não-conformidade de gênero, vide Bao & Swaab 2011. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21334362
 
Sobre disforia estar correlacionada a outros transtornos, ver este estudo escandinavo que relatou que ela é geralmente precedida por outros transtornos e que é muito comum o autismo: https://capmh.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13034-015-0042-y
24th of March

Resumidíssimo: por que gênero não é construção social Explicado em menos de 2600 caracteres, publicado originalmente no jornal O Tempo, 24 de março de 2017.


No livro “The Social Construction of What?”, Ian Hacking lista mais de 50 coisas que já se alegou que são construções sociais: emoções, sexualidade, doença, quarks etc., até fatos, realidade e conhecimento. É moda alegá-lo sem provas. Algo construído não estava ali para ser descoberto, e socialmente construído é algo que foi feito por uma sociedade e não por qualquer outra coisa. Alega-se que gêneros são também construídos socialmente. Esta é uma alegação determinista cultural sobre o gênero, uma inversão de determinismos biológicos igualmente equivocados, como o cromossômico. Já no berço, antes de aprender qualquer cultura, meninas já diferem de meninos no tempo em que olham para móbiles ou faces.

Se gênero fosse construção social, sob o igualitarismo homens e mulheres se aproximariam em escolhas de carreira. Ocorre o oposto: quanto mais igualitárias as sociedades, maior a diferença na escolha de carreira entre gêneros. A preferência masculina por carrinhos e feminina por bonecas vai além da espécie humana, macacos também a manifestam. Não parece ser o caso com preferência por azul ou rosa, que depende da cultura.

A maior descoberta da genética do comportamento é que nenhum comportamento é destituído de biologia. Outra é que nenhum comportamento é livre de ambiente. A dicotomia “natureza vs. cultura” é obsoleta, temos “natureza e cultura”. Somos culturalmente moldados na nossa natureza: sem a cultura do fogo, a savana em que evoluímos não teria energia suficiente para suprir o cérebro. Somos também biologicamente propensos à cultura: somente nossos filhotes ensinam já no início da infância. O gênero é feito de um cerne natural fruto da evolução ao qual são adicionados acessórios que são construções sociais. Gênero é o sexo que está entre as orelhas.

Contraste o gênero com uma categoria que é construída: a casta indiana. As castas começaram com uma invasão, e chegaram a milhares em poucos milênios. Não é o caso do gênero: não há cultura em que o número de gêneros tenha sequer chegado a dez, mesmo com gêneros precedendo castas. O que temos são culturas com categorias como “homem”, “mulher” e “fa’afafine” (em Samoa). O número de gêneros tem um limite inferior ao das castas, dado pela biologia. Há dimorfismo anatômico e comportamental, orientações sexuais, características que culturas lêem como essenciais às suas categorias de gênero.

Quem tem medo desses fatos confunde o projeto ético da igualdade de direitos e oportunidades com a engenharia social de forçar paridades. Além de tratar pessoas diferentes com igualdade, também devemos contar-lhes a verdade.

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Para referências, leia este texto do Dr. Larry Cahill.

Cérebro fetal por volta das 12 semanas de gestação. Enciclopédia online de embriologia do Dr. Mark Hill.
12th of January

Pequeno guia para quem quer formar opinião sobre aborto


A discussão sobre o aborto não é uma discussão sobre o que é vida. Isso é outro assunto. Talvez essa confusão vem de um dos direitos envolvidos ser chamado de “direito à vida”. Um termo um pouco confuso. No lugar de “direito à vida”, poderíamos falar em “interesse real ou atribuído de não ter sua própria existência interrompida”. Quando se diz que alguém tem direito à vida, a ideia é que essa pessoa tem interesse neste momento em continuar existindo, e que seria injusto que alguém a matasse. Há cenários em que é justo que esse interesse de continuar existindo seja ignorado em nome de coisas mais importantes. Se a pessoa em questão se tornasse uma ameaça iminente à vida de outra pessoa, ela poderia ser morta para preservar o interesse da outra em continuar existindo. A isso damos apropriadamente o nome de “legítima defesa”. Mas como as ocasiões em que é justo atropelar um interesse de viver são raras e extraordinárias, na maior parte das situações é injusto matar, então faz sentido dizer que há um direito à vida.

A maior parte das pessoas consegue expressar que tem o interesse de continuar vivendo. Algumas são incapazes de expressar esse interesse, mas isso não significa que ele não está ali. Nós atribuímos esse interesse a quem é incapaz de expressá-lo, quando vemos plausibilidade nessa atribuição. Os vegetarianos, por exemplo, acreditam que vacas, porcos, galinhas e peixes têm interesse em viver, mesmo que não possuam mentes capazes de expressá-lo, e que é injusto interferir nesse interesse para produzir alimentos quando alternativas existem. Fetos e crianças pequenas também não têm capacidade de expressar interesse em continuar vivos, então nós atribuímos a eles esse interesse. Quem é contra o direito de escolher abortar em qualquer situação acredita que não há ocasião plausível em que seja justo interferir nesse interesse atribuído de viver dos embriões, fetos, e bebês em gestação (usamos os três nomes em sequência no desenvolvimento, mas nem sempre há critério objetivo para mudar de um para outro). Quem é a favor da ideia de que há ocasiões em que é permissível abortar crê que há fases no desenvolvimento humano em que não é correto atribuir o interesse de viver ao ser em gestação, deixando portanto a gestante completamente livre para escolher terminá-la; ou que mesmo havendo algum tipo de interesse em viver, ele não é mais justificado em ser protegido que algum outro interesse conflitante da portadora do útero.

É mais fácil defender a permissibilidade de abortar quando o ser em gestação não tem interesse de natureza alguma, nem mesmo atribuível. Parece ser o caso se o cérebro dele ainda não é funcional. O sistema nervoso começa seu desenvolvimento cedo na gestação, mas termina muito tarde. Como o tecido neural é o mais “nobre” e o cérebro é o nosso órgão mais complexo, isso não é surpresa. A funcionalidade vai aparecendo aos poucos no desenvolvimento, se concentrando nas fases mais tardias. Há um consenso de que é extremamente improvável que o cérebro seja funcional até o fim do primeiro trimestre. O cérebro do feto, às 12 semanas, é como mostrado na imagem: liso, com poucos giros, e, mais importante que isso, há poucas e esparsas conexões entre os neurônios. Sabendo um pouco da relação entre cérebro e mente, atribuir interesses a esse cérebro desconectado é como dizer que mil computadores sem nenhuma conexão entre si fazem uma internet.

Às 12 semanas, o feto parece ser uma pequena pessoa com menos de 10 centímetros. Mas a ciência nos ensinou que aparência não é tudo. O sol aparenta ser um corpo celeste menor que a Terra que orbita em torno dela, mas a aparência é enganosa. A água aparenta poder ser divisível infinitamente, mas as aparências enganam. Crianças pequenas costumam atribuir vontades e interesses ao fantoche em vez de ao ator que mexe sua boca. Adultos devem ter mais capacidade de ir além das aparências e se perguntar se há motivos para crer que fetos do primeiro trimestre têm realmente interesse de viver, ou qualquer outro interesse, dadas as evidências sobre o estado de desenvolvimento de seus cérebros. Por isso, continuar apontando para a aparência do feto depois de que tudo isso foi dito é nada mais que falácia de apelo à emoção: na incapacidade de convencer alguém pela razão, apela-se para suas reações emocionais irrefletidas. Nós não pensamos que pessoas com morte cerebral corretamente diagnosticada têm interesse de continuar vivendo, e doamos seus órgãos para favorecer os interesses de outras pessoas. Isso é uma decisão eticamente correta, dependente de conhecimentos sobre o que significa um cérebro deixar de funcionar. Agora precisamos pensar com o mesmo rigor sobre como devemos tratar pequenos organismos nos quais o cérebro não começou a funcionar. É importante destacar aqui que as 12 semanas são um limite conservador, e que se é este o limite escolhido por lei, boa parte das interrupções de gestação acontecerão antes, quando há menos semelhança ainda do cérebro do feto com um cérebro desenvolvido e funcional.

Alguém poderá dizer que o conhecimento científico é sempre incompleto, e isso é verdade. Mas nós mesmo assim precisamos fazer decisões de vida ou morte com base nele todos os dias, como médicos sabem. Pedir por mais evidência é sempre melhor que confiar em autoridade, tradição e votos de leigos. Notar a falibilidade da ciência é motivo para buscar saber mais, não um motivo para sair buscando o que por acaso confirmar nossos preconceitos. Querem que eu mude de ideia sobre aborto ser permissível no primeiro trimestre de gestação? Tragam evidência de que fetos nessa fase têm um cérebro funcional, interconectado, minimamente capaz de abrigar interesses. Também ajudaria se pudessem me explicar por que devemos nos desdobrar para proteger esses fetos, quando há mais “humanidade” (imaginação, prazer, dor, intenções e interesses) em animais que matamos para comer. E quem pensa diferente – que aborto é algo tão tabu que não há nem mesmo cenários de “legítima defesa” de outras coisas que o permitam – será que sabe o que é necessário para mudar de ideia? Ou é incapaz de sequer imaginar um estado de coisas que torne sua opinião errada?

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Recursos

Peter Singer. 2006. “Ética Prática”.

Mark Hill. 2016. Enciclopédia Online de Embriologia. Origem da imagem usada. Cobre sempre a origem de imagens de fetos, pois ativistas pró-vida frequentemente usam fetos de gestação tardia para aumentar o efeito do apelo à emoção.

Stuart W. G. Derbyshire. 2006. Can fetuses feel pain?

12th of October

Nobel para comer a si mesmo


Na semana passada foi anunciado que Yoshinori Ohsumi ganhou sozinho o prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina, por seu trabalho a respeito dos mecanismos de autofagia das células. Na Science foi comentado que a decisão foi bem aclamada entre os especialistas, pois Ohsumi realmente é considerado o pai dessa área de investigação. Em seus primeiros estudos publicados a respeito, Ohsumi identificou 15 genes essenciais para o auto-reparo das células em leveduras. Quem conhece a dificuldade que era fazer isso na época em que foi feito entenderá que ao menos pelo critério do esforço Ohsumi merece o prêmio. Hoje fica cada vez mais claro que distúrbios de autofagia estão por trás de várias doenças humanas, e que o bom funcionamento desse conjunto de mecanismos é um dos segredos das pessoas muito longevas.

Biologia molecular é uma área fascinante. Quanto mais a gente lê, menos seguro fica de que sabe alguma coisa. É como entrar num mundo alienígena, com leis diferentes e personagens estranhos, muitos dos quais estão desempenhando seus papéis há bilhões de anos. Acho que uma boa forma de adentrar esse mundo é estudar a replicação do DNA, a transcrição e a tradução. Uma vez familiarizado com os personagens principais, o curioso molecular estará mais preparado para ler os trabalhos sobre autofagia e se maravilhar. Imagine o seguinte: uma mitocôndria, que é basicamente uma bactéria domesticada para produzir energia dentro das células (e há centenas em cada célula) começa a funcionar mal. A célula é capaz de detectar que a saúde da mitocôndria vai mal, mandá-la para um lixão, desmontá-la e reciclar as partes valiosas. A autofagia é isso – o que está indo mal na célula é “comido” por ela própria, tendo suas partes reaproveitadas. É possível, no entanto, que uma célula falhe em reparar a si mesma, aí ela entra em autofagia generalizada, que é a apoptose – um suicídio celular. Saber disso não te dá fome de biologia molecular?

Sobre reciclagem autofágica de mitocôndrias: https://en.wikipedia.org/wiki/Mitophagy

Sobre o prêmio: https://www.nobelprize.org/…/medi…/laureates/2016/press.html

6th of August

O alto preço da pseudociência


“A falta de interesse pela pseudociência em alguns rincões da filosofia deriva de uma presunção tácita de que algumas ideias e teorias são tão obviamente erradas que nem mesmo vale a pena discuti-las. A pseudociência é ainda considerada por vezes demais um passatempo inofensivo de um relativamente pequeno número de pessoas com uma propensão rara à adoração de mistérios. Isso está longe da verdade. Na forma de criacionismo e seus desafios ao estudo da evolução, a pseudociência causou grandes danos à educação do público nos Estados Unidos e alhures; surrupiou bilhões de dólares na forma de medicina “alternativa” como a homeopatia; causou danos emocionais a muita gente, por exemplo, às pessoas que ouvem de místicos e variados chatlatães que podem falar com seus entes queridos falecidos. Teorias da conspiração sobre a AIDS, que são comuns em muitos países da África e até nos Estados Unidos, literalmente mataram inúmeros seres humanos ao redor do mundo. O negacionismo das mudanças climáticas, que parece ser impossível de erradicar em círculos políticos conservadores, pode até ajudar a trazer uma catástrofe global. Seitas perigosas como a cientologia, que são baseadas em sistemas de crença pseudocientíficos, continuam atraindo seguidores e causando estragos nas vidas de muitas pessoas. Fora as consequências muito reais da pseudociência, devemos dar um momento de atenção para considerar a enorme quantidade de recursos intelectuais que são desperdiçados em conter teorias em descrédito como criacionismo, homeopatia e psicanálise, sem falar na busca sem fim por evidências do sobrenatural e o incansável ativismo dos teóricos da conspiração.”

Trecho traduzido livremente de “Philosophy of Pseudoscience: Reconsidering the Demarcation Problem” de Massimo Pigliucci & Maarten Boudry (eds): http://amzn.to/2aXbLow

14th of July

Gênero continua não sendo construção social: resposta à crítica


O artigo da Daphna Joel no PNAS (ver meu texto sobre gênero não ser construção social) alega que não há forma objetiva de classificar cérebros em masculino e feminino. Três respostas a essa alegação vieram. Em uma delas, os mesmos dados em análise multivariada permitem prever o sexo da pessoa cujo cérebro está sendo analisado com 70% de acerto. Eu falei em particular com alguns cientistas especialistas no assunto do gênero cerebral, e a opinião foi que o PNAS falhou em publicar aquele artigo com análise que parece ter sido escolhida a dedo para gerar o resultado que um grupo ideológico quer.

A melhor resposta que meu curto artigo recebeu simplesmente PREFERE acreditar em Joel APESAR DISSO. O que revela que quando é para ser politicamente correto e agradar os colegas de crença, o suposto interesse em dar uma avaliação imparcial morre rapidinho.

Sobre eu ter escolhido a definição de “construção social” do Paul Boghossian, foi em reconhecimento ao trabalho dele de separar joio de trigo nas alegações de construção social que parecem suficientemente ambíguas para se adequarem à afirmação que for mais conveniente no momento. Definições de “construção social” que aceitam que há também causas biológicas no gênero são anomalias dentro da vasta literatura construtivista, boa parte da qual merece o rótulo de pseudociência, como discutido num volume recente de filosofia da pseudociência editado pelo filósofo Massimo Pigliucci. De qualquer forma, nem faz muito sentido escolher o termo “construção social”, ao pé da letra, se você acredita que o fenômeno em questão é em parte o resultado de fatores biológicos.

Eu uso os termos “sexo” e “gênero” livremente não porque não sei da distinção geralmente feita entre eles. Mas porque rejeito a dicotomia “Nature vs. Nurture” implícita neles, que não é mais adequada.

As críticas justas ao meu texto são essas:
– Curto demais para assunto tão complicado.
– Deveria conter uma definição de trabalho de gênero. Mas eu posso responder que definições completas são teorias e que o propósito de discutir as evidências mais recentes é justamente começar a formar uma ideia mais clara do que é gênero. Conhecimento que as hipóteses de acadêmicos construtivistas estão atrapalhando, por seu compromisso frequente com o pós-modernismo e sua rejeição implícita da navalha de Hume e de facetas da racionalidade como objetividade e imparcialidade, valores indispensáveis na ciência.

Eu considero a comparação que fiz de gênero e castas indianas muito mais adequada para ilustrar que gênero não é construção social enquanto castas o são. Mas por algum motivo a crítica ignorou isso e se focou apenas na comparação com o dinheiro.

The Androgynous Form of Shiva and Parvati (Ardhanarishvara). India, Uttar Pradesh, Mathura, 2nd-3rd century sculpture. Mottled red sandstone. Los Angeles County Museum of Art.
11th of July

Por que gênero NÃO É construção social


Embora a alegação de que várias propriedades humanas são “construção social” tenha se tornado moda em setores das humanidades e ciências sociais, geralmente pouca evidência é fornecida para justificar alegações de construção social. O próprio conceito de “construção social” é frequentemente ambíguo demais. Depois de remover as maiores ambiguidades, o filósofo Paul Boghossian providenciou uma definição de construção social mais clara e mais alinhada com os próprios interesses dos acadêmicos do ramo. A definição dele pode ser parafraseada assim: o que se quer dizer quando se alega que uma coisa é socialmente construída é que ela foi criada intencionalmente por uma sociedade em particular para atender a seus próprios interesses, e é contingente aos caprichos dessa sociedade de tal forma que essa coisa não existiria de outro jeito (não existiria, por exemplo, se essa sociedade tivesse interesses diferentes, ou se a construção tivesse sido feita por uma sociedade diferente).

Algumas coisas socialmente construídas ocorrem através de diferentes culturas. O dinheiro, por exemplo, foi construído independentemente por algumas sociedades para fazer a troca de bens, e porque a maioria das sociedades de hoje está interessada em trocar bens eficientemente, o dinheiro se tornou quase universal. Mas se as sociedades que usam dinheiro tivessem interesses diferentes, o dinheiro poderia nunca ter existido. Então é claro o bastante que o dinheiro é construção social.

Mas e as categorias de gênero como “homens”, “mulheres” e “fa’afafine” (uma categoria de Samoa que se aproxima do que chamamos de homens gays afeminados)? São construção social? Eu penso que não. Pelas seguintes razões:

  • As culturas são criativas, então coisas socialmente construídas costumam ser diversas e numerosas, como as diferentes moedas que o mundo teve na história. Pense também em castas indianas. Há 3000 castas diferentes na Índia, e ainda mais subcastas. Comparado a castas e moedas, o número de categorias de gênero parece ser tediosamente baixo – duas no Brasil, três em Samoa, com nenhuma sociedade tendo atingido números de dois dígitos, até onde sei. As castas indianas parecem ser mais prováveis de serem construções sociais, ao ponto de ser possível explicar sua existência com base em fatos históricos conhecidos sobre as culturas indianas.
  • As culturas têm certo poder de decisão sobre com quais categorias de gênero trabalharão e quantas existirão. Mas as razões pelas quais elas têm categorias de gênero não são construção social. São elas: (1) o dimorfismo sexual dos corpos humanos, seguido estritamente por todos os corpos com exceção de um pequeníssimo número deles; (2) um número limitado de orientações sexuais que ocorrem naturalmente e que existem por causa do dimorfismo sexual dos corpos (homossexualidade, heterossexualidade e bissexualidade) – a herdabilidade da orientação sexual é de moderada a alta e algumas das regiões genômicas envolvidas nisso já foram mapeadas; (3) agregados de comportamento que ocorrem naturalmente (além das orientações sexuais), alguns dos quais têm origem evolutiva e são associados a organismos com base em se eles produzem uma abundância de gametas ou se têm poucos gametas e são responsáveis por abrigar o desenvolvimento de fetos.

  A pesquisa sobre essas últimas razões está em andamento e as alegações sobre quais exatamente são essas diferenças de comportamento (previstas por causa da evolução) são altamente contestadas. Alguns resultados são consistentes, no entanto: homens tendem a se sair melhor na tarefa de rotacionar mentalmente objetos 3D, enquanto mulheres parecem ter uma vantagem em tarefas relacionadas à empatia, como ler as emoções de alguém. Mas mesmo se diferenças de gênero apontadas no passado se revelarem falsas, podemos ter confiança de que, enquanto foi detalhista ao moldar corpos, a evolução provavelmente não parou acima do pescoço em relação a sexo no cérebro.

É inteiramente possível que, enquanto o gênero em si não é construção social – porque culturas diferentes chegam a categorias similares de gênero com base em diferenças naturais no corpo e no comportamento – algumas coisas associadas como papéis e expressões de gênero provavelmente sejam constructos sociais, ao menos exemplos delas como a cor que meninas e meninos supostamente preferem, quem é responsável por iniciar flerte, etc. Há evidência de que homens e mulheres fazem em média decisões de carreira diferentes, mesmo em sociedades igualitárias – o que conta como evidência de que essas categorias não são construção social, enquanto não significa, evidentemente, que um indivíduo em particular devesse ser discriminado por fazer escolhas de carreira atípicas de seu gênero.

É importante reconhecer a diferença entre o cerne não socialmente construído do gênero e suas propriedades auxiliares socialmente construídas, de modo que políticas e decisões morais baseadas em gênero sejam mais justas. Isso ficou claro na medicina, em que há resultados mostrando que cérebros masculinos e femininos podem responder de forma diferente ao mesmo medicamento. Agora a falha da hipótese da construção social do gênero deve ser reconhecida nos debates culturais também. Muitos ativistas saltam à acusação de sexismo ao menor sinal de que as pessoas estão se comportando de forma típica para seu gênero, revelando uma esperança ilusória e fora de lugar de que seja possível erradicar categorias de gênero da existência. Para evitar bater de frente com a ciência ainda mais, esses ativistas têm de reconhecer que a ação para mitigar a discriminação injusta não deveria ser acoplada a uma esperança de atingir uma paridade de gênero em tudo. Forçar as pessoas a se comportarem do mesmo jeito onde elas naturalmente divergem não é ativismo, é engenharia social utópica. Pessoas livres precisam apenas de igualdade de oportunidades para perseguir seus interesses diversos. Homens e mulheres (e fa’afafine etc. onde aplicável), incluindo os que são trans, apreciam-se entre si e uns aos outros sem necessidade de paladinos morais que tentam forçá-los a ser o que não são. E certamente não precisam de falsidades propagandeadas como o único caminho para a justiça – pois a justiça prefere a verdade.

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Referências comentadas

As pessoas interessadas no assunto devem estar cientes de que há um pequeno número de grupos de pesquisa dentro da neurociência que tem interesse ideológico de alegar que todas as diferenças no cérebro e no comportamento encontradas por outros pesquisadores são falsas ou infinitesimais. Há também um grupo menor ainda, rejeitado por todos, de cientistas conservadores com papéis de gênero que se apressam em aprovar qualquer diferença biológica alegada, independentemente da qualidade das evidências. Então, às vezes, a revisão por pares falha e estudos de baixa qualidade são publicados e publicizados como verdade revelada por blogs e veículos de mídia interessados em confirmar suas narrativas. Cientistas como Melissa Hines, Simon-Baron Cohen e Larry Cahill, que estudam gênero cerebral, evidentemente afirmam que as diferenças existem com base em evidências (no caso de Baron-Cohen, também porque tem a ver com autismo, muito mais comum em meninos que em meninas). Em oposição a esses há Cordelina Fine,  Daphna Joel e seus colaboradores, que parecem estar interessados em negar as diferenças ou reinterpretá-las como um “mosaico cerebral” inclassificável como masculino ou feminino, em que todas as pessoas são vistas como “intersexuais” no cérebro. Recomendo lê-los todos e decidir por si quais estão amparados em evidências.

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Boghossian, Paul. “What is social construction?.” (2001).

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Cahill, L. (2006). Why sex matters for neuroscience. Nature Reviews Neuroscience, 7(6), 477–484. http://doi.org/10.1038/nrn1909
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Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Cahill, L. (2015). Diferenças de Sexo no Cérebro Humano. Xibolete | Cerebrum, 5. Disponível aquihttp://xibolete.uk/sexo-cerebral/
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Hines, Melissa. Brain gender. Oxford University Press, 2005.
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Bao, A.-M., & Swaab, D. F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Frontiers in Neuroendocrinology, 32(2), 214–226. http://doi.org/10.1016/j.yfrne.2011.02.007
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Sanders, A. R., Martin, E. R., Beecham, G. W., Guo, S., Dawood, K., Rieger, G., … Bailey, J. M. (2014). Genome-wide scan demonstrates significant linkage for male sexual orientation. Psychological Medicine, 1–10. http://doi.org/10.1017/S0033291714002451
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Resenha crítica do livro de Cordelia Fine:
Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Baron-Cohen, Simon. “‘Neurossexismo’: Homens não são de Marte, Mulheres não são de Vênus e Cordelia Fine não faz jus à neurociência”. Xibolete (2015) | The Psychologist 23.11 (2010): 904-905. Disponível aquihttp://xibolete.uk/neurossexismo/
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Artigo mais recente de Joel et al. alegando que não é possível prever o gênero de uma pessoa com base em características cerebrais:
Joel, Daphna, et al. “Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic.”Proceedings of the National Academy of Sciences 112.50 (2015): 15468-15473. Disponível aqui.
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Respostas a Joel et al. mostrando que estão errados em alegar que cérebros humanos não podem ser categorizados em masculino e feminino:
Del Giudice, Marco, et al. “Joel et al.’s method systematically fails to detect large, consistent sex differences.” Proceedings of the National Academy of Sciences 113.14 (2016): E1965-E1965. Disponível aqui.
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Rosenblatt, Jonathan D. “Multivariate revisit to” sex beyond the genitalia”.”Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (2016). Disponível aqui.
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Chekroud, Adam M., et al. “Patterns in the human brain mosaic discriminate males from females.” Proceedings of the National Academy of Sciences113.14 (2016): E1968-E1968. Disponível aqui.
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Imagem: Forma andrógina de Shiva e Parvati (Ardhanarishvara). Índia, Uttar Pradesh, Mathura, escultura do século II ou III. Em arenito vermelho manchado. Los Angeles County Museum of Art.