24th of February

Ciência, política identitária, transexualidade, ação afirmativa e relativismos


Entrevista originalmente publicada em 30/01/2019 na Gazeta do Povo.

Francisco Razzo: Minha coluna desta semana traz entrevista com o biólogo Eli Vieira, que nos últimos anos tem feito críticas contundentes e consistentes ao relativismo pós-moderno e às políticas identitárias. Para não dizer que só entrevisto pessoas que concordam comigo, Eli Vieira e eu já tivemos oportunidades de debater a questão do aborto e do ateísmo. Temos visões diametralmente opostas a respeito desses temas e nem por isso deixamos de trocar boas ideias.

A propósito, umas das coisas mais importantes que eu aprendi estudando filosofia foi conseguir conversar com pessoas com ideias diferentes das minhas. Não que eu tolere tudo, não sou Gandhi ou Madre Teresa e não faço meditação; dependendo do assunto, meu pavio é bem curto. Mas estou longe de querer ouvir só a minha “patota ideológica” — confesso que não é tão difícil lembrar que a possibilidade de estar errado é uma boa maneira de cultivar a sabedoria.

Nesta entrevista você terá a oportunidade de conhecer uma visão muito provocadora sobre o atual debate da transexualidade, como a biologia pode nos ajudar a pensar a construção da identidade, por que o relativismo é simplesmente um absurdo, como as “minorias” devem ser protegidas e quais os riscos sociais das chamadas políticas identitárias — e, mesmo depois de tudo isso, saber por que ainda permanecemos tribais.

FR: Como você entende o atual debate da transexualidade?

Eli Vieira: É uma guerra de absurdos sendo atirados de todos os lados. De um lado, correndo à defesa das pessoas trans como cavaleiros correm ao socorro de donzelas em apuros em contos de fadas, temos pessoas pouco curiosas sobre o mundo real; aquelas que vivem no mundo das letras e, por isso mesmo, pensam que tudo se resume a esse mundo, tudo é linguagem. Confundem seu paroquialismo das letras com erudição, se radicalizam (como é de esperar em qualquer grupo pouco diverso em ideias), alegam que tudo é “construção social” num determinismo cultural ganancioso e não querem ouvir nada que venha das ciências empíricas. De outro lado, temos os simplistas, cujo entendimento de biologia se resume ao ensino básico: homem = XY; mulher = XX, isso é tudo o que há para dizer sobre o assunto, e querer saber mais é esquerdismo. Parece que os dois grupos se unem na falta de curiosidade. Quanto mais polarização, menos curiosidade.

FR: Há um “lugar-comum” que diz que “a teoria de gênero não pode ter respaldo na biologia”; afinal, qual a importância da biologia na construção da identidade de gênero (se é possível falar assim)?

EV: Estou de acordo com a filósofa Helena Cronin: a invenção do termo “gênero” só nos atrapalhou a entender melhor o sexo. O sexo, em seres humanos, é um fenômeno complexo o suficiente para ter expressões sociais e culturais. Ceifar essas expressões de sua relação com a realidade biológica do sexo faz tanto sentido quanto alegar que “altura” e “estatura” não são sinônimos; que “altura” é a realidade biológica de quantos centímetros um corpo humano pode crescer e que “estatura” diz respeito a uma “estrutura socialmente construída de privilégios para pessoas altas e opressão para as baixas”, para usar um pouco do vocabulário carregado das áreas acadêmicas em que se confunde ativismo com pesquisa.

Um dos principais responsáveis pela adoção do termo “gênero” na psicologia, John Money (1921-2006), foi um pesquisador que recomendou criar o menino David Reimer (1965-2004) como menina, pois David havia perdido o pênis ainda bebê, num erro médico durante uma circuncisão. Money usou o caso para tentar provar que a identidade sexual depende apenas da criação e do ambiente cultural, em vez de ser algo com bases genéticas. A intervenção consistiu também num processo transexualizador, incluindo remoção dos testículos. Money estava errado. Reimer cresceu com disforia, talvez o primeiro caso de disforia de alguém que se identificava com o sexo de nascimento. Abandonou a identidade socialmente imposta de menina, teve uma vida difícil e cometeu suicídio mais tarde.

Uma ideologia popular nas humanidades, que é a que prega que tudo o que somos é construção social, corretamente cataloga todo tipo de crime já feito em nome das ciências empíricas: o movimento da eugenia envolvendo vários cientistas, a castração de pessoas de baixo QI nos Estados Unidos no começo do século 20, o racismo científico etc. Previsivelmente, não cataloga crimes cometidos em nome de seu próprio credo acadêmico da tábula rasa/construção social: além do crime de John Money, temos aqui também Pol Pot, Stálin e Mao Tsé-Tung, que explicitamente diziam que seus cidadãos eram folhas em branco e que, portanto, não havia uma natureza humana que oferecesse resistência aos princípios da revolução socialista (Jean-Paul Sartre, que foi stalinista e maoísta, é citado até hoje para defender que não existe natureza humana – acho que não é coincidência). Tanto o determinismo biológico quanto o determinismo cultural motivaram crimes contra pessoas inocentes.

Engana-se, no entanto, quem pensa que o caso David Reimer prova que sempre, sem falha, a identidade sexual saudável é a observada nas genitálias ao nascer. Estamos só começando a estudar a transexualidade, mas há dois bons motivos para considerar seriamente que é possível que algumas meninas nasçam com pênis e alguns meninos nasçam com vagina. O primeiro é que há uma independência temporal, no desenvolvimento do feto, da formação da genitália e da formação das partes do cérebro que diferem na média entre homens e mulheres. Enquanto a forma da genitália já se faz presente nos dois primeiros meses de desenvolvimento fetal, o cérebro só forma suas conexões neuronais, inclusive as importantes para a identidade sexual, da metade para o fim da gestação. Havendo essa separação temporal, é possível que haja alguma independência nas causas do sexo entre as pernas e do sexo entre as orelhas.

O outro motivo para acreditar que a transexualidade é natural é que, em muitas características, os homens são mais variados que as mulheres. Isso é verdade tanto para características físicas quanto psicológicas, como o QI. Aceitando que há bases biológicas por trás das diferenças de comportamento de homens e mulheres que fazem os dois sexos serem categorias sociais distintas, teremos de aceitar também que alguns homens podem se distanciar tanto da média de homens nessas bases, devido à maior variação masculina, que eles na verdade são mulheres no cérebro. E é por isso que há mais transexuais que se identificam como mulheres que como homens.

Há algumas pesquisas com transexuais indicando que isso é verdade: núcleos de uma parte do cérebro chamada hipotálamo dos transexuais são mais semelhantes ao sexo com o qual se identificam do que ao sexo indicado por suas genitálias de nascença. Já alguns outros estudos mostram que, em algumas características, o cérebro dos transexuais se assemelha ao sexo identificado ao nascer. Teremos de ter paciência e curiosidade para entender as pessoas transexuais, e o estudo delas revelará muito sobre o resto de nós.

Isso não é para dizer que todas as respostas estão na biologia, embora resposta nenhuma no assunto estará completa se ignorar a biologia. Na opinião de Alice Dreger, estudiosa dos intersexuais (hermafroditas) e crítica dos excessos do ativismo, um indivíduo que é um gay muito afeminado numa sociedade poderia ser uma transexual em outra sociedade – essa outra sociedade, ela pensa, seria menos tolerante ao jeito de ser desse indivíduo, fazendo com que ele (ou ela) precise dar “um passo à frente” na afirmação de sua identidade. É uma hipótese interessante e promissora, e em nada contraria a biologia.

De qualquer forma, os dois sexos (incluindo as variações raras dos intersexuais e transexuais) são mais semelhantes que diferentes: somos uma só espécie. E falar mais de sexo que de gênero me parece um bom ponto de partida para que a curiosidade e o respeito falem mais alto que a sanha persecutória das tribos políticas e o fervor moral dos ativistas cheios de certezas. Antes de agir, devemos saber.

FR: Quem acompanha seu trabalho sabe que você é um ferrenho crítico do relativismo pós-moderno; você poderia discorrer quais são as implicações do relativismo e por que é preciso combatê-lo?

EV: A forma mais resumida que eu encontrei para mostrar o problema dos relativismos é o que eu chamo de “a vingança das intuições”: Você pode alegar que não acredita em padrão universal de beleza, mas quando vê uma pessoa com aquela razão entre cintura e quadril, ou entre ombro e quadril, aquele timbre de voz agradável, e aquela pele saudável, sabe que fica impactado(a). Você pode dizer que moral é relativa à subjetividade, à cultura e aos tempos; mas, quando vê um animal sendo torturado, pensa que há algo de realmenteerrado naquilo e se esquece de qualificar “errado para mim” ou “errado para os brasileiros do século 21”, como mandam os relativismos morais. Você pode se pavonear de entendido e dizer que a ciência é só uma narrativa entre várias igualmente boas, que verdade é poder, que quem fala em “verdade” é positivista antiquado; mas, quando é acusado de um crime que não cometeu, quer que a verdade objetiva venha à tona, quer que a investigação seja imparcial, neutra e melhor que meras narrativas fictícias.

Relativismos são projetos falidos, cognitivamente insustentáveis, e seus defensores não se cansam de hipocritamente contrariá-los todos os dias das formas mais banais. A aderência insincera ou autoenganosa aos relativismos é mais uma bandeira política que um fruto do bom pensamento.

Se os relativismos um dia vencerem na disputa de poder, podemos dar adeus a todas as coisas em que esperamos que haja hierarquias baseadas em competência. Um artista não relativista tem uma lixeira cheia de rascunhos abortados. Um artista relativista bota qualquer rascunho na galeria. Um intelectual não relativista busca justificação para suas crenças que escape à sua subjetividade e ao paroquialismo em torno de si. Um intelectual relativista tem incentivo extra para querer ser julgado somente pela aclamação de seus pares, com todos os vieses que isso traz na bagagem.

FR: Na sua opinião, as chamadas “minorias” devem ser protegidas politicamente?

EV: À primeira vista parece que sim, se houver evidência de que são alvo diferencial de dificuldades que não ocorrem aos outros cidadãos – como é o caso dos deficientes, que precisam de rampas, textos em braile etc. Mas devemos saber disso antes de propor que o Estado interfira. A comparação com os deficientes é um balde de água fria proposital: antes de pedir favores do resto da sociedade, é preciso que perguntemos se alguma das outras minorias é mesmo comparável aos deficientes de alguma forma.

Isso não é para insultar as minorias (afinal, deficiência não é demérito), mas para deixar claro que os recursos são sempre finitos e que receber tratamento diferenciado requer motivos sérios como a deficiência. Talvez por saber intuitivamente disso, alguns dos ativistas da causa LGBT, por exemplo, insistem que o Brasil “é o país que mais mata LGBT”. Usam essa alegação para pedir, por exemplo, leis que limitem a liberdade de expressão em nome da causa.

Eu fui atrás da principal fonte dessa alegação, junto com colaboradores. Analisamos os dados. Concluímos que somente 7% do que essa fonte diz serem crimes homofóbicos se confirmam como tais. Portanto, há dúvidas de que o país é realmente tão ruim quanto alguns ativistas tentam fazer parecer com seu ativismo “Cidade Alerta”. Manter a liberdade de expressão intacta parece mais importante que chamar o Estado para agir com base em dados que não são dignos de confiança. Neste caso, a mim parece que a cultura está progredindo por si só, que o Judiciário já fez tudo ou quase tudo o que era necessário para haver igualdade perante a lei, e que, portanto, não há necessidade de clamar por mais Estado nesse assunto, ainda que haja ampla necessidade de a sociedade continuar conversando.

Resultado preliminar da checagem de dados do Grupo Gay da Bahia que a imprensa usa para alegar que o Brasil é o país que mais mata por homofobia. Só 7% dos casos se confirmam. 42% não foram mortes por motivação homofóbica. 47% inconclusivos https://bit.ly/2VxEIfg

Os asiáticos nos Estados Unidos, hoje, estão se saindo melhor que a base étnica que fundou o país (anglo-saxões protestantes), e nisso não devem nada ao Estado. Na verdade, nos últimos séculos, o Estado serviu como obstáculo para eles. Eles são a prova de que programas de “ação afirmativa” não são necessários. Como um golpe de ironia, estão precisando processar a Universidade de Harvard porque políticas de ação afirmativa na seleção de alunos na instituição prejudicam os asiáticos por se saírem bem demais.

Os proponentes das ações afirmativas, portanto, têm o ônus de provar por que pensam que outras minorias são incapazes de sucessos similares sem que os critérios de admissão, seleção e competição sejam ajustados para elas. Como esses proponentes pensam que a diferença entre etnias é mais cultural que biológica (e eu tendo a concordar), precisam procurar explicações na cultura. Evidentemente, a explicação que sempre usam é que a cultura dominante discrimina injustamente as minorias. Essa explicação é verdadeira, mas ela não é a história completa, então há aqui o risco da “mentira por omissão”. Todo fenômeno sociológico tem uma miríade de fatores causais diferentes. Mas, como há dogmatismo político, se agarram à explicação do preconceito e acusam de preconceito quem quer aventar outras hipóteses. Essa é uma postura de inquisidor, não de investigador.

FR: Quais os riscos das “políticas identitárias” para o desenvolvimento do trabalho científico?

EV: Quando eu penso nas faces que eu via no Departamento de Genética da Universidade de Cambridge, lembro de todas as categorias identitárias que tantas pessoas tratam hoje como donzelas em apuros. Vi lá mulheres negras, mulheres muçulmanas com véu, cristãos, ateus, até transexuais (e digo “até” porque são bem menos de 1% da população, então não aparecem em muitos espaços por mero efeito do acaso – aí está uma explicação alternativa à obsessão de creditar tudo a preconceito!). A diversidade que observei ali era apenas um efeito colateral dos valores da instituição: estávamos ali porque nos interessávamos por genética e, por sorte ou determinação, conseguimos fundos para seguir nossos interesses.

Como o interesse em genética é bem distribuído em grupos de identidade e as pessoas são livres para tentar entrar lá, há diversidade identitária em quem tenta. Não sendo essas identidades critério de admissão ou exclusão, o resultado era um grupo fisicamente diverso. Como o interesse em matemática não é tão bem distribuído nas identidades quanto a genética, a cara da plateia nos seminários dos departamentos de exatas deve ser diferente. Certamente é mais masculina, pois os homens herdaram de seus ancestrais masculinos um cérebro mais propenso a se interessar por coisas e abstrações do que pelo tratamento de animais e pessoas. Há evidência científica para essa previsão de qual será a plateia. Pressões sociais para que as pessoas se conformem a estereótipos podem contribuir para manter alguns grupos menos presentes em alguns espaços. Mas pouca pesquisa rigorosa é de fato feita para mostrar o quanto disso está por trás do que observamos.

De qualquer forma, o que importa é que exista a liberdade de seguir nossos interesses, não que os interesses sejam artificialmente distribuídos na população, o que geraria mais profissionais desinteressados e desiludidos. As ciências são investigações que empregam métodos lapidados pela experiência das gerações passadas de cientistas. Os melhores cientistas eram genuinamente interessados em suas áreas, se atraíram naturalmente por elas. A moda ideológica da política identitária leva ao risco de tentar forçar a plateia dos seminários de matemática a ser mais parecida com a plateia da genética, atropelando liberdades e curiosidades genuínas no processo.

Portanto, é uma tendência preocupante para a pesquisa científica, tanto quanto discriminações “clássicas”, talvez mais preocupante que elas. Quando os geneticistas começarem a prestar muita atenção na identidade da colega que está falando, darão menos atenção ao conteúdo do que está dizendo e à qualidade do trabalho.

Pelo que indicam as evidências, não é o racismo, a homofobia, ou a misoginia que estão em grande parte nos genes, mas uma tendência ao tribalismo. Nós somos capazes de usar qualquer coisa, inclusive identidades políticas abstratas, para nos dividirmos em tribos, passando a agir de forma condescendente/simpática a quem consideramos confrades e de forma hostil/desconfiada a quem rotulamos como estranhos ao nosso grupo. São vieses de fábrica da nossa natureza. Podemos enfatizá-los ou desenfatizá-los, mas não nos livrar completamente deles. Insistir nos marcadores de identidade ao fazer política, indicam resultados replicados, é receita certa para exacerbar racismo, homofobia, misoginia etc. Ao menos em se tratando de marcadores de identidade que são ideias, mudar de ideia é possível, embora raro, quando o tribalismo tem essa natureza. Quando o tribalismo é baseado em características identitárias que não escolhemos e das quais não podemos nos livrar, o prognóstico de longo prazo é o desastre, mesmo que a intenção de curto prazo seja a defesa de oprimidos.

31st of December

Não é água, é úgua


Estamos acostumados com a ideia de que a água é H2O e apenas isso, com boas razões. Duzentos anos atrás, se você perguntasse a cientistas / filósofos naturais se a água é infinitamente divisível, muitos responderiam que sim. Hoje sabemos que as moléculas dotadas de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio são o limite do que podemos considerar água, e que, havendo divisões além disso (como na eletrólise), o resultado não será água, mas outra coisa.

Podemos dizer que H2O é o limite ontológico da água nas dimensões espaciais.

Mas podemos dizer também que ainda não sabemos tudo sobre o que é água, pois não temos teorias completas do seu comportamento em condições de turbulência. A turbulência dos fluidos ainda é uma coisa que deixa os físicos perplexos.

Sabemos mesmo, então, que água é só H2O? Essa é realmente a definição de água? Aqui não há escapatória para problemas filosóficos como a definição de definição. Teorias científicas são um esforço de definir da melhor forma possível o que são as coisas que elas descrevem. Se um ser de um universo paralelo nos perguntar o que é água, mas exigir saber como a água se comporta em condições de turbulência, passaremos alguma vergonha.

Recorro ao exemplo da água quando estou pensando em propriedades humanas como sexo, sexualidade, comportamento político, autoengano, motivações explícitas, motivações inconspícuas, valores estéticos, etc.

Façamos a seguinte analogia: dada a dificuldade de gerar agora uma definição da água que dê conta da turbulência, faria algum sentido dizer que temos sim uma definição completa de água, mas que em condições de turbulência temos outra coisa que não é água, mas “úgua”? A invenção do termo “úgua” para separar o conceito de água “bem comportada” do conceito de água sob turbulência parece uma manobra intelectual no mínimo desnecessária.

Penso que a invenção de termos como “gênero” é quase perfeitamente análoga ao que descrevi sobre a “úgua”. Temos o fenômeno sexo, que nada na biologia impede que tenha implicações comportamentais, sociais e culturais. Algumas pessoas tomam a “turbulência” das relações sociais e da herança cultural e consideram que seria melhor separar sexo de “gênero”. Eu discordo, é uma atividade intelectual que não nos ajuda a ter boas definições de sexo, que precisam tomar por completo suas dimensões “bem comportadas” e “turbulentas”.

Outras analogias são uma tentativa de separar entre orientação sexual e identidade de gênero (compreendo os efeitos didáticos, mas não está claro que é uma distinção com diferença); padrão de beleza de atração sexual e “biofilia”; enfim, todas as instâncias em que algum instinto humano pode ter expressões bem além das que os genes podem influenciar de forma direta e determinante.

A ideia por trás do problema é chamada pelos filósofos de “partir a natureza em suas juntas”, ou seja, fazer descrições que não fazem distinções inúteis com motivações políticas, ideológicas ou outras; mas apenas distinções conceituais que correspondem a diferenças reais.

28th of December

Entrevista à Vice sobre Olavo de Carvalho


Como de praxe no meu blog, publico na íntegra minhas respostas a perguntas de jornalistas, já que o trabalho deles requer usar pouco do que digo em resposta a entrevistas. Publiquei na íntegra, por exemplo, uma entrevista sobre genética do comportamento a O Diário, e outra entrevista à BBC sobre ateísmo. Agora, na íntegra, o que eu disse à Vice sobre Olavo de Carvalho. Usaram muito pouco do que está a seguir na matéria original.

VICE: Entre artigos em jornais e postagens em redes sociais, Olavo de Carvalho já acusou o evolucionismo de ser “o pai do comunismo e do nazismo” e que, ao contrário do criacionismo, “não pode ser provado, nem refutado”. Qual sua opinião a respeito? Qual dessas declarações considera a mais descabida ou sem sentido? Apontaria outra(s)? Qual(is)?

EV: É uma afirmação descabida que denuncia uma confusão fundamental entre questões de fato e julgamentos de valor (que filósofos reais não fazem), e, além disso, é uma tentativa de uso da falácia de culpa por associação para tentar desacreditar uma teoria muito bem embasada em evidências, especialmente hoje, com a genética molecular. Por muitos séculos, os marinheiros sofreram com o escorbuto, que é o resultado de deficiência de vitamina C. Durante todo esse tempo, eles carregaram genes para a produção de vitamina C no próprio corpo, mas um deles, o gene GLO, foi desligado por uma mutação. Todos os primatas antropoides carregam essa mutação, que ocorreu no nosso ancestral em comum milhões de anos atrás, e, por isso, se postos num ambiente pobre em vitamina C como uma caravela portuguesa do século XVI, também sofreriam de escorbuto. Já os cães e gatos não sofreriam, pois produzem a própria vitamina C. Evidências como essa são a razão do domínio inconteste da teoria da evolução sobre todas as ciências biológicas. Darwin jamais leu Marx, apesar de serem contemporâneos, e, como mostrado num livro biográfico chamado “A Causa Sagrada de Darwin” (Desmond & Moore, 2009), Darwin não apenas descendia de dois avós abolicionistas, como era contra o racismo e a escravidão, e portanto também seria contra qualquer outra forma de opressão racial como as premissas do nazismo. Mesmo se Darwin tivesse sido uma má pessoa, isso em nada afetaria a teoria da evolução. Se ele não tivesse nascido, a pessoa famosa por ter proposto a teoria seria Alfred Russell Wallace, co-descobridor independente da seleção natural.

Olavo também já afirmou que Darwin plagiou o próprio avô Erasmus na proposição da teoria, mas Erasmus apenas escreveu um poema chamado Zoonomia em que defendia ideias similares às do francês Lamarck, faltando ali o principal, que era a seleção natural, à qual Darwin chegou como analogia da seleção artificial de pombos, cães e outros animais domesticados. Olavo também escreveu que os biólogos de hoje consideram falsa a seleção natural. Quase sempre que fala de ciência, Olavo não sabe do que está falando. E é algo preocupante para alguém que quer ser reconhecido como filósofo, pois algum contato com a ciência é importante nesse sentido, sendo a ciência uma filha da filosofia.

VICE: Em 2006, o senhor elaborou um abaixo-assinado pela “refutação das imposturas intelectuais de Olavo de Carvalho”. Nele, diz que o colunista “trava uma batalha contra o conhecimento científico, especialmente contra a evolução biológica” e “não parece estar minimamente credenciado ou capacitado para falar de ciência”. Doze anos depois, o que mudou? A que o senhor atribui o fato de Olavo de Carvalho ser um “negacionista científico”? O que há por trás disso?

EV: Eu tinha 19 anos quando fiz o abaixo-assinado, e hoje me parece uma ideia meio boba fazer um abaixo-assinado pela refutação de erros científicos. O número de assinaturas nada faz pelos argumentos, mas ao menos mostra alguma oposição e protesto pela má escolha de colunista por parte dos jornais. Eu poderia simplesmente ter escrito cartas a esses jornais respondendo às falsidades que Olavo estava divulgando sobre ciência. No entanto, como muitos sabem, produzir bobagens demanda muito menos energia do que refutá-las, e é uma tarefa ingrata sair desmentindo cada falsidade que o professor Olavo emite no mundo. Ainda não sei se ele faz de propósito, provavelmente não, mas deveria aprender a virtude da humildade no campo da ciência.

O professor não é exatamente um “negacionista” da evolução, ele alega que é neutro a respeito da sua veracidade. No entanto, jamais chegou a mim qualquer crítica dele aos criacionistas, o que levanta dúvidas sobre esse suposto agnosticismo. Há ao menos um motivo que explica a desconfiança dele contra a comunidade científica e o mundo acadêmico em geral, que é a prevalência de opiniões de esquerda nesse meio. Segundo uma pesquisa de Mitchell Langbert deste ano, há 21 professores de esquerda na biologia para cada professor de direita nas 51 melhores universidades americanas. Nas humanidades a desproporção é ainda maior, na sociologia é 44 para 1, e zero professores de direita (Republicanos) foram achados na área da comunicação e da antropologia entre mais de 5 mil amostrados. Não creio que a biologia precise refletir a proporção de opiniões políticas da população em geral, mas a quase ausência de discordância política em áreas que formam jornalistas e sociólogos gera um problema sério, pois são áreas mais destacadas das evidências empíricas, em que a popularidade entre os colegas às vezes é o mais importante critério de julgamento da qualidade do trabalho. Olavo tem razão em se preocupar com isso, mas Jonathan Haidt e a organização Heterodox Academy fazem um trabalho melhor que ele em analisar o problema.

Não creio que não haja valor algum na obra dele; algumas coisas que ele afirma sobre uma aprovação de autoridades ao declínio nos padrões de arte e cultura me parecem corretas. Algumas críticas à esquerda que ele faz são pertinentes. Mas, se eu fosse um conservador, eu preferiria mil vezes ler Roger Scruton, Thomas Sowell, John Kekes e Burke a ler o Olavo, pois o ruído de teorias da conspiração, grosserias e ataques à ciência seria muito menor.

VICE: Considerado o mentor intelectual de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho já indicou, até o momento, dois ministros: Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores. Quais as chances de essas e outras teorias pseudocientíficas, como o criacionismo, por exemplo, serem incorporadas, aos poucos, ao currículo escolar ou, quem sabe, influenciar as decisões do futuro presidente? Por quê? 

EV: Intelectuais adoram exagerar a sua importância no mundo. Acho um enorme exagero creditar a Olavo de Carvalho alguma parte importante na eleição de Jair Bolsonaro, ao menos uma parte tão importante quanto as descobertas da Lava Jato e a recessão econômica resultante das péssimas políticas econômicas do PT, por exemplo. Sobre as nomeações, é importante ver caso a caso, se é verdade que o indicado foi indicado por competência. É importante lembrar ao presidente eleito que essa foi a promessa: nomear ministros por competência, e não por alinhamento ideológico. E parece que às vezes ele se esquece da promessa. Na minha opinião, Olavo acertou numa dessas indicações e errou na outra. Então ele geralmente tem a mesma probabilidade de acerto que o lançamento de uma moeda.

26th of September

De onde vem o autoengano?


Psicanalistas propunham que o autoengano é uma forma de o “ego” proteger a si mesmo. Pois, sendo doloroso reconhecer que se está enganado em alguma crença, o tal “ego” usaria um arsenal de defesas psicológicas (negação, racionalização etc.) para se proteger da dor psicológica de estar errado.

O problema dessa explicação é que ela é só um exercício de classificação — sistematização que somente aponta algumas coisas e bota nelas um nome. Não é uma investigação das origens desse tipo de comportamento. Entender as origens é importante, afinal, o autoengano pode até botar nossa vida em risco, quando diante de doenças e comportamento de risco mentimos para nós mesmos que estamos saudáveis (a maioria das pessoas superestima a própria saúde e aptidão física). Isso gera um enigma para as nossas origens, que estão na evolução biológica. A seleção natural em tese não deveria nos dotar de formas de diminuir ativamente nossas chances de sobrevivência e reprodução.

Mas há um fato sobre nossas origens que ajuda a explicar o autoengano: nossa espécie surgiu não apenas sobrevivendo a intempéries ambientais, mas também sobrevivendo a disputas sociais, nas quais um indivíduo enganar a si mesmo pode ser uma boa estratégia a depender do contexto social. É importante lembrar que estamos falando aqui de crenças que nós realmente temos sobre nós mesmos, com sinceridade, não mentiras. A mentira é muito mais difícil, pois o mentiroso precisa se lembrar de todo o cenário que precisou inventar e manter a aparência de que acredita na falsidade que está emitindo. Mentir é cansativo! O autoengano, que é energeticamente mais barato, volta a falsidade para dentro porque ela nos beneficia no ambiente social. Usando a máscara com sinceridade, nesse contexto nossas chances de sobreviver e reproduzir aumentam. Assim, pensar no autoengano num contexto evolutivo o explica de forma melhor do que a psicanálise jamais sonharia em fazer.

Para fins didáticos e tendo em mente essas explicações, podemos classificar o autoengano nas seguintes estratégias:

– Se fazer de maluco. Uma pessoa perfeitamente racional pararia uma disputa de poder ou luta de acordo com suas reais chances de vencer. Mas um bom lutador de boxe continua alegando que é o mais forte até perder a consciência na lona. Ao sinalizar que acredita em si até as últimas consequências, o blefe sincero de quem se faz de maluco pode dissuadir seu competidor de tentar fazer o mesmo. É, em outras palavras, uma boa estratégia no jogo. O maluco está disposto a fazer qualquer coisa para vencer, mesmo se isso significa um alto custo para si. No jogo do “frango”, em que dois motoristas avançam na contramão um do outro até que o perdedor desvie a direção por medo, ganha o maluco que arrancar o volante e o jogar pela janela.

– O cão leal. É a pessoa que realmente acredita nas coisas mais malucas não porque avaliou evidências ou argumentos, mas porque (e ela própria não sabe disso) acreditar sem verificar é uma sinalização de lealdade a uma tribo. Qualquer semelhança com quem insiste que Lula não sabia de nada, que a delação dos empreiteiros está toda errada, que pedalinhos com os nomes dos netos no sítio em Atibaia são só sinal de hospitalidade do real dono do sítio, etc., não é mera coincidência. Exemplos em outras tribos políticas são facílimos de encontrar.

– O propagandista. “Eu sei que isso é verdade”, diz esse. “Acredite comigo!” Esse tipo de autoengano é bem comum em quem vem às redes sociais não porque quer discutir ou apresentar um ponto de vista de forma clara, mas porque quer demonstrar *CONVICÇÃO* de alguma coisa. “Nossa”, pensam os que acreditam no autoengano do propagandista, “se ele fala com esse nível de confiança, deve saber do que está falando”. Malafaia é muito bom nisso, e eu acredito que ele muitas vezes é sincero. Quando respondi à sua alegação de que genética nada tem a ver com homossexualidade, cinco anos atrás, ele fez uma tréplica cheia de confiança, desfilando falácias de ataque pessoal contra mim. Eu, o biólogo acostumado com as incertezas e com seguir o que as evidências permitem que eu afirme, não podia demonstrar o mesmo nível de autoconfiança que Malafaia. E por isso mesmo não fui tão convincente para alguns quanto ele poderia ser: porque ele realmente acredita que está certo, e fala com convicção.

– O trapaceiro. “Respeito a sua opinião”, diz com convicção alguém que pensa que a tal opinião é falsa ou até imoral. A pessoa realmente acredita que RESPEITA algo que pensa que é errado. O que significa isso, afinal? Logicamente não faz muito sentido. Significa que a pessoa está tentando enganar a si mesma que seus motivos são todos puros, e que se ela discorda (e geralmente não quer fazer trabalho nenhum para mostrar que a certa é ela), ao menos ela “respeita” a opinião abjeta que se recusa a avaliar. Está sendo preguiçosa, tentando trapacear as regras de honestidade e diligência intelectual, mas todas as suas motivações são supostamente cândidas.

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Com ideias do livro “The Elephant in the Brain: Hidden Motives in Everyday Life”, de Kevin Simler e Robin Hanson

20th of September

Rachel Dolezal: resultado de abuso infantil, pós-modernismo e redes sociais


Assisti ao documentário “O Caso Rachel Dolezal”, disponível na Netflix. Reconta a história da americana branca que atraiu a ira da maioria dos ativistas raciais americanos, e também de seus críticos, ao dizer que é negra. Por todo o ano de 2016 Dolezal foi alvo de escárnio público, além de alguns comentários anônimos ameaçadores nas redes sociais. Nos Estados Unidos, em que grande parte do ativismo aceitou o antigo critério racista de “uma única gota de sangue” na ancestralidade como suficiente para uma identidade negra, como se a condição de ser negro fosse uma contaminação hereditária em vez de uma origem participante na miscigenação, não seria de se surpreender que Dolezal fosse aceita por muito tempo como negra. Outros americanos que se dizem negros são tão brancos quanto Dolezal. O ativista Shaun King é um deles.

Shaun King, ativista antirracismo que se diz negro.

A polícia e a imprensa local acusaram Dolezal de forjar crimes de ódio contra si mesma ao presidir uma seção local da NAACP, Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor [sic], uma das mais importantes organizações do ativismo racial nos Estados Unidos. Alguns colegas de Dolezal na associação estranhavam que ela recebesse tanta correspondência de ódio que não era tão intensa para os presidentes anteriores com tonalidade de pele mais escura.

Até aqui, parece que há mesmo motivo de sobra para detestar Rachel Dolezal. Como mostra o documentário, ela tentou, com bastante coragem e diligência, restaurar a sua reputação e se fazer entendida. Falhou repetidamente: toda vez que aparecia na imprensa, só aumentava a quantidade de comentários negativos contra ela. Lançou um livro, mas o livro vendeu menos de 600 cópias no lançamento. Dolezal, mãe solteira de três filhos, estava tendo dificuldades de pagar o aluguel. Até que veio o documentário, e, dessa vez, ela conseguiu: o documentário tem sucesso em mostrá-la como um ser humano na maior parte benigno e bem intencionado, embora a veracidade dos “crimes de ódio” contra ela anteriores à revelação de suas origens continue em aberto.

Dolezal cresceu numa família chefiada por um casal de fundamentalistas religiosos que usavam a vara na educação dos filhos como manda a Bíblia. O casal sempre deixou claro para Rachel, filha biológica mais nova, que ela quase matou a mãe no parto. No registro de nascimento, consta Jesus Cristo como parteiro. Pelos depoimentos de Rachel e também sua irmã adotiva negra, ela sempre foi tratada como inferior ao irmão mais velho. A irmã de Rachel mostra marcas persistentes de açoites dados pelos pais adotivos. Estranhamente, o “filho” mais velho de Rachel era um de seus irmãos adotivos negros. Para piorar a situação, as duas irmãs acusam o irmão mais velho de abuso sexual, e antes do escândalo estava tramitando uma ação judicial contra ele por isso, o que pode ter motivado os pais a vir à imprensa para expor a filha ativista como falsa negra e testemunha não confiável no caso. Quando contempla a possibilidade de voltar a se declarar branca, Rachel chora, dizendo que isso seria voltar a ser alvo da punição de seus pais.

Rachel Dolezal é, portanto, uma pessoa com problemas de identidade resultantes de abuso infantil. Mas, evidentemente, não seria assim se raça não fosse tratada como um ponto tão saliente da identidade nos Estados Unidos, cultura que a cerca. Também provavelmente não seria assim se ela tivesse conhecimentos mais objetivos sobre raça. Em vez disso, ao buscar saber mais, o que ela encontrou foi pós-modernismo: raça é uma construção social, dizem os abundantes livros sobre o tema. Se é assim, por que não poderia ser simplesmente adotada, mudada como uma peça de roupa? É adágio do pós-modernismo, movimento intelectual difuso da esquerda acadêmica, declarar todo tipo de coisa construção social. A mania é tamanha que já foi documentada em livro por Ian Hacking e, no caso da raça, é repetida até por geneticistas que deveriam saber melhor. Ao estudar a estrutura genética da humanidade, os geneticistas decidiram abandonar o termo “raça”, para se afastarem da história eugenista da própria genética. No entanto, são distinguíveis cinco ou seis grandes “estruturas” da população humana, de distintas origens geográficas, que num mundo menos politicamente correto ou traumatizado pelo racismo poderiam sem problemas ser chamadas de raças, como já são seus correlatos no senso comum. Mas não param no construcionismo social as marcas de confusão pós-moderna na cabeça de Rachel Dolezal. Ela também usa o relativismo epistemológico e abusa de subjetivismo: se sinto que sou negra, sou negra, não importa que o grupo seja definido por um fenótipo que eu não tenho, e que o nome do grupo seja o nome de uma cor que não está na minha pele. Negações da realidade como essa têm amplo apoio na intelectualidade relativista e subjetivista do mundo acadêmico — ou teria, se fossem coerentes com essas ideias. Não são coerentes, pois essas ideias são um verniz de destacamento e tudo-vale em cabeças que na verdade se comportam com muito engajamento político e absolutismo moral cheio de certezas inabaláveis. Daí inventarão complicações para negar a identidade negra escolhida de Dolezal, ou praticarão seu costumeiro autoritarismo censor, como fizeram com Rebecca Tuvel, uma acadêmica que tentou ser coerente analisando o caso com essas ideias.

Também não é possível ignorar, no caso de Dolezal, o fenômeno das redes sociais. Ela diz que as redes sociais são a última forma de continuar “no mundo” após ser ostracizada, mas isso obviamente não é verdade. Insistir na identidade controversa não deixa de ser uma forma de narcisismo, bem compatível com o show de egos das redes sociais, um ambiente tóxico para a saúde psicológica de qualquer um.

Mas não é preciso complicar. Num mundo mais racional, raça é uma coisa simples: um conjunto de fenótipos correlacionados e ligados a certas origens geográficas de distintos grupos humanos, sem fronteiras muito definidas, especialmente em caso de miscigenação. Não é uma “cultura”, embora algumas variantes culturais também possam estar correlacionadas a variantes raciais.

O caso Dolezal e tantos outros mostram uma linha imatura de pensamento do ativismo racialista em que, na esperança de eliminar o viés antinegros em todas as suas facetas, busca-se adotar marcas de fenótipo negro (incorretamente chamadas de “cultura”) como honoríficas. Se Dolezal se diz negra por adotar uma suposta “cultura” negra, por que precisa do acessório do cabelo de textura mais típica do fenótipo negro? Isso não é cultura, é biologia. Nesse ativismo imaturo, pensa-se que o remédio contra um viés antinegros é um viés pró-negros excessivo, que termina por tratar negros com condescendência infantilizante e que alimenta a identidade de coalizão racial, o que por tabela mantém vivo o racismo. Para diminuir o racismo ao mínimo possível, é necessário jogá-lo fora junto com esse tipo de ativismo e esse tipo de coalizão. As verdadeiras ferramentas antirracismo estão no estímulo a outros tipos de identidade social que não a raça: time de futebol, religião, partido político, associação de moradores, etc. O problema é que essa solução respaldada pela ciência não tem o mesmo sucesso em dar carreiras para ativistas, e ativistas profissionais naturalmente não gostarão de soluções que tornam as suas carreiras obsoletas.

Se depender da obsessão com a raça tanto de racistas quanto de antirracistas, Dolezal continuará sofrendo em sua confusão identitária.

P. S.: Por que o foco em raça mantém vivo o racismo?

“Estudos anteriores estabeleceram que as pessoas codificam a raça de cada indivíduo que encontram, e o fazem através de processos computacionais que parecem ser tanto automáticos quanto obrigatórios. Se verdadeira, essa conclusão seria importante, porque a categorização dos outros por sua raça é uma pré-condição de tratá-los diferentemente de acordo com a raça. Aqui, relatamos experimentos que, usando medidas discretas, mostram que a categorização de indivíduos pela raça não é inevitável, e apoiam uma hipótese alternativa: que a codificação pela raça é na verdade um produto reversível de um maquinário cognitivo que evoluiu para detectar alianças de coalizão.

Os resultados mostram que os indivíduos codificam afiliações de coalizão como uma parte normal da representação de pessoas. De forma mais importante, quando pistas de afiliação a coalizões não seguem nem correspondem mais à raça, os indivíduos reduzem marcadamente a medida da categorização dos outros peça raça, e de fato podem parar totalmente essa categorização.

Apesar de passar a vida inteira usando raça como um preditor de alianças sociais, menos de quatro minutos de exposição a um mundo social alternativo foram suficientes para diminuir a tendência a categorizar pela raça.

Esses resultados sugerem que o racismo pode ser um constructo volátil e erradicável que persiste apenas se for ativamente mantido através da associação a sistemas paralelos de aliança social.”

Este é o resumo do artigo de 2001, publicado na PNAS, de Robert Kurzban, John Tooby e Leda Cosmides (ênfases minhas). Os resultados do artigo foram replicados com sucesso em 2014 por Wouter Voorspoels e colaboradores.

O estudo sugere que a política identitária racialista, que é o tratamento da raça como um fator saliente de identificação social, é diretamente responsável pela manutenção e perpetuação do racismo, não importa quão boas sejam as intenções.

A maioria dos ativistas anti-racismo está enganada. Como dizia o próprio Milton Santos muito antes desse estudo ser publicado, insistir em uma identidade “afrobrasileira” em vez de apenas brasileira não é algo que ajuda a combater o racismo realmente. Sem falar no governo categorizando as pessoas pela raça e as tratando difereciadamente com base nisso…

E mais: o desdém dos intelectuais pelas atividades de coalizão populares que nada têm a ver com raça está, desse ponto de vista, completamente errado também. Quanto mais as pessoas se identificarem como torcedoras de times de futebol, membros da associação de bairro e até igrejas, membros de algum clube besta pra se sentirem importantes, melhor. Isso do ponto de vista de combater o racismo, que não parece ter bases biológicas diretas. As bases indiretas são um tribalismo genérico que pode ser aplicado a qualquer coisa.

5th of September

O que é preconceito, afinal? Discutindo o preconceito com calma e contra a irracionalidade ativista dos nossos tempos


Em tempos em que as pessoas usam a sua postura contra o preconceito como o pavão usa o rabo dele, faz-se necessário pensar com alguma precisão o que é preconceito afinal. Assim poderemos ter esperança de distinguir a preocupação genuína com justiça do mero adorno.

Essas são as definições do dicionário Priberam, mantido por portugueses e meu favorito na nossa língua (eles inventaram essa joça, então devem saber do que estão falando):

pre·con·cei·to
(pre- + conceito)
substantivo masculino
1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial.
2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objectivos. = INTOLERÂNCIA
3. Estado de abusão, de cegueira moral.
4. Superstição.

O dicionário serve para capturar o significado dado pelo uso das palavras, e isso é importante: é o uso que faz o significado. O sentido das palavras que usamos depende literalmente de um concurso de popularidade de sentidos nos contextos sociais em que as usamos. Mas, como as palavras denotam coisas que estão no mundo, e o preconceito é uma delas, raramente os significados propostos pelo dicionário são satisfatórios.

O dicionário é útil aqui, em primeiro lugar, para afastar o jeito mais preguiçoso de definir preconceito: o uso literal da etimologia. Não, o preconceito que nos interessa aqui, que é o tipo social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta, não é simplesmente “pré-conceito”, como a etimologia parece sugerir. Se fosse só isso, significaria que todas as crianças são ativamente preconceituosas, quando são só ignorantes, com uma ignorância geralmente benigna: só têm noções superficiais das coisas (pré-conceitos) até aprenderem conceitos sobre elas. A etimologia é via de regra um guia impreciso para o sentido das palavras: ao menos na matemática, “cálculo” não é uma pedrinha (sentido literal da palavra de origem no latim), embora na nefrologia ainda seja. O Priberam dá a etimologia de preconceito, como é comum em dicionários, mas não a lista como definição. No entanto, a definição 1 parece influenciada pela etimologia. Tudo bem, há frases em que usamos realmente esse sentido: “meu preconceito sobre abrir uma empresa é que precisarei de muito capital inicial”.

Perceba que já comecei a definir de que preconceito estamos falando ao diferenciá-lo da definição influenciada pela etimologia. Mas eu não precisei fazer isso antes: apostei que o primeiro sentido de preconceito que você pensou ao ler o título deste texto foi justamente o social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta. Pois é um uso comum da palavra, especialmente nos nossos tempos, e o uso — com o perdão da repetição — faz o significado.

Pois continuemos. Na definição 2, sugere-se o sinônimo “intolerância”, e que o preconceito não é baseado em dados objetivos. É aqui que começaremos a nos distanciar do dicionário. Sempre que o assunto é tratado, é comum que se diga que preconceito tem a ver com estereótipos e que estereótipos são ideias imprecisas sobre certos grupos de pessoas. Manchetes de jornal e palavras de ordem chegam a tratar estereótipo como uma coisa intrinsecamente negativa que precisa ser quebrada, talvez sinônimo de preconceito (que as definições 3 e 4 também tratam como imoral, o que discutiremos a seguir sem voltar a elas).

Um fato testado e retestado pela psicologia social é que os estereótipos são precisosO estereótipo de que meninos gostam de carrinhos e o estereótipo de que meninas gostam de bonecas, por exemplo, mais acertam do que erram: englobam a maioria das meninas e dos meninos, deixando de fora as exceções. É isso o que queremos em qualquer teoria sobre a sociedade: que seja precisa o suficiente, descreva com sucesso a maior parte do grupo estereotipado. De fato, algumas das teorias mais respeitadas na própria psicologia social não chegam ao grau de precisão dos estereótipos. Sobre a precisão deles, as pesquisas mostram outra coisa interessante: os estereótipos são estatísticas intuitivas, que as pessoas formam por sua própria experiência como coletoras intuitivas de dados. E mais: as pessoas são racionais, atualizam suas crenças de acordo com novas informações: ao saberem de informações individualizadoras sobre uma pessoa, elas geralmente deixam de julgá-la com base nos estereótipos dos grupos aos quais essa pessoa pertence. E, se virem um número suficiente de pessoas de algum grupo com informações individualizadoras que contrariam o estereótipo, ele é atualizado com as novas informações.

Evidências empíricas mostram, portanto, que não serve alegar que o preconceito é baseado sempre em informações falsas. É importante aqui lembrar que os dados são coletados pela experiência. E que os estereótipos são levados em diferentes versões em cada cabeça, se cada cabeça tiver uma experiência diferente. Mas há consensos de estereótipos e esses são os mais precisos, assim como na ciência as teorias mais corroboradas são as que nascem de consensos de diferentes áreas de pesquisa: a evolução biológica, por exemplo, é apoiada por um consenso de geneticistas, paleontólogos, zoólogos, botânicos, microbiólogos etc., com base em diferentes evidências que contam a mesma história.

Se o preconceito pode ser baseado em informações verdadeiras, qual é o motivo de tanta desaprovação? Ainda é errado ter preconceito? A resposta é sim, nessa definição revisada:

pre·con·cei·to

  1. Juízo de valor moralmente enganoso sobre informações verdadeiras ou falsas a respeito de grupos de pessoas; frequentemente acompanhado de
  2. atribuição falaciosa de causa inevitável entre características biológicas ou identitárias (falsas causas) e mau comportamento (falsa consequência); e também
  3. atitude autoritária segundo a qual um indivíduo tem o dever de se comportar em conformidade com estereótipos a respeito de grupos aos quais pertence.

Creio que assim fica claro qual é o problema de ser preconceituoso e qual trabalho as pessoas contrárias ao preconceito deveriam estar fazendo.

Qual é o problema do preconceito, em três exemplos seguindo as três partes da definição:

  1. Não é que é falso que homens homossexuais são mais “promíscuos” que outros grupos de sexualidade: quem pensa que fazer muito sexo é antiético é que tem responsabilidade de mostrar que é mesmo imoral. Se não há problema moral inescapável na quantidade de sexo que gays fazem, a condenação desse comportamento é preconceituosa: é um juízo de valor enganoso.
  2. Não é que nunca é verdade que assaltantes são negros: em determinadas áreas, esse é um estereótipo preciso para boa parte dos assaltantes. No entanto, quem acredita que a causa do comportamento de roubar as pessoas com ameaças de violência é a cor da pele e demais características raciais de pessoas negras está enganado e é preconceituoso.
  3. Não é mentira que poucas mulheres gostam de engenharia e programação. Mas isso definitivamente não é desculpa para tentar obrigar Maria da Silva, uma engenheira de software, a largar a área, ou para alegar que ela não deveria ter entrado na área. Essa atitude e essa opinião são imorais, autoritárias e preconceituosas.

Atitudes recomendáveis para combater as três facetas do preconceito:

1. Discussão moral racional do julgamento de valor enganoso, para demonstrar que é mesmo enganoso. A vida sexual agitada dos gays solteiros não parece, à primeira vista, ser imoral. Afinal, estamos falando de pessoas adultas buscando o prazer privado com consentimento. O resultado disso é mais felicidade no mundo. Do ponto de vista dessas consequências, é perfeitamente moral. Do ponto de vista da liberdade, imoral seria impedi-los. Alguém pode dizer que essa “promiscuidade” pode resultar na propagação de doenças venéreas e, a longo prazo, depressão e falta de sentido na vida por ser correlacionado com falta de sucesso em relacionamento amoroso. Há respostas para isso: há prevenção para as doenças (e no caso, imoral é quem não se previne e põe outras pessoas em risco, e o problema deixa de ser a quantidade de sexo); e há relacionamentos abertos. O debate pode continuar, e pode até ser que alguém demonstre no futuro que excesso de sexo realmente é imoral. Neste caso, o preconceito é bom? Não, pois aí teremos a parte 2 da definição: ser gay não é a causa inescapável de ser promíscuo, portanto condenar a homossexualidade junto com a promiscuidade não faz muito sentido.

2. Para combater a segunda faceta do preconceito, é necessário ter curiosidade disposição para trabalhar em achar respostas. Duas coisas muito em falta na maior parte dos ativistas. E, para ser curioso e diligente, é preciso não ter medo do autoritarismo politicamente correto, que é uma resposta errada ao preconceito. É preciso não ter medo de achar informações que confirmem estereótipos, por saber que há uma separação rígida entre descrever como as pessoas são e julgar como deveriam ser. Não há, até hoje, motivo para suspeitar que ser negro causa uma propensão ao crime (para continuar no exemplo de preconceito dado antes). Mesmo se, em hipótese, as evidências levassem para esse lado, não há motivo para pânico ou para concordar com racistas: nós já sabemos com bastante segurança que as pessoas não são autômatos de propensões e que indivíduos sempre podem decidir não cometer crimes. Para forçar mais uma hipótese, e mais mirabolante: mas e se as pessoas forem autômatos? Afinal, há filósofos que não acreditam em livre arbítrio. Neste caso, a interpretação da informação precisaria ser muito mais afastada da punição do que seria hoje. Pois, como esclareceu Kant, “dever” implica “poder”: se um indivíduo não tem capacidade de agir diferente (não tem livre arbítrio), então não faz sentido alegar que ele deveria agir diferente, muito menos puni-lo. Mas não precisamos nos perder em especulações filosóficas: independentemente da diversidade das pessoas que cometem um crime, o problema moral continua sendo o crime, não as características biológicas ou identitárias das pessoas que o cometem, que provavelmente não são as causas mais determinantes do crime.

3. A solução para a mania dos preconceituosos de alegar que você deve se comportar de acordo com algum estereótipo não é a alegação falsa e popular de que o estereótipo não corresponde em nenhuma medida à realidade. Muito menos, como também é popular entre ativistas, criar políticas autoritárias que forçam “representação” de algum grupo em algum lugar em que ele é incomum. A solução é realçar a importância da liberdade, a importância de poder agir diferente das outras pessoas. A solução é também apontar para as qualidades de quem é exótico, excêntrico, incomum. Ninguém gosta de ser só mais um na multidão, sem nada em que se destaca. Apelemos para a empatia (mania de ativista, mas fazem errado também): se o preconceituoso não é igual aos outros em relação a alguma característica dele que é incomum (e sempre tem uma), por que você não pode destoar do estereótipo? Se ela é uma enfermeira apaixonada por Fórmula 1, por que você não pode ser um gaúcho que não gosta de chimarrão?

Com a idade as pessoas perdem velocidade no aprendizado de coisas novas. Não surpreende, portanto, que geralmente as pessoas mais preconceituosas da família são as mais velhas: elas não atualizam tão bem os estereótipos com base em novas informações, e elas fazem julgamentos morais inadequados sobre esses estereótipos sobre os quais os jovens se debruçaram e pensaram melhor. Na nossa sociedade, idade está correlacionada com menos oportunidades educacionais. Também não surpreende que as pessoas menos escolarizadas costumem ser consideradas mais preconceituosas. Esses são dois estereótipos sobre pessoas mais idosas e sobre pessoas com baixa escolaridade, que — agora sem surpresa para nós — são precisos, e coincidem com as pesquisas de opinião sobre grupos como os gays ao menos no último caso.

Cito isso porque também é o estereótipo das pessoas preconceituosas: mais velhas, menos escolarizadas, talvez com algum problema mental. Pensando assim, estereotipadamente, é até possível também repensar preconceitos contra preconceituosos, e lembrar que quem tem preconceito também é um ser humano, e que as respostas ao preconceito não precisam escalar a intolerância. Se não praticaram a discriminação injusta, mas só expressaram pensamentos intolerantes, por exemplo, é justo que os preconceituosos percam seus empregos, sejam forçados a uma vida de privação, ou sejam vítimas de agressões físicas? Sendo o preconceito imoral, tudo a respeito dele deve ser também ilegal? Certamente uma sociedade em que tudo o que é imoral é também ilegal é um Estado policial opressivo. Entendendo melhor o preconceito, ficamos mais preparados para agir contra ele da forma mais eficaz e humana, sem gritaria e sem pânico.

26th of July

Faça aqui o teste de QA – Quociente de Autismo


Traduzi e implementei como um programa o teste de QA — quociente de espectro do autismo. Não é uma ferramenta de diagnóstico, mas um indicador para quem tem dúvidas. O resultado mostrará um gráfico com a curva de distribuição de notas no teste da população em geral, a curva das notas de pessoas com autismo altamente funcional ou síndrome de Asperger, e uma linha verde posicionando a sua nota no teste. Quanto mais à direita no gráfico estiver a sua linha (quanto maior o seu QA), maior é a probabilidade de você estar no espectro do autismo. Meu programa não salva os seus dados. Em caso de dúvida ou preocupação com o resultado do teste, procure orientação médica.

13th of June

Você tinha razão: honestidade intelectual e falibilidade na prática Um pequeno exercício autobiográfico de mea culpa


Há menos de cinco anos, eu comecei a fazer ativamente o que muita gente recomenda da boca pra fora: ler e considerar calmamente as ideias de quem eu considerava defensor do exato oposto do que eu defendia. Não tenho total crédito por isso: colecionei amigos que estão dispostos a seguir o coelho para dentro da toca, muitas vezes mais que eu, e que puxaram o meu pé antes de entrar, me derrubando das minhas posições confortáveis e crenças sem mínima justificação.

Vamos sair do campo abstrato: eu era um típico membro da dita “esquerda progressista”. Co-fundador de uma das associações secularistas/ateias mais conhecidas da América Latina. Ousado defensor de tudo o que me parecesse verdadeiro e fosse impopular. (Talvez isso tenha a ver com a minha homossexualidade, que impôs uma necessidade de não ser o que queriam que eu fosse, e há tanto um lado bom quanto um lado ruim nisso.) Quando atraí a atenção de milhares de pessoas com uma resposta cientificamente embasada ao Silas Malafaia (da qual me orgulho), deixei claro nas redes sociais: “sou feminista, defendo o direito ao aborto, defendo os direitos dos LGBT, denuncio o racismo”, etc. Não se empolguem nem temam pela conclusão desse parágrafo: em certos sentidos, ainda sou tudo isso, mas agora com mais vergonha de sinalizar virtudes, um dos males dos nossos tempos: muita sinalização, pouco trabalho.

Claro, já não uso nem recomendo usar o termo “feminista”: na maioria dos casos, é uma coisa tola, pois ao adotá-lo você já está botando o foco em você mesmo(a), em vez de no diagnóstico do problema e prescrição cuidadosa e crítica das soluções (sem falar em propagar falsos problemas com estatísticas sem fonte, que são fofocas matemáticas). E, ao fazer isso, você está convidando seus instintos mais primitivos de lealdade a tribos para tomar a frente na sua imagem, apresentação e até estilo de vida, em vez de se focar em apresentar razões para o que você pensa. E, antes de você apresentar suas próprias razões, você tem a responsabilidade de não ignorar totalmente o que já foi feito no passado a respeito: fazer uma amostragem representativa do trabalho já feito não só é virtuoso, é uma norma do bom pensamento e uma marca de respeito aos seres humanos que já trabalharam no problema. Em resumo: palpitar sem estudar é outro mal dos nossos tempos, e Deus sabe, em toda a sua inexistência, que eu sou culpado disso e em eterna vigilância nos meus melhores dias. Ao menos posso dizer, sem temer exagero, que minha fase de adoção do fútil rótulo “feminista” foi marcada por mais leitura da literatura (especialmente a crítica à ortodoxia, em Daphne Patai, Janet Radcliffe Richards, Susan Haack, David Benatar etc.) do que jamais fará a maioria dos militantes virtuais da “causa” (sua verdadeira causa é com frequência a sinalização de virtudes, não problemas morais em torno dos sexos).

O mesmo padrão — foco egoico, sinalização de virtudes, tribalismo irracional — se repete em todos os outros assuntos em que se criou algum “movimento”. Boa parte dos participantes do “movimento ateu” não respeita a filosofia da religião e comete erros fundamentais, como o de alegar que ateísmo é “ausência de crença”. Uma parte influente dos participantes do “movimento negro” é — digamos sem rodeios — racista. Boa parte dos ditos defensores dos LGBT trabalham ativamente para fazer os LGBT parecerem apartados da população em geral, quando desaparecer em meio a ela era o propósito dos melhores ativistas da causa. Os movimentos fazem com a nuance e a análise o mesmo que massas justiceiras fazem com acusados de crimes como o estupro. A primeira vítima de linchamento em qualquer “movimento social” é a razão. E isso custa vidas, como os linchamentos literais: basta ver o caso do desabamento do edifício Wilton Paes de Leme este ano. As palavras “Luta” e “Movimento” aparecem no nome das organizações que ignoraram os riscos de abrigar famílias sem-teto no prédio.

Mas não estamos aqui só para criticar os movimentos sociais. Nem para dizer que o problema está só na esquerda (embora o flerte crescente com tribalismos identitários faça com que eu me pergunte se não está majoritariamente nela). Vim dar uma lista mais abrangente de assuntos em que eu errei e quem discutiu comigo é que tinha razão.

— Vegetarianismo. Já fiz até vídeo lendo e respondendo a um texto ruim que escrevi contra o vegetarianismo. Por enquanto ele fica no ar, para me lembrar da minha falibilidade e húbris. Para ver onde eu errei basta saber o fundamental sobre falácias, e para aprofundamento se digladiar com o que os eticistas dizem a respeito.

— Aborto. Aqui, eu fiz um trabalho melhor, concordando com os eticistas profissionais e debatendo cordialmente a respeito com conservadores. Mas isso não é desculpa para meus erros de substituir às vezes argumento por slogans e técnicas de propaganda. Num mundo com a enorme influência danosa das redes sociais, é fácil cair na armadilha de tentar assentar assuntos complexos com frases de efeito de 280 caracteres. Não, eu não “venci” o debate porque fiz um meme comparando fetos a nozes, mesmo que isso leve a algum raciocínio interessante. “Vencer” no sentido de dar os melhores argumentos em defesa do meu ponto de vista e sendo justo ao retratar o ponto de vista oposto — ver debates como competições por troféu é parte do que irracionaliza as pessoas. Quando debate é competição, quem sai perdendo é a verdade.

— Feminismo. Foram poucas vezes, mas eu cheguei a contrair o vírus feminista de ver sexismo em tudo e trair meu professado compromisso com evidências. Dica para quem ainda está nessa tribo: Jordan Peterson não é, evidentemente, um pensador perfeito, chega a ter algumas opiniões classificáveis como “pseudocientíficas”, mas o que ele diz sobre relações entre os sexos tem amplo apoio em evidências. É verdade que países mais igualitários desenvolvem mais diferenças entre os sexos, não menos, e que atribuir essas diferenças ao “patriarcado” é algo próximo de teorias da conspiração e criacionismo. Difamação e tentativas de assassinato de reputação não funcionarão para responder a isso. Felizmente, meus anos de identificação com o feminismo raramente incluíram esse tipo de estratégia de ataque pessoal, e há textos que produzi nesse período, neste assunto, que são bons.

— Pseudociências. Por falar nelas, eu não acredito mais numa lista que eu fiz de pseudociências de A a Z. Não é que eu tenha simpatias renovadas pelas tradições que eu busquei atacar com a lista. Todas as que eu classifiquei como pseudociências (tirando as piadas) têm mesmo problemas epistemológicos em graus variados, tanto na construção de suas proposições quanto na sua base evidencial. Psicanálise é um caso claro de pseudociência, não muito longe de casos mais claros ainda como homeopatia e criacionismo do tipo “design inteligente”, além, é claro, do construcionismo social que eu tanto menciono por ainda ser dogma em algumas áreas. O meu erro nesse assunto foi justamente ignorar a variação de graus de imprecisão ou erro em cada área, e confiar demais na minha amostragem de material de cada uma (que não é zero em nenhuma delas, em minha defesa). Esses graus de imprecisão e erro geram um espectro que vai de ciência ruim à salada verbal disparatada. Além disso, definir o que é pseudociência é muito mais difícil do que parece, especialmente para quem, como eu, não acredita que demarcar ciência é tão simples quanto Popper propôs.

— Economia. Minhas manifestações nesse assunto (praticamente ausentes neste blog) foram na maior parte cuidadosas. Responder a marxistas raivosos não é um erro e eu faria tudo novamente, pois estamos num país em que por muito tempo a propaganda ideológica transformou “liberal” em xingamento. Analogamente, também não me arrependo de ter respondido a anarcocapitalistas igualmente utópicos. Mas eu me lembro de uma ocasião específica em que eu estava errado, e o “debate” foi horrendo. Foi quando divulguei alguns poucos estudos que questionam a fibra moral das pessoas ricas, insinuando que ser rico deteriora o caráter. Não era material meu, era um cartaz que citava fontes que eu resolvi traduzir. Claro, é uma hipótese a se testar, mas até onde vi com mais cuidado, é ridícula. Talvez fosse um resquício de preconceito contra a liberdade econômica que eu — como toda pessoa criada na atmosfera intelectual largamente canhota no Brasil — tive por muito tempo até também abrir a cabeça para o enorme legado de sensatez do liberalismo e sua quase identidade com o iluminismo que eu alegava defender por inteiro. Neste caso em específico, a pessoa que se encarregou de me responder fez um trabalho pior que o meu, degenerando nossa interação num bate-boca infantil, e um bate-boca em estilo linchamento de muitos incapazes de argumentar com um indivíduo com argumento ruim e fontes insuficientes (esse ponto da insuficiência de fontes sequer foi feito, até onde lembro). Talvez essa pessoa poderia tomar um pouco das doses cavalares de semancol que eu tomei.

Epílogo

Não percebo a lista acima como um exercício de autoflagelação (que no fim das contas seria ainda mais sinalização de virtudes). Vejo como um passo importante num processo de aperfeiçoamento pessoal, que era um dos benefícios que Kant apontava no seu projeto de esclarecimento. Uso meu próprio exemplo para que a jornada de outras pessoas talvez seja facilitada, para que sua estrada seja menos esburacada e seu comando do volante seja melhor que o meu.

8th of June

A rapidez da evolução na genética do comportamento


Em quantas gerações a seleção pode levar a comportamentos diferentes? 30, se estivermos falando de comportamento de movimentação em campo aberto de camundongos, como foi feito no estudo de John DeFries e colaboradores em 1978, um dos maiores estudos de seleção de comportamento até hoje.

Uma das grandes descobertas da genética do comportamento é que praticamente todos os comportamentos têm alguma dose de participação genética. Essa participação é medida, em estudos iniciais, geralmente pela proporção da variação atribuível à herança genética em relação à variação total, conhecida como “herdabilidade”. Até hoje, inclusive em estudos com humanos, não foi descoberto comportamento com herdabilidade 0%, mas também não há descrito qualquer comportamento com herdabilidade 100% – comportamentos são fenótipos que envolvem sempre inflência ambiental, variando de comportamento para comportamento. Uma das maiores medidas de herdabilidade de comportamento em humanos é a do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade: acima de 70%.

Como há base genética nos comportamentos, eles podem ser alvo da seleção natural e outros processos evolutivos, como todas as outras características dos animais. No experimento de DeFries, houve seleção artificial em duas linhagens de camundongos em direção a cada vez mais atividade em campo aberto (ou seja, sempre que nascia uma ninhada de roedores, escolhiam os mais ativos para procriarem); em outras duas linhagens houve seleção em direção a cada vez menos atividade; e os pesquisadores deixaram os camundongos cruzarem aleatoriamente entre si em duas outras linhagens, como controle do experimento.

30 gerações depois, os pesquisadores chegaram a três grupos bastante distintos quanto ao comportamento sob seleção.

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DeFries, J. C., Gervais, M. C., & Thomas, E. A. (1978). Response to 30 generations of selection for open-field activity in laboratory mice. Behavior Genetics, 8(1), 3–13. http://doi.org/10.1007/BF01067700

14th of April

Transexuais no esporte feminino: 5 motivos pelos quais as entidades do esporte estão passando o carro na frente dos bois


O esporte é meritocrático: os atletas e audiências valorizam a premiação de habilidades pelas quais os atletas trabalharam. Mas há regras nessa meritocracia. Somente sádicos gostam de ver o resultado óbvio de botar um boxeador profissional para esmurrar uma pessoa mirrada e sem preparo. Na verdade, nosso instinto é de geralmente torcer para quem estiver em desvantagem. Queremos ver, quando não há igualdade de pontos de partida entre os competidores, ao menos alguma possibilidade de quem está em desvantagem vencer. Há algo de prazeroso na antecipação de um resultado que não é garantido e determinístico, de torcer para um time que você quer que ganhe mas não sabe realmente se ganhará. Isso reflete os mecanismos da dopamina no cérebro, que nos recompensam por essa antecipação e explicam boa parte de comportamentos como o vício em jogos. O êxtase da vitória é bem maior quando antes dele veio a ansiedade da antecipação: e maior ainda quando a vitória era implausível.

Jogos entre homens e mulheres não costumam ter essas características. No tênis, no futebol e em outros esportes em que isso foi tentado, a parte masculina quase sempre tem vantagem e, enfadonhamente, ganha. É um dos motivos justos para a cisão do mundo do esporte entre masculino e feminino. Por isso, não dá para atribuir completamente a preconceito que alguém desconfie que atletas transexuais, especialmente os que transicionaram do sexo masculino para o feminino, podem estar rompendo o mínimo nivelamento das competições por terem vantagens adquiridas quando apresentavam identidade e corpo masculinos.

Há, entre divulgadores de ciência e pessoas do esporte interessadas na inclusão de grupos em desvantagem (mais uma torcida previsível a favor dos desfavorecidos), uma tentação de alegar que, apesar de sabermos pouco, sabemos o suficiente para dizer que a vantagem das atletas trans é implausível. O Comitê Olímpico Internacional resolveu adotar um nível máximo de testosterona no sangue das atletas trans como critério suficiente para incluí-las ou excluí-las. Mas o critério é insuficiente. O mais provável é que as atletas trans tenham vantagem biológica (não trataremos dos atletas homens trans, que transicionam de feminino para masculino), e essa é uma conclusão que se pode fazer por via de evidências indiretas discutidas abaixo. No fim, discutiremos brevemente as questões éticas.

1 – A revisão de estudos citada pelos favoráveis à inclusão não tem evidências suficientes para apoiar a nova política esportiva.

Na ciência, estudos individuais nem sempre são suficientes para tirar grandes conclusões. Por isso é comum, na tarefa de apresentar conclusões mais estáveis à comunidade de pesquisa, que se publiquem revisões e meta-análises, que são estudos de estudos, que discutem as conclusões dos estudos individuais, ou (o que é melhor) reanalisam todos os dados disponíveis.

Há uma revisão sendo citada preferencialmente pelo campo que nega as vantagens biológicas das mulheres trans ou alega que são implausíveis.[i] Eis os problemas dessa revisão: avaliou somente oito artigos de pesquisa. Para dar uma noção da novidade do assunto, o artigo mais antigo é de 2004. A maioria desses meros oito artigos revisados é baseada em métodos qualitativos, como entrevistas, que não dão dados objetivos para testar diferenças. Os únicos dois estudos que sobram com dados objetivos têm amostras minúsculas: em um deles, somente 19 atletas trans foram testadas.[ii] Conclui-se nesse que as atletas trans estão muscularmente dentro da normalidade feminina. No entanto, a chance de as conclusões não serem confiáveis por causa da amostra pequena são consideráveis, e a diferença entre masculino e feminino não está somente nos músculos. O outro estudo[iii] não considerou atletas, e, também com uma amostra relativamente pequena de transexuais (n=33), concluiu que essas pessoas se exercitam menos, o que dificilmente é o caso entre trans que desejam ser atletas profissionais. O mesmo problema de amostras pequenas demais se repete em outros estudos não citados na revisão (como as minúsculas amostras n=8[iv] e n=6[v]).

O foco principal dessa revisão é político/moral: mais de 30 diretrizes esportivas sobre o assunto foram consideradas. Os resultados apresentados no resumo são todos argumentos pró-inclusão, ou seja, são argumentos na discussão moral. A revisão diz que não há estudos diretos suficientes da vantagem das trans e que por isso não se pode concluir que elas têm vantagem. Com base nisso os autores pedem que as diretrizes esportivas que as excluem precisam mudar em nome da inclusão. Mas essa é uma forma enviesada de fazer uma conclusão, pois, com os mesmos dados, podemos dizer que não há evidência direta suficiente, também, de que as trans não têm vantagem em relação às outras atletas femininas. Além disso, podemos tentar chegar a alguma conclusão plausível pelas vias indiretas ignoradas nesse estudo.

Ou seja, essa revisão não merece ser vista como uma discussão ampla das evidências disponíveis sobre possíveis vantagens ou desvantagens de transexuais nos esportes, mas como uma discussão das diretrizes existentes sobre o assunto nos esportes – que por sua vez deveriam depender das evidências.

2 – O desenvolvimento sob influência de hormônios masculinos após a puberdade dá vantagens improváveis de serem perdidas com poucos anos de transição hormonal feminilizante.

Há presumivelmente algumas habilidades esportivas em que as mulheres têm vantagem sobre os homens, mas, quando se trata de força, estâmina e outros atributos físicos, os organismos que passaram por uma puberdade masculinizante têm vantagens. Eis algumas, apresentadas em estudos com amostras maiores que os estudos discutidos anteriormente:

Nos músculos: organismos masculinos têm em média doze quilos a mais de músculos esqueléticos que os femininos.[vi] A diferença é maior acima da cintura (40%) que abaixo, mas ainda é substancial nas pernas (33%). Todos perdem massa muscular com a idade, especialmente após os 50 anos, mas a maior parte dessa perda é na parte inferior do corpo, não na superior, onde homens e mulheres diferem mais. Músculos em organismos femininos podem apresentar maior resistência à fadiga ao exercer força moderada, mas isso se restringe a alguns grupos musculares e desaparece quando é preciso exercer força máxima.[vii]

Para entender o quanto os homens são mais fortes que as mulheres, tomemos uma amostra de mais de 7 mil americanos: 89% dos homens têm mais força no aperto de mão que 89% das mulheres.[viii] A força do aperto de mão está positivamente correlacionada à dos outros músculos do corpo, especialmente acima da cintura. Com base nela, podemos afirmar que a maioria dos homens é mais forte que a maioria das mulheres, e a diferença se estabelece logo após a puberdade, como se pode ver no gráfico.

Nos ossos: não é segredo para ninguém que homens são em média mais altos que mulheres, e que a maior altura por si só já é vantagem em esportes como basquete e vôlei. Nenhuma atleta trans que teve puberdade masculinizante perderá altura com a transição hormonal feminilizante. Mas as vantagens ósseas não se restringem à altura, os movimentos causados pelas diferenças ósseas podem botar as mulheres cis (não-trans) em desvantagem: por causa dos ângulos de inserção dos fêmures na pélvis, as mulheres podem ter mais risco de lesão ao fazer agachamentos.[ix] As diferenças de sexo no esqueleto são tão pronunciadas que cientistas forenses já conseguem prever o sexo do organismo inteiro a partir de uma pequena área triangular numa das pontas do fêmur, com 86% de precisão.[x]

Pulmões: no sexo masculino os pulmões têm capacidade de inspirar mais ar que no sexo feminino, mesmo controlando para o efeito da altura.[xi] Oxigenar o sangue é uma característica vital em qualquer esporte, o que faz dessa diferença importante.

Dor: homens e mulheres têm capacidade similar de suportar dores de alguns tipos (como a causada por bloqueio de circulação sanguínea), mas elas têm menor tolerância à dor causada pelo frio, pelo calor e pela aplicação de pressão. São as conclusões de uma revisão de dez anos de pesquisa e 172 estudos.[xii] Como atletas sabem, no pain no gain. E se uma pessoa desenvolvida sob influência genética masculinizante é mais tolerante a certos tipos de dor, tem vantagem no treinamento e na competição.

Todas essas evidências servem para fazer a inferência indireta de que as atletas trans têm vantagem física no esporte feminino. É improvável que a transição hormonal, especialmente a mais tardia, mude todas essas características e ponha todas as atletas trans dentro da variação das outras atletas. Certas características adquiridas pelo organismo exposto a hormônios masculinizantes são organicamente irreversíveis, como o engrossamento da voz e o crescimento de barba. É difícil que todas as vantagens físicas relevantes para o esporte, especialmente envolvendo tecidos que não são completamente renováveis, sumam por causa do tratamento.

Devemos reconhecer nossa ignorância de evidências diretas da vantagem das atletas trans sobre as cis, mas isso não significa que as indiretas não têm valor: elas indicam que as políticas inclusivas das entidades decisórias dos esportes podem estar passando o carro na frente dos bois. É irresponsável agir tateando no escuro. Dar passos para a frente sem luz costuma dar em tropeços.

3 – As melhores diretrizes para tratamento de transexuais tornam improvável que as vantagens estejam ausentes na maioria das atletas trans.

A maioria das crianças que manifestam disforia de gênero, um sofrimento psicológico de dissociação entre o sexo do corpo e o sexo da autopercepção, não tem na transição hormonal (ou cirurgias) o melhor tratamento para sua condição. A Associação Psicológica Americana[xiii] calcula essa maioria entre 50 e 88%. Com o tempo, a disforia costuma se resolver nelas. Os motivos da manifestação da disforia são desconhecidos, mas é informativo que há uma proporção maior de homossexualidade entre essas pessoas que manifestam disforia mas não transicionam que na população em geral. Para uma minoria das pessoas que manifestam disforia, evidentemente, a transição hormonal para a identidade sexual de sua preferência é um tratamento salutar. No entanto, por causa desses números, além de motivos relacionados à capacidade de consentir e responder por si que não atribuímos moral/legalmente às crianças, é bem raro que uma atleta transexual não tenha passado pela puberdade masculinizante, que é o evento central no desenvolvimento que confere as prováveis vantagens discutidas aqui.

4 – Há um conflito insolúvel entre inclusão e mérito, e o esporte está mais preocupado com mérito.

Como sabemos, os jogos esportivos, especialmente profissionais, envolvem regras que valorizam o mérito: queremos que vença o melhor. Mas com uma sutileza: é um melhor que não era de forma óbvia determinado para ser o melhor antes de a competição começar. São regras que tentam capturar um equilíbrio fino entre se aproveitar de vantagens acidentais e colher os louros do esforço e da determinação.

Estamos em tempos em que as histórias de bullying e vitimização atraem atenção, com frequência poder e às vezes dinheiro. A história da criança traumatizada porque não foi escolhida para o time na aula de educação física já foi contada inúmeras vezes. O enredo é o mesmo, só mudam os atores. Poucas vezes a história é contada do ponto de vista da criança que estava escolhendo os membros do time. Sutilmente ela é sempre acusada de preconceito, ou seja, de usar características arbitrárias para escolher seus colegas de time. O mundo, no entanto, é mais complicado do que contam as narrativas preocupadas com traumas e vítimas: o fato é que as crianças diferem entre si inclusive em habilidades esportivas, e a criança líder do time tenta botar nele as coleguinhas que parecem as mais capazes de lhe dar a vitória, e não há nada de errado em querer vencer.

É importante que as crianças aprendam que as aparências às vezes enganam, que não há nada de errado em um menino ser afeminado e em uma menina ser mais forte que a maioria dos meninos da sua idade. São variações raras. E que é honroso que façam as pessoas raras se sentirem aceitas, que são parte da sociedade. Mas também é importante que as crianças aprendam que, independente de suas vantagens ou desvantagens de nascença, elas podem trabalhar em si mesmas para se destacarem em alguma habilidade. Inclusão é importante, mas premiar competência e trabalho duro também é.

Perseguir o valor único da inclusão e ignorar que temos que negociar entre coisas valiosas, que muito de uma coisa importante pode causar a queda de outra, não é criar uma sociedade em que a vida é confortável para todos. É criar um pesadelo politicamente correto e opressivo à liberdade e ao mérito. As atletas trans devem ser livres para perseguir o seu mérito, mas a sua inclusão não deve vir com o preço de deteriorar as chances das outras atletas – o que nos esportes de luta chega a significar risco maior de traumatismo craniano para as últimas, no caso de haver de fato vantagem biológica para as primeiras.

Há aqui outro ponto importante: pode estar havendo uma tentativa de um grupo político obcecado com a inclusão de corromper uma comunidade baseada em regras milenares que valorizam o mérito. Esse tipo de colonização de um grupo por outro deveria assustar a todos. Quanto mais se politiza uma parte da vida social, menos as pessoas a valorizam pelos motivos pelos quais ela existe, e mais desviam a sua função para a infindável guerra tribal da política. Tomar decisões com base em dados insuficientes certamente parece uma manobra nessa queda de braço política, não apenas uma virtuosa tentativa de inclusão.

5 – Podemos imaginar regras mais inclusivas, e elas envolvem reformar as regras antidoping, mas há um porém…

Há um empecilho natural à pureza da meritocracia esportiva: as vantagens genéticas que existem na variação entre os indivíduos. Por exemplo, Eero Mäntyranta, finlandês multi-medalhista do esqui, tinha uma mutação no gene EPOR que lhe conferia a vantagem de seu sangue carregar 50% mais oxigênio que o dos outros atletas. Alguns atletas são desqualificados nos testes antidoping por tomar a droga eritropoietina (que ocorre naturalmente no corpo) para tentar obter a mesma vantagem que Mäntyranta tinha por acidente da natureza. A vantagem genética dele era, presumivelmente, localizada num gene só. A diferença genética entre um corpo masculino e um feminino, por sua vez, está em cromossomos inteiros, tendo os hormônios sexuais um papel coordenador do desenvolvimento.

Nas diferenças físicas entre homens e mulheres há sempre alguma sobreposição na variação: uma minoria de homens cujas características físicas são típicas do grupo das mulheres, e outra de mulheres cujas características físicas são típicas de homens. Uma política inclusiva que não ignorasse a ética meritocrática do esporte precisaria ser baseada em conhecimentos mais precisos das diferenças naturais e de estabelecer, com base nelas, limites objetivos para várias características físicas, não só o nível de testosterona. Assim, as pessoas poderiam ser admitidas independentemente do sexo, com base nesses limites, em modalidades objetivas, como se faz nas categorias de peso do boxe.

Estabelecer limites objetivos é melhor que as regras atuais do antidoping, como argumenta o eticista Julian Savulescu,[xiv] porque essas regras dependem de distinções meio arbitrárias entre melhoradores de performance naturais e artificiais. A cafeína, droga que melhora a performance, é permitida, enquanto a eritropoietina, natural no corpo, é proibida. Simplesmente não serve alegar que a cafeína é natural e a eritropoietina é artificial. Melhor é estabelecer níveis aceitáveis de ambas no sangue. Regras baseadas nos limites objetivos seriam melhores também do ponto de vista da liberdade: todo indivíduo estaria livre para melhorar a si mesmo como quiser e puder, e para experimentar com seu corpo, mas dentro dos limites esportivos se quiser ser atleta profissional.

Da economia aos esportes, dar liberdade aos indivíduos sempre funcionou melhor para fazer inclusão social do que tentar planejar barreiras arbitrárias. Certamente não funcionou, no basquete, a exclusão de negros durante a segregação racial nos EUA.

Mas há, neste cenário futurístico de atletas competindo com base em limiares objetivos de características físicas, um grande problema: seria muito caro executar e coordenar tudo isso. Já tem custo proibitivo, hoje mesmo, testar todos os atletas para o doping. Seria muito mais barato manter o esporte separado nas modalidades masculina e feminina, o que já inclui a ampla maioria de atletas mulheres e homens. Em nome da inclusão, poderia ser criada uma exclusão maior ainda de atletas pobres, que não conseguiriam investir em si mesmos para alcançar os limiares fisiológicos nem para serem testados. Queremos ou podemos pagar o preço? Queremos ou podemos dar mais prioridade a conhecimentos ainda incompletos dos quais depende a aplicação correta dos custos da inclusão, ou mais prioridade a fazer a vontade de um grupo politicamente parcial de ativistas?

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Leia também neste blog: Transexuais: Resumão do Resumão

Referências

[i] Jones, Bethany Alice, Jon Arcelus, Walter Pierre Bouman, and Emma Haycraft. “Sport and Transgender People: A Systematic Review of the Literature Relating to Sport Participation and Competitive Sport Policies.” Sports Medicine 47, no. 4 (April 1, 2017): 701–16. https://doi.org/10.1007/s40279-016-0621-y.

[ii] Gooren, L. J., and M. C. Bunck. “Transsexuals and Competitive Sports.” European Journal of Endocrinology 151, no. 4 (October 1, 2004): 425–29. https://doi.org/10.1530/eje.0.1510425.

[iii] Muchicko, Megan M., Andrew Lepp, and Jacob E. Barkley. “Peer Victimization, Social Support and Leisure-Time Physical Activity in Transgender and Cisgender Individuals.” Leisure/Loisir 38, no. 3–4 (October 2, 2014): 295–308. https://doi.org/10.1080/14927713.2015.1048088.

[iv] Harper, J. “Race Times for Transgender Athletes.” Journal of Sporting Cultures and Identities 6, no. 1 (2015): 1–9.

[v] Harper, Joanna; Ospina Betancurt, Jonathan; Martínez-Patiño, Maria Jose. Analysis of the Performance of Transgender Athletes. World Congress of Performance Analysis of Sport XI, 2016. http://www.sportsci.org/2016/WCPASabstracts/ID-1699.pdf

[vi] Janssen, Ian, Steven B. Heymsfield, ZiMian Wang, and Robert Ross. “Skeletal Muscle Mass and Distribution in 468 Men and Women Aged 18–88 Yr.” Journal of Applied Physiology 89, no. 1 (July 1, 2000): 81–88. https://doi.org/10.1152/jappl.2000.89.1.81.

[vii] Hicks, Audrey L., Jane Kent-Braun, and David S. Ditor. “Sex Differences in Human Skeletal Muscle Fatigue.” Exercise and Sport Sciences Reviews 29, no. 3 (July 2001): 109.

[viii] National Center for Health Statistics. “National Health and Nutrition Examination Survey”, 2014. https://wwwn.cdc.gov/Nchs/Nhanes/2011-2012/MGX_G.htm ; Gráfico modificado de https://www.reddit.com/r/dataisbeautiful/comments/4vcxd0/almost_all_men_are_stronger_than_almost_all_women/

[ix] Graci, Valentina, Linda R. Van Dillen, and Gretchen B. Salsich. “GENDER DIFFERENCES IN TRUNK, PELVIS AND LOWER LIMB KINEMATICS DURING A SINGLE LEG SQUAT.” Gait & Posture 36, no. 3 (July 2012): 461–66. https://doi.org/10.1016/j.gaitpost.2012.04.006.

[x] Purkait, Ruma. “Triangle Identified at the Proximal End of Femur: A New Sex Determinant.” Forensic Science International, Sex and Body Size, 147, no. 2 (January 29, 2005): 135–39. https://doi.org/10.1016/j.forsciint.2004.08.005.

[xi] Cook, Charles D., and Joanna F. Hamann. “Relation of Lung Volumes to Height in Healthy Persons between the Ages of 5 and 38 Years.” The Journal of Pediatrics 59, no. 5 (November 1, 1961): 710–14. https://doi.org/10.1016/S0022-3476(61)80007-3.

[xii] Racine, Mélanie, Yannick Tousignant-Laflamme, Lorie A. Kloda, Dominique Dion, Gilles Dupuis, and Manon Choinière. “A Systematic Literature Review of 10years of Research on Sex/Gender and Experimental Pain Perception – Part 1: Are There Really Differences between Women and Men?” PAIN 153, no. 3 (March 1, 2012): 602–18. https://doi.org/10.1016/j.pain.2011.11.025.

[xiii] American Psychological Association. “Guidelines for Psychological Practice with Transgender and Gender Nonconforming People.” American Psychologist 70, no. 9 (2015): 832–864. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf

[xiv] Savulescu, J., B. Foddy, and M. Clayton. “Why We Should Allow Performance Enhancing Drugs in Sport.” British Journal of Sports Medicine 38, no. 6 (December 1, 2004): 666–70. https://doi.org/10.1136/bjsm.2003.005249.