14th of April

Transexuais no esporte feminino: 5 motivos pelos quais as entidades do esporte estão passando o carro na frente dos bois


O esporte é meritocrático: os atletas e audiências valorizam a premiação de habilidades pelas quais os atletas trabalharam. Mas há regras nessa meritocracia. Somente sádicos gostam de ver o resultado óbvio de botar um boxeador profissional para esmurrar uma pessoa mirrada e sem preparo. Na verdade, nosso instinto é de geralmente torcer para quem estiver em desvantagem. Queremos ver, quando não há igualdade de pontos de partida entre os competidores, ao menos alguma possibilidade de quem está em desvantagem vencer. Há algo de prazeroso na antecipação de um resultado que não é garantido e determinístico, de torcer para um time que você quer que ganhe mas não sabe realmente se ganhará. Isso reflete os mecanismos da dopamina no cérebro, que nos recompensam por essa antecipação e explicam boa parte de comportamentos como o vício em jogos. O êxtase da vitória é bem maior quando antes dele veio a ansiedade da antecipação: e maior ainda quando a vitória era implausível.

Jogos entre homens e mulheres não costumam ter essas características. No tênis, no futebol e em outros esportes em que isso foi tentado, a parte masculina quase sempre tem vantagem e, enfadonhamente, ganha. É um dos motivos justos para a cisão do mundo do esporte entre masculino e feminino. Por isso, não dá para atribuir completamente a preconceito que alguém desconfie que atletas transexuais, especialmente os que transicionaram do sexo masculino para o feminino, podem estar rompendo o mínimo nivelamento das competições por terem vantagens adquiridas quando apresentavam identidade e corpo masculinos.

Há, entre divulgadores de ciência e pessoas do esporte interessadas na inclusão de grupos em desvantagem (mais uma torcida previsível a favor dos desfavorecidos), uma tentação de alegar que, apesar de sabermos pouco, sabemos o suficiente para dizer que a vantagem das atletas trans é implausível. O Comitê Olímpico Internacional resolveu adotar um nível máximo de testosterona no sangue das atletas trans como critério suficiente para incluí-las ou excluí-las. Mas o critério é insuficiente. O mais provável é que as atletas trans tenham vantagem biológica (não trataremos dos atletas homens trans, que transicionam de feminino para masculino), e essa é uma conclusão que se pode fazer por via de evidências indiretas discutidas abaixo. No fim, discutiremos brevemente as questões éticas.

1 – A revisão de estudos citada pelos favoráveis à inclusão não tem evidências suficientes para apoiar a nova política esportiva.

Na ciência, estudos individuais nem sempre são suficientes para tirar grandes conclusões. Por isso é comum, na tarefa de apresentar conclusões mais estáveis à comunidade de pesquisa, que se publiquem revisões e meta-análises, que são estudos de estudos, que discutem as conclusões dos estudos individuais, ou (o que é melhor) reanalisam todos os dados disponíveis.

Há uma revisão sendo citada preferencialmente pelo campo que nega as vantagens biológicas das mulheres trans ou alega que são implausíveis.[i] Eis os problemas dessa revisão: avaliou somente oito artigos de pesquisa. Para dar uma noção da novidade do assunto, o artigo mais antigo é de 2004. A maioria desses meros oito artigos revisados é baseada em métodos qualitativos, como entrevistas, que não dão dados objetivos para testar diferenças. Os únicos dois estudos que sobram com dados objetivos têm amostras minúsculas: em um deles, somente 19 atletas trans foram testadas.[ii] Conclui-se nesse que as atletas trans estão muscularmente dentro da normalidade feminina. No entanto, a chance de as conclusões não serem confiáveis por causa da amostra pequena são consideráveis, e a diferença entre masculino e feminino não está somente nos músculos. O outro estudo[iii] não considerou atletas, e, também com uma amostra relativamente pequena de transexuais (n=33), concluiu que essas pessoas se exercitam menos, o que dificilmente é o caso entre trans que desejam ser atletas profissionais. O mesmo problema de amostras pequenas demais se repete em outros estudos não citados na revisão (como as minúsculas amostras n=8[iv] e n=6[v]).

O foco principal dessa revisão é político/moral: mais de 30 diretrizes esportivas sobre o assunto foram consideradas. Os resultados apresentados no resumo são todos argumentos pró-inclusão, ou seja, são argumentos na discussão moral. A revisão diz que não há estudos diretos suficientes da vantagem das trans e que por isso não se pode concluir que elas têm vantagem. Com base nisso os autores pedem que as diretrizes esportivas que as excluem precisam mudar em nome da inclusão. Mas essa é uma forma enviesada de fazer uma conclusão, pois, com os mesmos dados, podemos dizer que não há evidência direta suficiente, também, de que as trans não têm vantagem em relação às outras atletas femininas. Além disso, podemos tentar chegar a alguma conclusão plausível pelas vias indiretas ignoradas nesse estudo.

Ou seja, essa revisão não merece ser vista como uma discussão ampla das evidências disponíveis sobre possíveis vantagens ou desvantagens de transexuais nos esportes, mas como uma discussão das diretrizes existentes sobre o assunto nos esportes – que por sua vez deveriam depender das evidências.

2 – O desenvolvimento sob influência de hormônios masculinos após a puberdade dá vantagens improváveis de serem perdidas com poucos anos de transição hormonal feminilizante.

Há presumivelmente algumas habilidades esportivas em que as mulheres têm vantagem sobre os homens, mas, quando se trata de força, estâmina e outros atributos físicos, os organismos que passaram por uma puberdade masculinizante têm vantagens. Eis algumas, apresentadas em estudos com amostras maiores que os estudos discutidos anteriormente:

Nos músculos: organismos masculinos têm em média doze quilos a mais de músculos esqueléticos que os femininos.[vi] A diferença é maior acima da cintura (40%) que abaixo, mas ainda é substancial nas pernas (33%). Todos perdem massa muscular com a idade, especialmente após os 50 anos, mas a maior parte dessa perda é na parte inferior do corpo, não na superior, onde homens e mulheres diferem mais. Músculos em organismos femininos podem apresentar maior resistência à fadiga ao exercer força moderada, mas isso se restringe a alguns grupos musculares e desaparece quando é preciso exercer força máxima.[vii]

Para entender o quanto os homens são mais fortes que as mulheres, tomemos uma amostra de mais de 7 mil americanos: 89% dos homens têm mais força no aperto de mão que 89% das mulheres.[viii] A força do aperto de mão está positivamente correlacionada à dos outros músculos do corpo, especialmente acima da cintura. Com base nela, podemos afirmar que a maioria dos homens é mais forte que a maioria das mulheres, e a diferença se estabelece logo após a puberdade, como se pode ver no gráfico.

Nos ossos: não é segredo para ninguém que homens são em média mais altos que mulheres, e que a maior altura por si só já é vantagem em esportes como basquete e vôlei. Nenhuma atleta trans que teve puberdade masculinizante perderá altura com a transição hormonal feminilizante. Mas as vantagens ósseas não se restringem à altura, os movimentos causados pelas diferenças ósseas podem botar as mulheres cis (não-trans) em desvantagem: por causa dos ângulos de inserção dos fêmures na pélvis, as mulheres podem ter mais risco de lesão ao fazer agachamentos.[ix] As diferenças de sexo no esqueleto são tão pronunciadas que cientistas forenses já conseguem prever o sexo do organismo inteiro a partir de uma pequena área triangular numa das pontas do fêmur, com 86% de precisão.[x]

Pulmões: no sexo masculino os pulmões têm capacidade de inspirar mais ar que no sexo feminino, mesmo controlando para o efeito da altura.[xi] Oxigenar o sangue é uma característica vital em qualquer esporte, o que faz dessa diferença importante.

Dor: homens e mulheres têm capacidade similar de suportar dores de alguns tipos (como a causada por bloqueio de circulação sanguínea), mas elas têm menor tolerância à dor causada pelo frio, pelo calor e pela aplicação de pressão. São as conclusões de uma revisão de dez anos de pesquisa e 172 estudos.[xii] Como atletas sabem, no pain no gain. E se uma pessoa desenvolvida sob influência genética masculinizante é mais tolerante a certos tipos de dor, tem vantagem no treinamento e na competição.

Todas essas evidências servem para fazer a inferência indireta de que as atletas trans têm vantagem física no esporte feminino. É improvável que a transição hormonal, especialmente a mais tardia, mude todas essas características e ponha todas as atletas trans dentro da variação das outras atletas. Certas características adquiridas pelo organismo exposto a hormônios masculinizantes são organicamente irreversíveis, como o engrossamento da voz e o crescimento de barba. É difícil que todas as vantagens físicas relevantes para o esporte, especialmente envolvendo tecidos que não são completamente renováveis, sumam por causa do tratamento.

Devemos reconhecer nossa ignorância de evidências diretas da vantagem das atletas trans sobre as cis, mas isso não significa que as indiretas não têm valor: elas indicam que as políticas inclusivas das entidades decisórias dos esportes podem estar passando o carro na frente dos bois. É irresponsável agir tateando no escuro. Dar passos para a frente sem luz costuma dar em tropeços.

3 – As melhores diretrizes para tratamento de transexuais tornam improvável que as vantagens estejam ausentes na maioria das atletas trans.

A maioria das crianças que manifestam disforia de gênero, um sofrimento psicológico de dissociação entre o sexo do corpo e o sexo da autopercepção, não tem na transição hormonal (ou cirurgias) o melhor tratamento para sua condição. A Associação Psicológica Americana[xiii] calcula essa maioria entre 50 e 88%. Com o tempo, a disforia costuma se resolver nelas. Os motivos da manifestação da disforia são desconhecidos, mas é informativo que há uma proporção maior de homossexualidade entre essas pessoas que manifestam disforia mas não transicionam que na população em geral. Para uma minoria das pessoas que manifestam disforia, evidentemente, a transição hormonal para a identidade sexual de sua preferência é um tratamento salutar. No entanto, por causa desses números, além de motivos relacionados à capacidade de consentir e responder por si que não atribuímos moral/legalmente às crianças, é bem raro que uma atleta transexual não tenha passado pela puberdade masculinizante, que é o evento central no desenvolvimento que confere as prováveis vantagens discutidas aqui.

4 – Há um conflito insolúvel entre inclusão e mérito, e o esporte está mais preocupado com mérito.

Como sabemos, os jogos esportivos, especialmente profissionais, envolvem regras que valorizam o mérito: queremos que vença o melhor. Mas com uma sutileza: é um melhor que não era de forma óbvia determinado para ser o melhor antes de a competição começar. São regras que tentam capturar um equilíbrio fino entre se aproveitar de vantagens acidentais e colher os louros do esforço e da determinação.

Estamos em tempos em que as histórias de bullying e vitimização atraem atenção, com frequência poder e às vezes dinheiro. A história da criança traumatizada porque não foi escolhida para o time na aula de educação física já foi contada inúmeras vezes. O enredo é o mesmo, só mudam os atores. Poucas vezes a história é contada do ponto de vista da criança que estava escolhendo os membros do time. Sutilmente ela é sempre acusada de preconceito, ou seja, de usar características arbitrárias para escolher seus colegas de time. O mundo, no entanto, é mais complicado do que contam as narrativas preocupadas com traumas e vítimas: o fato é que as crianças diferem entre si inclusive em habilidades esportivas, e a criança líder do time tenta botar nele as coleguinhas que parecem as mais capazes de lhe dar a vitória, e não há nada de errado em querer vencer.

É importante que as crianças aprendam que as aparências às vezes enganam, que não há nada de errado em um menino ser afeminado e em uma menina ser mais forte que a maioria dos meninos da sua idade. São variações raras. E que é honroso que façam as pessoas raras se sentirem aceitas, que são parte da sociedade. Mas também é importante que as crianças aprendam que, independente de suas vantagens ou desvantagens de nascença, elas podem trabalhar em si mesmas para se destacarem em alguma habilidade. Inclusão é importante, mas premiar competência e trabalho duro também é.

Perseguir o valor único da inclusão e ignorar que temos que negociar entre coisas valiosas, que muito de uma coisa importante pode causar a queda de outra, não é criar uma sociedade em que a vida é confortável para todos. É criar um pesadelo politicamente correto e opressivo à liberdade e ao mérito. As atletas trans devem ser livres para perseguir o seu mérito, mas a sua inclusão não deve vir com o preço de deteriorar as chances das outras atletas – o que nos esportes de luta chega a significar risco maior de traumatismo craniano para as últimas, no caso de haver de fato vantagem biológica para as primeiras.

Há aqui outro ponto importante: pode estar havendo uma tentativa de um grupo político obcecado com a inclusão de corromper uma comunidade baseada em regras milenares que valorizam o mérito. Esse tipo de colonização de um grupo por outro deveria assustar a todos. Quanto mais se politiza uma parte da vida social, menos as pessoas a valorizam pelos motivos pelos quais ela existe, e mais desviam a sua função para a infindável guerra tribal da política. Tomar decisões com base em dados insuficientes certamente parece uma manobra nessa queda de braço política, não apenas uma virtuosa tentativa de inclusão.

5 – Podemos imaginar regras mais inclusivas, e elas envolvem reformar as regras antidoping, mas há um porém…

Há um empecilho natural à pureza da meritocracia esportiva: as vantagens genéticas que existem na variação entre os indivíduos. Por exemplo, Eero Mäntyranta, finlandês multi-medalhista do esqui, tinha uma mutação no gene EPOR que lhe conferia a vantagem de seu sangue carregar 50% mais oxigênio que o dos outros atletas. Alguns atletas são desqualificados nos testes antidoping por tomar a droga eritropoietina (que ocorre naturalmente no corpo) para tentar obter a mesma vantagem que Mäntyranta tinha por acidente da natureza. A vantagem genética dele era, presumivelmente, localizada num gene só. A diferença genética entre um corpo masculino e um feminino, por sua vez, está em cromossomos inteiros, tendo os hormônios sexuais um papel coordenador do desenvolvimento.

Nas diferenças físicas entre homens e mulheres há sempre alguma sobreposição na variação: uma minoria de homens cujas características físicas são típicas do grupo das mulheres, e outra de mulheres cujas características físicas são típicas de homens. Uma política inclusiva que não ignorasse a ética meritocrática do esporte precisaria ser baseada em conhecimentos mais precisos das diferenças naturais e de estabelecer, com base nelas, limites objetivos para várias características físicas, não só o nível de testosterona. Assim, as pessoas poderiam ser admitidas independentemente do sexo, com base nesses limites, em modalidades objetivas, como se faz nas categorias de peso do boxe.

Estabelecer limites objetivos é melhor que as regras atuais do antidoping, como argumenta o eticista Julian Savulescu,[xiv] porque essas regras dependem de distinções meio arbitrárias entre melhoradores de performance naturais e artificiais. A cafeína, droga que melhora a performance, é permitida, enquanto a eritropoietina, natural no corpo, é proibida. Simplesmente não serve alegar que a cafeína é natural e a eritropoietina é artificial. Melhor é estabelecer níveis aceitáveis de ambas no sangue. Regras baseadas nos limites objetivos seriam melhores também do ponto de vista da liberdade: todo indivíduo estaria livre para melhorar a si mesmo como quiser e puder, e para experimentar com seu corpo, mas dentro dos limites esportivos se quiser ser atleta profissional.

Da economia aos esportes, dar liberdade aos indivíduos sempre funcionou melhor para fazer inclusão social do que tentar planejar barreiras arbitrárias. Certamente não funcionou, no basquete, a exclusão de negros durante a segregação racial nos EUA.

Mas há, neste cenário futurístico de atletas competindo com base em limiares objetivos de características físicas, um grande problema: seria muito caro executar e coordenar tudo isso. Já tem custo proibitivo, hoje mesmo, testar todos os atletas para o doping. Seria muito mais barato manter o esporte separado nas modalidades masculina e feminina, o que já inclui a ampla maioria de atletas mulheres e homens. Em nome da inclusão, poderia ser criada uma exclusão maior ainda de atletas pobres, que não conseguiriam investir em si mesmos para alcançar os limiares fisiológicos nem para serem testados. Queremos ou podemos pagar o preço? Queremos ou podemos dar mais prioridade a conhecimentos ainda incompletos dos quais depende a aplicação correta dos custos da inclusão, ou mais prioridade a fazer a vontade de um grupo politicamente parcial de ativistas?

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Leia também neste blog: Transexuais: Resumão do Resumão

Referências

[i] Jones, Bethany Alice, Jon Arcelus, Walter Pierre Bouman, and Emma Haycraft. “Sport and Transgender People: A Systematic Review of the Literature Relating to Sport Participation and Competitive Sport Policies.” Sports Medicine 47, no. 4 (April 1, 2017): 701–16. https://doi.org/10.1007/s40279-016-0621-y.

 

[ii] Gooren, L. J., and M. C. Bunck. “Transsexuals and Competitive Sports.” European Journal of Endocrinology 151, no. 4 (October 1, 2004): 425–29. https://doi.org/10.1530/eje.0.1510425.

 

[iii] Muchicko, Megan M., Andrew Lepp, and Jacob E. Barkley. “Peer Victimization, Social Support and Leisure-Time Physical Activity in Transgender and Cisgender Individuals.” Leisure/Loisir 38, no. 3–4 (October 2, 2014): 295–308. https://doi.org/10.1080/14927713.2015.1048088.

 

[iv] Harper, J. “Race Times for Transgender Athletes.” Journal of Sporting Cultures and Identities 6, no. 1 (2015): 1–9.

 

[v] Harper, Joanna; Ospina Betancurt, Jonathan; Martínez-Patiño, Maria Jose. Analysis of the Performance of Transgender Athletes. World Congress of Performance Analysis of Sport XI, 2016. http://www.sportsci.org/2016/WCPASabstracts/ID-1699.pdf

[vi] Janssen, Ian, Steven B. Heymsfield, ZiMian Wang, and Robert Ross. “Skeletal Muscle Mass and Distribution in 468 Men and Women Aged 18–88 Yr.” Journal of Applied Physiology 89, no. 1 (July 1, 2000): 81–88. https://doi.org/10.1152/jappl.2000.89.1.81.

 

[vii] Hicks, Audrey L., Jane Kent-Braun, and David S. Ditor. “Sex Differences in Human Skeletal Muscle Fatigue.” Exercise and Sport Sciences Reviews 29, no. 3 (July 2001): 109.

 

[viii] National Center for Health Statistics. “National Health and Nutrition Examination Survey”, 2014. https://wwwn.cdc.gov/Nchs/Nhanes/2011-2012/MGX_G.htm ; Gráfico modificado de https://www.reddit.com/r/dataisbeautiful/comments/4vcxd0/almost_all_men_are_stronger_than_almost_all_women/

 

[ix] Graci, Valentina, Linda R. Van Dillen, and Gretchen B. Salsich. “GENDER DIFFERENCES IN TRUNK, PELVIS AND LOWER LIMB KINEMATICS DURING A SINGLE LEG SQUAT.” Gait & Posture 36, no. 3 (July 2012): 461–66. https://doi.org/10.1016/j.gaitpost.2012.04.006.

 

[x] Purkait, Ruma. “Triangle Identified at the Proximal End of Femur: A New Sex Determinant.” Forensic Science International, Sex and Body Size, 147, no. 2 (January 29, 2005): 135–39. https://doi.org/10.1016/j.forsciint.2004.08.005.

 

[xi] Cook, Charles D., and Joanna F. Hamann. “Relation of Lung Volumes to Height in Healthy Persons between the Ages of 5 and 38 Years.” The Journal of Pediatrics 59, no. 5 (November 1, 1961): 710–14. https://doi.org/10.1016/S0022-3476(61)80007-3.

 

[xii] Racine, Mélanie, Yannick Tousignant-Laflamme, Lorie A. Kloda, Dominique Dion, Gilles Dupuis, and Manon Choinière. “A Systematic Literature Review of 10years of Research on Sex/Gender and Experimental Pain Perception – Part 1: Are There Really Differences between Women and Men?” PAIN 153, no. 3 (March 1, 2012): 602–18. https://doi.org/10.1016/j.pain.2011.11.025.

 

[xiii] American Psychological Association. “Guidelines for Psychological Practice with Transgender and Gender Nonconforming People.” American Psychologist 70, no. 9 (2015): 832–864. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf

 

[xiv] Savulescu, J., B. Foddy, and M. Clayton. “Why We Should Allow Performance Enhancing Drugs in Sport.” British Journal of Sports Medicine 38, no. 6 (December 1, 2004): 666–70. https://doi.org/10.1136/bjsm.2003.005249.

15th of January

“Negacionistas” não são a maior ameaça à compreensão pública de ciência Sobre a apresentação enviesada do que realmente fica do caminho de um público mais bem informado


O termo “negacionismo” não é nenhum termo técnico que resulte de pesquisa sobre as atitudes das pessoas em relação às proposições dos cientistas. Se “negacionistas” são pessoas que continuam acreditando em alguma falsidade mesmo diante de evidências abundantes de que é mesmo uma falsidade, “negacionistas” são raros. A maioria das pesssoas que têm interesse de ignorar alguma conclusão baseada em dados suficientes e argumentos cogentes ignora o que não quer ouvir da ciência através da desenfatização de evidências.

Temer o “negacionismo” em vez do “desenfatizacionismo” é um erro análogo ao de quem tem mais medo de leões do que do Aedes aegypti no Brasil. O leão pode parecer uma fera medonha em vídeo, e podemos encontrar casos de pessoas mutiladas e mortas por suas presas. Mas é raríssimo por aqui, especialmente algum leão livre para andar pelas nossas ruas. Já o Aedes é comum, a picada não dói, produz apenas uma coceirinha, mas o resultado da picada pode ser dramático: Chikungunya, Zika e Dengue Hemorrágica. Assim como temos mais mosquitos que leões, temos muito mais desenfatizadores de evidências, que desenfatizam por vieses diversos – especialmente religiosos e políticos – do que criacionistas de terra jovem e terraplanistas no campo dos negacionistas.

Por exemplo, um colunista da Carta Capital, como bom membro caricato da turma da “justiça social”, respondeu a mim, quando divulguei mais resultados sobre diferenças cerebrais e comportamentais entre homens e mulheres, que “ninguém nega que há diferenças fisiológicas”. Fisiológicas! E quando eu disse que a coisa vai muito além de “fisiologia”, ele prontamente se pôs a esticar o que quer dizer “fisiologia” para incluir neurociências e ciências cognitivas dentro dela. É assim que se desenfatiza o que não se quer ouvir.

E isso vem de todos os lados. São truques lógicos que as pessoas tendem a usar para manter intactas as suas crenças quando elas conflitam com fatos. É uma tendência tão terrível quanto ubíqua. No grande campo de quem estuda as contribuições de natureza (genética) e cultura (ambiente) para o comportamento humano, há um enorme medo de se estar cometendo algum “ismo” horrível ao se atribuir qualquer papel à genética. Então temos um estranho fenômeno: até entre os pesquisadores da genética, há um duplo padrão de rigor para explicações hereditárias e explicações de cunho sócio-cultural-ambiental: para as primeiras lembra-se o tempo todo que correlação não implica necessariamente causa; já para as últimas, é perfeitamente aceitável fazer conclusões causais pelas portas dos fundos das correlações. São dois pesos e duas medidas de rigor: uma que afaga nossos vieses, outra que é uma arma contra nossos percebidos adversários.

E é importante saber que os desenfatizadores ou aplicadores de dois pesos de rigor não são só os leigos: eles circulam na academia, estão entre os cientistas, entre as pessoas que deveriam dar exemplo de rigor intelectual e vigilância contra seus próprios vieses.

Em 2002, Caspi e colaboradores descobriram, por exemplo, que um alelo associado à baixa atividade da enzima Monoamina Oxidase A (MAO-A), que atua no cérebro, estava também associado a tendências violentas dos indivíduos que o carregavam. Interessantemente, os dados indicavam que alguns portadores do alelo não tinham essas tendências, especialmente quando não criados por famílias abusivas. Concluiu-se, então, que era um gene que predispunha seus portadores a comportamentos violentos, mas somente se recebessem um gatilho ambiental de serem criados por progenitores violentos. “Que ótimo”, celebrou a comunidade de pesquisa. “Aí está um exemplo excelente do enorme papel do ambiente ao mediar os recursos genéticos”. Mas o problema é que a hipótese de este ambiente familiar ser causa importante e direta do fenótipo violento, no caso, sequer havia sido testada. Apesar disso, os autores estavam contentes em eleger esta causa como a explicação mais plausível. Pouco se discutiu outra hipótese: além de herdar o ambiente violento, as crianças também estavam herdando os genes dos pais violentos, de modo que poderia haver uma “correlação ativa” de um ambiente com um genótipo, em que o ambiente é causado por esse genótipo paterno, e o mesmíssimo genótipo nas crianças repetiria as tendências violentas e o ambiente violento, num ciclo vicioso de base genética mais importante que os efeitos ambientais. É uma hipótese. Mas é uma hipótese mais feia do que dizer às pessoas que no fim das contas o que importa realmente é o ambiente (que é o que geralmente querem ouvir). Daí um duplo padrão de rigor, a depender de a hipótese sob análise favorecer genes ou ambientes como fontes causais do que se observa. Daí uma desenfatização seletiva de evidências, ao gosto do freguês.

Outro exemplo, mais recente, foi a manifestação dos especialistas quando se perguntou a eles por que, nas notas mais altas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), há mais pessoas do sexo masculino do que do feminino. O viés de desejabilidade social, que alguns chamam de politicamente correto, dita aqui que é perigoso e arriscado dizer que há razões biológicas para mulheres e homens diferirem quanto à inteligência, ou que a nota do Enem poderia refletir, além do esforço dos estudos, também inteligência. Daí os especialistas usam linguagem de tabu:

“‘A explicação não deve ser buscada na Biologia, embora cérebros de homens e mulheres não sejam iguais. Mas isso não afeta a cognição, em áreas do raciocínio lógico, muito menos na inteligência’, diz o professor titular de neurociência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Roberto Lent. Para ele, o que mais influencia são as posições da família e os estereótipos da sociedade.” (Do Estadão, ênfase minha.)

A afirmação de que a diferença (em média) dos cérebros de homens e mulheres não afeta a cognição na inteligência é falsa. Que fique claro: na média do QI há nenhuma ou pouca diferença entre homens e mulheres. Mas homens variam mais em QI que as mulheres (e QI é uma medida de inteligência com amplo apoio em evidências replicadas, é uma das áreas de maior replicação da psicologia). A variação na inteligência é uma coisa mensurável, e essa medida da variação (variância) é maior entre homens que entre mulheres. O que se espera disso é que, quando se seleciona a porção das maiores notas do Enem, haja mais  homens, pois a variação das mulheres se concentra mais em torno da média.

O fenômeno da maior variação no sexo masculino em várias características, especialmente as relacionadas ao sexo e ao sucesso reprodutivo, tem explicações evolutivas. Ou seja, tem boas explicações biológicas que têm a ver com a seleção sexual e o papel do sexo feminino de sustentar a prole enquanto dentro do útero.

Isso não quer dizer que alguma diferença social é explicada em todo ou em parte majoritária pela biologia. Isso precisa ser testado, de preferência sem tabus. O método da herdabilidade é um bom método para prospectar inicialmente a partição de variâncias explicáveis por biologia ou cultura, e é um método largamente ignorado por construtivistas sociais, que preferem se fechar numa bolha fazendo estudos “qualitativos”. Deixar a biologia de fora em dados como esses do Enem é aplaudir a ignorância, e estabelecer que a biologia não deve ser buscada é papel de pregador moralista, não de cientista. Nós podemos ter a discussão paralela de que os resultados podem inspirar más aplicações que potencialmente afetam a vida de indivíduos. Mas é obscurantismo não separar a discussão moral da busca desinteressada pela verdade. Jogar fora a navalha de Hume é voltar a um estado pré-científico e pré-iluminista, é tomar partido da proverbial Igreja da época da Renascença em vez de ficar do lado de Galileu.

A compreensão pública da ciência é mais afetada por milhões de pequenas picadas dos mosquitos da representação enviesada de resultados, da desenfatização de dados e evidências que estão em dissonância com os interesses dos divulgadores, pesquisadores e do público, do que por negacionistas teimosos que batem o pé diante de evidências de que estão errados. E quem fala contra os vieses do próprio enxame é alvo de ostracismo, quando não silenciamento.

From "In a Heartbeat", YouTube.
28th of September

Retirar a homossexualidade da lista de doenças foi decisão moral, e não há problema nisso


A classificação de algum comportamento como “transtorno” em psiquiatria depende de considerações morais. Não há muita novidade nisso. Eu não tenho problema nenhum com isso, pois não sou um não-cognitivista moral, acredito que há sim fatos morais e objetividade em ética (e que ética e moral são sinônimos, apesar de certas distinções sem diferença que só servem para obscurecer). Daí, a meu ver a psiquiatria nada perde como ciência por incluir fatos morais junto a fatos científicos (que continuam separados como ditou Hume).

Pregar que não há fatos morais gera mais problemas epistemológicos que soluções. Mas reconheço que há alguns intelectuais influentes, como Jonathan Haidt, que são não-cognitivistas morais. É por isso que, quando ele discute, por exemplo, que as universidades precisam escolher entre verdade e justiça social como valores, ele veste o jaleco de cientista e age como se a escolha fosse, em último caso, indecidível. Ele claramente favorece mais a verdade, mas sua teoria da psicologia social do comportamento moral traça analogias com crenças dogmáticas religiosas: existe divergência política não porque as pessoas são irracionais na política (como prega Michael Huemer), mas porque um grupo sacraliza mais certos valores que outros, enquanto todos concordam, geralmente, sobre o que é positivo e desejável. Outros, como Haidt, acham muito informativa a proposição de que a política vulgar está enganada ao se polarizar entre bons e maus, que na verdade os grupos adversários apenas valorizam diferencialmente mais uma coisa que outra, mesmo concordando que ambas são boas. Isso também está em Bobbio, que alega que esquerda valoriza igualdade mais que liberdade, e que a direita tem uma quantificação contrária de valorização de ambas. Por ter uma posição análoga sobre valores de grupos sociais, Haidt é relutante em alegar que é objetivamente melhor valorizar a verdade e que quem quer botar “justiça social” em seu lugar está simplesmente enganado.

Talvez alguém que não crê que se pode fazer progresso cognitivo em ética, na direção de respostas objetivamente melhores, tenderá a fazer uma ênfase na navalha de Hume (“é” não implica “deve ser”) e interpretá-la como significando que, se a psiquiatria tem algo a dizer sobre o que é normal ou não, então essa valoração deve ser puramente descritiva e factual, destituída de considerações éticas.

Um caso para discussão: a despatologização da homossexualidade. Francisco Razzo citou recentemente, sem muito comentário, um artigo de 2015 de Robert Kinney III, em que este médico argumenta que a decisão de importantes instituições profissionais americanas da psicologia e psiquiatria foi baseada em evidências controversas, artigos obscuros e anedotas. O propósito é mostrar arbitrariedade na decisão dessas instituições, o que sugere que os profissionais poderiam estar sendo igualmente objetivos ao continuar considerando a homossexualidade um transtorno (doença).

O que Kinney não discute o suficiente, no entanto, é que a “normalidade” é ambígua, e traz em si tanto o domínio dos fatos e descrições (o domínio do “é”) quanto o domínio ético (o domínio do “deve ser”). É preciso desambiguar. Mas essa desambiguação ficará do lado da decisão dos psiquiatras e psicólogos (e da OMS).

– Normalidade em fatos: uma característica normal é a que tem uma frequência alta o suficiente para ser considerada comum, em vez de rara. Há arbitrariedade aqui porque o senso comum não é exato, não define o que exatamente é comum ou raro. A escolha fica a gosto do freguês. A homossexualidade está em cerca de 10% dos homens e cerca de 5% das mulheres (Dawood et al. 2009). Isso é comum (normal) ou raro (desviante/aberrante/anormal)? Tudo o que os profissionais precisam é ter consistência, aqui: se esses números estão dentro da normalidade, ou seja, fazem dessa característica algo comum, então outras características com distribuição similar também são normais, comuns.

– Normalidade em ética: normal é uma característica eticamente justificada, aceitável; ou, alternativamente, eticamente neutra, inconsequente. Aqui acontece o debate ético, e é aqui que eu julgo que o não-cognitivismo moral, o absolutismo moral e o relativismo moral atrapalham. Aqui a alegação é que adultos que se sentem atraídos por adultos do mesmo sexo DEVEM ter liberdade para agir em conformidade com seu desejo como adultos heterossexuais fazem (inclusive em instituições seculares que partem desse desejo, como o casamento), e portanto homossexualidade é normal, e é objetivamente bom que seja assim. Aqui, as organizações profissionais da saúde estão tomando uma decisão que é ética, e que é incorporada às suas teorias do bem-estar humano. Quem está incomodado com essa decisão deve argumentar por que a liberdade dos homossexuais é moralmente inaceitável e convencer esses profissionais disso. A tradição anterior que patologizou a homossexualidade não fez isso. A decisão anterior foi simplesmente herdada, junto com leis de criminalização da sodomia como a que existiu no Reino Unido desde o século XVII até a metade do século XX. É meio desonesto que quem crê que homossexualidade é imoral abuse da ambiguidade do termo “normalidade” para alegar que a arbitrariedade na definição do que é “comum” é que é o problema, quando obviamente não é bem assim.

Finalmente, o nosso conceito de “normalidade” já é informado pela pesquisa em genética psiquiátrica. Os níveis “normais” de atenção e atividade são predizíveis a partir de modelos gerados com a variação patológica do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Ou seja, nós já conseguimos antecipar como são as pessoas “normais” a partir do estudo das pessoas “doentes”. O que sugere que a normalidade está dentro da variação da patologia e vice-versa, não havendo uma linha nítida entre uma coisa e outra em psiquiatria, o que está em conformidade com a arbitrariedade factual que comentei acima.

5th of June

Identidade de gênero e orientação sexual: militância versus evidência


O que diz a militância:
 
Identidade de gênero e orientação sexual são coisas completamente separadas. Identidade de gênero é como a pessoa se vê (se homem, mulher, ou nenhum dos dois), orientação sexual é por quem a pessoa se atrai. Dessa forma, identidade de gênero e orientação sexual variam independentemente.
 
O que dizem as evidências:
 
Os fatores que causam a orientação sexual e a identidade de gênero são intimamente relacionados. Se não são os mesmos, ao menos a intersecção entre os dois conjuntos de fatores causais é grande. De outra forma não se poderia explicar por que, através das culturas, a maioria (90% ou mais) das pessoas são heterossexuais e mais de 99% não sofre disforia de gênero nem é intersexo.
 
Disforia é a sensação de sofrimento psíquico por crise identitária de quem não se conforma ao gênero com que foi rotulado ao nascer. Nos casos mais severos, manifesta-se bem cedo em crianças e pode levar à automutilação.
 
Pessoa intersexo era conhecida antes pelo termo “hermafrodita”, um termo bonito, que vem dos deuses gregos Hermes e Afrodite, termo que o politicamente correto – sisudo e sem poética – condenou ao ostracismo. 1 em 2000 pessoas são intersexo, apresentando variados graus de ambiguidade de características sexuais primárias e secundárias.
 
Claramente identidade de gênero é relacionada à orientação sexual também porque uma parte substancial (quiçá a maioria) de pessoas homossexuais apresentam alguma não-conformidade de gênero na infância e adolescência (em outras palavras: muitos homens gays foram meninos que já usaram vestidos, sapatos e maquiagem da mãe – é um indicativo, não uma sentença). Além disso, a maioria, entre 50 e 88%, das crianças que manifestam disforia a resolvem com o tempo sem transição para outro gênero. Isso sugere que a transição só é terapêutica para uma minoria das crianças que manifestam disforia. A maioria, que não cresce trans, geralmente é gay. Novamente: identidade de gênero e orientação sexual são intimamente relacionadas.
 
Isso contradiz a insistência de que tudo o que é necessário para considerar uma criança “trans” é que ela manifeste disforia. Na verdade, a probabilidade maior é que não seja trans, mas gay. Também contradiz a noção de que basta uma criança dizer que é de outro gênero para aceitar que é mesmo. Não é transfóbico pensar que há uma probabilidade substancial de ela não ser: é o resultado mais provável. Isso, obviamente, não é desculpa para forçar a minoria que cresce para ser trans a não ser trans: estamos falando aqui do resultado mais terapêutico para seu desenvolvimento, e repito que para 12 a 50% dos casos o melhor curso de ação é a transição. Se você acha que uma pessoa trans sofre (e geralmente sofre, disforia é horrível), imagine então como sofre uma pessoa que fez transição, retirou mamas, tomou hormônios, porque ouviu que essa era a sua única opção, e depois se descobre não-trans e tem que viver com resultados permanentes de uma decisão tomada sem clareza suficiente sobre quem ela é. É a minoria de transicionados, mas existem (a idéia não é proteger minorias?).
 
Disforia está correlacionada com outros trantornos psiquiátricos. Não se pode atribuir todos os problemas psíquicos das pessoas trans à resistência da sociedade à sua transição. Sim, há muita transfobia e sofrimento causado por ela. Mas há mais coisas. A narrativa de “nasceu no corpo errado” não se aplica a todas as pessoas trans.
 
Finalmente, para botar um último prego no caixão da idéia de que identidade de gênero e orientação sexual são totalmente distintas e não relacionadas, vou falar de um tipo de transexualidade que essencialmente é uma orientação sexual. Trata-se da autoginecofilia. Autoginecófilas são mulheres trans (nascidas com sexo masculino) que têm atração sexual por si mesmas como mulheres. O conceito é um pouco difícil de entender quando se ouve falar nele pela primeira vez, mas existe e já foi descrito pelo cientista do sexo Ray Blanchard em detalhes. As autoginecófilas, como as outras trans (estas mais próximas de “nascidas no corpo errado”), podem fazer a transição hormonal e genital como terapia. Não é um fetiche, mas uma orientação-sexual-identidade-de-gênero que é parte fundamental de quem elas são. Alice Dreger, estudiosa da intersexualidade e de conflitos entre pesquisadores e ativistas, descreve o caso de uma mulher trans autoginecófila que chegou a raspar cirurgicamente o osso acima da sobrancelha, e conta que teve uma sensação de êxtase quando, depois da cirurgia, nos banhos o xampu passou a escorrer dos cabelos e chegar aos olhos, irritando-os. Porque tomar banho com um “guarda-chuva natural” acima da sobrancelha formado por esse osso seria coisa de homem. Alice, que é mulher nascida com vagina, diz que em toda a sua vida como mulher nunca tinha pensado nisso. Conto a história não para apontá-la como bizarra, mas para apontar o quão profunda é a identidade feminina para uma trans autoginecófila, tanto quanto para outras trans. (Outra evidência de que há ao menos esses dois tipos de mulheres trans é que as autoginecófilas tendem a gostar de mulheres e as outras tendem a gostar de homens.)
 
Portanto, enquanto ainda há muita ignorância sobre as origens tanto da orientação sexual quanto da identidade de gênero, está claro o suficiente que os dois conceitos são separados apenas para facilitar a compreensão de certas questões (ou por dogmatismo de ativistas), mas o mundo em si não os separa tão bem assim. Se engana quem pensa que não têm nada a ver com biologia, ou quem pensa que têm a ver apenas com biologia – os mais astutos devem ter percebido que a mulher trans de uma cultura pode ser o homem gay de outra.
 
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Referências
 
Sobre a provável maioria das crianças disfóricas não transicionar, vide Associação Psicológica Americana. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf
 
Sobre a proporção de intersexos na população, sobre histórias cabeludas de ativistas atrapalhando o avanço da ciência nessas questões, vide Alice Dreger: Galileo’s Middle Finger. https://g.co/kgs/oiUoOU
 
Sobre mulheres nascidas com pênis se assemelharem no cérebro a mulheres nascidas com vagina, e sobre homossexuais manifestarem não-conformidade de gênero, vide Bao & Swaab 2011. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21334362
 
Sobre disforia estar correlacionada a outros transtornos, ver este estudo escandinavo que relatou que ela é geralmente precedida por outros transtornos e que é muito comum o autismo: https://capmh.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13034-015-0042-y
24th of March

Resumidíssimo: por que gênero não é construção social Explicado em menos de 2600 caracteres, publicado originalmente no jornal O Tempo, 24 de março de 2017.


No livro “The Social Construction of What?”, Ian Hacking lista mais de 50 coisas que já se alegou que são construções sociais: emoções, sexualidade, doença, quarks etc., até fatos, realidade e conhecimento. É moda alegá-lo sem provas. Algo construído não estava ali para ser descoberto, e socialmente construído é algo que foi feito por uma sociedade e não por qualquer outra coisa. Alega-se que gêneros são também construídos socialmente. Esta é uma alegação determinista cultural sobre o gênero, uma inversão de determinismos biológicos igualmente equivocados, como o cromossômico. Já no berço, antes de aprender qualquer cultura, meninas já diferem de meninos no tempo em que olham para móbiles ou faces.

Se gênero fosse construção social, sob o igualitarismo homens e mulheres se aproximariam em escolhas de carreira. Ocorre o oposto: quanto mais igualitárias as sociedades, maior a diferença na escolha de carreira entre gêneros. A preferência masculina por carrinhos e feminina por bonecas vai além da espécie humana, macacos também a manifestam. Não parece ser o caso com preferência por azul ou rosa, que depende da cultura.

A maior descoberta da genética do comportamento é que nenhum comportamento é destituído de biologia. Outra é que nenhum comportamento é livre de ambiente. A dicotomia “natureza vs. cultura” é obsoleta, temos “natureza e cultura”. Somos culturalmente moldados na nossa natureza: sem a cultura do fogo, a savana em que evoluímos não teria energia suficiente para suprir o cérebro. Somos também biologicamente propensos à cultura: somente nossos filhotes ensinam já no início da infância. O gênero é feito de um cerne natural fruto da evolução ao qual são adicionados acessórios que são construções sociais. Gênero é o sexo que está entre as orelhas.

Contraste o gênero com uma categoria que é construída: a casta indiana. As castas começaram com uma invasão, e chegaram a milhares em poucos milênios. Não é o caso do gênero: não há cultura em que o número de gêneros tenha sequer chegado a dez, mesmo com gêneros precedendo castas. O que temos são culturas com categorias como “homem”, “mulher” e “fa’afafine” (em Samoa). O número de gêneros tem um limite inferior ao das castas, dado pela biologia. Há dimorfismo anatômico e comportamental, orientações sexuais, características que culturas lêem como essenciais às suas categorias de gênero.

Quem tem medo desses fatos confunde o projeto ético da igualdade de direitos e oportunidades com a engenharia social de forçar paridades. Além de tratar pessoas diferentes com igualdade, também devemos contar-lhes a verdade.

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Para referências, leia este texto do Dr. Larry Cahill.

Cérebro fetal por volta das 12 semanas de gestação. Enciclopédia online de embriologia do Dr. Mark Hill.
12th of January

Pequeno guia para quem quer formar opinião sobre aborto


A discussão sobre o aborto não é uma discussão sobre o que é vida. Isso é outro assunto. Talvez essa confusão vem de um dos direitos envolvidos ser chamado de “direito à vida”. Um termo um pouco confuso. No lugar de “direito à vida”, poderíamos falar em “interesse real ou atribuído de não ter sua própria existência interrompida”. Quando se diz que alguém tem direito à vida, a ideia é que essa pessoa tem interesse neste momento em continuar existindo, e que seria injusto que alguém a matasse. Há cenários em que é justo que esse interesse de continuar existindo seja ignorado em nome de coisas mais importantes. Se a pessoa em questão se tornasse uma ameaça iminente à vida de outra pessoa, ela poderia ser morta para preservar o interesse da outra em continuar existindo. A isso damos apropriadamente o nome de “legítima defesa”. Mas como as ocasiões em que é justo atropelar um interesse de viver são raras e extraordinárias, na maior parte das situações é injusto matar, então faz sentido dizer que há um direito à vida.

A maior parte das pessoas consegue expressar que tem o interesse de continuar vivendo. Algumas são incapazes de expressar esse interesse, mas isso não significa que ele não está ali. Nós atribuímos esse interesse a quem é incapaz de expressá-lo, quando vemos plausibilidade nessa atribuição. Os vegetarianos, por exemplo, acreditam que vacas, porcos, galinhas e peixes têm interesse em viver, mesmo que não possuam mentes capazes de expressá-lo, e que é injusto interferir nesse interesse para produzir alimentos quando alternativas existem. Fetos e crianças pequenas também não têm capacidade de expressar interesse em continuar vivos, então nós atribuímos a eles esse interesse. Quem é contra o direito de escolher abortar em qualquer situação acredita que não há ocasião plausível em que seja justo interferir nesse interesse atribuído de viver dos embriões, fetos, e bebês em gestação (usamos os três nomes em sequência no desenvolvimento, mas nem sempre há critério objetivo para mudar de um para outro). Quem é a favor da ideia de que há ocasiões em que é permissível abortar crê que há fases no desenvolvimento humano em que não é correto atribuir o interesse de viver ao ser em gestação, deixando portanto a gestante completamente livre para escolher terminá-la; ou que mesmo havendo algum tipo de interesse em viver, ele não é mais justificado em ser protegido que algum outro interesse conflitante da portadora do útero.

É mais fácil defender a permissibilidade de abortar quando o ser em gestação não tem interesse de natureza alguma, nem mesmo atribuível. Parece ser o caso se o cérebro dele ainda não é funcional. O sistema nervoso começa seu desenvolvimento cedo na gestação, mas termina muito tarde. Como o tecido neural é o mais “nobre” e o cérebro é o nosso órgão mais complexo, isso não é surpresa. A funcionalidade vai aparecendo aos poucos no desenvolvimento, se concentrando nas fases mais tardias. Há um consenso de que é extremamente improvável que o cérebro seja funcional até o fim do primeiro trimestre. O cérebro do feto, às 12 semanas, é como mostrado na imagem: liso, com poucos giros, e, mais importante que isso, há poucas e esparsas conexões entre os neurônios. Sabendo um pouco da relação entre cérebro e mente, atribuir interesses a esse cérebro desconectado é como dizer que mil computadores sem nenhuma conexão entre si fazem uma internet.

Às 12 semanas, o feto parece ser uma pequena pessoa com menos de 10 centímetros. Mas a ciência nos ensinou que aparência não é tudo. O sol aparenta ser um corpo celeste menor que a Terra que orbita em torno dela, mas a aparência é enganosa. A água aparenta poder ser divisível infinitamente, mas as aparências enganam. Crianças pequenas costumam atribuir vontades e interesses ao fantoche em vez de ao ator que mexe sua boca. Adultos devem ter mais capacidade de ir além das aparências e se perguntar se há motivos para crer que fetos do primeiro trimestre têm realmente interesse de viver, ou qualquer outro interesse, dadas as evidências sobre o estado de desenvolvimento de seus cérebros. Por isso, continuar apontando para a aparência do feto depois de que tudo isso foi dito é nada mais que falácia de apelo à emoção: na incapacidade de convencer alguém pela razão, apela-se para suas reações emocionais irrefletidas. Nós não pensamos que pessoas com morte cerebral corretamente diagnosticada têm interesse de continuar vivendo, e doamos seus órgãos para favorecer os interesses de outras pessoas. Isso é uma decisão eticamente correta, dependente de conhecimentos sobre o que significa um cérebro deixar de funcionar. Agora precisamos pensar com o mesmo rigor sobre como devemos tratar pequenos organismos nos quais o cérebro não começou a funcionar. É importante destacar aqui que as 12 semanas são um limite conservador, e que se é este o limite escolhido por lei, boa parte das interrupções de gestação acontecerão antes, quando há menos semelhança ainda do cérebro do feto com um cérebro desenvolvido e funcional.

Alguém poderá dizer que o conhecimento científico é sempre incompleto, e isso é verdade. Mas nós mesmo assim precisamos fazer decisões de vida ou morte com base nele todos os dias, como médicos sabem. Pedir por mais evidência é sempre melhor que confiar em autoridade, tradição e votos de leigos. Notar a falibilidade da ciência é motivo para buscar saber mais, não um motivo para sair buscando o que por acaso confirmar nossos preconceitos. Querem que eu mude de ideia sobre aborto ser permissível no primeiro trimestre de gestação? Tragam evidência de que fetos nessa fase têm um cérebro funcional, interconectado, minimamente capaz de abrigar interesses. Também ajudaria se pudessem me explicar por que devemos nos desdobrar para proteger esses fetos, quando há mais “humanidade” (imaginação, prazer, dor, intenções e interesses) em animais que matamos para comer. E quem pensa diferente – que aborto é algo tão tabu que não há nem mesmo cenários de “legítima defesa” de outras coisas que o permitam – será que sabe o que é necessário para mudar de ideia? Ou é incapaz de sequer imaginar um estado de coisas que torne sua opinião errada?

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Recursos

Peter Singer. 2006. “Ética Prática”.

Mark Hill. 2016. Enciclopédia Online de Embriologia. Origem da imagem usada. Cobre sempre a origem de imagens de fetos, pois ativistas pró-vida frequentemente usam fetos de gestação tardia para aumentar o efeito do apelo à emoção.

Stuart W. G. Derbyshire. 2006. Can fetuses feel pain?

The Androgynous Form of Shiva and Parvati (Ardhanarishvara). India, Uttar Pradesh, Mathura, 2nd-3rd century sculpture. Mottled red sandstone. Los Angeles County Museum of Art.
11th of July

Por que gênero NÃO É construção social


Embora a alegação de que várias propriedades humanas são “construção social” tenha se tornado moda em setores das humanidades e ciências sociais, geralmente pouca evidência é fornecida para justificar alegações de construção social. O próprio conceito de “construção social” é frequentemente ambíguo demais. Depois de remover as maiores ambiguidades, o filósofo Paul Boghossian providenciou uma definição de construção social mais clara e mais alinhada com os próprios interesses dos acadêmicos do ramo. A definição dele pode ser parafraseada assim: o que se quer dizer quando se alega que uma coisa é socialmente construída é que ela foi criada intencionalmente por uma sociedade em particular para atender a seus próprios interesses, e é contingente aos caprichos dessa sociedade de tal forma que essa coisa não existiria de outro jeito (não existiria, por exemplo, se essa sociedade tivesse interesses diferentes, ou se a construção tivesse sido feita por uma sociedade diferente).

Algumas coisas socialmente construídas ocorrem através de diferentes culturas. O dinheiro, por exemplo, foi construído independentemente por algumas sociedades para fazer a troca de bens, e porque a maioria das sociedades de hoje está interessada em trocar bens eficientemente, o dinheiro se tornou quase universal. Mas se as sociedades que usam dinheiro tivessem interesses diferentes, o dinheiro poderia nunca ter existido. Então é claro o bastante que o dinheiro é construção social.

Mas e as categorias de gênero como “homens”, “mulheres” e “fa’afafine” (uma categoria de Samoa que se aproxima do que chamamos de homens gays afeminados)? São construção social? Eu penso que não. Pelas seguintes razões:

  • As culturas são criativas, então coisas socialmente construídas costumam ser diversas e numerosas, como as diferentes moedas que o mundo teve na história. Pense também em castas indianas. Há 3000 castas diferentes na Índia, e ainda mais subcastas. Comparado a castas e moedas, o número de categorias de gênero parece ser tediosamente baixo – duas no Brasil, três em Samoa, com nenhuma sociedade tendo atingido números de dois dígitos, até onde sei. As castas indianas parecem ser mais prováveis de serem construções sociais, ao ponto de ser possível explicar sua existência com base em fatos históricos conhecidos sobre as culturas indianas.
  • As culturas têm certo poder de decisão sobre com quais categorias de gênero trabalharão e quantas existirão. Mas as razões pelas quais elas têm categorias de gênero não são construção social. São elas: (1) o dimorfismo sexual dos corpos humanos, seguido estritamente por todos os corpos com exceção de um pequeníssimo número deles; (2) um número limitado de orientações sexuais que ocorrem naturalmente e que existem por causa do dimorfismo sexual dos corpos (homossexualidade, heterossexualidade e bissexualidade) – a herdabilidade da orientação sexual é de moderada a alta e algumas das regiões genômicas envolvidas nisso já foram mapeadas; (3) agregados de comportamento que ocorrem naturalmente (além das orientações sexuais), alguns dos quais têm origem evolutiva e são associados a organismos com base em se eles produzem uma abundância de gametas ou se têm poucos gametas e são responsáveis por abrigar o desenvolvimento de fetos.

  A pesquisa sobre essas últimas razões está em andamento e as alegações sobre quais exatamente são essas diferenças de comportamento (previstas por causa da evolução) são altamente contestadas. Alguns resultados são consistentes, no entanto: homens tendem a se sair melhor na tarefa de rotacionar mentalmente objetos 3D, enquanto mulheres parecem ter uma vantagem em tarefas relacionadas à empatia, como ler as emoções de alguém. Mas mesmo se diferenças de gênero apontadas no passado se revelarem falsas, podemos ter confiança de que, enquanto foi detalhista ao moldar corpos, a evolução provavelmente não parou acima do pescoço em relação a sexo no cérebro.

É inteiramente possível que, enquanto o gênero em si não é construção social – porque culturas diferentes chegam a categorias similares de gênero com base em diferenças naturais no corpo e no comportamento – algumas coisas associadas como papéis e expressões de gênero provavelmente sejam constructos sociais, ao menos exemplos delas como a cor que meninas e meninos supostamente preferem, quem é responsável por iniciar flerte, etc. Há evidência de que homens e mulheres fazem em média decisões de carreira diferentes, mesmo em sociedades igualitárias – o que conta como evidência de que essas categorias não são construção social, enquanto não significa, evidentemente, que um indivíduo em particular devesse ser discriminado por fazer escolhas de carreira atípicas de seu gênero.

É importante reconhecer a diferença entre o cerne não socialmente construído do gênero e suas propriedades auxiliares socialmente construídas, de modo que políticas e decisões morais baseadas em gênero sejam mais justas. Isso ficou claro na medicina, em que há resultados mostrando que cérebros masculinos e femininos podem responder de forma diferente ao mesmo medicamento. Agora a falha da hipótese da construção social do gênero deve ser reconhecida nos debates culturais também. Muitos ativistas saltam à acusação de sexismo ao menor sinal de que as pessoas estão se comportando de forma típica para seu gênero, revelando uma esperança ilusória e fora de lugar de que seja possível erradicar categorias de gênero da existência. Para evitar bater de frente com a ciência ainda mais, esses ativistas têm de reconhecer que a ação para mitigar a discriminação injusta não deveria ser acoplada a uma esperança de atingir uma paridade de gênero em tudo. Forçar as pessoas a se comportarem do mesmo jeito onde elas naturalmente divergem não é ativismo, é engenharia social utópica. Pessoas livres precisam apenas de igualdade de oportunidades para perseguir seus interesses diversos. Homens e mulheres (e fa’afafine etc. onde aplicável), incluindo os que são trans, apreciam-se entre si e uns aos outros sem necessidade de paladinos morais que tentam forçá-los a ser o que não são. E certamente não precisam de falsidades propagandeadas como o único caminho para a justiça – pois a justiça prefere a verdade.

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Referências comentadas

As pessoas interessadas no assunto devem estar cientes de que há um pequeno número de grupos de pesquisa dentro da neurociência que tem interesse ideológico de alegar que todas as diferenças no cérebro e no comportamento encontradas por outros pesquisadores são falsas ou infinitesimais. Há também um grupo menor ainda, rejeitado por todos, de cientistas conservadores com papéis de gênero que se apressam em aprovar qualquer diferença biológica alegada, independentemente da qualidade das evidências. Então, às vezes, a revisão por pares falha e estudos de baixa qualidade são publicados e publicizados como verdade revelada por blogs e veículos de mídia interessados em confirmar suas narrativas. Cientistas como Melissa Hines, Simon-Baron Cohen e Larry Cahill, que estudam gênero cerebral, evidentemente afirmam que as diferenças existem com base em evidências (no caso de Baron-Cohen, também porque tem a ver com autismo, muito mais comum em meninos que em meninas). Em oposição a esses há Cordelina Fine,  Daphna Joel e seus colaboradores, que parecem estar interessados em negar as diferenças ou reinterpretá-las como um “mosaico cerebral” inclassificável como masculino ou feminino, em que todas as pessoas são vistas como “intersexuais” no cérebro. Recomendo lê-los todos e decidir por si quais estão amparados em evidências.

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Boghossian, Paul. “What is social construction?.” (2001).

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Cahill, L. (2006). Why sex matters for neuroscience. Nature Reviews Neuroscience, 7(6), 477–484. http://doi.org/10.1038/nrn1909
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Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Cahill, L. (2015). Diferenças de Sexo no Cérebro Humano. Xibolete | Cerebrum, 5. Disponível aquihttp://xibolete.uk/sexo-cerebral/
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Hines, Melissa. Brain gender. Oxford University Press, 2005.
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Bao, A.-M., & Swaab, D. F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Frontiers in Neuroendocrinology, 32(2), 214–226. http://doi.org/10.1016/j.yfrne.2011.02.007
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Sanders, A. R., Martin, E. R., Beecham, G. W., Guo, S., Dawood, K., Rieger, G., … Bailey, J. M. (2014). Genome-wide scan demonstrates significant linkage for male sexual orientation. Psychological Medicine, 1–10. http://doi.org/10.1017/S0033291714002451
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Resenha crítica do livro de Cordelia Fine:
Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Baron-Cohen, Simon. “‘Neurossexismo’: Homens não são de Marte, Mulheres não são de Vênus e Cordelia Fine não faz jus à neurociência”. Xibolete (2015) | The Psychologist 23.11 (2010): 904-905. Disponível aquihttp://xibolete.uk/neurossexismo/
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Artigo mais recente de Joel et al. alegando que não é possível prever o gênero de uma pessoa com base em características cerebrais:
Joel, Daphna, et al. “Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic.”Proceedings of the National Academy of Sciences 112.50 (2015): 15468-15473. Disponível aqui.
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Respostas a Joel et al. mostrando que estão errados em alegar que cérebros humanos não podem ser categorizados em masculino e feminino:
Del Giudice, Marco, et al. “Joel et al.’s method systematically fails to detect large, consistent sex differences.” Proceedings of the National Academy of Sciences 113.14 (2016): E1965-E1965. Disponível aqui.
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Rosenblatt, Jonathan D. “Multivariate revisit to” sex beyond the genitalia”.”Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (2016). Disponível aqui.
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Chekroud, Adam M., et al. “Patterns in the human brain mosaic discriminate males from females.” Proceedings of the National Academy of Sciences113.14 (2016): E1968-E1968. Disponível aqui.
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Imagem: Forma andrógina de Shiva e Parvati (Ardhanarishvara). Índia, Uttar Pradesh, Mathura, escultura do século II ou III. Em arenito vermelho manchado. Los Angeles County Museum of Art.
25th of June

Izquierdo tem razão, psicanálise é obsoleta E é um desperdício de recursos que prejudica autistas e suas famílias


Há algumas semanas, sonhei que minha mãe molestava minha irmã. Não comentei a respeito com elas, não me preocupei com isso, e teria esquecido se não estivesse numa semana com sonhos particularmente vívidos. Graças à Santa Mielina, não houve detalhes gráficos no pesadelo, apenas algumas cenas da minha irmã reclamando do problema e eu me chocando (no sonho) que nossa mãe católica e amável fosse capaz de uma coisa tão abominável. Mas ela não é – foi apenas um pesadelo besta. Não li grandes mistérios por trás disso.

Durante o meu dia, é comum que eu pense em quebra-cabeças éticos. Disputo a crença de muita gente de que emoções são necessárias para a moralidade, e o incesto é um exemplo interessante pois incita na maioria de nós uma forte repulsa (anedoticamente, parece que a repulsa é mais forte em quem tem irmãos do que em filhos únicos, o que faz sentido dada a raiz biológica do tabu do incesto), enquanto é possível imaginar situações em que não é errado, no sentido de não gerar consequências negativas para ninguém. Ou seja, embora tenhamos sentimento de repulsa, ele não é suficiente, e talvez sequer necessário, para o julgamento moral de toda situação que envolve incesto (lembre-se, aqui, que nem todo incesto envolve abuso sexual de menores). Outro exemplo de que emoções são divorciáveis da conduta ética está num experimento mental que propus: imagine que uma criança precisa ser operada para não morrer de apendicite, e o cirurgião é um psicopata com prazer em abrir pessoas. Os sentimentos ruins a respeito de um sádico cortando uma criança por prazer – medo, repulsa, nojo – precisam ser deixados de lado para salvar a vida da criança – o que será feito pela consideração racional dos riscos e benefícios. Essas emoções não são nem necessárias nem suficientes para decidir o que é melhor para a criança, podem até atrapalhar. O melhor desse experimento é que posso informar que o cirurgião psicopata realmente existe e vive no nordeste brasileiro. Fui comunicado da existência dele por uma amiga em comum. É um ótimo cirurgião. A família notou cedo que ele tinha prazer em desmembrar animais e o direcionou para a medicina, redirecionando os impulsos que poderiam ter gerado sofrimento no mundo para salvar vidas. Ele não teve problema em se acostumar a ver pessoas abertas e ensanguentadas, como outros cirurgiões têm em início de carreira. E ele, é claro, tem a racionalidade para julgar suas ações, e o fato de que psicopatas podem ser éticos reforça minha hipótese de que as emoções (das pessoas comuns) não são necessárias, ou suficientes, para a moralidade.

No dia em que tive o pesadelo, pensei na minha família e pensei em incesto em momentos distintos, e na hora de consolidar as memórias do dia meu cérebro juntou as duas coisas, num emaranhado maluco com um enredo sem pé nem cabeça, o que é uma descrição sucinta da maioria dos sonhos, especialmente os que ocorrem nas fases de movimento rápido dos olhos, que têm probabilidade mais alta de serem lembrados. Enquanto o enredo dos sonhos não faz muito sentido – o que em si é um sinal de que os sonhos estão ligados à consolidação das memórias em fases específicas do sono – faz sentido que família e incesto sejam memórias ligadas por contexto, e nossas memórias têm essa característica: em vez de serem catalogadas como a memória do computador, são armazenadas de acordo com a co-ocorrência contextual. Devo acrescentar que a cena do pesadelo acontecia na casa em que passei a maior parte da minha infância, o que informa aos neurocientistas que se trata de memória episódica antiga sendo reconsolidada e acomodada de acordo com memórias mais recentes. Com essa informação, os neurocientistas conseguem até prever com certo grau de precisão em que fase do sono eu tive o pesadelo, e que, como foi na fase final do sono, de manhã, tem algo a ver com os efeitos da concentração crescente do hormônio cortisol no hipocampo, como discutem, por exemplo, Jessica Payne e Lynn Nadel numa revisão de 2004.

Mas, segundo psicanalistas, eu deveria ter lido alguma coisa mais “profunda” que uma mera consolidação  de memórias do dia nesse pesadelo. Por que um homem gay como eu sonharia com uma coisa desse tipo? A psicanálise não concluiria nada sobre minha mãe e minha irmã com esse pesadelo, espero, embora psicanalistas pareçam ser particularmente obcecados com “complexos” incestuosos. Antes, concluiria algo sobre mim. Com que métodos? Adivinhação e evidências anedóticas.

Foi justamente na obra “A Interpretação dos Sonhos” (1899) que Sigmund Freud começou a propor sua teoria do “complexo de Édipo”. Que podemos resumir assim: toda criança tem atração sexual pela mãe, pelo pai, ou pelos dois. Segundo Freud, os sonhos existem para que o inconsciente encontre uma forma de realizar nossos desejos mais íntimos. Segundo os psicanalistas, meu sonho quer dizer que eu, que acho Henry Cavill extremamente atraente, desejo ver envolvimento lésbico entre membros da minha família. Você deve estar brincando, Dr. Freud! Isso, à luz do que sabemos graças à neurociência e ciências cognitivas, é um disparate pseudocientífico, e deve ser tratado como tal.

É claro que os psicanalistas modernos alegarão que estou fazendo um espantalho da sua “teoria” (que mal merece o status de hipótese), embora tudo isso que eu disse esteja em Freud e em muitos de seus defensores modernos. Farão um esforço de reinterpretar meu pesadelo de uma forma que faça mais sentido e soe menos como um disparate pseudocientífico. Mas esse não será um exercício de pesquisa e de mudança de opinião com base em novas evidências coletadas: será um exercício de construção de epiciclos. Quando os astrônomos ptolomaicos antes de Kepler tentavam insistir que a órbita dos planetas era perfeitamente circular, por um viés estético herdado de Platão e Aristóteles, eles tentavam explicar as anomalias na órbita observável dos planetas com a introdução de círculos no topo dos círculos de translação em torno da Terra (pois acreditavam no geocentrismo): os epiciclos. Alguns botavam tantos epiciclos hipotéticos na órbita dos planetas que os cálculos ficavam quase impossíveis de verificar, então poderia ser verdade que só há círculos na órbita dos planetas, e isso é tudo o que importa. Para muitos psicanalistas de hoje, o que importa é que a psicanálise poderia ser verdade, não que ela não parece ser verdade de acordo com as evidências coletadas por cientistas. Alguns chegam a abandonar o barco das pretensões científicas da psicanálise, alegando que psicanálise jamais se pretendeu ciência (o que é revisionismo histórico conveniente), ou se juntam ao comboio amalucado dos pós-modernistas, construindo frases sem sentido como essa:

“A psicanálise não se propõe a disputar com a ciência o lugar de portadora da verdade, mas interroga os efeitos que têm sobre nós, sujeitos humanos, as palavras e discursos que nos constituem – que são necessários, porém sempre insuficientes para dar conta de nossa experiência.” – Paulo Gleich no Sul 21.

Em primeiro lugar, como se interroga algo sem pretensão de portar a verdade, especialmente quando o intuito é lidar com os problemas psicológicos de um indivíduo? Devo assumir, então, que se eu me deitar no divã do Paulo Gleich não devo esperar resposta quanto a ser verdade ou inverdade que estou estressado, quanto a ser verdade ou falsidade que preciso de um namorado, etc.? Além disso, quais são as palavras e discursos que me constituem? Essas que estou escrevendo agora me constituem? Se eu rejeitá-las ou esquecê-las amanhã (certamente durante um sonho em que o Scooby Doo sodomiza o Scrappy Doo), deixarão de me constituir? As coisas que Gleich disse são um exemplo clássico do que Harry Frankfurt descreveu como “bullshit”.

São também exemplo de algo que aconteceu justamente pela falha da psicanálise em se manter de pé diante do avanço das ciências rigorosas do cérebro e da mente: uma fuga para o dadaísmo conceitual, em que verdade, objetividade e outras facetas da razão são coisa de gente “ingênua”, provavelmente gente ingênua que deseja charutar seus progenitores. Muito se discute sobre Freud (num personalismo também incompatível com o proceder científico), mas, mesmo entre acusações de fraude e de tolice – quando por exemplo ele diagnosticou críticas da psicanálise como neuroses – poucos duvidam que ele tinha grande respeito pela ciência e gostaria de saber mais sobre o cérebro. Se realmente é assim, ele deve girar mil vezes no túmulo quando escuta que seu suposto discípulo Jacques Lacan alegou que o pênis é análogo à raiz quadrada de -1 (i), entre outros disparates psicanalíticos abusando da matemática resenhados em “Imposturas Intelectuais” de Alan Sokal e Jean Bricmont. Freud também se espantaria de ver a péssima influência dos psicanalistas sobre a integração social e tratamento de autistas e suas famílias, culpando os pais pelas dificuldades de neurodesenvolvimento das crianças autistas. Tudo, novamente, baseado em evidência anedótica e especulação, que, como os homeopatas, os psicanalistas preferem chamar de “estudo de caso”/”pesquisa qualitativa” e “teorização”. Enquanto isso, a genética descobre que mais da metade da variação do autismo é explicável por variantes genéticas comuns em combinações raras.

No Brasil estamos agora discutindo bastante a corrupção política. Mas ainda precisamos lidar com outro tipo de corrupção: a corrupção intelectual de comunidades dogmáticas herméticas, entre elas a da psicanálise e da homeopatia, que parasitam recursos públicos sem ter evidência da verdade de suas teorias, a um ponto tão cínico que alguns até dizem que verdade de teorias não é o que mais importa. Pois estão errados. Mais errados que o incesto.

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Não deixe de ler este texto sobre Freud e o início da psicanálise na revista Crítica.

Confira referências da minha entrevista com uma mãe de autista no post Autismo: Teoria e Prática.

Referências:

Payne, J. D., & Nadel, L. (2004). Sleep, dreams, and memory consolidation: The role of the stress hormone cortisol. Learning & Memory, 11(6), 671–678. http://doi.org/10.1101/lm.77104
Sokal, A., & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos. Rio de Janeiro: Record, 198–200.

Frankfurt, H. G. (2005). Sobre falar merda. Tradução Ricardo Gomes Quintana. Rio de Janeiro: Intrínseca.

P.S.: Aparentemente, a crítica mais comum que estou recebendo pelo texto é por dizer que “segundo psicanalistas” meu sonho seria interpretado literalmente como um desejo inconsciente meu. Eu concordo que usar a expressão “segundo psicanalistas” foi sugestivo de que algum psicanalista realmente disse isso, quando nenhum disse isso a mim diretamente. Eu apenas segui as implicações da alegação de que os sonhos são manifestações de desejos inconscientes. Desde o princípio psicanalistas propuseram interpretações convolutas de sonhos, e realmente não eram tão literais, só que eram, sim, interpretações do conteúdo dos sonhos. Essa história de que a psicanálise “rejeita a visão hermenêutica dos sonhos” (uma forma desnecessariamente complicada de alegar que não faz interpretação do conteúdo dos sonhos) é contradita pela própria história da psicanálise. Na verdade os psicanalistas insistiam em fazer interpretação dos sonhos, contanto que quase tudo virasse sexo. Até subir uma escada em sonho é interpretável como o ato sexual para psicanalistas históricos: http://criticanarede.com/freud.html Mas como eu previ no próprio texto, nenhum psicanalista de hoje admitira seguir as próprias alegações psicanalíticas sobre os sonhos para o meu sonho, e me acusariam de falácia do espantalho. O que isso mostra é mais uma faceta do caráter pseudocientífico dessa prática intelectual: o obscurantismo. Não importa se está fortemente sugerido em obras seminais da psicanálise que os sonhos devem realmente ser interpretados como manifestações de desejos inconscientes, sempre há algum epiciclo a ser levantado para manter a ideia obscura e “profunda” quando alguém tenta esclarecê-la e mostrá-la falsa. É uma estratégia comum em adeptos dogmáticos dos mais variados tipos de crenças: afirma-se algo obscuro, que se for esclarecido cai em alguma afirmação excitante mas falsa ou verdadeira porém apenas um truísmo enfadonho. Para manter a versão excitante e falsa, acusa-se quem esclareceu a afirmação obscura de falácia do espantalho e de não estudar o suficiente. O caso é que não há como estudar o suficiente. Críticos jamais serão ouvidos ao menos que parem de criticar e virem adeptos.

31st of May

Wolbachia, a bactéria ‘feminista radical’ Para a bactéria que infecta mais da metade das espécies de artrópodos terrestres, quanto menos machos melhor


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Wolbachia (marcada com corante verde) no ovário de um mosquito Aedes aegypti. Via eliminatedengue.com

Na minha pesquisa estudamos a distribuição de bactérias como a Wolbachia em artrópodos, especialmente insetos. O motivo pelo qual a escolhemos é que ela é capaz de manipular a reprodução de seus hospedeiros, de formas que vão do parasitismo (vantagem da bactéria com desvantagem do hospedeiro) ao mutualismo (vantagem mútua). A evolução de uma relação ecológica desarmônica para uma harmônica (e vice-versa), que se vê na relação dessa bactéria com artrópodos, é um assunto muito interessante que envolve quase toda a vida como a conhecemos, pois está por trás da origem de todas as células eucarióticas (como são as nossas próprias células). A melhor explicação para a existência de organelas como as mitocôndrias e os plastídeos (incluindo cloroplastos) na enorme variedade de organismos eucariontes de hoje é que, no passado, entre seus ancestrais unicelulares, os ancestrais dessas organelas, que também tinham vida livre, eram comidos vivos pelas células maiores ou as parasitavam (ou seja, havia relação ecológica desarmônica). Hoje todos os protozoários, animais, plantas e fungos não vivem sem suas mitocôndrias – a relação evoluiu de desarmônica para mutualismo, e do mutualismo para a completa fusão. Há algo de elegante em ver uma briga de bilhões de anos atrás se tornar ‘amor’, e o ‘amor’ se tornar uma união indissolúvel. 

A Wolbachia faz algo similar ao que fizeram as bactérias ancestrais imediatas das mitocôndrias bilhões de anos atrás: ela vive dentro das células. Gosta especialmente de habitar óvulos (ovócitos), pois são seu principal veículo para sobrevivência ao longo das gerações dos artrópodos que infecta. E por isso, como estratégia de sobrevivência e reprodução, Wolbachia desenvolveu manipulações do sexo de muitos dos seus hospedeiros. A bactéria é capaz de*:

– Feminizar embriões geneticamente machos, ou seja, transexualizar machos em fêmeas. Isso foi observado em algumas espécies de tatuzinhos-de-jardim (que são crustáceos), cigarrinhas (Hemiptera) e borboletas. Em algumas vespas, além disso, a presença da bactéria acoplada ao estresse térmico gera indivíduos com variadas misturas de características femininas com características masculinas. Algumas borboletas, quando curadas da presença de Wolbachia através de antibióticos, manifestam também uma mistura de características sexuais e morrem na hora de sair do casulo.

– Induzir a concepção virginal, ou seja, a reprodução assexuada em que fêmeas geram filhotes sem precisar de sexo com machos, o que é conhecido como partenogênese telitóquica. Wolbachia faz isso com algumas espécies de vespas, ácaros e tripes (esses últimos são da ordem Thysanoptera). Sem Wolbachia algumas espécies de vespas não conseguem nem produzir óvulos.

– Infanticídio de machos, ou seja, a bactéria pode matar embriões machos e poupar as fêmeas. Isso foi descrito em alguns besouros, moscas, pseudoescorpiões e borboletas. Parece que isso acontece mais em espécies em que irmãos competem por recursos – Wolbachia dá seu empurrãozinho para a vantagem das fêmeas sobre os machos, matando os machos.

– Impedir machos infectados de se reproduzirem com fêmeas não infectadas. Apesar de parecer um absurdo a bactéria impedir sua própria propagação dessa forma, a explicação para isso está na racionália do gene egoísta: ao diminuir o sucesso reprodutivo de fêmeas não infectadas, essas bactérias estão beneficiando suas irmãs que estão nas fêmeas infectadas. Por isso, para a continuidade dos genes das bactérias, não é desvantagem que as que estão nesses machos infectados estejam essencialmente na mesma posição dos músicos conformados do Titanic: se sacrificando pelo bem de seus pares. Além disso, linhagens diferentes de Wolbachia podem competir entre si, impedindo que machos infectados com uma linhagem A se reproduzam com fêmeas infectadas com outra linhagem B. Esse impedimento à reprodução é chamado de incompatibilidade citoplasmática, a primeira forma (macho infectado, fêmea não infectada) é unidirecional, a segunda (macho e fêmea infectados com linhagens diferentes) é bidirecional. A incompabilidade citoplasmática causada por Wolbachia foi descrita em alguns ácaros, besouros, moscas, hemípteros, vespas, tatuzinhos-de-jardim, borboletas/mariposas e ortópteros. Quem gosta de evolução deve estar especialmente empolgado com essa manipulação, pois, como sabemos, o aparecimento de barreiras reprodutivas é um dos fatores que leva à origem de novas espécies. Nós testamos, por exemplo, se há uma correlação entre a incidência de Wolbachia e o número de espécies em grupos de besouros – a correlação existe, mas é estatisticamente fraca.**

Não sabemos ao certo se é por causa dessas manipulações reprodutivas, mas nossa pesquisa** mostrou que mais da metade (52%, com margem de erro entre 48 e 57%) das espécies de artrópodos terrestres estão infectadas com Wolbachia. Além disso, Wolbachia também infecta alguns vermes, inclusive filárias causadoras da elefantíase. Poderemos chegar a tratamentos para verminoses e a novas formas de controle de zoonoses trasmitidas por mosquitos através dessa que é a bactéria mais misândrica e feminista radical de todas: em se tratando de aracnídeos, crustáceos e insetos terrestres, para a Wolbachia, quanto mais fêmeas e menos machos, melhor.


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* Werren, J. H., Baldo, L., & Clark, M. E. (2008). Wolbachia: master manipulators of invertebrate biology. Nature Reviews Microbiology, 6(10), 741–751. http://doi.org/10.1038/nrmicro1969. Algumas informações dadas estão em outras fontes.


** Weinert, L. A., Araujo-Jnr, E. V., Ahmed, M. Z., & Welch, J. J. (2015). The incidence of bacterial endosymbionts in terrestrial arthropods. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 282(1807), 20150249–20150249. http://doi.org/10.1098/rspb.2015.0249

2nd of May

“Apropriação cultural”, mais uma vez


Contribuí dando entrevista para uma matéria d’O Fluminense sobre “apropriação cultural”, assunto de que já tratei aqui. Como é normal, não houve espaço para tudo o que eu disse na matéria, então reproduzo minhas respostas na íntegra abaixo.

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O termo “apropriação cultural” pode descrever o interesse de alguém de adotar elementos de uma cultura estrangeira. Mas, recentemente, foi ressignificado numa parte radical (e radicalmente errada) do ativismo como não apenas isso, mas também, adicionalmente, como algo imoral, indesejável. Esse novo conceito vem do norte do continente americano, especialmente dos Estados Unidos, onde houve uma história recente de segregação racial codificada em lei, onde pessoas ditas “brancas” e as ditas “negras” eram coagidas socialmente a se separarem.

O lema dessas políticas racistas era “separados, mas iguais”. Como muitos outros lemas, incoerente, pois se você precisa se apartar de alguém por causa da cor da sua pele, isso já presume que você não trata essa pessoa como um igual, ou seja, como alguém cujos interesses têm tanta prioridade em serem atendidos quanto os seus: afinal, quando os interesses forem os mesmos (por exemplo, o interesse de ser contratado num bom emprego), a segregação será algo que dificultará o atendimento dos interesses de uma ou ambas as partes, por isso a segregação é imoral. E essa segregação foi obliterada por lá graças a ativistas como Martin Luther King Jr. e Rosa Parks. Mandela e outros também tiveram sucesso contra o Apartheid sul-africano.

O Brasil teve uma história mal resolvida de abolição da escravidão, pois não ofereceu plenas oportunidades para os libertados, mas jamais chegou a codificar em lei essa segregação. Hoje, quem mais chama por segregação no Brasil são justamente as pessoas que reclamam de “apropriação cultural”. São as que abominam (em vez de celebrar) a miscigenação brasileira como se fosse puramente um fruto da “política de embranquecimento”.

Essa política racista de fato existiu, mas não é mais responsável pela miscigenação brasileira que outros fatos históricos sobre o país – por ter inúmeras populações nativas, por ter sido colonizado por europeus, por ter importado mão-de-obra escrava da África e semi-escrava de lugares como Itália e Japão. A política do embranquecimento veio numa época de grande ignorância sobre genética. Talvez os racistas pensassem que os genes europeus eram “mais fortes” e que “melhorariam a raça” (uma expressão racista que infelizmente ainda está na boca de alguns brasileiros) através da mistura. Mas isso é uma noção ridícula. Como sabemos hoje, quando há relação de dominância mendeliana (que não contém qualquer noção moral ou estética de “melhor” e “pior”) nos genes que participam da cor da pele, geralmente a pele mais escura é favorecida nos filhos de uniões entre pessoas de cores diferentes. Mas, por causa de um fenômeno chamado de “equilíbrio de Hardy-Weinberg”, todos os fenótipos, do olho claro à pele escura (às vezes uma coisa junto com a outra, como aconteceu com o comediante Hélio de La Peña), continuarão se manifestando nas gerações subsequentes de miscigenados. O Brasil não é um país destituído de racismo, mas a população brasileira, com sua enorme variação, é vista pelo resto do mundo como um modelo de diversidade genética (modelo porque em um mundo com menos racismo presume-se que há mais mistura dos fenótipos). E eu acho que também é um modelo de diversidade cultural em alguns sentidos. Não faz qualquer sentido tentar barrar essa diversidade alegando, como alegam as pessoas contrárias à “apropriação cultural”, que há problema em um paulista loiro usar tranças ou dreadlocks mais frequentemente associados a pessoas negras. Problema há em tentar impedir que indivíduos sigam suas preferências estéticas e se apropriem de elementos culturais de qualquer lugar. É a liberdade do indivíduo, não a identidade de grupos, o que tem prioridade na declaração universal dos direitos humanos.

Nós estamos na era genômica, ou seja, na era em que temos acesso a quase todas as informações genéticas que são parte integral do indivíduo. Digo quase todas porque, mesmo se você tiver em mãos a sequência completa do DNA de todos os seus cromossomos, haverá algumas coisas sobre a sua biologia que permanecerão um mistério, porque a pesquisa ainda não revelou o que certas partes da sequência fazem, ou porque essas coisas estão em outro tipo de codificação nas suas células (como a codificação epigenética), ou porque são resultado de acidentes de desenvolvimento e influência do ambiente. Para azar dos racistas, é quase consenso entre biológos e antropólogos físicos que raças não existem na espécie humana, então sequer faz sentido a sua tola busca por superioridades e inferioridades essenciais a grupos na diversidade humana. Alan Templeton é um dos cientistas que deram os melhores argumentos a respeito: nós temos mais variação dentro de cada um dos grupos vistos como “raças” do que entre eles, e o que se entende por “raça” parece ser mais próximo do que pode ser descrito como “subespécie” em biologia, e não há subespécies entre humanos. Poderá haver no futuro, se alguns de nós formos para outro planeta e seguirmos um curso de mudanças genéticas (inevitáveis) diferente. Nem nesse futuro hipotético em que raças existem o racismo se tornará correto.

Nós já temos pessoas que são biologicamente diferentes das outras, biologicamente menos capazes que outras de realizar certas tarefas: são os deficientes físicos. E a atitude correta é ajudá-los a superar suas dificuldades, não segregá-los. Ou seja, o racismo é incorreto mesmo se fosse verdade que raças humanas existem e que diferem em habilidades. Os racistas perderam o debate, e hoje o termo “racista” é uma arma, pois qualquer pessoa que seja rotulada de forma justa com ele na nossa sociedade irá perder certos confortos e privilégios (o que é também justo). Como toda arma, essa rotulação pode ser usada para fins escusos. E um desses é a acusação de racismo por “apropriação cultural”, que faz parte, na verdade, até de uma tentativa de ressignificar o que a palavra “racismo” quer dizer, enquanto se mantém sua marca poderosa de desqualificação. Algumas pessoas, influenciadas por acadêmicos que perderam a fé em noções como verdade, justiça, imparcialidade e individualidade, e as substituíram todas por jogos de poder, estão tentando defender que racismo não é preconceito e discriminação injusta por causa de características superficiais (cor de pele, textura de cabelo, etc.). Querem mudar a definição de “racismo” para algo que inclui “desequilíbrios de poder estruturais” na sociedade, uma linguagem propositalmente mal definida e pouco clara, para tornar impossível que grupos que não eram alvos de racismo na história brasileira possam ser vistos como alvo de uma onda de acusação racista por fazerem dreadlock em cabelo da cor e da textura “erradas”. Para quem é astuto com lógica, dada a definição clássica de racismo, atacar pessoas dessa forma, tentando, por causa de sua cor de pele, evitar que usem turbantes ou façam tranças de certo tipo, é claramente racista. Afinal, isso é tratar diferentemente as pessoas com base em sua cor de pele, em vez de com base no conteúdo de seu caráter: é fazer o contrário do que Martin Luther King aconselhou.

A intelectualidade brasileira deve resistir contra essa onda de irracionalidade neorracista nas redes sociais. O que é apenas, afinal de contas, resistir ao racismo em toda a sua diversidade – às vezes, ideias ruins também têm manifestações diversas. É trocando de máscara que ideias ruins como o racismo sobrevivem. A atitude cada vez mais comum de xingar homens negros que namoram mulheres brancas de “palmiteiros”, de fazer ataques em bando a quem usa turbante ou dreadlocks sem ser negro, é racismo e deve ser tratada como tal.