20th of September

Rachel Dolezal: resultado de abuso infantil, pós-modernismo e redes sociais


Assisti ao documentário “O Caso Rachel Dolezal”, disponível na Netflix. Reconta a história da americana branca que atraiu a ira da maioria dos ativistas raciais americanos, e também de seus críticos, ao dizer que é negra. Por todo o ano de 2016 Dolezal foi alvo de escárnio público, além de alguns comentários anônimos ameaçadores nas redes sociais. Nos Estados Unidos, em que grande parte do ativismo aceitou o antigo critério racista de “uma única gota de sangue” na ancestralidade como suficiente para uma identidade negra, como se a condição de ser negro fosse uma contaminação hereditária em vez de uma origem participante na miscigenação, não seria de se surpreender que Dolezal fosse aceita por muito tempo como negra. Outros americanos que se dizem negros são tão brancos quanto Dolezal. O ativista Shaun King é um deles.

Shaun King, ativista antirracismo que se diz negro.

A polícia e a imprensa local acusaram Dolezal de forjar crimes de ódio contra si mesma ao presidir uma seção local da NAACP, Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor [sic], uma das mais importantes organizações do ativismo racial nos Estados Unidos. Alguns colegas de Dolezal na associação estranhavam que ela recebesse tanta correspondência de ódio que não era tão intensa para os presidentes anteriores com tonalidade de pele mais escura.

Até aqui, parece que há mesmo motivo de sobra para detestar Rachel Dolezal. Como mostra o documentário, ela tentou, com bastante coragem e diligência, restaurar a sua reputação e se fazer entendida. Falhou repetidamente: toda vez que aparecia na imprensa, só aumentava a quantidade de comentários negativos contra ela. Lançou um livro, mas o livro vendeu menos de 600 cópias no lançamento. Dolezal, mãe solteira de três filhos, estava tendo dificuldades de pagar o aluguel. Até que veio o documentário, e, dessa vez, ela conseguiu: o documentário tem sucesso em mostrá-la como um ser humano na maior parte benigno e bem intencionado, embora a veracidade dos “crimes de ódio” contra ela anteriores à revelação de suas origens continue em aberto.

Dolezal cresceu numa família chefiada por um casal de fundamentalistas religiosos que usavam a vara na educação dos filhos como manda a Bíblia. O casal sempre deixou claro para Rachel, filha biológica mais nova, que ela quase matou a mãe no parto. No registro de nascimento, consta Jesus Cristo como parteiro. Pelos depoimentos de Rachel e também sua irmã adotiva negra, ela sempre foi tratada como inferior ao irmão mais velho. A irmã de Rachel mostra marcas persistentes de açoites dados pelos pais adotivos. Estranhamente, o “filho” mais velho de Rachel era um de seus irmãos adotivos negros. Para piorar a situação, as duas irmãs acusam o irmão mais velho de abuso sexual, e antes do escândalo estava tramitando uma ação judicial contra ele por isso, o que pode ter motivado os pais a vir à imprensa para expor a filha ativista como falsa negra e testemunha não confiável no caso. Quando contempla a possibilidade de voltar a se declarar branca, Rachel chora, dizendo que isso seria voltar a ser alvo da punição de seus pais.

Rachel Dolezal é, portanto, uma pessoa com problemas de identidade resultantes de abuso infantil. Mas, evidentemente, não seria assim se raça não fosse tratada como um ponto tão saliente da identidade nos Estados Unidos, cultura que a cerca. Também provavelmente não seria assim se ela tivesse conhecimentos mais objetivos sobre raça. Em vez disso, ao buscar saber mais, o que ela encontrou foi pós-modernismo: raça é uma construção social, dizem os abundantes livros sobre o tema. Se é assim, por que não poderia ser simplesmente adotada, mudada como uma peça de roupa? É adágio do pós-modernismo, movimento intelectual difuso da esquerda acadêmica, declarar todo tipo de coisa construção social. A mania é tamanha que já foi documentada em livro por Ian Hacking e, no caso da raça, é repetida até por geneticistas que deveriam saber melhor. Ao estudar a estrutura genética da humanidade, os geneticistas decidiram abandonar o termo “raça”, para se afastarem da história eugenista da própria genética. No entanto, são distinguíveis cinco ou seis grandes “estruturas” da população humana, de distintas origens geográficas, que num mundo menos politicamente correto ou traumatizado pelo racismo poderiam sem problemas ser chamadas de raças, como já são seus correlatos no senso comum. Mas não param no construcionismo social as marcas de confusão pós-moderna na cabeça de Rachel Dolezal. Ela também usa o relativismo epistemológico e abusa de subjetivismo: se sinto que sou negra, sou negra, não importa que o grupo seja definido por um fenótipo que eu não tenho, e que o nome do grupo seja o nome de uma cor que não está na minha pele. Negações da realidade como essa têm amplo apoio na intelectualidade relativista e subjetivista do mundo acadêmico — ou teria, se fossem coerentes com essas ideias. Não são coerentes, pois essas ideias são um verniz de destacamento e tudo-vale em cabeças que na verdade se comportam com muito engajamento político e absolutismo moral cheio de certezas inabaláveis. Daí inventarão complicações para negar a identidade negra escolhida de Dolezal, ou praticarão seu costumeiro autoritarismo censor, como fizeram com Rebecca Tuvel, uma acadêmica que tentou ser coerente analisando o caso com essas ideias.

Também não é possível ignorar, no caso de Dolezal, o fenômeno das redes sociais. Ela diz que as redes sociais são a última forma de continuar “no mundo” após ser ostracizada, mas isso obviamente não é verdade. Insistir na identidade controversa não deixa de ser uma forma de narcisismo, bem compatível com o show de egos das redes sociais, um ambiente tóxico para a saúde psicológica de qualquer um.

Mas não é preciso complicar. Num mundo mais racional, raça é uma coisa simples: um conjunto de fenótipos correlacionados e ligados a certas origens geográficas de distintos grupos humanos, sem fronteiras muito definidas, especialmente em caso de miscigenação. Não é uma “cultura”, embora algumas variantes culturais também possam estar correlacionadas a variantes raciais.

O caso Dolezal e tantos outros mostram uma linha imatura de pensamento do ativismo racialista em que, na esperança de eliminar o viés antinegros em todas as suas facetas, busca-se adotar marcas de fenótipo negro (incorretamente chamadas de “cultura”) como honoríficas. Se Dolezal se diz negra por adotar uma suposta “cultura” negra, por que precisa do acessório do cabelo de textura mais típica do fenótipo negro? Isso não é cultura, é biologia. Nesse ativismo imaturo, pensa-se que o remédio contra um viés antinegros é um viés pró-negros excessivo, que termina por tratar negros com condescendência infantilizante e que alimenta a identidade de coalizão racial, o que por tabela mantém vivo o racismo. Para diminuir o racismo ao mínimo possível, é necessário jogá-lo fora junto com esse tipo de ativismo e esse tipo de coalizão. As verdadeiras ferramentas antirracismo estão no estímulo a outros tipos de identidade social que não a raça: time de futebol, religião, partido político, associação de moradores, etc. O problema é que essa solução respaldada pela ciência não tem o mesmo sucesso em dar carreiras para ativistas, e ativistas profissionais naturalmente não gostarão de soluções que tornam as suas carreiras obsoletas.

Se depender da obsessão com a raça tanto de racistas quanto de antirracistas, Dolezal continuará sofrendo em sua confusão identitária.

P. S.: Por que o foco em raça mantém vivo o racismo?

“Estudos anteriores estabeleceram que as pessoas codificam a raça de cada indivíduo que encontram, e o fazem através de processos computacionais que parecem ser tanto automáticos quanto obrigatórios. Se verdadeira, essa conclusão seria importante, porque a categorização dos outros por sua raça é uma pré-condição de tratá-los diferentemente de acordo com a raça. Aqui, relatamos experimentos que, usando medidas discretas, mostram que a categorização de indivíduos pela raça não é inevitável, e apoiam uma hipótese alternativa: que a codificação pela raça é na verdade um produto reversível de um maquinário cognitivo que evoluiu para detectar alianças de coalizão.

Os resultados mostram que os indivíduos codificam afiliações de coalizão como uma parte normal da representação de pessoas. De forma mais importante, quando pistas de afiliação a coalizões não seguem nem correspondem mais à raça, os indivíduos reduzem marcadamente a medida da categorização dos outros peça raça, e de fato podem parar totalmente essa categorização.

Apesar de passar a vida inteira usando raça como um preditor de alianças sociais, menos de quatro minutos de exposição a um mundo social alternativo foram suficientes para diminuir a tendência a categorizar pela raça.

Esses resultados sugerem que o racismo pode ser um constructo volátil e erradicável que persiste apenas se for ativamente mantido através da associação a sistemas paralelos de aliança social.”

Este é o resumo do artigo de 2001, publicado na PNAS, de Robert Kurzban, John Tooby e Leda Cosmides (ênfases minhas). Os resultados do artigo foram replicados com sucesso em 2014 por Wouter Voorspoels e colaboradores.

O estudo sugere que a política identitária racialista, que é o tratamento da raça como um fator saliente de identificação social, é diretamente responsável pela manutenção e perpetuação do racismo, não importa quão boas sejam as intenções.

A maioria dos ativistas anti-racismo está enganada. Como dizia o próprio Milton Santos muito antes desse estudo ser publicado, insistir em uma identidade “afrobrasileira” em vez de apenas brasileira não é algo que ajuda a combater o racismo realmente. Sem falar no governo categorizando as pessoas pela raça e as tratando difereciadamente com base nisso…

E mais: o desdém dos intelectuais pelas atividades de coalizão populares que nada têm a ver com raça está, desse ponto de vista, completamente errado também. Quanto mais as pessoas se identificarem como torcedoras de times de futebol, membros da associação de bairro e até igrejas, membros de algum clube besta pra se sentirem importantes, melhor. Isso do ponto de vista de combater o racismo, que não parece ter bases biológicas diretas. As bases indiretas são um tribalismo genérico que pode ser aplicado a qualquer coisa.

5th of September

O que é preconceito, afinal? Discutindo o preconceito com calma e contra a irracionalidade ativista dos nossos tempos


Em tempos em que as pessoas usam a sua postura contra o preconceito como o pavão usa o rabo dele, faz-se necessário pensar com alguma precisão o que é preconceito afinal. Assim poderemos ter esperança de distinguir a preocupação genuína com justiça do mero adorno.

Essas são as definições do dicionário Priberam, mantido por portugueses e meu favorito na nossa língua (eles inventaram essa joça, então devem saber do que estão falando):

pre·con·cei·to
(pre- + conceito)
substantivo masculino
1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial.
2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objectivos. = INTOLERÂNCIA
3. Estado de abusão, de cegueira moral.
4. Superstição.

O dicionário serve para capturar o significado dado pelo uso das palavras, e isso é importante: é o uso que faz o significado. O sentido das palavras que usamos depende literalmente de um concurso de popularidade de sentidos nos contextos sociais em que as usamos. Mas, como as palavras denotam coisas que estão no mundo, e o preconceito é uma delas, raramente os significados propostos pelo dicionário são satisfatórios.

O dicionário é útil aqui, em primeiro lugar, para afastar o jeito mais preguiçoso de definir preconceito: o uso literal da etimologia. Não, o preconceito que nos interessa aqui, que é o tipo social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta, não é simplesmente “pré-conceito”, como a etimologia parece sugerir. Se fosse só isso, significaria que todas as crianças são ativamente preconceituosas, quando são só ignorantes, com uma ignorância geralmente benigna: só têm noções superficiais das coisas (pré-conceitos) até aprenderem conceitos sobre elas. A etimologia é via de regra um guia impreciso para o sentido das palavras: ao menos na matemática, “cálculo” não é uma pedrinha (sentido literal da palavra de origem no latim), embora na nefrologia ainda seja. O Priberam dá a etimologia de preconceito, como é comum em dicionários, mas não a lista como definição. No entanto, a definição 1 parece influenciada pela etimologia. Tudo bem, há frases em que usamos realmente esse sentido: “meu preconceito sobre abrir uma empresa é que precisarei de muito capital inicial”.

Perceba que já comecei a definir de que preconceito estamos falando ao diferenciá-lo da definição influenciada pela etimologia. Mas eu não precisei fazer isso antes: apostei que o primeiro sentido de preconceito que você pensou ao ler o título deste texto foi justamente o social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta. Pois é um uso comum da palavra, especialmente nos nossos tempos, e o uso — com o perdão da repetição — faz o significado.

Pois continuemos. Na definição 2, sugere-se o sinônimo “intolerância”, e que o preconceito não é baseado em dados objetivos. É aqui que começaremos a nos distanciar do dicionário. Sempre que o assunto é tratado, é comum que se diga que preconceito tem a ver com estereótipos e que estereótipos são ideias imprecisas sobre certos grupos de pessoas. Manchetes de jornal e palavras de ordem chegam a tratar estereótipo como uma coisa intrinsecamente negativa que precisa ser quebrada, talvez sinônimo de preconceito (que as definições 3 e 4 também tratam como imoral, o que discutiremos a seguir sem voltar a elas).

Um fato testado e retestado pela psicologia social é que os estereótipos são precisosO estereótipo de que meninos gostam de carrinhos e o estereótipo de que meninas gostam de bonecas, por exemplo, mais acertam do que erram: englobam a maioria das meninas e dos meninos, deixando de fora as exceções. É isso o que queremos em qualquer teoria sobre a sociedade: que seja precisa o suficiente, descreva com sucesso a maior parte do grupo estereotipado. De fato, algumas das teorias mais respeitadas na própria psicologia social não chegam ao grau de precisão dos estereótipos. Sobre a precisão deles, as pesquisas mostram outra coisa interessante: os estereótipos são estatísticas intuitivas, que as pessoas formam por sua própria experiência como coletoras intuitivas de dados. E mais: as pessoas são racionais, atualizam suas crenças de acordo com novas informações: ao saberem de informações individualizadoras sobre uma pessoa, elas geralmente deixam de julgá-la com base nos estereótipos dos grupos aos quais essa pessoa pertence. E, se virem um número suficiente de pessoas de algum grupo com informações individualizadoras que contrariam o estereótipo, ele é atualizado com as novas informações.

Evidências empíricas mostram, portanto, que não serve alegar que o preconceito é baseado sempre em informações falsas. É importante aqui lembrar que os dados são coletados pela experiência. E que os estereótipos são levados em diferentes versões em cada cabeça, se cada cabeça tiver uma experiência diferente. Mas há consensos de estereótipos e esses são os mais precisos, assim como na ciência as teorias mais corroboradas são as que nascem de consensos de diferentes áreas de pesquisa: a evolução biológica, por exemplo, é apoiada por um consenso de geneticistas, paleontólogos, zoólogos, botânicos, microbiólogos etc., com base em diferentes evidências que contam a mesma história.

Se o preconceito pode ser baseado em informações verdadeiras, qual é o motivo de tanta desaprovação? Ainda é errado ter preconceito? A resposta é sim, nessa definição revisada:

pre·con·cei·to

  1. Juízo de valor moralmente enganoso sobre informações verdadeiras ou falsas a respeito de grupos de pessoas; frequentemente acompanhado de
  2. atribuição falaciosa de causa inevitável entre características biológicas ou identitárias (falsas causas) e mau comportamento (falsa consequência); e também
  3. atitude autoritária segundo a qual um indivíduo tem o dever de se comportar em conformidade com estereótipos a respeito de grupos aos quais pertence.

Creio que assim fica claro qual é o problema de ser preconceituoso e qual trabalho as pessoas contrárias ao preconceito deveriam estar fazendo.

Qual é o problema do preconceito, em três exemplos seguindo as três partes da definição:

  1. Não é que é falso que homens homossexuais são mais “promíscuos” que outros grupos de sexualidade: quem pensa que fazer muito sexo é antiético é que tem responsabilidade de mostrar que é mesmo imoral. Se não há problema moral inescapável na quantidade de sexo que gays fazem, a condenação desse comportamento é preconceituosa: é um juízo de valor enganoso.
  2. Não é que nunca é verdade que assaltantes são negros: em determinadas áreas, esse é um estereótipo preciso para boa parte dos assaltantes. No entanto, quem acredita que a causa do comportamento de roubar as pessoas com ameaças de violência é a cor da pele e demais características raciais de pessoas negras está enganado e é preconceituoso.
  3. Não é mentira que poucas mulheres gostam de engenharia e programação. Mas isso definitivamente não é desculpa para tentar obrigar Maria da Silva, uma engenheira de software, a largar a área, ou para alegar que ela não deveria ter entrado na área. Essa atitude e essa opinião são imorais, autoritárias e preconceituosas.

Atitudes recomendáveis para combater as três facetas do preconceito:

1. Discussão moral racional do julgamento de valor enganoso, para demonstrar que é mesmo enganoso. A vida sexual agitada dos gays solteiros não parece, à primeira vista, ser imoral. Afinal, estamos falando de pessoas adultas buscando o prazer privado com consentimento. O resultado disso é mais felicidade no mundo. Do ponto de vista dessas consequências, é perfeitamente moral. Do ponto de vista da liberdade, imoral seria impedi-los. Alguém pode dizer que essa “promiscuidade” pode resultar na propagação de doenças venéreas e, a longo prazo, depressão e falta de sentido na vida por ser correlacionado com falta de sucesso em relacionamento amoroso. Há respostas para isso: há prevenção para as doenças (e no caso, imoral é quem não se previne e põe outras pessoas em risco, e o problema deixa de ser a quantidade de sexo); e há relacionamentos abertos. O debate pode continuar, e pode até ser que alguém demonstre no futuro que excesso de sexo realmente é imoral. Neste caso, o preconceito é bom? Não, pois aí teremos a parte 2 da definição: ser gay não é a causa inescapável de ser promíscuo, portanto condenar a homossexualidade junto com a promiscuidade não faz muito sentido.

2. Para combater a segunda faceta do preconceito, é necessário ter curiosidade disposição para trabalhar em achar respostas. Duas coisas muito em falta na maior parte dos ativistas. E, para ser curioso e diligente, é preciso não ter medo do autoritarismo politicamente correto, que é uma resposta errada ao preconceito. É preciso não ter medo de achar informações que confirmem estereótipos, por saber que há uma separação rígida entre descrever como as pessoas são e julgar como deveriam ser. Não há, até hoje, motivo para suspeitar que ser negro causa uma propensão ao crime (para continuar no exemplo de preconceito dado antes). Mesmo se, em hipótese, as evidências levassem para esse lado, não há motivo para pânico ou para concordar com racistas: nós já sabemos com bastante segurança que as pessoas não são autômatos de propensões e que indivíduos sempre podem decidir não cometer crimes. Para forçar mais uma hipótese, e mais mirabolante: mas e se as pessoas forem autômatos? Afinal, há filósofos que não acreditam em livre arbítrio. Neste caso, a interpretação da informação precisaria ser muito mais afastada da punição do que seria hoje. Pois, como esclareceu Kant, “dever” implica “poder”: se um indivíduo não tem capacidade de agir diferente (não tem livre arbítrio), então não faz sentido alegar que ele deveria agir diferente, muito menos puni-lo. Mas não precisamos nos perder em especulações filosóficas: independentemente da diversidade das pessoas que cometem um crime, o problema moral continua sendo o crime, não as características biológicas ou identitárias das pessoas que o cometem, que provavelmente não são as causas mais determinantes do crime.

3. A solução para a mania dos preconceituosos de alegar que você deve se comportar de acordo com algum estereótipo não é a alegação falsa e popular de que o estereótipo não corresponde em nenhuma medida à realidade. Muito menos, como também é popular entre ativistas, criar políticas autoritárias que forçam “representação” de algum grupo em algum lugar em que ele é incomum. A solução é realçar a importância da liberdade, a importância de poder agir diferente das outras pessoas. A solução é também apontar para as qualidades de quem é exótico, excêntrico, incomum. Ninguém gosta de ser só mais um na multidão, sem nada em que se destaca. Apelemos para a empatia (mania de ativista, mas fazem errado também): se o preconceituoso não é igual aos outros em relação a alguma característica dele que é incomum (e sempre tem uma), por que você não pode destoar do estereótipo? Se ela é uma enfermeira apaixonada por Fórmula 1, por que você não pode ser um gaúcho que não gosta de chimarrão?

Com a idade as pessoas perdem velocidade no aprendizado de coisas novas. Não surpreende, portanto, que geralmente as pessoas mais preconceituosas da família são as mais velhas: elas não atualizam tão bem os estereótipos com base em novas informações, e elas fazem julgamentos morais inadequados sobre esses estereótipos sobre os quais os jovens se debruçaram e pensaram melhor. Na nossa sociedade, idade está correlacionada com menos oportunidades educacionais. Também não surpreende que as pessoas menos escolarizadas costumem ser consideradas mais preconceituosas. Esses são dois estereótipos sobre pessoas mais idosas e sobre pessoas com baixa escolaridade, que — agora sem surpresa para nós — são precisos, e coincidem com as pesquisas de opinião sobre grupos como os gays ao menos no último caso.

Cito isso porque também é o estereótipo das pessoas preconceituosas: mais velhas, menos escolarizadas, talvez com algum problema mental. Pensando assim, estereotipadamente, é até possível também repensar preconceitos contra preconceituosos, e lembrar que quem tem preconceito também é um ser humano, e que as respostas ao preconceito não precisam escalar a intolerância. Se não praticaram a discriminação injusta, mas só expressaram pensamentos intolerantes, por exemplo, é justo que os preconceituosos percam seus empregos, sejam forçados a uma vida de privação, ou sejam vítimas de agressões físicas? Sendo o preconceito imoral, tudo a respeito dele deve ser também ilegal? Certamente uma sociedade em que tudo o que é imoral é também ilegal é um Estado policial opressivo. Entendendo melhor o preconceito, ficamos mais preparados para agir contra ele da forma mais eficaz e humana, sem gritaria e sem pânico.

26th of July

Faça aqui o teste de QA – Quociente de Autismo


Traduzi e implementei como um programa o teste de QA — quociente de espectro do autismo. Não é uma ferramenta de diagnóstico, mas um indicador para quem tem dúvidas. O resultado mostrará um gráfico com a curva de distribuição de notas no teste da população em geral, a curva das notas de pessoas com autismo altamente funcional ou síndrome de Asperger, e uma linha verde posicionando a sua nota no teste. Quanto mais à direita no gráfico estiver a sua linha (quanto maior o seu QA), maior é a probabilidade de você estar no espectro do autismo. Meu programa não salva o seus dados. Em caso de dúvida ou preocupação com o resultado do teste, procure orientação médica.

13th of June

Você tinha razão: honestidade intelectual e falibilidade na prática Um pequeno exercício autobiográfico de mea culpa


Há menos de cinco anos, eu comecei a fazer ativamente o que muita gente recomenda da boca pra fora: ler e considerar calmamente as ideias de quem eu considerava defensor do exato oposto do que eu defendia. Não tenho total crédito por isso: colecionei amigos que estão dispostos a seguir o coelho para dentro da toca, muitas vezes mais que eu, e que puxaram o meu pé antes de entrar, me derrubando das minhas posições confortáveis e crenças sem mínima justificação.

Vamos sair do campo abstrato: eu era um típico membro da dita “esquerda progressista”. Co-fundador de uma das associações secularistas/ateias mais conhecidas da América Latina. Ousado defensor de tudo o que me parecesse verdadeiro e fosse impopular. (Talvez isso tenha a ver com a minha homossexualidade, que impôs uma necessidade de não ser o que queriam que eu fosse, e há tanto um lado bom quanto um lado ruim nisso.) Quando atraí a atenção de milhares de pessoas com uma resposta cientificamente embasada ao Silas Malafaia (da qual me orgulho), deixei claro nas redes sociais: “sou feminista, defendo o direito ao aborto, defendo os direitos dos LGBT, denuncio o racismo”, etc. Não se empolguem nem temam pela conclusão desse parágrafo: em certos sentidos, ainda sou tudo isso, mas agora com mais vergonha de sinalizar virtudes, um dos males dos nossos tempos: muita sinalização, pouco trabalho.

Claro, já não uso nem recomendo usar o termo “feminista”: na maioria dos casos, é uma coisa tola, pois ao adotá-lo você já está botando o foco em você mesmo(a), em vez de no diagnóstico do problema e prescrição cuidadosa e crítica das soluções (sem falar em propagar falsos problemas com estatísticas sem fonte, que são fofocas matemáticas). E, ao fazer isso, você está convidando seus instintos mais primitivos de lealdade a tribos para tomar a frente na sua imagem, apresentação e até estilo de vida, em vez de se focar em apresentar razões para o que você pensa. E, antes de você apresentar suas próprias razões, você tem a responsabilidade de não ignorar totalmente o que já foi feito no passado a respeito: fazer uma amostragem representativa do trabalho já feito não só é virtuoso, é uma norma do bom pensamento e uma marca de respeito aos seres humanos que já trabalharam no problema. Em resumo: palpitar sem estudar é outro mal dos nossos tempos, e Deus sabe, em toda a sua inexistência, que eu sou culpado disso e em eterna vigilância nos meus melhores dias. Ao menos posso dizer, sem temer exagero, que minha fase de adoção do fútil rótulo “feminista” foi marcada por mais leitura da literatura (especialmente a crítica à ortodoxia, em Daphne Patai, Janet Radcliffe Richards, Susan Haack, David Benatar etc.) do que jamais fará a maioria dos militantes virtuais da “causa” (sua verdadeira causa é com frequência a sinalização de virtudes, não problemas morais em torno dos sexos).

O mesmo padrão — foco egoico, sinalização de virtudes, tribalismo irracional — se repete em todos os outros assuntos em que se criou algum “movimento”. Boa parte dos participantes do “movimento ateu” não respeita a filosofia da religião e comete erros fundamentais, como o de alegar que ateísmo é “ausência de crença”. Uma parte influente dos participantes do “movimento negro” é — digamos sem rodeios — racista. Boa parte dos ditos defensores dos LGBT trabalham ativamente para fazer os LGBT parecerem apartados da população em geral, quando desaparecer em meio a ela era o propósito dos melhores ativistas da causa. Os movimentos fazem com a nuance e a análise o mesmo que massas justiceiras fazem com acusados de crimes como o estupro. A primeira vítima de linchamento em qualquer “movimento social” é a razão. E isso custa vidas, como os linchamentos literais: basta ver o caso do desabamento do edifício Wilton Paes de Leme este ano. As palavras “Luta” e “Movimento” aparecem no nome das organizações que ignoraram os riscos de abrigar famílias sem-teto no prédio.

Mas não estamos aqui só para criticar os movimentos sociais. Nem para dizer que o problema está só na esquerda (embora o flerte crescente com tribalismos identitários faça com que eu me pergunte se não está majoritariamente nela). Vim dar uma lista mais abrangente de assuntos em que eu errei e quem discutiu comigo é que tinha razão.

— Vegetarianismo. Já fiz até vídeo lendo e respondendo a um texto ruim que escrevi contra o vegetarianismo. Por enquanto ele fica no ar, para me lembrar da minha falibilidade e húbris. Para ver onde eu errei basta saber o fundamental sobre falácias, e para aprofundamento se digladiar com o que os eticistas dizem a respeito.

— Aborto. Aqui, eu fiz um trabalho melhor, concordando com os eticistas profissionais e debatendo cordialmente a respeito com conservadores. Mas isso não é desculpa para meus erros de substituir às vezes argumento por slogans e técnicas de propaganda. Num mundo com a enorme influência danosa das redes sociais, é fácil cair na armadilha de tentar assentar assuntos complexos com frases de efeito de 280 caracteres. Não, eu não “venci” o debate porque fiz um meme comparando fetos a nozes, mesmo que isso leve a algum raciocínio interessante. “Vencer” no sentido de dar os melhores argumentos em defesa do meu ponto de vista e sendo justo ao retratar o ponto de vista oposto — ver debates como competições por troféu é parte do que irracionaliza as pessoas. Quando debate é competição, quem sai perdendo é a verdade.

— Feminismo. Foram poucas vezes, mas eu cheguei a contrair o vírus feminista de ver sexismo em tudo e trair meu professado compromisso com evidências. Dica para quem ainda está nessa tribo: Jordan Peterson não é, evidentemente, um pensador perfeito, chega a ter algumas opiniões classificáveis como “pseudocientíficas”, mas o que ele diz sobre relações entre os sexos tem amplo apoio em evidências. É verdade que países mais igualitários desenvolvem mais diferenças entre os sexos, não menos, e que atribuir essas diferenças ao “patriarcado” é algo próximo de teorias da conspiração e criacionismo. Difamação e tentativas de assassinato de reputação não funcionarão para responder a isso. Felizmente, meus anos de identificação com o feminismo raramente incluíram esse tipo de estratégia de ataque pessoal, e há textos que produzi nesse período, neste assunto, que são bons.

— Pseudociências. Por falar nelas, eu não acredito mais numa lista que eu fiz de pseudociências de A a Z. Não é que eu tenha simpatias renovadas pelas tradições que eu busquei atacar com a lista. Todas as que eu classifiquei como pseudociências (tirando as piadas) têm mesmo problemas epistemológicos em graus variados, tanto na construção de suas proposições quanto na sua base evidencial. Psicanálise é um caso claro de pseudociência, não muito longe de casos mais claros ainda como homeopatia e criacionismo do tipo “design inteligente”, além, é claro, do construcionismo social que eu tanto menciono por ainda ser dogma em algumas áreas. O meu erro nesse assunto foi justamente ignorar a variação de graus de imprecisão ou erro em cada área, e confiar demais na minha amostragem de material de cada uma (que não é zero em nenhuma delas, em minha defesa). Esses graus de imprecisão e erro geram um espectro que vai de ciência ruim à salada verbal disparatada. Além disso, definir o que é pseudociência é muito mais difícil do que parece, especialmente para quem, como eu, não acredita que demarcar ciência é tão simples quanto Popper propôs.

— Economia. Minhas manifestações nesse assunto (praticamente ausentes neste blog) foram na maior parte cuidadosas. Responder a marxistas raivosos não é um erro e eu faria tudo novamente, pois estamos num país em que por muito tempo a propaganda ideológica transformou “liberal” em xingamento. Analogamente, também não me arrependo de ter respondido a anarcocapitalistas igualmente utópicos. Mas eu me lembro de uma ocasião específica em que eu estava errado, e o “debate” foi horrendo. Foi quando divulguei alguns poucos estudos que questionam a fibra moral das pessoas ricas, insinuando que ser rico deteriora o caráter. Não era material meu, era um cartaz que citava fontes que eu resolvi traduzir. Claro, é uma hipótese a se testar, mas até onde vi com mais cuidado, é ridícula. Talvez fosse um resquício de preconceito contra a liberdade econômica que eu — como toda pessoa criada na atmosfera intelectual largamente canhota no Brasil — tive por muito tempo até também abrir a cabeça para o enorme legado de sensatez do liberalismo e sua quase identidade com o iluminismo que eu alegava defender por inteiro. Neste caso em específico, a pessoa que se encarregou de me responder fez um trabalho pior que o meu, degenerando nossa interação num bate-boca infantil, e um bate-boca em estilo linchamento de muitos incapazes de argumentar com um indivíduo com argumento ruim e fontes insuficientes (esse ponto da insuficiência de fontes sequer foi feito, até onde lembro). Talvez essa pessoa poderia tomar um pouco das doses cavalares de semancol que eu tomei.

Epílogo

Não percebo a lista acima como um exercício de autoflagelação (que no fim das contas seria ainda mais sinalização de virtudes). Vejo como um passo importante num processo de aperfeiçoamento pessoal, que era um dos benefícios que Kant apontava no seu projeto de esclarecimento. Uso meu próprio exemplo para que a jornada de outras pessoas talvez seja facilitada, para que sua estrada seja menos esburacada e seu comando do volante seja melhor que o meu.

8th of June

A rapidez da evolução na genética do comportamento


Em quantas gerações a seleção pode levar a comportamentos diferentes? 30, se estivermos falando de comportamento de movimentação em campo aberto de camundongos, como foi feito no estudo de John DeFries e colaboradores em 1978, um dos maiores estudos de seleção de comportamento até hoje.

Uma das grandes descobertas da genética do comportamento é que praticamente todos os comportamentos têm alguma dose de participação genética. Essa participação é medida, em estudos iniciais, geralmente pela proporção da variação atribuível à herança genética em relação à variação total, conhecida como “herdabilidade”. Até hoje, inclusive em estudos com humanos, não foi descoberto comportamento com herdabilidade 0%, mas também não há descrito qualquer comportamento com herdabilidade 100% – comportamentos são fenótipos que envolvem sempre inflência ambiental, variando de comportamento para comportamento. Uma das maiores medidas de herdabilidade de comportamento em humanos é a do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade: acima de 70%.

Como há base genética nos comportamentos, eles podem ser alvo da seleção natural e outros processos evolutivos, como todas as outras características dos animais. No experimento de DeFries, houve seleção artificial em duas linhagens de camundongos em direção a cada vez mais atividade em campo aberto (ou seja, sempre que nascia uma ninhada de roedores, escolhiam os mais ativos para procriarem); em outras duas linhagens houve seleção em direção a cada vez menos atividade; e os pesquisadores deixaram os camundongos cruzarem aleatoriamente entre si em duas outras linhagens, como controle do experimento.

30 gerações depois, os pesquisadores chegaram a três grupos bastante distintos quanto ao comportamento sob seleção.

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DeFries, J. C., Gervais, M. C., & Thomas, E. A. (1978). Response to 30 generations of selection for open-field activity in laboratory mice. Behavior Genetics, 8(1), 3–13. http://doi.org/10.1007/BF01067700

14th of April

Transexuais no esporte feminino: 5 motivos pelos quais as entidades do esporte estão passando o carro na frente dos bois


O esporte é meritocrático: os atletas e audiências valorizam a premiação de habilidades pelas quais os atletas trabalharam. Mas há regras nessa meritocracia. Somente sádicos gostam de ver o resultado óbvio de botar um boxeador profissional para esmurrar uma pessoa mirrada e sem preparo. Na verdade, nosso instinto é de geralmente torcer para quem estiver em desvantagem. Queremos ver, quando não há igualdade de pontos de partida entre os competidores, ao menos alguma possibilidade de quem está em desvantagem vencer. Há algo de prazeroso na antecipação de um resultado que não é garantido e determinístico, de torcer para um time que você quer que ganhe mas não sabe realmente se ganhará. Isso reflete os mecanismos da dopamina no cérebro, que nos recompensam por essa antecipação e explicam boa parte de comportamentos como o vício em jogos. O êxtase da vitória é bem maior quando antes dele veio a ansiedade da antecipação: e maior ainda quando a vitória era implausível.

Jogos entre homens e mulheres não costumam ter essas características. No tênis, no futebol e em outros esportes em que isso foi tentado, a parte masculina quase sempre tem vantagem e, enfadonhamente, ganha. É um dos motivos justos para a cisão do mundo do esporte entre masculino e feminino. Por isso, não dá para atribuir completamente a preconceito que alguém desconfie que atletas transexuais, especialmente os que transicionaram do sexo masculino para o feminino, podem estar rompendo o mínimo nivelamento das competições por terem vantagens adquiridas quando apresentavam identidade e corpo masculinos.

Há, entre divulgadores de ciência e pessoas do esporte interessadas na inclusão de grupos em desvantagem (mais uma torcida previsível a favor dos desfavorecidos), uma tentação de alegar que, apesar de sabermos pouco, sabemos o suficiente para dizer que a vantagem das atletas trans é implausível. O Comitê Olímpico Internacional resolveu adotar um nível máximo de testosterona no sangue das atletas trans como critério suficiente para incluí-las ou excluí-las. Mas o critério é insuficiente. O mais provável é que as atletas trans tenham vantagem biológica (não trataremos dos atletas homens trans, que transicionam de feminino para masculino), e essa é uma conclusão que se pode fazer por via de evidências indiretas discutidas abaixo. No fim, discutiremos brevemente as questões éticas.

1 – A revisão de estudos citada pelos favoráveis à inclusão não tem evidências suficientes para apoiar a nova política esportiva.

Na ciência, estudos individuais nem sempre são suficientes para tirar grandes conclusões. Por isso é comum, na tarefa de apresentar conclusões mais estáveis à comunidade de pesquisa, que se publiquem revisões e meta-análises, que são estudos de estudos, que discutem as conclusões dos estudos individuais, ou (o que é melhor) reanalisam todos os dados disponíveis.

Há uma revisão sendo citada preferencialmente pelo campo que nega as vantagens biológicas das mulheres trans ou alega que são implausíveis.[i] Eis os problemas dessa revisão: avaliou somente oito artigos de pesquisa. Para dar uma noção da novidade do assunto, o artigo mais antigo é de 2004. A maioria desses meros oito artigos revisados é baseada em métodos qualitativos, como entrevistas, que não dão dados objetivos para testar diferenças. Os únicos dois estudos que sobram com dados objetivos têm amostras minúsculas: em um deles, somente 19 atletas trans foram testadas.[ii] Conclui-se nesse que as atletas trans estão muscularmente dentro da normalidade feminina. No entanto, a chance de as conclusões não serem confiáveis por causa da amostra pequena são consideráveis, e a diferença entre masculino e feminino não está somente nos músculos. O outro estudo[iii] não considerou atletas, e, também com uma amostra relativamente pequena de transexuais (n=33), concluiu que essas pessoas se exercitam menos, o que dificilmente é o caso entre trans que desejam ser atletas profissionais. O mesmo problema de amostras pequenas demais se repete em outros estudos não citados na revisão (como as minúsculas amostras n=8[iv] e n=6[v]).

O foco principal dessa revisão é político/moral: mais de 30 diretrizes esportivas sobre o assunto foram consideradas. Os resultados apresentados no resumo são todos argumentos pró-inclusão, ou seja, são argumentos na discussão moral. A revisão diz que não há estudos diretos suficientes da vantagem das trans e que por isso não se pode concluir que elas têm vantagem. Com base nisso os autores pedem que as diretrizes esportivas que as excluem precisam mudar em nome da inclusão. Mas essa é uma forma enviesada de fazer uma conclusão, pois, com os mesmos dados, podemos dizer que não há evidência direta suficiente, também, de que as trans não têm vantagem em relação às outras atletas femininas. Além disso, podemos tentar chegar a alguma conclusão plausível pelas vias indiretas ignoradas nesse estudo.

Ou seja, essa revisão não merece ser vista como uma discussão ampla das evidências disponíveis sobre possíveis vantagens ou desvantagens de transexuais nos esportes, mas como uma discussão das diretrizes existentes sobre o assunto nos esportes – que por sua vez deveriam depender das evidências.

2 – O desenvolvimento sob influência de hormônios masculinos após a puberdade dá vantagens improváveis de serem perdidas com poucos anos de transição hormonal feminilizante.

Há presumivelmente algumas habilidades esportivas em que as mulheres têm vantagem sobre os homens, mas, quando se trata de força, estâmina e outros atributos físicos, os organismos que passaram por uma puberdade masculinizante têm vantagens. Eis algumas, apresentadas em estudos com amostras maiores que os estudos discutidos anteriormente:

Nos músculos: organismos masculinos têm em média doze quilos a mais de músculos esqueléticos que os femininos.[vi] A diferença é maior acima da cintura (40%) que abaixo, mas ainda é substancial nas pernas (33%). Todos perdem massa muscular com a idade, especialmente após os 50 anos, mas a maior parte dessa perda é na parte inferior do corpo, não na superior, onde homens e mulheres diferem mais. Músculos em organismos femininos podem apresentar maior resistência à fadiga ao exercer força moderada, mas isso se restringe a alguns grupos musculares e desaparece quando é preciso exercer força máxima.[vii]

Para entender o quanto os homens são mais fortes que as mulheres, tomemos uma amostra de mais de 7 mil americanos: 89% dos homens têm mais força no aperto de mão que 89% das mulheres.[viii] A força do aperto de mão está positivamente correlacionada à dos outros músculos do corpo, especialmente acima da cintura. Com base nela, podemos afirmar que a maioria dos homens é mais forte que a maioria das mulheres, e a diferença se estabelece logo após a puberdade, como se pode ver no gráfico.

Nos ossos: não é segredo para ninguém que homens são em média mais altos que mulheres, e que a maior altura por si só já é vantagem em esportes como basquete e vôlei. Nenhuma atleta trans que teve puberdade masculinizante perderá altura com a transição hormonal feminilizante. Mas as vantagens ósseas não se restringem à altura, os movimentos causados pelas diferenças ósseas podem botar as mulheres cis (não-trans) em desvantagem: por causa dos ângulos de inserção dos fêmures na pélvis, as mulheres podem ter mais risco de lesão ao fazer agachamentos.[ix] As diferenças de sexo no esqueleto são tão pronunciadas que cientistas forenses já conseguem prever o sexo do organismo inteiro a partir de uma pequena área triangular numa das pontas do fêmur, com 86% de precisão.[x]

Pulmões: no sexo masculino os pulmões têm capacidade de inspirar mais ar que no sexo feminino, mesmo controlando para o efeito da altura.[xi] Oxigenar o sangue é uma característica vital em qualquer esporte, o que faz dessa diferença importante.

Dor: homens e mulheres têm capacidade similar de suportar dores de alguns tipos (como a causada por bloqueio de circulação sanguínea), mas elas têm menor tolerância à dor causada pelo frio, pelo calor e pela aplicação de pressão. São as conclusões de uma revisão de dez anos de pesquisa e 172 estudos.[xii] Como atletas sabem, no pain no gain. E se uma pessoa desenvolvida sob influência genética masculinizante é mais tolerante a certos tipos de dor, tem vantagem no treinamento e na competição.

Todas essas evidências servem para fazer a inferência indireta de que as atletas trans têm vantagem física no esporte feminino. É improvável que a transição hormonal, especialmente a mais tardia, mude todas essas características e ponha todas as atletas trans dentro da variação das outras atletas. Certas características adquiridas pelo organismo exposto a hormônios masculinizantes são organicamente irreversíveis, como o engrossamento da voz e o crescimento de barba. É difícil que todas as vantagens físicas relevantes para o esporte, especialmente envolvendo tecidos que não são completamente renováveis, sumam por causa do tratamento.

Devemos reconhecer nossa ignorância de evidências diretas da vantagem das atletas trans sobre as cis, mas isso não significa que as indiretas não têm valor: elas indicam que as políticas inclusivas das entidades decisórias dos esportes podem estar passando o carro na frente dos bois. É irresponsável agir tateando no escuro. Dar passos para a frente sem luz costuma dar em tropeços.

3 – As melhores diretrizes para tratamento de transexuais tornam improvável que as vantagens estejam ausentes na maioria das atletas trans.

A maioria das crianças que manifestam disforia de gênero, um sofrimento psicológico de dissociação entre o sexo do corpo e o sexo da autopercepção, não tem na transição hormonal (ou cirurgias) o melhor tratamento para sua condição. A Associação Psicológica Americana[xiii] calcula essa maioria entre 50 e 88%. Com o tempo, a disforia costuma se resolver nelas. Os motivos da manifestação da disforia são desconhecidos, mas é informativo que há uma proporção maior de homossexualidade entre essas pessoas que manifestam disforia mas não transicionam que na população em geral. Para uma minoria das pessoas que manifestam disforia, evidentemente, a transição hormonal para a identidade sexual de sua preferência é um tratamento salutar. No entanto, por causa desses números, além de motivos relacionados à capacidade de consentir e responder por si que não atribuímos moral/legalmente às crianças, é bem raro que uma atleta transexual não tenha passado pela puberdade masculinizante, que é o evento central no desenvolvimento que confere as prováveis vantagens discutidas aqui.

4 – Há um conflito insolúvel entre inclusão e mérito, e o esporte está mais preocupado com mérito.

Como sabemos, os jogos esportivos, especialmente profissionais, envolvem regras que valorizam o mérito: queremos que vença o melhor. Mas com uma sutileza: é um melhor que não era de forma óbvia determinado para ser o melhor antes de a competição começar. São regras que tentam capturar um equilíbrio fino entre se aproveitar de vantagens acidentais e colher os louros do esforço e da determinação.

Estamos em tempos em que as histórias de bullying e vitimização atraem atenção, com frequência poder e às vezes dinheiro. A história da criança traumatizada porque não foi escolhida para o time na aula de educação física já foi contada inúmeras vezes. O enredo é o mesmo, só mudam os atores. Poucas vezes a história é contada do ponto de vista da criança que estava escolhendo os membros do time. Sutilmente ela é sempre acusada de preconceito, ou seja, de usar características arbitrárias para escolher seus colegas de time. O mundo, no entanto, é mais complicado do que contam as narrativas preocupadas com traumas e vítimas: o fato é que as crianças diferem entre si inclusive em habilidades esportivas, e a criança líder do time tenta botar nele as coleguinhas que parecem as mais capazes de lhe dar a vitória, e não há nada de errado em querer vencer.

É importante que as crianças aprendam que as aparências às vezes enganam, que não há nada de errado em um menino ser afeminado e em uma menina ser mais forte que a maioria dos meninos da sua idade. São variações raras. E que é honroso que façam as pessoas raras se sentirem aceitas, que são parte da sociedade. Mas também é importante que as crianças aprendam que, independente de suas vantagens ou desvantagens de nascença, elas podem trabalhar em si mesmas para se destacarem em alguma habilidade. Inclusão é importante, mas premiar competência e trabalho duro também é.

Perseguir o valor único da inclusão e ignorar que temos que negociar entre coisas valiosas, que muito de uma coisa importante pode causar a queda de outra, não é criar uma sociedade em que a vida é confortável para todos. É criar um pesadelo politicamente correto e opressivo à liberdade e ao mérito. As atletas trans devem ser livres para perseguir o seu mérito, mas a sua inclusão não deve vir com o preço de deteriorar as chances das outras atletas – o que nos esportes de luta chega a significar risco maior de traumatismo craniano para as últimas, no caso de haver de fato vantagem biológica para as primeiras.

Há aqui outro ponto importante: pode estar havendo uma tentativa de um grupo político obcecado com a inclusão de corromper uma comunidade baseada em regras milenares que valorizam o mérito. Esse tipo de colonização de um grupo por outro deveria assustar a todos. Quanto mais se politiza uma parte da vida social, menos as pessoas a valorizam pelos motivos pelos quais ela existe, e mais desviam a sua função para a infindável guerra tribal da política. Tomar decisões com base em dados insuficientes certamente parece uma manobra nessa queda de braço política, não apenas uma virtuosa tentativa de inclusão.

5 – Podemos imaginar regras mais inclusivas, e elas envolvem reformar as regras antidoping, mas há um porém…

Há um empecilho natural à pureza da meritocracia esportiva: as vantagens genéticas que existem na variação entre os indivíduos. Por exemplo, Eero Mäntyranta, finlandês multi-medalhista do esqui, tinha uma mutação no gene EPOR que lhe conferia a vantagem de seu sangue carregar 50% mais oxigênio que o dos outros atletas. Alguns atletas são desqualificados nos testes antidoping por tomar a droga eritropoietina (que ocorre naturalmente no corpo) para tentar obter a mesma vantagem que Mäntyranta tinha por acidente da natureza. A vantagem genética dele era, presumivelmente, localizada num gene só. A diferença genética entre um corpo masculino e um feminino, por sua vez, está em cromossomos inteiros, tendo os hormônios sexuais um papel coordenador do desenvolvimento.

Nas diferenças físicas entre homens e mulheres há sempre alguma sobreposição na variação: uma minoria de homens cujas características físicas são típicas do grupo das mulheres, e outra de mulheres cujas características físicas são típicas de homens. Uma política inclusiva que não ignorasse a ética meritocrática do esporte precisaria ser baseada em conhecimentos mais precisos das diferenças naturais e de estabelecer, com base nelas, limites objetivos para várias características físicas, não só o nível de testosterona. Assim, as pessoas poderiam ser admitidas independentemente do sexo, com base nesses limites, em modalidades objetivas, como se faz nas categorias de peso do boxe.

Estabelecer limites objetivos é melhor que as regras atuais do antidoping, como argumenta o eticista Julian Savulescu,[xiv] porque essas regras dependem de distinções meio arbitrárias entre melhoradores de performance naturais e artificiais. A cafeína, droga que melhora a performance, é permitida, enquanto a eritropoietina, natural no corpo, é proibida. Simplesmente não serve alegar que a cafeína é natural e a eritropoietina é artificial. Melhor é estabelecer níveis aceitáveis de ambas no sangue. Regras baseadas nos limites objetivos seriam melhores também do ponto de vista da liberdade: todo indivíduo estaria livre para melhorar a si mesmo como quiser e puder, e para experimentar com seu corpo, mas dentro dos limites esportivos se quiser ser atleta profissional.

Da economia aos esportes, dar liberdade aos indivíduos sempre funcionou melhor para fazer inclusão social do que tentar planejar barreiras arbitrárias. Certamente não funcionou, no basquete, a exclusão de negros durante a segregação racial nos EUA.

Mas há, neste cenário futurístico de atletas competindo com base em limiares objetivos de características físicas, um grande problema: seria muito caro executar e coordenar tudo isso. Já tem custo proibitivo, hoje mesmo, testar todos os atletas para o doping. Seria muito mais barato manter o esporte separado nas modalidades masculina e feminina, o que já inclui a ampla maioria de atletas mulheres e homens. Em nome da inclusão, poderia ser criada uma exclusão maior ainda de atletas pobres, que não conseguiriam investir em si mesmos para alcançar os limiares fisiológicos nem para serem testados. Queremos ou podemos pagar o preço? Queremos ou podemos dar mais prioridade a conhecimentos ainda incompletos dos quais depende a aplicação correta dos custos da inclusão, ou mais prioridade a fazer a vontade de um grupo politicamente parcial de ativistas?

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Leia também neste blog: Transexuais: Resumão do Resumão

Referências

[i] Jones, Bethany Alice, Jon Arcelus, Walter Pierre Bouman, and Emma Haycraft. “Sport and Transgender People: A Systematic Review of the Literature Relating to Sport Participation and Competitive Sport Policies.” Sports Medicine 47, no. 4 (April 1, 2017): 701–16. https://doi.org/10.1007/s40279-016-0621-y.

 

[ii] Gooren, L. J., and M. C. Bunck. “Transsexuals and Competitive Sports.” European Journal of Endocrinology 151, no. 4 (October 1, 2004): 425–29. https://doi.org/10.1530/eje.0.1510425.

 

[iii] Muchicko, Megan M., Andrew Lepp, and Jacob E. Barkley. “Peer Victimization, Social Support and Leisure-Time Physical Activity in Transgender and Cisgender Individuals.” Leisure/Loisir 38, no. 3–4 (October 2, 2014): 295–308. https://doi.org/10.1080/14927713.2015.1048088.

 

[iv] Harper, J. “Race Times for Transgender Athletes.” Journal of Sporting Cultures and Identities 6, no. 1 (2015): 1–9.

 

[v] Harper, Joanna; Ospina Betancurt, Jonathan; Martínez-Patiño, Maria Jose. Analysis of the Performance of Transgender Athletes. World Congress of Performance Analysis of Sport XI, 2016. http://www.sportsci.org/2016/WCPASabstracts/ID-1699.pdf

[vi] Janssen, Ian, Steven B. Heymsfield, ZiMian Wang, and Robert Ross. “Skeletal Muscle Mass and Distribution in 468 Men and Women Aged 18–88 Yr.” Journal of Applied Physiology 89, no. 1 (July 1, 2000): 81–88. https://doi.org/10.1152/jappl.2000.89.1.81.

 

[vii] Hicks, Audrey L., Jane Kent-Braun, and David S. Ditor. “Sex Differences in Human Skeletal Muscle Fatigue.” Exercise and Sport Sciences Reviews 29, no. 3 (July 2001): 109.

 

[viii] National Center for Health Statistics. “National Health and Nutrition Examination Survey”, 2014. https://wwwn.cdc.gov/Nchs/Nhanes/2011-2012/MGX_G.htm ; Gráfico modificado de https://www.reddit.com/r/dataisbeautiful/comments/4vcxd0/almost_all_men_are_stronger_than_almost_all_women/

 

[ix] Graci, Valentina, Linda R. Van Dillen, and Gretchen B. Salsich. “GENDER DIFFERENCES IN TRUNK, PELVIS AND LOWER LIMB KINEMATICS DURING A SINGLE LEG SQUAT.” Gait & Posture 36, no. 3 (July 2012): 461–66. https://doi.org/10.1016/j.gaitpost.2012.04.006.

 

[x] Purkait, Ruma. “Triangle Identified at the Proximal End of Femur: A New Sex Determinant.” Forensic Science International, Sex and Body Size, 147, no. 2 (January 29, 2005): 135–39. https://doi.org/10.1016/j.forsciint.2004.08.005.

 

[xi] Cook, Charles D., and Joanna F. Hamann. “Relation of Lung Volumes to Height in Healthy Persons between the Ages of 5 and 38 Years.” The Journal of Pediatrics 59, no. 5 (November 1, 1961): 710–14. https://doi.org/10.1016/S0022-3476(61)80007-3.

 

[xii] Racine, Mélanie, Yannick Tousignant-Laflamme, Lorie A. Kloda, Dominique Dion, Gilles Dupuis, and Manon Choinière. “A Systematic Literature Review of 10years of Research on Sex/Gender and Experimental Pain Perception – Part 1: Are There Really Differences between Women and Men?” PAIN 153, no. 3 (March 1, 2012): 602–18. https://doi.org/10.1016/j.pain.2011.11.025.

 

[xiii] American Psychological Association. “Guidelines for Psychological Practice with Transgender and Gender Nonconforming People.” American Psychologist 70, no. 9 (2015): 832–864. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf

 

[xiv] Savulescu, J., B. Foddy, and M. Clayton. “Why We Should Allow Performance Enhancing Drugs in Sport.” British Journal of Sports Medicine 38, no. 6 (December 1, 2004): 666–70. https://doi.org/10.1136/bjsm.2003.005249.

5th of March

“Revista Hélade” ilustra o “Criacionismo de Humanas”


Caros editores da Revista Hélade: vocês devem ser o primeiro caso explícito de revista acadêmica que chama por artigos anunciando qual conclusão eles deverão ter.

A comparação com o “método criacionista” dessa antiga tirinha é inevitável, não só pela metodologia idêntica, mas pelo construtivismo social ser um tipo de criacionismo comum nos intelectuais da tribo política oposta à tribo política dos criacionistas tradicionais. O primeiro criacionismo é o criacionismo da Tabula Rasa.

Há muitos pontos que me chamam a atenção no seu “call for papers”.

– O pressuposto de que somente Jesus é o caminh… digo, somente na crença da construção social do gênero é que se pode combater os preconceitos. Bem, tenho evidências de que vocês estão errados nesse pressuposto, e já publicadas, se o caso da homossexualidade servir de comparação: quanto mais as pessoas acham que a homossexualidade é natural (inata em vez de adquirida), menos homofóbicas elas ficam.¹ Evidentemente, não é a utilidade de uma tese ao ativismo o que faz dela verdadeira ou falsa. Felizmente, as evidências apoiam o “essencialismo” e a “naturalização” (termo curioso, já que não se “naturaliza” o que sempre foi natural).

E não são evidências só da biologia. Também são provas históricas. O que me leva a mais um pressuposto seu, a saber,

– o pressuposto de que uma análise histórica de uma característica comportamental humana está fadada a concluir que essa característica (gênero, orientação sexual) é construção social. O historiador Rictor Norton analisou os registros da homossexualidade na Europa do início da idade moderna, especialmente Inglaterra do século XVIII, e concluiu que as evidências históricas apoiam um “modelo essencialista” da homossexualidade, em oposição ao dogma foucaultiano da “construção social”.² E se for o mesmo caso do gênero? Eu não sei ao certo, tenho minha opinião, mas, se eu fosse editor de uma revista acadêmica, eu não enviesaria uma chamada por artigos para que a conclusão que eu favoreço seja sobrerrepresentada.

– Finalmente, a sua afirmação de que é uma “pressuposição” dizer que o gênero é um “dado natural” é pressuposição sua e nada mais. Não contem com o ovo antes da galinha. Quem tira conclusões com base em fé é a igreja, não a academia.

Referências

1 – L. M. Overby. Journal of Homosexuality 2014. Trecho em tradução livre: “Aqueles que veem a homossexualidade como enraizada na biologia tendem a favorecer a extensão de direitos a gays e lésbicas.”

2 – R. Norton. “F*da-se Foucault”. Xibolete, 2018.https://xibolete.uk/foucault

15th of January

“Negacionistas” não são a maior ameaça à compreensão pública de ciência Sobre a apresentação enviesada do que realmente fica do caminho de um público mais bem informado


O termo “negacionismo” não é nenhum termo técnico que resulte de pesquisa sobre as atitudes das pessoas em relação às proposições dos cientistas. Se “negacionistas” são pessoas que continuam acreditando em alguma falsidade mesmo diante de evidências abundantes de que é mesmo uma falsidade, “negacionistas” são raros. A maioria das pesssoas que têm interesse de ignorar alguma conclusão baseada em dados suficientes e argumentos cogentes ignora o que não quer ouvir da ciência através da desenfatização de evidências.

Temer o “negacionismo” em vez do “desenfatizacionismo” é um erro análogo ao de quem tem mais medo de leões do que do Aedes aegypti no Brasil. O leão pode parecer uma fera medonha em vídeo, e podemos encontrar casos de pessoas mutiladas e mortas por suas presas. Mas é raríssimo por aqui, especialmente algum leão livre para andar pelas nossas ruas. Já o Aedes é comum, a picada não dói, produz apenas uma coceirinha, mas o resultado da picada pode ser dramático: Chikungunya, Zika e Dengue Hemorrágica. Assim como temos mais mosquitos que leões, temos muito mais desenfatizadores de evidências, que desenfatizam por vieses diversos – especialmente religiosos e políticos – do que criacionistas de terra jovem e terraplanistas no campo dos negacionistas.

Por exemplo, um colunista da Carta Capital, como bom membro caricato da turma da “justiça social”, respondeu a mim, quando divulguei mais resultados sobre diferenças cerebrais e comportamentais entre homens e mulheres, que “ninguém nega que há diferenças fisiológicas”. Fisiológicas! E quando eu disse que a coisa vai muito além de “fisiologia”, ele prontamente se pôs a esticar o que quer dizer “fisiologia” para incluir neurociências e ciências cognitivas dentro dela. É assim que se desenfatiza o que não se quer ouvir.

E isso vem de todos os lados. São truques lógicos que as pessoas tendem a usar para manter intactas as suas crenças quando elas conflitam com fatos. É uma tendência tão terrível quanto ubíqua. No grande campo de quem estuda as contribuições de natureza (genética) e cultura (ambiente) para o comportamento humano, há um enorme medo de se estar cometendo algum “ismo” horrível ao se atribuir qualquer papel à genética. Então temos um estranho fenômeno: até entre os pesquisadores da genética, há um duplo padrão de rigor para explicações hereditárias e explicações de cunho sócio-cultural-ambiental: para as primeiras lembra-se o tempo todo que correlação não implica necessariamente causa; já para as últimas, é perfeitamente aceitável fazer conclusões causais pelas portas dos fundos das correlações. São dois pesos e duas medidas de rigor: uma que afaga nossos vieses, outra que é uma arma contra nossos percebidos adversários.

E é importante saber que os desenfatizadores ou aplicadores de dois pesos de rigor não são só os leigos: eles circulam na academia, estão entre os cientistas, entre as pessoas que deveriam dar exemplo de rigor intelectual e vigilância contra seus próprios vieses.

Em 2002, Caspi e colaboradores descobriram, por exemplo, que um alelo associado à baixa atividade da enzima Monoamina Oxidase A (MAO-A), que atua no cérebro, estava também associado a tendências violentas dos indivíduos que o carregavam. Interessantemente, os dados indicavam que alguns portadores do alelo não tinham essas tendências, especialmente quando não criados por famílias abusivas. Concluiu-se, então, que era um gene que predispunha seus portadores a comportamentos violentos, mas somente se recebessem um gatilho ambiental de serem criados por progenitores violentos. “Que ótimo”, celebrou a comunidade de pesquisa. “Aí está um exemplo excelente do enorme papel do ambiente ao mediar os recursos genéticos”. Mas o problema é que a hipótese de este ambiente familiar ser causa importante e direta do fenótipo violento, no caso, sequer havia sido testada. Apesar disso, os autores estavam contentes em eleger esta causa como a explicação mais plausível. Pouco se discutiu outra hipótese: além de herdar o ambiente violento, as crianças também estavam herdando os genes dos pais violentos, de modo que poderia haver uma “correlação ativa” de um ambiente com um genótipo, em que o ambiente é causado por esse genótipo paterno, e o mesmíssimo genótipo nas crianças repetiria as tendências violentas e o ambiente violento, num ciclo vicioso de base genética mais importante que os efeitos ambientais. É uma hipótese. Mas é uma hipótese mais feia do que dizer às pessoas que no fim das contas o que importa realmente é o ambiente (que é o que geralmente querem ouvir). Daí um duplo padrão de rigor, a depender de a hipótese sob análise favorecer genes ou ambientes como fontes causais do que se observa. Daí uma desenfatização seletiva de evidências, ao gosto do freguês.

Outro exemplo, mais recente, foi a manifestação dos especialistas quando se perguntou a eles por que, nas notas mais altas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), há mais pessoas do sexo masculino do que do feminino. O viés de desejabilidade social, que alguns chamam de politicamente correto, dita aqui que é perigoso e arriscado dizer que há razões biológicas para mulheres e homens diferirem quanto à inteligência, ou que a nota do Enem poderia refletir, além do esforço dos estudos, também inteligência. Daí os especialistas usam linguagem de tabu:

“‘A explicação não deve ser buscada na Biologia, embora cérebros de homens e mulheres não sejam iguais. Mas isso não afeta a cognição, em áreas do raciocínio lógico, muito menos na inteligência’, diz o professor titular de neurociência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Roberto Lent. Para ele, o que mais influencia são as posições da família e os estereótipos da sociedade.” (Do Estadão, ênfase minha.)

A afirmação de que a diferença (em média) dos cérebros de homens e mulheres não afeta a cognição na inteligência é falsa. Que fique claro: na média do QI há nenhuma ou pouca diferença entre homens e mulheres. Mas homens variam mais em QI que as mulheres (e QI é uma medida de inteligência com amplo apoio em evidências replicadas, é uma das áreas de maior replicação da psicologia). A variação na inteligência é uma coisa mensurável, e essa medida da variação (variância) é maior entre homens que entre mulheres. O que se espera disso é que, quando se seleciona a porção das maiores notas do Enem, haja mais  homens, pois a variação das mulheres se concentra mais em torno da média.

O fenômeno da maior variação no sexo masculino em várias características, especialmente as relacionadas ao sexo e ao sucesso reprodutivo, tem explicações evolutivas. Ou seja, tem boas explicações biológicas que têm a ver com a seleção sexual e o papel do sexo feminino de sustentar a prole enquanto dentro do útero.

Isso não quer dizer que alguma diferença social é explicada em todo ou em parte majoritária pela biologia. Isso precisa ser testado, de preferência sem tabus. O método da herdabilidade é um bom método para prospectar inicialmente a partição de variâncias explicáveis por biologia ou cultura, e é um método largamente ignorado por construtivistas sociais, que preferem se fechar numa bolha fazendo estudos “qualitativos”. Deixar a biologia de fora em dados como esses do Enem é aplaudir a ignorância, e estabelecer que a biologia não deve ser buscada é papel de pregador moralista, não de cientista. Nós podemos ter a discussão paralela de que os resultados podem inspirar más aplicações que potencialmente afetam a vida de indivíduos. Mas é obscurantismo não separar a discussão moral da busca desinteressada pela verdade. Jogar fora a navalha de Hume é voltar a um estado pré-científico e pré-iluminista, é tomar partido da proverbial Igreja da época da Renascença em vez de ficar do lado de Galileu.

A compreensão pública da ciência é mais afetada por milhões de pequenas picadas dos mosquitos da representação enviesada de resultados, da desenfatização de dados e evidências que estão em dissonância com os interesses dos divulgadores, pesquisadores e do público, do que por negacionistas teimosos que batem o pé diante de evidências de que estão errados. E quem fala contra os vieses do próprio enxame é alvo de ostracismo, quando não silenciamento.

From "In a Heartbeat", YouTube.
28th of September

Retirar a homossexualidade da lista de doenças foi decisão moral, e não há problema nisso


A classificação de algum comportamento como “transtorno” em psiquiatria depende de considerações morais. Não há muita novidade nisso. Eu não tenho problema nenhum com isso, pois não sou um não-cognitivista moral, acredito que há sim fatos morais e objetividade em ética (e que ética e moral são sinônimos, apesar de certas distinções sem diferença que só servem para obscurecer). Daí, a meu ver a psiquiatria nada perde como ciência por incluir fatos morais junto a fatos científicos (que continuam separados como ditou Hume).

Pregar que não há fatos morais gera mais problemas epistemológicos que soluções. Mas reconheço que há alguns intelectuais influentes, como Jonathan Haidt, que são não-cognitivistas morais. É por isso que, quando ele discute, por exemplo, que as universidades precisam escolher entre verdade e justiça social como valores, ele veste o jaleco de cientista e age como se a escolha fosse, em último caso, indecidível. Ele claramente favorece mais a verdade, mas sua teoria da psicologia social do comportamento moral traça analogias com crenças dogmáticas religiosas: existe divergência política não porque as pessoas são irracionais na política (como prega Michael Huemer), mas porque um grupo sacraliza mais certos valores que outros, enquanto todos concordam, geralmente, sobre o que é positivo e desejável. Outros, como Haidt, acham muito informativa a proposição de que a política vulgar está enganada ao se polarizar entre bons e maus, que na verdade os grupos adversários apenas valorizam diferencialmente mais uma coisa que outra, mesmo concordando que ambas são boas. Isso também está em Bobbio, que alega que esquerda valoriza igualdade mais que liberdade, e que a direita tem uma quantificação contrária de valorização de ambas. Por ter uma posição análoga sobre valores de grupos sociais, Haidt é relutante em alegar que é objetivamente melhor valorizar a verdade e que quem quer botar “justiça social” em seu lugar está simplesmente enganado.

Talvez alguém que não crê que se pode fazer progresso cognitivo em ética, na direção de respostas objetivamente melhores, tenderá a fazer uma ênfase na navalha de Hume (“é” não implica “deve ser”) e interpretá-la como significando que, se a psiquiatria tem algo a dizer sobre o que é normal ou não, então essa valoração deve ser puramente descritiva e factual, destituída de considerações éticas.

Um caso para discussão: a despatologização da homossexualidade. Francisco Razzo citou recentemente, sem muito comentário, um artigo de 2015 de Robert Kinney III, em que este médico argumenta que a decisão de importantes instituições profissionais americanas da psicologia e psiquiatria foi baseada em evidências controversas, artigos obscuros e anedotas. O propósito é mostrar arbitrariedade na decisão dessas instituições, o que sugere que os profissionais poderiam estar sendo igualmente objetivos ao continuar considerando a homossexualidade um transtorno (doença).

O que Kinney não discute o suficiente, no entanto, é que a “normalidade” é ambígua, e traz em si tanto o domínio dos fatos e descrições (o domínio do “é”) quanto o domínio ético (o domínio do “deve ser”). É preciso desambiguar. Mas essa desambiguação ficará do lado da decisão dos psiquiatras e psicólogos (e da OMS).

– Normalidade em fatos: uma característica normal é a que tem uma frequência alta o suficiente para ser considerada comum, em vez de rara. Há arbitrariedade aqui porque o senso comum não é exato, não define o que exatamente é comum ou raro. A escolha fica a gosto do freguês. A homossexualidade está em cerca de 10% dos homens e cerca de 5% das mulheres (Dawood et al. 2009). Isso é comum (normal) ou raro (desviante/aberrante/anormal)? Tudo o que os profissionais precisam é ter consistência, aqui: se esses números estão dentro da normalidade, ou seja, fazem dessa característica algo comum, então outras características com distribuição similar também são normais, comuns.

– Normalidade em ética: normal é uma característica eticamente justificada, aceitável; ou, alternativamente, eticamente neutra, inconsequente. Aqui acontece o debate ético, e é aqui que eu julgo que o não-cognitivismo moral, o absolutismo moral e o relativismo moral atrapalham. Aqui a alegação é que adultos que se sentem atraídos por adultos do mesmo sexo DEVEM ter liberdade para agir em conformidade com seu desejo como adultos heterossexuais fazem (inclusive em instituições seculares que partem desse desejo, como o casamento), e portanto homossexualidade é normal, e é objetivamente bom que seja assim. Aqui, as organizações profissionais da saúde estão tomando uma decisão que é ética, e que é incorporada às suas teorias do bem-estar humano. Quem está incomodado com essa decisão deve argumentar por que a liberdade dos homossexuais é moralmente inaceitável e convencer esses profissionais disso. A tradição anterior que patologizou a homossexualidade não fez isso. A decisão anterior foi simplesmente herdada, junto com leis de criminalização da sodomia como a que existiu no Reino Unido desde o século XVII até a metade do século XX. É meio desonesto que quem crê que homossexualidade é imoral abuse da ambiguidade do termo “normalidade” para alegar que a arbitrariedade na definição do que é “comum” é que é o problema, quando obviamente não é bem assim.

Finalmente, o nosso conceito de “normalidade” já é informado pela pesquisa em genética psiquiátrica. Os níveis “normais” de atenção e atividade são predizíveis a partir de modelos gerados com a variação patológica do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Ou seja, nós já conseguimos antecipar como são as pessoas “normais” a partir do estudo das pessoas “doentes”. O que sugere que a normalidade está dentro da variação da patologia e vice-versa, não havendo uma linha nítida entre uma coisa e outra em psiquiatria, o que está em conformidade com a arbitrariedade factual que comentei acima.

5th of June

Identidade de gênero e orientação sexual: militância versus evidência


O que diz a militância:
 
Identidade de gênero e orientação sexual são coisas completamente separadas. Identidade de gênero é como a pessoa se vê (se homem, mulher, ou nenhum dos dois), orientação sexual é por quem a pessoa se atrai. Dessa forma, identidade de gênero e orientação sexual variam independentemente.
 
O que dizem as evidências:
 
Os fatores que causam a orientação sexual e a identidade de gênero são intimamente relacionados. Se não são os mesmos, ao menos a intersecção entre os dois conjuntos de fatores causais é grande. De outra forma não se poderia explicar por que, através das culturas, a maioria (90% ou mais) das pessoas são heterossexuais e mais de 99% não sofre disforia de gênero nem é intersexo.
 
Disforia é a sensação de sofrimento psíquico por crise identitária de quem não se conforma ao gênero com que foi rotulado ao nascer. Nos casos mais severos, manifesta-se bem cedo em crianças e pode levar à automutilação.
 
Pessoa intersexo era conhecida antes pelo termo “hermafrodita”, um termo bonito, que vem dos deuses gregos Hermes e Afrodite, termo que o politicamente correto – sisudo e sem poética – condenou ao ostracismo. 1 em 2000 pessoas são intersexo, apresentando variados graus de ambiguidade de características sexuais primárias e secundárias.
 
Claramente identidade de gênero é relacionada à orientação sexual também porque uma parte substancial (quiçá a maioria) de pessoas homossexuais apresentam alguma não-conformidade de gênero na infância e adolescência (em outras palavras: muitos homens gays foram meninos que já usaram vestidos, sapatos e maquiagem da mãe – é um indicativo, não uma sentença). Além disso, a maioria, entre 50 e 88%, das crianças que manifestam disforia a resolvem com o tempo sem transição para outro gênero. Isso sugere que a transição só é terapêutica para uma minoria das crianças que manifestam disforia. A maioria, que não cresce trans, geralmente é gay. Novamente: identidade de gênero e orientação sexual são intimamente relacionadas.
 
Isso contradiz a insistência de que tudo o que é necessário para considerar uma criança “trans” é que ela manifeste disforia. Na verdade, a probabilidade maior é que não seja trans, mas gay. Também contradiz a noção de que basta uma criança dizer que é de outro gênero para aceitar que é mesmo. Não é transfóbico pensar que há uma probabilidade substancial de ela não ser: é o resultado mais provável. Isso, obviamente, não é desculpa para forçar a minoria que cresce para ser trans a não ser trans: estamos falando aqui do resultado mais terapêutico para seu desenvolvimento, e repito que para 12 a 50% dos casos o melhor curso de ação é a transição. Se você acha que uma pessoa trans sofre (e geralmente sofre, disforia é horrível), imagine então como sofre uma pessoa que fez transição, retirou mamas, tomou hormônios, porque ouviu que essa era a sua única opção, e depois se descobre não-trans e tem que viver com resultados permanentes de uma decisão tomada sem clareza suficiente sobre quem ela é. É a minoria de transicionados, mas existem (a idéia não é proteger minorias?).
 
Disforia está correlacionada com outros trantornos psiquiátricos. Não se pode atribuir todos os problemas psíquicos das pessoas trans à resistência da sociedade à sua transição. Sim, há muita transfobia e sofrimento causado por ela. Mas há mais coisas. A narrativa de “nasceu no corpo errado” não se aplica a todas as pessoas trans.
 
Finalmente, para botar um último prego no caixão da idéia de que identidade de gênero e orientação sexual são totalmente distintas e não relacionadas, vou falar de um tipo de transexualidade que essencialmente é uma orientação sexual. Trata-se da autoginecofilia. Autoginecófilas são mulheres trans (nascidas com sexo masculino) que têm atração sexual por si mesmas como mulheres. O conceito é um pouco difícil de entender quando se ouve falar nele pela primeira vez, mas existe e já foi descrito pelo cientista do sexo Ray Blanchard em detalhes. As autoginecófilas, como as outras trans (estas mais próximas de “nascidas no corpo errado”), podem fazer a transição hormonal e genital como terapia. Não é um fetiche, mas uma orientação-sexual-identidade-de-gênero que é parte fundamental de quem elas são. Alice Dreger, estudiosa da intersexualidade e de conflitos entre pesquisadores e ativistas, descreve o caso de uma mulher trans autoginecófila que chegou a raspar cirurgicamente o osso acima da sobrancelha, e conta que teve uma sensação de êxtase quando, depois da cirurgia, nos banhos o xampu passou a escorrer dos cabelos e chegar aos olhos, irritando-os. Porque tomar banho com um “guarda-chuva natural” acima da sobrancelha formado por esse osso seria coisa de homem. Alice, que é mulher nascida com vagina, diz que em toda a sua vida como mulher nunca tinha pensado nisso. Conto a história não para apontá-la como bizarra, mas para apontar o quão profunda é a identidade feminina para uma trans autoginecófila, tanto quanto para outras trans. (Outra evidência de que há ao menos esses dois tipos de mulheres trans é que as autoginecófilas tendem a gostar de mulheres e as outras tendem a gostar de homens.)
 
Portanto, enquanto ainda há muita ignorância sobre as origens tanto da orientação sexual quanto da identidade de gênero, está claro o suficiente que os dois conceitos são separados apenas para facilitar a compreensão de certas questões (ou por dogmatismo de ativistas), mas o mundo em si não os separa tão bem assim. Se engana quem pensa que não têm nada a ver com biologia, ou quem pensa que têm a ver apenas com biologia – os mais astutos devem ter percebido que a mulher trans de uma cultura pode ser o homem gay de outra.
 
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Referências
 
Sobre a provável maioria das crianças disfóricas não transicionar, vide Associação Psicológica Americana. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf
 
Sobre a proporção de intersexos na população, sobre histórias cabeludas de ativistas atrapalhando o avanço da ciência nessas questões, vide Alice Dreger: Galileo’s Middle Finger. https://g.co/kgs/oiUoOU
 
Sobre mulheres nascidas com pênis se assemelharem no cérebro a mulheres nascidas com vagina, e sobre homossexuais manifestarem não-conformidade de gênero, vide Bao & Swaab 2011. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21334362
 
Sobre disforia estar correlacionada a outros transtornos, ver este estudo escandinavo que relatou que ela é geralmente precedida por outros transtornos e que é muito comum o autismo: https://capmh.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13034-015-0042-y