3rd of abril

Práticas carreiristas de acadêmicos para inflar a própria importância


– Ciência salame: a pessoa “picota” vários estágios do que, num mundo mais honesto, seria um estudo só, e publica como vários estudos separados para obter mais citações. Número de citações contam para emprego.

– Trenzinho da alegria de autoria de artigos: a pessoa vira co-autora do artigo só por ser membro de algum laboratório ou grupo de pesquisa, mesmo sem ter feito nada pra contribuir pro artigo. É a forma desonesta do favorzinho, do “eu coço suas costas e você coça as minhas”. O favorzinho infla citações dos envolvidos.

– Trenzinho da alegria de citações: “eu cito você e você me cita”. O que não tem nada a ver com a qualidade dos trabalhos citados. É um pouco diferente porque é menos cara de pau, já que não se incluem mutuamente como autores nos artigos, só se citam como favor.

– Citação-sequestro: “ah, você está precisando do meu equipamento no seu experimento? Oh mas que peninha. Só vai usar se me incluir como autor no seu artigo depois.”-

– Citação-sequestro do revisor: para publicar artigos em revistas acadêmicas, é preciso passar pela chamada revisão por pares. Outros especialistas olham o artigo e dão um parecer por aceitar imediatamente, rejeitar imediatamente, ou aceitar contanto que o autor faça algumas correções ou inclusões. O último caso é oportunidade perfeita para revisores predatórios: só publicam o artigo se você citar o que eles querem, que “coincidentemente” inclui eles próprios ou os amigos deles.

Os pesquisadores que não fazem isso geralmente têm um tema ou um método que querem avançar, e chamam por colaboradores de forma diferente, pra realmente contribuir. Algumas revistas, pra coibir isso, listam o que cada pessoa fez no artigo.

Então, quando algum burocrata vem comemorar o número de citações de autores brasileiros na literatura científica, ou o número de artigos publicados, eu não me empolgo, não. Grande parte disso é ciência salame e trenzinho da alegria. Pesquisadores chineses fazem muito isso também.

A versão mais corrupta disso, como comentei numa live, é quando os favores ficam generalizados numa área porque as pessoas começam a fazê-los por afinidade política. A área vira um conjunto de “pesquisadores” que não compartilham curiosidade por um tema: compartilham uma fé.

Como disse na live: comunidade de crença é a coisa mais velha da humanidade. Porque acreditam juntos numa coisa, isso não significa que têm razão. Porque dão um verniz acadêmico às crenças deles, não significa que são diferentes de uma igreja qualquer. Citam uns aos outros para fazer afagos ideológicos entre si, não por progresso cognitivo.

1st of outubro

Cal Newport: “Siga os seus sonhos” é péssimo conselho de carreira


Estamos numa era sentimentalista em que a paixão é vista como um dos principais pré-requisitos para o trabalho bem feito. Também estamos numa era de distrações sem rédeas, busca de atalhos para tudo e uma romantização do sucesso. O cientista da computação e escritor Cal Newport vai contra tudo isso, com razão.

Em seu livro “So Good They Can’t Ignore You” (“Seja tão bom que não possam te ignorar”, em tradução livre), Newport relata sua própria busca por uma carreira satisfatória, ou, mais precisamente, por formas de fazer satisfatória uma carreira que ele já tinha. No processo, ele explica por que outros projetos que ele perseguiu não deram certo. Mas a linha condutora principal do livro são exemplos de pessoas que obtiveram carreiras de sucesso pelas quais realmente se apaixonaram, que Newport usa como fonte de dados para apoiar um conjunto de regras heurísticas para encontrar um trabalho que você ama fazer.

A primeira dessas regras, que é a principal, é Não Siga Sua Paixão (ou, alternativamente, Não Siga Seus Sonhos). O conselho contrário, dado por celebridades como Steve Jobs, ignora que ter sonhos claros (ou paixões pré-existentes) é algo muito raro. Também ignora que pessoas sem experiência romantizam os empregos que alegam ser o seu sonho, ignorando suas partes difíceis. O que realmente acontece, inclusive no caso do próprio Steve Jobs, é que as pessoas desenvolvem paixão por seu trabalho após adquirirem competências específicas relacionadas a ele, e a escolha inicial é com frequência um acidente entre várias tentativas, não um resultado de uma paixão pré-existente. Evidentemente, não é todo tipo de trabalho que passará a ser uma paixão. É necessário que o trabalhador veja o próprio trabalho como algo de valor, que está acrescentando algo valioso ao mundo. Mas, novamente, essa reflexão vem com a experiência que os novatos não têm. Portanto, não é que a paixão é um pré-requisito do bom trabalho: é uma consequência. O bom trabalho não vem de sonhos: ele se torna eventualmente um sonho realizado.

O erro do conselho “siga seus sonhos” é similar ao que eu encontro em alguns liberais que propõem reformar o sistema de ensino para permitir uma máxima liberdade dos estudantes de escolherem aprender somente as coisas pelas quais têm interesse. O erro está em presumir que interesses genuínos são só os pré-existentes, quando é possível interessar-se por uma área e desenvolver mais curiosidade por ela somente após um contato com exemplares rigorosos dela. O modelo atual de ensino médio voltado ao vestibular certamente exagera a quantidade de conhecimentos obrigatórios, e esses liberais estão certos em fazer essa crítica. Um modelo melhor deve estar num caminho do meio: por exemplo, oferecer introduções curtas a todos os alunos e só depois deixar que abandonem algumas áreas a favor de outras. Créditos obrigatórios, conteúdos facultativos.

Regra 2: Seja Tão Bom que Não Poderão te Ignorar. Conheço muitas pessoas que obtêm diplomas e passam a esperar recompensa do mercado por isso. Essa espera de recompensa pelo esforço de formação acadêmica pode ser um grande fardo sobre a saúde mental, de ansiedade, estresse e até depressão. Esse sofrimento é desnecessário e há uma terapia cognitiva para ele: compreender a soberania da lei da oferta e demanda. Não importa a sua área, o seu diploma não é uma joia rara, há centenas de milhares de pessoas com a sua formação. O mercado não vai pagar (bem) por um produto que é abundante. Para ser bem pago, você deve desenvolver competências raras, que levam tempo para desenvolver. Para detectar a oportunidade no “possível adjacente”, como diz a literatura de autoajuda de carreira, você precisa estar no topo das habilidades na área. Não passe seu tempo simplesmente esperando: aproveite-o para lapidar-se com gana e persistência. Procure aprender as partes da sua área em que você menos se sente confiante. Diversifique suas habilidades e faça pequenas apostas em que tempo considerável foi investido. Obtenha um patrimônio de competências.

Regra 3: A Importância de Ter Controle. Será difícil desenvolver paixão pelo seu trabalho se você nunca se sente como alguém que tomou as rédeas do que você faz. No entanto, a cautela aqui é salutar. Só é possível barganhar por mais controle, mudando de área por exemplo, se você realmente trabalhou em obter o seu patrimônio de competências raras dessa nova área. Tentar obter controle sem esse patrimônio é dar um salto no escuro, e você poderá se machucar. Outra dificuldade é que, uma vez que você obteve o patrimônio de competências e conhecimentos, você encontrará alguma resistência da cadeia de comando. Há realmente um lado nefasto no mercado de trabalho que busca cortar as asas de quem já está pronto para voar. Aqui, coragem é uma das virtudes mais necessárias. Poderá  haver situações em que você precisará recusar uma promoção, por exemplo, em nome de não ceder mais do seu controle sobre a sua carreira.

Regra 4: A Importância de Ter Uma Missão. Sentir-se executando uma missão importante ao trabalhar é o que diferencia os profissionais experientes cínicos dos que se mantêm motivados e otimistas. Aqui, novamente, trabalhar bem vem antes. Você estará disposto a fazer sacrifícios, se cansar e aplicar centenas de horas numa missão genuína. Qualquer coisa diferente disso volta ao erro de “seguir seus sonhos”.

Há algo de artificial na separação das quatro regras de Newport. Não concordo com a separação da regra 4 da regra 1, por exemplo. Há detalhes importantes que as ajudam a fazer sentido omitidos aqui para manter essa resenha curta, no entanto. Talvez a maior dificuldade de aplicar alguns dos conselhos do livro é que eles foram formulados para uma realidade de muito mais liberdade econômica e riqueza já produzida do que é o caso no Brasil. Mas não nos deixemos desmotivar por isso, nem usar as insuficiências brasileiras como desculpa. O livro vale a pena e poderá te inspirar a abandonar as soluções fáceis e reformar a sua rotina para que você se torne um profissional satisfeito.