1st of November

Sexo e Gênero


Assumir que há uma separação definitiva entre sexo biológico e gênero é acreditar erroneamente que uma coisa é 100% genes e outra é 100% ambiente cultural.
Eu não vejo muito sentido na maior parte das afirmações de influência cultural sobre o sexo biológico. Mas há um sentido em que elas poderiam ter um papel: o sentido da pressão seletiva da cultura ao longo dos últimos milênios sobre as bases biológicas do sexo. Essa influência cultural já foi convincentemente estabelecida para coisas como digestão da lactose e do amido – a frequência de alelos associados a isso nas populações humanas dependende da história milenar da cultura da pecuária e da agricultura / coletagem seletiva de raízes e tubérculos. Seria no entanto muito especulativo no momento dizer que a cultura influenciou nas características primárias e secundárias apresentadas por diferentes populações humanas. Nós ainda não sabemos se, por exemplo, o quão peludos os homens são em cada população (uma característica sexual secundária) é resultado de processos casuais (como deriva genética) ou de seleções, incluída entre elas a seleção cultural. Tudo o que estou dizendo portanto é que conforme nossos conhecimentos de evolução gene-cultura no momento, a possibilidade da cultura ter influenciado parte do que compõe o sexo biológico é real. O mesmo que eu disse sobre pelos masculinos pode ser dito sobre tamanho médio de seios, tamanho de pés, formato do rosto, altura, tamanho do pênis, pelos femininos. Há pesquisa sugerindo que nos últimos 50 anos as mulheres americanas foram selecionadas em direção a corpos de menor estatura e mais robustos, o que poderia ser uma preferência cultural. Dado que a pesquisa da Suzana Herculano-Houzel mostra que sem a cultura do fogo nosso cérebro nunca teria o volume e a demanda energética que tem hoje, há bons motivos para desconfiar que há cultura inscrita no sexo biológico, já que a influência da cultura vai tão fundo na natureza humana.
Portanto, não estão totalmente errados aqueles que vêem cultura no sexo biológico. Mas o problema é que exageram o papel da cultura e usam tradições intelectuais anticiência, muitas vezes.
E gênero? Podemos concordar que enquanto sexo está “entre as pernas” (ignorando as características secundárias), gênero está “entre as orelhas”. Aqui novamente o problema é exagerar o papel da cultura ou o papel da biologia. Quem exagera o papel da biologia (na verdade de uma biologia do senso comum distante da pesquisa de ponta) acha que não é possível existir homens nascidos com vaginas e mulheres nascidas com pênis, e isso está errado. Pesquisas iniciais com núcleos do hipotálamo sugerem que isso é não apenas possível como provável dependendo da base genética do feto e de seu ambiente hormonal dentro do útero e nos primeiros meses fora dele. Apesar de tentativas tacanhas de negar as pesquisas, há muita evidência acumulada de diferenças neurobiológicas e comportamentais entre homens e mulheres. Bebês recém-nascidos, cuja mente não se desenvolveu o suficiente para absorver informações culturais como a língua, já apresentam diferenças. O próximo passo é ver se os bebês que apresentam comportamento atípico para seu sexo nessa fase crescem mais tarde com maior probabilidade de serem gays ou transsexuais. Eu apostaria minhas fichas que sim.
Como eu disse em outras oportunidades, somos seres culturalmente moldados em nossa biologia e biologicamente moldados para a cultura. Alegar sem critério nenhum que uma dada característica é “construção social”, ignorando esse fato, é retroceder o conhecimento, não fazê-lo avançar.
28th of September

Carta aberta sobre conhecimento e política no Brasil


Conhecimentos deveriam se complementar mutuamente. As ciências naturais e as ciências sociais deveriam se sobrepor com o mínimo de inconsistências, como um mapa de estradas e um mapa de topografia do mesmo território se sobrepõem. Ou, como se seus problemas fossem palavras cruzadas, as palavras já resolvidas pelas primeiras deveriam servir como pista para preencher as lacunas que ainda faltam para as últimas, e vice-versa.

Enquanto é previsível que diferentes vocabulários e verdades emerjam de diferentes grupos de pesquisa na mesma área ou em áreas diferentes, seria estranho que uma ciência mais jovem e mais baseada em tentativa e erro tivesse não apenas vocabulário diferente para falar do mesmo território, mas negação peremptória de ciências mais maduras e suas descobertas, especialmente as corroboradas amplamente.

Quando há essa negação peremptória, essas áreas já estão em conflito e então alguma comparação de garantia epistemológica se faz necessária. Em outras palavras: há que se perguntar “de onde tiraram isso”?

No ano passado, bati de frente nas redes sociais, errando no tom mas acertando no propósito, com uma mestranda da filosofia política e blogueira de revista semanal, quando julguei que ela estaria fazendo afirmações tanto em seu trabalho de divulgação quanto em seu trabalho acadêmico que estavam em franca contradição com conhecimentos ou com o escopo da minha área, a biologia. Numa dessas ocasiões, a blogueira nega dogmaticamente que em “qualquer hipótese” a biologia possa contribuir para o entendimento do fenômeno misterioso que chamamos de consciência – e essa blindagem seria completa, já que ela alega que isso ocorre se a consciência fizer “jus à sua definição” (sic), ou seja, que por definição haveria impedimentos à investigação biológica da consciência.

Conheço pessoas que estão trabalhando com neurônios piramidais que disparam de forma errática justamente nos momentos de vigília consciente, e, em 2012, foi em um evento de neurociências e ciências cognitivas que foi publicada a “declaração de Cambridge” sobre a consciência, em que os cientistas alertam à população que vários dos seres vivos dos quais fazemos uso são seres conscientes. Tudo isso largamente baseado em conhecimentos da biologia. Não são desconhecidas, portanto, indicações de relevância da biologia para investigações desse fenômeno. O filósofo John Searle, que trabalha com filosofia da mente, acredita que a consciência “é um fenômeno biológico como a fotossíntese”. Considero que seja possível, embora implausível, que nada de biológico ou dentro do escopo da biologia exista na consciência. Mas está claro que, para ter tanta certeza de que em hipótese alguma a biologia pode contribuir, no mínimo alguma onisciência e presciência é necessária. Pergunto-me “de onde ela tirou isso?”, e nas respostas possíveis não parece haver presciência, mas noções pré-ciência. Uma visão desdenhosa ou até hostil ao conhecimento científico, portanto.

Respostas minhas a ataques à ciência como esse não são novas, na verdade, desde a graduação venho elaborando essas respostas, a mais famosa das quais foi a Silas Malafaia. Mas não se limita a Silas Malafaia a atitude contraditoriamente ao mesmo tempo desdenhosa contra a ciência mas deturpadora e aproveitadora sobre seu prestígio. Leitores lembrarão de livros como “Imposturas Intelectuais”, de Alan Sokal e Jean Bricmont, e “Higher Superstition”, de Paul Gross e Norman Levitt, dedicados a responder a coisas assim. Também entendo que ocorre por vezes (tanto entre acadêmicos quanto em leigos) uma supervalorização da ciência ao ponto de diminuir à irrelevância outras investigações. Não é minha posição, tanto que traduzi um artigo da filósofa Susan Haack que define claramente e critica o cientificismo.

Em meu otimismo, pensei que a postura anticiência da blogueira e outras pessoas das ciências sociais fosse a exceção na área ou entre ativistas como ela. Mas encontro cada vez mais motivos para pensar que o ceticismo contra a razão e a ciência já é dominante nas ciências sociais e no ativismo no Brasil, com estudantes dessas áreas saindo da universidade pensando que fatos não existem, que teorias científicas são apenas mitos particulares de uma cultura, que qualquer posição pode ser defendida bastando ter para com ela fervor moral, pois “pressupostos epistemológicos” podem ser conjurados ex nihilo sem precisar de justificação argumentada e baseada em premissas ao menos tentativamente universais.

Vivemos hoje em sociedades cada vez mais dependentes da tecnologia e do conhecimento científico. Até mesmo para espalhar ideias céticas contra ciência e conhecimento objetivo e ideias excessivamente subjetivistas e mágicas, afinal de contas, usa-se preferencialmente a internet, que não resulta desse tipo de pensamento. Talvez por essa contradição, cresce o cinismo contra as humanidades, como exemplificado nas recentes decisões do Japão visando a cortar fundos para essas áreas. Uma decisão lamentável e que não faz bem à sociedade japonesa.

Enquanto a face pública das humanidades no Brasil continuar sendo de “afrontas artísticas” ao senso comum, pelo prazer de chocar os conservadores e entediar o resto, enquanto for mais a respeito de pregar algo “segundo fulano” do que analisar criticamente se o que fulano disse se sustenta com evidências e argumentos, os conservadores continuarão marcando gols como vêm marcado desde as últimas eleições.

A atitude dadaísta, seja na arte, seja no pensamento acadêmico, contraditória e desdenhosa de instrumentos de investigação que rechaçam contradições, mais simpática à astrologia que à biologia, mais afeita às obscuridades que à clareza, vai ferir as humanidades mais que o pânico anticomunista dos conservadores. Pois enquanto comunistas (ao menos os clássicos) ao menos costumam tentar responder aos conservadores apelando para princípios universais de igualdade e justiça social, tendo alguma chance no debate público, os adeptos do novo dadaísmo sequer tentam fazer isso, negando portanto a legitimidade dos conservadores de participar desse debate público, e frequentemente fetichizando a resposta violenta e a imposição autoritária de suas pautas com desculpas esfarrapadas como “reação do oprimido”.

Ou o progressismo redescobre o conhecimento e a razão, ou vai continuar perdendo feio no ambiente público para as forças conservadoras do país. Dada a atual prioridade de levar pessoas que defendem esse conjunto de ideias danosas ao estrelato, tenho desesperança de que isso vá acontecer no curto prazo e perco eu mesmo o interesse de ajudar em movimentos em que a segregação e a atribuição de privilégios epistemológicos de acordo com características pessoais de quem argumenta estão sendo a palavra de ordem. Sem humanidades não há progresso para a humanidade. Quando humanidades não acreditam em qualquer forma de progresso pela força da verdade e da investigação, quando fecham os ouvidos a outras áreas e caem em exercícios circulares de contemplação do próprio umbigo, a profecia de não existir progresso é autocumprida.

13th of September

Neerja Bhanot e o sentido da vida


5 de setembro de 1986, 5 da manhã. O vôo 73 da Pan American, vindo de Mumbai, pousa em Karachi. É um Boeing 747-121 com 360 passageiros. Os planos de continuidade do vôo após essa escala são interrompidos, uma hora após o pouso, quando quatro palestinos armados tomam controle da aeronave. Eles estavam disfarçados de seguranças do aeroporto de Karachi e traziam rifles, pistolas, granadas e explosivos plásticos; usaram também uma van disfarçada de veículo de segurança para embarcar no avião. Há duas hipóteses para os planos dos terroristas: sequestrar o avião para buscar prisioneiros palestinos no Chipre e em Israel, ou usá-lo como arma, à maneira do 11 de setembro de 2001, contra Israel.

Eles entram dando tiros com arma automática. É aí que entra em ação Neerja Bhanot, uma das comissárias de bordo. Talvez foi ela o membro da tripulação que alertou piloto, co-piloto e um engenheiro de vôo, que logo fugiram por uma porta da cabine. Com essa manobra, os terroristas são forçados a ficar em solo e negociar com a polícia.

Safarini, o líder dos terroristas, exige que o piloto volte, caso contrário atiraria em Kumar, um cidadão americano. Dá 15 minutos aos negociadores. Impaciente com a demora, cumpre a ameaça na frente dos passageiros. Kumar morre a caminho do hospital.

Os terroristas então mandam a tripulação coletar os passaportes dos passageiros. Neerja novamente pensa rápido: os passageiros americanos provavelmente serão alvos de mais assassinatos. Ela esconde uma parte dos passaportes de americanos sob uma poltrona, e joga o resto numa conduta de lixo. O plano parece funcionar, pois Safarini escolhe um britânico, Michael Thexton para ir até o local onde havia executado o americano. O terrorista conversa com o britânico, num aparente lampejo de humanidade diz que não gosta de toda essa violência, mas que era forçado a fazer isso por causa da atuação dos americanos e israelenses na Palestina (o que torna provável que se Thexton fosse americano, teria sido executado). Em vez de executado, o britânico é mandado de volta ao seu assento.

Durante a espera de uma decisão, uma aeromoça arranca instruções para a abertura de uma porta de emergência, bota numa revista e instrui um passageiro perto de uma dessas portas a ler a revista.

A noite cai, o avião fica sem luz, e os terroristas ficam impacientes. Reconhecendo sua derrota, mudam seus planos para um fim sinistro. Após uma oração, um deles mira num explosivo na cintura de outro, planejando causar uma grande explosão e matar todos a bordo. Por causa da pouca luz, o tiro causa uma pequena explosão, não sendo suficiente para matar a todos, nem mesmo aos terroristas. Outras pequenas explosões de granadas também acontecem, igualmente contidas pela confusão do breu. Mas as balas dos terroristas começam a matar os passageiros. Os planos da tripulação com o passageiro próximo à porta de emergência funcionam, ele consegue com sucesso abrir a porta. Neerja se põe a ajudar os passageiros a sair do avião.

22 passageiros morreram, 150 ficaram feridos. Um dos mortos foi Neerja Bhanot. Ela se fez de escudo humano para salvar três crianças das balas dos terroristas. Ela estava a dois dias de completar 23 anos. Neerja recebeu condecorações de honra póstumas da Índia e do Paquistão por sua coragem, batendo recordes com seu gênero, idade e status de civil.

Safarini hoje está cumprindo uma sentença de mais de 100 anos numa prisão do Colorado, depois de um tempo foragido após ser sentenciado a prisão perpétua no Paquistão. Em 2010, outro sequestrador do avião foi morto por um drone americano no país.

***

Depois de alguns séculos quase esquecido, o sentido da vida foi recentemente ressuscitado como problema filosófico na filosofia analítica com o trabalho seminal de filósofos como Susan Wolf. Desidério Murcho, filósofo português e professor da UFOP, resume essas ideias lapidadas de sentido da vida como “entrega ativa a projetos de valor”. Desidério crê que podemos objetivamente saber se uma vida tem sentido ou não. Nenhum desses filósofos duvida que pessoas com atitudes heróicas como Neerja Bhanot são exemplos claros de vidas com sentido. Não é à toa que heróis atraem tanta admiração. Todos nós queremos ter sentido nas nossas vidas.

Fontes da história:
https://en.wikipedia.org/wiki/Pan_Am_Flight_73
https://en.wikipedia.org/wiki/Neerja_Bhanot
http://timesofindia.indiatimes.com/world/us/24-yrs-after-Pan-Am-hijack-Neerja-Bhanot-killer-falls-to-drone/articleshow/5454295.cms?referral=PM

Volume com trabalho de Susan Wolf e discussões dele:
http://www.amazon.co.uk/Meaning-Life-Why-Matters-University/dp/0691154503/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1442148146&sr=8-1&keywords=meaning+of+life+susan+wolf

Volume em português sobre o sentido da vida editado pelo prof. Murcho, incluindo tradução de um artigo de Wolf:
http://criticanarede.com/viverparaque.html

25th of August

O embate entre fundamentalistas e LGBT é mais interessante do que parece


Tratar esta celeuma entre LGBT e evangélicos como apenas embate político é um erro. Mesmo que muitas vezes de fato seja, o que está no fundo, e nem mesmo escondido com frequência, é um embate de metafísica e epistemologia. Metafísica é a área da filosofia dedicada a estudar o que existe, do que a realidade é feita, se há alguma. Epistemologia, por sua vez, é o estudo do conhecimento – de como sabe…mos o que sabemos, do que dá justificação ao que sabemos, e o que é saber.

Mesmo que em ambos os campos haja muitas opiniões “naïve”, isso se torna claro quanto se fala em escolhas (livre arbítrio) e comportamento “inato”. Evangélicos mainstream como Marina Silva acreditam que na essência da homossexualidade há alguma decisão moral, de quem poderia ter decidido diferente: ou a própria pessoa gay poderia ter decidido não sê-lo, ou quem causou que ela fosse gay poderia ter escolhido não ter feito isso (não expor crianças a ver carícias entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo), ou, no nível mais profundo, a humanidade poderia ter escolhido não ter optado pela queda original no Éden (sendo ou não literal o mito de Adão e Eva). Essas pessoas crêem num “saber pela fé” de que alguma dessas versões de voluntarismo de comportamento afetivo-sexual é verdade. Vivem numa realidade com espaço para o sobrenatural, em que revelação “mágica” é uma forma de obter conhecimento.

No campo dos ativistas, embora ainda haja alguns que estejam abertos à possibilidade do voluntarismo (por alegada irrelevância moral dessa escolha, caso seja escolha), há uma concentração maior de explicações essencialistas, e entre elas as inatistas. As inatistas, como mencionei no passado, são equivocadas, e lembram de alguma forma um certo pensamento mágico, pois atribuem um poder causal excepcional ao ato de nascer, sem qualquer consideração ao desenvolvimento. Do meu ponto de vista, dizer “eu nasci assim” como diz a Lady Gaga soa tão mágico quanto “Deus quis assim”, pois faz-se um apelo obscuro a uma agência causal muito mal explicada. Mas nem todo essencialismo é inatismo. E eu não desconsideraria um componente importante desse inatismo, que é a reflexão autobiográfica de cada uma dessas pessoas. Relatos autobiográficos essencialistas sobre orientação sexual são encontrados ao longo dos séculos, Rictor Norton documentou alguns do século XVII e XVIII na Grã-Bretanha. Pode-se dizer quem uma “consiliência de autobiografias” dá força a esse essencialismo intuitivo, mesmo que às vezes seja expressado na forma equivocada do inatismo.

Estou simplificando exageradamente, evidentemente, mas há, em geral, um padrão aqui. A segunda visão, tendendo a essencialista, posso alegar ser mais simpática para o fazer científico. Para o bem ou para o mal, o bloco intelectual de filósofos e cientistas costuma ver com suspeita hipóteses fundadas em conceitos problemáticos como livre-arbítrio e fé (tendo a ser cético com bobagens ditas por alguns neurocientistas quanto a livre-arbítrio, mas honestamente qualquer crítica intelectual que se faça à fé não é difícil de ser convincente). Há uma maioria de mais de 70% de filósofos e cientistas que não têm qualquer confiança em epistemologias e metafísicas baseadas em fé e revelação. Isso não é suficiente para bater o martelo pela inverdade dessas últimas, mas ajuda a entender por que o embate não é apenas político e/ou moral. Há uma analogia interessante entre essa consiliência de autobiografias a que fiz referência e a consiliência de induções que, a despeito do positivismo lógico, ainda faz bastante sentido em epistemologia da ciência. Em outras palavras: o bloco intelectual tendendo ao essencialismo é mais simpático às ideias pró-LGBT porque põe um peso de autoridade epistêmica maior sobre a análise do conjunto dos “pequenos casos” do que ao “grande caso” de uma visão de mundo fundada sobre a autoridade da fé e da revelação. Cientistas afinal frequentemente são vistos como tolos por “perder seu tempo” com moscas de laboratório, enquanto praticamente não há teologia que não parta do já percebido como grandiloquente e hiperimportante.

Ter ciência de que o embate chega a esse nível de profundidade de assunto (mesmo que tratado superficialmente na maioria dos casos) é reconhecer o quanto é um assunto mais intelectualmente estimulante e genuinamente contencioso do que os bate-bocas do ativismo deixam transparecer.

13th of August

A nova religião da “justiça social”


Pecado original – “você foi socializado como…”
Isso é pecado – “isso é ofensivo”
Não blasfeme – “respeite meu lugar de fala”
Não questione – “não roube meu protagonismo”
Você precisa ter fé – “você precisa ter vivência”
Pague pelos seus pecados, você sempre será pecador – “você é racista/machista/LGBTfóbico em desconstrução, jamais será feminista/inclusivo/ético/correto”

Amaldiçôo sua família até a quarta geração – “Você tem que pagar porque seu povo oprimiu o meu povo, é dívida histórica”
Eu não larguei uma religião para entrar em outra. Vade retro, Satanás da “justiça” social.

31st of July

“Apropriação cultural” é embuste intelectual


Muito tem sido dito sobre “apropriação cultural”, num sentido específico: de que seria imoral para uma pessoa de certo fenótipo usar elementos de vestuário, música etc. usados como “símbolos de luta” de pessoas de outro fenótipo contra o qual há preconceito e discriminação.

Um exemplo é gente reclamando na internet de pessoas “brancas” que usam dreadlocks ou turbantes. Várias vezes vi turbas de pessoas atacando o perfil de alguém nas redes sociais por isso. Alegam que não querem censurar nem proibir, mas é isso o que ocorre de fato: cria-se o tabu e faz-se policiamento por reprovação pública em grupo. Essa reprovação pública em grupo dá a falsa impressão de que a maioria ou todas as pessoas pertencentes ao tal grupo (“negros”, no caso) concordam com o tabu. Portanto, o resultado que querem é de fato a censura.

Há ao menos duas premissas falsas no conceito de “apropriação cultural” como é usado por gente que alega estar preocupada com justiça social:

– Que existe pureza cultural, de tal forma que duas culturas em contato que trocam informações poderiam ter claramente total crédito por um ou outro pedaço dessa informação. Isso se parece com tratar culturas como se fossem indivíduos em disputa por copyright. O rock veio do blues e do jazz, estilos originalmente negros, mas também veio do country e do folk, estilos associados a brancos “redneck”. Essa diversidade de origens é uma coisa boa, não uma coisa ruim. E as origens são mais obscuras do que normalmente se pensa, por causa da inexistência de pureza cultural. (Somente povos isolados da Amazônia poderiam alegar pureza cultural.)

Uma curiosidade sobre essa premissa falsa é que, enquanto na primeira metade do século XX muita gente autoritária no ocidente estava muito preocupada com pureza racial, como isso é (corretamente) rechaçado hoje em dia, parece que o autoritarismo identitário está recorrendo à ideia de pureza cultural.

– Outra premissa falsa é que pessoas de cores diferentes são necessariamente de culturas diferentes. Pode até fazer algum sentido para um país com história de segregação forçada como os EUA, em que pessoas negras têm até o próprio sotaque. Mas é claramente falso para o Brasil, em que até religiões de matriz afro têm uma proporção razoável de não-negros.

Nos meios virtuais em que o termo pejorativo “apropriação cultural” está em voga, muito se fala em negros e brancos, mas pouco se fala em pardos, e quando se fala, há gente inclusive contrária à reprodução entre negros e brancos, o que é de pasmar. Também é especialmente assustador em um país com tantos indígenas e com tanta miscigenação. Notar o fato de que há muita miscigenação também é apontado como racismo, por algum motivo. Já testei meu próprio DNA, e há nele marcadores das três grandes origens do Brasil: indígena, negra e europeia. Miscigenação se aplica à maior parte do território brasileiro, o que torna mais louca ainda essa ideia autoritária de tentar controlar quem pode usar turbante com base na cor da pele.

Não tem como salvar esse conceito de “apropriação cultural”. É um embuste usado para reforçar autoritarismo identitário, fazer reserva de mercado intelectual para pessoas com base em suas características intrínsecas em vez de suas habilidades argumentativas e conhecimentos. É antiintelectual, é autoritário, é um enlatado importado dos EUA, e é lixo.

_____

P.S.: No caso do turbante, acho perda de tempo tentar descobrir que povo começou a usar primeiro, até porque a resposta a isso provavelmente é que foi inventado várias vezes. É basicamente um tecido enrolado sobre a cabeça, não é preciso ser gênio para inventar isso, eu ficaria surpreso é se tivesse sido inventado uma única vez.

Imagem via Aventuras na Justiça Social.

26th of July

Em defesa da indecidibilidade


Nós ainda não sabemos o que é a consciência, do que ela é feita, como ela é gerada, como ela funciona. Há quem defenda que jamais saberemos. Isso não significa que devemos desistir de debater a respeito nem impede que saibamos que algumas respostas são mais erradas que outras. Ter vontade de encontrar a verdade não implica que você já a tem, nem tira da sua frente os obstáculos a serem transpostos para obtê-la. E alguns obstáculos devem ser, sim, intransponíveis, e te deixam com duas ou mais respostas entre as quais, em vista do obstáculo, é impossível decidir.

Isso tudo é muito fácil de aceitar. Mas em assuntos mais mundanos, que têm a ver com ética, parece que nós temos uma forte tentação a não reconhecer a indecidibilidade. Exemplos:

– Woody Allen é um monstro abusador de crianças, ou Mia Farrow influenciou sua filha supostamente abusada (Dylan Farrow) a denunciá-lo para se vingar dele por tê-la trocado por… outra filha (Soon Yi), adotiva, na idade de consentir? Muita gente, especialmente por compromissos ideológicos, quer fingir saber a verdade. Alguns antifeministas querem fingir que sabem a verdade para poder dizer “estão vendo? Mais uma acusação falsa nesta perseguição cultural feminista contra homens!”, enquanto algumas feministas querem dizer “estão vendo? Mais um predador machista, devemos acreditar nas vítimas, ouvir e acreditar”. Pois estão ambos os campos errados: não devemos concluir que algo é verdade só porque confirma nossas narrativas ideológicas do que ocorre na sociedade. Ter razão neste caso significa ter acesso a evidências fortes, e não escolher o que é “verdade” porque afaga nossos pressupostos. O caso é indecidível. Allen ser inocentado pelo sistema judicial por falta de provas não é a mesma coisa que ele ser de fato inocente, e ser acusado por gente que se encaixa em perfis de vítima não quer dizer que é de fato culpado. Quem gosta e quem desgosta de Woody Allen terá de viver com a dúvida, se tem honestidade intelectual. Neste caso, certeza é para quem é intelectualmente desonesto e ideologicamente motivado. Até, é claro, que surjam evidências conclusivas, o que se torna cada vez menos provável com a passagem do tempo.

– Há algum tempo, uma decisão judicial obrigou uma mulher a fazer uma cesariana, pois a opinião médica era que se ela não fizesse a cesariana o bebê morreria e talvez ela também. A mulher se opunha fortemente a ser submetida a isso, mas foi submetida pela autoridade do Estado com a justificativa de proteger o direito à vida do pequeno cidadão que ela trazia dentro de si. Diferentes intuições entram em conflito, aqui: autonomia individual deve ser preservada, mas também deve ser preservado o direito à vida de bebês já sencientes, como é o caso na fase final da gestação. Radicais libertários olharão o caso e já concluirão: “mais uma vez o Estado abusando de poder e interferindo na autonomia individual”. Radicais leitores de Foucault concordarão por motivos ligeiramente diferentes: “mais uma vez o biopoder esmagando a dignidade individual em função de uma narrativa médica que é supostamente verdadeira”. Já quem tem muita fé na autoridade médica dirá “lá vem os apologistas da ignorância tentando atropelar a expertise médica e botar vidas em risco”. Sabem o que eu acho? Que era indecidível. Que a opinião médica podia estar errada, mas tinha que tomar uma decisão que aumentasse a probabilidade de sobrevivência de gestante e bebê. Que a mulher estava certa em rejeitar que uma autoridade interfira no seu direito de fazer com seu corpo o que bem entende, que ela poderia estar certa em ver riscos em ser submetida a uma interferência invasiva, que ela talvez soubesse do que estava falando quando duvidou da opinião médica. Dependendo, é claro, dos motivos objetivos para dar razão à opinião médica ou à gestante, talvez fosse decidível. Mas na ausência desses detalhes, é indecidível. 

Temos que perder o medo de expressar dúvida nos casos indecidíveis em que a dúvida é a posição mais sensata que se pode ter. Claro que às vezes, quando somos nós os envolvidos, temos que tomar uma decisão rápida e somos forçados a decidir. Mas devemos deixar claro que havia dúvida quando decidimos. Se acertamos, não vai ser muito relevante que estávamos em dúvida, mas admitir que havia tem o efeito humilde de aceitar que o acerto não foi um completo mérito. Se errarmos, a admissão da dúvida aliviará ao menos em parte a nossa culpa, pois pode ser que, diante das informações disponíveis e da limitação de tempo, tenhamos feito o melhor que podíamos, e se erramos não foi por má fé nem ignorância, mas por termos sido forçados a decidir no que era indecidível.
25th of July

In Dubio Pro Hell: dois erros do ativismo LGBT


Ocasiões em que o movimento LGBT errou no Brasil, na minha opinião:
– Quando a maioria concordou que Levy Fidélix incitou a violência. Eu tive discussões épicas sobre isso com gente que respeito muito, mas que continuo acreditando que está errada. O que Fidélix disse naquele debate de candidatos à presidência foi homofobia, foi ódio, foi tudo de feio, mas não foi incitação à violência. Eu vi de tudo para forçar a barra nesse sentido, o que eu achei mais alarmante foi uma tentativa de alargar o conceito de “violência” do senso comum para algo que inclua palavras desagradáveis. Sabe como isso parece para um observador não envolvido? Que o movimento LGBT, quando é conveniente, muda o sentido das palavras, com o propósito de, na ausência de lei criminalizando discurso homofóbico, punir discurso homofóbico pintando-o como outra coisa: incitação à violência. Contei este caso para a filósofa Susan Haack, que recentemente publicou um livro em filosofia do direito (“Evidence Matters”). Ela concordou: o que é contemplado pela lei é violência física, é incitação a socos, linchamentos, pontapés, e num país em que linchamentos ainda são um problema é muito importante que a lei coíba isso. Esticar o conceito de “violência” para incluir palavras preconceituosas é uma estratégia ruim.
– O exemplo a seguir eu jamais dei em público. Eu guardei pra mim. O que eu tenho feito ultimamente, no entanto, é não guardar mais pra mim, pois isso é autocensura. Eu não posso aplicar um princípio ético para meus adversários e outro para meus confrades e comadres, o nome disso é sim hipocrisia. Vamos ao caso então:
Há uns dois anos atrás Silas Malafaia (meu queridinho) reagiu ao uso de fotos de modelos posando de forma similar a santos católicos na parada LGBT dizendo que era para os católicos “caírem de pau em cima deles [ativistas LGBT]”. No contexto está óbvio: o “cair de pau” era força de expressão. O próprio Malafaia se defendeu assim: disse que ele é um carioca que usa muitas gírias (meu caso favorito é quando ele disse que iria “funicar” o presidente da ABGLT, o que soa perigosamente próximo de “fornicar”), que não estava dizendo para ninguém literalmente bater em ninguém. Não era “ato falho”, era metáfora, força de expressão. E qualquer generosidade interpretativa vai corroborar isso. Mais uma vez, uma boa parte dos ativistas (não sei se foi maioria, pois não vi resistência a essa interpretação) alegou que Malafaia estava incitando a violência e deveria ser punido.
Generosidade interpretativa é outra coisa que não devemos aplicar apenas a nossos confrades e comadres. Uma coisa que eu vejo muito entre ativistas é que, em vez de analisar o caso, fazer um “menu mental” de interpretações e considerar quais delas são mais plausíveis, a estratégia é a seguinte: escolhe-se a pior interpretação possível, descarta-se irracionalmente e dogmaticamente qualquer interpretação alternativa, e parte-se para briga com qualquer pessoa que discordar. Eu já fui alvo disso: uma vez postei uma piadinha para divertir amigas lésbicas em que duas mulheres quase se beijavam e a legenda dizia “nessa ceia não vai ter peru”. Uma piadinha de natal. (E sim minhas amigas gostaram.) Imediatamente uma amiga trans caiu em cima, e mais ativistas trans foram se juntando a ela para insistir que a única interpretação possível da piada é que o propósito dela era afirmar que mulheres nascidas com pênis não são mulheres, e que portanto eu era transfóbico por publicá-la. Como eu disse: escolhe-se a pior interpretação possível, e parte-se para a briga contra qualquer outra interpretação, especialmente as mais plausíveis. Eu chamo essa estratégia de “in dubio pro hell”.
Eu também já fiz isso. Uma vez, eu interpretei uma notícia como sexista contra Dilma Rousseff. Amigos e amigas apareceram para criticar a minha interpretação. Eu li as críticas e as aceitei, e reconheci que eu estava saltando à pior interpretação possível sem estar justificado. Eu li e refleti sobre as críticas sem considerar primeiro qual era o gênero, a orientação sexual, a cor etc. de quem estava me criticando, mas considerando apenas se o que estavam dizendo era bom argumento, se era plausível, se era verdadeiro. Coisa que está infelizmente cada vez mais fora de moda. Se não fossem essas pessoas, e se não fosse eu ter alguma (mesmo que às vezes pouca) abertura para críticas, hoje talvez eu seria um ativista “justiceiro social” dão doido quanto os que eu costumo criticar.
23rd of July

Meu comentário que Juremir Machado da Silva censurou


Aguardo seu Magnum Opus de filosofia da ciência ou seu
  bestseller que continuará relevante depois de 30 anos, Juremir.
Fiquei “surpreso” em descobrir hoje que Juremir Machado, colunista do Correio do Povo, fechou os comentários do post em que ele critica Richard Dawkins (veja aqui). Juremir foi bastante ácido com o cientista britânico: “Basta de Dawkins, Modas (sic) passam rápido.”. Pergunto-me se é classificável como moda que “O Gene Egoísta” continue vendendo bem mais de 30 anos após ter sido escrito. Mas OK. Juremir, que deve estar com dor de cotovelo por causa da atuação de Dawkins contra as religiões (contra a qual eu também tenho críticas), resolveu apelar para Paul Feyerabend na crítica dele, enquanto acusava os outros de “modismo” intelectual. Aqui vai meu comentário que Juremir censurou, se recusando a publicar, que talvez motivou fechar os comentários do post:
“Sabe outra moda intelectual que está na hora de passar? O pós-modernismo. Essa neo-ortodoxia que quer matar as ideias de objetividade, imparcialidade e verdade em nome de ideologia. Acusam ciência de ser apenas ideologia porque é isso o que têm, e para quem só tem martelo, tudo é prego.
Em “A estrutura das revoluções cientificas”, segunda edição, Kuhn escreveu um posfácio para tentar responder a seus críticos e se afastar de quem estava usando sua obra para cantar loas ao relativismo epistemológico (a ideia defendida na citação de Feyerabend que você usou). Nesse posfácio, ele citou uma crítica de sua obra que disse que havia uma dúzia de sentidos diferentes para a palavra “paradigma”, pelo uso da qual ele é famoso. Ele então tentou reduzir essa confusão a dois sentidos, mas não fez muita questão de continuar usando a palavra. No modismo pós-modernista, o que mais tem é gente falando “paradigma”. Alguém leva em consideração a confusão por trás disso? Pouca gente. Falar em “paradigmas” soa inteligente, afinal de contas.
‘Os textos de Feyerabend contêm numerosos enunciados que são ou ambíguos ou confusos, que às vezes terminam em ataques violentos contra a ciência moderna: ataques que são simultaneamente filosóficos, históricos e políticos, nos quais julgamentos sobre fatos são misturados com julgamentos de valor’. Alan Sokal & Jean Bricmont, em ‘Imposturas Intelectuais’.
A filosofia da ciência não parou em Feyerabend, Kuhn e Popper. Na verdade, pode-se alegar que nenhuma das ideias pricipais deles é aceita hoje pela maioria de quem trabalha com filosofia da ciência na tradição analítica (a que é mais avessa ao pós-modernismo).
Então, que dizer? Dawkins é um bom divulgador de ciência. Mais que bom, na verdade. Seu ataque pessoal a ele é uma baita irrelevância, e se tem alguém aqui usando modismo ideológico, é você.
Abraço,
Eli Vieira”

* ATUALIZAÇÃO *

Me confundi por um momento achando que na verdade eu não tinha sido censurado pois estava vendo meu comentário no Firefox mas não no Chrome. Na verdade eu fui censurado, sim. O Firefox é que salvou em cache meu comentário, que está “aguardando moderação” desde maio. Veja no print abaixo.


20th of July

Ética do bife: “porque é gostoso” não é resposta (ou: Parte 2 da resposta a mim mesmo quando ataquei o vegetarianismo)


Todos os dias, acordamos e começamos uma rotina de ações, como escovar os dentes. Escovamos nossos dentes porque sabemos que é a forma de evitar problemas como mau hálito, sorriso feio e coisas mais graves. Por estética ou por saúde, temos este hábito pelo nosso próprio bem-estar. Talvez nem saibamos todos os problemas que teremos se não escovarmos os dentes, e talvez até tenhamos uma ideia exagerada dos problemas que de fato aparecerão se falharmos em fazê-lo por um dia. Confiamos em quem nos ensinou que escovar os dentes assegura nosso bem-estar, mesmo que no princípio fosse desagradável. Temos até pastas de dente mais saborosas para convencer as crianças a tomar este hábito, tal é a importância que se atribui a escovar os dentes. E é uma importância justificada pelo que se sabe a respeito do hábito.
Alguém, talvez uma pessoa indígena, poderia perguntar se escovar os dentes é moralmente correto, se é ético, se é fazer o bem. Ou se é imoral, se é antiético, incorreto, indesejável, se é fazer o mal. Porém, a pergunta pode esconder uma terceira via: talvez eu acordar de manhã e escovar meus dentes no dia 2 de novembro de 2014 seja coisa moralmente neutra, inócua, inconsequente! Enquanto é certo uma pessoa escovar seus dentes todos os dias, no sentido de preservar seu próprio bem-estar e não desenvolver por imprudência problemas bucais que afetarão o orçamento da saúde pública, não escovar os dentes especificamente no dia 2 de novembro não parece ser coisa que afete a sua própria vida ou a vida de outrem. Há ações moralmente neutras, que não são certas nem erradas.
No começo dos anos 1990, após um estudo com camundongos, espalhou-se um pânico de que flúor na água e na pasta de dente poderia causar câncer nos ossos. Até hoje, a maior parte dos estudos tendem a concluir que essa suspeita é injustificada e que o flúor não tem essa propriedade. Supondo que fosse verdade, quem soubesse disso e continuasse recomendando a escovação dos dentes estaria agindo errado. Nosso julgamento sobre a moralidade de escovar os dentes pode, portanto, mudar de acordo com conhecimentos novos a respeito do hábito. 
Se um hábito tão corriqueiro quanto escovar os dentes está sujeito a ser reanalisado de acordo com novas informações, que diremos de hábitos como comprar e comer um bife?
Devemos ter, portanto, justificações morais onde forem necessárias. E, se uma ação ou hábito é moralmente neutro – se “não prejudica a ninguém”, como se diz popularmente, é preciso explicitar também os motivos pelos quais acreditamos nessa neutralidade. Note que estamos falando aqui de fazer a coisa certa ou a coisa errada, no sentido ético de certo e errado, e não de leis. Embora leis devam preferencialmente se basear no que é moralmente certo ou errado, nem tudo o que é incorreto deve ser ilegal – imagine se aplicássemos uma lei punitiva para cada vez que alguém se sente ofendido? Seria o fim da liberdade de expressão.
Existem respostas que não funcionam quando se põe em dúvida se uma ação é certa, que dão motivos que não justificam agir de certa forma nem mostram que a ação em questão é neutra. O tribunal de Nuremberg, por exemplo, que julgou crimes nazistas, não considerou por exemplo que “eu estava seguindo ordens” fosse motivo que justificasse que os membros do baixo escalão Nazi matassem e queimassem as pessoas presas em campo de concentração. Era um motivo que não isentava de responsabilidade esses funcionários do regime nazista. Manter em confinamento e matar pessoas por serem de origem judaica com certeza não é ação moralmente neutra ou ação que seja aliviada pela hierarquia relativa entre os agentes. Analogamente, dizer “porque eu estava com pressa” pode até ajudar a autoridade de trânsito a entender por que você estacionou na faixa de pedestres, mas não justifica sua atitude nem te isenta da multa. Porque estacionar na faixa não é moralmente neutro: pode aumentar o risco para os pedestres que desejam atravessar a rua, pode tirar de uma ambulância a oportunidade de aliviar o sofrimento de alguém atropelado, etc.
O hábito de comer carne dificilmente pode ser visto como completamente neutro. Talvez dizer “porque é gostoso” funcione como motivo para comer outros tipos de alimento. Mas não funciona para um bife. Primeiramente, porque o bife pode ser resultado da tortura de um animal (nem sempre é, mas pode ser). Tudo o que precisamos saber para concluir isso é se vacas sentem dor como humanos sentem. Se é errado causar dor desnecessariamente a um ser capaz de senti-la, não interessa se o ser em questão é uma pessoa ou não. Alguém poderia dizer que o problema com a tortura não é apenas infligir dor, mas infligir dor a um ser consciente. Como no caso da hipótese do flúor como tratamento odontológico, nos vemos numa dúvida que depende de pesquisa empírica: é verdade que vacas são seres conscientes? Se formos ouvir especialistas que trabalham com cérebros, que são as mais prováveis coisas no mundo responsáveis pela consciência, a resposta é sim. Vide a Declaração de Cambridge sobre a Consciência (http://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf ).
Mas nem todo bife vem de vaca torturada. “Porque a vaca não sofreu”, então, seria resposta melhor que “porque é gostoso”? Sim, mas talvez não seja suficiente: se estamos falando de um ser consciente, e você como ser consciente sabe que não seria correto alguém numa ocasião banal simplesmente tirar sua vida para, digamos, doar seus órgãos, usando como desculpa que você não sentiu dor na execução, então deveria considerar que, tanto quanto você, vacas podem ter genuíno *interesse em viver*. Se você tem interesse em viver para perseguir uma carreira, o conhecimento, o prazer, vacas também podem ter interesse em viver para fazer suas coisas de vaca. Novamente, não interessa a espécie: interessa se existe interesse em viver.
Se a espécie alvo de uma ação não importa para os critérios pelos quais julgamos moralmente uma ação, isso não parece ser verdade para as prioridades. Quando é preciso escolher entre a vida de um ser humano e a vida de uma vaca, o primeiro tem prioridade em função de suas capacidades de sofrimento e interesses. É por isso que os inuits (“esquimós”) que não têm escolha a não ser matar e comer animais, sendo a alternativa sofrimento e morte humanos, estão plenamente justificados em sua carnivoria. Se não podem fazer diferente, não devem. O dever moral de fazer algo vem sempre acompanhado de ter a capacidade de fazê-lo. Quem não pode não deve.
Mas hoje, no Brasil, há poucos que podem alegar que não podem. Se podemos ao menos nos perguntar se a carne que consumimos foi produzida com tortura, devemos. Quem decide que a carne que consome deve ser produzida sem dor está fazendo a coisa certa. Se algum tipo de carne que consumimos veio da interferência no interesse de viver de um ser consciente, está fazendo a coisa certa quem decide encerrar o consumo e procurar alternativa.
“Porque é gostoso” não responde a nada disso, e muito menos estabelece que é moralmente neutro comer o que é gostoso. Um canibal poderia responder o mesmo sobre comer carne humana, nem por isso o canibalismo estaria isento da necessidade de se justificar. Nem mesmo para um prato de salada “porque é gostoso” funciona na justificação, pois o que demonstra a neutralidade moral de comer o pé de alface são as propriedades da planta e as consequências de produzi-la, não seu sabor. 
Se essa resposta não resolve nada, talvez seja uma tentativa de usar o humor para silenciar a própria razão de considerar o problema. O humor, para o bem e para o mal, tem o efeito de apaziguamento mental – e a dúvida sobre a moralidade do que se faz rotineiramente traz um desconforto mental.
É uma atitude anti-intelectual, portanto, se esconder por trás de respostas preguiçosas como “porque é gostoso”. Uma atitude que em si é moralmente ambígua, pois foi usada no passado para tentar “justificar” atitudes de inócuas a gravemente danosas como a escravidão. No passado, pouca gente sabia que escravizar era errado, hoje não sobrou país que explicitamente permita a escravidão em suas leis. No passado, expulsar homossexuais de casa e tentar obrigá-los a mudar de orientação sexual era considerado correto, hoje, cada vez menos pessoas concordam com isso. A próxima fronteira no lento avanço da humanidade em coisas que podemos e devemos fazer diferente será, provavelmente, em direitos de animais não-humanos. Seu principal impedimento não será o sabor do bacon, mas a ignorância voluntária. Mesmo que comer bacon especificamente no dia 20 de julho de 2015 seja uma ação moralmente neutra.