12th of November

Como descobrir se um comportamento “é genético”?


Quer saber se há genética num comportamento? É surpreendentemente fácil.

Primeiro, amostre aleatoriamente as pessoas, anotando genótipo e ambiente.

Digamos que há três genótipos e três ambientes, como nesse slide de uma palestra minha; e que o comportamento é contável. Pode ser, por exemplo, quantas vezes a pessoa rói as unhas num mês. Pode ser quantas vezes ao dia pensa em estrangular a sogra. Não importa.

Agora precisamos só de mais dois conceitos estatísticos bem básicos. Um é a média, que todo mundo sabe como calcular. A média é a soma das medidas da característica de interesse de cada elemento de um determinado grupo dividida pelo número de elementos no grupo. Como se vê no slide, vamos precisar de médias parciais, agrupadas por genótipo e ambiente, e da média total.

O segundo conceito, um pouco menos conhecido mas não menos importante que a média, é a variância. Enquanto a média mostra uma “tendência central” nos dados, a variância foi inventada para se ter uma medida de como os dados se espalham em torno dessa média. Então você vai precisar literalmente calcular a distância (ou desvio) de cada dado em relação à média. Então subtraia a média de cada elemento: elemento – média. Você vai notar que uns elementos são maiores e outros menores que a média, então algumas dessas distâncias serão negativas, e outras positivas. Tudo o que nos interessa é o número absoluto de distância do elemento à média, não se é negativo ou positivo. Para “nivelar” todas as distâncias, portanto, vamos elevar todas ao quadrado, o que elimina o problema de algumas distâncias serem negativas. Somando todos esses quadrados, ainda precisamos calibrar o cálculo pelo número de elementos, dividindo a soma por esse número como fazemos com a média. Por uma tecnicalidade estatística que não vem ao caso explicar agora, subtraímos 1 desse total de elementos antes de usá-lo no denominador da fração.

Como podemos fazer com a média, também podemos calcular “variâncias parciais”, uma genética e outra ambiental. Para fazer isso, repetimos o procedimento que usamos acima para calcular variância total do fenótipo, mas em vez de subtrair a média total dos elementos, vamos subtraí-la das médias parciais genéticas e depois das médias parciais ambientais (médias das linhas e das colunas).

Temos agora três variâncias: uma (Vp) nos diz o quanto os dados variam em torno da média total, outra (Vg) nos diz o quanto as médias dos estados genéticos (genótipos) variam em relação à média total; e outra (Ve) o quanto as médias para cada ambiente variam em torno da média total.

Como todas as três medidas vêm dos mesmos dados, elas têm uma relação muito simples: Vp = Vg + Ve.

Qual é a unidade desses valores? É o quadrado da contagem do fenótipo comportamental do nosso interesse (“estrangulamentos imaginários de sogra ao quadrado”). Não é uma unidade que diz por si só alguma coisa interessante sobre o comportamento. No fundo, essas estatísticas são só formas didáticas de entender o que os dados estão mostrando, porque nós somos seres burros demais para perceber isso só olhando para eles.

Mas não importa a unidade de medida se for possível expressar como uma fração: se você dividir a variância genética (Vg) pela variância total (Vp), obterá uma fração interessante, que é o quanto da variância total pode ser atribuído à genética. A essa fração, que é um número entre 0 e 1 facilmente convertido em uma porcentagem (x100), nós damos o nome de “herdabilidade”.

Como há formas mais detalhadas de calcular a herdabilidade, esse modo de calcular dá numa herdabilidade “em sentido amplo”. Podemos pensar na herdabilidade como uma ferramenta de prospecção inicial da participação genética numa característica que varie entre indivíduos de uma dada população. Note que é importante que varie, pois a herdabilidade é totalmente baseada numa medida da dispersão (variação) dos dados, que é a variância.

Por isso, quando você pergunta a um geneticista “isso é genético?”, melhor seria perguntar “quanto de variação genética nas prováveis causas dessa característica existe?” O número provavelmente já existe. Para o QI, a herdabilidade é de 50% a 80% (surpreendentemente, a herdabilidade do QI aumenta com a idade, ou seja, os indivíduos dependem mais da genética, não menos, nas habilidades cognitivas quando ficam mais velhos).

Um resultado já replicado à exaustão na genética do comportamento é que a herdabilidade nunca é 100%, mas também nunca é 0%. Não existe comportamento completamente livre de influência genética. O geneticista Robert Plomin até desafia os que negam a produzir exemplo de comportamento sem componente genético.

Já a afirmação de que determinado comportamento humano é “construção social”… qual é o método mesmo?

5th of September

O que é preconceito, afinal? Discutindo o preconceito com calma e contra a irracionalidade ativista dos nossos tempos


Em tempos em que as pessoas usam a sua postura contra o preconceito como o pavão usa o rabo dele, faz-se necessário pensar com alguma precisão o que é preconceito afinal. Assim poderemos ter esperança de distinguir a preocupação genuína com justiça do mero adorno.

Essas são as definições do dicionário Priberam, mantido por portugueses e meu favorito na nossa língua (eles inventaram essa joça, então devem saber do que estão falando):

pre·con·cei·to
(pre- + conceito)
substantivo masculino
1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial.
2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objectivos. = INTOLERÂNCIA
3. Estado de abusão, de cegueira moral.
4. Superstição.

O dicionário serve para capturar o significado dado pelo uso das palavras, e isso é importante: é o uso que faz o significado. O sentido das palavras que usamos depende literalmente de um concurso de popularidade de sentidos nos contextos sociais em que as usamos. Mas, como as palavras denotam coisas que estão no mundo, e o preconceito é uma delas, raramente os significados propostos pelo dicionário são satisfatórios.

O dicionário é útil aqui, em primeiro lugar, para afastar o jeito mais preguiçoso de definir preconceito: o uso literal da etimologia. Não, o preconceito que nos interessa aqui, que é o tipo social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta, não é simplesmente “pré-conceito”, como a etimologia parece sugerir. Se fosse só isso, significaria que todas as crianças são ativamente preconceituosas, quando são só ignorantes, com uma ignorância geralmente benigna: só têm noções superficiais das coisas (pré-conceitos) até aprenderem conceitos sobre elas. A etimologia é via de regra um guia impreciso para o sentido das palavras: ao menos na matemática, “cálculo” não é uma pedrinha (sentido literal da palavra de origem no latim), embora na nefrologia ainda seja. O Priberam dá a etimologia de preconceito, como é comum em dicionários, mas não a lista como definição. No entanto, a definição 1 parece influenciada pela etimologia. Tudo bem, há frases em que usamos realmente esse sentido: “meu preconceito sobre abrir uma empresa é que precisarei de muito capital inicial”.

Perceba que já comecei a definir de que preconceito estamos falando ao diferenciá-lo da definição influenciada pela etimologia. Mas eu não precisei fazer isso antes: apostei que o primeiro sentido de preconceito que você pensou ao ler o título deste texto foi justamente o social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta. Pois é um uso comum da palavra, especialmente nos nossos tempos, e o uso — com o perdão da repetição — faz o significado.

Pois continuemos. Na definição 2, sugere-se o sinônimo “intolerância”, e que o preconceito não é baseado em dados objetivos. É aqui que começaremos a nos distanciar do dicionário. Sempre que o assunto é tratado, é comum que se diga que preconceito tem a ver com estereótipos e que estereótipos são ideias imprecisas sobre certos grupos de pessoas. Manchetes de jornal e palavras de ordem chegam a tratar estereótipo como uma coisa intrinsecamente negativa que precisa ser quebrada, talvez sinônimo de preconceito (que as definições 3 e 4 também tratam como imoral, o que discutiremos a seguir sem voltar a elas).

Um fato testado e retestado pela psicologia social é que os estereótipos são precisosO estereótipo de que meninos gostam de carrinhos e o estereótipo de que meninas gostam de bonecas, por exemplo, mais acertam do que erram: englobam a maioria das meninas e dos meninos, deixando de fora as exceções. É isso o que queremos em qualquer teoria sobre a sociedade: que seja precisa o suficiente, descreva com sucesso a maior parte do grupo estereotipado. De fato, algumas das teorias mais respeitadas na própria psicologia social não chegam ao grau de precisão dos estereótipos. Sobre a precisão deles, as pesquisas mostram outra coisa interessante: os estereótipos são estatísticas intuitivas, que as pessoas formam por sua própria experiência como coletoras intuitivas de dados. E mais: as pessoas são racionais, atualizam suas crenças de acordo com novas informações: ao saberem de informações individualizadoras sobre uma pessoa, elas geralmente deixam de julgá-la com base nos estereótipos dos grupos aos quais essa pessoa pertence. E, se virem um número suficiente de pessoas de algum grupo com informações individualizadoras que contrariam o estereótipo, ele é atualizado com as novas informações.

Evidências empíricas mostram, portanto, que não serve alegar que o preconceito é baseado sempre em informações falsas. É importante aqui lembrar que os dados são coletados pela experiência. E que os estereótipos são levados em diferentes versões em cada cabeça, se cada cabeça tiver uma experiência diferente. Mas há consensos de estereótipos e esses são os mais precisos, assim como na ciência as teorias mais corroboradas são as que nascem de consensos de diferentes áreas de pesquisa: a evolução biológica, por exemplo, é apoiada por um consenso de geneticistas, paleontólogos, zoólogos, botânicos, microbiólogos etc., com base em diferentes evidências que contam a mesma história.

Se o preconceito pode ser baseado em informações verdadeiras, qual é o motivo de tanta desaprovação? Ainda é errado ter preconceito? A resposta é sim, nessa definição revisada:

pre·con·cei·to

  1. Juízo de valor moralmente enganoso sobre informações verdadeiras ou falsas a respeito de grupos de pessoas; frequentemente acompanhado de
  2. atribuição falaciosa de causa inevitável entre características biológicas ou identitárias (falsas causas) e mau comportamento (falsa consequência); e também
  3. atitude autoritária segundo a qual um indivíduo tem o dever de se comportar em conformidade com estereótipos a respeito de grupos aos quais pertence.

Creio que assim fica claro qual é o problema de ser preconceituoso e qual trabalho as pessoas contrárias ao preconceito deveriam estar fazendo.

Qual é o problema do preconceito, em três exemplos seguindo as três partes da definição:

  1. Não é que é falso que homens homossexuais são mais “promíscuos” que outros grupos de sexualidade: quem pensa que fazer muito sexo é antiético é que tem responsabilidade de mostrar que é mesmo imoral. Se não há problema moral inescapável na quantidade de sexo que gays fazem, a condenação desse comportamento é preconceituosa: é um juízo de valor enganoso.
  2. Não é que nunca é verdade que assaltantes são negros: em determinadas áreas, esse é um estereótipo preciso para boa parte dos assaltantes. No entanto, quem acredita que a causa do comportamento de roubar as pessoas com ameaças de violência é a cor da pele e demais características raciais de pessoas negras está enganado e é preconceituoso.
  3. Não é mentira que poucas mulheres gostam de engenharia e programação. Mas isso definitivamente não é desculpa para tentar obrigar Maria da Silva, uma engenheira de software, a largar a área, ou para alegar que ela não deveria ter entrado na área. Essa atitude e essa opinião são imorais, autoritárias e preconceituosas.

Atitudes recomendáveis para combater as três facetas do preconceito:

1. Discussão moral racional do julgamento de valor enganoso, para demonstrar que é mesmo enganoso. A vida sexual agitada dos gays solteiros não parece, à primeira vista, ser imoral. Afinal, estamos falando de pessoas adultas buscando o prazer privado com consentimento. O resultado disso é mais felicidade no mundo. Do ponto de vista dessas consequências, é perfeitamente moral. Do ponto de vista da liberdade, imoral seria impedi-los. Alguém pode dizer que essa “promiscuidade” pode resultar na propagação de doenças venéreas e, a longo prazo, depressão e falta de sentido na vida por ser correlacionado com falta de sucesso em relacionamento amoroso. Há respostas para isso: há prevenção para as doenças (e no caso, imoral é quem não se previne e põe outras pessoas em risco, e o problema deixa de ser a quantidade de sexo); e há relacionamentos abertos. O debate pode continuar, e pode até ser que alguém demonstre no futuro que excesso de sexo realmente é imoral. Neste caso, o preconceito é bom? Não, pois aí teremos a parte 2 da definição: ser gay não é a causa inescapável de ser promíscuo, portanto condenar a homossexualidade junto com a promiscuidade não faz muito sentido.

2. Para combater a segunda faceta do preconceito, é necessário ter curiosidade disposição para trabalhar em achar respostas. Duas coisas muito em falta na maior parte dos ativistas. E, para ser curioso e diligente, é preciso não ter medo do autoritarismo politicamente correto, que é uma resposta errada ao preconceito. É preciso não ter medo de achar informações que confirmem estereótipos, por saber que há uma separação rígida entre descrever como as pessoas são e julgar como deveriam ser. Não há, até hoje, motivo para suspeitar que ser negro causa uma propensão ao crime (para continuar no exemplo de preconceito dado antes). Mesmo se, em hipótese, as evidências levassem para esse lado, não há motivo para pânico ou para concordar com racistas: nós já sabemos com bastante segurança que as pessoas não são autômatos de propensões e que indivíduos sempre podem decidir não cometer crimes. Para forçar mais uma hipótese, e mais mirabolante: mas e se as pessoas forem autômatos? Afinal, há filósofos que não acreditam em livre arbítrio. Neste caso, a interpretação da informação precisaria ser muito mais afastada da punição do que seria hoje. Pois, como esclareceu Kant, “dever” implica “poder”: se um indivíduo não tem capacidade de agir diferente (não tem livre arbítrio), então não faz sentido alegar que ele deveria agir diferente, muito menos puni-lo. Mas não precisamos nos perder em especulações filosóficas: independentemente da diversidade das pessoas que cometem um crime, o problema moral continua sendo o crime, não as características biológicas ou identitárias das pessoas que o cometem, que provavelmente não são as causas mais determinantes do crime.

3. A solução para a mania dos preconceituosos de alegar que você deve se comportar de acordo com algum estereótipo não é a alegação falsa e popular de que o estereótipo não corresponde em nenhuma medida à realidade. Muito menos, como também é popular entre ativistas, criar políticas autoritárias que forçam “representação” de algum grupo em algum lugar em que ele é incomum. A solução é realçar a importância da liberdade, a importância de poder agir diferente das outras pessoas. A solução é também apontar para as qualidades de quem é exótico, excêntrico, incomum. Ninguém gosta de ser só mais um na multidão, sem nada em que se destaca. Apelemos para a empatia (mania de ativista, mas fazem errado também): se o preconceituoso não é igual aos outros em relação a alguma característica dele que é incomum (e sempre tem uma), por que você não pode destoar do estereótipo? Se ela é uma enfermeira apaixonada por Fórmula 1, por que você não pode ser um gaúcho que não gosta de chimarrão?

Com a idade as pessoas perdem velocidade no aprendizado de coisas novas. Não surpreende, portanto, que geralmente as pessoas mais preconceituosas da família são as mais velhas: elas não atualizam tão bem os estereótipos com base em novas informações, e elas fazem julgamentos morais inadequados sobre esses estereótipos sobre os quais os jovens se debruçaram e pensaram melhor. Na nossa sociedade, idade está correlacionada com menos oportunidades educacionais. Também não surpreende que as pessoas menos escolarizadas costumem ser consideradas mais preconceituosas. Esses são dois estereótipos sobre pessoas mais idosas e sobre pessoas com baixa escolaridade, que — agora sem surpresa para nós — são precisos, e coincidem com as pesquisas de opinião sobre grupos como os gays ao menos no último caso.

Cito isso porque também é o estereótipo das pessoas preconceituosas: mais velhas, menos escolarizadas, talvez com algum problema mental. Pensando assim, estereotipadamente, é até possível também repensar preconceitos contra preconceituosos, e lembrar que quem tem preconceito também é um ser humano, e que as respostas ao preconceito não precisam escalar a intolerância. Se não praticaram a discriminação injusta, mas só expressaram pensamentos intolerantes, por exemplo, é justo que os preconceituosos percam seus empregos, sejam forçados a uma vida de privação, ou sejam vítimas de agressões físicas? Sendo o preconceito imoral, tudo a respeito dele deve ser também ilegal? Certamente uma sociedade em que tudo o que é imoral é também ilegal é um Estado policial opressivo. Entendendo melhor o preconceito, ficamos mais preparados para agir contra ele da forma mais eficaz e humana, sem gritaria e sem pânico.

13th of October

Feministas radicais difamam a genética


O feminismo radical já é um dos principais propagadores de informações falsas sobre genética.

Há anos encontro, com crescente frequência, alegações de feministas radicais de que o cromossomo Y está desaparecendo (uma falsidade que surgiu na imprensa há algum tempo que não faz o menor sentido), que não passa de um cromossomo X reduzido. (Relembrando, o sexo é determinado geneticamente pela presença de dois XX em mulheres e XY em homens.) Tudo isso é para tentar dar fundamento científico a uma ideologia de supremacia de um sexo sobre outro, propagada em grupos fechados e em universidades. Uma ideologia tão cega e assustadora quanto as ideias de supremacia racial da época da eugenia: ainda bem que essas ideólogas não têm poder para fazer nada com suas ideias tolas.

O cromossomo Y se comporta em algumas partes como um cromossomo homólogo do X, ou seja, tem genes em comum com ele. Sendo assim há alguns genes com um alelo no X e outro no Y. Mas também há genes que só estão no cromossomo Y. Genes essenciais do desenvolvimento do organismo masculino, sem o qual a espécie estaria extinta. O Y tem também regiões não-codificadoras de proteínas, chamadas satélites, que são usadas para testes de paternidade e estudos históricos da linhagem paterna (como o DNA mitocondrial serve para estudos da linhagem materna).

O problema dessas feministas radicais não é só invencionice pseudocientífica sobre cromossomos sexuais: é de lógica. Se o cromossomo Y é apenas um X mutilado, e se isso faz dos homens um sexo inferior; que diremos de todas as mulheres em cujos tecidos um dos cromossomos X está quase completamente inativado e menos funcional que um cromossomo Y? Se mutilação de um X leva à masculinidade, a inativação de um X levaria as mulheres a serem mais masculinas que os homens, nessa pseudogenética maluca, e mais inferiores. É um caso argumentativo de tiro que sai pela culatra. Ao menos é um alívio cômico diante de uma ideologia assustadora.

CLEMENS, Samuel Langhorne (alias Mark Twain). 1883. Life on the Mississippi. p. 369 .
10th of December

Falta de cortesia como defesa para ideias frágeis


Alguns estão notando que está ficando “normal” entre certos tipos de ativismo atacar quem diz qualquer coisa que não interessa aos ativistas com palavras de baixo calão. Mandar tomar naquele lugar, chamar de todo tipo de nome criativo envolvendo sexo, habilidade mental, digestão e religião. Interessantemente, xingamentos religiosos estão em queda – eu por exemplo cresci numa cultura em que “excomungado” era um nome muito feio. Hoje no máximo é regionalismo mineiro.

Diz-se que certa vez o filósofo Ludwig Wittgenstein, segundo alguns relatos, num debate acalorado com Karl Popper, catou um atiçador de lareira e começou a balançá-lo ameaçadoramente no ar enquanto defendia algum ponto.* Talvez estivesse só sendo teatral ou distraído. Mas talvez estava perdendo a compostura, e não seria a primeira vez que filósofos originais, acostumados à disputa, caem nessa.

Quando se reage a algum ponto de vista discordante assim, talvez porque o interlocutor está sendo teimoso, primeiro está-se revelando uma faceta da nossa natureza de macaco pelado. Nenhuma quantidade de gritinhos de chimpanzé, que são a forma mais rudimentar das nossas respostas sarcásticas, ataques pessoais sem relevância e xingamentos, quando não brandimentos de atiçadores, serve para mostrar onde está a verdade na discussão. Mas o caso é que nós ainda temos que discutir com meta na verdade, mesmo se estamos mal equipados com nosso cérebro. Se os filósofos podem ser presa desse comportamento, as pessoas menos treinadas em investigar intelectualmente são ainda mais propensas, especialmente se estão no momento ouvindo insinuações sobre a mãe alugar o corpo (o efeito da irritação pode ser observado até em quem não vê nada de errado nisso).

Tudo isso é para dizer que há justificação para a civilidade. Mas as pessoas estão tão mal acostumadas com isso, acham tanto que debate tem meta em humilhação e triunfo de macaco contra macaco, que reclamam quando eu propositalmente faço um vídeo criticando a opinião do Olavo de Carvalho sobre evolução enquanto o chamo de “professor” (que é a profissão dele, mesmo que talvez seja mal conduzida).

Eu acho que às vezes a incivilidade é proposital. Ao irritar quem discorda, quem insulta pode estar tentando evitar que o insultado tenha naquele momento pleno acesso às melhores ferramentas de seu próprio cérebro, sendo dominado pelas amígdalas temporariamente porque sugeriram que ele introduza alguma coisa no ânus. Quem acredita em falsidades, portanto, tem interesse em ser mal educado e boca suja. É uma ferramenta que simplesmente funciona para transformar gente em babuíno.

_____

* Edmonds, David, and John Eidinow. Wittgenstein’s poker. Faber & Faber, 2014.

20th of September

A beleza é uma construção social ou temos bases biológicas para achar alguém bonito? Resposta a pergunta de leitor


Comece por partir o que você quer dizer com “beleza”. Atratividade facial e de corpos é algo que tem influência clara da biologia. Através das culturas as pessoas valorizam essas coisas de acordo com suas orientações sexuais e de acordo com os sinais de dimorfismo sexual da face e do corpo. Mulheres mais atraentes têm rostos delicados e uma razão entre cintura e quadril próxima de 0.7.* Homens mais atraentes têm rostos mais másculos e uma certa razão entre ombros e quadril (aquela história de “ombros largos”). Além, é claro, de outros sinais dimórficos claros como timbre da voz.**

Também vemos beleza em objetos e paisagens. O biólogo E. O. Wilson especula que a preferência estética por certo tipo de paisagem montanhosa com sinais de água disponível, que ele chama de “biofilia”, foi moldada pela seleção natural.*** Isso é difícil de confirmar. Mas dificilmente existe preferência ou comportamento com zero de herdabilidade, com nenhuma participação dos genes. Eles formam a arquitetura do nosso cérebro e a base sobre a qual as culturas trabalham. Na verdade, a descoberta de que não há comportamento sem influência dos genes, mesmo que pequena, é uma das maiores descobertas replicadas várias vezes na genética do comportamento.****

Muita gente gosta de apontar quadros antigos com pessoas gordas como prova de que a estética dos corpos é completamente contingente à cultura. Também estatuetas do Neolítico como a Vênus de Düsseldorf. Mas é perfeitamente possível que genes também interfiram de acordo com as condições ambientais em que tipo de corpo é considerado atraente. Até em bactérias alguns genes (especialmente em estruturas chamadas “operons”) mudam sua expressão em resposta a estímulos ambientais.

Não há um determinismo genético no sentido de um gene para cada preferência. Comportamentos nunca são influenciados por um único gene. Mas também não há determinismos culturais dessas coisas. Culturas não existem num vácuo divino acima da nossa natureza animal. Nós somos geneticamente programados para a cultura e culturalmente moldados na nossa biologia. Existe a natureza humana.

_____

* Referências:

Cunningham, Michael R., et al. “Their ideas of beauty are, on the whole, the same as ours”: Consistency and variability in the cross-cultural perception of female physical attractiveness.” Journal of Personality and Social Psychology 68.2 (1995): 261.

Singh, Devendra. “Adaptive significance of female physical attractiveness: role of waist-to-hip ratio.” Journal of personality and social psychology 65.2 (1993): 293.

** Referências:

Hughes, Susan M., and Gordon G. Gallup. “Sex differences in morphological predictors of sexual behavior: Shoulder to hip and waist to hip ratios.” Evolution and Human Behavior 24.3 (2003): 173-178.

Hughes, Susan M., Franco Dispenza, and Gordon G. Gallup. “Ratings of voice attractiveness predict sexual behavior and body configuration.” Evolution and Human Behavior 25.5 (2004): 295-304.

*** Wilson, Edward O. Biophilia. Harvard University Press, 1984.

**** 5b23d9f2-ec60-44dd-878e-6213e219e84a1

Leia também:

31st of January

Padrão de beleza não é (só) “construção social”


Decepcionando quem ignora ciência por boas intenções: genética do que é sexualmente atraente:

“A preferência pela atratividade facial é parte da herança biológica, em vez da herança cultural; essa hipótese é amparada por estudos mostrando ao menos concordância parcial entre diferentes culturas sobre o que é atraente numa face [1,2], e por estudos mostrando que a tendência de preferir faces atraentes emerge cedo no desenvolvimento [3]. Homens com um padrão genético XY, independente da orientação ser hetero ou homossexual, preferem rostos (femininos ou masculinos, respectivamente) com dimorfismo acentuado [4]. Essa evidência foi demonstrada num ambiente experimental de transformações [5], onde homens heterossexuais e homossexuais escolheram imagens de rostos femininos ou masculinos com características mais feminilizadas ou masculinizadas.”

Traduzido de:
Jannini, E. A., Burri, A., Jern, P., & Novelli, G. (2015). Genetics of Human Sexual Behavior: Where We Are, Where We Are Going. Sexual Medicine Reviews, 3(2), 65–77. http://doi.org/10.1002/smrj.46

Referências citadas no trecho:
1 – Langlois JH, Kalakanis L, Rubenstein AJ, Larson A, Hallam
M, Smoot M. Maxims or myths of beauty? A meta-analytic
and theoretical review. Psychol Bull 2000;126:390–423.
2 – Perrett DI, May KA, Yoshikawa S. Facial shape and judgements
of female attractiveness. Nature 1994;368:239–42.
3 – Rubenstein AJ, Kalakanis L, Langlois JH. Infant preferences
for attractive faces: A cognitive explanation. Dev Psychol
1999;35:848–55.
4 – Ciocca G, Limoncin E, Cellerino A, Fisher AD, Gravina GL,
Carosa E, Mollaioli D, Valenzano DR, Mennucci A, Bandini
E, Di Stasi SM, Maggi M, Lenzi A, Jannini EA. Gender
identity rather than sexual orientation impacts on facial preferences.
J Sex Med 2014;11:2500–7.
5 – Perrett DI, Lee KJ, Penton-Voak I, Rowland D, Yoshikawa S,
Burt DM, Henzi SP, Castles DL, Akamatsu S. Effects of
sexual dimorphism on facial attractiveness. Nature
1998;394:884–7.

26th of January

Santos Morais Por que a santidade moral não é desejável


por Susan Wolf 

 Não sei se existem santos morais. Mas se existem, fico feliz por nem eu nem aqueles com quem mais me preocupo estarmos entre eles. Por santo moral estou me referindo a uma pessoa cuja totalidade de ações é tão moralmente boa quanto possível, isto é, uma pessoa que é tão moralmente digna quanto se pode ser. Embora em breve eu vá reconhecer a variedade de tipos de pessoas que poderiam satisfazer essa descrição, parece-me que nenhum desses tipos serve como um ideal pessoal inequivocamente convincente. Em outras palavras, creio que a perfeição moral, no sentido de santidade moral, não constitui um modelo de bem-estar pessoal pelo qual seria particularmente racional ou bom ou desejável para um ser humano lutar.

Fora do contexto da discussão moral, isso vai parecer para muitos uma coisa óbvia. Mas, dentro desse contexto, a conclusão, se for aceita, será aceita com algum desconforto. Pois, dentro desse contexto, geralmente é assumido que se deve ser tão moralmente bom quanto possível e que os limites que há para a impressão da moralidade sobre nós são delimitados por facetas da natureza humana das quais não devemos nos orgulhar. Se, como eu acredito, os ideais que são deriváveis do senso comum e das teorias morais filosoficamente populares não apoiam essas presunções, então algo tem de mudar. Ou precisamos mudar nossas teorias morais de formas que as façam gerar ideais mais palatáveis, ou, como discutirei, precisamos mudar nossa concepção do que está envolvido na afirmação de uma teoria moral. (…)

[O santo moral] terá os valores morais comuns em um grau incomum. Será paciente, ponderado, equilibrado, hospitaleiro, caridoso tanto no pensamento quanto na ação. Ele terá grande relutância em fazer julgamentos negativos de outras pessoas. Terá cuidado para não favorecer algumas pessoas sobre outras com base nas propriedades que elas não poderiam não ter.

[S]e o santo moral está devotando todo o seu tempo a alimentar os famintos, curar os enfermos e arrecadar dinheiro para a Oxfam, então necessariamente ele não está lendo romances vitorianos, tocando oboé, ou melhorando suas habilidades no tênis. Embora nenhum desses interesses ou gostos na categoria contendo essas atividades possa ser alegado como sendo um elemento necessário numa vida bem vivida, uma vida na qual nenhum desses possíveis aspectos de caráter são desenvolvidos pode parecer uma vida estranhamente estéril. (…)

Por exemplo, uma inteligência cínica ou sarcástica, ou um senso de humor que aprecia esse tipo de inteligência nos outros, requer que se tome uma atitude de resignação e pessimismo para com os defeitos e vícios a serem encontrados no mundo. Um santo moral, por outro lado, tem motivo para tomar uma atitude oposta a isso – ele deve tentar ver o melhor nas pessoas, dar-lhes o benefício da dúvida tanto quanto possível, tentar melhorar situações desagradáveis enquanto houver qualquer esperança de sucesso.

Um interesse em algo como a cozinha gourmet será, por razões diferentes, difícil para um santo moral aceitar de bom grado. Pois parece-me que nenhum argumento plausível pode justificar o uso de recursos humanos envolvidos em produzir um paté de canard en croute contra fins beneficientes alternativos possíveis para os quais esses recursos poderiam ser aplicados. Se há uma justificação para a instituição da alta cozinha, é uma que depende da decisão de não justificar cada atividade contra alternativas moralmente benéficas, e essa é uma decisão que um santo moral jamais faria. (…)

Um santo moral precisará ser muito, muito gentil. É importante que ele não seja ofensivo. A preocupação é que, como resultado, ele terá de ser enfadonho, ou sem humor ou sem graça. (…)

Parece que, quando observamos nossos ideais para pessoas que atingem variedades não-morais de excelência pessoal em conjunto com ou coloridas por alguma versão de alta tonalidade moral, procuramos nos nossos baluartes de excelência moral por pessoas cujos feitos morais ocorrem em conjunto com ou são coloridos por alguns interesses ou características que têm uma baixa tonalidade moral. Em outras palavras, parece que há um limite para quanta moralidade podemos aguentar.

***

Leia o artigo completo, em inglês, em:
Wolf, Susan. “Moral saints.” The Journal of Philosophy (1982): 419-439.
http://philosophyfaculty.ucsd.edu/faculty/rarneson/Courses/susanwolfessay1982.pdf

21st of January

O que é “construção social”?


“Geralmente, dizer que algo é construído é dizer que não estava ali simplesmente para ser encontrado ou descoberto, mas que foi edificado, trazido à existência pela atividade intencional de alguma pessoa em algum tempo. E dizer que algo foi socialmente construído é acrescentar que foi edificado por uma sociedade, por um grupo de pessoas organizadas de certa forma, com certos valores, interesses e necessidades. Há três maneiras importantes com que um teórico da construção social no qual estamos aqui interessados se afasta ou acrescenta a essa noção perfeitamente comum de construção social.

Primeiro, no sentido comum, são tipicamente coisas ou objetos que são construídos, como casas ou cadeiras; mas nosso teórico não está tão interessado na construção de coisas, mas na construção de fatos – no fato de que algum pedaço de metal é uma moeda, em vez de no pedaço de metal em si.

Segundo, nosso teórico da construção social não está interessado em casos em que, por uma questão contingente, algum fato é trazido à existência pelas atividades intencionais das pessoas, mas apenas em casos em que tais fatos somente poderiam ter sido trazidos à existência dessa forma. No sentido técnico pretendido, em outras palavras, é preciso ser constitutivo de algum dado fato que ele foi criado por uma sociedade se é para chamá-lo de “socialmente construído”. Por exemplo, no sentido comum, se um grupo de pessoas se unem para mover um pedregulho pesado para o topo de uma colina, nós teríamos de dizer que a posição do pedregulho no topo da colina é um fato socialmente construído. No sentido técnico mais exigente do teórico, a posição do pedregulho no topo da colina não é um fato socialmente construído, pois é possível que pudesse ter acontecido puramente através de forças naturais. Por outro lado, que um pedaço de papel seja dinheiro é um fato socialmente construído no sentido técnico, pois é necessariamente verdadeiro que só poderia ter se tornado dinheiro ao ser usado de certas formas por seres humanos organizados como grupo social.

Finalmente, uma alegação típica de construção social envolverá não meramente a alegação de que um fato em particular foi edificado por um grupo social, mas que foi construído de tal forma que reflete suas necessidades e interesses contingentes, e assim, se não tivessem essas necessidades e interesses, poderiam não ter construído esse fato. A noção comum de um fato construído é perfeitamente compatível com a ideia de que uma construção em particular foi forçada, que nós não tínhamos escolha exceto construí-lo. De acordo com Kant, por exemplo, o mundo que experimentamos é construído por nossas mentes para obedecer certas leis fundamentais, entre elas as leis da geometria e da aritmética. Mas Kant não achava que éramos livres para fazer diferente. Pelo contrário, ele pensava que qualquer mente consciente estava limitada a construir um mundo que obedecesse a essas leis.

O teórico da construção social não está interessado, tipicamente, em tais construções obrigatórias. Ele quer enfatizar a contingência dos fatos que construímos, mostrar que eles não precisavam ser assim se tivéssemos feito outra escolha. No sentido técnico pretendido, então, um fato é socialmente construído se e apenas se for necessariamente verdadeiro que ele poderia somente ser obtido através de ações contingentes de um grupo social.”

Boghossian, Paul. Fear of knowledge: Against Relativism and Constructivism. Oxford University Press, 2006. Sinopse em português na revista Crítica: http://criticanarede.com/medo.html

Coisas que acadêmicos das humanidades alegam ser “construção social” e eu duvido:
– Gênero e identidade de gênero.
– Orientação sexual.
– Gostos pessoais quanto a quem o indivíduo considera sexualmente atraente.
– (Padrões de) Beleza (tanto a mais abstrata, de obras de arte e paisagens, quanto a mais humana, de rostos e corpos).

11th of November

Reducionismo: só o meu pode


Alguns físicos acreditam que tudo pode ser reduzido aos termos teóricos da física, como onda, partícula, supercordas ou similares. Não se trata exatamente de afirmar que tudo o que existe no fundo é feito disso, mas de alegar que tudo o que existe pode ser entendido falando apenas disso. Não por acaso, biólogos se incomodam: como redescrever a teoria da evolução em termos de ondas, partículas, etc., sem falar em organismos, populações, genes, ambientes? Não parece possível, e se for possível não parece útil. Seres vivos são feitos das coisas que a física descreve, mas para entender como mudam com o tempo é preciso mencionar algo mais que simplesmente as coisas que a física descreve, e quem faz isso é a biologia. O mesmo vale para a sociologia, que precisa falar em sociedades, indivíduos, relações sociais.

Não é difícil ver por que esse reducionismo teórico é um reducionismo ganancioso e errado, porque atrapalha em vez de ajudar na construção de conhecimentos. É claro que isso não significa que biólogos e sociólogos podem sair inventando qualquer coisa, inclusive conceitos que contrariam os conceitos da física.

Na academia, o reducionismo ganancioso desses alguns físicos (há filósofos que também o defendem) é majoritariamente rejeitado. Mas há outro reducionismo teórico ganancioso que, em alguns círculos, é aceito com louvor, ensinado, e vira moeda corrente no vocabulário de muitas pessoas.

Estamos falando do reducionismo ganancioso nascido entre estudiosos de crítica literária. Todo tipo de conhecimento descrevem como “narrativa”. A teoria da evolução é apenas uma “narrativa”. Quando não falam em narrativa, falam em “linguagem”. Se um físico diz uma coisa e um sociólogo diz outra oposta, não há como decidir quem está certo, estão falando “linguagens” diferentes. É coincidência que é justamente quem trabalha com livros e romances quem costuma tentar reduzir gananciosamente (e erroneamente) as coisas a “narrativas” e “linguagens”? Claro que não, assim como não é coincidência que boa parte de quem quer descrever tudo em função de termos teóricos da física é físico.

O paroquialismo de alguns físicos é perfeitamente análogo ao paroquialismo de alguns linguistas e outros especialistas das letras.

Está na hora de rejeitar outro reducionismo ganancioso: o reducionismo linguístico/narrativo presente na obra de gente como Michel Foucault e Judith Butler.

_____

P.S.: “Reducionismo” de modo algum é uma coisa ruim. É uma coisa boa, em termos de conhecimento, que tenhamos conseguido reduzir várias das funções do rim aos seus néfrons. É importante saber disso: que algumas propriedades de um fenômeno qualquer podem ser compreendidas pela redução a seus componentes. Mas reducionismo ganancioso é outra coisa: é aquele reducionismo sem justificação, que quer abraçar o fenômeno sem razão. Daniel Dennett diz que o behaviorismo radical é “reducionista ganancioso” com fenômenos psicológicos, por exemplo. Foi dele que peguei o termo. Há também reducionismo teórico (do qual tratei aqui) e reducionismo ontológico (dizer que seres vivos nada mais são que organizações complicadas de átomos é um reducionismo ontológico e está provavelmente correto).

1st of November

Sexo e Gênero


Assumir que há uma separação definitiva entre sexo biológico e gênero é acreditar erroneamente que uma coisa é 100% genes e outra é 100% ambiente cultural.
Eu não vejo muito sentido na maior parte das afirmações de influência cultural sobre o sexo biológico. Mas há um sentido em que elas poderiam ter um papel: o sentido da pressão seletiva da cultura ao longo dos últimos milênios sobre as bases biológicas do sexo. Essa influência cultural já foi convincentemente estabelecida para coisas como digestão da lactose e do amido – a frequência de alelos associados a isso nas populações humanas dependende da história milenar da cultura da pecuária e da agricultura / coletagem seletiva de raízes e tubérculos. Seria no entanto muito especulativo no momento dizer que a cultura influenciou nas características primárias e secundárias apresentadas por diferentes populações humanas. Nós ainda não sabemos se, por exemplo, o quão peludos os homens são em cada população (uma característica sexual secundária) é resultado de processos casuais (como deriva genética) ou de seleções, incluída entre elas a seleção cultural. Tudo o que estou dizendo portanto é que conforme nossos conhecimentos de evolução gene-cultura no momento, a possibilidade da cultura ter influenciado parte do que compõe o sexo biológico é real. O mesmo que eu disse sobre pelos masculinos pode ser dito sobre tamanho médio de seios, tamanho de pés, formato do rosto, altura, tamanho do pênis, pelos femininos. Há pesquisa sugerindo que nos últimos 50 anos as mulheres americanas foram selecionadas em direção a corpos de menor estatura e mais robustos, o que poderia ser uma preferência cultural. Dado que a pesquisa da Suzana Herculano-Houzel mostra que sem a cultura do fogo nosso cérebro nunca teria o volume e a demanda energética que tem hoje, há bons motivos para desconfiar que há cultura inscrita no sexo biológico, já que a influência da cultura vai tão fundo na natureza humana.
Portanto, não estão totalmente errados aqueles que vêem cultura no sexo biológico. Mas o problema é que exageram o papel da cultura e usam tradições intelectuais anticiência, muitas vezes.
E gênero? Podemos concordar que enquanto sexo está “entre as pernas” (ignorando as características secundárias), gênero está “entre as orelhas”. Aqui novamente o problema é exagerar o papel da cultura ou o papel da biologia. Quem exagera o papel da biologia (na verdade de uma biologia do senso comum distante da pesquisa de ponta) acha que não é possível existir homens nascidos com vaginas e mulheres nascidas com pênis, e isso está errado. Pesquisas iniciais com núcleos do hipotálamo sugerem que isso é não apenas possível como provável dependendo da base genética do feto e de seu ambiente hormonal dentro do útero e nos primeiros meses fora dele. Apesar de tentativas tacanhas de negar as pesquisas, há muita evidência acumulada de diferenças neurobiológicas e comportamentais entre homens e mulheres. Bebês recém-nascidos, cuja mente não se desenvolveu o suficiente para absorver informações culturais como a língua, já apresentam diferenças. O próximo passo é ver se os bebês que apresentam comportamento atípico para seu sexo nessa fase crescem mais tarde com maior probabilidade de serem gays ou transsexuais. Eu apostaria minhas fichas que sim.
Como eu disse em outras oportunidades, somos seres culturalmente moldados em nossa biologia e biologicamente moldados para a cultura. Alegar sem critério nenhum que uma dada característica é “construção social”, ignorando esse fato, é retroceder o conhecimento, não fazê-lo avançar.