30th of November

Por que ‘teorias’ pós-modernas, ‘pós-coloniais’ e ‘críticas’ das humanas são falsas ou fatalmente defeituosas


Neste texto, apresento as principais ideias por trás de ‘teorias’ (sic) pós-modernas, ‘críticas’ (sic) e ‘pós-coloniais’ (sic) que tomaram as humanidades, como mostradas resumidamente por Connor Wood nos parágrafos numerados; e digo por que são falsas ou fatalmente defeituosas.

1 ) “O conhecimento e a verdade são na maior parte socialmente construídos, não descobertos objetivamente.”

O defeito mais evidente desse tipo de relativismo epistemológico é que ele instantaneamente se volta contra si mesmo: se o que está sendo sugerido é que a verdade depende da base cultural (que há alguma afirmação sobre o mundo natural, por exemplo, que seja ao mesmo tempo “verdadeira para americanos” e “falsa para brasileiros”, num sentido forte), essa sugestão também está sujeita a esses grilhões: o formulador do relativismo só está certo relativamente à sua cultura pós-moderna, ou universitária, ou americana; e errado nas outras culturas que rejeitam o relativismo. No fim das contas, há uma obrigação intelectual de avaliar a verdade independente das culturas que o relativismo cultural apenas tenta adiar.

Há, no entanto, algumas vias de argumentação que podem deixar uma sensação de falta de saciedade nessa refutação por recursão (ver “Medo do Conhecimento”, de Paul Boghossian). Mas não tem problema: há conhecimentos, ou hipóteses condutivas ao conhecimento, que não dependem da cultura de forma alguma.

Esta semana foi evidenciado, por exemplo, que homens conhecem a física do lançamento de objetos instintivamente, melhor que as mulheres. No ano passado, outro estudo mostrou que mulheres são geneticamente melhores que os homens em conhecer quais são as verdadeiras emoções das pessoas por trás das expressões faciais. Portanto, há conhecimentos com um fundo inato, completamente independente da cultura. Ou, para definições alternativas de “conhecimento”: há tendências de formar hipóteses mais ou menos prováveis de serem verdadeiras a depender da genética da pessoa que as formula.

Alguém pode responder que meus exemplos não servem, pois foi dito que “na maior parte” o conhecimento e a verdade são socialmente construídos, não que são completamente assim. Aqui o problema é a ambiguidade de “construção social”. O sentido mais brando de construção social é que, por exemplo, se outra cultura tivesse descoberto a teoria da evolução pela seleção natural, não a teria descrito exatamente com os mesmos termos, com o mesmo estilo, ou talvez até com a mesma unidade de seleção escolhidos por Darwin e a comunidade moderna de biólogos. O sentido mais radical, e presumivelmente preferido pelos construtivistas por não ser apenas um truísmo enfadonho, é que, se essa outra cultura tivesse observado as espécies com o mesmo afinco, poderia ter inventado uma teoria com uma espinha dorsal totalmente diferente da de Darwin, e com o mesmo direito de se reivindicar verdadeira.

Os contrutivistas sociais alternam entre o sentido brando e o radical de “construção social” numa estratégia desonesta chamada de “mota e terreno” (motte and bailey) por Nicholas Shackel, como divulguei aqui. Graças a essa estratégia de abuso da vagueza, parecem profundos e revolucionários falando coisas que na verdade são banais, ou então dizem coisas revolucionárias que, quando mostradas falsas, alegam que eram na verdade as banalidades de que ninguém discordaria.

Então, basta pressionar construtivistas para que esclareçam exatamente o que querem dizer, e logo se notará que é nada menos que um absurdo a alegação de que a constante de Planck pode ser uma coisa para chineses e outra diferente e igualmente verdadeira para indianos. É importante pedir exemplos dos conhecimentos, dignos do nome, ou das verdades que são claramente “socialmente construídas”, e daí destilar que sentido conveniente de “construção social” está sendo usado naquele momento. A falta de exemplos muitas vezes denuncia a estratégia de mota-e-terreno em ação.

2) “O que acreditamos ser ‘verdade’ é em grande parte um resultado do poder social: quem o tem, quem é oprimido por ele, [e] como ele tem influência sobre quais mensagens serão ouvidas.”

Essa é uma formulação mais moderada da afirmação (também estrategicamente ambígua) de Foucault de que verdade é poder. O sentido banal disso é que poder pode ser obtido descobrindo verdades. O radical é que se estabelece forçosamente o que é verdade pela via do poder e que o que é considerado verdade é apenas resultado de um bullying de autoridades. O sentido radical também se volta contra si mesmo: afirmar que a verdade é estabelecida pelo poder é algo que é afirmado em função do poder? Se Foucault tinha poder, “verdade é poder” é verdadeiro, e, se Foucault era um descamisado, “verdade é poder” é falso? Enxergar verdade e poder como coisas diferentes tem muito mais plausibilidade. Já no sentido banal, alguns exemplos darão nuance e esvaziarão interesse na tese.

Tomemos, por exemplo, a descoberta de que o escorbuto era resultado de uma dieta pobre em frutas cítricas séculos atrás: sendo uma das primeiras nações que obtiveram acesso a esse conhecimento, os britânicos se tornaram um pouco mais poderosos por causa dele nos mares. Uma quantidade de poder foi derivada de um conhecimento, como muitas vezes ocorre. Há muitos conhecimentos que circulam, no entanto, sem darem poder mais a uns que a outros, como é hoje o caso desse mesmo conhecimento sobre o escorbuto num mundo com abundância de frutas cítricas. O fato de esse conhecimento ter deflacionado o seu valor de poder em alguns séculos em nada toca o seu valor de verdade. Acreditamos que escorbuto é causado por deficiência de vitamina C porque é verdade que escorbuto é causado por deficiência de vitamina C, não porque isso dá poder ou é favorecido pelo poder.

O ideal de Kant de nos esclarecermos sobre muitas áreas diferentes é algo meio ingênuo, pois subestima o real tamanho do corpo de conhecimento de cada área e a real dificuldade de se esclarecer sobre cada uma delas. Nós dependemos de autoridades, queiramos ou não, nas áreas em que não temos tempo ou interesse de nos aplicarmos à altura do ideal iluminista. Nesse sentido, é verdade que muito do que sabemos vem do “poder”: o poder das autoridades sobre algum assunto. Mas, como mostra a resistência de negadores de teorias científicas, o poder dessas autoridades muitas vezes não é suficiente para que muitos acreditem que as suas teorias são verdadeiras. Há diferentes poderes, alguns derivam de notoriedade originada na competência, outros derivam de articulação política, voto, etc. São poderes substancialmente diferentes, e ainda assim nós temos na maior parte dos casos a opção de deixar de depender do poder das autoridades e avaliar por nós mesmos a verdade do que estão dizendo.

O problema da afirmação, além de levar a interpretações que são verdadeiras mas banais ou radicais mas falsas, é que parece ignorar que certos poderes existem em função da verdade, enquanto outros não; e que poder e verdade são coisas independentes: muitas pessoas acreditam, com base em autoridade, em coisas que são falsas. Há aqui uma questão empírica: quanto do que uma pessoa ou sociedade acredita é verdadeiro? Quanto disso ela sabe por análise, e quanto ela acredita com base em autoridades (por influência do poder)? Ao fazer essa investigação empírica, o construtivista se vê obrigado a esclarecer o que está dizendo para uma interpretação banal (devido à insustentabilidade da interpretação radical e mais interessante), e mais: também terá de diferenciar crenças verdadeiras de crenças falsas, não apenas crenças adotadas por força do poder e crenças adotadas por outros motivos. Isso dilui totalmente os interesses radicais por trás da máxima.

3) “O poder geralmente é opressivo e resultado de interesse próprio (e, implicitamente, de um jogo de soma zero).”

É preciso enfatizar a vagueza (proposital?) do termo “poder”, aqui. Não apenas por ignorar que há diferentes formas de ter poder (definido grosso modo como a liberdade de fazer o que se quer sem limitações impostas por outrem), mas também por ignorar que, na maior parte, há tanto interesses próprios e jogos de soma zero quanto consideração de interesses alheios e jogos de mútuo benefício no que as pessoas fazem com o poder. Reduzir o uso do poder a geralmente apenas uma coisa é uma visão demasiado cínica dos seres humanos. E falsa. Aqui, recomendo o livro “O Elefante no Cérebro”, de Simler e Hanson, para dar uma visão nuançada e mais abrangente das diversas motivações, tanto as nobres quanto as escusas, por trás do que as pessoas fazem. Eu escrevo textos para obter reconhecimento, mas também porque me importo se as pessoas acreditam em coisas falsas e danosas. As pessoas e as sociedades são complexas o suficiente para abrigar os dois conjuntos de motivações; e, mais uma vez, é uma questão empírica se numa pessoa ou sociedade há mais motivações de um tipo do que do outro, não é algo que o construtivista pode simplesmente estabelecer do alto da poltrona.

4) “Portanto, a maior parte das alegações de verdade supostamente objetiva na verdade são jogos de poder, ou estratégias para legitimar arranjos sociais particulares.”

Com o risco de ser repetitivo: é mais uma instância de uma visão cínica, pouco relacionada a coisas que sabemos concretamente sobre as pessoas. É uma asserção que pode ser voltada contra si mesma, pois pode ser objetiva ou subjetiva como qualquer outra afirmação e obrigará qualquer pessoa intelectualmente honesta a recorrer a métodos para aferir objetividade ou subjetividade, largando portanto compromisso com a forma radical da afirmação. E, finalmente, há um lado empírico que os construtivistas geralmente se recusam a tocar para dar justificação às suas alegações. Mas cínicos geralmente não se preocupam com esse tipo de coisa. Cínicos não se importam com a verdade, há algum grau de autodestruição nisso (como se vê na derrubada de cada uma das formas radicais e interessantes desses enunciados por via da recursão), e, como dizem os anglófonos, “misery loves company”, daí se afirma que todos são igualmente cínicos.

Enquanto não é difícil mostrar o sucesso de valores epistêmicos como objetividade, imparcialidade e apreço pela verdade até em intervalos curtos como os últimos três anos; é difícil fazer o mesmo em benefício de relativismos e radicalismos políticos por trás de áreas que adotam pós-modernismo, “teoria” “crítica” e “estudos pós-coloniais”. Não nos deram nada além de mais cínicos afirmando coisas sem rigor analítico ou empírico neste mundo.

Referências

Boghossian, Paul. Fear of Knowledge: Against Relativism and Constructivism. Clarendon Press, 2007.

Lombardo, Michael P., and Robert O. Deaner. “On The Evolution of The Sex Differences in Throwing: Throwing Is a Male Adaptation in Humans.” The Quarterly Review of Biology 93, no. 2 (May 22, 2018): 91–119. https://doi.org/10.1086/698225.

Shackel, Nicholas. “The Vacuity of Postmodernist Methodology.” Metaphilosophy 36, no. 3 (Abril 2005): 295–320. https://doi.org/10.1111/j.1467-9973.2005.00370.x.

Simler, Kevin, and Robin Hanson. The Elephant in the Brain: Hidden Motives in Everyday Life. Oxford University Press, 2017.

Warrier, Varun, K. Grasby, F. Uzefovsky, R. Toro, P. Smith, Bhismadev Chakrabarti, J. Khadake, et al. “Genome-Wide Meta-Analysis of Cognitive Empathy: Heritability, and Correlates with Sex, Neuropsychiatric Conditions and Cognition,” May 16, 2017. https://doi.org/10.17863/CAM.9675.

Wood, Connor. “Why Postmodernism and Science Can’t Stand Each Other.” Science On Religion (blog), November 29, 2018. https://www.patheos.com/blogs/scienceonreligion/2018/11/postmodernism-science-cant-stand-each-other/.

12th of November

Como descobrir se um comportamento “é genético”?


Quer saber se há genética num comportamento? É surpreendentemente fácil.

Primeiro, amostre aleatoriamente as pessoas, anotando genótipo e ambiente.

Digamos que há três genótipos e três ambientes, como nesse slide de uma palestra minha; e que o comportamento é contável. Pode ser, por exemplo, quantas vezes a pessoa rói as unhas num mês. Pode ser quantas vezes ao dia pensa em estrangular a sogra. Não importa.

Agora precisamos só de mais dois conceitos estatísticos bem básicos. Um é a média, que todo mundo sabe como calcular. A média é a soma das medidas da característica de interesse de cada elemento de um determinado grupo dividida pelo número de elementos no grupo. Como se vê no slide, vamos precisar de médias parciais, agrupadas por genótipo e ambiente, e da média total.

O segundo conceito, um pouco menos conhecido mas não menos importante que a média, é a variância. Enquanto a média mostra uma “tendência central” nos dados, a variância foi inventada para se ter uma medida de como os dados se espalham em torno dessa média. Então você vai precisar literalmente calcular a distância (ou desvio) de cada dado em relação à média. Então subtraia a média de cada elemento: elemento – média. Você vai notar que uns elementos são maiores e outros menores que a média, então algumas dessas distâncias serão negativas, e outras positivas. Tudo o que nos interessa é o número absoluto de distância do elemento à média, não se é negativo ou positivo. Para “nivelar” todas as distâncias, portanto, vamos elevar todas ao quadrado, o que elimina o problema de algumas distâncias serem negativas. Somando todos esses quadrados, ainda precisamos calibrar o cálculo pelo número de elementos, dividindo a soma por esse número como fazemos com a média. Por uma tecnicalidade estatística que não vem ao caso explicar agora, subtraímos 1 desse total de elementos antes de usá-lo no denominador da fração.

Como podemos fazer com a média, também podemos calcular “variâncias parciais”, uma genética e outra ambiental. Para fazer isso, repetimos o procedimento que usamos acima para calcular variância total do fenótipo, mas em vez de subtrair a média total dos elementos, vamos subtraí-la das médias parciais genéticas e depois das médias parciais ambientais (médias das linhas e das colunas).

Temos agora três variâncias: uma (Vp) nos diz o quanto os dados variam em torno da média total, outra (Vg) nos diz o quanto as médias dos estados genéticos (genótipos) variam em relação à média total; e outra (Ve) o quanto as médias para cada ambiente variam em torno da média total.

Como todas as três medidas vêm dos mesmos dados, elas têm uma relação muito simples: Vp = Vg + Ve.

Qual é a unidade desses valores? É o quadrado da contagem do fenótipo comportamental do nosso interesse (“estrangulamentos imaginários de sogra ao quadrado”). Não é uma unidade que diz por si só alguma coisa interessante sobre o comportamento. No fundo, essas estatísticas são só formas didáticas de entender o que os dados estão mostrando, porque nós somos seres burros demais para perceber isso só olhando para eles.

Mas não importa a unidade de medida se for possível expressar como uma fração: se você dividir a variância genética (Vg) pela variância total (Vp), obterá uma fração interessante, que é o quanto da variância total pode ser atribuído à genética. A essa fração, que é um número entre 0 e 1 facilmente convertido em uma porcentagem (x100), nós damos o nome de “herdabilidade”.

Como há formas mais detalhadas de calcular a herdabilidade, esse modo de calcular dá numa herdabilidade “em sentido amplo”. Podemos pensar na herdabilidade como uma ferramenta de prospecção inicial da participação genética numa característica que varie entre indivíduos de uma dada população. Note que é importante que varie, pois a herdabilidade é totalmente baseada numa medida da dispersão (variação) dos dados, que é a variância.

Por isso, quando você pergunta a um geneticista “isso é genético?”, melhor seria perguntar “quanto de variação genética nas prováveis causas dessa característica existe?” O número provavelmente já existe. Para o QI, a herdabilidade é de 50% a 80% (surpreendentemente, a herdabilidade do QI aumenta com a idade, ou seja, os indivíduos dependem mais da genética, não menos, nas habilidades cognitivas quando ficam mais velhos).

Um resultado já replicado à exaustão na genética do comportamento é que a herdabilidade nunca é 100%, mas também nunca é 0%. Não existe comportamento completamente livre de influência genética. O geneticista Robert Plomin até desafia os que negam a produzir exemplo de comportamento sem componente genético.

Já a afirmação de que determinado comportamento humano é “construção social”… qual é o método mesmo?