26th of November

“Xadrez Verbal” me faz ataques pessoais por causa de uma crítica construtiva


Ganhei de presente um texto no Xadrez Verbal, cuja metade é dedicada a me fazer ataques pessoais. Estou lisonjeado, mas não vou responder na mesma moeda, vou explicar o que houve, para quem quer saber e vem me perguntar (geralmente incrédulo) por que estou sendo tão “inflexível” e “chato”.

O Nerdologia versão história fez um vídeo sobre a revolução comunista de 1917. Eu elogiei o vídeo (pois é), mas disse que caberia chamar o que houve em outubro daquele ano (novembro no atual calendário) de “golpe bolchevique”, ou “golpe de outubro”. Afinal, foi uma manobra de um partido que tinha ganhado minoria de votos, os bolcheviques, planejada a portas fechadas.

Eu passei referências que chamam o golpe bolchevique de golpe, e ainda passei que o termo utilizado pelos próprios bolcheviques se traduz melhor como “golpe de outubro”, e que curadores do Hermitage Museum em São Petersburgo chamam também de golpe (exatamente com esse mesmo argumento de que os próprios bolcheviques chamavam assim, e que a tradução para “revolução de outubro” é mais produto de propaganda soviética do passado do que de um interesse em traduzir os termos de forma precisa – afinal, existe uma palavra cognata para “revolução” na língua russa, e não foi a usada pelos bolcheviques).

Meu outro ponto foi sobre o uso da língua como soberano na determinação do sentido das palavras. Remova os atores e pergunte ao falante do português comum que nome tem uma tomada de poder planejada a portas fechadas por um partido que obteve minoria de votos. “Golpe” será um dos termos usados. “Revolução”, dificilmente.

Dado tudo isso, é muito de se estranhar que historiadores façam escolhas de termos técnicos (em última análise sempre arbitrárias e criticáveis, em biologia por exemplo “evolução” foi uma péssima escolha de termo) que transformem um evento que falantes da língua chamariam de golpe em “outra coisa” (ou seja, criariam confusão abusando da língua desnecessariamente para fazer jargão acadêmico). Eu não planejo tentar mudar o termo “revolução” no caso para “golpe” no jargão já estabelecido, assim como não planejo que “evolução” em biologia volte a ser “descendência com modificação”. Tentar isso seria enxugar gelo. Mas critico essa escolha de termos, especialmente quando “revolução” tem uma conotação mais positiva que “golpe”. Parece uma observação importante, dado que o evento histórico em questão iniciou na prática uma cadeia de eventos (inclusive intelectuais) que culminou na morte de mais de 90 milhões de pessoas ao redor do mundo.

Finalmente, outro ponto meu é que, se formos seguir os conceitos apresentados à risca, fica evidente que os termos escolhidos para outros eventos históricos não estão em conformidade com eles. A definição de revolução do Xadrez Verbal (que ele alega ser “consensual” – me pergunto se historiadores liberais foram consultados) diz, até onde me lembro, que o sistema de governo teria de mudar substancialmente. Primeiro, nenhum critério realmente objetivo para quantificar o quanto mudou é dado. Segundo, quando houve a redemocratização do leste europeu pós-União Soviética, até onde sei ninguém chamou aquilo de revolução mesmo que o sistema tenha mudado dramaticamente.

Por que, em vez de se aferrar a jargão acadêmico, não reconhecer que o uso dos termos pelos falantes de uma língua é soberano em determinar o significado dos termos fora da academia? Por que divulgadores de conhecimento ignorariam o conflito entre definições acadêmicas e definições populares (com uso bem mais frequente) de certas palavras?

Finalmente, para concluir, eu de fato aleguei que isso tudo demonstra um viés político do autor do vídeo, e ainda acredito nisso. Se só uma minoria de historiadores usa “golpe bolchevique”, o fato de que são minoria não é demonstração de que estão errados. Na minha percepção, é uma demonstração de que respeitam um pouco mais como as pessoas comuns usam a língua fora da torre de marfim.

Onde eu errei? A minha alegação de que o termo “bolchevique” era uma “mentira” porque significa “maioria” e obtiveram uma minoria de votos na ocasião parece presumir que eu sei que inventaram o termo com propósitos escusos. Mas o termo é anterior e vem de uma ocasião em que obtiveram apoio majoritário. Dá para ajustar o que eu disse para: “soa mentiroso que um partido que obtém minoria de votos chame a si mesmo de ‘maioria'”. Pronto, problema resolvido. Outro ponto é que eu chamei a instituição formada pelos votos logo antes do golpe de parlamento, quando isso é tecnicamente não verdadeiro, sendo a instituição mais similar a uma assembleia constituinte ou coisa do tipo. Tudo bem, eu observarei meu uso do termo “parlamento” de uma forma mais estrita da próxima vez.

Outra discussão é se a “revolução” foi “popular” e se encaixaria nas definições marxistas de um “proletariado” tomando o poder. Alega-se que foi popular e ‘canônica’ porque os sovietes aos quais os bolcheviques apelaram mais tarde com bastante propaganda eram formados por trabalhadores. Mas os sovietes também eram formados por militares descontentes com a falta de pagamento do czar. Até onde sei, forças armadas não se encaixam em “proletariado”. Aliás, a coisa toda na Rússia e na China foi bizarra até para marxistas mais ortodoxos, pois a previsão (messianismo historicista) é que a “revolução” acontecesse onde o capitalismo estivesse mais avançado: basicamente Reino Unido e Estados Unidos. É por isso que intelectuais de esquerda como Chomsky dizem que o que houve desde o começo foi uma “deturpação de Marx”, começando em Lênin, que também fazia as vezes de intelectual e escrevia livros ridículos xingando todos os cientistas e acadêmicos que pudesse citar de “reacionários” se não concordassem com seu projeto de poder.

Ufa! É isso. Por hoje é só.

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Referências:

William G Rosenberg, um dos historiadores que chamam de golpe. http://www.journals.uchicago.edu/doi/abs/10.1086/240207…

Elena Salomakha, do Departamento de Manuscritos e Documentos do Hermitage Museum, São Petersburgo, fala sobre o resgate do termo “golpe de outubro”: https://www.youtube.com/watch?v=RENlfILCzv8&t=17s

Termo original dos bolcheviques: Golpe de outubro (Октябрьский переворот). Como o termo seria se tivessem chamado de Revolução de Outubro: Октябрьская революция.

10th of November

Por que sou contra a criminalização “da homofobia” Boas intenções escondem um cavalo de Troia de autoritarismo


Começou uma mobilização partidária pela “criminalização da homofobia”.

Trata-se de modificar a lei 7.716/1989* e incluir orientação sexual numa lista de categorias já protegidas. Eu li a lei na íntegra e meu principal problema com ela é este artigo:

Art. 20. [É crime] Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Isso é demasiado vago. O que seria, por exemplo, “incitar o preconceito”? Uma piada que brinque com o estereótipo (preciso) de que homens gays são mais promíscuos seria uma indução ao preconceito?

A lei já é vaga o suficiente para ser interpretada de modo a censurar ateus, por exemplo. É por sorte que as associações de ateus não tenham sido censuradas ainda, especialmente a ATEA, que é cheia de deboches. Basta os evangélicos terem sucesso em seu projeto de poder para os ateus começarem a pagar o preço de os juízes, sob influência evangélica, começarem a interpretar a lei dessa forma, e ela dá ampla abertura para interpretações expansivas e injustamente limitadoras da liberdade de expressão. E nem é a única lei problemática que temos para a liberdade de expressão nesse campo específico de críticas às religiões, temos um artigo do Código Penal (208) que diz que é crime

Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa.**

Se este artigo não fosse letra morta pelas práticas de agora, eu já estaria na cadeia por ter criado uma paródia do Smilingüido focada nas piores passagens da Bíblia, o Smilinguarudo. Mas não quero depender da boa vontade da jurisprudência atual: quero que na reforma do Código Penal caia o artigo 208, e que também se reveja o artigo 20 desta lei em nome do direito à liberdade de expressão.

Como o que querem é incluir orientação sexual nesse rol de assuntos para os quais a lei daria ‘direito ao cala-boca’, sou contra “criminalizar a homofobia”. Sou a favor de criminalizar, por exemplo, discriminações objetivas como demissões de pessoas por serem LGBT. Mas não as palavras ofensivas de ninguém, pois esse seria o primeiro passo para criminalizar pensamentos.

Quem faz parte de um grupo que demorou muito a ter plena liberdade deveria valorizar um pouco mais a liberdade de todos, inclusive a de dizer coisas ofensivas contra o grupo.

 

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* A lei aqui.

** O código aqui.