3rd of October

Duas universidades que resistem à onda autoritária da “justiça social” Lobos solitários das instituições acadêmicas voltam o foco para a verdade apesar da pressão


Como defende o psicólogo social Jonathan Haidt, as universidades devem escolher entre a verdade e a justiça social como seu fim último, pois as duas coisas entram em conflito com frequência.

Mas o que ele não diz é que trocar verdade por justiça social é uma corrupção do próprio conceito de universidade. As universidades surgiram na idade média para investigar a verdade sobre temas diversos, da teologia à astronomia. Claro, no começo ainda estavam sob influência de instituições sociais que não aceitariam verdades inconvenientes, e em certa medida isso é verdade até hoje. Mas o projeto é o universalismo: descobrir coisas que são verdade aqui e em qualquer lugar, hoje e em qualquer tempo. Daí o nome ‘universidade’.

O pós-modernismo é um dos cânceres ideológicos particularmente preocupantes na universidade, pois é explicitamente contra os projetos universalistas. E o conjunto de ideias agrupadas sob o nome “justiça social” , uma preocupação frequente dos pós-modernos, também é uma ameaça ao projeto universitário, porque reage com intolerância a quem resiste, por exemplo, às tentativas de forçar paridades artificiais em áreas de estudo que não são igualmente interessantes para todos, ou a quem sugere que não há evidências suficientes de que a falta de representação estatística perfeita de categorias sociais em cada área resulta majoritariamente ou em qualquer medida de preconceitos malignos e crimes de pensamento de quem já está lá.

No clima politicamente polarizante de hoje, a tendência é que as maiorias “progressistas” que não pensam criticamente sobre a justiça social dentro das universidades forcem ainda mais essas ideias sobre as instituições. Tomando as cotas raciais como exemplo dessas ideias impostas sem justificação suficiente, no Brasil, por exemplo, já vemos que os últimos núcleos de resistência, como a USP, já estão cedendo. Nem mesmo os escândalos com os tribunais raciais universitários, que estão medindo narizes para “avaliar” se alguém é “negro de verdade”, parecem estar servindo para frear a tendência.

Dois dos escândalos das cotas raciais. Quando viralizou a tabela do IFPA, eu propus que só botaram no papel o que estava sendo feito a portas fechadas, com menos precisão na mensuração, em outras instituições. A UFRGS parece confirmar minhas suspeitas.

É uma boa notícia, portanto, quando encontramos alguma instituição universitária que ofereça resistência explícita ao assédio justiceiro social. Temos dois exemplos dos EUA.

1 – Hillsdale College

Esse pequeno centro universitário de Michigan tem cerca de 1800 alunos. Sua base é cristã, mas desde sua fundação em 1844 Hillsdale aceita “todas as pessoas que querem, independente de nação, cor ou sexo, uma educação literária, científica e teológica” (isso é literalmente o que diz o seu documento de fundação, extremamente progressista para 1844). A página sobre a missão da universidade diz:

“Foi a primeira universidade de Michigan, e a segunda nos Estados Unidos, a aceitar as mulheres em igualdade com os homens. Seu corpo discente cosmopolita é formado a partir de lares em 47 estados e 8 países estrangeiros.

Metas

O Hillsdale College mantém sua defesa do currículo de artes liberais tradicional, convencido de que ele é a melhor formação para lidar com os desafios da vida moderna e que oferece a todas as pessoas de todas as bases não apenas um importante corpo de conhecimento, mas também verdades imemoriais sobre a condição humana. As artes liberais são dedicadas a estimular a curiosidade intelectual dos alunos, a encorajar a mente crítica e bem disciplinada, e a estimular o crescimento pessoal através do desafio acadêmico. São uma janela para o passado e uma entrada para o futuro.

College valoriza o mérito de cada indivíduo singular, em vez de sucumbir à moda desumanizadora e discriminatória das assim chamadas ‘justiça social’ e ‘diversidade multicultural’, que julga os indivíduos não como indivíduos, mas como membros de um grupo, e que coloca um grupo contra outros grupos competidores em lutas de poder desagregadoras.”

2 – Universidade de Chicago

Nas páginas oficiais da missão da Universidade de Chicago, fundada em 1890 e que atende a quase 16 mil estudantes, nada tão explícito quanto a mensagem do Hillsdale College está disponível. No entanto, como noticiou a revista Time em agosto de 2016, a universidade mandou uma carta oficial aos calouros explicando que o campus é um ambiente de livre expressão em que eles poderão ser ofendidos. O decano de estudantes Dr. John Ellison escreveu:

“Membros da nossa comunidade são encorajados a falar, escrever, ouvir, desafiar e aprender, sem medo de censura. A civilidade e o respeito mútuo são vitais para todos nós, e a liberdade de expressão não significa liberdade de assediar ou ameaçar os outros. Você descobrirá que esperamos que os membros de nossa comunidade se engajem em debate rigoroso, discussão e até discordância. Às vezes isso pode ser um desafio para você e até causar desconforto.

Nosso compromisso com a liberdade acadêmica significa que não apoiamos os assim chamados ‘trigger warnings’ [avisos de que o conteúdo de obras e cursos podem causar ‘gatilhos’ emocionais], nós não cancelamos palestras de convidados porque seus tópicos podem se mostrar controversos, e nós não coadunamos com a criação de ‘espaços seguros’ intelectuais onde os indivíduos podem se esconder de ideias e perspectivas que vão de encontro às suas próprias.”

Que essa carta tenha sido controversa e digna de uma manchete na revista Time é algo que diz muito sobre o clima acadêmico dos nossos tempos.

A carta completa da Universidade de Chicago para seus calouros de 2016.