28th of October

Simbolismo, um delírio Sobre casos de apego irracional a símbolos acima do que importa mais que eles


O caso recente da assim apelidada “ração humana” do prefeito de São Paulo, João Dória, motivou-me a escrever sobre algo que me incomoda há um tempo: o apego irracional a símbolos.

No caso, o que temos é uma forma que o prefeito encontrou de aproveitar comida prestes a ter a validade vencida e alimentar pessoas muito pobres. O processo envolve a liofilização, que é o congelamento seguido de sublimação (passagem do estado sólido direto para o estado gasoso, sem transição líquida) que prejudica o crescimento das bactérias e prolonga a validade da comida. O resultado, dizem os críticos, parece ração de cachorro ou gato, e por essa semelhança consideram que o que o prefeito está fazendo tem pouco a ver com alimentar famintos ou evitar o desperdício de comida, mas muito a ver com “desumanizar simbolicamente” os famintos. Parece que, para esses críticos, pouco importa as consequências do processo no mundo, devemos prestar atenção numa mensagem simbólica imaginária.

O caso contém claramente o que eu chamei de “sadismo interpretativo”: se uma ação ou expressão leva a uma série de interpretações possíveis, o sádico interpretativo escolherá a pior interpretação possível para ferir o autor da ação ou expressão. É um modus operandi da atividade de interpretar que a irracionaliza para outros fins que não o de descobrir a verdade. No caso, fins políticos, de marcar pontos na disputa tribal política do país, já que Dória é visto como possível pré-candidato à presidência que supostamente seguiria uma linha liberal (como liberal eu rio disso, pois ele não tem tomado medidas liberais com tanta frequência quanto eu gostaria) e de direita (entenda-se “direita” aqui como xingamento da esquerda tradicional, mais que diagnóstico preciso de filiação política).

Por que é sadismo interpretativo alegar que o produto da liofilização é “ração”? Porque existem outras coisas que parecem com o produto. Aqui em casa tenho torrões de carne de soja que são idênticos, por exemplo. Posso começar, em tom acusatório, a alegar que está havendo uma vegetarianização simbólica compulsória dos paulistanos pobres?

Outro exemplo de apego irracional a símbolos é o de alguns religiosos quando respondem com revolta a algum “artista” do tipo performer/arte moderna/arte contemporânea que enfadonhamente profana algum símbolo religioso (se sentindo profundo, original, digno de estar nos museus). Esses religiosos geralmente são parte do mesmo grupo político que valoriza enormemente o direito à propriedade. Se o “artista” comprou as imagens religiosas para profanar, ele está fazendo o que bem entende com uma propriedade sua, não importa o quão simbólica é esta propriedade para outras pessoas. Mas as implicações do direito à propriedade logo são esquecidas para defesa à censura e ao muito imaginário direito de não ser ofendido, de não ter sua religião ridicularizada e/ou criticada. Preciso fazer a ressalva de que nosso antiquado Código Penal diz em seu artigo 208 que é crime, sim, “escarnecer” de símbolos religiosos. Mas é letra morta, ninguém é punido por isso no país porque os juízes vêem um conflito entre esse “direito” das religiões e a liberdade de expressão, favorecendo a última. Mas se certos evangélicos tiverem sucesso em seu projeto de poder, podemos apostar num “reavivamento” desse artigo na muito morosa reforma pela qual o Código Penal supostamente está passando há anos.

Como disse o comediante George Carlin, num trocadilho sem tradução, “I leave symbols for the symbol minded”.

13th of October

Feministas radicais difamam a genética


O feminismo radical já é um dos principais propagadores de informações falsas sobre genética.

Há anos encontro, com crescente frequência, alegações de feministas radicais de que o cromossomo Y está desaparecendo (uma falsidade que surgiu na imprensa há algum tempo que não faz o menor sentido), que não passa de um cromossomo X reduzido. (Relembrando, o sexo é determinado geneticamente pela presença de dois XX em mulheres e XY em homens.) Tudo isso é para tentar dar fundamento científico a uma ideologia de supremacia de um sexo sobre outro, propagada em grupos fechados e em universidades. Uma ideologia tão cega e assustadora quanto as ideias de supremacia racial da época da eugenia: ainda bem que essas ideólogas não têm poder para fazer nada com suas ideias tolas.

O cromossomo Y se comporta em algumas partes como um cromossomo homólogo do X, ou seja, tem genes em comum com ele. Sendo assim há alguns genes com um alelo no X e outro no Y. Mas também há genes que só estão no cromossomo Y. Genes essenciais do desenvolvimento do organismo masculino, sem o qual a espécie estaria extinta. O Y tem também regiões não-codificadoras de proteínas, chamadas satélites, que são usadas para testes de paternidade e estudos históricos da linhagem paterna (como o DNA mitocondrial serve para estudos da linhagem materna).

O problema dessas feministas radicais não é só invencionice pseudocientífica sobre cromossomos sexuais: é de lógica. Se o cromossomo Y é apenas um X mutilado, e se isso faz dos homens um sexo inferior; que diremos de todas as mulheres em cujos tecidos um dos cromossomos X está quase completamente inativado e menos funcional que um cromossomo Y? Se mutilação de um X leva à masculinidade, a inativação de um X levaria as mulheres a serem mais masculinas que os homens, nessa pseudogenética maluca, e mais inferiores. É um caso argumentativo de tiro que sai pela culatra. Ao menos é um alívio cômico diante de uma ideologia assustadora.

3rd of October

Duas universidades que resistem à onda autoritária da “justiça social” Lobos solitários das instituições acadêmicas voltam o foco para a verdade apesar da pressão


Como defende o psicólogo social Jonathan Haidt, as universidades devem escolher entre a verdade e a justiça social como seu fim último, pois as duas coisas entram em conflito com frequência.

Mas o que ele não diz é que trocar verdade por justiça social é uma corrupção do próprio conceito de universidade. As universidades surgiram na idade média para investigar a verdade sobre temas diversos, da teologia à astronomia. Claro, no começo ainda estavam sob influência de instituições sociais que não aceitariam verdades inconvenientes, e em certa medida isso é verdade até hoje. Mas o projeto é o universalismo: descobrir coisas que são verdade aqui e em qualquer lugar, hoje e em qualquer tempo. Daí o nome ‘universidade’.

O pós-modernismo é um dos cânceres ideológicos particularmente preocupantes na universidade, pois é explicitamente contra os projetos universalistas. E o conjunto de ideias agrupadas sob o nome “justiça social” , uma preocupação frequente dos pós-modernos, também é uma ameaça ao projeto universitário, porque reage com intolerância a quem resiste, por exemplo, às tentativas de forçar paridades artificiais em áreas de estudo que não são igualmente interessantes para todos, ou a quem sugere que não há evidências suficientes de que a falta de representação estatística perfeita de categorias sociais em cada área resulta majoritariamente ou em qualquer medida de preconceitos malignos e crimes de pensamento de quem já está lá.

No clima politicamente polarizante de hoje, a tendência é que as maiorias “progressistas” que não pensam criticamente sobre a justiça social dentro das universidades forcem ainda mais essas ideias sobre as instituições. Tomando as cotas raciais como exemplo dessas ideias impostas sem justificação suficiente, no Brasil, por exemplo, já vemos que os últimos núcleos de resistência, como a USP, já estão cedendo. Nem mesmo os escândalos com os tribunais raciais universitários, que estão medindo narizes para “avaliar” se alguém é “negro de verdade”, parecem estar servindo para frear a tendência.

Dois dos escândalos das cotas raciais. Quando viralizou a tabela do IFPA, eu propus que só botaram no papel o que estava sendo feito a portas fechadas, com menos precisão na mensuração, em outras instituições. A UFRGS parece confirmar minhas suspeitas.

É uma boa notícia, portanto, quando encontramos alguma instituição universitária que ofereça resistência explícita ao assédio justiceiro social. Temos dois exemplos dos EUA.

1 – Hillsdale College

Esse pequeno centro universitário de Michigan tem cerca de 1800 alunos. Sua base é cristã, mas desde sua fundação em 1844 Hillsdale aceita “todas as pessoas que querem, independente de nação, cor ou sexo, uma educação literária, científica e teológica” (isso é literalmente o que diz o seu documento de fundação, extremamente progressista para 1844). A página sobre a missão da universidade diz:

“Foi a primeira universidade de Michigan, e a segunda nos Estados Unidos, a aceitar as mulheres em igualdade com os homens. Seu corpo discente cosmopolita é formado a partir de lares em 47 estados e 8 países estrangeiros.

Metas

O Hillsdale College mantém sua defesa do currículo de artes liberais tradicional, convencido de que ele é a melhor formação para lidar com os desafios da vida moderna e que oferece a todas as pessoas de todas as bases não apenas um importante corpo de conhecimento, mas também verdades imemoriais sobre a condição humana. As artes liberais são dedicadas a estimular a curiosidade intelectual dos alunos, a encorajar a mente crítica e bem disciplinada, e a estimular o crescimento pessoal através do desafio acadêmico. São uma janela para o passado e uma entrada para o futuro.

College valoriza o mérito de cada indivíduo singular, em vez de sucumbir à moda desumanizadora e discriminatória das assim chamadas ‘justiça social’ e ‘diversidade multicultural’, que julga os indivíduos não como indivíduos, mas como membros de um grupo, e que coloca um grupo contra outros grupos competidores em lutas de poder desagregadoras.”

2 – Universidade de Chicago

Nas páginas oficiais da missão da Universidade de Chicago, fundada em 1890 e que atende a quase 16 mil estudantes, nada tão explícito quanto a mensagem do Hillsdale College está disponível. No entanto, como noticiou a revista Time em agosto de 2016, a universidade mandou uma carta oficial aos calouros explicando que o campus é um ambiente de livre expressão em que eles poderão ser ofendidos. O decano de estudantes Dr. John Ellison escreveu:

“Membros da nossa comunidade são encorajados a falar, escrever, ouvir, desafiar e aprender, sem medo de censura. A civilidade e o respeito mútuo são vitais para todos nós, e a liberdade de expressão não significa liberdade de assediar ou ameaçar os outros. Você descobrirá que esperamos que os membros de nossa comunidade se engajem em debate rigoroso, discussão e até discordância. Às vezes isso pode ser um desafio para você e até causar desconforto.

Nosso compromisso com a liberdade acadêmica significa que não apoiamos os assim chamados ‘trigger warnings’ [avisos de que o conteúdo de obras e cursos podem causar ‘gatilhos’ emocionais], nós não cancelamos palestras de convidados porque seus tópicos podem se mostrar controversos, e nós não coadunamos com a criação de ‘espaços seguros’ intelectuais onde os indivíduos podem se esconder de ideias e perspectivas que vão de encontro às suas próprias.”

Que essa carta tenha sido controversa e digna de uma manchete na revista Time é algo que diz muito sobre o clima acadêmico dos nossos tempos.

A carta completa da Universidade de Chicago para seus calouros de 2016.