12th of October

Nobel para comer a si mesmo


Na semana passada foi anunciado que Yoshinori Ohsumi ganhou sozinho o prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina, por seu trabalho a respeito dos mecanismos de autofagia das células. Na Science foi comentado que a decisão foi bem aclamada entre os especialistas, pois Ohsumi realmente é considerado o pai dessa área de investigação. Em seus primeiros estudos publicados a respeito, Ohsumi identificou 15 genes essenciais para o auto-reparo das células em leveduras. Quem conhece a dificuldade que era fazer isso na época em que foi feito entenderá que ao menos pelo critério do esforço Ohsumi merece o prêmio. Hoje fica cada vez mais claro que distúrbios de autofagia estão por trás de várias doenças humanas, e que o bom funcionamento desse conjunto de mecanismos é um dos segredos das pessoas muito longevas.

Biologia molecular é uma área fascinante. Quanto mais a gente lê, menos seguro fica de que sabe alguma coisa. É como entrar num mundo alienígena, com leis diferentes e personagens estranhos, muitos dos quais estão desempenhando seus papéis há bilhões de anos. Acho que uma boa forma de adentrar esse mundo é estudar a replicação do DNA, a transcrição e a tradução. Uma vez familiarizado com os personagens principais, o curioso molecular estará mais preparado para ler os trabalhos sobre autofagia e se maravilhar. Imagine o seguinte: uma mitocôndria, que é basicamente uma bactéria domesticada para produzir energia dentro das células (e há centenas em cada célula) começa a funcionar mal. A célula é capaz de detectar que a saúde da mitocôndria vai mal, mandá-la para um lixão, desmontá-la e reciclar as partes valiosas. A autofagia é isso – o que está indo mal na célula é “comido” por ela própria, tendo suas partes reaproveitadas. É possível, no entanto, que uma célula falhe em reparar a si mesma, aí ela entra em autofagia generalizada, que é a apoptose – um suicídio celular. Saber disso não te dá fome de biologia molecular?

Sobre reciclagem autofágica de mitocôndrias: https://en.wikipedia.org/wiki/Mitophagy

Sobre o prêmio: https://www.nobelprize.org/…/medi…/laureates/2016/press.html

3rd of October

Cotas raciais


— O critério é autodeclaração?
— É.
— Quais são as categorias?
— Preto, pardo e branco.
— Mas os nomes dessas categorias não derivam de cores? Essas cores não são propriedades objetivas de peles humanas, até certo ponto?
— Sim.
— Então não é muito sincero dizer que o critério é autodeclaração, se outras pessoas poderão discordar da sua autodeclaração e te acusar de estar cometendo fraude.
— Sim, mas essas pessoas não são parte do processo decisório, são só ativistas das redes sociais.
— E como é o processo decisório? Uma lista de critérios do racismo científico do século XIX?
— Não, aquilo foi um caso isolado. Eu concordo que o caso do IFPA foi escandaloso, mas ninguém tá usando aquela tabela.
— O que estão usando então?
— Bancas examinadoras.
— Para que precisamos de bancas examinadoras, se o critério é autodeclaração?
— Para saber se a autodeclaração é falsa.
— E como sabem que é falsa?
— Usando critérios objetivos… cada avaliador vai saber se aquela pessoa é negra ou não é, e decidem entre si.
— Quer dizer que antes do caso do IFPA, já estavam usando o olho de examinadores pra ver se a autodeclaração de uma pessoa é verdadeira ou não?
— Sim, mas é bem diferente de fazer uma tabela com pontos pra formato de nariz, formato de crânio, cor de gengivas e dentes, textura de cabelo…
— Quer dizer então que seu problema com o caso do IFPA foi só que pegaram critérios que essas bancas examinadoras já poderiam estar usando e os botaram numa tabela? Por que, quando o critério anti-autodeclaração deixa de estar no olho do examinador e passa para uma tabela, de repente deixa de ser aceitável? Você estava confortável com tribunais raciais decidindo quem é negro, quem é pardo e quem é branco no Brasil só porque os critérios que estavam sendo usados para atropelar a autodeclaração eram desconhecidos, obscuros, não postos no papel?
— …

***

As cotas raciais são um regresso a um passado perigoso. O critério da autodeclaração é incompatível com a ideia de categorias raciais recebendo benefícios do Estado. A contradição não é inventada pelos opositores dessa política, ela é intrínseca à ideia de raças e de autodeclarações. Enquanto o governo tenta se proteger da acusação de ressuscitar Lombroso por trás do critério insincero da autodeclaração, os grupos que querem as cotas raciais estão o tempo todo atacando esse critério e querendo botar outra coisa no lugar – e isso, apesar de danoso para a cultura, é compreensível, afinal a ideia de raças sugere que se pode achar isso no mundo, especialmente quando os rótulos raciais são nomes de cores. O caso é que essa outra coisa no lugar é assustadora, especialmente nas mãos do estado. Escondê-la por critérios informais de bancas examinadoras, sem jamais dizer quais são, não a torna menos assustadora e perigosa. O que o IFPA fez foi só deixar escapar à luz do dia o que está acontecendo há mais de dez anos a portas fechadas no Brasil.