20th of July

Escola Sem Partido: o bom, o mau e o feio Analisando o projeto de lei por seus próprios méritos


Professores têm liberdade de expressão? Como indivíduos, sem dúvida. Nessa era em que há cada vez mais pressão para remover todo tipo de opinião desconfortável nos meios que mais expandiram a expressão nas últimas décadas, é importante reconhecer isso. Um professor pode ir ao Twitter chamar pela união dos “proletários” contra a “burguesia”, ou ao Facebook para comemorar a “revolução” de 1964 a cada 31 de março, enquanto essas redes permitirem, é claro. E parece que essas redes, por pressão censora do público e dos anunciantes, estão propensas a permitir cada vez menos. Acho esse desenvolvimento lamentável, pois essas redes, apesar de serem empresas privadas e assim poderem implantar regras próprias, perdem a oportunidade de ser uma praça pública internacional para a plena liberdade de se expressar, que só faz sentido se incluir a expressão de algumas coisas que ofendem e incomodam. Sem anunciantes e usuários que realmente acreditem na liberdade de expressão, a arena pública das redes sociais perde diversidade de opinião e a oportunidade de deixar o máximo de pessoas entenderem por que certas ideias são falsas e erradas, mesmo tendo essas ideias a chance de serem expostas pelos seus próprios defensores da forma mais clara que puderem. Varrer ideias falsas e erradas para debaixo do tapete não é exatamente algo que depõe a favor da nossa capacidade de mostrá-las falsas e erradas para qualquer observador.

O projeto Escola Sem Partido (PL 193/2016 do Senado), de iniciativa de grupos interessados em educação e do senador Magno Malta, não acredita na plena liberdade de expressão dos professores dentro das escolas públicas. As escolas, claro, não são as redes sociais. Se as redes sociais têm base legal (mesmo que não tenham a moral, na minha opinião) para limitarem a expressão dos usuários em seu próprio nicho, então deve haver também coisas que não é do interesse das escolas públicas que sejam expressadas dentro delas, especialmente por serem mantidas com o dinheiro de contribuintes que discordam radicalmente entre si. Quais são os interesses das escolas públicas? Parece que as escolas públicas não existem para doutrinar os alunos no cristianismo ou no ateísmo, pois assim os contribuintes ateus ou cristãos, respectivamente, sofreriam a injustiça de ter que aplicar seu dinheiro para resultados que não querem em suas crianças. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação proíbe a doutrinação religiosa ou irreligiosa nas escolas, para alívio de ambos. Mas até onde vai o controle do contribuinte sobre o que ele não quer que seja ensinado na escola pública? Os contribuintes criacionistas teriam o direito de limitar o ensino da teoria da evolução nas aulas de biologia? Os contribuintes que se dizem contra o “neoliberalismo” têm direito de ignorar Adam Smith e Friedrich Hayek e ensinar somente Karl Marx e John Maynard Keynes nas aulas de geografia, sociologia e história? Autoridades externas à escola são invocadas na tentativa de responder a essas perguntas, geralmente a autoridade dos especialistas. Mas a opinião de alguns especialistas de uma área pode ser repelente para os contribuintes, então apelar para os especialistas pode ser inútil para resolver o conflito.

O projeto Escola Sem Partido parece preocupado com o risco de o professor abusar de seu prestígio de autoridade do conhecimento para doutrinar alunos, que são parte hipossuficiente da sala de aula, em coisas cujo status de conhecimento está longe de ser estabelecido. Esta é uma preocupação boa, sua raiz parece ser a preocupação de que crianças/alunos possam ser convencidos pelos professores a se atarem a ideias falsas e erradas, o que é danoso para eles e consequentemente à sociedade em geral. Novamente, essa preocupação pede por árbitros. Quem tem competência para distinguir falsidades e erros de verdades e acertos? Talvez os especialistas no assunto?

De todas as premissas insinuadas no projeto, uma bem difícil de compreender é a menção, na justificativa e no parágrafo único de um artigo, à sexualidade. Será que os autores do projeto acreditam que alguma criança pode ser ensinada a ser gay, como expressou temerosamente Myrian Rios na ALERJ em 2011? Pois podem dormir sossegados, se ouvirem especialistas que por alguma razão foram ignorados no texto do projeto: a orientação sexual tem em boa parte raízes biológicas, e não é chamada de “orientação” no sentido de “educação”, mas num sentido mais próximo ao sentido que tem dizer que uma bússola se orienta para o norte – espontaneamente. Se espontaneamente, ter uma orientação sexual de certo tipo está fora do nicho da educação. Não há no conhecimento acadêmico corroboração mínima à ideia de que orientação sexual é “opção sexual”, como está dito no projeto. E se o projeto não está se baseando em conhecimento objetivo, então ele próprio é ideológico neste ponto, pois “opção sexual” é uma forma ideológica (e negacionista das evidências da psicologia, da genética e da neurociência) de se referir à orientação sexual. Se alguém me pergunta qual é a minha “opção sexual”, as respostas que fazem sentido são “muito”, “pouco”, “às vezes”, “nunca”, “nesta posição”, etc., não “heterossexual”, “homossexual” ou “bissexual”. O projeto erra feio, portanto, ao tentar levantar barreiras à ideologia nas escolas com mais ideologia.

Parece que quem tem menos liberdade que professores nas escolas são os alunos.  Seu desinteresse pela lei de Ohm,  pelos princípios de Euclides e pelas leis de Mendel pode ser completo, mas, se as diretrizes da educação pública foram seguidas à risca, terão de aprender essas coisas mesmo assim. Por que fazemos isso? Na esperança de tentar fazer dos alunos enciclopédias ambulantes, as escolas atropelam seus reais interesses e quase nenhum, no fim dessa tortura toda, se comporta realmente como uma. E é verdade que alguns, influenciados tanto por professores quanto pela pressão social de seus colegas (e parece que a segunda é bem mais importante) saem da sala de aula doutrinados numa série de proposições que não parecem ter passado por qualquer escrutínio crítico. Não é como se esses alunos não fossem entrar em contato com essas ideias de qualquer forma nas redes sociais – e professores que não puderem doutriná-los nas salas de aula ainda poderão tentar fazê-lo pelas redes sociais (o que é seu direito). Mas há algo de abusivo em utilizar a escola para isso. O projeto acerta na preocupação mas erra no método: professores interessados em doutrinar não se deixarão intimidar por avisos do governo pregados nas salas de aula. E pode ser que alguns, com ideias dignas de aprendizado e discussão, se deixem intimidar pelo aviso, considerando erroneamente que debater questões ditas polêmicas é introduzir ilegalmente (se o projeto for aprovado) “ideologia” na escola.

Parece que o motivo da disputa em torno do projeto é que existem áreas em que a opinião de alguns especialistas se confunde com ativismo para mudar a sociedade de certas formas que desagradam a muitos contribuintes. Nós ensinamos o teorema de Pitágoras para nossas crianças, mas não a doutrina igualmente pitagórica de que não devemos comer feijões, porque a verdade do teorema de Pitágoras foi estabelecida por dedução e pode ser reproduzida quantas vezes quisermos, enquanto não há motivos estabelecidos para evitar o consumo de feijões. Não é porque o teorema de Pitágoras é “ciência” enquanto o tabu contra feijões é “religião” ou “ideologia”: isso é apenas um adendo dispensável.

O propósito mais nobre da educação, do ensino fundamental ao pós-doutorado, é formar e propagar conhecimentos e distingui-los de crenças diversas cuja justificação é mais incompleta que a do teorema de Pitágoras e cuja plausibilidade se encontra entre ele e o tabu supersticioso dos pitagóricos contra os feijões. E o erro maior na educação é tentar forçar esses conhecimentos em quem não tem qualquer interesse de aprendê-los. Uma solução é debater, entre interessados, as justificações para as propostas de conhecimento, deixando mais claro o que falta descobrir e quais crenças têm mais a ver com fé e subjetividade do que com inferência reproduzível a partir de evidências e premissas universalmente aceitáveis (para ser mais realista: a partir de debates de quem tem genuína curiosidade por cada problema e por isso busca saber o mínimo das respostas já propostas como solução). Para esse uso apropriado da educação ser possível em cada área, é preciso que os desinteressados não estejam no meio do caminho, empurrando com a barriga o peso de aprender coisas que não querem, e persigam seus próprios interesses (sejam eles em outras áreas de conhecimento, sejam eles em atividades que pouco têm a ver com conhecimento). Se os desinteressados em perseguir de forma não-dogmática conhecimentos em economia querem doutrinar seus filhos no comunismo marxista, que o façam no braço infanto-juvenil do partido. Se os desinteressados em discussão franca da existência de Deus em filosofia da religião querem doutrinar seus filhos no cristianismo, que o façam na igreja. Se os desinteressados em ciências da saúde e em debates em ética querem doutrinar seus filhos na crença de que a homossexualidade é uma opção sexual imoral, que o façam longe do parlamento.

E por falar em debates de questões éticas, aí está outro erro feio do projeto Escola Sem Partido: a insinuação de que moral/ética é fundamentalmente monopólio da religião e das famílias. Isso é falso. A ética é debatida com rigor na filosofia desde Platão e Aristóteles, e é uma afronta contra nosso legado cultural que os autores do projeto finjam que somente clérigos, pais e mães estejam interessados em códigos morais, quando os filósofos o fazem frequentemente com mais competência. Essa tentativa de divorciar ética de educação formal é absurda, é assumir que o subjetivismo ético ganhou sem protestos e que o relativismo cultural é a norma a ser imposta (incoerentemente). Eu duvido que os proponentes dessa ideia estariam confortáveis em permitir que famílias e clérigos ensinem o racismo às suas crianças, como acontece até hoje em algumas famílias no interior dos Estados Unidos, sem que nada nas escolas públicas ensinasse a alternativa filosófica de que o racismo é uma ideia objetivamente errada. Quem acredita na educação acredita que ideias erradas e falsas como as que estão em torno do racismo podem ser debatidas com franqueza, e que quanto mais aberto o debate, quanto mais seguir regras lógicas em vez de tabus sociais, maior é a chance do racismo se enfraquecer. O problema dos autoritários de boas intenções é não acreditar que ideias verdadeiras e morais saem mais fortes de debates francos e honestos entre os verdadeiramente interessados no assunto. Ter interesse e curiosidade sobre um assunto é por definição tratá-lo acima de caprichos pessoais, políticos e religiosos.

Os desinteressados em educação devem ceder espaço, e a divulgação do conhecimento deve ser distinguida do ativismo – até para que o próprio ativismo seja feito com base em coisa melhor que pensamento de manada, modas passageiras e arroubos emocionais polarizados com poucas chances de espaço para a curiosidade e o exame minucioso de propostas. Quem, mais uma vez, deve fazer isso? Especialistas? Talvez. Mas o consenso aparente dos especialistas, como a convicção de especialistas individuais, pode ser corrupto. O que se vende como área de especialidade pode ser mera trincheira contra críticos, e o que se vende como especialista pode ser mero demagogo carismático que conseguiu um número grande de pessoas cúmplices por interesses em comum distantes da sede de saber. Os próprios pitagóricos, em seu tempo, se pareciam mais com uma seita que com uma escola. Se hoje podemos distinguir o teorema de Pitágoras do tabu injustificado de que feijões não devem ser consumidos, é porque indivíduos interessados em sua própria educação examinaram as razões dadas pelos pitagóricos para as duas proposições – ou seja, porque existem especialistas confiáveis. Mas até hoje podemos nos perguntar se feijões são sempre uma boa opção alimentar, mesmo que todas as premissas pitagóricas em contrário fossem falsas. Podemos até nos perguntar se é verdade que pitagóricos tinham esse tabu. Se formos bons especialistas, faremos isso, pois bons especialistas são racionais, e racionalidade inclui honestidade sobre a própria falibilidade (coisa que não é comum em quem quer raptar a educação e transformá-la em doutrinação nas próprias crenças políticas ou religiosas). Só teremos esperança de nos educarmos de fato se estivermos livres para perseguir nossos interesses, o que nos faz especialistas genuínos e alunos curiosos, e dar de ombros para os assuntos que não queremos preenchendo nossas cabeças e profissões, nos quais outras pessoas poderão se especializar e nos impressionar com sua expertise. Se a educação é baseada na liberdade de querer saber, o impacto da doutrinação é mitigado com muito mais poder que com plaquinhas do governo com conselhos preocupados mas tolos. Doutrinadores e doutrinados aprenderão o seu lugar.

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Em resumo e conclusão: como está, o projeto Escola Sem Partido falha em expressar suas preocupações mais corretas de forma convincente e com uma proposta eficaz de evitar o abuso do ambiente escolar para a doutrinação. Sua atual redação sugere um interesse de afastar certos tipos de doutrinação em benefício de doutrinações mais tradicionais, em vez de fortalecer a educação nas escolas públicas. O projeto precisa de uma reforma para afastar a preocupação de que foi criado com interesse de blindar os alunos dos debates globais sobre liberdade sexual, e com o interesse de deseducar o público com a crença falsa de que moralidade é monopólio da família e da religião, em vez de reforçar a ética como mais uma área em que o debate franco educacional é não apenas possível, mas recomendável.

14th of July

Gênero continua não sendo construção social: resposta à crítica


O artigo da Daphna Joel no PNAS (ver meu texto sobre gênero não ser construção social) alega que não há forma objetiva de classificar cérebros em masculino e feminino. Três respostas a essa alegação vieram. Em uma delas, os mesmos dados em análise multivariada permitem prever o sexo da pessoa cujo cérebro está sendo analisado com 70% de acerto. Eu falei em particular com alguns cientistas especialistas no assunto do gênero cerebral, e a opinião foi que o PNAS falhou em publicar aquele artigo com análise que parece ter sido escolhida a dedo para gerar o resultado que um grupo ideológico quer.

A melhor resposta que meu curto artigo recebeu simplesmente PREFERE acreditar em Joel APESAR DISSO. O que revela que quando é para ser politicamente correto e agradar os colegas de crença, o suposto interesse em dar uma avaliação imparcial morre rapidinho.

Sobre eu ter escolhido a definição de “construção social” do Paul Boghossian, foi em reconhecimento ao trabalho dele de separar joio de trigo nas alegações de construção social que parecem suficientemente ambíguas para se adequarem à afirmação que for mais conveniente no momento. Definições de “construção social” que aceitam que há também causas biológicas no gênero são anomalias dentro da vasta literatura construtivista, boa parte da qual merece o rótulo de pseudociência, como discutido num volume recente de filosofia da pseudociência editado pelo filósofo Massimo Pigliucci. De qualquer forma, nem faz muito sentido escolher o termo “construção social”, ao pé da letra, se você acredita que o fenômeno em questão é em parte o resultado de fatores biológicos.

Eu uso os termos “sexo” e “gênero” livremente não porque não sei da distinção geralmente feita entre eles. Mas porque rejeito a dicotomia “Nature vs. Nurture” implícita neles, que não é mais adequada.

As críticas justas ao meu texto são essas:
– Curto demais para assunto tão complicado.
– Deveria conter uma definição de trabalho de gênero. Mas eu posso responder que definições completas são teorias e que o propósito de discutir as evidências mais recentes é justamente começar a formar uma ideia mais clara do que é gênero. Conhecimento que as hipóteses de acadêmicos construtivistas estão atrapalhando, por seu compromisso frequente com o pós-modernismo e sua rejeição implícita da navalha de Hume e de facetas da racionalidade como objetividade e imparcialidade, valores indispensáveis na ciência.

Eu considero a comparação que fiz de gênero e castas indianas muito mais adequada para ilustrar que gênero não é construção social enquanto castas o são. Mas por algum motivo a crítica ignorou isso e se focou apenas na comparação com o dinheiro.

The Androgynous Form of Shiva and Parvati (Ardhanarishvara). India, Uttar Pradesh, Mathura, 2nd-3rd century sculpture. Mottled red sandstone. Los Angeles County Museum of Art.
11th of July

Por que gênero NÃO É construção social


Embora a alegação de que várias propriedades humanas são “construção social” tenha se tornado moda em setores das humanidades e ciências sociais, geralmente pouca evidência é fornecida para justificar alegações de construção social. O próprio conceito de “construção social” é frequentemente ambíguo demais. Depois de remover as maiores ambiguidades, o filósofo Paul Boghossian providenciou uma definição de construção social mais clara e mais alinhada com os próprios interesses dos acadêmicos do ramo. A definição dele pode ser parafraseada assim: o que se quer dizer quando se alega que uma coisa é socialmente construída é que ela foi criada intencionalmente por uma sociedade em particular para atender a seus próprios interesses, e é contingente aos caprichos dessa sociedade de tal forma que essa coisa não existiria de outro jeito (não existiria, por exemplo, se essa sociedade tivesse interesses diferentes, ou se a construção tivesse sido feita por uma sociedade diferente).

Algumas coisas socialmente construídas ocorrem através de diferentes culturas. O dinheiro, por exemplo, foi construído independentemente por algumas sociedades para fazer a troca de bens, e porque a maioria das sociedades de hoje está interessada em trocar bens eficientemente, o dinheiro se tornou quase universal. Mas se as sociedades que usam dinheiro tivessem interesses diferentes, o dinheiro poderia nunca ter existido. Então é claro o bastante que o dinheiro é construção social.

Mas e as categorias de gênero como “homens”, “mulheres” e “fa’afafine” (uma categoria de Samoa que se aproxima do que chamamos de homens gays afeminados)? São construção social? Eu penso que não. Pelas seguintes razões:

  • As culturas são criativas, então coisas socialmente construídas costumam ser diversas e numerosas, como as diferentes moedas que o mundo teve na história. Pense também em castas indianas. Há 3000 castas diferentes na Índia, e ainda mais subcastas. Comparado a castas e moedas, o número de categorias de gênero parece ser tediosamente baixo – duas no Brasil, três em Samoa, com nenhuma sociedade tendo atingido números de dois dígitos, até onde sei. As castas indianas parecem ser mais prováveis de serem construções sociais, ao ponto de ser possível explicar sua existência com base em fatos históricos conhecidos sobre as culturas indianas.
  • As culturas têm certo poder de decisão sobre com quais categorias de gênero trabalharão e quantas existirão. Mas as razões pelas quais elas têm categorias de gênero não são construção social. São elas: (1) o dimorfismo sexual dos corpos humanos, seguido estritamente por todos os corpos com exceção de um pequeníssimo número deles; (2) um número limitado de orientações sexuais que ocorrem naturalmente e que existem por causa do dimorfismo sexual dos corpos (homossexualidade, heterossexualidade e bissexualidade) – a herdabilidade da orientação sexual é de moderada a alta e algumas das regiões genômicas envolvidas nisso já foram mapeadas; (3) agregados de comportamento que ocorrem naturalmente (além das orientações sexuais), alguns dos quais têm origem evolutiva e são associados a organismos com base em se eles produzem uma abundância de gametas ou se têm poucos gametas e são responsáveis por abrigar o desenvolvimento de fetos.

  A pesquisa sobre essas últimas razões está em andamento e as alegações sobre quais exatamente são essas diferenças de comportamento (previstas por causa da evolução) são altamente contestadas. Alguns resultados são consistentes, no entanto: homens tendem a se sair melhor na tarefa de rotacionar mentalmente objetos 3D, enquanto mulheres parecem ter uma vantagem em tarefas relacionadas à empatia, como ler as emoções de alguém. Mas mesmo se diferenças de gênero apontadas no passado se revelarem falsas, podemos ter confiança de que, enquanto foi detalhista ao moldar corpos, a evolução provavelmente não parou acima do pescoço em relação a sexo no cérebro.

É inteiramente possível que, enquanto o gênero em si não é construção social – porque culturas diferentes chegam a categorias similares de gênero com base em diferenças naturais no corpo e no comportamento – algumas coisas associadas como papéis e expressões de gênero provavelmente sejam constructos sociais, ao menos exemplos delas como a cor que meninas e meninos supostamente preferem, quem é responsável por iniciar flerte, etc. Há evidência de que homens e mulheres fazem em média decisões de carreira diferentes, mesmo em sociedades igualitárias – o que conta como evidência de que essas categorias não são construção social, enquanto não significa, evidentemente, que um indivíduo em particular devesse ser discriminado por fazer escolhas de carreira atípicas de seu gênero.

É importante reconhecer a diferença entre o cerne não socialmente construído do gênero e suas propriedades auxiliares socialmente construídas, de modo que políticas e decisões morais baseadas em gênero sejam mais justas. Isso ficou claro na medicina, em que há resultados mostrando que cérebros masculinos e femininos podem responder de forma diferente ao mesmo medicamento. Agora a falha da hipótese da construção social do gênero deve ser reconhecida nos debates culturais também. Muitos ativistas saltam à acusação de sexismo ao menor sinal de que as pessoas estão se comportando de forma típica para seu gênero, revelando uma esperança ilusória e fora de lugar de que seja possível erradicar categorias de gênero da existência. Para evitar bater de frente com a ciência ainda mais, esses ativistas têm de reconhecer que a ação para mitigar a discriminação injusta não deveria ser acoplada a uma esperança de atingir uma paridade de gênero em tudo. Forçar as pessoas a se comportarem do mesmo jeito onde elas naturalmente divergem não é ativismo, é engenharia social utópica. Pessoas livres precisam apenas de igualdade de oportunidades para perseguir seus interesses diversos. Homens e mulheres (e fa’afafine etc. onde aplicável), incluindo os que são trans, apreciam-se entre si e uns aos outros sem necessidade de paladinos morais que tentam forçá-los a ser o que não são. E certamente não precisam de falsidades propagandeadas como o único caminho para a justiça – pois a justiça prefere a verdade.

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Referências comentadas

As pessoas interessadas no assunto devem estar cientes de que há um pequeno número de grupos de pesquisa dentro da neurociência que tem interesse ideológico de alegar que todas as diferenças no cérebro e no comportamento encontradas por outros pesquisadores são falsas ou infinitesimais. Há também um grupo menor ainda, rejeitado por todos, de cientistas conservadores com papéis de gênero que se apressam em aprovar qualquer diferença biológica alegada, independentemente da qualidade das evidências. Então, às vezes, a revisão por pares falha e estudos de baixa qualidade são publicados e publicizados como verdade revelada por blogs e veículos de mídia interessados em confirmar suas narrativas. Cientistas como Melissa Hines, Simon-Baron Cohen e Larry Cahill, que estudam gênero cerebral, evidentemente afirmam que as diferenças existem com base em evidências (no caso de Baron-Cohen, também porque tem a ver com autismo, muito mais comum em meninos que em meninas). Em oposição a esses há Cordelina Fine,  Daphna Joel e seus colaboradores, que parecem estar interessados em negar as diferenças ou reinterpretá-las como um “mosaico cerebral” inclassificável como masculino ou feminino, em que todas as pessoas são vistas como “intersexuais” no cérebro. Recomendo lê-los todos e decidir por si quais estão amparados em evidências.

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Boghossian, Paul. “What is social construction?.” (2001).

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Cahill, L. (2006). Why sex matters for neuroscience. Nature Reviews Neuroscience, 7(6), 477–484. http://doi.org/10.1038/nrn1909
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Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Cahill, L. (2015). Diferenças de Sexo no Cérebro Humano. Xibolete | Cerebrum, 5. Disponível aquihttp://xibolete.uk/sexo-cerebral/
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Hines, Melissa. Brain gender. Oxford University Press, 2005.
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Bao, A.-M., & Swaab, D. F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Frontiers in Neuroendocrinology, 32(2), 214–226. http://doi.org/10.1016/j.yfrne.2011.02.007
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Sanders, A. R., Martin, E. R., Beecham, G. W., Guo, S., Dawood, K., Rieger, G., … Bailey, J. M. (2014). Genome-wide scan demonstrates significant linkage for male sexual orientation. Psychological Medicine, 1–10. http://doi.org/10.1017/S0033291714002451
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Resenha crítica do livro de Cordelia Fine:
Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Baron-Cohen, Simon. “‘Neurossexismo’: Homens não são de Marte, Mulheres não são de Vênus e Cordelia Fine não faz jus à neurociência”. Xibolete (2015) | The Psychologist 23.11 (2010): 904-905. Disponível aquihttp://xibolete.uk/neurossexismo/
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Artigo mais recente de Joel et al. alegando que não é possível prever o gênero de uma pessoa com base em características cerebrais:
Joel, Daphna, et al. “Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic.”Proceedings of the National Academy of Sciences 112.50 (2015): 15468-15473. Disponível aqui.
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Respostas a Joel et al. mostrando que estão errados em alegar que cérebros humanos não podem ser categorizados em masculino e feminino:
Del Giudice, Marco, et al. “Joel et al.’s method systematically fails to detect large, consistent sex differences.” Proceedings of the National Academy of Sciences 113.14 (2016): E1965-E1965. Disponível aqui.
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Rosenblatt, Jonathan D. “Multivariate revisit to” sex beyond the genitalia”.”Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (2016). Disponível aqui.
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Chekroud, Adam M., et al. “Patterns in the human brain mosaic discriminate males from females.” Proceedings of the National Academy of Sciences113.14 (2016): E1968-E1968. Disponível aqui.
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Imagem: Forma andrógina de Shiva e Parvati (Ardhanarishvara). Índia, Uttar Pradesh, Mathura, escultura do século II ou III. Em arenito vermelho manchado. Los Angeles County Museum of Art.
The Androgynous Form of Shiva and Parvati (Ardhanarishvara). India, Uttar Pradesh, Mathura, 2nd-3rd century sculpture. Mottled red sandstone. Los Angeles County Museum of Art.
11th of July

Why gender is NOT socially constructed


Though claiming that various features of humans are “socially constructed” has become something of a fad in sectors of the humanities and social sciences, usually not a lot of evidence is provided to justifiy social construction claims. “Social construction” itself is often too ambiguous a concept. After weeding out ambiguities, Paul Boghossian has come up with a definition of social construction that is more in line with the interests of social construction scholars themselves. I’ll paraphrase his definition thus: what is meant by saying that a thing is socially constructed is that it was created intentionally by a particular society to address its interests, and is contingent upon the whims of that society in such a way that it wouldn’t have come about otherwise (e.g., if that society had different interests, or if another, different society had done the construction). Some socially constructed things are cross-cultural. Money, for instance, was constructed independently by some societies to exchange goods, and because most societies today have an interest in exchanging goods efficiently, money has become almost universal. But if the money-using societies had different interests, money could have never come into existence. So it is clear enough that money is socially constructed.

But are gender categories like “men”, “women” and “fa’afafine” (the Samoan gender category close to what we would call effeminate gay men) socially constructed? I don’t think so. For the following reasons:

– Cultures are creative, so socially constructed things tend to be diverse and numerous, like the different currencies the world has had in history. Think also of Indian castes. There are about 3000 different castes in India, and even more subcastes. Compared to castes and currencies, gender category numbers across cultures seem to be boringly low – two in Brazil, three in Samoa, with no society as far as I know achieving two digit numbers. Indian castes seem to have a better claim at being socially constructed, to the point where it is possible to explain their existence by known historical facts of the Indian subcontinent cultures.

– Cultures do have a say on what gender categories they’ll work with and how many they’ll be. But the reasons why they have gender categories at all are not socially constructed themselves. They are (1) sexual dimorphism of human bodies strictly followed by all but a tiny minority of bodies; (2) a limited number of naturally occurring sexual orientations that exist because of the sexual dimorphism of bodies (homosexuality, heterosexuality and bisexuality) – heritability for sexual orientation is moderate to high and some of the genome regions involved have been mapped; (3) naturally occurring aggregates of behaviour (besides sexual orientation) that tend to follow sex dimorphic lines (apparently less rigidly than bodies), some of which have evolutionary origins and are attached to organisms based on whether they produce an abundance of gametes or are scarce in gametes and responsible for foetus rearing.

Research on the latter reasons is ongoing and claims as to what exactly are these (evolutionary predicted) differences are highly contested. Some results are consistent, however: males tend to be better at rotating 3D objects mentally, while females seem to have an advantage on empathy-related tasks like reading someone’s emotions. But even if previously appointed gender differences in behaviour end up being shown to be false, we should be fairly confident that, while observant of bodies, evolution probably did not stop above the neck when it comes to sex in the brain.

It’s entirely possible that, while gender itself is not a social construct – for different cultures will end up categorising individuals similarly, on the basis of natural differences in body and behaviour – some associated things like gender roles or expressions probably are social constructs, at least instances of them like what colour is supposed to be preferred by boys or girls, who is thought to be responsible for initiating sexual advances, etc. There’s evidence men and women make on average different career choices, even in very egalitarian societies, what counts as evidence these categories are not socially constructed, while not at all means that a particular individual should have to face discrimination for making gender-atypical career choices.

It is important to recognise the difference between the non-socially constructed core of gender and its socially constructed auxiliary features, so policies and moral decisions based on gender are fairer. This has been made clear within medicine, by results on how brains sitting on female or male bodies may respond differently to the same drug. Now the failure of the social construction hypothesis must be recognised in cultural debates too. Activists are only too prone to accuse sexism where people are behaving as typical members of their genders, revealing a misplaced and delusional hope of eradicating gender categories from existence. Now, to avoid clashing with science even more, they’ll have to recognise that action to stop unfair discrimination should not be coupled with a hope of achieving a 50/50 gender parity in everything (in societies with 2 genders, of course). Forcing people to behave in the same way where they naturally are diverse is not activism, it’s utopian social engineering. Free people just need equality in opportunity to pursue their own diverse interests. Men and women (and fa’afafine etc. where applicable), including the trans men and women, appreciate themselves and each other without moral crusaders trying to force them to be what they know they are not. And they certainly do not need falsehood parroted as the only way to justice – justice prefers truth.

Commented References

One should be aware that there is a small number of research groups within neuroscience that are ideologically committed to claiming all differences in brain and behaviour found by other researches are false or negliglibly small. Abhorred by everyone are an even smaller minority of gender role-conservative scientists who will jump at any claim of biological difference to defend it regardless of the quality of evidence. So sometimes peer-review will fail and substandard studies will be tooted as revealed truth by blogs and narrative-driven media outlets. Scientists like Melissa Hines, Simon Baron-Cohen and Larry Cahill, who study brain gender and of course assert its existence based on evidence (in the case of Baron-Cohen, because it has something to do with autism, which is much more common in males than in females), will be often opposed by Cordelia Fine, Daphna Joel & their collaborators, who seem to be interested in denying differences or reinterpreting them as a “brain mosaic” unclassifiable as male or female where most people are “brain intersex”. I recommend reading all of them and deciding for yourself who’s backed by evidence.

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Boghossian, Paul. “What is social construction?.” (2001).

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Cahill, L. (2006). Why sex matters for neuroscience. Nature Reviews Neuroscience, 7(6), 477–484. http://doi.org/10.1038/nrn1909
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Cahill, L. (2014). Equal ≠ the same: sex differences in the human brain. Cerebrum, 5. Available here.
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Hines, Melissa. Brain gender. Oxford University Press, 2005.
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Bao, A.-M., & Swaab, D. F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Frontiers in Neuroendocrinology, 32(2), 214–226. http://doi.org/10.1016/j.yfrne.2011.02.007
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Sanders, A. R., Martin, E. R., Beecham, G. W., Guo, S., Dawood, K., Rieger, G., … Bailey, J. M. (2014). Genome-wide scan demonstrates significant linkage for male sexual orientation. Psychological Medicine, 1–10. http://doi.org/10.1017/S0033291714002451
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Review of Cordelia Fine’s “Delusions of Gender”:
Baron-Cohen, Simon. “Delusions of gender—’neurosexism’, biology and politics.” The Psychologist 23.11 (2010): 904-905. Available here.
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Latest paper by Joel et al. claiming you can’t predict a person’s sex (and gender) from brain features:
Joel, Daphna, et al. “Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic.”Proceedings of the National Academy of Sciences 112.50 (2015): 15468-15473. Available here.
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Replies to Joel et al. showing they are wrong to claim human brains cannot be naturally categorised as male and female:
Del Giudice, Marco, et al. “Joel et al.’s method systematically fails to detect large, consistent sex differences.” Proceedings of the National Academy of Sciences 113.14 (2016): E1965-E1965. Available here.
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Rosenblatt, Jonathan D. “Multivariate revisit to” sex beyond the genitalia”.”Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (2016). Available here.
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Chekroud, Adam M., et al. “Patterns in the human brain mosaic discriminate males from females.” Proceedings of the National Academy of Sciences113.14 (2016): E1968-E1968. Available here.
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Image: The Androgynous Form of Shiva and Parvati (Ardhanarishvara). India, Uttar Pradesh, Mathura, 2nd-3rd century sculpture. Mottled red sandstone. Los Angeles County Museum of Art.