31st of May

Wolbachia, a bactéria ‘feminista radical’ Para a bactéria que infecta mais da metade das espécies de artrópodos terrestres, quanto menos machos melhor


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Wolbachia (marcada com corante verde) no ovário de um mosquito Aedes aegypti. Via eliminatedengue.com

Na minha pesquisa estudamos a distribuição de bactérias como a Wolbachia em artrópodos, especialmente insetos. O motivo pelo qual a escolhemos é que ela é capaz de manipular a reprodução de seus hospedeiros, de formas que vão do parasitismo (vantagem da bactéria com desvantagem do hospedeiro) ao mutualismo (vantagem mútua). A evolução de uma relação ecológica desarmônica para uma harmônica (e vice-versa), que se vê na relação dessa bactéria com artrópodos, é um assunto muito interessante que envolve quase toda a vida como a conhecemos, pois está por trás da origem de todas as células eucarióticas (como são as nossas próprias células). A melhor explicação para a existência de organelas como as mitocôndrias e os plastídeos (incluindo cloroplastos) na enorme variedade de organismos eucariontes de hoje é que, no passado, entre seus ancestrais unicelulares, os ancestrais dessas organelas, que também tinham vida livre, eram comidos vivos pelas células maiores ou as parasitavam (ou seja, havia relação ecológica desarmônica). Hoje todos os protozoários, animais, plantas e fungos não vivem sem suas mitocôndrias – a relação evoluiu de desarmônica para mutualismo, e do mutualismo para a completa fusão. Há algo de elegante em ver uma briga de bilhões de anos atrás se tornar ‘amor’, e o ‘amor’ se tornar uma união indissolúvel. 

A Wolbachia faz algo similar ao que fizeram as bactérias ancestrais imediatas das mitocôndrias bilhões de anos atrás: ela vive dentro das células. Gosta especialmente de habitar óvulos (ovócitos), pois são seu principal veículo para sobrevivência ao longo das gerações dos artrópodos que infecta. E por isso, como estratégia de sobrevivência e reprodução, Wolbachia desenvolveu manipulações do sexo de muitos dos seus hospedeiros. A bactéria é capaz de*:

– Feminizar embriões geneticamente machos, ou seja, transexualizar machos em fêmeas. Isso foi observado em algumas espécies de tatuzinhos-de-jardim (que são crustáceos), cigarrinhas (Hemiptera) e borboletas. Em algumas vespas, além disso, a presença da bactéria acoplada ao estresse térmico gera indivíduos com variadas misturas de características femininas com características masculinas. Algumas borboletas, quando curadas da presença de Wolbachia através de antibióticos, manifestam também uma mistura de características sexuais e morrem na hora de sair do casulo.

– Induzir a concepção virginal, ou seja, a reprodução assexuada em que fêmeas geram filhotes sem precisar de sexo com machos, o que é conhecido como partenogênese telitóquica. Wolbachia faz isso com algumas espécies de vespas, ácaros e tripes (esses últimos são da ordem Thysanoptera). Sem Wolbachia algumas espécies de vespas não conseguem nem produzir óvulos.

– Infanticídio de machos, ou seja, a bactéria pode matar embriões machos e poupar as fêmeas. Isso foi descrito em alguns besouros, moscas, pseudoescorpiões e borboletas. Parece que isso acontece mais em espécies em que irmãos competem por recursos – Wolbachia dá seu empurrãozinho para a vantagem das fêmeas sobre os machos, matando os machos.

– Impedir machos infectados de se reproduzirem com fêmeas não infectadas. Apesar de parecer um absurdo a bactéria impedir sua própria propagação dessa forma, a explicação para isso está na racionália do gene egoísta: ao diminuir o sucesso reprodutivo de fêmeas não infectadas, essas bactérias estão beneficiando suas irmãs que estão nas fêmeas infectadas. Por isso, para a continuidade dos genes das bactérias, não é desvantagem que as que estão nesses machos infectados estejam essencialmente na mesma posição dos músicos conformados do Titanic: se sacrificando pelo bem de seus pares. Além disso, linhagens diferentes de Wolbachia podem competir entre si, impedindo que machos infectados com uma linhagem A se reproduzam com fêmeas infectadas com outra linhagem B. Esse impedimento à reprodução é chamado de incompatibilidade citoplasmática, a primeira forma (macho infectado, fêmea não infectada) é unidirecional, a segunda (macho e fêmea infectados com linhagens diferentes) é bidirecional. A incompabilidade citoplasmática causada por Wolbachia foi descrita em alguns ácaros, besouros, moscas, hemípteros, vespas, tatuzinhos-de-jardim, borboletas/mariposas e ortópteros. Quem gosta de evolução deve estar especialmente empolgado com essa manipulação, pois, como sabemos, o aparecimento de barreiras reprodutivas é um dos fatores que leva à origem de novas espécies. Nós testamos, por exemplo, se há uma correlação entre a incidência de Wolbachia e o número de espécies em grupos de besouros – a correlação existe, mas é estatisticamente fraca.**

Não sabemos ao certo se é por causa dessas manipulações reprodutivas, mas nossa pesquisa** mostrou que mais da metade (52%, com margem de erro entre 48 e 57%) das espécies de artrópodos terrestres estão infectadas com Wolbachia. Além disso, Wolbachia também infecta alguns vermes, inclusive filárias causadoras da elefantíase. Poderemos chegar a tratamentos para verminoses e a novas formas de controle de zoonoses trasmitidas por mosquitos através dessa que é a bactéria mais misândrica e feminista radical de todas: em se tratando de aracnídeos, crustáceos e insetos terrestres, para a Wolbachia, quanto mais fêmeas e menos machos, melhor.


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* Werren, J. H., Baldo, L., & Clark, M. E. (2008). Wolbachia: master manipulators of invertebrate biology. Nature Reviews Microbiology, 6(10), 741–751. http://doi.org/10.1038/nrmicro1969. Algumas informações dadas estão em outras fontes.


** Weinert, L. A., Araujo-Jnr, E. V., Ahmed, M. Z., & Welch, J. J. (2015). The incidence of bacterial endosymbionts in terrestrial arthropods. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 282(1807), 20150249–20150249. http://doi.org/10.1098/rspb.2015.0249

23rd of May

Profetas da parcialidade e da irracionalidade no mundo do jornalismo Respondendo a modas irracionalistas no mundo da comunicação


Começou em 2012, talvez antes, numa palestra a que assisti. Segundo o palestrante, era “ingênua” a ideia de que o jornalismo pode ser imparcial. Naquele momento não vi muito motivo para objetar: “o especialista é ele”, pensei. Voltei a ouvir versões disso nos anos seguintes, e muitas vezes da boca de profissionais de comunicação.

Quando pressionados, alguns reformam a afirmação para dizer que jornalistas em particular é que não podem ser imparciais, em vez de varrer o jornalismo inteiro para a parcialidade inescapável. Mas isso não resolve muita coisa. Se você acredita que nenhum jornalista pode ter sucesso em ser imparcial ao menos em parte do que faz, então o jornalismo como um todo está condenado a uma disputa partidária sem fim, em que ninguém sabe se ao menos parte das notícias são verdadeiras. Aparentemente, a coisa rara de se ver nos debates públicos a respeito é quem defenda, destemidamente, a imparcialidade como algo a ser perseguido, e, mais raro ainda de se ver, quem defenda que é atingível, se estivermos dispostos a tirar a aura de santidade em torno da ideia e vê-la em coisas pequenas.

Pensemos em um fato noticioso: ou é verdade que aviões atingiram as torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, ou não é verdade. Um jornalista que afirma que isso aconteceu, porque viu com os próprios olhos ou teve acesso a fontes primárias, está sendo imparcial e verdadeiro, se a informação é verdadeira. Um jornalista que diz que o ataque aconteceu não porque fez investigação, mas porque odeia os Estados Unidos da América e teria prazer em vê-los sofrendo, está sendo verdadeiro ao noticiar o ataque, mas é parcial (ou seja, ele está certo por acidente). Se a notícia do ataque fosse falsa, no entanto, aqueles jornalistas que nos dissessem que o ataque aconteceu estariam dizendo inverdades, mas seu engano poderia ser um engano imparcial (após uma investigação errônea, mas desinteressada) ou um engano parcial (poderiam, por exemplo, estar dando essa notícia falsa por interesse de vender jornais). Ser imparcial, portanto, não significa ter sempre a verdade. Nós todos, incluindo jornalistas, somos seres falíveis e erramos. Mas podemos errar por interesse, desinteressadamente (imparcialmente), e por motivos que nada têm a ver com interesse ou desinterresse (como erros de digitação).

É aqui que fica clara a similaridade entre a investigação jornalística e a investigação científica. A cientista é um ser falível, mas ela deve buscar ser objetiva. Ela precisa estar alerta para suas próprias fontes de viés, e resistir contra elas. Se soa absurdo que um órgão regulador ou financiador de pesquisas científicas aconselhe aos cientistas que a objetividade é impossível e que não vale a pena buscá-la, é igualmente absurdo aconselhar jornalistas a desistir da tentativa de serem imparciais ao noticiar fatos. Para opiniões, já existem editoriais e artigos de colunas de opinião. Mas o propósito central do jornalismo é, sim, noticiar fatos, e jornalistas deveriam ver com certa vergonha quem acha que para ser um bom jornalista é preciso em primeiro lugar assumir um alinhamento político e buscar um veículo de alinhamento similar que publique suas notícias parciais. Quem perde com esse entrincheiramento ideológico é o público que deseja ser informado, em vez de doutrinado ideologicamente ou tratado com condescendência como se quisesse sempre ver sua cartilha e suas crenças sendo repetidas de volta para si.

Chafurdar na parcialidade é um beco sem saída. Qualquer tentativa de mostrar que alguém ou alguma instituição foram parciais em um assunto específico obriga o acusador a pelo menos tentar fazer uma avaliação imparcial da parcialidade. Do contrário, vira um jogo infinito de acusação interessada, o que parece se encaixar na “metafísica dialética” de alguns. Mas o fetiche de alguns com conflitos infindáveis não deve ser confundido com uma avaliação racional de como as coisas devem ser, ou com uma descrição de como elas são. E mesmo se a tal “dialética” for uma descrição de como as coisas são (parece que há aqui um elemento de profecia autocumprida: quem espera que discussões de ideias sejam conflitos irracionais de interesses, algo como quedas de braço de retórica, age de forma a deixar as coisas exatamente assim), isso de modo algum equivale a estabelecer que devem ser assim.

Imparcialidade, objetividade, esforço para encontrar a verdade são facetas da racionalidade. Os profetas da parcialidade, da subjetividade e do dadaísmo epistemológico são irracionalistas, e alegam estar esposando a irracionalidade em nome de si próprios, ou dos mais fracos, ou às vezes até dos mais fortes. Trasímaco, um sofista da Grécia antiga, dizia que a justiça é a perseguição dos interesses dos mais fortes. Trasímacos reversos, como Paulo Freire, alegam que a justiça está no abandono da imparcialidade e na busca dos interesses dos mais fracos – por isso alegam (por interesse?) que imparcialidade é impossível. São ambas posições absurdas e auto-refutantes: se você está sendo imparcial ao alegar que a imparcialidade é impossível, então a imparcialidade não é impossível. Se você está sendo  parcial ao alegar que a imparcialidade é impossível, sua afirmação está sendo feita por interesse e é destacada da verdade. Portanto, a imparcialidade é, sim, possível.

A falácia cometida pelos profetas da parcialidade é a “falácia do Nirvana”: que, se não há forma perfeita de fazer uma coisa, então não vale a pena nem tentar, ou não existe quem faça melhor que outros. Se marceneiros acreditassem nisso, passariam a vida sonhando com uma cadeira perfeita impossível de fazer, com ângulos e cilindros matematicamente elegantes impossíveis de atingir com toras, serras, lixadeiras etc, em vez de fazer as melhores cadeiras que pudessem. Por que então alguns especialistas em comunicação e jornalismo convenceram a si mesmos que não devem nem tentar fazer as peças mais imparciais possíveis de jornalismo? Ou que podem, sim, atingir a imparcialidade em coisas triviais como anunciar, após a melhor investigação possível, que a inflação subiu, ou que o desemprego caiu, etc.?

O que bota um proverbial último prego na tampa do caixão dessa opinião incoerente a favor da parcialidade é que a parcialidade é uma amiga da onça. Se você vai defender os oprimidos apenas por interesse, qualquer um com interesse oposto dirá que não há força nos seus argumentos para defender os pobres, que são baseados nos seus delírios pessoais e ganhos pessoais ao dizer isso, e não em razões desinteressadas. E se você pode agir de forma parcial, por que os outros, com interesses opostos, não fariam o mesmo? Qualquer defesa eficaz de oprimidos passa pela avaliação imparcial de sua opressão, para determinar que sua sina é real e não inventada, o que é um misto de investigação da verdade e argumentação ética para asseverar que essa verdade é injusta e deve ser mudada.

O resto é interesse. Ingênuo é quem acha que ser conivente ou cantar loas à parcialidade, à subjetividade e à bullshit* é algo que promoverá justiça no mundo, ou que especialistas parciais, subjetivistas e cheios de bullshit são especialistas dignos do nome. As pessoas têm interesses? Sim. As instituições têm interesses? Sim. Às vezes esses interesses ficam na frente do compromisso de ser honesto, verdadeiro, imparcial? Claro que sim. Mas até para mostrar quando e como isso acontece é preciso que quem investiga a mentira, a parcialidade e a injustiça seja alguém com interesse de buscar e atingir a verdade, a imparcialidade, e a justiça. Porque enquanto somos seres capazes de interesses, também somos capazes de pensar e proceder de formas racionais.

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* O uso da palavra bullshit (literalmente “merda de touro”, em inglês) não é para ser pedante, mas uma referência à exposição que o filósofo Harry Frankfurt fez dessa categoria de engano em um livro homônimo. Enquanto quem mente engana duas vezes: quanto ao conteúdo do que diz, e quanto ao próprio mentiroso acreditar no que está dizendo; quem “fala merda” (de touro?) não se importa se o conteúdo do que diz é falso ou verdadeiro.

2nd of May

“Apropriação cultural”, mais uma vez


Contribuí dando entrevista para uma matéria d’O Fluminense sobre “apropriação cultural”, assunto de que já tratei aqui. Como é normal, não houve espaço para tudo o que eu disse na matéria, então reproduzo minhas respostas na íntegra abaixo.

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O termo “apropriação cultural” pode descrever o interesse de alguém de adotar elementos de uma cultura estrangeira. Mas, recentemente, foi ressignificado numa parte radical (e radicalmente errada) do ativismo como não apenas isso, mas também, adicionalmente, como algo imoral, indesejável. Esse novo conceito vem do norte do continente americano, especialmente dos Estados Unidos, onde houve uma história recente de segregação racial codificada em lei, onde pessoas ditas “brancas” e as ditas “negras” eram coagidas socialmente a se separarem.

O lema dessas políticas racistas era “separados, mas iguais”. Como muitos outros lemas, incoerente, pois se você precisa se apartar de alguém por causa da cor da sua pele, isso já presume que você não trata essa pessoa como um igual, ou seja, como alguém cujos interesses têm tanta prioridade em serem atendidos quanto os seus: afinal, quando os interesses forem os mesmos (por exemplo, o interesse de ser contratado num bom emprego), a segregação será algo que dificultará o atendimento dos interesses de uma ou ambas as partes, por isso a segregação é imoral. E essa segregação foi obliterada por lá graças a ativistas como Martin Luther King Jr. e Rosa Parks. Mandela e outros também tiveram sucesso contra o Apartheid sul-africano.

O Brasil teve uma história mal resolvida de abolição da escravidão, pois não ofereceu plenas oportunidades para os libertados, mas jamais chegou a codificar em lei essa segregação. Hoje, quem mais chama por segregação no Brasil são justamente as pessoas que reclamam de “apropriação cultural”. São as que abominam (em vez de celebrar) a miscigenação brasileira como se fosse puramente um fruto da “política de embranquecimento”.

Essa política racista de fato existiu, mas não é mais responsável pela miscigenação brasileira que outros fatos históricos sobre o país – por ter inúmeras populações nativas, por ter sido colonizado por europeus, por ter importado mão-de-obra escrava da África e semi-escrava de lugares como Itália e Japão. A política do embranquecimento veio numa época de grande ignorância sobre genética. Talvez os racistas pensassem que os genes europeus eram “mais fortes” e que “melhorariam a raça” (uma expressão racista que infelizmente ainda está na boca de alguns brasileiros) através da mistura. Mas isso é uma noção ridícula. Como sabemos hoje, quando há relação de dominância mendeliana (que não contém qualquer noção moral ou estética de “melhor” e “pior”) nos genes que participam da cor da pele, geralmente a pele mais escura é favorecida nos filhos de uniões entre pessoas de cores diferentes. Mas, por causa de um fenômeno chamado de “equilíbrio de Hardy-Weinberg”, todos os fenótipos, do olho claro à pele escura (às vezes uma coisa junto com a outra, como aconteceu com o comediante Hélio de La Peña), continuarão se manifestando nas gerações subsequentes de miscigenados. O Brasil não é um país destituído de racismo, mas a população brasileira, com sua enorme variação, é vista pelo resto do mundo como um modelo de diversidade genética (modelo porque em um mundo com menos racismo presume-se que há mais mistura dos fenótipos). E eu acho que também é um modelo de diversidade cultural em alguns sentidos. Não faz qualquer sentido tentar barrar essa diversidade alegando, como alegam as pessoas contrárias à “apropriação cultural”, que há problema em um paulista loiro usar tranças ou dreadlocks mais frequentemente associados a pessoas negras. Problema há em tentar impedir que indivíduos sigam suas preferências estéticas e se apropriem de elementos culturais de qualquer lugar. É a liberdade do indivíduo, não a identidade de grupos, o que tem prioridade na declaração universal dos direitos humanos.

Nós estamos na era genômica, ou seja, na era em que temos acesso a quase todas as informações genéticas que são parte integral do indivíduo. Digo quase todas porque, mesmo se você tiver em mãos a sequência completa do DNA de todos os seus cromossomos, haverá algumas coisas sobre a sua biologia que permanecerão um mistério, porque a pesquisa ainda não revelou o que certas partes da sequência fazem, ou porque essas coisas estão em outro tipo de codificação nas suas células (como a codificação epigenética), ou porque são resultado de acidentes de desenvolvimento e influência do ambiente. Para azar dos racistas, é quase consenso entre biológos e antropólogos físicos que raças não existem na espécie humana, então sequer faz sentido a sua tola busca por superioridades e inferioridades essenciais a grupos na diversidade humana. Alan Templeton é um dos cientistas que deram os melhores argumentos a respeito: nós temos mais variação dentro de cada um dos grupos vistos como “raças” do que entre eles, e o que se entende por “raça” parece ser mais próximo do que pode ser descrito como “subespécie” em biologia, e não há subespécies entre humanos. Poderá haver no futuro, se alguns de nós formos para outro planeta e seguirmos um curso de mudanças genéticas (inevitáveis) diferente. Nem nesse futuro hipotético em que raças existem o racismo se tornará correto.

Nós já temos pessoas que são biologicamente diferentes das outras, biologicamente menos capazes que outras de realizar certas tarefas: são os deficientes físicos. E a atitude correta é ajudá-los a superar suas dificuldades, não segregá-los. Ou seja, o racismo é incorreto mesmo se fosse verdade que raças humanas existem e que diferem em habilidades. Os racistas perderam o debate, e hoje o termo “racista” é uma arma, pois qualquer pessoa que seja rotulada de forma justa com ele na nossa sociedade irá perder certos confortos e privilégios (o que é também justo). Como toda arma, essa rotulação pode ser usada para fins escusos. E um desses é a acusação de racismo por “apropriação cultural”, que faz parte, na verdade, até de uma tentativa de ressignificar o que a palavra “racismo” quer dizer, enquanto se mantém sua marca poderosa de desqualificação. Algumas pessoas, influenciadas por acadêmicos que perderam a fé em noções como verdade, justiça, imparcialidade e individualidade, e as substituíram todas por jogos de poder, estão tentando defender que racismo não é preconceito e discriminação injusta por causa de características superficiais (cor de pele, textura de cabelo, etc.). Querem mudar a definição de “racismo” para algo que inclui “desequilíbrios de poder estruturais” na sociedade, uma linguagem propositalmente mal definida e pouco clara, para tornar impossível que grupos que não eram alvos de racismo na história brasileira possam ser vistos como alvo de uma onda de acusação racista por fazerem dreadlock em cabelo da cor e da textura “erradas”. Para quem é astuto com lógica, dada a definição clássica de racismo, atacar pessoas dessa forma, tentando, por causa de sua cor de pele, evitar que usem turbantes ou façam tranças de certo tipo, é claramente racista. Afinal, isso é tratar diferentemente as pessoas com base em sua cor de pele, em vez de com base no conteúdo de seu caráter: é fazer o contrário do que Martin Luther King aconselhou.

A intelectualidade brasileira deve resistir contra essa onda de irracionalidade neorracista nas redes sociais. O que é apenas, afinal de contas, resistir ao racismo em toda a sua diversidade – às vezes, ideias ruins também têm manifestações diversas. É trocando de máscara que ideias ruins como o racismo sobrevivem. A atitude cada vez mais comum de xingar homens negros que namoram mulheres brancas de “palmiteiros”, de fazer ataques em bando a quem usa turbante ou dreadlocks sem ser negro, é racismo e deve ser tratada como tal.