28th of September

Carta aberta sobre conhecimento e política no Brasil


Conhecimentos deveriam se complementar mutuamente. As ciências naturais e as ciências sociais deveriam se sobrepor com o mínimo de inconsistências, como um mapa de estradas e um mapa de topografia do mesmo território se sobrepõem. Ou, como se seus problemas fossem palavras cruzadas, as palavras já resolvidas pelas primeiras deveriam servir como pista para preencher as lacunas que ainda faltam para as últimas, e vice-versa.

Enquanto é previsível que diferentes vocabulários e verdades emerjam de diferentes grupos de pesquisa na mesma área ou em áreas diferentes, seria estranho que uma ciência mais jovem e mais baseada em tentativa e erro tivesse não apenas vocabulário diferente para falar do mesmo território, mas negação peremptória de ciências mais maduras e suas descobertas, especialmente as corroboradas amplamente.

Quando há essa negação peremptória, essas áreas já estão em conflito e então alguma comparação de garantia epistemológica se faz necessária. Em outras palavras: há que se perguntar “de onde tiraram isso”?

No ano passado, bati de frente nas redes sociais, errando no tom mas acertando no propósito, com uma mestranda da filosofia política e blogueira de revista semanal, quando julguei que ela estaria fazendo afirmações tanto em seu trabalho de divulgação quanto em seu trabalho acadêmico que estavam em franca contradição com conhecimentos ou com o escopo da minha área, a biologia. Numa dessas ocasiões, a blogueira nega dogmaticamente que em “qualquer hipótese” a biologia possa contribuir para o entendimento do fenômeno misterioso que chamamos de consciência – e essa blindagem seria completa, já que ela alega que isso ocorre se a consciência fizer “jus à sua definição” (sic), ou seja, que por definição haveria impedimentos à investigação biológica da consciência.

Conheço pessoas que estão trabalhando com neurônios piramidais que disparam de forma errática justamente nos momentos de vigília consciente, e, em 2012, foi em um evento de neurociências e ciências cognitivas que foi publicada a “declaração de Cambridge” sobre a consciência, em que os cientistas alertam à população que vários dos seres vivos dos quais fazemos uso são seres conscientes. Tudo isso largamente baseado em conhecimentos da biologia. Não são desconhecidas, portanto, indicações de relevância da biologia para investigações desse fenômeno. O filósofo John Searle, que trabalha com filosofia da mente, acredita que a consciência “é um fenômeno biológico como a fotossíntese”. Considero que seja possível, embora implausível, que nada de biológico ou dentro do escopo da biologia exista na consciência. Mas está claro que, para ter tanta certeza de que em hipótese alguma a biologia pode contribuir, no mínimo alguma onisciência e presciência é necessária. Pergunto-me “de onde ela tirou isso?”, e nas respostas possíveis não parece haver presciência, mas noções pré-ciência. Uma visão desdenhosa ou até hostil ao conhecimento científico, portanto.

Respostas minhas a ataques à ciência como esse não são novas, na verdade, desde a graduação venho elaborando essas respostas, a mais famosa das quais foi a Silas Malafaia. Mas não se limita a Silas Malafaia a atitude contraditoriamente ao mesmo tempo desdenhosa contra a ciência mas deturpadora e aproveitadora sobre seu prestígio. Leitores lembrarão de livros como “Imposturas Intelectuais”, de Alan Sokal e Jean Bricmont, e “Higher Superstition”, de Paul Gross e Norman Levitt, dedicados a responder a coisas assim. Também entendo que ocorre por vezes (tanto entre acadêmicos quanto em leigos) uma supervalorização da ciência ao ponto de diminuir à irrelevância outras investigações. Não é minha posição, tanto que traduzi um artigo da filósofa Susan Haack que define claramente e critica o cientificismo.

Em meu otimismo, pensei que a postura anticiência da blogueira e outras pessoas das ciências sociais fosse a exceção na área ou entre ativistas como ela. Mas encontro cada vez mais motivos para pensar que o ceticismo contra a razão e a ciência já é dominante nas ciências sociais e no ativismo no Brasil, com estudantes dessas áreas saindo da universidade pensando que fatos não existem, que teorias científicas são apenas mitos particulares de uma cultura, que qualquer posição pode ser defendida bastando ter para com ela fervor moral, pois “pressupostos epistemológicos” podem ser conjurados ex nihilo sem precisar de justificação argumentada e baseada em premissas ao menos tentativamente universais.

Vivemos hoje em sociedades cada vez mais dependentes da tecnologia e do conhecimento científico. Até mesmo para espalhar ideias céticas contra ciência e conhecimento objetivo e ideias excessivamente subjetivistas e mágicas, afinal de contas, usa-se preferencialmente a internet, que não resulta desse tipo de pensamento. Talvez por essa contradição, cresce o cinismo contra as humanidades, como exemplificado nas recentes decisões do Japão visando a cortar fundos para essas áreas. Uma decisão lamentável e que não faz bem à sociedade japonesa.

Enquanto a face pública das humanidades no Brasil continuar sendo de “afrontas artísticas” ao senso comum, pelo prazer de chocar os conservadores e entediar o resto, enquanto for mais a respeito de pregar algo “segundo fulano” do que analisar criticamente se o que fulano disse se sustenta com evidências e argumentos, os conservadores continuarão marcando gols como vêm marcado desde as últimas eleições.

A atitude dadaísta, seja na arte, seja no pensamento acadêmico, contraditória e desdenhosa de instrumentos de investigação que rechaçam contradições, mais simpática à astrologia que à biologia, mais afeita às obscuridades que à clareza, vai ferir as humanidades mais que o pânico anticomunista dos conservadores. Pois enquanto comunistas (ao menos os clássicos) ao menos costumam tentar responder aos conservadores apelando para princípios universais de igualdade e justiça social, tendo alguma chance no debate público, os adeptos do novo dadaísmo sequer tentam fazer isso, negando portanto a legitimidade dos conservadores de participar desse debate público, e frequentemente fetichizando a resposta violenta e a imposição autoritária de suas pautas com desculpas esfarrapadas como “reação do oprimido”.

Ou o progressismo redescobre o conhecimento e a razão, ou vai continuar perdendo feio no ambiente público para as forças conservadoras do país. Dada a atual prioridade de levar pessoas que defendem esse conjunto de ideias danosas ao estrelato, tenho desesperança de que isso vá acontecer no curto prazo e perco eu mesmo o interesse de ajudar em movimentos em que a segregação e a atribuição de privilégios epistemológicos de acordo com características pessoais de quem argumenta estão sendo a palavra de ordem. Sem humanidades não há progresso para a humanidade. Quando humanidades não acreditam em qualquer forma de progresso pela força da verdade e da investigação, quando fecham os ouvidos a outras áreas e caem em exercícios circulares de contemplação do próprio umbigo, a profecia de não existir progresso é autocumprida.

13th of September

Neerja Bhanot e o sentido da vida


5 de setembro de 1986, 5 da manhã. O vôo 73 da Pan American, vindo de Mumbai, pousa em Karachi. É um Boeing 747-121 com 360 passageiros. Os planos de continuidade do vôo após essa escala são interrompidos, uma hora após o pouso, quando quatro palestinos armados tomam controle da aeronave. Eles estavam disfarçados de seguranças do aeroporto de Karachi e traziam rifles, pistolas, granadas e explosivos plásticos; usaram também uma van disfarçada de veículo de segurança para embarcar no avião. Há duas hipóteses para os planos dos terroristas: sequestrar o avião para buscar prisioneiros palestinos no Chipre e em Israel, ou usá-lo como arma, à maneira do 11 de setembro de 2001, contra Israel.

Eles entram dando tiros com arma automática. É aí que entra em ação Neerja Bhanot, uma das comissárias de bordo. Talvez foi ela o membro da tripulação que alertou piloto, co-piloto e um engenheiro de vôo, que logo fugiram por uma porta da cabine. Com essa manobra, os terroristas são forçados a ficar em solo e negociar com a polícia.

Safarini, o líder dos terroristas, exige que o piloto volte, caso contrário atiraria em Kumar, um cidadão americano. Dá 15 minutos aos negociadores. Impaciente com a demora, cumpre a ameaça na frente dos passageiros. Kumar morre a caminho do hospital.

Os terroristas então mandam a tripulação coletar os passaportes dos passageiros. Neerja novamente pensa rápido: os passageiros americanos provavelmente serão alvos de mais assassinatos. Ela esconde uma parte dos passaportes de americanos sob uma poltrona, e joga o resto numa conduta de lixo. O plano parece funcionar, pois Safarini escolhe um britânico, Michael Thexton para ir até o local onde havia executado o americano. O terrorista conversa com o britânico, num aparente lampejo de humanidade diz que não gosta de toda essa violência, mas que era forçado a fazer isso por causa da atuação dos americanos e israelenses na Palestina (o que torna provável que se Thexton fosse americano, teria sido executado). Em vez de executado, o britânico é mandado de volta ao seu assento.

Durante a espera de uma decisão, uma aeromoça arranca instruções para a abertura de uma porta de emergência, bota numa revista e instrui um passageiro perto de uma dessas portas a ler a revista.

A noite cai, o avião fica sem luz, e os terroristas ficam impacientes. Reconhecendo sua derrota, mudam seus planos para um fim sinistro. Após uma oração, um deles mira num explosivo na cintura de outro, planejando causar uma grande explosão e matar todos a bordo. Por causa da pouca luz, o tiro causa uma pequena explosão, não sendo suficiente para matar a todos, nem mesmo aos terroristas. Outras pequenas explosões de granadas também acontecem, igualmente contidas pela confusão do breu. Mas as balas dos terroristas começam a matar os passageiros. Os planos da tripulação com o passageiro próximo à porta de emergência funcionam, ele consegue com sucesso abrir a porta. Neerja se põe a ajudar os passageiros a sair do avião.

22 passageiros morreram, 150 ficaram feridos. Um dos mortos foi Neerja Bhanot. Ela se fez de escudo humano para salvar três crianças das balas dos terroristas. Ela estava a dois dias de completar 23 anos. Neerja recebeu condecorações de honra póstumas da Índia e do Paquistão por sua coragem, batendo recordes com seu gênero, idade e status de civil.

Safarini hoje está cumprindo uma sentença de mais de 100 anos numa prisão do Colorado, depois de um tempo foragido após ser sentenciado a prisão perpétua no Paquistão. Em 2010, outro sequestrador do avião foi morto por um drone americano no país.

***

Depois de alguns séculos quase esquecido, o sentido da vida foi recentemente ressuscitado como problema filosófico na filosofia analítica com o trabalho seminal de filósofos como Susan Wolf. Desidério Murcho, filósofo português e professor da UFOP, resume essas ideias lapidadas de sentido da vida como “entrega ativa a projetos de valor”. Desidério crê que podemos objetivamente saber se uma vida tem sentido ou não. Nenhum desses filósofos duvida que pessoas com atitudes heróicas como Neerja Bhanot são exemplos claros de vidas com sentido. Não é à toa que heróis atraem tanta admiração. Todos nós queremos ter sentido nas nossas vidas.

Fontes da história:
https://en.wikipedia.org/wiki/Pan_Am_Flight_73
https://en.wikipedia.org/wiki/Neerja_Bhanot
http://timesofindia.indiatimes.com/world/us/24-yrs-after-Pan-Am-hijack-Neerja-Bhanot-killer-falls-to-drone/articleshow/5454295.cms?referral=PM

Volume com trabalho de Susan Wolf e discussões dele:
http://www.amazon.co.uk/Meaning-Life-Why-Matters-University/dp/0691154503/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1442148146&sr=8-1&keywords=meaning+of+life+susan+wolf

Volume em português sobre o sentido da vida editado pelo prof. Murcho, incluindo tradução de um artigo de Wolf:
http://criticanarede.com/viverparaque.html