31st of July

“Apropriação cultural” é embuste intelectual


Muito tem sido dito sobre “apropriação cultural”, num sentido específico: de que seria imoral para uma pessoa de certo fenótipo usar elementos de vestuário, música etc. usados como “símbolos de luta” de pessoas de outro fenótipo contra o qual há preconceito e discriminação.

Um exemplo é gente reclamando na internet de pessoas “brancas” que usam dreadlocks ou turbantes. Várias vezes vi turbas de pessoas atacando o perfil de alguém nas redes sociais por isso. Alegam que não querem censurar nem proibir, mas é isso o que ocorre de fato: cria-se o tabu e faz-se policiamento por reprovação pública em grupo. Essa reprovação pública em grupo dá a falsa impressão de que a maioria ou todas as pessoas pertencentes ao tal grupo (“negros”, no caso) concordam com o tabu. Portanto, o resultado que querem é de fato a censura.

Há ao menos duas premissas falsas no conceito de “apropriação cultural” como é usado por gente que alega estar preocupada com justiça social:

– Que existe pureza cultural, de tal forma que duas culturas em contato que trocam informações poderiam ter claramente total crédito por um ou outro pedaço dessa informação. Isso se parece com tratar culturas como se fossem indivíduos em disputa por copyright. O rock veio do blues e do jazz, estilos originalmente negros, mas também veio do country e do folk, estilos associados a brancos “redneck”. Essa diversidade de origens é uma coisa boa, não uma coisa ruim. E as origens são mais obscuras do que normalmente se pensa, por causa da inexistência de pureza cultural. (Somente povos isolados da Amazônia poderiam alegar pureza cultural.)

Uma curiosidade sobre essa premissa falsa é que, enquanto na primeira metade do século XX muita gente autoritária no ocidente estava muito preocupada com pureza racial, como isso é (corretamente) rechaçado hoje em dia, parece que o autoritarismo identitário está recorrendo à ideia de pureza cultural.

– Outra premissa falsa é que pessoas de cores diferentes são necessariamente de culturas diferentes. Pode até fazer algum sentido para um país com história de segregação forçada como os EUA, em que pessoas negras têm até o próprio sotaque. Mas é claramente falso para o Brasil, em que até religiões de matriz afro têm uma proporção razoável de não-negros.

Nos meios virtuais em que o termo pejorativo “apropriação cultural” está em voga, muito se fala em negros e brancos, mas pouco se fala em pardos, e quando se fala, há gente inclusive contrária à reprodução entre negros e brancos, o que é de pasmar. Também é especialmente assustador em um país com tantos indígenas e com tanta miscigenação. Notar o fato de que há muita miscigenação também é apontado como racismo, por algum motivo. Já testei meu próprio DNA, e há nele marcadores das três grandes origens do Brasil: indígena, negra e europeia. Miscigenação se aplica à maior parte do território brasileiro, o que torna mais louca ainda essa ideia autoritária de tentar controlar quem pode usar turbante com base na cor da pele.

Não tem como salvar esse conceito de “apropriação cultural”. É um embuste usado para reforçar autoritarismo identitário, fazer reserva de mercado intelectual para pessoas com base em suas características intrínsecas em vez de suas habilidades argumentativas e conhecimentos. É antiintelectual, é autoritário, é um enlatado importado dos EUA, e é lixo.

_____

P.S.: No caso do turbante, acho perda de tempo tentar descobrir que povo começou a usar primeiro, até porque a resposta a isso provavelmente é que foi inventado várias vezes. É basicamente um tecido enrolado sobre a cabeça, não é preciso ser gênio para inventar isso, eu ficaria surpreso é se tivesse sido inventado uma única vez.

Imagem via Aventuras na Justiça Social.

26th of July

Em defesa da indecidibilidade


Nós ainda não sabemos o que é a consciência, do que ela é feita, como ela é gerada, como ela funciona. Há quem defenda que jamais saberemos. Isso não significa que devemos desistir de debater a respeito nem impede que saibamos que algumas respostas são mais erradas que outras. Ter vontade de encontrar a verdade não implica que você já a tem, nem tira da sua frente os obstáculos a serem transpostos para obtê-la. E alguns obstáculos devem ser, sim, intransponíveis, e te deixam com duas ou mais respostas entre as quais, em vista do obstáculo, é impossível decidir.

Isso tudo é muito fácil de aceitar. Mas em assuntos mais mundanos, que têm a ver com ética, parece que nós temos uma forte tentação a não reconhecer a indecidibilidade. Exemplos:

– Woody Allen é um monstro abusador de crianças, ou Mia Farrow influenciou sua filha supostamente abusada (Dylan Farrow) a denunciá-lo para se vingar dele por tê-la trocado por… outra filha (Soon Yi), adotiva, na idade de consentir? Muita gente, especialmente por compromissos ideológicos, quer fingir saber a verdade. Alguns antifeministas querem fingir que sabem a verdade para poder dizer “estão vendo? Mais uma acusação falsa nesta perseguição cultural feminista contra homens!”, enquanto algumas feministas querem dizer “estão vendo? Mais um predador machista, devemos acreditar nas vítimas, ouvir e acreditar”. Pois estão ambos os campos errados: não devemos concluir que algo é verdade só porque confirma nossas narrativas ideológicas do que ocorre na sociedade. Ter razão neste caso significa ter acesso a evidências fortes, e não escolher o que é “verdade” porque afaga nossos pressupostos. O caso é indecidível. Allen ser inocentado pelo sistema judicial por falta de provas não é a mesma coisa que ele ser de fato inocente, e ser acusado por gente que se encaixa em perfis de vítima não quer dizer que é de fato culpado. Quem gosta e quem desgosta de Woody Allen terá de viver com a dúvida, se tem honestidade intelectual. Neste caso, certeza é para quem é intelectualmente desonesto e ideologicamente motivado. Até, é claro, que surjam evidências conclusivas, o que se torna cada vez menos provável com a passagem do tempo.

– Há algum tempo, uma decisão judicial obrigou uma mulher a fazer uma cesariana, pois a opinião médica era que se ela não fizesse a cesariana o bebê morreria e talvez ela também. A mulher se opunha fortemente a ser submetida a isso, mas foi submetida pela autoridade do Estado com a justificativa de proteger o direito à vida do pequeno cidadão que ela trazia dentro de si. Diferentes intuições entram em conflito, aqui: autonomia individual deve ser preservada, mas também deve ser preservado o direito à vida de bebês já sencientes, como é o caso na fase final da gestação. Radicais libertários olharão o caso e já concluirão: “mais uma vez o Estado abusando de poder e interferindo na autonomia individual”. Radicais leitores de Foucault concordarão por motivos ligeiramente diferentes: “mais uma vez o biopoder esmagando a dignidade individual em função de uma narrativa médica que é supostamente verdadeira”. Já quem tem muita fé na autoridade médica dirá “lá vem os apologistas da ignorância tentando atropelar a expertise médica e botar vidas em risco”. Sabem o que eu acho? Que era indecidível. Que a opinião médica podia estar errada, mas tinha que tomar uma decisão que aumentasse a probabilidade de sobrevivência de gestante e bebê. Que a mulher estava certa em rejeitar que uma autoridade interfira no seu direito de fazer com seu corpo o que bem entende, que ela poderia estar certa em ver riscos em ser submetida a uma interferência invasiva, que ela talvez soubesse do que estava falando quando duvidou da opinião médica. Dependendo, é claro, dos motivos objetivos para dar razão à opinião médica ou à gestante, talvez fosse decidível. Mas na ausência desses detalhes, é indecidível. 

Temos que perder o medo de expressar dúvida nos casos indecidíveis em que a dúvida é a posição mais sensata que se pode ter. Claro que às vezes, quando somos nós os envolvidos, temos que tomar uma decisão rápida e somos forçados a decidir. Mas devemos deixar claro que havia dúvida quando decidimos. Se acertamos, não vai ser muito relevante que estávamos em dúvida, mas admitir que havia tem o efeito humilde de aceitar que o acerto não foi um completo mérito. Se errarmos, a admissão da dúvida aliviará ao menos em parte a nossa culpa, pois pode ser que, diante das informações disponíveis e da limitação de tempo, tenhamos feito o melhor que podíamos, e se erramos não foi por má fé nem ignorância, mas por termos sido forçados a decidir no que era indecidível.
25th of July

In Dubio Pro Hell: dois erros do ativismo LGBT


Ocasiões em que o movimento LGBT errou no Brasil, na minha opinião:
– Quando a maioria concordou que Levy Fidélix incitou a violência. Eu tive discussões épicas sobre isso com gente que respeito muito, mas que continuo acreditando que está errada. O que Fidélix disse naquele debate de candidatos à presidência foi homofobia, foi ódio, foi tudo de feio, mas não foi incitação à violência. Eu vi de tudo para forçar a barra nesse sentido, o que eu achei mais alarmante foi uma tentativa de alargar o conceito de “violência” do senso comum para algo que inclua palavras desagradáveis. Sabe como isso parece para um observador não envolvido? Que o movimento LGBT, quando é conveniente, muda o sentido das palavras, com o propósito de, na ausência de lei criminalizando discurso homofóbico, punir discurso homofóbico pintando-o como outra coisa: incitação à violência. Contei este caso para a filósofa Susan Haack, que recentemente publicou um livro em filosofia do direito (“Evidence Matters”). Ela concordou: o que é contemplado pela lei é violência física, é incitação a socos, linchamentos, pontapés, e num país em que linchamentos ainda são um problema é muito importante que a lei coíba isso. Esticar o conceito de “violência” para incluir palavras preconceituosas é uma estratégia ruim.
– O exemplo a seguir eu jamais dei em público. Eu guardei pra mim. O que eu tenho feito ultimamente, no entanto, é não guardar mais pra mim, pois isso é autocensura. Eu não posso aplicar um princípio ético para meus adversários e outro para meus confrades e comadres, o nome disso é sim hipocrisia. Vamos ao caso então:
Há uns dois anos atrás Silas Malafaia (meu queridinho) reagiu ao uso de fotos de modelos posando de forma similar a santos católicos na parada LGBT dizendo que era para os católicos “caírem de pau em cima deles [ativistas LGBT]”. No contexto está óbvio: o “cair de pau” era força de expressão. O próprio Malafaia se defendeu assim: disse que ele é um carioca que usa muitas gírias (meu caso favorito é quando ele disse que iria “funicar” o presidente da ABGLT, o que soa perigosamente próximo de “fornicar”), que não estava dizendo para ninguém literalmente bater em ninguém. Não era “ato falho”, era metáfora, força de expressão. E qualquer generosidade interpretativa vai corroborar isso. Mais uma vez, uma boa parte dos ativistas (não sei se foi maioria, pois não vi resistência a essa interpretação) alegou que Malafaia estava incitando a violência e deveria ser punido.
Generosidade interpretativa é outra coisa que não devemos aplicar apenas a nossos confrades e comadres. Uma coisa que eu vejo muito entre ativistas é que, em vez de analisar o caso, fazer um “menu mental” de interpretações e considerar quais delas são mais plausíveis, a estratégia é a seguinte: escolhe-se a pior interpretação possível, descarta-se irracionalmente e dogmaticamente qualquer interpretação alternativa, e parte-se para briga com qualquer pessoa que discordar. Eu já fui alvo disso: uma vez postei uma piadinha para divertir amigas lésbicas em que duas mulheres quase se beijavam e a legenda dizia “nessa ceia não vai ter peru”. Uma piadinha de natal. (E sim minhas amigas gostaram.) Imediatamente uma amiga trans caiu em cima, e mais ativistas trans foram se juntando a ela para insistir que a única interpretação possível da piada é que o propósito dela era afirmar que mulheres nascidas com pênis não são mulheres, e que portanto eu era transfóbico por publicá-la. Como eu disse: escolhe-se a pior interpretação possível, e parte-se para a briga contra qualquer outra interpretação, especialmente as mais plausíveis. Eu chamo essa estratégia de “in dubio pro hell”.
Eu também já fiz isso. Uma vez, eu interpretei uma notícia como sexista contra Dilma Rousseff. Amigos e amigas apareceram para criticar a minha interpretação. Eu li as críticas e as aceitei, e reconheci que eu estava saltando à pior interpretação possível sem estar justificado. Eu li e refleti sobre as críticas sem considerar primeiro qual era o gênero, a orientação sexual, a cor etc. de quem estava me criticando, mas considerando apenas se o que estavam dizendo era bom argumento, se era plausível, se era verdadeiro. Coisa que está infelizmente cada vez mais fora de moda. Se não fossem essas pessoas, e se não fosse eu ter alguma (mesmo que às vezes pouca) abertura para críticas, hoje talvez eu seria um ativista “justiceiro social” dão doido quanto os que eu costumo criticar.
23rd of July

Meu comentário que Juremir Machado da Silva censurou


Aguardo seu Magnum Opus de filosofia da ciência ou seu
  bestseller que continuará relevante depois de 30 anos, Juremir.
Fiquei “surpreso” em descobrir hoje que Juremir Machado, colunista do Correio do Povo, fechou os comentários do post em que ele critica Richard Dawkins (veja aqui). Juremir foi bastante ácido com o cientista britânico: “Basta de Dawkins, Modas (sic) passam rápido.”. Pergunto-me se é classificável como moda que “O Gene Egoísta” continue vendendo bem mais de 30 anos após ter sido escrito. Mas OK. Juremir, que deve estar com dor de cotovelo por causa da atuação de Dawkins contra as religiões (contra a qual eu também tenho críticas), resolveu apelar para Paul Feyerabend na crítica dele, enquanto acusava os outros de “modismo” intelectual. Aqui vai meu comentário que Juremir censurou, se recusando a publicar, que talvez motivou fechar os comentários do post:
“Sabe outra moda intelectual que está na hora de passar? O pós-modernismo. Essa neo-ortodoxia que quer matar as ideias de objetividade, imparcialidade e verdade em nome de ideologia. Acusam ciência de ser apenas ideologia porque é isso o que têm, e para quem só tem martelo, tudo é prego.
Em “A estrutura das revoluções cientificas”, segunda edição, Kuhn escreveu um posfácio para tentar responder a seus críticos e se afastar de quem estava usando sua obra para cantar loas ao relativismo epistemológico (a ideia defendida na citação de Feyerabend que você usou). Nesse posfácio, ele citou uma crítica de sua obra que disse que havia uma dúzia de sentidos diferentes para a palavra “paradigma”, pelo uso da qual ele é famoso. Ele então tentou reduzir essa confusão a dois sentidos, mas não fez muita questão de continuar usando a palavra. No modismo pós-modernista, o que mais tem é gente falando “paradigma”. Alguém leva em consideração a confusão por trás disso? Pouca gente. Falar em “paradigmas” soa inteligente, afinal de contas.
‘Os textos de Feyerabend contêm numerosos enunciados que são ou ambíguos ou confusos, que às vezes terminam em ataques violentos contra a ciência moderna: ataques que são simultaneamente filosóficos, históricos e políticos, nos quais julgamentos sobre fatos são misturados com julgamentos de valor’. Alan Sokal & Jean Bricmont, em ‘Imposturas Intelectuais’.
A filosofia da ciência não parou em Feyerabend, Kuhn e Popper. Na verdade, pode-se alegar que nenhuma das ideias pricipais deles é aceita hoje pela maioria de quem trabalha com filosofia da ciência na tradição analítica (a que é mais avessa ao pós-modernismo).
Então, que dizer? Dawkins é um bom divulgador de ciência. Mais que bom, na verdade. Seu ataque pessoal a ele é uma baita irrelevância, e se tem alguém aqui usando modismo ideológico, é você.
Abraço,
Eli Vieira”

* ATUALIZAÇÃO *

Me confundi por um momento achando que na verdade eu não tinha sido censurado pois estava vendo meu comentário no Firefox mas não no Chrome. Na verdade eu fui censurado, sim. O Firefox é que salvou em cache meu comentário, que está “aguardando moderação” desde maio. Veja no print abaixo.


20th of July

Ética do bife: “porque é gostoso” não é resposta (ou: Parte 2 da resposta a mim mesmo quando ataquei o vegetarianismo)


Todos os dias, acordamos e começamos uma rotina de ações, como escovar os dentes. Escovamos nossos dentes porque sabemos que é a forma de evitar problemas como mau hálito, sorriso feio e coisas mais graves. Por estética ou por saúde, temos este hábito pelo nosso próprio bem-estar. Talvez nem saibamos todos os problemas que teremos se não escovarmos os dentes, e talvez até tenhamos uma ideia exagerada dos problemas que de fato aparecerão se falharmos em fazê-lo por um dia. Confiamos em quem nos ensinou que escovar os dentes assegura nosso bem-estar, mesmo que no princípio fosse desagradável. Temos até pastas de dente mais saborosas para convencer as crianças a tomar este hábito, tal é a importância que se atribui a escovar os dentes. E é uma importância justificada pelo que se sabe a respeito do hábito.
Alguém, talvez uma pessoa indígena, poderia perguntar se escovar os dentes é moralmente correto, se é ético, se é fazer o bem. Ou se é imoral, se é antiético, incorreto, indesejável, se é fazer o mal. Porém, a pergunta pode esconder uma terceira via: talvez eu acordar de manhã e escovar meus dentes no dia 2 de novembro de 2014 seja coisa moralmente neutra, inócua, inconsequente! Enquanto é certo uma pessoa escovar seus dentes todos os dias, no sentido de preservar seu próprio bem-estar e não desenvolver por imprudência problemas bucais que afetarão o orçamento da saúde pública, não escovar os dentes especificamente no dia 2 de novembro não parece ser coisa que afete a sua própria vida ou a vida de outrem. Há ações moralmente neutras, que não são certas nem erradas.
No começo dos anos 1990, após um estudo com camundongos, espalhou-se um pânico de que flúor na água e na pasta de dente poderia causar câncer nos ossos. Até hoje, a maior parte dos estudos tendem a concluir que essa suspeita é injustificada e que o flúor não tem essa propriedade. Supondo que fosse verdade, quem soubesse disso e continuasse recomendando a escovação dos dentes estaria agindo errado. Nosso julgamento sobre a moralidade de escovar os dentes pode, portanto, mudar de acordo com conhecimentos novos a respeito do hábito. 
Se um hábito tão corriqueiro quanto escovar os dentes está sujeito a ser reanalisado de acordo com novas informações, que diremos de hábitos como comprar e comer um bife?
Devemos ter, portanto, justificações morais onde forem necessárias. E, se uma ação ou hábito é moralmente neutro – se “não prejudica a ninguém”, como se diz popularmente, é preciso explicitar também os motivos pelos quais acreditamos nessa neutralidade. Note que estamos falando aqui de fazer a coisa certa ou a coisa errada, no sentido ético de certo e errado, e não de leis. Embora leis devam preferencialmente se basear no que é moralmente certo ou errado, nem tudo o que é incorreto deve ser ilegal – imagine se aplicássemos uma lei punitiva para cada vez que alguém se sente ofendido? Seria o fim da liberdade de expressão.
Existem respostas que não funcionam quando se põe em dúvida se uma ação é certa, que dão motivos que não justificam agir de certa forma nem mostram que a ação em questão é neutra. O tribunal de Nuremberg, por exemplo, que julgou crimes nazistas, não considerou por exemplo que “eu estava seguindo ordens” fosse motivo que justificasse que os membros do baixo escalão Nazi matassem e queimassem as pessoas presas em campo de concentração. Era um motivo que não isentava de responsabilidade esses funcionários do regime nazista. Manter em confinamento e matar pessoas por serem de origem judaica com certeza não é ação moralmente neutra ou ação que seja aliviada pela hierarquia relativa entre os agentes. Analogamente, dizer “porque eu estava com pressa” pode até ajudar a autoridade de trânsito a entender por que você estacionou na faixa de pedestres, mas não justifica sua atitude nem te isenta da multa. Porque estacionar na faixa não é moralmente neutro: pode aumentar o risco para os pedestres que desejam atravessar a rua, pode tirar de uma ambulância a oportunidade de aliviar o sofrimento de alguém atropelado, etc.
O hábito de comer carne dificilmente pode ser visto como completamente neutro. Talvez dizer “porque é gostoso” funcione como motivo para comer outros tipos de alimento. Mas não funciona para um bife. Primeiramente, porque o bife pode ser resultado da tortura de um animal (nem sempre é, mas pode ser). Tudo o que precisamos saber para concluir isso é se vacas sentem dor como humanos sentem. Se é errado causar dor desnecessariamente a um ser capaz de senti-la, não interessa se o ser em questão é uma pessoa ou não. Alguém poderia dizer que o problema com a tortura não é apenas infligir dor, mas infligir dor a um ser consciente. Como no caso da hipótese do flúor como tratamento odontológico, nos vemos numa dúvida que depende de pesquisa empírica: é verdade que vacas são seres conscientes? Se formos ouvir especialistas que trabalham com cérebros, que são as mais prováveis coisas no mundo responsáveis pela consciência, a resposta é sim. Vide a Declaração de Cambridge sobre a Consciência (http://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf ).
Mas nem todo bife vem de vaca torturada. “Porque a vaca não sofreu”, então, seria resposta melhor que “porque é gostoso”? Sim, mas talvez não seja suficiente: se estamos falando de um ser consciente, e você como ser consciente sabe que não seria correto alguém numa ocasião banal simplesmente tirar sua vida para, digamos, doar seus órgãos, usando como desculpa que você não sentiu dor na execução, então deveria considerar que, tanto quanto você, vacas podem ter genuíno *interesse em viver*. Se você tem interesse em viver para perseguir uma carreira, o conhecimento, o prazer, vacas também podem ter interesse em viver para fazer suas coisas de vaca. Novamente, não interessa a espécie: interessa se existe interesse em viver.
Se a espécie alvo de uma ação não importa para os critérios pelos quais julgamos moralmente uma ação, isso não parece ser verdade para as prioridades. Quando é preciso escolher entre a vida de um ser humano e a vida de uma vaca, o primeiro tem prioridade em função de suas capacidades de sofrimento e interesses. É por isso que os inuits (“esquimós”) que não têm escolha a não ser matar e comer animais, sendo a alternativa sofrimento e morte humanos, estão plenamente justificados em sua carnivoria. Se não podem fazer diferente, não devem. O dever moral de fazer algo vem sempre acompanhado de ter a capacidade de fazê-lo. Quem não pode não deve.
Mas hoje, no Brasil, há poucos que podem alegar que não podem. Se podemos ao menos nos perguntar se a carne que consumimos foi produzida com tortura, devemos. Quem decide que a carne que consome deve ser produzida sem dor está fazendo a coisa certa. Se algum tipo de carne que consumimos veio da interferência no interesse de viver de um ser consciente, está fazendo a coisa certa quem decide encerrar o consumo e procurar alternativa.
“Porque é gostoso” não responde a nada disso, e muito menos estabelece que é moralmente neutro comer o que é gostoso. Um canibal poderia responder o mesmo sobre comer carne humana, nem por isso o canibalismo estaria isento da necessidade de se justificar. Nem mesmo para um prato de salada “porque é gostoso” funciona na justificação, pois o que demonstra a neutralidade moral de comer o pé de alface são as propriedades da planta e as consequências de produzi-la, não seu sabor. 
Se essa resposta não resolve nada, talvez seja uma tentativa de usar o humor para silenciar a própria razão de considerar o problema. O humor, para o bem e para o mal, tem o efeito de apaziguamento mental – e a dúvida sobre a moralidade do que se faz rotineiramente traz um desconforto mental.
É uma atitude anti-intelectual, portanto, se esconder por trás de respostas preguiçosas como “porque é gostoso”. Uma atitude que em si é moralmente ambígua, pois foi usada no passado para tentar “justificar” atitudes de inócuas a gravemente danosas como a escravidão. No passado, pouca gente sabia que escravizar era errado, hoje não sobrou país que explicitamente permita a escravidão em suas leis. No passado, expulsar homossexuais de casa e tentar obrigá-los a mudar de orientação sexual era considerado correto, hoje, cada vez menos pessoas concordam com isso. A próxima fronteira no lento avanço da humanidade em coisas que podemos e devemos fazer diferente será, provavelmente, em direitos de animais não-humanos. Seu principal impedimento não será o sabor do bacon, mas a ignorância voluntária. Mesmo que comer bacon especificamente no dia 20 de julho de 2015 seja uma ação moralmente neutra.