24th of May

John Searle e a sede por uma ciência da consciência


Na última quinta-feira, fui a uma palestra do John Searle. Filósofo famoso pelo experimento mental do “quarto chinês” ( http://en.wikipedia.org/wiki/Chinese_room
). Ele veio aqui para palestrar sobre a consciência, que ele acredita
ser causada pelos processos neurobiológicos no cérebro (concordo), mas
que não pode ser reduzida ontologicamente a isso (preciso entender
melhor o que ele quer dizer com isso).
Em outras
palavras, em se tratando de consciência e cérebro, ele dintingue
reducionismo causal de reducionismo ontológico, crê no primeiro mas é
cético quanto ao segundo. Comparou o estado da arte do conhecimento
sobre a consciência com como se falava de seres vivos no século XVIII, e
a controvérsia entre vitalistas e mecanicistas. Os vitalistas propunham
que os seres vivos não poderiam ser apenas processos físico-químicos, e
que tinham uma coisa chamada de “élan vital”, irredutível à química.
Como é dito em livros-texto, eventualmente os vitalistas perderam essa
batalha, e hoje estamos perfeitamente seguros em dizer que os seres
vivos são em sua intimidade um conjunto enorme de reações e processos
bioquímicos, especialmente depois da descoberta do DNA e sua estrutura.
No entanto, antes de muito apressadamente dar o troféu para
mecanicistas, Searle sugeriu que o que entendemos como mecanismo hoje em
dia nas ciências biológicas difere de forma importante do que era visto
como tal naquela época, algo mais próximo do que Descartes entendia
como “mecanismo”.
E Descartes foi bem lembrado na
palestra – para deixar claro que o dualismo não merece crédito e que
“não devemos ‘nos deitar’ com Descartes”. Mas outro inimigo da
investigação da consciência é, diz Searle, a própria ortodoxia das
neurociências, onde o fenômeno precisa ser investigado. Ele diz que há
uma pressa em alegar coisas obscuras como “consciência é uma ilusão”, ou
tentativas gananciosas de reduzi-la a candidatos ruins como algoritmos
ou programas de computador. A consciência é uma experiência subjetiva,
mas alegar que por isso não pode ser investigada objetivamente é uma
falácia da equivocação. Consciência é a experiência integral das nossas
sensações, o que começa quando acordamos e cessa temporariamente quando
voltamos a dormir. É falso alegar que está fora de um universo natural
“causalmente fechado” – afinal, se eu comandar meus dedos a digitar esse
texto, é isso o que eles fazem, então minha consciência está atuando
causalmente no mundo. E é uma via contínua – se a consciência é causal
sobre o mundo, ela é causada pelo mundo, especificamente por “essa coisa
pegajosa aqui dentro”, como disse Searle, apontando para o próprio
crânio.
Foi uma palestra bem-humorada, alguma coisa no
filósofo de cabelos brancos e camisa cor-de-rosa me lembrou Al Pacino.
Mas o rigor intelectual não sofreu na mão do humor: quando uma curiosa
da plateia perguntou sobre a “linguagem causal” que ele usou, ele disse
algo como “fui impetuoso nesta palestra, mas admito que há ambiguidades
que atropelei”.
Searle me parece alguém com uma
curiosidade sedenta para saber o que é a consciência em mais detalhe. É
uma prova viva de que as barreiras entre ciência e filosofia são
artificiais, e que frequentemente os cientistas são a parte mais
cabeça-dura dessa cerca artificial. Mas não deixa essa curiosidade
sedenta baixar sua guarda com o rigor intelectual que um problema
complexo como esse demanda.
O que mais me fez pensar no
Brasil foi uma coisa que ele disse en passant. (A citação a seguir é
fidedigna ao que foi dito na palestra, mas não é verbatim.)
“É
um constrangimento para a comunidade intelectual que o behaviorismo
tenha durado tanto tempo. É claro que uma experiência não pode ser
reduzida ao comportamento que acontece em resposta à experiência. Eu
posso botar a mão no estômago e fazer uma careta convincente, e
reproduzir todos os sinais comportamentais de estar sentindo dor, mesmo
não sentindo. E uma pessoa sem sinais comportamentais de dor pode estar
sentindo dor. Eu achei que poderíamos começar a investigar a consciência
tomando uma parte dela, como a experiência consciente da dor. Foi só
começar a ler as pesquisas sobre dor para notar como é uma coisa muito
complicada, e que pode haver dor que está abaixo do limiar da
consciência. Por coisas assim investigar honestamente a consciência é
tão importante – saber sobre a consciência de seus pacientes é algo que
preocupa pessoas da comunidade médica ao redor do mundo. Hoje drogamos
as pessoas quase cegamente para resolver coisas como a depressão. A
verdade é que mal sabemos o que estamos fazendo, porque somos ainda
muito ignorantes sobre a consciência e a mente”.
Então,
em vez de começar a entender a consciência por uma coisa tão complicada
quanto a dor, Searle sugere que comecemos por algo aparentemente mais
simples, como a sede (disse enquanto bebia seu copo d’água). É
inspirador ver um investigador sênior tão incansavelmente sedento por
saber mais.
8th of May

Between a Carl Sagan and a Neil DeGrasse Tyson there is a big pit of scientism


“There are naive questions, tedious questions, ill-phrased questions, questions put after inadequate self-criticism. But every question is a cry to understand the world. There is no such thing as a dumb question”.

– Carl Sagan, The Demon-Haunted World.

“That [i.e. philosophy] can really mess you up.
I agree [that there is too much question asking in philosophy].
My concern there is that the philosopher believes they are really asking deep questions about nature. To the scientist it’s ‘what are you doing? Why are you wasting your time?’. Why do you concern yourself with the meaning of meaning?
If you are distracted by your questions you cannot move forward. You are not being a productive contributor to our understanding of the natural world. So the scientist knows when the question […] is a pointless delay in your progress.
It devolves into a discussion about the definitions of words and I’d rather keep the conversation about ideas. When you do that you don’t derail yourself on questions that you think are important because philosophy class tells you this but the scientist says ‘look, I’ve got this world of unknown out there I’m moving on and I’m leaving you behind and you can’t even cross the street because you`re distracted by what you are sure are deep questions you have asked of yourself and I don’t have time for that.’
You need people to laugh at your ridiculous questions.” 

– Neil DeGrasse Tyson (Source, from 20:19 – http://www.nerdist.com/pepisode/nerdist-podcast-neil-degrasse-tyson-returns-again/ )
This is what happens when you don’t care about philosophy: your description of what being a scientist is sounds a lot like the description of what is to be a 21st century American man uncritically indoctrinated into concepts like being “productive” (I’d start with Bertrand Russell’s opinion piece “In praise of idleness” here), “progress” (yes we can believe in progress but denying philosophy does it too or is responsible for it is a naïve, uncritical way of believing in progress), and, of course, the idea that there is such thing as a ‘ridiculous’ question and questions like ‘what is identity?’ and ‘what is being good or bad?’ are ridiculous questions invented by the philosophy department to distract people away from doing whatever 21st century American people think it’s best to do.
The net result is that behind a gifted science populariser lies an anti-intellectual of the American brand, described at length in Carl Sagan’s “Demon-Haunted World”.
P.S.: If anyone knows how to discuss ideas properly without having working and clear definitions of the words involved, please let me know.
1st of May

Invertebrados e humanistas


Há 200 anos, Jean-Baptiste Lamarck, naturalista francês, dividiu os animais em vertebrados e invertebrados. Note que a divisão é desigual de uma maneira importante: vertebrado é uma classificação positiva, baseada na presença de um órgão observável que é a coluna vertebral. Invertebrado é uma classificação negativa, ou seja, é um nome para os bichos que não têm esse órgão.
Após a teoria da evolução e outros avanços, a biologia aprendeu que a classificação “invertebrados” é chauvinista, nada explicativa, e não junta os animais de uma forma que reflita sua história ou suas características. Nós biólogos ainda chamamos animais de invertebrados nas nossas disciplinas, mas sabemos que é uma forma artificial de chamá-los e que, para compreendê-los, de nada adianta saber o que eles não têm (coluna): precisamos saber o que esses animais nos mostram ter, de forma positiva (positiva no sentido de afirmativa): ctenóforos têm corpo gelatinoso, como cnidários, mas diferente dos últimos são bilateralmente simétricos. Para entender cnidários e ctenóforos, pensar no que não têm em comum não acrescenta nada. Ou seja, a categoria dos invertebrados é meramente instrumental.
A minha conclusão é que os termos “ateu” e “ateísmo” são da mesma natureza de “invertebrado”. Unir pessoas com base numa falta de fé tem que ser meramente instrumental, não se pode esperar que grandes realizações resultem disso (no momento que um ateu propõe uma coisa, a chance de haver outro que acredita no oposto é alta). É preciso mais que criticar: é preciso propor. Ninguém que é ateu deve se sentir obrigado, em virtude do ateísmo, a pensar criticamente, a ser cético, a gostar de filosofia e ciência, a se importar com direitos humanos, democracia e Estado laico. Esse conjunto de valores em conhecimento e conduta forma a coluna vertebral do humanismo. Humanistas nem precisam provar a que vieram: já existe uma longa história de suas realizações.
Forçadas a arregaçar as mangas diante do silêncio do cosmos, as pessoas humanistas examinam, reexaminam, propõem e criticam. Discordam entre si, afinal é preciso partir de uma pluralidade de hipóteses, mas frequentemente convergem em investigações independentes. Só querem saber do que pode dar certo, não têm tempo a perder, mas sabem que prazer não é necessariamente tempo perdido. A vida é finita e pode ser melhor aqui e agora. E “vida” não significa apenas “vida humana”; “finita” não significa “aceitamos qualquer conclusão que puder ser obtida no prazo de uma vida”; e “melhor” não significa “o que importa é ter mais gente pensando exatamente como nós”, nem significa “vamos praticar justiça punitiva para ferir quem feriu, excluir quem excluiu, e censurar quem censurou”.
Não é fácil, não é popular, e o sucesso não é garantido. Faz-se as coisas mesmo assim porque omissão é uma decisão perigosa. E não há nada mais terrível no leito de morte de uma pessoa humanista que a sensação de que não se dedicou a nada além de si mesma, não construiu nada, não aplicou tempo e esforço em projetos de valor que valorizam a própria vida, e que esta vida pode ser descrita pelo que não teve, uma vida “invertebrada”.