31st of March

Sobre os 50 anos do Golpe Militar


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27th of March

Religião se discute, contanto que com respeito: por que não sou cristão e por que sou ateu


Como sou um otimista incorrigível, acredito ser possível discutir religião sem ferir sentimentos. E acredito que posso explicar por que sou ateu de forma suficientemente objetiva, para que quem quiser compreender, compreenda, concordando ou não.
Ao contrário de alguns outros ateus, eu não acredito que tenho o dever de convencer qualquer pessoa a ser ateia, muito menos acredito que o mundo será melhor se todas forem. (Um ateu que veio se comportar de forma machista e homofóbica no meu perfil ontem é evidência de que isso não é verdade.)
Então aqui vai, de forma resumida – por que não sou cristão, e por que sou ateu.
1) Por que não sou cristão?
1.1 Ética
Agora que já passei da fase da revolta adolescente contra religião, que é comum em quem a abandona cedo (no meu caso, entre 14 e 15 anos), posso apreciar o que há de bom na mensagem cristã. Num mundo de linchamentos e impérios de dois mil anos atrás, certamente era uma pessoa com um conhecimento ético avançado quem defendesse o perdão, e quem defendesse que nós podemos reparar o que fizemos de errado. Que são umas das coisas que Jesus diz na Bíblia. E, talvez mais importante que isso, são as coisas que me ensinaram na minha educação católica. Alguns ateus cometem o erro de pensar que o cristianismo está na Bíblia antes de estar nos cristãos, então catam os piores trechos bíblicos para condenar o cristianismo. Mas isso demonstra uma ingenuidade antropológica sobre a natureza do fenômeno religioso… crer que o cristianismo é apenas uma “religião do livro” é ignorar o quanto há coisas que a maioria dos cristãos praticam que derivam de interpretações generosas da Bíblia e práticas comunitárias, em vez de literalismo estrito com textos (Jesus diz que veio para trazer a espada e voltar a nora contra a sogra? Sim. Mas não é onde a maioria dos cristãos foca suas crenças, e o cristianismo são eles e não citações impopulares de Jesus). Os ateus ainda estão aprendendo o que é isso – viver em comunidade de crença, não apenas na internet, mas fisicamente. Não é justo generalizar o cristianismo tomando a Westboro Baptist Church (pequena igreja fundamentalista que faz piquetes até em funerais) assim como não é justo generalizar sobre o ateísmo tomando seus piores exemplos. É preciso uma racionalidade estatística para lidar com fenômenos complexos… então se é para comparar cristãos a ateus, corrija-se para escolaridade e outras variáveis sociais.
Enfim, reconhecida a mensagem moral positiva do cristianismo moderno, com alguma raiz no Jesus bíblico, ainda preciso explicar por que isso não me faz cristão. Em primeiro lugar, porque a mensagem moral positiva do cristianismo não tem nada de exclusivamente cristã. Não é monopolizada pelo cristianismo, nem foi invenção do cristianismo. A “lei de ouro” de não fazer aos outros o que não quer para si (que tem alguns problemas se analisada com cuidado, mas em geral se aplica) apareceu em outras religiões e também em contextos seculares. Os materialistas de cerca de três mil anos atrás, na Índia, a defendiam também e queriam o fim do sistema de castas. O budismo a defende também, e Confúcio. E além de não ser exclusiva do cristianismo, a moralidade cristã não é completa. Quando há problemas não tão difíceis de resolver eticamente falando, como o aborto e a eutanásia, os cristãos geralmente têm problemas para perceber que não são bichos de sete cabeças (há exceções notáveis, como as Católicas Direito de Decidir). Quando se encontram diante de problemas mais difíceis da modernidade, como “os pais devem poder decidir qual orientação sexual os filhos vão ter?”, a pessoa cristã média tem tantas dúvidas quanto a pessoa ateia média (ou muçulmana, espírita ou candomblecista). Em outras palavras, o cristianismo não dá insight moral especial ao cristão sobre casos éticos contenciosos, e pode turvar sua visão para casos não tão contenciosos. E eu digo que pode turvar por causa das outras crenças do cristianismo das quais ainda não falei: as crenças sobre fatos. Mas para resumir as crenças sobre ética, o que eu penso é: o cristianismo dá uma mensagem moral genérica que é positiva, por seu próprio mérito (não estou falando da aplicação), mas não é uma mensagem suficientemente impressionante ou original para “vender” o cristianismo como melhor que as alternativas.
1.2 Fatos
Indo agora às crenças cristãs sobre fatos, começo pela crença à qual fiz alusão e penso que turva suas decisões em alguns assuntos éticos: a crença em alma ou espírito. A crença de que nossas personalidades, nossas mentes, existem numa substância misteriosa que habita nossos corpos e sobrevive à sua morte. Primeiro, a evidência para acreditar nisso é, para ser generoso, insuficiente. É uma afirmação sobre como o mundo funciona, que o mundo, como ele funciona, não se cansa de contradizer. Phineas Gage no começo do século XX acidentalmente teve o cérebro atravessado por uma barra de metal, e os melhores relatos são de que após isso mudou a personalidade, o comportamento moral, etc. Henry Molaison, após remoção cirúrgica de parte de seus hipocampos, passou a ser incapaz de formar novas memórias declarativas. Não me equivoco: sei muito bem que quem se subscreve ao evidencialismo nessa questão sou eu, e nenhum cristão é obrigado a crer que essa é a melhor forma de abordar. Certamente acreditam ter outras razões – se alguma – para acreditar em espíritos e vida após a morte. (Tenho esperança de que não seja apenas por medo, pois acho que qualquer pessoa reconhece que crer ou deixar de crer em algo por medo é irracional – e por mais que compreendamos que alguém em severo luto negue que seu ente querido morreu, seus sentimentos nada têm a ver com a verdade de o suposto falecido estar morto ou não.) Acredito que é essa crença, de que há uma substancia essencial, invisível e sobrenatural carregando nossas personalidades, que obscurece o julgamento de muitos cristãos na hora de pensar em aborto e eutanásia. Colocando vidas em risco e causando muita dor desnecessária neste ínterim: atribuindo capacidades demais a fetos e mórulas, às custas das mulheres que os carregam, e fazendo o mesmo com pessoas com completa morte cerebral, ou crendo que não há problema em pessoas marcharem para sua morte com dor excruciante, e que não podem decidir sobre seu próprio fim, por crer que terão oportunidade de se cicatrizar numa outra vida. Tenho noção de que a relação mente/cérebro está longe de ser compreendida dentro do paradigma naturalista, se será um dia (o filósofo Colin McGinn acredita que atingimos nossos limites como seres cognoscentes nesta questão e jamais saberemos a resposta). Mas ter problemas numa teoria não favorece automaticamente as alternativas. Os problemas na teoria de uma sociedade sob um Estado de bem-estar social não são evidência de que corretos são os libertários extremistas que fazem apologia ao egoísmo ou os marxistas mais marxistas que Marx que querem a revolução do proletariado agora mesmo.
As outras crenças sobre fatos dentro do cristianismo são, em resumo, de que houve um homem sábio no oriente médio há dois mil anos chamado Jesus (evidência circunstancial, mas existente), de que este homem era filho de Deus (o que é apenas alegado e aceito por fé), e de que ele passou três dias morto e ressuscitou (em franca contradição com tudo o que se sabe sobre organismos humanos). Alegações sobrenaturais também são feitas no Islamismo, em que muitos acreditam que Maomé subiu aos céus num pégaso, no Budismo, em que descrevem um comportamento inesperado de animais frente à figura de Siddartha Gautama, no espiritismo, em que alegam que objetos podem ser “materializados” por pessoas mortas (enquanto a física diz que precisamos de estrelas para formar elementos mais pesados que o hidrogênio), nas crenças populares dos povos indígenas nas Américas (lembro que havia a crença popular de que a planta mandioca veio de uma menina injustiçada que foi enterrada), etc. Os exemplos são inúmeros, e o trabalho interessantíssimo de descrição comparada de crenças sobrenaturais existe ao menos desde o livro “The Golden Bough” de James Frazer. Aqui, o problema é que eu não acredito que uns povos têm mais acesso à verdade que outros, especialmente sobre o universo. Tenho razões para crer nisso, por exemplo, a alta similaridade genética e de capacidades cognitivas entre pessoas das mais diferentes etnicidades. Sim, alguns povos diferem de outros quanto à produção de conhecimento nos últimos séculos, mas isso é explicado pelo ambiente, não por supostas características cognitivas intrínsecas desses povos (ver “Armas, germes e aço” de Jared Diamond). Então, onde faz alegações sobre como o mundo é ou foi no passado, o cristianismo não me parece especialmente privilegiado no acesso à verdade. E numa era de câmeras e smartphones, é curioso que coisas espetaculares como Elias subindo aos céus numa carruagem de fogo não pareçam acontecer mais, e quando acontecem a investigação ou termina em conclusão negativa ou é inconclusiva.
Mas a discordância entre religiões diferentes, e a aparência de que são todas igualmente dignas de crédito, certamente não justificam que estão todas erradas. Então por que sou ateu?
2) Por que sou ateu?
Em primeiro lugar, ser ateu não significa acreditar que todas as religiões estão erradas. Simplesmente pelo fato de que há religiões ateias. O budismo clássico é uma. (Ler este texto que escrevi sobre a história do ateísmo na Índia: http://www.bulevoador.com.br/2009/12/historia-do-ateismo-parte-1-india/ ) Então não precisamos entrar em pânico a respeito de ateus querendo eliminar religiões, ao menos ateus como eu. Os que pregam suas enormes (e injustificadas) esperanças de que as religiões sumam da face da Terra ignoram que a crença do ateísmo não é novidade nenhuma no próprio cenário religioso.
É preciso definir o que é Deus, ou o que são deuses, em respeito às religiões politeístas. (A propósito, aquela frase bonitinha de que as religiões são diferentes mas acreditam no mesmo deus é falsa.) Parece-me útil partir das capacidades mentais dos deuses – deuses, em primeiro lugar, são entidades com capacidades mentais.
Nisso, estou excluindo algumas definições de deus(es), como a panteísta (Deus = Natureza, de Spinoza) e uma que aparece até em teologia cristã, de que Deus seria “a base de todo ser”. Por que? Bem, primeiro porque a natureza já tem nome – natureza, e a maior parte das pessoas teístas (que acreditam em um ou mais deuses) certamente não crê que a natureza é sinônimo de deuses, exceto se forem animistas, mas estes atribuem capacidades mentais, intenções e planos, às entidades naturais que instanciam a divindade (então se encaixam na definição que comecei a delinear). Segundo, porque a física poderia alegar também que algo é a “base de todo o ser”, outras metafísicas poderiam usar o mesmo termo para entidades desprovidas de mente e mais parecidas com “supercordas” ou “partículas” ou o que quer que seja, e não precisariam crer, como crêem os teístas, que essa “base de todo o ser” se preocupa com nossas vidas ou tem algo a ver com o mundo como ele é (ou o criou intencionalmente).
Então, continuando: deuses são entidades dotadas de mentes que ou criam ou controlam parte ou a totalidade do mundo ou da realidade aparente, incluindo ou não origens, destinos e aspectos éticos das vidas humanas.
Isso parece incluir satisfatoriamente a maior parte das definições de deuses, inclusive a de deístas como Voltaire, os deuses gregos, e Javé. O que todos esses deuses têm em comum são as capacidades mentais. Ocorre que a única mente que conhecemos com capacidades semelhantes às descritas para os deuses, sem sombra de dúvidas, é a nossa própria. Também conhecemos um pouco a mente de elefantes, chimpanzés, golfinhos e corvos, mas por mais impressionantes e belas que sejam essas mentes, não passam perto de ter um poder criador e transformador sobre o mundo como um todo. Então temos um único exemplo de mente criadora. Se considerarmos que somos uma em cerca de 3 milhões de espécies animais (uma subestimativa muito conservadora), então a probabilidade de aparecer uma mente criadora é muito baixa, se considerarmos as espécies como eventos independentes e oportunidades independentes de surgimento espontâneo de mentes. Estou partindo de conhecimentos pouco controversos sobre espécies animais e sobre nós, não estou nem mesmo considerando evolução (que também não é controversa). Se a probabilidade para nossa mente limitada e criadora é tão baixa, então para uma mente mais poderosa, capaz de controlar ou o clima, ou o planeta, ou o universo inteiro, tem de ser evanescentemente mais baixa. E esta é uma das evidências de que uma crença na inexistência de divindades é justificada.
Quando consideramos Deus, o das religiões abraâmicas que é o mais popular no Brasil hoje, outros problemas emergem: se for definido como onipotente, onisciente e onipresente, o problema é de lógica, pois essas propriedades são autocontraditórias. Se for definido como perfeitamente benévolo e extremamente poderoso, isso entra em contradição com o mundo como ele é, não só para humanos como também para outros animais. Essas e outras coisas se juntam num conjunto que passei a chamar de evidências de inexistência de divindade. Explico em mais detalhe em textos espalhados, nenhum dos quais me satisfaz (em terminologia, meus conhecimentos filosóficos quando os escrevi, etc.), mas dão uma impressão geral do meu pensamento sobre o assunto:
E então, o que fazer com isso tudo? Eu faço, em primeiro lugar, porque gosto de pensar que amo a verdade, então esse foi o pequeno esforço que fiz para tentar encontrá-la nas questões religiosas, no mundo mental que habito nesta vida que creio ser finita. E comecei, quando adolescente, por examinar as falhas que frequentemente são cometidas nesta busca – como a falha de acreditar no que queremos acreditar, e não no que podemos ler no livro do mundo, tanto o interno quanto o externo.
Mas, como Confúcio já dizia, amar a verdade não significa encontrá-la, ter tempo para trabalhar buscando-a, etc. Essa tem sido minha opinião até o momento, na qual posso estar enganado, mas a respeito da qual respostas fáceis não resolverão, se a intenção for mudar minhas ideias. Sinceramente, acho muito improvável, diante de tudo o que eu disse acima, que eu volte um dia a crer em coisas como ressurreição de Jesus, imaculada concepção de Maria, etc.
Agora, o que não admito é ser tratado com preconceito por pensar como eu penso. Ainda mais por pessoas que, apesar de toda a retórica popular de que educação é uma coisa boa e estudar e ler são coisas tão boas que são usadas até como símbolo de status, não fazem o mínimo esforço em de fato se educar, estudar e ler. E sim, isso inclui estudar e ler a Bíblia, mas onde for relevante, e não na esperança de que ela magicamente converta o leitor ao cristianismo (tarefa difícil, dados alguns trechos extremamente problemáticos, eticamente falando, que ela tem).
Quem me trata diferente por eu ser ateu, ou alguma outra coisa, é responsável pela qualidade de suas próprias ideias, tanto quanto eu, e se for verdade que a história julga, estou tranquilo quanto à minha inocência. Estou fazendo o que posso (nem sempre o melhor que posso, não usarei desse insicero clichê, pois às vezes falta motivação), e meu pensamento, exceto onde eu puder dizer o contrário enquanto vivo, fala por mim.
Obrigado a quem leu até aqui.
7th of March

Em defesa do pseudofilósofo Olavo de Carvalho


Sou contra denunciar Olavo de Carvalho para deletar o perfil dele. Será que não perceberam que a carreira inteira dele é baseada em se fazer de vítima? Num evento de astrologia, antes de sair do Brasil, ele anunciou que estava sendo perseguido pela esquerda. Evidências disso, zero. Então não dêem na internet as evidências que ele não tinha na época.
Deixem o guru dos conservadores em paz. É falando mesmo que ele se enterra – julga-se detentor de refutações contra a mecânica de Newton, a evolução de Darwin, a relatividade de Einstein. É um megalomaníaco, pseudofilósofo, desconhecido na comunidade filosófica internacional, buscas pelo nome dele em indexadores de artigos de filosofia dão zero resultados, tem uma epistemologia tão porca que aceita astrologia como verdadeira, e os melhores defensores que ele tem são sujeitos que oferecem 50 mil reais para seus opositores “refutarem ao menos uma página de seu livro” (sic), e que não conseguem dar uma só tese filosófica original avançada pelo suposto filósofo.
O mais divertido é ele se fazer de pessoa espiritual, conectada com a bondade divina, quando parece mais uma fusão entre a boca suja do Ary Toledo, os valores do Bolsonaro, a conexão com a realidade da Fábia da Física do Petrefiolismo e a arrogância insensata daquele gaviãozinho dos Looney Tunes.
Olavo é o que os americanos chamam de “crank”. O artigo sobre o que é um “crank” na Wikipédia parece uma biografia dele. http://en.wikipedia.org/wiki/Crank_(person)
Literalmente, “crank” é manivela. Deixem a manivela girar o realejo das bobagens infinitas. Até a musiquinha do realejo de um fóssil ideológico político da Guerra Fria, pseudofilósofo cheio de teorias da conspiração, merece espaço. Afinal, precisamos saber que pessoas assim existem e atraem seguidores – digamos que ajuda a refletir sobre o estado da educação no Brasil.
Este post foi patrocinado por FETSI®, o refrigerante adoçado com fetos.

Bônus: Escola Olavo de Carvalho de Argumentação Coprolálica

Estão abertas as inscrições para a Escola Olavo de Carvalho de Argumentação Coprolálica. Garantimos aos alunos que aprenderão os melhores xingos da língua portuguesa para vencer debates.
Ementa:
1. Introdução ao “p* que pariu”.
2. 50 tons de vai tomar no *.
3. Fetos abortados, açúcar mascavo e zero-cal: três sabores de marxismo cultural.
4. Darwin é o * da tua mãe.
5. Newton é o * do teu pai.
6. Einstein é a b***** relativa da tua avó.
Garantimos, como mostra a imagem, carreira de sucesso na área da filosofia, como o famoso Doutor Olavo.
(Título de Doutor Honoris Causa em Filosofia concedido pelo deputado federal Marco Feliciano.)
4th of March

Sobre gêneros e deterministas culturais


A nova estratégia de deterministas culturais é “fearmongering” – incitação ao medo. Para expulsar a biologia da compreensão da dimensão biológica de gênero e orientação sexual (que é inegável), agora a moda para tentar censurar a curiosidade sobre isso é alegar que será apenas outra fonte de segregação. Pode até ser, é possível. Mas ser possível não é sinônimo de ser provável, e ser submetido a mau uso não significa ser falso.
Ferramentas boas como a ciência são eficientes tanto para o mal (aumento de sofrimento) quanto para o bem (diminuição de sofrimento, libertação de oprimidos). A pílula foi, afinal de contas, um instrumento poderoso do feminismo – e se não a pílula, os conhecimentos das ciências biológicas sobre as intimidades hormonais do sexo biológico feminino. Mas esses conhecimentos foram, também, usados para o mal. Quem julgará que um conhecimento deve ser silenciado, e não expandido, para que não cause mal? Pode ser verdade para armas nucleares, talvez, mas é muito mais nuançado para coisas como biologia humana.
Por décadas, a biologia evolutiva foi demonizada com o uso do “darwinismo social”, uma invenção de Herbert Spencer, não de Darwin – que era abolicionista e sem dúvidas humanista. Grandes divulgadores da biologia evolutiva como Stephen Jay Gould investiram enormes esforços para desmistificar essa demonização, infelizmente generalizada em certos círculos ideológicos da academia de humanidades. Felizmente, as coisas mudaram bastante, e quase não se vê mais defensores do mito da Tabula Rasa.
Quando não se tem rigor intelectual, qualquer ideia bem engendrada ou apenas defendida com retórica ofuscante já se torna verdade absoluta para alguns. Felizmente, ciências empíricas têm mecanismos de correção – e outras investigações também, no entanto as áreas acadêmicas variam em rigor entre si, pelo seu processo histórico, e também pela variação de atividades em universidades diferentes – tanto em ciência quanto em humanidades.
A ideia de que o gênero é uma pura construção social, por exemplo. Papel de gênero não é tudo por trás de gênero. Evidentemente, de Luís XIV para Barack Obama, papel de gênero masculino, ao menos quanto a estética, mudou enormemente e isso salta aos olhos. Mas por que motivo a maioria das sociedades limitam suas categorias de gênero a poucas, e na maioria a apenas duas – homem e mulher? Porque há mais para essas categorias que simples construção social e papéis impostos. Não é plausível supor que sociedades ameríndias e da oceania, separadas culturalmente por mais de 50 milênios, tenham construído números similares de gênero por razões puramente culturais, mesmo que papéis de gênero sejam sem dúvida marcadores dessa distância cultural.
Gênero é invenção, no entanto a maioria das sociedades, que é patriarcal, sabe identificar muito bem que gênero oprimir: as mulheres, em todas as suas diferentes manifestações culturais – porém compartilhando algo em comum que é tanto sócio-cultural quanto biológico: o gênero feminino.
Se a cultura é onipotente sobre invenções de gêneros, onde estão sociedades com mais de 30 gêneros? Se castas indianas contam como gêneros, isso, creio, é no mínimo surpreendente, dado que dentro de cada uma dessas castas, as categorias homem/mulher (entre outras) existem e sabemos bem quem leva a pior.
Quando sua teoria sobre gênero é permissiva o bastante para com determinismo cultural, fica difícil compreender como é que mulheres simplesmente não optaram por ser homens para não sofrer mais opressão em algum lugar, em alguma época (e, como sou tolinho, é claro que algumas tiveram que fazer isso – ou melhor, fingir, e exemplos históricos não faltam – nosso caso emblemático é Maria Quitéria). Ao longo de toda a história, mulheres trans e pessoas que são algo diferente de mulher ou homem sofreram, sim, com os papéis impostos sobre elas. Sofreram porque há uma constância na identidade – a esmagadora maiora das pessoas é parte de uma mesma categoria na maior parte da vida – seja esta categoria uma categoria minoritária fora do binário homem-mulher. E, num grau menor, podemos incluir homens que sofreram por não serem vistos como “homens o bastante”, incluindo gays.
Como se diz comumente, somos seres biopsicossociais (bio-psico-sociais, como queira), mas em alguns círculos, psico sim, social também, mas se falar em bio, as comportas do inferno se abrem.

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(Publicado originalmente no Facebook em setembro de 2013.)

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Bônus: evidências da possível participação de recursos biológicos na identidade de gênero.

Existem mulheres que nascem com pênis e homens que nascem com vagina. Eis evidência cerebral de que mulheres trans e mulheres cis compartilham um mesmo gênero, e possivelmente homens trans e homens cis também, apesar de haver um único indivíduo testado no grupo dos homens trans neste estudo.
Os pontos representam os indivíduos testados. As alturas das barras coloridas são as médias. As linhas verticais no meio dessas barras são medidas de erro, e indicam que a diferença entre homens cis e mulheres tanto trans quanto cis é significativa, enquanto mulheres cis e mulheres trans não diferem entre si nesta região cerebral. Os tamanhos amostrais deste estudo são bons, porém mais estudos se fazem necessários para confirmar este achado.
Referências:
Bao, A.-M., and Swaab, D.F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Front Neuroendocrinol 32, 214–226.
Garcia-Falgueras, A., and Swaab, D.F. (2008). A sex difference in the hypothalamic uncinate nucleus: relationship to gender identity. Brain 131, 3132–3146.
1st of March

Você é machista, homofóbico(a), transfóbico(a), racista? Muita calma nessa hora!


Uma pessoa disse que a Marília Gabriela seria homofóbica por ter decidido não me convidar para o programa dela. Eu discordo enfaticamente! E também discordo enfaticamente de outras acusações de preconceito que às vezes vejo na internet. Por três razões:
1. Às vezes a lógica é quebrada. Se a Gabi é homofóbica por não me convidar, ela não era homofóbica por convidar as lésbicas Pepê e Neném? Não me convidar é uma premissa muito frágil para acusá-la de ser homofóbica. Como qualquer pessoa (independente de quem seja), ela merece o benefício da dúvida, e só merece ser acusada com evidências convincentes e argumentos convincentes. Alarmismo e denuncismo que passam por cima disso são um grande problema, não uma solução.
2. Se fosse verdade que Gabi é homofóbica, usar o adjetivo como um xingamento seria a última coisa que a faria refletir sobre isso e mudar de crença e atitude. A Gabi, como qualquer outro ser humano, provavelmente reagiria de forma defensiva, fechando-se para as ideias corretas de quem acusou, por causa da acusação, do uso de um “nome feio”. Encurralar pessoas não é educá-las. E se as pessoas não estão sendo educadas a jogar fora sua homofobia, qual é o propósito de acusá-las de sê-lo?
3. A forma mais caridosa de aceitar uma acusação dessas sem as evidências e bons argumentos, contra a Gabi ou contra qualquer outra pessoa, tem um efeito curioso: se a Gabi é homofóbica, quem acusou também é. Porque as pesquisas disponíveis mostram que as pessoas, independentemente de seus grupos, guardam em média vieses contra homossexuais. Inclusive os próprios. Isso não é para aplaudir a homofobia: isso é para educar a respeito de um fenômeno curioso chamado viés implícito.
A filósofa Jennifer Saul dá como exemplo desse fenômeno o que houve com o reverendo Jesse Jackson, que lutou toda a sua vida contra o racismo nos Estados Unidos, quando certa vez se viu, num momento de epifania autocrítica, tendo atitudes desfavoráveis contra negros. No caso, mudar de rota se visse um rapaz negro andando em direção a ele. 
Saul comenta evidências do viés implícito também no caso do sexismo (machismo, misoginia):
“O viés implícito pode vir em muitos tipos diferentes de comportamento. Por exemplo, decisões de contratação. Se você apresentar exatamente o mesmo currículo com um nome masculino ou feminino, há maior chance de o que tem nome masculino receber maior nota, receber convite para entrevista, receber cargo de maior hierarquia e salário e ser contratado do que o currículo com nome feminino. O mais recente estudo de 2012 mostrou que o efeito do viés é igualmente forte em todos os grupos etários, e que é igualmente forte entre homens e mulheres. O viés afeta o modo como interagimos com as pessoas. Tanto homens quanto mulheres são mais propensos a solicitar um homem que uma mulher, mais propensos a interpretar com caridade um comentário incoerente se for de um homem do que se for de uma mulher.”
(Traduzido deste podcast: http://lihs.org.br/bias )
Então, se o exemplo do viés implícito no caso do machismo é análogo aos outros preconceitos, é provável que, neste sentido específico, nós todos possamos ser machistas, ‘LGBT-fóbicos’, racistas. E quem pensa que estar num desses grupos isenta alguém de ter esses vieses, está provavelmente enganado.

Mas (e este é um grande mas), acho injusto usar esses adjetivos apenas por causa da ubiquidade dos vieses implícitos. Penso que as palavras temidas que designam preconceitos e discriminações deveriam ser usadas justamente para identificá-los quando há evidências claras e distintas de que estão ali, no caso específico que você está julgando.


Por que? Porque assim os próprios vieses podem ser combatidos melhor. Inclusive no nível do indivíduo, que ao saber da existência desses vieses, pode lutar para evitar incorrer neles, não baixar a guarda. E falar em vieses é muito mais efetivo para que as pessoas façam isso individualmente, se eduquem, do que encurralá-las e acusá-las. Tanto pior encurralá-las e acusá-las sem evidências convincentes!
Jesse Jackson com certeza deve ter se tornado um ativista melhor depois de sua epifania, alguém mais consciente sobre o quão complicado é algo como o racismo e o que fazer efetivamente para vencê-lo. E nós todos podemos melhorar nossas atitudes éticas se seguirmos este exemplo, de parar, respirar fundo, pensar, repensar, pesar as evidências, antes de sair numa cruzada ineficiente de acusacionismo fadado ao fracasso.
Portanto, se me acusam de qualquer uma dessas coisas, procuro fazer essa distinção entre aceitar a probabilidade de que eu incorro em vieses, e cobrar evidências de que realmente fiz algo motivado por eles ou motivado por coisa pior, como ideias agressivamente preconceituosas ou atitudes claramente discriminatórias. E não espero menos de qualquer outra pessoa, inclusive quem me acusou. Rigor com evidência e argumento é a única coisa que pode garantir justiça.
O que são os vieses implícitos? A filósofa Jennifer Saul ainda quer saber – se são crenças, se são atitudes, qual é sua natureza íntima – é algo em aberto. Pero que los hay, los hay. E é difícil declarar-se livre deles, sem passar por epifanias (no sentido de descobertas, de análises) como a de Jesse Jackson.