26th of February

Academicismo


Academicismo é querer monopolizar conhecimentos ou proposições, guardando-os sob a sombra de comunidades herméticas e jargões impenetráveis, negando que eles sejam acessíveis a pessoas de determinadas categorias.
Academicismo é metralhar uma pessoa completamente ignorante sobre um assunto com uma torrente de palavrões, neologismos e termos que ela não conhece nem faz ideia do que designam. 
Academicismo é escrever de uma forma obscura ou propositalmente estilizada, para agradar a tribo e alienar o resto das pessoas.
Enfim, academicismo é achar que suas ideias são tão sagradas que precisam desse tipo de escudo, evitando expô-las à luz do debate público. 
A falsidade e as ideias frágeis se evaporam à luz da investigação independente como Drácula ao sol do meio-dia.
15th of February

A tolerância de Rodrigo Constantino com a intolerância contra homossexuais


The bullshit is strong with this one.

Pediram-me para comentar os últimos dois textos do Rodrigo Constantino, o “liberal”, na Veja. Eu tentarei ser objetivo e não deixar avaliações mais emotivas e retóricas entrarem na frente – não vou fazer a mesma coisa que ele e outros colunistas da revista fazem.

No primeiro texto, apoiando Jair Bolsonaro para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Rodrigo diz:

“Homofobia, para esse pessoal, é simplesmente não achar lindo homem com homem.”

A frase é artifício retórico e eu não acredito que Rodrigo realmente acredite nisso, tanto quanto eu não acredito que ele considere que a definição de racismo para quem mais luta contra ele é “simplesmente não achar lindo gente preta”. No entanto, “não gostar” pode ser um critério não suficiente para definir um preconceito, e nem sempre necessário, mas que é simplesmente comum entre pessoas preconceituosas e faz parte de seu preconceito nesses casos. Uma pessoa que não acha os negros atraentes e não se considera racista ao menos precisa reconhecer que não achá-los atraentes é algo que ela tem em comum com muitos racistas. E para quem está observando de longe, se você fala como racista e age como racista, você poderia muito bem ser racista. A mesma coisa vale para necessidades urgentes de alguém expressar o quanto acha feio que dois homens se beijem. E esses homens são geralmente retratados como dois barbados, não como duas garotas lésbicas, porque quem fala disso geralmente pensa que seus interlocutores de valor são todos homens heterossexuais. Vou batizar esta falácia de argumentum ad barbis, o apelo à barba.

Uma vez, uma amiga minha disse que tinha repulsa por ver dois homens se beijando. Perguntei se ela sentia o mesmo sobre casais de lésbicas. Ela disse que não. O curioso é que ela é uma mulher heterossexual – então me pergunto se essa repulsa é mesmo algo que ela naturalmente teria por razões completamente internas e subjetivas (de “gosto”), ou por razões externas, ensinadas e aprendidas (parece-me ser o caso). Se é possível ensinar um gosto aversivo por pessoas homossexuais, então é possível ensinar que não se tenha esse tipo de reação ao vê-los, e isso poderia ser resolvido simplesmente com eles aparecendo mais e sendo mais vistos fazendo o que é considerado repulsivo por alguns (dentro dos mesmos limites de exposição dados a heterossexuais). A reação da minha amiga gera um problema: se ela não quer ser vista como homofóbica por mim, como resolveremos o fato de que, se ela vier à minha casa no futuro, eu terei de proibir meu companheiro de expressar afeto? Precisaremos esconder que somos homossexuais ou agir como se não fôssemos? Isso não seria uma atitude injustamente negativa para com nossa orientação? Se um negro como Michael Jackson resolve esconder sua negritude simulando vitiligo (ele realmente tinha vitiligo, mas assumamos que a outra história é verdade – até porque ele fez também rinoplastias suspeitas), não se pode botar parte da culpa disso no racismo, nas atitudes injustamente negativas contra negros, que percolam tanto sua cultura que se internalizam?

“Se alguém externar que prefere ter um filho heterossexual, isso já basta para ser visto como homofóbico hoje em dia, o que é absurdo.”

Mas é absurdo por que? De fato, não há problema algum em preferir que a filha seja heterossexual, mas somente se for por motivos não preconceituosos: “se ela for hétero tenho mais chances de ter netos”; “se ela for hétero não vai sofrer tanto com preconceito”. Isso geralmente se faz ANTES da filha em questão existir ou sair do útero da mãe. O problema é gente que continua expressando sua “preferência” depois dessa filha ter nascido, crescido, e estar perguntando se vai continuar tendo um teto se namorar a Pâmela. E expressar para seu filho que já existe que ele deveria ser coisa diferente do que ele é, e justamente em algo que não é escolha e ele não pode fazer nada a respeito, é rejeitar a natureza íntima do seu filho, e é a pior forma de rejeição. Isso não merece o nome de homofobia?

Mas claro, tudo depende do que o Rodrigo Constantino considera homofobia. O que ele considera ser a definição usual de homofobia, aquela que usamos diariamente, aquela que se consagrou na comunidade internacional?

“Ora, fobia é medo! Quem é que pode ter medo de gays(…)? O sujeito pode não gostar da ideia, ter até certa aversão espontânea à imagem de dois homens barbados se beijando. [Taí o argumentum ad barbis!] Não acho que isso seja suficiente para acusá-lo de homofobia. Então o sujeito que não curte quiabo sofre de “quiabofobia”?”

Aqui, Rodrigo Constantino comete a falácia etimológica. Esse argumento péssimo consiste em definir um termo por sua etimologia, quando a etimologia é irrelevante. Esse erro é cometido não apenas por homofóbico, mas também por homossexuais. Homofobia não precisa ser definida como fobia de homossexuais: significa apenas preconceito contra ou discriminação injusta contra homossexuais. Este é o sentido comum do termo. Ninguém acha que o Bolsonaro ao falar cheio de raiva contra gays está realmente com medo, mas que está sendo preconceituoso. O estado emocional dele ao falar de gays não importa – se medo, se ódio, se indiferença – mas apenas se o que ele diz é difamatório, negativamente generalizante, enfim, preconceituoso.

“Homofobia” não é fobia de homossexuais assim como “cálculo” não é uma pequena pedra e “racismo” não é apreço pelas raças, ainda que as etimologias dessas palavras possam sugerir isso. O uso faz o sentido, e não a etimologia.

Portanto, Constantino não parece realmente saber o que é homofobia, ou então usou esse argumento falacioso apenas retoricamente, para apelar para a torcida, da mesma forma que fez ao sugerir que alguém pensa que homofobia é igual a não ter gosto pessoal por ver pessoas do mesmo sexo (e ele esquece o feminino por algum motivo) expressando afeto romântico ou erótico.

No segundo texto ele diz: “Se para ser considerado homobóbico basta sentir aversão a dois homens se beijando, então muita gente é homofóbica sem saber.” De fato!

O erro que eu reconheço em alguns ativistas é não levar em conta diferentes graus de homofobia, e também se esquecerem que é melhor ser didático e paciente, e tentar não usar e abusar de “homofobia” como um xingamento, e se lembrar do que o termo significa. Acusacionismo não leva a lugar algum, e uma pesquisa empírica com diferentes ativismos já mostrou que essa atitude tem efeito contrário ao pretendido por ativistas que se comportam assim.  Comentei a pesquisa aqui: https://www.facebook.com/1423657476/posts/10203226375126543

Agora, o que se pode perguntar é por que Constantino está fazendo isso. Sou informado que ele anda fazendo as pazes em “hangouts” com Olavo de Carvalho e se aproximando de outras figuras do conservadorismo, mesmo alegando, inclusive no subtítulo de sua coluna na Veja, que é um liberal.

Então, como recado para um liberal postiço, mando uma citação de um liberal de fato, Friedrich Hayek, num ensaio apropriadamente intitulado “Por que não sou um conservador”:

“[A]quele que crê na liberdade não pode senão conflitar com o conservador e tomar uma posição essencialmente radical, direcionada contra os preconceitos populares, posições arraigadas, e privilégios firmemente estabelecidos. Tolices e abusos não são mais aceitáveis por terem sido há tempos estabelecidos como princípios de insensatez.”

E se apoiar Bolsonaro para uma comissão de direitos humanos não é tolice, abuso e insensatez, além de um afago aos preconceitos populares e privilégios arraigados contra a liberdade individual dos LGBT, então não sei o que é. E não é coisa digna de um autointitulado liberal.

14th of February

Orientação sexual masculina é influenciada por genes, mostra estudo


Fonte: The Guardian. Tradução comentada de Eli Vieira.
Genes examinados no estudo não são suficientes ou necessários para fazer homens serem gays, mas desempenham algum papel na sexualidade, dizem pesquisadores americanos
Um estudo sobre homens gays nos EUA encontrou novas
evidências de que a orientação sexual masculina é influenciada por genes. Os
cientistas testaram o DNA de 400 homens gays e descobriram que genes em ao
menos dois cromossomos influenciavam se um homem era gay ou hétero.
Uma região do cromossomo X chamada Xq28 [q é o
braço longo do cromossomo] teve algum impacto sobre o comportamento sexual dos
homens – embora os cientistas não tenham ideia de quais genes na região estão
envolvidos, nem de quantos outros estão em outras regiões do genoma.
Outro trecho de DNA no cromossomo 8 também mostrou
ter um papel na orientação sexual masculina – embora, novamente, o mecanismo
preciso ainda não seja claro.
Pesquisadores especularam no passado que genes
ligados à homossexualidade em homens podem ter sobrevivido na evolução porque
por acaso faziam as mulheres que os portassem mais férteis. Esse pode ser o
caso para os genes na região Xq28, pois o cromossomo X é passado aos homens
exclusivamente por suas mães.
Michael Bailey, um
psicólogo da Northwestern University em Illinois, demonstrou as descobertas na
reunião anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência em Chicago
nesta quinta-feira. “O estudo mostra que há genes envolvidos na orientação
sexual masculina,” disse ele. O trabalho ainda não foi publicado, mas confirma
os achados de um estudo menor que despertou polêmica em 1993, quando Dean
Hamer, um cientista do Instituto Nacional do Câncer dos EUA, investigou as
árvores genealógicas de mais de 100 homens gays e descobriu que a
homossexualidade tende a ser herdada. Mais de 10% dos irmãos de homens gays
eram também gays, comparados a cerca de 3% da população em geral. Também tios e
primos homens do lado da mãe tinham uma probabilidade maior que a média de
serem gays.
A associação ao lado materno da família levou Hamer
a investigar mais de perto o cromossomo X. No trabalho seguinte, ele descobriu
que 33 de 40 irmãos gays herdaram marcadores genéticos similares na região Xq28
do cromossomo X, sugerindo que genes cruciais residiam ali.
Hamer enfrentou uma tempestade quando seu estudo
foi publicado. A polêmica se deu em torno das influências de natureza e cultura
[nature/nurture] sobre a orientação sexual. Mas o trabalho também despertou
expectativas mais dúbias sobre um teste pré-natal para a orientação sexual. O
[tabloide sensacionalista] Daily Mail deu como manchete “Aborto é esperança
depois de ‘descobertas de genes gays’”. Hamer alertou que qualquer tentativa de
desenvolver um teste para a homossexualidade seria “errada, antiética e um
terrível abuso da pesquisa”.
O gene ou genes na região Xq28 que influenciam a
orientação sexual têm um impacto limitado e variável. Nem todos os homens gays
no estudo de Bailey herndaram a mesma região Xq28. Os genes não eram nem suficientes
nem necessários para tornar qualquer desses homens gays.
O pensamento falho por trás de um teste genético
para a orientação sexual é claro do ponto de vista dos estudos com gêmeos, que
mostram que o gêmeo idêntico de um homem gay, que carrega uma réplica exata do
DNA de seu irmão, tem mais chance de ser hétero do que gay. Isso significa
que mesmo um teste genético perfeito que escolhesse todos os genes associados à
orientação sexual seria ainda menos efetivo que jogar uma moeda.
[Eu não teria tanta certeza disso – o geneticista
Caio Cerqueira e outros colegas meus, por exemplo, desenvolveram um cálculo de propensão
de ter certo tom de pele em humanos modernos e neandertais baseado nos vários
genes que influenciam a cor da pele (ver http://lihs.org.br/caio
), que é uma característica complexa e multifatorial também. E o teste é
considerado melhor que apenas jogar uma moeda. O caso é que usar o teste para
propósitos racistas seria tão errado quanto usar um possível teste de propensão
à homossexualidade para propósitos homofóbicos ou eugenistas.]
Enquanto os genes de fato contribuem para a
orientação sexual, outros fatores múltiplos desempenham um papel maior, talvez
incluindo os níveis de hormônios aos quais um bebê é exposto dentro do útero. “A
orientação sexual não tem nada a ver com escolha”, disse Bailey. “Encontramos
evidências para dois conjuntos [de genes] que afetam se um homem é gay ou
hétero. Mas não é completamente determinante; há certamente outros fatores
ambientais envolvidos.”
No ano passado, antes que os últimos resultados
fossem divulgados, um dos colegas de Bailey, Alan Sanders, disse que as
descobertas não poderiam e não deveriam ser usadas para desenvolver um teste
para orientação sexual.
“Quando as pessoas dizem
que há um gene gay, é uma simplificação exagerada,” disse Sanders. “Há mais de
um gene, e a genética não é a história completa. Com o que quer que seja que os
genes contribuem para a orientação sexual, você pode pensar nisso como
contribuindo tanto para a heterossexualidade quanto para a homossexualidade.
[Os genes] contribuem para uma variação na característica.”
Qazi Rahman, um psicólogo
no King’s College London, disse que os resultados são valiosos para entender
melhor a biologia da orientação sexual. “Isso não é controverso nem
surpreendente, e nada com que as pessoas devessem se preocupar. Todas as
características psicológicas humanas são herdáveis, isto é, têm um componente
genético”, disse. “Os fatores genéticos explicam de 30 a 40% da variação entre
as orientações sexuais das pessoas. Entretanto, não sabemos se esses fatores
genéticos estão localizados no genoma. Então precisamos de estudos que ‘acham
genes’, como este de Sanders, Bailey e outros, para ter uma ideia melhhor de
onde os genes em potencial para a orientação sexual podem estar.”
Rahman rejeitou a ideia de que a pesquisa genética
pudesse ser usada para discriminar pessoas com base em sua orientação sexual. “Não
vejo como a genética poderia contribuir mais para a perseguição, a
discriminação e estigmatização de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas
transgênero mais do que explicações sociais, sociais ou de que seria
comportamento aprendido. Historicamente, a perseguição e o tratamento horrendo
de grupos LGBT aconteceu porque políticos, líderes religiosos e sociedades viam
a orientação sexual como uma ‘escolha’ ou como algo devido à criação
inadequada.”
Steven Rose, da Open University, disse: “O que me preocupa
não é a que grau, se a algum, nossa constituição genética, epigenética ou
neural e o desenvolvimento afetam nossas preferências sexuais, mas o enorme
pânico moral e a pauta religiosa e política que cerca a questão.”
13th of February

Um ano da ‘resposta de geneticista a Silas Malafaia’: uma entrevista


Fez um ano que publiquei a resposta ao Silas Malafaia. Eu cheguei a receber o convite de uma produtora do programa da Gabi sobre dar uma entrevista, ela disse que a Gabi gostou do meu vídeo. Depois retirou o convite, disse que a Gabi pensava que era melhor deixar o assunto morrer do que insistir nele me convidando para o programa. Acho que não é problema contar isso um ano depois. Eu não achei ruim que o convite inicial foi retirado. Defendo muita coisa que arrepia os pudores da maioria dos brasileiros, não sou conhecido, e me ter no programa dela seria um risco para ela – especialmente por depender de audiência.
Uma ironia: Silas Malafaia espalhou por muitas mídias que a nota da Sociedade Brasileira de Genética explicitamente em apoio aos meus argumentos na verdade concordava com ele. Ocorre que aquela nota foi 90% escrita por mim. Começou como uma carta aberta que mandei a vários geneticistas de renome, e quando a SBG resolveu fazer sua própria nota oficial, contactou especialistas em genética do comportamento humano, e esses especialistas me contactaram.
6th of February

Dos dois tipos de saudade


Existem duas formas de sentir saudades. Uma delas, que vou chamar de shakespeariana (por causa de Romeu e Julieta), é a autodestrutiva, uma espécie de crise de abstinência, descrita muito bem naquela música da Sade: “sinto sua falta como os desertos sentem falta da chuva”.
A outra, que deve ser mais rara, é a epicurista. Epicuro de Samos, filósofo grego, morreu provavelmente de cálculos renais. Suportou as famosas dores renais até o fim. Em uma de suas últimas cartas a um amigo, diz que suas memórias da amizade não lhe causavam dor: eram, na verdade, o que o fazia feliz de ainda estar vivo. É a saudade dos sábios: alegrar-se por ter tido a sorte de ter algo tão precioso na vida, mesmo já tendo acabado, pois nada dura para sempre, e o que resta do êxtase é sempre a memória dele, não muito acurada, não muito certeira, mas um souvenir que te ancora ao conforto de saber que você esteve lá.
Redundante dizer que tento buscar a segunda.
3rd of February

Sobre a sugestão de que homossexuais criem seu próprio tipo de família


Disseram-me que lésbicas e gays, em vez de agir para obter o mesmo direito a formar família que o resto da humanidade tem, deveriam construir seu próprio tipo de família. Eu discordo, e de três formas diferentes.

Primeiro, nós não somos ET’s. Nós temos as mesmas necessidades dos heterossexuais: compartilhar a vida com alguém para dirimir a solidão que ganhamos de presente ao nascer, ter quem escute nossos sonhos e aspirações e esteja lá quando vierem à fruição ou ao fracasso etc. Não, eu não quero “construir uma família nova”. Eu quero só ter minhas necessidades afetivas e sexuais amparadas pela lei onde necessário, e ignoradas pelo resto do mundo onde necessário, como qualquer outro homem ou outra mulher que goste de outros homens ou outras mulheres. Em outras palavras, a orientação sexual das pessoas não é diferença suficiente para apagar sua humanidade compartilhada – e isso inclui as necessidades demasiado humanas em torno da existência das famílias.

Segundo, porque já temos cem milênios de tentativa e erro da humanidade em fazer diferentes tipos de família. Muito dificilmente qualquer coisa que nós criássemos seria nova. Sinto muito, Novos Baianos, mas o que vocês fizeram não foi novidade nenhuma – se for verdade que viviam numa comuna poliamorista. Do ponto de vista de uma criança, pouco importa se os dois adultos do mesmo sexo que estão cuidando dela são irmãos ou um casal – quem já foi criança sabe muito bem o desinteresse de uma criança em relação ao que seus responsáveis fazem entre quatro paredes. Desinteresse? Talvez eu devesse falar em horror, é a reação de muitos ao pensar em seus pais fazendo sexo. O curioso é que o horror em pensar no sexo dos pais não leva a leis proibindo que pais façam sexo, o que não é exatamente verdade para a aversão ao sexo gay, não é mesmo, Uganda e Rússia?

Terceiro, seria inútil fazer proposições de modelos de família para gays e lésbicas. Pelo simples motivo de que, antes de serem agrupados numa classe, gays e lésbicas são indivíduos que variam entre si tanto quanto quaisquer outros indivíduos. Entre nós há os de temperamento naturalmente monogâmico, e também os de temperamento poliamorista, ou sem compromisso, e todas as gradações neste continuum. Não adianta tentar fazer pessoas naturalmente propensas ao laço afetivo monogâmico se despirem de ciúmes em relações de poliamor. Não se força alguém a adotar um modelo de relacionamento ou de família que não ressoe com o que faz a pessoa confortável e feliz.

O problema dos tipos de família ao longo da História não é a diversidade – há tipos de família para todos os gostos. O problema é que nenhum até hoje foi incontroverso porque sempre houve quem tentasse fazê-lo compulsório. E eu prevejo que, num mundo onde os indivíduos têm liberdade, não haverá tal coisa de “modelo de família gay” – as famílias começadas por LGBT serão tão diversas quanto as famílias começadas por heterossexuais e cissexuais. Que o diga o Rei Salomão e suas 700 esposas, modelo bíblico de família (provavelmente antiético) ignorado por todos os ignorantes que acreditam possuir a fórmula da “família brasileira”, uma quimera tão fantasiosa quanto a maior parte de sua visão de mundo.