24th of January

Epicurismo


Photo © 2008 Holly Hayes/Art History Images. All rights reserved.
A imagem mostra Metrodoro de Lâmpsaco, filósofo grego membro do Jardim de Epicuro de Samos, retratado cerca de 500 anos após sua morte num mosaico romano (fim do século II a começo do século III). 
O texto do mosaico diz algo assim: “Nós nascemos apenas uma vez; é impossível nascer duas vezes e é necessário não mais existir eternamente [após a morte]. Mas você, embora não seja mestre do amanhã, descarte a fruição. A vida é gasta pela procrastinação e cada um de nós morre sem tempo suficiente nas mãos.” 
Epicuro de Samos fundou uma escola filosófica que era um estilo de vida, um caminho de temperança para a felicidade e o conhecimento. Combatia ardentemente as alegações das outras grandes escolas de Atenas: os acadêmicos (seguidores de Platão), os estoicos (seguidores de Zenão de Eleia entre outros) e os peripatéticos (seguidores de Aristóteles). 
Os “epicureus” (epicuristas) são citados desfavoravelmente na Bíblia, e Dante, embora gostasse de Epicuro como pessoa, manda-o para o sexto círculo do inferno por causa de suas ideias. Thomas Jefferson, numa carta em 1819, diz a William Short “eu também sou um epicurista”. A tese de doutorado de Karl Marx foi sobre Epicuro. 
Não acredito que indivíduos ou escolas de pensamento possam conter todo o conhecimento do mundo (muito menos hoje), mas não tenho reservas quanto à maioria das ideias epicuristas, que atravessaram mares de tempo e resistência e continuam encontrando admiradores ilustres mais de 2300 anos depois. 
Eu, também, sou epicurista. O antigo nome do meu blog, “Tetrapharmakos in Vitro”, era uma referência direta ao epicurismo de Diógenes de Oinoanda (Oinanda fica na atual Turquia), que escreveu as ideias de Epicuro num muro de três metros de altura, endereçou as ideias a todas as pessoas do mundo todo independente de gênero, idade ou nacionalidade, abraçando uma ideia cosmopolita de cidadania internacional, coisa tão importante hoje. E como estudante de doutorado tento sempre seguir o conselho de Metrodoro, nem sempre com sucesso. 
Uma boa fonte para saber mais: “The Cambridge Companion to Epicureanism” (2009), editado por James Warren.
(Publicado no meu extinto Facebook em fevereiro de 2013.)
24th of January

Sim, macroevolução já foi observada em laboratório


“Crocopato”, imaginado pelo criacionista Kirk Cameron e imortalizado nesta imagem do Worth1000.
Os criacionistas não diferem de uma substancial parte dos leigos em ciência na questão da “síndrome da escala intermediária”. Ou seja: se não é uma coisa na escala imediata da percepção, então se dá pouca importância, ou se compreende mal, ou se tem pouca vontade de compreender. É mais ou menos por esse motivo que sempre que se fala em biologia, o último reino que as pessoas costumam lembrar é o Monera.

A acusação da moda dos criacionistas é que não existiriam evidências de “macroevolução”, ou seja, de grandes mudanças, mas apenas de “microevoluções”, ou seja, aceitam que a seleção natural ou outros mecanismos evolutivos possam criar a diferença entre duas populações de uma mesma espécie, mas não entre diferentes espécies. Esta acusação assume várias formas, a mais estúpida é “não se observou evolução em laboratório” (e geralmente a pessoa está imaginando algo como um crocodilo virando um pato). 
O melhor exemplo de macroevolução em laboratório é justamente do reino Monera. Então juntam-se dois bloqueios: não se aceita como evidência porque não se quer (a capacidade humana para ignorar o que não se encaixa em sua visão de mundo é enorme), e não se aceita porque não é um “crocopato”, mas um ser bem distante da escala a que estamos acostumados: células com o comprimento na escala de um metro dividido por um milhão de partes.
O exemplo é este: um experimento de 22 anos acompanhou passo a passo o surgimento de novas adaptações em linhagens da bactéria Escherichia coli ( http://en.wikipedia.org/wiki/E._coli_long-term_evolution_experiment ). Quando digo passo a passo, quero dizer que congelaram um amostra de cada geração. Depois de mais de 20 mil gerações, uma das linhagens submetida a condições de desnutrição (falta de carbono) apresentou uma novidade: a capacidade de extrair o carbono que precisa de moléculas de ácido cítrico, na presença de oxigênio.
Para dar uma ideia do tamanho desta mudança, é preciso saber duas coisas: (1) classicamente, espécies (unidades taxonômicas operacionais) de bactérias são definidas por seu metabolismo, ou seja, pela capacidade de consumir ou não certas substâncias em condições controladas. (2) A incapacidade de metabolizar o ácido cítrico do meio de cultura é uma das coisas que permite a um microbiologista dizer a diferença entre esta bactéria, que é geralmente inofensiva e é encontrada naturalmente em fezes, e a Salmonella, famosa por ter linhagens que causam intoxicação alimentar.
Um microbiologista desinformado, ao se deparar com essa linhagem de Escherichia coli que resultou desse experimento de evolução em laboratório, estaria tão confuso ao tentar identificá-la quanto um ornitólogo que topasse com um tucano exibindo mamas, ou quanto um botânico que visse uma samambaia produzindo frutos.
É, portanto, macroevolução (não foi apenas uma mutação, a seleção natural precisou trabalhar com mais do que isso para fazer uma mudança desse tipo). E tempo não faltou: 22 anos são verdadeiras eras geológicas para bactérias. Em gerações humanas, daria 500 mil anos. Portanto o sr. Darwin continua certo: grandes mudanças precisam de grande tempo, geralmente. E grandes mudanças são, em princípio, o resultado de pequenas mudanças acumuladas, embora possam ser mais que isso.
Criacionistas não são apenas pessoas que acreditam que Deus criou os seres vivos (Deus pode muito bem ter criado as espécies usando a evolução, por que não?): são pessoas que fazem uma salada de religião com ciência, em que a primeira leva vantagem, e a segunda sai machucada. E essa invenção de que não há evidência que sustente a macroevolução é, como mostrou esse experimento e mostram muitas outras evidências, no máximo um palpite desinformado, e, como sugeri, contaminado com a “síndrome da escala intermediária”.
Não vou ofender os cegos dizendo que o pior cego é o que não quer ver, concluo dizendo que a pior crença é aquela em franca contradição com o que pode ser lido na natureza.
(Publicado no meu extinto Facebook em abril de 2013.)
24th of January

Xingaram-me de “geneticista mirim”. Adotei o nome.


Eu fui chamado de geneticista mirim pejorativamente pelo químico criacionista da Unicamp Marcos Eberlin, após minha resposta em vídeo à ignorância de Silas Malafaia. Desde então algumas pessoas, frequentemente retratando erroneamente Eberlin como um geneticista, usaram este ad hominem contra mim.

Quando se trata de biologia, Eberlin é um ótimo químico. E sinto que não posso considerá-lo um bom cientista, ainda que ele “publique bem” para os padrões (frequentemente distorcidos) de fator de impacto e número de artigos, porque no meu entender um bom cientista não pode ser um completo desonesto para com áreas que não domina. 
E ser criacionista ou defensor do cavalo-de-Troia do “design” inteligente não é honesto para com as evidências favoráveis à evolução partindo de praticamente todos os lados da pesquisa empírica, da datação radiométrica na paleontologia à comparação de sintenia de genes na genômica (coisa que fiz com colegas neste artigo: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23412349 – nós mostramos que herdamos a mesma ordem de um grupo de genes em torno de um que codifica para um receptor de dopamina que está presente em todos os nossos parentes até o grupo dos peixes sarcopterígios – e nós somos peixes sarcopterígios). 
Todas as desculpas criacionistas para tapar os ouvidos são furadas, especialmente a martelada alegação de falta de observação ou evidência para a macroevolução ( http://lihs.org.br/macroevolucao ). Silas Malafaia foi me chamar de geneticista mirim e mentir que Marcos Eberlin é geneticista em vários lugares, até no Programa do Ratinho (acreditem, não é nenhuma honra ser citado no Programa do Ratinho). 
Meu blog pessoal, que se chamava meio pomposamente “Tetrapharmakos in vitro” desde que o fundei seis anos atrás, nome que tirei do meu epicurismo ( http://lihs.org.br/epicurismo ); rebatizei prontamente de Geneticista Mirim
O “mirim” foi tentativa de me desqualificar pela idade ou pouca experiência profissional, infantilizando-me. (O que depõe mais sobre a capacidade de debater do Dr. Eberlin.) Pois não tenho problema com a ideia de ser comparado a crianças desde que li “O Mundo de Sofia” de Jostein Gaarder na minha adolescência – o que me abriu os olhos para a importância da filosofia até hoje. Continuo valorizando a filosofia, tenho contato frequente com a filósofa britânica Susan Haack, de quem já traduzi um artigo sobre cientificismo ( http://lihs.org.br/cientificismo ). 
“Mirim” vem do tupi-guarani e significa “pequeno”, até onde sei. Sou pequeno mesmo, na ordem das coisas. Na minha visão de mundo, não sou parte de grandes planos de nenhuma entidade toda-poderosa, não sou importante no universo. Sou pequeno e um dia vou acabar. E quando eu acabar, nada sobrará senão coisas como essas linhas que aqui escrevo. Estou em absoluta paz com minha pequenez e finitude, sou mirim mesmo. E também sou mirim nos genes – fui voluntário como amostra do Projeto Candela, e meus colegas geneticistas trabalhando nele mostraram-me que tenho ascendência indígena (7%), além de africana (20%) e europeia. Ter ascendência indígena me faz pensar bastante, especialmente sobre o processo que não terminou séculos atrás no Brasil – o processo de tomar tudo o que os nativos tinham, inclusive a vida, horror muito bem ilustrado pelo que passam os Guarani-Kaiowá. 
Mirim, sim. Sim, mirim. Geneticista mirim a seu dispor.

(Publicado antes no meu extinto Facebook em setembro de 2013.)

19th of January

O caso do rato zumbi


Na madrugada do dia 10 de janeiro, durante minhas férias em Minas Gerais, meu cunhado acordou com um rato andando nas costas dele. Deu um chute no rato, e voltou a dormir. Eu acordei às 6 da manhã com um ruído perto da minha cabeça. Achei que era ruído de rato roendo alguma coisa, mas na verdade era a respiração forte do rato ferido. Só mudei de cama e não fiz nada. Mataram o bicho algumas horas depois.
Quando isso acontece, podem ter certeza que não é comportamento normal de rato. Ratos são muito inteligentes e evitam proximidade com predadores. As adaptações desses roedores para escapar de predadores são tão profundas que quando um rato aprende um novo cheiro ameaçador, a aversão a esse novo cheiro pode passar para as próximas duas gerações através de marcações epigenéticas ( http://www.nature.com/neuro/journal/v17/n1/full/nn.3603.html ).
O que, então, pode fazer um rato perder o medo e se arriscar andando nas costas do meu cunhado? Lavagem cerebral! Feita por um parasita, o protozoário Toxoplasma gondii. Esse parasita altera o cérebro dos ratos e faz com que percam o medo dos predadores e até se ofereçam para eles. Por quê? Porque assim os protozoários podem infectar os predadores também. O comportamento suicida do rato é uma adaptação de seu parasita, um produto da seleção natural que permite que o protozoário tenha mais sucesso em se reproduzir e sobreviver. 
As alterações que o Toxoplasma faz nos cérebros dos ratos são definitivas: mesmo após um tratamento que mata os parasitas, o cérebro e o comportamento dos ratos parasitados permanecem alterados. ( http://www.huffingtonpost.com/2013/09/19/mice-fear-cats-infection-parasite_n_3953158.html ) É possível também que o Toxoplasma, ao infectar humanos, esteja associado a alguns transtornos psiquiátricos ( http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1560245/ ). E isso, apesar de assustador, não é tão surpreendente assim, pois nós compartilhamos muitas semelhanças com seus roedores hospedeiros intermediários. Não somos imunes a sermos vítimas da lavagem cerebral dos parasitas. 
E eu acho tudo isso muito lindo.
(P.S.: Apesar de eu ter usado apenas o nome “rato”, enquanto o espécime que me despertou provavelmente era do gênero Rattus, os experimentos laboratoriais citados são feitos com camundongos, do gênero Mus. Mas “camundongo” não é muito usado coloquialmente.)
Toda a glória do ciclo de vida do Toxoplasma.
13th of January

Observações sobre a genética do comportamento – entrevista completa a’O Diário


Publicaram ontem n’O Diário, de Maringá, uma entrevista minha sobre genética do comportamento, que pode ser lida aqui. O risco desse tipo de entrevista é que, no processo de edição, muitas vezes se perdem informações que o entrevistado considera importantes. Por isso, peço licença à Ana Verzola e seu editor, autores das perguntas, para publicar as respostas completas aqui. Fiquei contente com a qualidade da edição, mas não estaria fazendo meu trabalho bem se eu não reclamasse do subtítulo e do resumo que escolheram.
Ao contrário do sugerido, eu não garanto que “a maior influência vem [sempre] do ambiente”, nem que conhecimento nunca vem do DNA.
Eu não posso garantir que “a maior influência vem do ambiente” porque isso depende do fenótipo comportamental sob análise. Para uns comportamentos pode ser verdade, mas para outros não será. Eu não acho, por exemplo, que os fatores ambientais sejam preponderantes na determinação do choro dos bebês, afinal, podemos dizer que a esmagadora maioria dos bebês humanos chora, independentemente da cultura em que estão. Se o ambiente é preponderante (e posso estar errado quando a achar que não é), só poderia ser então um ambiente tão compartilhado pelos bebês quanto sua intimidade genética.
Minha objeção ao subtítulo é que eu afirmei que conhecimento não vem do DNA no contexto específico de uma resposta sobre conhecimento político. Mesmo que a grande maioria do que se chama de conhecimento tenha conteúdo puramente cultural (informação aprendida), existem alguns conhecimentos que são a priori, e entre esses pode haver alguns que vêm, sim, ao menos em parte “do DNA”. Enfim, esses são os preciosismos que eu não conseguiria dormir sem elaborar. A entrevista completa está abaixo.
***

OD: O que caracteriza a genética do comportamento?

EV: A genética do comportamento pode ser vista como uma aplicação da genética de características multifatoriais ou complexas a um assunto específico que é o comportamento. Definir comportamento pode ser um pouco anti-intuitivo para alguns, porque o que profissionais da área consideram comportamentos nem sempre é o que se vê popularmente como tal. O choro de um bebê, por exemplo, é considerado um comportamento. Também o ato de sucção no peito da mãe na hora da amamentação. Muitos movimentos musculares podem ser comportamentos, mas não se pode sinonimizar comportamentos a movimentos musculares sempre: reflexos como o da rótula, quando um médico bate um martelinho no joelho do paciente, raramente são vistos como comportamentos.

OD: A genética do comportamento é, em termos, um assunto bastante recente. O que as pesquisas já avançaram nessa área?

EV: Não sou especialista, apenas trabalhei com genes associados ao comportamento humano no mestrado. Mas pelas minhas leituras, creio que a atual maior contribuição dos geneticistas do comportamento é ao debate conceitual sobre as origens do comportamento humano. Juntaram evidências suficientes de que na maior parte dos assuntos comportamentais, genética não pode ser ignorada. Nós não somos tábulas rasas, folhas em branco sobre as quais o ambiente e a cultura escrevem, mas também não somos autômatos escravos da determinação genética – não se encontram facilmente comportamentos, ao menos fenótipos típicos dignos do nome, em que tudo é determinado por um único gene. O que parece estar mais próximo da verdade é que uma rede de genes atua em cada comportamento, cada um com um efeito de pequeno a moderado sobre propensões comportamentais. Assim como um bolo é mais que a soma de seus ingredientes, porque precisa do ambiente de um forno para crescer, os comportamentos não devem ser vistos como um resultado inevitável de uma receita genética. Para dar um exemplo específico, foram encontradas algumas variantes da enzima monoamina oxidase A (MAO-A) associadas a comportamento anti-social, porém, as evidências sugerem que muitas pessoas só manifestam essa propensão genética num ambiente abusivo. Isso também pode ser verdade para alelos que predisponham pessoas à psicopatia.

OD: Muito se fala de fatores hereditários no campo de psicopatologias que podem influenciar no comportamento das gerações futuras. Isso realmente pode se confirmar?

EV: O transtorno psiquiátrico com o maior valor de herdabilidade (uma medida da participação dos genes na herança de uma característica) já encontrado é o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Isso significa que se você tem TDAH, a chance de o transtorno aparecer nos seus filhos é maior do que se você tiver um outro transtorno psiquiátrico qualquer. Não é uma sentença: é uma probabilidade. Saber desse tipo de coisa é importante porque te deixa informado sobre que tipo de educação deve dar a seus filhos, e não puni-los por coisas que podem não estar sob o controle consciente deles. 

OD: No caso da dependência do álcool ou drogas mais pesadas, há uma chance maior de que os descendentes de usuários estejam mais sujeitos a desenvolver esses vícios?

EV: Há um grupo de pesquisa em genética psiquiátrica na UFRGS dedicado a estudar a genética da drogadição. A maior parte da pesquisa desenvolvida ali, e creio que no resto do mundo, está passando de um estágio inicial de procurar por “genes candidatos” cujas variantes poderiam hipoteticamente estar associadas ao alcoolismo ou tabagismo, para um próximo estágio em que variações no genoma completo e nos genes que interagem com os genes candidatos são levadas em consideração. Alguns resultados positivos mostram um papel do sistema cerebral de sinapses baseadas em dopamina, o que é bem interessante, pois é um neurotransmissor que atua no dito “mecanismo de recompensa” cerebral, importante na sensação de prazer. Se um indivíduo é dotado de variantes que o fazem propenso a se viciar a certa substância, novamente este comportamento se manifestar nos seus descendentes dependerá do contato e da cultura que há ao redor dessa substância. É preciso lembrar que você herda 50% dos genes do pai, e 50% da mãe. Somente na herança de características de padrão de herança mendeliano dominante todos os filhos apresentam a característica de um dos pais, e esse tipo de característica é muito rara, geralmente patológica, e virtualmente a totalidade dos comportamentos não seguem padrões mendelianos de herança (dependentes de relações de dominância e recessividade entre dois alelos de um gene).

OD: O que o meio cultural vivenciado pode desencadear no indivíduo? Se retiramos uma pessoa de determinado ambiente ainda criança, é possível resgatá-la de um meio prejudicial – no caso de famílias violentas, negligência materna, entre outros fatores – ou em algum momento da vida ela poderá reproduzir aquele comportamento?

EV: Como descoberto para o caso do gene da MAO-A, certas propensões só se manifestam diante de gatilhos ambientais, então no caso de uma criança portadora de alelos associados à propensão à agressividade, o ambiente familiar faz toda a diferença. A cultura nos influencia profundamente. Há experimentos comparando, por exemplo, americanos do norte e do sul, mostrando diferenças até fisiológicas na resposta a ser insultado ou desafiado, por exemplo, que são respostas rápidas, inconscientes, e de fundo predominantemente cultural. Há uma obra famosa da literatura britânica, de Charles Dickens, que conta a história de um menino chamado Oliver Twist, um órfão que, apesar de crescer num ambiente social decrépito, desenvolve virtudes notáveis. Não se pode atribuir o sucesso de Oliver à sua genética, ou apenas a ela. Indivíduos podem decidir usar de violência como protesto, por exemplo, por viver numa situação de desigualdade social. Genes são recursos, e não mestres, do comportamento, especialmente o não-patológico (e definitivamente não se deve patologizar toda forma de violência).

OD: Uma pesquisa feita na Universidade de Louisiana envolvendo 742 voluntários que foram submetidos por cinco meses a um programa de exercícios mostrou que algumas pessoas tiveram uma melhora no condicionamento físico em até 40% a mais que os outros participantes – nenhuma das pessoas envolvidas no estudo praticava regularmente atividade física. Esse desempenho tem relação com a genética do comportamento?

EV: Não necessariamente. Isso pode ter mais a ver com variantes genéticas relacionadas ao metabolismo. As pessoas variam quanto à capacidade de ganhar massa muscular, massa adiposa, quanto ao uso de calorias. Num ambiente de carestia, quem tem metabolismo lento e queima poucas calorias por dia tem clara vantagem sobre quem tem um perfil mais atlético e ativo. Numa situação de opulência, os primeiros têm mais chances de obesidade que os últimos. Essa variação pode ser meramente de genética do metabolismo. No entanto, certos comportamentos, como o comportamento de comer mais ou menos, ceder mais ou menos à tentação dos sabores calóricos, também podem influenciar. Há poucos estudos sobre esses comportamentos na genética, mas é possível afirmar que alguns casos de obesidade são altamente influenciados pelas variantes genéticas associadas aos comportamentos em torno dos hábitos de comer.

OD: Alguns representantes religiosos – como Silas Malafaia e Feliciano – abusaram em seus discursos de justificativas “genéticas”, como você mesmo rebateu no vídeo e em uma entrevista. Malafaia disse que não há correlação da homossexualidade com o gene e Feliciano, por outro lado, disse que a violência era ainda ligada ao “gene africano”. Há uma predisposição genética para o comportamento preconceituoso?

EV: Boa pergunta! Vou aproveitar a oportunidade de demonstrar humildade científica e dizer que eu não sei, mas gostaria muito de saber. Às vezes, um comportamento é complicado demais para se delimitar numa análise de associação a variantes genéticas, então ele é quebrado em partes chamadas “endofenótipos”, que seriam mais sujeitos à influência genética. Uma revisão dos cientistas Peter Hatemi e Rose McDermott, de 2012, sugere que há alguns endofenótipos em comportamentos políticos que podem estar sob moderada influência genética. O endofenótipo mais influenciado geneticamente, cuja variação pode ser 60% da responsabilidade de genes, chamaram de “conhecimento político / sofisticação”. Se esses dois pastores tiveram azar na loteria genética relacionada a isso, nada impede que estudem um pouco mais tanto sobre política quanto sobre genética para deixar de dizer bobagem em público. Afinal, se a curiosidade por conhecimento político tem algo de genético, o conhecimento político em si é feito de livros e não de DNA.

OD: Durante as manifestações que tomaram as ruas do Brasil no ano passado, pequenos grupos tiveram comportamentos antissociais praticando atos de vandalismo, violência, entre outras ações prejudiciais à comunidade mas defendidas do ponto de vista ideológico daqueles participantes. A razão pelo qual essas pessoas agiram dessa forma era motivada somente por um impulso dito político?

EV: Na mesma revisão de Hatemi e McDermott, apontam como moderadamente influenciado pelos genes o comportamento político de “atitudes autoritárias”. Porém, apontam como muito pouco influenciado pelos genes o comportamento de “senso de dever cívico”, portanto o último é possivelmente mais moldável pela educação. Talvez se o senso de dever cívico fosse algo mais presente na formação dos policiais que as atitudes militaristas de lidar com “inimigos”, não teríamos observado aquele show de horrores. O mesmo vale para a menos importante violência dos ditos “vândalos”. Não se deve botar a culpa na genética pelo autoritarismo, pois para uma pessoa propensa a defender autoritarismo manifestar isso é preciso também o ingrediente da ignorância. Sou a favor de uma polícia desmilitarizada e menos ignorante – em ambos os sentidos que se costuma usar de ignorante (bruto e desinformado).

OD: Em uma sociedade ainda regida pelo patriarcado, além de algo enraizado e implícito na nossa cultura, existe alguma outra explicação para uma postura machista e de superioridade perante as mulheres?

EV: Homens e mulheres cis (ou seja, que se identificam com o gênero com o qual são rotulados ao nascer, ao contrário de homens e mulheres trans, e pessoas que não se sentem contempladas nessa dicotomia) têm algumas diferenças comportamentais, especialmente quanto à propensão à violência física. Mas não acredito em botar a culpa na testosterona e seus receptores e fatores de transcrição associados pelo machismo. O machismo não é uma sentença genética, é um sexismo que nasce da ignorância e da falta de reflexão ética sobre a humanidade compartilhada pelas pessoas independentemente de suas identidades de gênero. Como no caso citado acima sobre atitudes autoritárias, se houve propensão genética a certas atitudes e “endofenótipos” frequentemente associados ao machismo, isso não significa que outros comportamentos que atuem como remédio não possam ser estimulados pela cultura e pela educação.

OD: Como a genética do comportamento explica a predisposição de algumas pessoas em praticar, por exemplo, esportes radicais?

EV: As pessoas podem variar quanto a (1) alelos que influenciem na resposta ao ácido lático – mais dor ou menos dor após exercícios intensos – neste caso pode ser que a influência sobre o comportamento seja indireta, que a base genética seja puramente associada ao metabolismo, e esse metabolismo aja como um ‘condicionador’ sobre a resposta de prazer ou dor ao exercício; (2) alelos relacionados à resposta prazerosa ou desprazerosa a situações de perigo e descargas de adrenalina e noradrenalina. O papel da noradrenalina no sistema de recompensa cerebral (prazer) já foi indicado por evidências e há até sugestões de que esse sistema seja usado no tratamento de vícios químicos. Eu não diria que “praticar esportes radicais” seja algo com influência particularmente predominante dos genes (basta pensar em quantas inovações culturais foram necessárias para este hábito aparecer), mas pode conter “endofenótipos” mais claramente influenciados por genes.

OD: Algumas pesquisas mostram que praticantes de esportes radicais se expõe a um determinado risco pois a sensação da recompensa supera o medo. Isso é um fator genético ou está associado ao meio?

EV: Os métodos da genética do comportamento são populacionais. É muito difícil hoje em dia tomar casos individuais e atribuir a uma coisa ou outra. Meu palpite é que a melhor hipótese sempre será um balanço entre as duas coisas. Até porque as duas coisas (genes e ambiente) não são dois pólos opostos, mas dois rótulos simplificadores para a complexidade da realidade. O ambiente de um feto pode ser a genética da mãe. Hoje sabemos que nossa genética como populações e espécie foi mudada pela pressão seletiva de hábitos alimentares como o consumo de leite e amido. Crianças são geneticamente propensas ao aprendizado (especialmente da língua) e ao ensinamento da cultura logo nos primeiros anos de vida. Somos seres biologicamente moldados para a cultura e culturalmente moldados em nossa biologia.

OD: Que tipos de comportamento estão associados a fatores genéticos? O ditado filho de peixe peixinho é pode ser traduzido para filho de chato chatinho é?

EV: É difícil encontrar um comportamento que se possa dizer que é completamente isento de influência genética. O celibato poderia ser um deles, por razões óbvias. Mas eu poderia dizer que as pessoas variam, hipoteticamente, quanto à sua propensão genética de resistir à tentação de fazer sexo, então um celibatário de sucesso poderia estar negando uma contribuição genética que está ali. Quanto a ser “chato”, não me parece nem um pouco claro o conceito do que é ser “chato”: a chatice de um é a diversão de outro.

OD: A genética, de forma geral, tem evoluído muito, atingindo um nível de conhecimento até pouco impensável? Até onde a genética pode chegar?

EV: Não é possível mais uma única mente humana abrigar hoje o volume de conhecimento já produzido pela genética. Dificilmente o que já foi produzido em genética do comportamento, que só tende a crescer conforme as técnicas de associação a variantes moleculares e de “peneiragem” dos fenótipos e endofenótipos vão evoluindo. A genética, como toda ciência madura, é um edifício construído e mantido coletivamente. E por ser um empreendimento de humanos que pode ser sobre humanos, não pode estar ausente de discussões sobre ética. Os limites tecnológicos e os limites éticos decidirão onde a genética pode chegar. Porque “poder” tem dois sentidos: ser capaz de fazer, e ser capaz de arcar com as consequências em fazer.