13th of June

Sobre o dia dos namorados


Pensei umas 20 vezes, e resolvi falar só um pouquinho de amor romântico, já que está terminando um dia dos namorados (e não vou discutir as razões do dia existir, nada de papo brochante sobre o bicho papão do capitalismo).
Vou falar pouco porque tive pouco. (Também não vai rolar papo chato de inexistência do amor romântico, estou falando do que eu vi.)
Quem se esforça para ter um pensamento analítico gosta de pensar em explicações, razões, justificativas para tudo. Existe até uma tese de um filósofo chamado Donald Davidson que diz que o que causa uma ação é a mesma coisa que a justifica (favor dar um desconto nisto pois não sou filósofo).
É intrigante pensar no que causa e justifica as ações que estão por trás deste comportamento que chamamos comumente de amor. Quando criança, achava um absurdo que dedicassem tanto tempo a fazer músicas sobre amor, quanto tem tanta coisa tão ou mais interessante que isso acontecendo no mundo. Incluindo sapo caindo na lagoa, que a dupla Vitor e Leo botou numa música desafiando um produtor musical que alegou que nada que não fosse dor-de-cotovelo amorosa venderia na cena sertaneja universitária (estava errado).
Toda essa seletividade dos artistas e insistência num só tema era algo que carecia de explicação. Quando li em 2006 a autobiografia do meu herói intelectual Bertrand Russell, notei que, quando ele listou as três “paixões” que governaram sua longa vida, ele botou amor antes de busca pelo conhecimento e compaixão pelo sofrimento da humanidade. Nesta época eu estava na UnB, pós-adolescente. Ouvia Renato Russo adaptando Camões, falando da ferida que dói e não se sente. Lia Shakespeare fazendo referência a “uma estrela para todo barco à deriva, cujo valor é desconhecido embora sua altura seja conhecida” (minha porca tradução para versos do soneto 116).
Até que tudo fez sentido. Foi numa tarde, em Porto Alegre, que eu entendi do que toda essa gente estava falando. E entendi por que muitos trocariam 10 anos de vida e de aprendizado por alguns meses disso. Não que seja uma droga, é uma oportunidade de deixar a fronteira de íntima solidão que nos é dada junto com o ar que nos invade os pulmões ao nascer. Para mim, não durou muito. E doeu quando foi embora. Minha reação foi ficar grato, e esperar que encontre novamente qualquer dia, semana, mês, qualquer ano, qualquer década dessas que talvez eu tenha pela frente.
Galileu viu as crateras da Lua e as manchas no Sol porque tinha um novo instrumento à mão para auxiliar seus olhos, a luneta. Eu só entendi todas essas metáforas quando vivi a experiência por mim mesmo: ganhei a minha luneta.
Parabéns a todos vocês que neste dia podem se alegrar de não apenas ter a luneta, mas também por poder olhar para sua Lua incansavelmente, eternamente enquanto durar.
7th of June

Curiosidade


Para quem observar de longe, meu trabalho parece chato: lá estou, em quantidades de horas variáveis do meu dia, às vezes zero, às vezes 14 horas, mexendo com códigos num computador, lendo textos soporíferos cheios de jargão. Seria meio difícil para um observador achar o que tem de biologia em ficar de olho vidrado no computador ou anotando coisas. E, sinceramente, às vezes é chato sim, e minha quantidade de trabalho diário depende bastante do meu humor: ou seja, se um prazo tá começando a apertar, o desespero vai me transformar em workaholic.
Mas o pequeno inconveniente de fazer coisas que eu já fiz, como editar planilhas de 200 mil linhas, contar cabelinho de mosca, e tirar números de centenas de artigos que se esforçam em escondê-los no texto, é eclipsado por uma luz, meio de soslaio, que só se vê se focar a atenção.
Não é um canhão de luz gigantesco, não. É uma frestinha, só. Que deixa passar um brilho tremeluzente, meio vago, não tão brilhante que você não consiga ignorar, nem tão penumbroso que não possa te manter acordado à noite. Deram o nome de “curiosidade”, mas acho que o nome não faz jus. Curiosidade soa como uma coisinha boba, banal como, sei lá, usar crocs. Essa coisa não é nada disso. É meio ambígua, te chama com a promessa de um senso de propósito. “Deixa eu ver mais!”, você grita. “Só com esforço”, ela parece responder.
Trabalho com bactérias que infectam insetos, basicamente. Bactérias capazes tanto de matar quanto de dar vida, como uma espécie de deus Shiva infinitesimal. Às vezes parecem mais deuses gregos, submetendo os bichos aos seus caprichos: “que tal infectar uma espécie inteira de vespas, fazer com que se reproduzam sem necessidade de fecundação, ou que precisem estar infectadas com a gente para poderem se desenvolver como fêmeas?”, propõem, como comediantes decidindo o próximo esquete. “Que tal matar os machos enquanto são embriões?”, “Que tal só permitir que o sexo gere prole se os dois estiverem infectados?”, conspiram. Eu ouço, olho pela fresta. “Presta atenção naquilo ali”, me dizem os colegas, que já estavam observando antes de eu chegar, e eu vejo a bactéria indo de zero a 98% de prevalência na população de hemípteros em apenas 6 anos. Certamente uma doença virulenta? Não, as fêmeas infectadas têm mais filhos, vivem mais, crescem mais depressa e até suportam melhor o calor.
As conspiradoras unicelulares guardam a chave de como inimizade pode virar amizade. Parasitas virando mutualistas. Quando não parasitas se fingindo de mutualistas para barrar a entrada de outros parasitas. Tudo isso numa dança de milhões de anos num dos grupos mais diversos do planeta, e essas bactérias podem ter sido as responsáveis pela nascença de um grande número dessas espécies.
Mas não é só sobre bactérias e insetos, é sobre interações de agentes físicos complexos. Saber um pouco disso pode significar que você sabe algo sobre o fenômeno da vida, em qualquer lugar que ele acontecer, qualquer que seja sua natureza mais íntima. A fresta de luz é ambígua, porque ela te encanta com um quase nada, e não revela o todo que esse quase nada indica. A curiosidade – vá lá, usemos o nome tolo – também é meio parasítica, pois inflige custos, mas também é mutualística, concedendo pequenas vantagens. Chega um momento que você percebe que já não vive sem. Como um afídio, que não vive sem Buchnera, mas para isso renunciou a uma parte enorme de suas defesas imunológicas. Era só um passatempo no começo, agora pode bem ser uma razão pela qual vale a pena viver. Despido de um pouco da ingenuidade inicial, você percebe que pela fresta não vão passar todos os segredos, e que mesmo se passassem, não vão caber todos na sua cabeça. O parasita na história pode bem ser você, tentando sugar os humores de um enorme hospedeiro misterioso por uma fresta que na verdade é uma ferida, causada por você. Talvez só o velho hábito de ter tanta gana de querer saber como funciona que disseca, mata, e destrói o que queria entender.
Mas vale a pena tentar de novo, você se convence, e se senta lá, olhando para a fresta, um pouco perplexo, talvez menos perplexo do que originalmente, mas com uma gratidão imensa de ter tido a sorte de ver mais. E por mais que você consiga ignorar aquela luz fugidia e esquecer que ela existe de vez em quando, sempre que lhe vem novamente à mente é instantâneo sentir o que ela te deu e te acompanhará para a cova: uma imensa saudade, parafraseando o Russo, de tudo o que eu ainda não vi.