30th of May

O preconceito de associar um sexo/gênero automaticamente a virtudes e vícios


1895/1900 (catálogo de von Gloeden)
O único critério confiável e respeitoso para julgar se alguém é mulher ou homem é a autoidentificação (que não é apenas uma declaração qualquer, mas uma consistente e fidedigna expressão de como a pessoa se sente e se vê).

Todos os outros critérios comumente usados falham:
nem toda mulher tem seios,
nem todo homem tem barba,
nem toda mulher tem vagina,
nem todo homem tem pênis (existem mulheres e homens trans, rotulados com um gênero com o qual nunca se identificaram intimamente; mulheres com agenesia vaginal e homens que perdem o pênis em acidentes),
nem todo homem tem voz grave,
nem toda mulher tem voz fina, etc.

É bom lembrar que usar “masculinidade” de forma honorífica, como um elogio ao caráter, é uma forma de sexismo. Assim como mudar propositalmente o gênero de um homem para o feminino em palavras de insulto, veiculando a ideia de que a feminilidade é uma coisa ruim ou infectada com a qual se pode ferir alguém. Não é uma virtude nem um vício ser mulher ou homem. É apenas um fato da natureza e da identidade das pessoas.

É normal que pessoas eroticamente atraídas por características ‘masculinas’ usem ‘masculinidade’ como elogio estético, mas só pode ser um fruto de uma valorização extrema ao masculino que alguém diga “este é homem!” ou pergunte “você não é homem, não?” quando quer se referir a virtudes como a coragem, que certamente não é atributo exclusivamente masculino, mas característica de parte da humanidade: as pessoas corajosas, que podem ser homens ou não.

Feministas criticam associações injustas de gêneros a virtudes e vícios, e tratamento desigual, pela óbvia injustiça que traz. Se você ainda insulta homens falando “olha como ela é brava” ou coisas similares, você pode até não se sentir sexista (não se sentir faz parte da razão do preconceito ser tão ubíquo), mas está reproduzindo e praticando o sexismo.

A única coisa que faz um homem ser “mais homem” é engordar. A única coisa que faz uma mulher ser “menos mulher” é emagrecer.

Além disso, existem pessoas que não se sentem nem uma coisa nem outra: se sentem algo entre homem e mulher, ou algo que não se encaixa numa categoria nem em outra, ou sentem que são as duas coisas ao mesmo tempo. Dada a variação da humanidade, não me surpreende que isso seja possível. Como tratar essas pessoas? Da forma que quiserem.

A essência da polidez não é seguir regras estanques, mas tratar as pessoas como elas gostam de ser tratadas.

27th of May

A importância do pensamento para a continuidade da liberdade


Nós, que acreditamos em democracia e não estamos em nenhum extremo político, devemos combater a retórica nacionalista absurda de que a ditadura foi boa para o Brasil. Devemos combater a ideia de que sem a ditadura militar, teria havido uma ditadura comunista – ninguém sabe disso, e é muita pretensão querer ser vidente do curso da História. Nenhuma suposta ameaça é justificativa para eliminar direitos civis, perseguir a liberdade de manifestação argumentativa e pensamento, aprisionar por razões políticas e torturar pessoas.
Esse papo paranoico é velho e foi usado antes de 64 por Getúlio Vargas para implantar o “Estado novo”, mas, ainda que fosse verdade, ameaças de autoritarismo são combatidas com mais liberdade e democracia, e não com outra forma de regime opressor. A ideia de que fogo só se combate com fogo é uma ideia pueril e uma ode disfarçada à violência.
É de suma importância que direita e esquerda se unam nisso. As trevas do autoritarismo estão sempre à espreita, e infelizmente são praticamente uma tendência natural, especialmente em povo com baixa qualidade de educação. Não pretendo fazer minha versão de papo paranoico, só pretendo lembrar que não é novo na História que eras de paz e liberdade sejam substituídas num piscar de olhos pelo lamentável espírito de manada que acompanha nossa espécie desde seu nascimento.
A razão desse comentário é ter visto o músico Amado Batista ter dito, sobre ter sido preso e torturado pela ditadura militar apenas por ter dado acesso a livros censurados para intelectuais, que ele mereceu a prisão e a tortura. Infelizmente, esse caso atesta que nem mesmo a experiência direta como vítima torna alguém imune a apoiar o autoritarismo. Síndrome de Estocolmo pode ser mais comum do que pensamos, e, afinal de contas, às vezes as classes sociais que mais morrem numa guerra são justamente as primeiras a apoiar o início do conflito.
Daí a importância do pensamento para a continuidade da (pouca?) liberdade que a gente tem.
26th of May

Alan Turing: como o pai do computador foi vítima fatal da “cura gay”


Estive recentemente numa exposição sobre Alan Turing, no Science Museum, Londres, onde tirei essas fotos. “Quebrador de Códigos: a vida e o legado de Alan Turing” é o nome da exposição, porque o cientista, além de ter sido o pai do computador, ajudou a Grã-Bretanha na II Guerra desvendando mensagens cifradas dos nazistas. Apesar disso, não houve gratidão de seu país: por ser gay, Turing foi condenado à prisão ou a um tratamento experimental com hormônios femininos. Ele optou pelo tratamento, uma absurda “cura gay”, mas não pôde viver muito sob essa tortura. Matou-se com uma dose fatal de cianeto.
A legenda diz:
“Frasco de pílulas de hormônio feminino estrogênio, cerca de 1950.
Em 1949 o neurocientista Frederick Golla publicou os primeiros resultados britânicos de experimentos sobre o uso do hormônio feminino estrogênio para reduzir a libido de delinquentes sexuais.
Três anos depois, Alan Turing foi sentenciado ao tratamento com estrogênio como uma alternativa à prisão por ‘grave indecência’, após [a descoberta de] um relacionamento sexual. Ele teve de lutar para manter seu emprego na Universidade de Manchester.
Um tabloide proclamou que todos os homens gays deveriam ser confinados:
‘O que se precisa é um novo estabelecimento para eles, como [o hospital de] Broadmoor. Deveria ser uma clínica em vez de uma prisão, e esses homens deveriam ser enviados para lá e mantidos lá até que se curassem.'”
Uma outra legenda (não mostrada aqui) que estava nesta ala da exposição:
“‘A mente dele tornara-se desequilibrada’
Até o fim dos anos 1960, a maioria dos atos homossexuais eram ilegais. Muitas pessoas viviam em constante medo de serem pegas pela polícia, julgadas e ou presas ou multadas.
Vidas eram rotineiramente destruídas após tais eventos humilhantes. Pessoas eram muitas vezes demitidas de seus empregos e postas em ostracismo por suas famílias, amigos e a comunidade. Algumas sentiam que o suicídio era a única opção. Em paralelo, cientistas e médicos estavam experimentando novos modos de ‘curar’ pessoas gays ou remover seu desejo sexual.
Em 1952, Turing foi preso por manter relações sexuais com um homem, e sentenciado a um ano de tratamento com um hormônio feminino. Na época ele estava aconselhando o governo em projetos secretos de quebra de códigos, mas seu passe de segurança foi revogado e ele foi mais tarde posto sob observação.
Dois anos após sua prisão, em 1954, Turing foi encontrado morto em sua casa em Wilmslow. O veredito oficial foi de suicídio por envenenamento com cianeto, o médico legista disse que ‘sua mente tornara-se desequilibrada’.”
Alan Turing viveu apenas 42 anos, anos nos quais contribuiu decisivamente para a ciência da computação, a matemática e a biologia.
10th of May

Câncer de mama e a lei antissacrifício do vereador Marcell Moraes


Abraão protege sacrifício que oferece a Javé.
 Guache de James Tissot (1836-1902)
Imaginem que na cidade de Cerro Azul haja muitos casos de câncer de mama, e que muitas pessoas morrem e sofrem em decorrência disso. 99% das pessoas que sofrem e morrem com câncer de mama, em Cerro Azul, são mulheres.
Muitas pessoas por lá acreditam que é “normal” que mulheres sofram e morram de câncer de mama. “Elas têm seios e homens não têm”, diz o prefeito de Cerro Azul, “câncer é triste, mas é o cavalo de Troia que a natureza deu às mulheres junto com os seios”. Este momento em que o prefeito falou das mulheres com câncer de mama foi um momento raro, porque na maior parte das vezes em que ele fala do assunto, ele geralmente está falando dos homens que são vítimas dessa doença, pois para uma parte considerável dos eleitores de Cerro Azul, mulher com câncer de mama é coisa inevitável da natureza, mas homem com câncer de mama é uma tragédia inadmissível.
Eis que a Universidade de Cerro Azul desenvolveu um método eficaz para prevenir boa parte do câncer de mama, e o método está pronto para ser usado no hospital da cidade. Consiste em auto-exame a partir dos 14 anos de idade e a administração anual de uma droga anticarcinogênica muito cara, o “cancil”.
O prefeito logo arregaça as mangas, quer propagandas e cartilhas para todos os meninos da cidade aprenderem a fazer o autoexame, e começa a aplicar os recursos públicos para dar empréstimos a todos os cidadãos do sexo masculino que queiram comprar seu estoque de cancil. “Os homens cerro-azulenses estão unidos para que seus irmãos jamais voltem a ser torturados e mortos por essa doença horrível”, disse o prefeito.
Os projetos do prefeito salvarão vidas. Os projetos do prefeito efetivamente evitarão o sofrimento dos homens cerro-azulenses. Mas são justos?
***
Agora falemos de um lugar real, a cidade de Salvador, e um político real, o vereador Marcell Moraes do PV. Marcell Moraes, até onde sei, é uma pessoa com uma preocupação ética: diminuir o sofrimento dos animais. Para Marcell, é eticamente insustentável que se cause sofrimento e morte a um ser senciente, seja ele humano ou não, não sendo a espécie algo relevante para dar indulto a qualquer sofrimento ou morte de um ser senciente.
Na cidade em que Marcell mora e legisla, pessoas causam dor e morte a animais não-humanos de diversas formas. A maioria tem responsabilidade sobre essa dor e morte por consumir derivados dos corpos desses animais: carne, couro, corantes comestíveis. Uma minoria minúscula das pessoas causa uma minoria minúscula dessa dor e morte com rituais religiosos, nos quais os animais também podem ser consumidos ou não. 
A opinião pública de Salvador aceita como normal que se mate animais para produzir churrasco e bolsas, mas não tem tanto consenso assim sobre a normalidade de matá-los em homenagem a entidades sobrenaturais, porque a maioria dos soteropolitanos acredita nas entidades sobrenaturais do cristianismo, que, desde que o “cordeiro de Deus” foi sacrificado há dois mil anos, não mais pedem sacrifícios de animais a seus fiéis, coisa que não é verdade para as entidades sobrenaturais de algumas religiões de matriz africana que existem na cidade.
Os praticantes dessas religiões minoritárias são vistos com desconfiança por boa parte dos soteropolitanos cristãos. Uma parte desses últimos chega inclusive a igualar as entidades sobrenaturais dos primeiros à entidade sobrenatural do cristianismo que representa a incorporação do mal. Por causa disso, os não-cristãos muitas vezes sofrem discriminações injustas – às vezes, suas crianças sofrem bullying nas escolas e todas as outras consequências da exclusão social e do preconceito que sofrem outras minorias tratadas com desconfiança.
Marcell Moraes, exasperado com o sofrimento dos animais não-humanos, resolve agir como vereador por maior justiça a esses seres. Que ação ele decide tomar? Propõe um projeto de lei que criminalize o sacrifício desses seres em homenagem aos orixás, porque sabe que tem mais chance de ter apoio da opinião pública do que se tentasse criminalizar o sacrifício de animais “porque são uma delícia”*, como muitos costumam dizer. O impacto da criminalização de um ritual sobre o preconceito que já existe contra pessoas que seguem religiões em que ele existe é desconhecido.
Se o projeto de lei de Marcell for aprovado, vai evitar mortes? Sim. Vai evitar sofrimento de animais não-humanos? Sim. Mas é justo?
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* P.S.: Eu não sou vegano nem vegetariano. Mas dar motivos ruins para consumir carne é algo que não posso ignorar. E justificar a morte ou, especialmente, o sofrimento de animais com “porque são deliciosos” ou “porque o ser humano evoluiu para comer carne” é algo que desafia à razão e são simplesmente motivos tão ruins quanto “meu orixá vai me dar favores se eu fizer isso”. É responsabilidade de cada um justificar suas ações com argumento melhor. Acho importante desenvolver ações pela diminuição de sofrimento de animais não-humanos, inclusive se você for onívoro, como argumentei brevemente aqui.
2nd of May

Comentários


Acabo de descobrir que todos os pedidos de aprovação de comentários estavam indo para minha caixa de spam. Por isso, peço paciência a quem comentou nas últimas semanas. No entanto, não pretendo aprovar comentários anônimos, pois não acho que liberdade de expressão vem junto com blindagem contra consequências do que se expressa. É justo que a Constituição brasileira vede o anonimato.