29th of December

Por que não sou mais onívoro: resposta a mim mesmo – parte 1


Lisa Simpson crescida, por Jordan MeadEm abril de 2010 escrevi um texto que até hoje consta como primeiro resultado nas buscas para seu título, “por que não sou vegetariano”. Dois anos e meio depois, vim a tomar uma decisão que contradiz a posição que tentei defender – hoje vejo que de forma incorreta e até irracional – naquele texto. A maior guinada, que não pretendo justificar aqui nesta primeira parte, foi o abandono da ideia de que teorias éticas dependem de emoções para se justificar. Acredito no oposto hoje em dia: que embora emoções sejam importantes para motivar a ação ética ou importantes de outras formas para a moral (e ética e moral são muito melhor tratadas como sinônimos), até mesmo um psicopata completamente desprovido de empatia poderia tomar decisões eticamente corretas usando apenas a reflexão racional. A decisão que tomei foi de mudar minha dieta. Não há, até onde sei, um rótulo para as restrições alimentares e de consumo que adotei. Este primeiro texto de resposta não pretende ser uma resposta exaustiva a mim mesmo e aos erros que cometi neste assunto. Mais partes virão em algum tempo.

Eis, então: Breve diálogo fictício sobre minha decisão de não consumir mais carne vermelha.

– Não como carne vermelha porque tentei achar motivos pelos quais isso é correto e não achei nenhum. Na verdade só achei, inclusive no que eu próprio pensava a respeito, apelos irracionais à emoção (inclusive ao prazer gustativo) e tentativas de furar buracos nos argumentos de quem não come em vez de um caso completo defendendo a prática. Não saí por aí acusando ninguém de “imoralidade”, só penso que uma pessoa honesta deve reconhecer que ela come carne vermelha pelos mesmos motivos que eu baixo mp3 ilegalmente: porque não tem recursos / motivação / coragem / heterodoxia suficientes para parar algo que, olhando bem de perto e julgando a média dos modos como é feito e as consequências que traz, é errado.

– Mas você come milho, não come? Há uma grande probabilidade do milho que você come estar vindo de lavouras em que são colhidos com colheitadeiras que inevitavelmente matam ratinhos inocentes que ficam por ali. Portanto, você tem sangue nas mãos tanto quanto eu, o que eu faço é pegar da mão e botar na boca, e se isso tem algo de prejudicial é apenas a mim na eventualidade de ser comida pouco saudável.

– Este é um problema interessante porque lembra os experimentos mentais em ética sobre o bonde desgovernado. Enquanto a maioria das pessoas acha correto puxar uma alavanca para mudar um bonde de trilho para que ele mate menos pessoas, pouca gente acha correto atirar um homem gordo em cima dos trilhos para obter o mesmo efeito. Enquanto puxando a alavanca você só está matando pessoas indiretamente, empurrar o gordo é algo que parece mais com assassinato. Comprar e comer carne vermelha me parece trazer problemas inevitáveis, por estar muito mais diretamente ligado a causar sofrimento ou atentar contra a individualidade de um ser capaz de sofrer e capaz de experimentar o mundo ao ponto de ter interesse em viver, do que comprar vegetais, que são possivelmente colhidos com a consequência indireta e evitável de animais sofrerem e morrerem. Financiar o abate pecuário diretamente lembra empurrar o gordo, e comprar o milho parece puxar a alavanca.

– Mas de qualquer forma você não é isento de estar provocando – mesmo que mais indiretamente que eu – a morte e sofrimento do tipo de animal que você acredita ter status para consideração moral. Como pode então achar que pessoas que fazem o que você não faz deveriam reconhecer que o que fazem é errado?

– Seu argumento é que dois errados fazem um certo? Quando deixa de pagar impostos tenta se justificar dizendo que Al Capone também não pagava? Isso seria falácia, uma escapada à discussão em vez de uma resposta a ela. O que estou dizendo é outra coisa: que duvido que pessoas que comem carne vermelha (vamos deixar outros tipos de carne para outro debate) possam justificar este hábito como coisa correta, recomendável, justa ou louvável a se fazer. Se têm outros motivos para continuar fazendo, posso imaginar quais sejam e até imaginar explicações para eles, por isso mesmo não acho que repreensão e acusação sejam úteis (como não são úteis para o caso de consumo de obra intelectual e artística sem levar em conta os direitos de quem a criou). As pessoas fazem as mais variadas coisas pelos mais variados motivos. Mas só uma fração dessas coisas é correta, e só uma parte dessas coisas é justificável racionalmente. Deixar de comer carne vermelha é tanto correto quanto justificável. A atitude contrária não é – ainda mais quando consideramos como é feita hoje, e é claro que varia em mais e menos incorreta dependendo de como é feita, mas creio que ser incorreta é uma de suas propriedades fundamentais.

– Extratos de pulmões de porcos são necessários para dar surfactantes para bebês recém-nascidos, sem os quais os bebês não conseguem respirar. Surfactantes sintéticos, até onde sei, não funcionam tão bem. Está dizendo que abater porcos para este fim é errado?

– Não. Estou dizendo que abater porcos é geralmente errado. Não que é errado em absolutamente todas as circunstâncias possíveis e imagináveis – o que também vale para assassinatos e mentiras. É geralmente errado, e principalmente para fins de consumo dispensável e diversão. Porque porcos são seres capazes de sofrer e seres que têm interesse em viver. Abatê-los é interferir injustamente com este interesse e na maior parte dos casos causar-lhes dor desnecessária. Isso significa que, objetivamente falando, se ética diz respeito a evitar sofrimento e respeitar interesses, porcos devem necessariamente ser seres dignos de serem lembrados quando pensamos no que é a coisa certa a se fazer. Que eles próprios não tenham linguagem e capacidade complexa de julgamento não importa – isso significa que eles não podem ser agentes morais, mas não significa que não podem ser pacientes morais. Ou seja, não podem decidir eticamente, mas devem ser incluídos no grupo de seres que merecem a piedade de seres pensantes.

– Se porcos merecem esse status moral, então, se uma fazenda estivesse sendo invadida por um tsunami e você tivesse um helicóptero, você daria igual prioridade para salvar as pessoas e os porcos?

– Não. Porque eu acredito que porcos são dignos de serem pacientes morais, não significa que eu acredite que todos os pacientes morais têm a mesma prioridade. Pode-se tentar orientar as prioridades pelos interesses – pessoas têm mais interesses (e potencialidades, que talvez possam ser incluídas nos interesses) que porcos, portanto, em geral, têm mais prioridade. Mas uma pessoa em iminência de ralar um joelho com certeza tem menos prioridade que um porco em risco de morrer com uma facada no coração, para mim. De novo, a prioridade em geral ser maior para uma espécie não significa que ela seja sempre maior em toda e qualquer circunstância concebível. E não é, na verdade, a espécie que define a prioridade, mas a natureza dos indivíduos em determinado problema moral, além de, como ilustrei, as possíveis consequências de uma ou outra decisão. Num prédio em chamas com uma única criança num quarto e trezentos mil embriões humanos em outro, eu com certeza daria prioridade total a salvar a criança, e minha prioridade de evitar que os embriões fritassem seria equivalente à prioridade que eu dou a evitar que minha salada apodreça na geladeira. Porque não parece ser o caso que embriões humanos mereçam o mesmo tratamento de indivíduos humanos.

– Foda-se, vou comer minha picanha porque é gostosa e ponto final, ninguém pode me impedir.

– Ninguém tentou tirar seu direito legal de fazê-lo. O que é imoral nem sempre tem que ser ilegal, e vice-versa. Pense nisso. E pense, se quiser é claro, se “porque é gostosa” é realmente um motivo que justifique alguma coisa. Hannibal Lecter diria o mesmo sobre cérebros de gente viva.

29th of December

Mistérios


Há ao menos duas formas de pensar em mistérios. Uma é a forma mística. Consiste em contemplá-los pelas emoções que incitam, geralmente boas emoções. As emoções são boas porque o místico, ainda que alegue o contrário, pensa saber algo sobre o mistério sem esforço algum para desvendá-lo. É assim porque somente com algum tipo de conhecimento, ou pretenso conhecimento, alguém pode se sentir edificado por algo que é, ao menos no rótulo, desconhecido para a maioria das pessoas. A segunda forma de se pensar em mistérios é a forma genuinamente curiosa. Pouco importa se o mistério é "edificante" – aliás, aqui, sequer faz sentido falar em mistérios edificantes. Como alguém poderia se sentir edificado por não saber alguma coisa? O curioso tem a possibilidade de se sentir bem ao desvendar um mistério: o que geralmente não é fácil, a dificuldade pode até ser mínima (procurar no Google, por exemplo), mas existe. Mas ter um mistério flutuando na mente pode até ser incômodo. Curiosidade incomodada é algo mais ou menos parecido com aquela vontade de ter uma coisa inacessível, aquela saudade do que não se tem. Machado de Assis não nos conta se Capitu traiu Bentinho com Escobar porque queria nos incomodar. Queria incomodar a todos os leitores para sempre. E isso agrega valor à obra dele, pois incômodo cola nas memórias e chama a atenção. Adultos inteligentes não costumam gostar de obras de ficção que apenas tentam afagar sua psicologia – gostam de suspense, terror e drama. Quando você olha ao seu redor (olhe aí), vê um monte de coisas aparentemente banais. Vejo aqui, por exemplo, calças dependuradas, um cartaz, um guarda-chuva fechado. Todas essas coisas contém mistérios, alguns são mistérios para mim, outros são mistérios para muitos, e outros são mistérios para a humanidade inteira – e um subgrupo deles serão mistérios para sempre. Há quanto tempo usamos roupas? Cerca de 80 mil anos é o que eu acredito com base em algumas fontes que julguei confiáveis. Para alguns essa aproximação é um mistério, um milhão de anos seria um palpite igualmente bom para esses. Do que são feitas as tintas no cartaz? Sei que muitas cores diferentes são obtidas de metais oxidados, outras de compostos orgânicos como os carotenoides, mas não faço ideia do que é popular na centenária indústria de tinturas (deve ser quase tudo inorgânico), não tenho ideia de que tipo de tinta é mais provável de ser usada nesse tipo de material. Então, coisas bem básicas sobre o cartaz são mistério para mim. Entre todas as chuvas durante um ano, qual é a frequência média de chuvas para as quais esse guarda-chuva serve? Chuva horizontal deve ser rara num ano, mas não sei o quão rara por aqui. Mais mistérios. Fica evidente que, tanto para a abordagem mística quanto para a abordagem curiosa, há filtros de que tipo de mistérios chamam a atenção. Esses filtros variam de pessoa para pessoa, comunidade para comunidade, e cultura para cultura. Eu sei que o mistério da ressurreição de Jesus é a preferência para o misticismo de muitos brasileiros do século XXI, por exemplo. Mas não é um mistério que atiça minha curiosidade, e para mim o que é de fato um mistério é como essa crença pode ser tão popular. Quem prefere a abordagem curiosa dos mistérios e quer se debruçar sobre este em particular, não vai ter muitos elementos com que trabalhar, vai acabar tendo que partir para inferências probabilísticas duvidosas e terminar com uma imensa falta de saciedade da pulsão curiosa (e, espera-se, um ceticismo sobre as respostas mais populares). Mas o tratamento místico desse mistério geralmente vem acompanhado da crença de que isso realmente aconteceu, tem uma significância existencial e até ética, portanto seria um mistério digno de atenção. Eu não estou dizendo que os dois tipos de tratamento de mistérios não podem existir numa só pessoa, nem que um é exclusivo da religião e outro exclusivo dos empreendimentos seculares. Muita gente trata de forma mística os mistérios narrados por Stephen Hawking n’O Universo numa casca de noz. Já conheci gente para quem as quatro equações de Maxwell são um mistério (porque assim como eu não as estudaram nem as compreendem), mas isso não as impedia de ter admiração mística por elas. Também conheci quem tivesse legítima curiosidade pelas psicografias do Chico Xavier ao ponto de investigá-las a fundo, levando em conta todo tipo de relato e evidência – inclusive os negativos. A forma curiosa de abordar mistérios tem suas vantagens. Aponte-me qualquer coisa que, por mais que eu seja ignorante sobre ela, vou poder dizer ao menos um mistério a respeito dela – de preferência os mistérios que não são apenas mistérios para mim na minha ignorância, mas mistérios para todos nós. Posso errar miseravelmente nisso, mas é justamente nisso que tenho oportunidade de perscrutar meu nível de ignorância sobre esta coisa, e ainda ter a oportunidade de julgar se os mistérios que ela parece ter são dignos da minha atenção, se me interessam profissionalmente, se me interessam intelectualmente, se vou abrir a Wikipédia e ler dois parágrafos ou se vou comprar um livro e botar na fila de leituras de curto, médio ou longo prazo. No fundo isso é uma prospecção sobre o nível de incômodo que cada um desses mistérios me dá, e se é um incômodo suficiente para me impulsionar com velocidade de escape da atração gravitacional da minha preguiça, indolência e desinteresse. Por isso eu concordo plenamente com Paulo Freire quando ele disse que ser um bom professor é, no fundo, causar mal estar intelectual nos alunos. Quanto à forma mística de observar mistérios, não estou certo de que ela é recomendável – se é, deve ser para algum tipo de terapia psicológica, pois ser fortemente curioso sobre coisas demais pode incomodar ao ponto de atrapalhar a vida, então "adorar" certos mistérios para os quais se favorece sua hipótese favorita sem crítica pode ser algo terapêutico. Acho que todo mundo tem ao menos um mistério que trata dessa forma. Mas muitas coisas sobre mistérios são mistérios para mim. Outras são mistérios para todos. E talvez um subconjunto dessas serão mistérios para sempre.

26th of December

Miguel Nicolelis e o “sabe com quem está falando?”


Ao contrário do que dita a opinião popular, a ciência não depende de grandes gênios. Eles são raridades na História, servem de catalizadores e trampolins para grandes avanços, mas o progresso aconteceria da mesma forma sem eles – só levaria mais tempo. No caso de Newton, por exemplo, não acho que o progresso teria se atrasado muito se ele não tivesse existido. Temos evidência não apenas de descoberta independente do Cálculo (por Leibniz), como de que vários cientistas da época já estavam pensando em alguma força inversamente proporcional ao quadrado da distância entre os corpos sobre os quais atua, como funciona a força da gravitação universal. O mesmo vale para Darwin. Alfred Russel Wallace descobriu independentemente a evolução pela seleção natural, mesmo embora não tivesse as mesmas virtudes de Darwin, que basicamente consistiam em trabalho duro e exaustivo (obsessivo até) e criteriosa e paciente ("painstaking" como se diz na terra dele) persuasão argumentativa. São só dois exemplos de figuras importantíssimas e admiráveis da ciência sem as quais nós teríamos uma ciência não muito diferente (em termos do conteúdo das teorias) da que temos hoje. Isso está em franco contraste com várias culturas ao redor do mundo em que as pessoas têm mania de louvar autoridades individuais. No Brasil, por exemplo, magnatas como Eike Batista são louvados pelo simples fato de acumularem sozinhos um enorme poder. Parece-me que o ótimo cientista Miguel Nicolelis está acumulando sobre si esta figura cultural de "magnata" ou "coronel" ("doutor" no sentido tradicional) ao receber 33 milhões de dinheiro público para fazer um espetáculo midiático e ufanista (onde melhor que na abertura da Copa?) de um método experimental para aliviar os problemas da tetraplegia. (Ver http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ministerio-da-r-33-milhoes-para-projeto-da-copa-do-mundo-,974237,0.htm ) Isso é não apenas um contrassenso diante do modo como a pesquisa científica de fato funciona – mesmo que Nicolelis não trabalhe sozinho, é um absurdo que apenas o grupo em torno dele receba mais que todos os outros neurocientistas brasileiros juntos. Isso é também algo que efetivamente atrasa a pesquisa. Gera conflitos egoicos que se interpõem à colaboração comunitária que é, por direito e de fato, a engrenagem principal da investigação científica. Isso só mostra que ainda somos o país do "sabe com quem você está falando?". Sei com quem estou falando: com o atraso intelectual autoritário, cientificista, ufanista, cego com um otimismo estilo Pollyanna, que acaba sendo um Judas para quem mais põe a mão na massa para fazer a humanidade ir pra frente em termos éticos e epistêmicos.

15th of December

“Eu sou humanista.” Será mesmo?


Permita-me respeitosamente discordar de sua autoidentificação, pois não parece ser este o caso se: – Você é contra a criminalização da homofobia, e igualmente contra a descriminalização do racismo. Pode-se aceitar que você acredite ter bons argumentos pelo excesso de liberdade de expressão permitindo inclusive o discurso de ódio, mas não é possível coerência se você sai fazendo campanha contra o PLC122 mas prefere nada comentar sobre a lei que este projeto visa a editar, a lei anti-racismo. No mínimo você deveria chamar pela impugnação da lei anti-racismo. Ser incoerente no tratamento de diferentes preconceitos pode indicar que você esposa algum deles. – Você é contra o direito de uma mulher de decidir se quer levar adiante ou não uma gestação até certo limite de desenvolvimento do feto. Especialmente se você se recusa a explicitar quais são as condições necessárias e suficientes para que um ser vivo seja considerado um cidadão digno de direitos. Não, este debate não é sobre "a vida" – vida é um conceito tratado por biólogos e filósofos da biologia. Este debate é sobre quando, no espectro do desenvolvimento de um embrião humano, ele deixa de ser uma coisa mais parecida com as células vivas que expelimos e matamos todos os dias (inclusive as da sua salada) e passa a ser uma criança de fato, com todos os direitos que as crianças justamente têm. Definir "criança" de forma esdrúxula, igualando-a a um zigoto ou a um conjunto amorfo de células totipotentes, é uma posição que leva a problemas éticos insuperáveis, inclusive o problema ético de atentar contra a autonomia das mulheres.

– Você reclama dos movimentos sociais o tempo todo e gostaria que eles se extinguissem, quando é objetivamente demonstrável que várias de suas reivindicações fazem sentido e que os grupos que eles representam realmente têm seus interesses desfavorecidos injustamente na sua sociedade.

– Você acha que certos grupos de crença ou de posição política são blocos monolíticos contendo apenas cópias de um estereótipo desumanizado.

– Você pensa que absolutamente toda ética é relativa e que portanto ninguém pode acusar culturas que mutilam genitalmente mulheres e cometem infanticídio de estarem cometendo atos imorais.

Se alguma dessas carapuças serviu, infelizmente terei que veicular a má notícia de que você não é, de fato, um humanista. Não de acordo com boas fontes políticas (http://lihs.org.br/humanismo ) e filosóficas (http://lihs.org.br/etica ).

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Publicado originalmente na página da LiHS no Facebook.

14th of December

Oswaldo Porchat e um sintoma de falta de filosofia nos departamentos de filosofia brasileiros


No fim da década de 1990, o professor Oswaldo Porchat, experiente professor de filosofia da USP, descobriu que não havia sido um filósofo em toda a sua carreira, mas no máximo um historiador de filosofia. Também concluiu que havia formado uma parte considerável dos professores de seu próprio departamento com esta mesma impressão equivocada sobre o fazer filosófico.

Escreveu, então, com quase 70 anos, um discurso com esta revelação para os estudantes e professores da USP. Trechos a seguir.

“Errare humanum est, sed perseverare in errore diabolicum [errar é humano, perseverar no erro é diabólico], diziam os medievais. Não quero ter parte com o diabo. Quero ter, no momento em que caminho a passo acelerado para os meus 70 anos, para o momento em que serei forçado a deixar a universidade, a coragem de rejeitar duramente meus erros passados, denunciar meus procedimentos equivocados, pedir humildemente desculpas pelas consequências infelizes que possam ter deles resultado. E tentar contribuir para que se busquem outros rumos. Para que a História da Filosofia, entre nós, comece a dar lugar finalmente à Filosofia.

(…) Dever-se-ia dar também atenção especial, porém, àqueles problemas filosóficos que são problemas para nossos estudantes, questões que naturalmente os preocupam. Aliás, inseridos que estão e não poderiam deixar de estar no mundo contemporâneo, muitos dos problemas desses jovens refletem compreensivelmente parte da problemática com que estão lidando os filósofos de hoje. Parece-me, por exemplo, que os problemas de filosofia moral têm aí um lugar especial. Têm acaso sido eles objeto importante de nossos cursos e atividades de ensino e pesquisa? Temo sinceramente que não.

(…) [É] muito desejável que nossos estudantes sejam fortemente incentivados, desde o início, desde o primeiro ano, a exprimirem livremente nos seminários, nos trabalhos e nas aulas os seus próprios pontos de vista sobre os assuntos tratados. A tomarem posição, a criticarem, a ousarem criticar, se isso lhes parecer ser o caso, mesmo as formulações dos grandes filósofos e suas teses.

(…) [E]m História da Filosofia a autoridade parece contar muito, em Filosofia a autoridade não conta nada. Seja qual for a minha erudição historiográfica, minha opinião filosófica conta tanto, na esfera do saber e no domínio das verdades filosóficas, quanto a de qualquer um de meus alunos, minhas performances “magistrais” não garantem a verdade do que eu possa afirmar.

(…) Há espaço de sobra nele [no departamento de filosofia] para a crítica e para a indispensável autocrítica. Basta abrir algumas salas que estão fechadas, as salas da discussão, da polêmica, do debate, da crítica, da autocrítica. Disseram-me que vocês têm as chaves.”

Discurso completo aqui: http://www.revistafundamento.ufop.br/Volume1/n1/vol1n1-2.pdf

A “queda da graça” do professor Porchat é, como ele sugere, revolucionária, e ainda extremamente relevante por vários motivos.

As coisas ainda estão bem como ele descreve. Muitos departamentos e professores de filosofia no Brasil ainda mantém um ambiente acadêmico hostil ao racionalismo. Pois é hostil ao racionalismo ensinar aos alunos que devem apenas comentar o que Fulano disse sobre Cicrano, não tentar criticar Fulano e Cicrano ou elaborar seus próprios argumentos com base nos erros ou descobertas de ambos. É hostil ao racionalismo pensar que pesquisa filosófica é comentário de obras de arte e associações vagas ou triviais de ideias repletas de nomes importantes e palavras de baixa frequência de uso na língua portuguesa, além é claro de neologismos dispensáveis e maneirismos de escrita e demais adornos desnecessários para quem de fato tem argumentos a apresentar.

O Brasil, talvez, nunca esteve tão necessitado de bons filósofos quanto hoje. A população de baixa escolaridade, apesar de amar a erudição e sonhar em ver seus filhos estudando, transita entre ideias da grande mídia, da igreja e do senso comum, como “bandido bom é bandido morto” e “sem Deus tudo é permitido”. Quando conseguem alguma educação, quase sempre recebem ideias repletas de preconceitos como o cientificismo. E são essas pessoas que pagam as bolsas de mestrado e doutorado de estudantes que passam anos nas universidades públicas para terminar com trabalhos que muitas vezes não têm qualquer compromisso com originalidade argumentativa ou mesmo a clareza (que não implica rejeição a qualquer jargão, mas implica que o jargão usado pela comunidade tenha algum escrutínio criterioso).

Isso não é justo. E não é justo que o cidadão leigo em filosofia tenha como personalidades filosóficas famosas em seu país figuras como Olavo de Carvalho e Luiz Felipe Pondé, que vivem de regurgitar senso comum com adornos linguísticos da norma culta.

O exemplo do professor Oswaldo Porchat Pereira é um exemplo de coragem e um exemplo a ser seguido. Que outras carreiras longas como a dele não sejam gastas em exercícios historiográficos fora de departamentos de história e cultos a personalidades mal travestidos de debate crítico.

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Publicado originalmente no Facebook da LiHS.

2nd of December

Resposta ao ataque de Rachel Sheherazade contra o Estado laico


Rachel Sheherazade diz que concorda com Sarney que a tentativa de retirar "Deus seja louvado" do dinheiro é "falta do que fazer". Quem tinha falta do que fazer foi quem atendeu a vontade individual do Sarney e enfiou essa frase no dinheiro em 1986, direito que não era assegurado a ele nem como presidente. Não tem lei nenhuma regulando isso, e a Constituição diz para o Estado não apoiar nenhuma crença religiosa. É um exemplo típico de ingerência do particular sobre o que é público. É a segunda vez que a jornalista, nessa mescla de jornalismo amador brasileiro entre notícia e opinião, perde totalmente a noção do que fala quando se trata de convivência do Cristianismo com outras crenças no Brasil. Outra ocasião em que ela fez isso foi quando os tribunais gaúchos corretamente retiraram crucifixos de suas dependências. Sem falar nos mitos e inverdades por ela proferidos. Se foi o Cristianismo que pariu a noção de igualdade social, então ela vai ter que explicar por que a Revolução Francesa não partiu de iniciativa cristã, muito pelo contrário, sendo inspirada por obras seculares como a Encyclopédie, a primeira enciclopédia do mundo, organizada pelos ateus Diderot e D’Alembert. Na escola ninguém aprende o mínimo sobre laicidade, Rachel Sheherazade é só mais um dos sinais da pobreza da educação nessa área. Fica a pergunta: se é desimportante a frase no dinheiro, por que tanto barulho sobre a tentativa constitucionalmente correta de retirá-la? Por que o procurador CATÓLICO que propôs a retirada da frase foi ameaçado de morte? Temos uma turba de teocratas que querem empurrar seu cristianismo goela abaixo em todos neste país, e esse autoritarismo começa justamente em coisas pequenas como frases no dinheiro e crucifixos em tribunais. Como disse o Carlos Orsi, essa insinuação de que o assunto não é importante é quase uma confissão de derrota: sabemos que é errado, mas vamos continuar fazendo mesmo assim, porque somos maioria, maioria ditatorial que não se importa com a vontade de minorias como politeístas, ateus, e quem acredita em forças superiores mas não gosta de chamá-las de "Deus". O assunto é muito simples: só tem dois jeitos de ser neutro: ou bota-se TODAS as frases religiosas e não-religiosas imagináveis nas notas de real, e transforma-se todas as paredes de tribunais em penduricalhos de símbolos de todas as crenças religiosas que tenham pelo menos um defensor no Brasil, ou retira-se tudo. Retirar tudo é mais barato, mais racional, mais respeitoso. E pelo amor de Iemanjá, parem com esse negócio de inventar que "Deus" é uma expressão neutra de todas as religiões. Budistas não acreditam em nenhum deus, perguntem à Monja Coen. Eu não acredito em nenhum deus, muito menos em entidades como a bela e afável Iemanjá, e sou cidadão brasileiro. Exijo, como cidadão brasileiro, que parem de enfiar suas crenças pessoais no dinheiro e nos tribunais que são de TODOS, não apenas de vocês. Exijo em nome da Constituição que a Rachel Sheherazade não leu. *** A juíza que decidiu pela permanência da frase confessional diz que não vê muitos incomodados com a frase. Prove que ela está errada assinando esta petição.