29th of April

Memento Vitae


Existe uma tendência natural, detectada experimentalmente, de considerarmos bom o que é familiar. Uma pessoa que você conhece há mais tempo pode ser considerada boa gente por você, apenas porque vocês se conhecem há muito tempo. Claro, você pode argumentar que se não fosse gente boa, teria feito algo ruim em todo este tempo. Mas também temos a tendência natural de superestimar o passado, pintando-o melhor do que de fato foi. Toda memória, quando lembrada, está sujeita a ser alterada um pouco. Nossa luneta para o passado sofre de miopia com uma aberração cromática que desvia para o "tudo azul". Fossil Damselfly (Chlorocyphidae fam.) These insects lived during Eocene time, about 50 million years ago. They are preserved in the Green River Formation, a laminated limestone precipitated from calcium-rich waters. The limestone is interbedded with many thin layers of volcanic ash and mudstone. Fossil Butte National Monument. Near Kemmerer, Lincoln Co., Wyo. Nossas memórias não são completamente confiáveis, principalmente as mais antigas. Viver é, portanto, estar à deriva num mar de tempo em que a memória do passado está tão borrada quanto a perspectiva do futuro. Num certo sentido, olhar para sua própria foto num evento do qual você não mais se lembra é idêntico a olhar para um animal fossilizado há milhões de anos: são dois fatos deste mundo que não pertencem à sua memória particular mais do que pertencem à História do universo que lhe cerca. Você está atento aos sons que te cercam agora? Sente a gentil carícia do ar que te cerca? É capaz de se imaginar voando pela janela para ver todas as galáxias? Aproveite! Tudo isso é seu, tudo isso é nosso, aproveitemos bem enquanto temos. Julguemo-nos mutua e caridosamente pelas ações que tomamos, pelo amor que oferecemos, aqui e agora. Não esperemos pela persistência que a memória não tem.

9th of April

Sobre sexualidade, para evitar problemas e ficar mais próximo a realidade.. penso que é muito melhor dizer que não tem certeza dela. A certeza dela, na verdade, não nos serve de nada. E sexualidade não é algo inconstante e imutável..


cont: "Afinal se podemos mudar nossos gostos por tipos de pessoas do mesmo sexo, podemos mudar o sexo em si também. O que nos cativa não é o gênero, e beleza e caráter independem de gênero!"

Hmm… sua hipótese pode soar bonita, pode soar agregadora à liberdade humana. Mas é pouco amparada em evidência, e é isso que importa.

Biologicamente, não faz sentindo algum o que você disse. Parece uma forma de ser condescendente com a acepção popular de que gays escolhem sua orientação sexual, como se heteros fizessem o mesmo.

É melhor irmos nos acostumando a pensar que muito do nosso comportamento foge ao nosso controle, uma parte do que nos move são pulsões que gosto de chamar de arracionais – não são a razão, mas também não são irracionais, são apenas independentes dela. O ego não é senhor de sua própria casa, mas um dos hóspedes.

É a visão modular da mente: ela é como um canivete suíço, com múltiplas funções, uma das lâminas é o que se convencionou chamar de razão nos últimos milênios, mas na verdade pouco sabemos sobre o que realmente é isso. Estou usando agora a razão para confessar que pouco sei sobre ela. Sei que ela própria não se ampara em argumentos. Dando-se conta disso e ajudando a fundar o racionalismo crítico, Karl Popper chegou a dizer que tinha fé na razão. Acho uma frase exagerada e mal construída.

Não é necessário ter fé na razão. É necessário observar o que seu uso nos dá, que é a previsão e a explicação, conscientes de que a razão é um órgão, é uma função cerebral. Como diz Daniel Dennett, evoluímos como evoluímos porque a seleção natural favorecia quem descobria a verdade – a razão é o que caçadores precisam para sobreviver. Ouso dizer que a caça é a forma mais antiga de ciência, a aplicação da razão ao mundo natural. Observe como este caçador é científico no procedimento dele (ative as legendas):

http://www.youtube.com/watch?v=39r_LoF65fc

Fé é acreditar sem evidência. A funcionalidade e autossuficiência dos produtos da razão são evidência suficiente de que ela nosso melhor instrumento para encontrar a verdade. Tratar a verdade pela correspondência ou pela coerência é uma escolha axiológica, mas em ambas a razão cumpre seu papel, levando a erro mais frequentemente quando usamos o conceito coerentista da verdade.

Compreendo perfeitamente que você tenha uma atração estética por um mundo em que a mente é governada pela razão ao ponto de podermos ser verdadeiros com uma de nossas pulsões arracionais, a libido, e dizer que podemos dar uma certa maleabilidade conscientemente ao que nos causa excitação sexual.

Mas este mundo é um mundo utópico. No mundo em que eu vivo, pessoas simplesmente variam, a começar pelo DNA que carregam. E órgãos simplesmente crescem a partir dessa variação, encontrando mais chance de variar nos recursos ambientais que os cercam. E o órgão da libido é assim também, mas de maneira alguma é escravo da razão, sendo que a situação na verdade é, na maioria das vezes, justamente o contrário:

as pessoas usarão todo tipo de racionalização (que é uma defesa contra dissonância cognitiva que faz um uso imaginativo da razão) para tentar justificar seu comportamento sexual, como se comportamento sexual precisasse de argumentos para se justificar.

Não precisa. Sexualidade não precisa de palestra para ser como é, e apenas é, da forma como for, em cada um de nós.Play
Pergunte-me qualquer coisa.

6th of April

Qual a maior prova da Evolução?


A evolução está escrita em cada micrômetro do seu corpo. Toda célula tem todo o material genético necessário para a construção do corpo inteiro. Isso é porque bilhões de anos atrás cada célula era um indivíduo isolado, depois começaram a viver juntas como organismo (cerca de 800 milhões a um bilhão de anos atrás quando surgiram os primeiros animais, parecidos com esponjas). Em média cada célula viva sua tem 1000 mitocôndrias, cada mitocôndria ainda carrega duas membranas e um monte de moléculas circulares de DNA dentro delas, exatamente como as bactérias modernas. michelsonQuando você se olha no espelho, cada pedaço seu é uma relíquia do passado evolutivo. Seus cabelos e sobrancelhas têm cerca de 200 milhões de anos, foi quando eles surgiram a partir da modificação de escamas. Seus olhos têm cerca de 500 milhões de anos, foi quando a planta de sua construção foi primeiro esboçada em cordados que nadavam pelo mar. Seu nariz e seu queixo são bem mais recentes, têm cerca de 200 mil anos, que foi quando nossa espécie nasceu na África. Eu me alegro de saber essas coisas, me faz entender por que tantas culturas cultuam os ancestrais. A propósito, o próximo Bulecast ( http://vimeo.com/channels/bulecast ) será sobre evolução e já convidei o Rodrigo Véras do http://Evolucionismo.org e o Átila Iamarino do Rainha Vermelha. P. S.: Não acho a palavra “prova” adequada à justificação de teorias em ciências empíricas como física e biologia, e já expliquei por que aqui.

2nd of April

Eli, pensa comigo, a ciência vive mudando, como já mudou de “opnião” diversas vezes. E se alguém vier e provar o contrario de varias teorias que você usa para apoiar a ideia de que não existe um deus?


Pensa comigo: qualquer coisa que você pegar neste mundo, qualquer mesmo, é mais complicada do que você pode reconstruir na sua imaginação. Como dizia o físico Richard Feynman “a imaginação da natureza é muito maior que a do homem, ela nunca vai nos deixar relaxar”.

Sendo assim, toda descrição que você fizer de qualquer coisa será incompleta, e sempre que você tiver um problema prático que envolva esta coisa, você deverá rever o que pensava a respeito dela, e eventualmente mudar o que você pensava.

Essa noção de que a ciência muda de opinião o tempo todo é no mínimo ingênua. É mais uma ampliação informada de conhecimento do que uma mudança. Einstein reformou as teorias de Newton sobre a natureza da gravidade, que deixou de ser vista como vetores de força e passou a ser vista como curvaturas no espaço-tempo – mas essa é apenas uma descrição aproximada dos cálculos matemáticos e argumentos complexos usados por Einstein. Para efeitos práticos, ainda funciona para vários casos considerar a gravidade uma “força”.

Se nos jornais sai hoje que ovo e café fazem bem, e amanhã que ovo e café fazem mal (não é bem assim, mas estou tomando como exemplo da percepção leiga de ciência mais comum nos brasileiros), não significa que estamos mudando de ideia o tempo todo sobre a natureza do ovo e do café. Sabemos muito bem que o ovo contém certas proteínas, carboidratos e gorduras, e que o café contem uma miríade de moléculas orgânicas como a cafeína.

Esses estudos de “fazer mal” ou “fazer bem” são estudos estatísticos que estão sujeitos a flutuações aleatórias dependendo de várias coisas, do desenho do experimento ao tamanho da amostra. Uma coisa é achar um resultado estatisticamente significativo, outra é explicar esse resultado em termos de moléculas e componentes do objeto de estudo. E esses experimentos não podem tratar pessoas como camundongos por razões éticas.

E se alguém provar falsas as teorias modernas? Bem, não tem como fazê-lo de modo tão simples – dado que temos tecnologias que FUNCIONAM baseadas nessas teorias, como o computador na minha frente depende da mecânica quântica e como nosso conhecimento da origem do HIV depende da teoria da evolução. Não se prova falsa uma teoria científica sem botar outra teoria no lugar que faça tudo o que a antiga fazia antes, de preferência melhor.

Estou tão temeroso de estar errado sobre Deus quanto de estar errado sobre as fadas. (Talvez fadas sejam mais prováveis…)

2nd of April

Qual é a diferença entre Design Inteligente e Criacionismo?


Criacionismo é a crença de fundamentalistas que, como pensam que a fé é insuficiente para estabelecer qualquer coisa e têm inveja do sucesso de justificações científicas para estabelecer conhecimentos, resolveram fingir que seu mito de criação tem justificação científica, e estão preparados para ignorar qualquer evidência em contrário, tapar os ouvidos e gritar como crianças fazem, para não admitir que o mito de criação está devidamente exorcizado da biologia há 150 anos.

Design Inteligente é um criacionismo que foi maqueado e transformado num cavalo de Troia para parecer menos atado a visões religiosas, depois que os criacionistas falharam em convencer os juízes dos Estados Unidos de que seu mito de criação era ciência e merecia entrar nas escolas.

Para fazer isso os criacionistas fingem que não importa para eles quem é o “projetista” (ou “designer”… porque para entrar no Brasil uma suposta “ciência” teria de ter um anglicismo no nome, não é?), quando está claro que pensam que têm algum argumento científico ou racionalista para defender que a vida foi projetada por um fantasmão amorfo sem mais o que fazer, no caso o Deus bíblico, o mesmo que resulta de uma salada de conceitos da mitologia cananeia.

Claro, como há doido para tudo, existem ateus criacionistas que pensam que a vida terrestre foi projetada por ET’s – são os raelianos ( http://bulevoador.haaan.com/2011/03/01/ainda-duvidando-que-existem-ateus-criacionistas-nao-duvide-mais/ ).

Eu sugiro o seguinte: que o Michelson Borges, o Enézio de Almeida, o Marcos Eberlin e outros ilustres criacionistas brasileiros se ocupem primeiro de descartar os ET’s como criadores da vida terrestre, para só depois nós biólogos começarmos a pensar que talvez foi Javé… mas não sem antes descartarem também os mitos de criação do hinduísmo, das religiões africanas, das tradições chinesas e as histórias dos povos nativos das américas.

Sem isso, nada feito. Mantenham seus mitos fora da minha biologia que eu mantenho minha biologia fora da sua igreja.