31st of December

"Paradoxo da pedra"? Por favor… Criar "uma pedra que um ser onipotente não pode levantar" é tão lógico quanto criar "um planeta que gira em torno de um satélite", ou mesmo um "quadrado redondo". Você chama isso de argumento??? Fala sério…


Falo sério. Assim como outros filósofos que já trataram deste paradoxo (ex: Patrick Grim. Impossibility Arguments. In Michael Martin (ed.). Cambridge Companion to Atheism. Cambridge University Press, 2007). Ninguém está criando pedra alguma – aliás, o paradoxo é justamente esse: pode um ser onipotente criar uma pedra que ele próprio não possa levantar?

Isso é um paradoxo porque não pode receber sim ou não como resposta. Se o ser onipotente pode criar tal pedra, sua onipotência será negada pela propriedade da pedra ser imóvel. Se ele não pode criar, novamente a onipotência é negada.

Isso não tem nada a ver com pedras ou deuses, isso apenas mostra que não existe uma habilidade absoluta e perfeita sem contradições internas a ela.

A onipotência, por ser autocontraditória, é impossível. É como falar em círculo com quatro arestas ou em quadrado com infinitos vértices: só serve pra impressionar a mente através da quebra da lógica. Isso se dá porque somos capazes de construir frases sintaticamente aceitáveis com contradições internas.

Ter capacidade de fazer qualquer coisa é um atributo autocontraditório porque esbarra em consequências possíveis que negam este mesmo atributo.

Discuti este assunto com teístas e eles tentaram a escapada de dizer que criar uma pedra que não se pode mover é uma tarefa ilegítima. Mas não é. Fazer um quadrado redondo pode ser uma pseudotarefa, mas Deus criar uma pedra que ele próprio não consegue mover não tem nenhum impedimento. (O impedimento está na noção absurda da onipotência, ou seja, num atributo inventado por algumas pessoas para um ser imaginário que querem que exista.)

Não há contradição interna em um agente criar uma pedra que não consiga levantar ou uma mente conhecer um livro cujo conteúdo ignora. A contradição interna está nos conceitos de onipotência e onisciência. Tentar desqualificar as tarefas dos paradoxos como impossíveis só pode ser feito numa petição de princípio que tem a própria onipotência/onisciência como axioma.

Não se define uma pedra imóvel ou um livro incognoscível em função de nenhuma outra entidade que não seja respectivamente a pedra e o livro. Se “imóvel” e “incognoscível” fazem referência a ações de outras entidades, isso é facilmente resolvido substituindo-se “imóvel” por “fixo” e “incognoscível” por “críptico”. É apenas uma forma semântica de lembrar que essas são propriedades desses objetos imaginários, e que portanto tentar descartar sua possibilidade em função de uma suposta onipotência ou onisciência é apenas petição de princípio.

Em termos um pouco mais formais, os atributos “onipotência” e “onisciência” contêm no prefixo “omni” um quantificador universal. No caso da onipotência, este quantificador universal diz respeito ao conjunto de todas as tarefas possíveis.

Conceito de onipotência:

Capacidade tal que permite ao agente A executar qualquer tarefa T.

T é uma variável que se refere ao conjunto {T1, T2, T3, T4…}

Analisando o conjunto, podemos dizer que há tarefas que não estão contidas nele, como a tarefa de desenhar um círculo quadrado. É uma não-tarefa porque contém contradição interna.

Por outro lado, “criar uma pedra que não se consegue levantar” (T1), “conhecer um livro cujo conteúdo se ignora” (T2), são tarefas legítimas pertencentes ao conjunto T.

E também são tarefas contidas neste conjunto “mover qualquer pedra” (T3) e “conhecer o conteúdo de qualquer livro” (T4).

Um agente qualquer pode executar T1, mas nisso fica impossibilitado de executar T3. E pode executar T2, mas nisso fica impossibilitado de executar T4. Assim se dá com agentes possíveis. Agentes impossíveis são aqueles capazes de executar TODAS essas tarefas.

Portanto onipotência contém uma contradição interna, que é delegar tarefas incompatíveis para um mesmo agente. Em outras palavras, os teístas sustentam que Deus é necessariamente onipotente, em todos os mundos possíveis, a onipotência se torna autorrefutada por recrutar tarefas incompatíveis do conjunto de tarefas possíveis.

Posso até formalizar em Modus Tollens.

p = Deus pode executar toda e qualquer tarefa.
q = Deus pode criar uma pedra que não consegue levantar (absolutamente fixa).

p -> q (p implica q); ~q (negando q) conclui-se ~p (nega-se p, “não-p”)

Ou de modo completamente formal:

p->q
~q
____
~p

Para ilustrar melhor eu vou elaborar outros problemas (talvez complique, talvez solucione). A intenção é mostrar que o problema da autocontradição da onipotência é abstrato.

1) Deus pode criar uma paisagem tão bela que ninguém possa apontar defeitos nela?

Tarefas envolvidas:
1a – Criar qualquer tipo de paisagem.
1b – Criar uma paisagem perfeitamente bela.
1c – Apontar defeitos em qualquer paisagem.

1a e 1c são tarefas incompatíveis. A onipotência recruta ambas em sequência ou ao mesmo tempo.

2) Deus pode criar mundos em que sua intervenção é impenetrável?

Tarefas envolvidas:
2a – Criar qualquer tipo de mundo.
2b – Intervir em qualquer tipo de mundo.
2c – Criar mundos impenetráveis para intervenção.

2a e 2b são tarefas incompatíveis.

Poderíamos continuar ad infinitum mostrando esse tipo de incompatibilidade entre tarefas possíveis (portanto tarefas que devem necessariamente ser alvo de um ser que pode fazer tudo). Pergunte-me qualquer coisa.

26th of December

"Ausência de evidência não é evidência de ausência". Eu concordo com esta proposição. Mas o que seria uma evidência de ausência, Eli?


No livro “A perigosa ideia de Darwin”, o filósofo Daniel Dennett [interrompemos nossa programação para fazer um informe publicitário: Dennett é membro emérito da Liga Humanista Secular do Brasil] aponta três instâncias, se me lembro bem, para julgar a existência de qualquer coisa.

Primeiro, devemos analisar sua consistência (ou cogência) lógica. Não há consistência lógica num quadrado redondo, ou num par de peças em que ambas estão sempre à direita uma da outra.

Um unicórnio viola esses princípios da lógica do senso comum? Não. Então, a julgar apenas pela lógica, não podemos decidir se unicórnios existem, mas podemos saber que consistência lógica não é suficiente, embora seja necessária, para estabelecer a existência de unicórnios.

Em segundo lugar, devemos ver se o objeto concebível cuja existência está sendo testada viola ou não as leis fundamentais do universo descoberta pelos físicos.

Unicórnios violam leis da física? Depende do conceito de unicórnio. Se você diz que seu unicórnio converte toda a energia do que ele come em trabalho, sem nenhum desperdício, eu vou ter problemas para acreditar nisso porque seria uma violação das leis da termodinâmica. Neste segundo princípio, eu posso aceitar como fisicamente possível que seu unicórnio coma cogumelos Psilocybes e transforme toda a energia deles em lindos galopes pelos campos da Irlanda, arco-íris que ele emana pelo reto, e relinchos que soam melhor que as sinfonias de Beethoven. Mas não posso aceitar que ele faça isso como uma máquina térmica com 100% de eficiência.

Depois do princípio da consistência lógica e do princípio da possibilidade física, há o princípio da evidência.

É aqui que entra a frase de Carl Sagan: “ausência de evidência não é evidência de ausência”.

Se seu unicórnio não viola a lógica nem a física, eu não tenho dados suficientes para afirmar que ele não existe, mas você também não tem dados suficientes para me convencer de que ele existe. O número de entidades concebíveis que respeitam os princípios 1 e 2 é astronômico, só uma minoria evanescentemente pequena dessas entidades pode existir.

Para me convencer de que os unicórnios existem, você deverá ter evidências como um fóssil ou crânio fresco de equídeo apresentando um magnífico corno se projetando da sutura entre os ossos frontais. Sem evidências como esta, me reservo o direito de não acreditar em sua asserção de que unicórnios existem, mas… não posso afirmar com certeza que unicórnios não existem, porque ausência de evidência não é evidência de ausência.

O que seria evidência de ausência (era esta a tua pergunta e até agora estou enrolando pra responder)?

Inconsistência lógica e violação das leis da física são evidências de ausência. Outro tipo de evidência de ausência, eu diria, é a improbabilidade. Não posso dizer que unicórnios não existem, mas posso dizer, com meu expertise de biólogo, que jamais foi observado estrutura de chifre ou corno em espécies de equídeos, fósseis ou viventes, por isso considero improvável, com base nesta ausência e com base no estado da arte da mastozoologia, que exista qualquer unicórnio na superfície deste planeta – uma espécie de equídeo apresentando um corno cefálico frontal como característica normal (mutantes não contam!).

Há variás evidências de ausência do deus dos cristãos. Para começar, ele é logicamente inconsistente se for definido como onipotente, onisciente e onipresente. O paradoxo da pedra demonstra isso. Em segundo lugar, a ideia de milagres feitos por esse deus são a definição de violação de leis físicas – milagres não existem por definição para qualquer racionalista (como Hume). E em terceiro lugar, os cristãos esperam que este deus possua propriedades mentais tipicamente humanas como moralidade, planejamento e concepção de propósitos, características que demoraram milhões de anos para aparecer em nós, são contingentes (não aconteceriam da mesma forma que pudéssemos fazer um “rewind” da História). Essas condições de improbabilidade e contingência são compartilhadas por qualquer outra característica biológica única como a cauda do pavão e a tromba do elefante. Logo, crer que deus tem uma mente é equivalente a crer que deus tem uma cauda de pavão ou uma tromba de elefante, para os efeitos históricos de esperar que mente, cauda e tromba apareçam numa entidade fora deste planeta. Se uma mente limitada e cheia de gambiarras neurais como a nossa (Leia “Kluge” de Gary Marcus) é uma entidade que precisa de condições contingentes e cosmicamente improváveis no cosmos, uma mente perfeita, onipotente e onisciente tem de ser muito mais improvável.

Num “jackpot” do cassino das evidências de ausência, o deus dos cristãos é um dos poucos conceitos que violam todos os três critérios de avaliação de existência de entidades.

Isso significa que eu acredito, sim, ter “evidência de ausência” para este conceito, e para outros como o unicórnio.

Carl Sagan cunhou esta máxima quando respondia à questão de existirem extraterrestres. Não temos nenhuma evidência de que há vida extraterrestre, porém, ausência de evidência não é evidência de ausência.

E de fato não temos evidência de ausência de vida extraterrestre. Na verdade temos motivos para esperar evidências de presença. Pode-se ver a coincidência da composição de nossos corpos e a composição da maior parte da matéria do universo como uma leve evidência de que há presença de vida fora da Terra.

Carl Sagan também disse que alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias. Por isso chamei a evidência acima de “leve” – ela não é suficiente para afirmar que há vida extraterrestre, mas é necessária.

Todas as evidências de caráter probabilístico são assim – necessárias, mas não suficientes para fazer afirmações com certeza. E é por esta razão, entre outras, que certezas são inatingíveis quando se trata de afirmações sobre o mundo exterior.

Abraço Pergunte-me qualquer coisa.

16th of December

Por que não faço parte do Movimento Zeitgeist


O email abaixo, que mandei para a lista da diretoria da LiHS meses atrás, explica por que eu não acredito no Movimento Zeitgeist.
592px-Rubens,_Peter_Paul_-_The_Fall_of_Icarus
Peter Paul Rubens – A queda de Ícaro (1636)
Muito pouco cético e científico, pelo que estou vendo. Não se esqueçam que é o autor da série Zeitgeist, aquela do monte de falácias.
No dia em que humanismo secular depender de uma pregação dogmática como a do Zeitgeist eu pulo fora.
” Nossa missão é alcançar um sistema social que funcione sem dinheiro ou política, ao mesmo tempo em que permita que a superstição desapareça por conta própria conforme a educação avança. Ninguém [EXCETO OS FILMES ZEITGEIST, APARENTEMENTE] tem o direito de dizer aos outros em que acreditar, pois nenhum ser humano tem a compreensão completa de nada. Entretanto, se prestamos atenção aos processos naturais da vida, vemos então como podemos nos alinhar com a natureza e assim nosso caminho fica mais claro.”
Utopia de anarquista. O mal do anarquista é pensar que ideias fechadinhas vão ser digeridas e aceitas por todos os seres humanos da mesma forma, que todos vão mudar pela linda arte da persuasão, e que então vão largar suas crenças antigas e ultrapassadas, inclusive comportamentos nocivos, sem precisar de nenhum tipo de Estado.
Na cabeça utópica do anarquista, a motivação natural vai levar à realização de tudo o que precisa ser feito no mundo. A ‘novidade’ é: muitos trabalhos são insuportavelmente difíceis e cansativos, e nada melhor substitui o dinheiro (esta “ficção” útil de poder alcançar mais que os outros mortais) para fazer esta motivação ir até onde ela não iria naturalmente. O dinheiro é uma promessa de mais liberdade e poder que encontra resposta num anseio das pessoas, e isso, quer queiram os zeitgeististas ou não, é algo provavelmente inato no ser humano.
Se eles pensam que podem mudar isso, isso faz deles eugenistas.
“o crescimento populacional é tão ruim assim? A resposta é: de uma perspectiva científica, o planeta pode suportar muito mais pessoas se necessário, desde que façamos uso da alta tecnologia. 70% da superfície do nosso planeta é coberta por água e as cidades no mar (um dos muitos projetos de Jacque Fresco) são o próximo passo.”
Projetos que podem demorar séculos para gerar cidades viáveis, e no percurso trazer inúmeras mortes por falhas da tecnologia.
Muito, mas muito mais fácil mesmo, é admitir que o crescimento populacional É SIM um problema já HOJE, e é um problema maior ainda para a riqueza de espécies no planeta. Para resolver isso, vai bastar dar mais educação às pessoas (isso os zeitgeististas sugerem), legalizar o aborto, e oferecer a elas carreiras que atendem a seus anseios – sejam estes ter apenas mais dinheiro, ou (como no meu caso) saber mais sobre algum assunto por pura curiosidade, ou construir uma família, ou simplesmente ter uma ordem na vida que preencha a rotina antes que a morte venha.
Seres  humanos lutaram por séculos antes que essa luta incessante por interesses em conflito fosse feita com menos sangue. A resposta para este problema foi batizada de dinheiro, não de “ouça minha filosofia e veja como é sensata”. O Irã ouve o Brasil porque tem relações comerciais, e não porque está interessado nas nossas filosofias morais.
Ninguém foi convencido a ser capitalista. O capitalismo é o único sistema econômico que não precisou de teórico para surgir. Até morcegos e macacos medem a troca de favores e punem quem não arca com suas dívidas. Macacos, inclusive, não gostam de observar um outro recebendo mais comida – e eu andei lendo no livro de “orientação ao ativista” deles que eles alegam que a inveja é puramente cultural e passada por doutrinação.
É melhor guiar o capitalismo para que seja menos nocivo, sendo realista de que ele provavelmente surgiu de um misto entre necessidades inatas e sistemas culturais, do que aparecer com mais um sistema dogmático tentando converter a humanidade, como fez Marx, e como está fazendo o Zeitgeist pelo visto, dizendo que o futuro é a linda anarquia tecnológica apolítica.
Enfim, o vídeo do Movimento Zeitgeist sobre as Eleições 2010 ( http://www.youtube.com/watch?v=hBSiuwM4kuc&feature=player_embedded ) é um chamado a escolher o tal do “método científico” para guiar a sociedade, e extinguir a “política” porque os políticos supostamente são inúteis.
Em primeiro lugar, a existência dessa coisa chamada método científico é bastante questionável*. Os conhecimentos científicos são julgados, no fim, pelas previsões que fazem (o que inclui tecnologia), mas todas as tentativas filosóficas do século XX falharam em estabelecer que há um critério único de se fazer ciência, uma tábua da lei da ciência. Um dos maiores desafios a dito método científico é que a observação pura, sem impregnação de teoria, simplesmente não existe. Como diz o filósofo Elliott Sober, para observar se uma galinha está morta, é preciso já ter uma teoria sobre o que é uma galinha e uma teoria sobre o que é a morte. Ciências são conhecimentos que resolvem problemas fazendo previsões, e, neste sentido, pode-se dizer que a política é uma ciência e o sistema de leis e fiscalizações que o Estado mantém e os zeitgeististas acham tão inútil pode ser uma “teoria científica do melhoramento social”.
Esta nova ideologia dos ateus-anarquistas-apolíticos-ambientalistas-zeitgeististas me parece sofrer dos mesmos problemas do cientificismo, da eugenia e do futurismo. Bertrand Russell, no livro Icarus, critica algumas dessas ideologias.
O vídeo que passei acima é de uma ingenuidade monumental. É fácil frustrar as altas esperanças dos zeitgeististas: é só lembrar que os cientistas também não têm respostas para boa parte das perguntas que eles notam tão alegremente que os políticos não sabem responder. Ser cientista não significa saber lidar com problemas complexos de gestão social, e extinguir a classe política não cria a sociedade perfeita que eles criaram em suas animações 3d.
Ser cientista significa saber quais perguntas podem ser feitas hoje, para as quais é possível dar soluções, previsões, modelos. Isso se aproxima, de algumas formas, à atividade dos filósofos, que usam à exaustão suas capacidades analíticas e racionais para saber que respostas e soluções a filosofia pode oferecer.
Se eu estiver errado quanto a tudo o mais, ainda assim o movimento Zeitgeist estará errado por sua megalomania apressada. O prazo mínimo para conseguirem certas coisas que pregam é não de dez ou vinte anos, mas de 100, 200, 500 anos. Ser pessimista em matéria de prazo para implantação de novidades científicas funciona para coisas com a magnitude de construir cidades inteiras sob a água para compensar pela falta de espaço em terra. Basta lembrar do quanto erraram pessoas como Arthur C. Clarke em algumas previsões que fizeram (2001 com robôs com capacidades cognitivas por exemplo).
Sendo estes os prazos efetivos para a implantação das transformações que pregam, resta perguntar: a simples motivação altruísta, que dizem que será a substituta perfeita para a “cenoura pendurada” do dinheiro, será suficiente para manter as pessoas trabalhando conscientemente para extinguir a classe política e implantar a sociedade do método científico, mesmo estas pessoas sabendo que morrerão sem ver resultado significativo  no prazo de suas vidas?
Eu, que sou um cientista em formação, tenho noção de que poderei morrer sem ver algumas das respostas mais relevantes na minha área de atuação. Para isso não ser motivo para me desmotivar, persigo assumidamente os atrativos que a minha profissão tem a oferecer: alguma saciação para a curiosidade que sempre me acompanhou, desafios no lugar de tédios, prestígio social, e algum dinheiro (provavelmente não muito) que poderei usar para acumular coisas quaisquer que me interessem. Não estou fingindo ser o baluarte da pesquisa desinteressada, sou um curioso ganhando dinheiro pra trabalhar nas perguntas que mais atiçam a luxúria de saber. Sem a luxúria ou sem o dinheiro, não estaria fazendo nada disso.
O que se pode inferir do discurso do Movimento Zeitgeist é que esperam eliminar as luxúrias e invejas das pessoas, por alguma coisa que eles muito dificilmente admitiriam que se parece com a eugenia cientificista, convencendo quem eles pensam ser tábulas rasas a fazer o maior dos sacrifícios para eles, que é dedicar toda uma vida a uma promessa que não estaremos aqui para ver se concretizar.
Eu também quero as futuras gerações vivendo em lindas cidades tecnológicas e ecologicamente sustentadas, em que tudo funciona tão perfeitamente que leis e políticos não são necessários. Não significa que o que eu quero é possível, muito menos que será atingido através de filmes na internet.
Abraço,
_______
Eli

* Para um resumo sobre o fracasso em estabelecer um conjunto de regras que valessem para todas as ciências, ou seja, um método científico, sugiro: ler “Breves considerações sobre a natureza do método científico”, de Antonio Augusto Passos Videira, em “Estudos de História e Filosofia das Ciências” – Cibelle C. Silva (org.), 2006, pp. 23-40.

4th of December

Cristianismo: falso e corrupto


Faço uso de meu direito de livre expressão para defender abaixo, o mais sucintamente possível, duas teses sobre o cristianismo: de que é epistemologicamente falso e moralmente corrupto.

Epistemologicamente falso,

porque alega que o universo foi produzido pela mente de um fantasmão amorfo externo ao universo, que especialistas como Leonard Mlodinow e Stephen Hawking dizem ser absolutamente desnecessário para ter uma perspectiva hipotética plausível da origem deste universo. Posso citar também Victor J. Stenger e – por que não – até Pierre-Simon Laplace séculos atrás, que disse a Napoleão que não necessitava de deus algum para explicar a mecânica celeste (a que ele melhorou a partir do trabalho de Isaac Newton, que conscientemente abandonou a ciência para se dedicar ao misticismo no começo de sua terceira década de vida).
É curioso que o suposto todo-poderoso do cristianismo seja todo impotente dentro de uma perspectiva racional de compreensão do universo.
E não é só isso… o cristianismo faz mais um sem-número de alegações extraordinárias sobre o mundo, para as quais implora que baixemos os requisitos céticos que aplicamos às alegações extraordinárias dos xamãs e videntes dos oráculos de outras tradições culturais. Não podemos aceitar Ganesha com sua ridícula tromba de elefante, mas temos que aceitar um judeu levantando da tumba depois de sangrar e apodrecer durante três dias inteiros. Não podemos aceitar a montanha faminta do povo Aymara, mas temos que aceitar mundos mágicos em que os "justos" gozarão do gáudio eterno de bajular o tal fantasmão amorfo.
Não há base alguma, comum a qualquer mente não assolada por doutrinação anticrítica com custo emocional, que estabeleça as alegações fundamentais do cristianismo sobre seu Deus e seu homem ressurgido, Jesus, acima das alegações dos muçulmanos sobre Maomé viajar num cavalo voador.  

Moralmente corrupto,

porque está estacionado na ideia anti-humanista de que é bom e belo que Jesus, presumido inocente, pague por crimes de outrem: no caso, o resto da humanidade. Este ponto jamais arredará das concepções dominantes de cristianismo. A corrupção moral do cristianismo é evidente, também, em sua plasticidade extraordinária durante a História, servindo aos justos mas também aos escravocratas, misóginos, racistas, violentos, homofóbicos e sectários das mais diversas estirpes culturais; o que comicamente contrasta com sua alegação de estar trazendo consolação aos aflitos. Corrupção moral também é o nome que se dá ao comportamento de intolerância à crítica, tomando qualquer menor questionamento sobre suas alegações insubstanciosas sobre o universo como uma grave ofensa ou crime, expondo seus críticos honestos a uma horda de doutrinados com sede de linchamento moral. Como o deísta Voltaire, viro a cara diante do símbolo horrível da cruz, que deixa conspícua a inclinação do cristianismo de se comportar como um culto à morte enquanto alega ser preocupado com a vida. Repudio também a noção de amor castrado que chamam de ágape, que nada mais é que uma falsa panaceia para o indivíduo. prometeu_fueger_1817Por todas as luzes que iluminaram nossa espécie nestes 200 mil anos de existência, digo que jamais responderei ao cristianismo usando de seu expediente frequente de apelo à irracionalidade e à força. Minha pena está em riste, mas não preciso de espada alguma, que o mesmo Jesus diz ter vindo para trazer. Vim para trazer a pena, e estou preparado para compartilhar uma sociedade com pessoas que se subscrevem a tal sistema moralmente corrupto e falso, lutando apenas pelo direito de ter espaço nesta sociedade e usar da habilidade crítica e racional que milhões de anos de sofrimento evolutivo deram de presente à humanidade e o cristianismo insiste em não usar. Eu perdoo a meus entes queridos cristãos por seu cristianismo, e, se eles praticam o que pregam, me perdoarão por meu humanismo secular, ainda que na minha opinião devessem louvá-lo em coro comigo. Estou disposto também a colaborar, inclusive intimamente, com qualquer cristão, porque para mim pessoas antecedem suas ideias. Bem-aventuradas são as pessoas, pois são mais importantes que as ideias falsas e corruptas que frequentemente trazem consigo.  

“Ergo vivida vis pervicet et extra
processit longe flamentia moenia mundi
atque omne immensum peragravit mente animoque.”
Lucrécio, De Rerum Natura, Livro I, linha 72.
1st of December

Olá,antes de mais nada,gostaria de dizer que sou fã da Lihs e do Bule Voador(defendo e divulgo). Considero-me atéia, e até pouco tempo acreditava que a divisão era essa: ateu ou crente(no sentido de crer). So…me diga,o que é ser Ateu Agnóstico?


Oi Naná, muito obrigado pelo carinho!

Ser um ateu agnóstico é ser um ateu com a noção científica de que é impossível estabelecer que uma entidade desconhecida no mundo externo não existe.

Agnosticismo significa não ter conhecimento (a+gnosis). Não podemos ter conhecimento sobre a inexistência de um deus ou mais deuses. Mas isso não significa que não possamos acreditar que nenhum existe, porque a probabilidade de existirem é baixíssima.

O fato de você acreditar numa coisa não te obriga a ter certeza. Na ciência nós não temos certeza de nada, apenas dizemos que as coisas provavelmente são de uma forma ou de outra. Este é o princípio da inferência estatística – que serve para nos aproximar de uma resposta com um grau de probabilidade de estarmos errando.

Frequentemente nas pesquisas científicas é estabelecido um valor, chamado alfa, que corresponde à probabilidade de nossa conclusão estar errada sobre uma afirmação estatística, por exemplo, de que há diferença entre dois grupos. O alfa pré-estabelecido antes do teste costuma ter 5%, mas em várias áreas só se usa 1%, ou dez vezes menos que isso, ou cem vezes menos, e assim por diante dependendo do teste que é feito. Se temos um alfa de 5%, isso significa, grosso modo, que nossa afirmação tem 95% de probabilidade de estar correta.

Os estatísticos chamam o que existe no mundo externo de "parâmetro", e também sabem que quase nunca podemos saber qual é o parâmetro. Toda estatística é uma tentativa de inferir um parâmetro, ou seja, se aproximar dele.

Em analogia a isso, posso dizer que sou ateu sabendo que não posso dizer que conheço a inexistência dos deuses, porque tenho acesso direto a este parâmetro, mas eu posso dizer que todas as inferências honestas apontam que é muito provável que nenhum deus exista.

Sendo assim, eu não tenho certeza de que não existem deuses (agnosticismo), eu faço a inferência de que é extremamente improvável que eles existam (improbabilidade motiva a falta de crença, portanto, o ateísmo), e explico por que nos textos dos links abaixo.

– Três perguntas para descrer em Deus
http://bulevoador.haaan.com/2009/09/20/descrer-em-deus/

– Opiniões, mentes e peixes
http://bulevoador.haaan.com/2010/03/26/opinioes-mentes-e-peixes/

Grande abraço,
Eli Pergunte-me qualquer coisa.