20th of November

O que acha da postura metodológica anarquista de Paul Feyerabend?


Numa coisa ele está certo: não existe um conjunto de regras fixas que sejam suficientes para estabelecer o que é ciência. Não existe O método científico. Existem métodos científicos, e o que unifica a ciência não é um conjunto de regras explícitas.

Entretanto Feyerabend não era um relativista epistemológico, ou seja, não achava que a ciência era como qualquer outro tipo de conhecimento, sem diferencial em relação aos outros tipos. Principalmente no final da carreira dele.

"Como pode um empreendimento [a ciência] depender da cultura de tantas maneiras e, no entanto, produzir tão sólidos resultados? … A maioria das respostas a esta questão é incompleta ou incoerente. Os físicos admitem o fato como verdadeiro. Movimentos que consideram a mecânica quântica uma virada decisiva no pensamento humano – e isto inclui a mística charlatanesca, profetas da Nova Era e relativistas de todo tipo – ficam excitados pelo componente cultural e esquecem predições e tecnologia."

Paul Feyerabend, 1992 [apud Sokal & Bricmont]

Quem diria, o filósofo favorito dos relativistas descendo o sarrafo neles. Pergunte-me qualquer coisa.

17th of November

Entrevista comigo para o blog Grito na Janela


Momento egotrip: há três meses minha amiga Renata Escobar, do blog Grito na Janela, me entrevistou. Eis a íntegra da entrevista abaixo. guarujaEli Vieira é biólogo formado pela UnB, mestrando em genética e biologia molecular pela UFRGS, presidente da Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS), criador do Evolucionismo.org, editor do Bule Voador e autor de alguns blogs pessoais. E ele tem apenas 23 anos. Eli, como surgiu o seu interesse pela biologia e, especialmente, por Evolução? Um primo mais velho me contou há alguns meses que, certa vez, quando eu era bebê, ele foi visitar meus pais com a família e guardou na memória algo engraçado sobre mim. Eu estava, segundo ele, engatinhando pelo chão da cozinha, quando de repente parei e comecei a observar uma formiga que passava. Ele se distraía, mas sempre que olhava pra mim lá estava eu com minhas fraldas, ainda acompanhando a jornada da formiga atentamente, só observando-a por minutos a fio. Brincar com formigas, plantas, cachorros e gatos foi uma constante na minha infância. Era uma cidade bem pequena, Lagamar (MG), e ainda é. A casa tinha um quintal amplo, um pessegueiro ao lado de um muro onde eu e minhas irmãs sentávamos para comer pêssego com sal, sibipirunas enormes em que a gente subia, goiabeiras, limoeiros, pés de mexerica, hortaliças, etc. Havia um córrego bem próximo de casa, meio poluído com esgoto doméstico, em que minhas irmãs e eu fazíamos jornadas com os amiguinhos da vizinhança para as partes despoluídas e brincávamos de pescar piabas com peneiras grandes. Botávamos as piabas num aquário, mas elas sempre morriam por falta de oxigênio. Eu andava com meus amigos pelas ruas da cidade, tinha muito verde na escola e na praça, e no fim do ano caçávamos cigarras. Também frequentávamos a fazenda e ríamos dos nossos primos de Brasília que confundiam cana com bambu e jabuticaba com amora. Na fazenda eu vi siriemas, araras, anus brancos e pretos, ouvi o canto de um pássaro misterioso que lembra a campainha de um telefone, vi micos e quatis, comi gabiroba, pequi e angá, tomei leite recém-tirado da vaca, e inclusive testemunhei o ritual do preparo da famosa pamonha, e todo o procedimento de abate e preparo de animais para consumo da carne e de outros derivados como o sabão de banha, que também tem todo um ritual para ser preparado – pequenas amostras de um jeito antigo de viver que está sumindo. Meu pai, pecuarista e funcionário do Banco do Brasil, descendente de uma dinastia de fazendeiros que plantavam até o algodão de suas próprias roupas, sempre tentou me passar um pouco do conhecimento popular sobre a fauna e a flora do Cerrado, e incentivou minha escolha de carreira. Minha mãe, cantora de talento, religiosa e politicamente engajada, sobrinha e filha de uma série de velhinhos (descendentes de índios e escravos) que tinham sempre uma erva para todo mal que nos afligia, é uma exímia cozinheira mineira – o que também demanda conhecimentos populares de biologia – e também sempre apoiou minhas decisões. Por isso tudo, tenho uma certa experiência empírica com a mãe natureza como ela se manifesta na savana central do Brasil. É esta a base afetiva da minha escolha pela biologia. Considero esta base afetiva extremamente importante – hoje mexo com moléculas e programas de computador, mas tenho sempre em mente o espanto daquele bebê que eu fui, observando o mistério daquele serzinho preto fazendo uma odisseia pelo azulejo da cozinha. Houve também a presença dos livros e da TV, que me deram a base racional para fazer esta escolha de carreira. Eu gostava das fábulas de Esopo, mas também adorava folhear as enciclopédias (saudosas nestes tempos de internet). Ir à biblioteca à tarde era um programa de diversão. Quando criança eu lia bastante os quadrinhos da Turma da Mônica, meus vizinhos adoram contar uma anedota sobre eu ter sumido até me encontrarem atrás de uma porta lendo os quadrinhos. Lembro-me de ter lido também algumas revistas de divulgação como a Ciência Hoje e de ter me maravilhado com o livro didático de biologia de Amabis e Martho. Eu gostava de vários programas da TV Cultura, como o “Olho Vivo” e o “Gato Zap”, que mostravam documentários curtos sobre a natureza. Quando entrei na internet pela primeira vez (acho que foi no ano 2000), o primeiro site que visitei foi o da TV Cultura. Também assistia aos programas infantis famosos dos canais maiores (embora nunca tenha achado graça no falatório interminável da Xuxa, da Angélica e da Mara Maravilha) – mas o conteúdo que eles dão para as crianças é como doce: gostoso, porém pouco nutritivo. Foi o sinal fraco, intermitente e frequentemente interrompido da TV Cultura, além de breves menções à pesquisa científica nos telejornais dos outros canais, que tiveram peso nas tantas horas que passei vendo televisão. O resultado foi que por volta dos 8 anos eu já afirmava com convicção que queria ser “cientista”. Poderia não ter muita ideia do que isso significava, mas era algo como alguém que desvendava mistérios e encontrava soluções, cujo trabalho era comentado depois na TV. Meu interesse por evolução começou na quinta série do ensino fundamental, numa escola pública de Patos de Minas, para onde nos mudamos no ano anterior. Uma professora iluminada chamada Dona Cidinha nos ensinou tudo o que já poderíamos aprender de classificação lineana e introduziu a teoria da evolução. Não lembro como ela fez, mas lembro ter visto desenhos dos tentilhões de Darwin num livro e ter pensado no assunto repetidamente durante o recreio. Tudo o que ela precisava era de giz para desenhar no quadro negro e a nossa atenção no que ela tinha para dizer – depois que ela contou sobre a lombriga solitária que ela mesma expeliu, nunca mais me esqueci da Taenia solium. Então, sem mais delongas, creio que dá para achar já na minha infância razões pelas quais a biologia seria a melhor das ciências para o garoto quietinho e tímido que dizia que queria ser cientista. Ao longo da sua vida acadêmica, alguma vez você teve dúvida das suas escolhas profissionais? Poucas. Antes do vestibular, mas bem antes, considerei a possibilidade de fazer física. Quando passei para biologia, ainda pensava em fazer física depois e ter os dois diplomas. Agora acho inviável me formar em física – vontade não falta, mas a vida é curta, e fazer outra graduação seria perda de tempo quando posso estudar os assuntos de física que me interessam sozinho. Há quem tenha talento suficiente para ser biólogo e físico ao mesmo tempo, mas este alguém não sou eu. Entretanto, essas separações definidas entre disciplinas são um tanto ilusórias. Biólogos usam técnicas, teorias e conceitos da física corriqueiramente. Quanto à evolução, meus veteranos de biologia na UnB me conheciam como o calouro que queria fazer estágio em evolução no primeiro semestre. Consegui entrar para o Laboratório de Biologia Evolutiva, mas foi no terceiro semestre, e fiquei lá até o fim da graduação. Trabalhei com as ótimas professoras Rosana Tidon e Nilda Diniz. Também estagiei por um ano no Laboratório de Neurociências e Comportamento, com o professor Valdir Filgueiras Pessoa, que admiro muito. Meu projeto hoje é em evolução molecular, que estou tentando juntar com genética do comportamento. Não deixa de ser um projeto interdisciplinar e uma sequela dos interesses que manifestei nos estágios durante a graduação. Dúvidas e dificuldades eu tive e tenho muitas, mas acho que estou seguindo uma linha bem definida. Não tenho grandes crises existenciais sobre o que pretendo fazer na carreira, ao menos nas generalidades. Você já se tornou conhecido no meio dos blogueiros-cientistas e aproveita, como poucos, os recursos da internet oferecidos para divulgação do conhecimento. Qual o retorno por seu enorme investimento de tempo e trabalho? Tive um retorno acadêmico com o Evolucionismo.org, porque o incluí como resultado no meu terceiro projeto de iniciação científica. Mas isso foi na graduação. Agora é um projeto voluntário e pessoal, tanto meu quanto do Rodrigo Véras. Ganho apenas a satisfação de pensar que curiosos como eu têm mais uma fonte de informação para se deliciar – mais um “Gato Zap” para quem quiser ver. A história da nossa origem e nossa humilde posição na árvore da vida é uma história impressionante, detesto pensar que exista alguém procurando saber mais sobre evolução biológica no Google e se depare apenas com a torcida do contra, dos dogmáticos anticientíficos como os fundamentalistas da Lepanto e da Montfort. Era assim para as buscas da palavra-chave “evolucionismo” em 2008 e começo de 2009, antes de eu criar o blog. Agora, felizmente, o termo foi resgatado na internet por mim no Evolucionismo.org e por outros que têm contato com a produção científica do conhecimento em suas fontes primárias, como o pessoal do ScienceBlogs.com.br e da rede ResearchBlogging.org . Outro ganho que eu tenho é menos nobre, desfruto do prazer sádico, do schadenfreude, de pensar em todos os criacionistas que sapateiam para ignorar o conteúdo do meu blog e o consenso científico em torno do fato de que nós e as outras milhões de espécies de seres vivos deste planeta viemos de um processo natural de descendência com modificação. Não prometo optar pela via politicamente correta quando se trata de expor a nudez dos mentirosos e desonestos de plantão. Adauto Lourenço e Enézio de Almeida não me deixariam tergiversar nesta questão – o primeiro é mentiroso, o segundo é desonesto, como já mostrei por aí. Além da biologia, Eli Vieira também se interessa por filosofia e humanismo secular. Como leitora dos blogs e sites em que participa, sei de suas opiniões sobre religião, criacionismo, laicismo e ateísmo. Eli, você “sofre” ou percebe algum tipo de preconceito ou descaso das pessoas com quem convive por suas opinões e posicionamento diante de tais assuntos? Dentro de universidades nunca fui discriminado por isso. Para perceber o grande preconceito que existe na população brasileira contra descrentes como eu, preciso sintonizar no programa do Datena ou ler as pesquisas de opinião. Sei que nem todos os ateus desfrutam do ambiente privilegiado de uma boa universidade federal, em que não importa sua opinião sobre religião, mas apenas sua capacidade de desenvolver um trabalho intelectual. Já ouvi casos de discriminação contra ateus em entrevista de emprego e até em violência num bar. No máximo um ou outro colega estranha meu engajamento na Liga Humanista Secular do Brasil e no Bule Voador. Mas basta lembrar à pessoa que existe a bancada evangélica, que a Igreja Católica acobertou a pedofilia e que a Record pertence à Igreja Universal que ela logo percebe a necessidade dos ateus se firmarem como grupo político. Não é segredo para ninguém que eu acredito mais na humanidade do que no tão conjurado fantasmão amorfo requentado do panteão dos cananeus pelos hebreus da idade do bronze, que é a entidade central das mitologias cristã, judaica e muçulmana. Acredito mais na humanidade porque percebi que todos os valores que aprendi com minha família e meus amigos independem completamente de existir um deus ou não, ainda que eles acreditem no contrário. Quem duvida disso que me diga: que frase moralmente aceitável não poderia ser dita por um ateu? Um ateu pode dizer “eu amo as pessoas”, pode dizer “eu odeio quem maltrata as crianças” e pode dizer “quero que a fome e a violência sejam banidas deste país”. Nenhuma frase moralmente aceitável com implicações práticas precisa assumir que Deus existe. Logo, a moral depende apenas de nós, é uma linguagem que entendemos e falamos com as emoções. Além disso, Deus é visto pela maioria das pessoas que nele acreditam como uma entidade mental, que é capaz de ler pensamentos, atender a pedidos, entender a linguagem humana e criar coisas a partir de um planejamento. É uma pessoa com poderes infinitos e sem corpo. É um fantasma antropomórfico. Tenho tantos motivos para acreditar numa mente gigantesca e fantasmagórica quanto tenho motivos para acreditar em qualquer outra função biológica inflada para o gigantesco e o fantasmagórico: o sagrado ciclo de catálise enzimática, a santa germinação da semente cósmica ou a magnífica pena etérea que a todos perpassa com suas barbas e bárbulas espirituais. Se acham ridículo dizer que o universo veio da ramificação das bárbulas de uma pena invisível, ou da quebra da quiescência de uma semente titânica ou da incessante ação de um grupo de enzimas mágicas, também deveriam achar ridículo achar que o universo veio do planejamento da mente divina; porque mentes, tanto quanto penas, sementes e enzimas, são resultados contingentes da evolução. Separo bem as duas atividades que gosto de fazer na internet através de dois conceitos de Platão: doxa e episteme. Doxa é opinião, é um campo de disputa, principalmente a respeito de assuntos sobre os quais uma resposta definitiva não é possível de ser aferida por outros meios que não a argumentação. O Bule Voador e o Tetrapharmakos in Vitro (meu blog pessoal) são blogs doxásticos. Quem não aceita uma opinião (doxa) é quem discorda. Episteme é conhecimento, é crença justificada. E sabe-se que é “justificada” porque não depende apenas de argumentação. Por exemplo, a evolução biológica é justificada porque temos evidências diversas que vão do nosso próprio DNA aos inúmeros fósseis documentados, sem falar na construção teórica científica com alto poder preditivo e explicativo que a acompanha. O Evolucionismo é um blog epistêmico. Quem não aceita um conhecimento (episteme) é apenas ignorante ou relutante. Sou doxasticamente ateu e epistemicamente biólogo evolutivo. Ser ateu é ter uma opinião em particular, ser evolucionista é apenas estar informado. Por isso não preciso alegar que todo evolucionista precisa ser ateu, nem que todo ateu precisa ser evolucionista. É uma ideia preciosa para os tempos de hoje, em que a tolerância é moeda rara no mercado. Eli Vieira, muito obrigada pelo bate-papo no Grito na Janela; desejo-lhe muito sucesso pessoal e profissional. Por favor deixe-nos seus contatos para divulgação e fique à vontade para dizer o que mais lhe vier à mente. Fico muito lisonjeado com a atenção e o carinho, saiba que são mútuos. Desejo o melhor pra você também. É muito fácil achar o que ando fazendo na internet: Evolucionismo.org, BuleVoador.com.br e EliVieira.com – este último é o Tetrapharmakos in Vitro. Este nome pomposo misturando grego e latim resume quase tudo o que eu disse nesta entrevista com um trocadilho duplo: – “in vitro” (latim para “em vidro”) é um termo comum da biologia, que se refere aos procedimentos feitos em laboratório em instrumentos como o tubo de ensaios. O trocadilho está em associar o tubo de ensaios a “ensaios” de texto. – Tetrapharmakos é o grego para “quatro curas” ou “cura em quatro partes”. O trocadilho aqui é que não há “fármaco” nenhum para ser posto “in vitro” – as quatro curas são recomendações filosóficas para a vida plena, derivadas da filosofia do grande Epicuro de Samos. E elas são: (1) não temer os deuses [porque quase certamente nenhum deus existe]; (2) não temer a morte [porque um sentido para a vida finita pode ser construído e a morte é apenas o incognoscível]; (3) saber que a felicidade é possível [pois depende do atendimento de necessidades humanas]; e (4) saber que podemos escapar à dor do corpo e da mente. Investigar nossa própria natureza é um passo crucial para perseguir essas metas. Sendo inegável nossa condição de animais primatas humanos baseados em carbono, a biologia tem muito a contribuir para quem quer saber o que é necessário saber para viver plenamente e construir sua obra, qualquer que seja ela – ideias, famílias, um mundo melhor. Como estas e outras crenças precisam ser medidas, dissecadas, comparadas e julgadas, a filosofia é indispensável. E é por isso que faço tudo o que faço. Abraços eucarióticos! Beijos euarcontoglires! Adoro estas saudações informadas!

15th of November

Como é a sua ética? E o que é justiça para você?


Não a verbalizei muito, acho a interconexão entre epistemologia e ética uma das mais intrigantes na filosofia, especialmente porque num primeiro momento elas foram separadas por grandes pensadores como Immanuel Kant, e mais tarde reunidas por outros como Karl Popper.

Popper reúne ética e epistemologia quando recomenda que a resposta para ambas é o racionalismo crítico. Ele argumenta que o amor não é a resposta para a ética, mas a razão, porque pessoas que se amam podem entrar em conflito quando competem entre si para fazer a felicidade do outro e não a própria, quando fazer a felicidade do outro significa investir menos tempo em sua própria ou deixar que o outro tenha primazia na manifestação de seu amor. Se A ama B e a felicidade de B é ir ao cinema, A quer fazer B ir ao cinema. Se B ama A e a felicidade de A é ir ao parque, B tentará levar A ao parque. E isto é um impasse conflituoso que, na opinião de Popper, exemplifica que é fantasiosa a recomendação cristã de promover a maior felicidade no mundo através do amor.

Se queremos um mundo melhor, diz Popper, devemos trabalhar para corrigir erros que nos levaram antes, na história, à barbárie, à infelicidade e ao sofrimento. E o maior instrumento de que dispomos para corrigir erros é a razão. Temos de trabalhar para corrigir os erros sabendo que somos seres imperfeitos que cometem erros inexoravelmente, e não trabalhar para promover respostas prontas de como agir para ter felicidade. Cada indivíduo sabe o que é sua felicidade, seria injusto impor externamente a ele condições que presumem a priori o que fará sua felicidade.

Acho essa opinião de Popper bastante interessante, mas também acho que é liberal demais – é uma espécie de laissez-faire moral. Mas o ponto racionalista crítico de corrigir erros me parece indiscutível como uma recomendação tanto ética quanto epistemológica.

Como humanista me vejo como um consequencialista – devo julgar o que é justo pelas consequências que o justo trás ao mundo. O que é justo traz mais felicidade, o que é a máxima de Jeremy Bentham e John Stuart Mill – mas a justiça não deve ser alvo da ditadura das maiorias.

E por falar em maioria, creio que não é possível falar em ética sem falar em política, que é a aplicação prática da ética nas sociedades.

E a recomendação para a questão "quem deve governar?" é, para Popper, a democracia, a sociedade aberta.

É importante saber que democracia ideal não é ditadura da maioria.

A saúde das democracias não é medida por quantos plebiscitos fazem, mas pelo tratamento que dispensam às minorias.

Em toda a polêmica envolvendo a lei da ficha limpa, houve um comentário de um juiz do STF que me fez pensar. Ele disse algo como "se este tribunal se curvar a toda demanda popular que surgir, ele se torna inútil".

Está certo que a ficha limpa era necessária para as últimas eleições e que este argumento era mais uma desculpa para não decidir a questão, mas o argumento do juiz continua valendo: julgar não é questão de se deixar dobrar pela vontade das maiorias. Julgar deve ser decidir baseado na melhor filosofia moral disponível, em princípios de comum acordo (não princípios de MAIOR acordo). Para saber o que são princípios de comum acordo, só há um caminho: ouvindo as minorias.

Portanto, é apenas lamentável que apareçam cristãos argumentando que criminalizar o aborto é moralmente aceitável apenas porque cristãos são a maioria neste país. Usam este mesmo argumento para justificar a afronta ao Estado laico com feriados religiosos, padroeiros decretados por lei e símbolos religiosos nas repartições públicas.

Na questão do aborto, os cristãos são uma maioria falsa, porque agem hipocritamente. Católicas são as que mais fazem abortos. Ou seja, seguem uma moral diferente da supostamente pregada por sua religião. Ou seja, são tão convictas e tão confusas em questões morais como quaisquer outros mortais.

E a solução para confusões em questões morais é, na minha opinião, o julgamento pelo comum acordo, como já desconfiava Sócrates milhares de anos atrás, quando questionava como Êutifron poderia saber o que é bom confiando apenas na vontade dos deuses (e notando que Êutifron simplesmente não poderia saber o que é bom ou ruim conversando com os deuses).

Encerrando esta já longa resposta, eis alguns tópicos que considero importantes para um pensamento honesto e informado sobre a ética, junto com links de textos que publiquei por aí:

– Neuroética / neurociência da moral.
Ex.: as neurociências podem nos informar como formamos os estereótipos, tão relevantes nos problemas morais modernos. Eis uma notícia da Nature sobre a pesquisa da neurocientista Adrianna Jenkins neste assunto:
http://www.elivieira.com/2008/03/como-julgamos-os-pensamentos-dos-outros.html

– Individualismo e coletividade. Tratei da forma benigna do individualismo neste texto – "Seja individualista você também":
http://bulevoador.haaan.com/2010/04/30/seja-individualista-voce-tambem/

– O niilismo deve ser deixado de lado, como expressei no texto "Por que não sou niilista – uma resposta a André Díspore Cancian":
http://www.elivieira.com/2010/08/por-que-nao-sou-niilista-uma-resposta.html

O que é justiça para mim? É uma decisão coerente com uma teoria moral particular que efetivamente sirva para corrigir os erros humanos ao ponto de diminuir o sofrimento no mundo. Quando falo em decisão estou fazendo referência ao livre arbítrio, e não quero entrar neste complicador agora (mas acredito, sim, em livre arbítrio). Na dúvida, nos agarramos ao senso comum e à lei – com todos os inúmeros defeitos que têm, é melhor do que ficar sem chão.

Por enquanto é isso. Releve qualquer inconsistência.

Abraço,
Eli Pergunte-me qualquer coisa.

12th of November

Eli, sou um leitor fiel do seu blog. Gostaria de saber a sua opinião a respeito da pena de morte. Abraços.


6th of November

Eli, eu acho particularmente improvável que uma ação, por qualquer que seja, não gere ou vise algum benefício próprio. Desta forma lhe pergunto: O altruísmo é concebível?


Oi Rafael,

"altruísmo" assume certas acepções complexas demais porque tem como premissas estados psicológicos, e nada é mais complicado do que um estado psicológico – no sentido de ser inescrutável para análises reducionistas ou deterministas. Reducionismo e determinismo têm suas desvantagens, mas são ‘rotinas’ de explicação que mais tiveram sucesso na história da ciência.

Não podendo trabalhar com redução ou determinação, resta a nós tentar extrair sentido de coisas como altruísmo em outros termos psicológicos ou sociais (termos sociais costumam ser em seu âmago psicológicos, porque sociedades humanas emergem de mentes em conjunto, embora, como dita o mantra do holismo intelectualmente honesto, o todo é mais que a soma das partes).

Tendo em mente o dito acima, vamos à sua pergunta. O altruísmo é concebível, no sentido de que pode ser concebido na imaginação (perceba que "imaginação" é um termo psicológico). Em outras palavras, nossa mente pode imaginar alguém que "faz o bem sem olhar a quem", "sem esperar nada em troca".

Não significa que uma pessoa assim possa existir no mundo real, não apenas por ser concebível.

Mas existem pessoas que sentem uma sensação de recompensa quando ajudam alguém, creio que isso acontece com a maioria de nós.

Cabe ao futuro dizer o quanto dessa sensação de recompensa se deve a elementos redutíveis da mente, ou seja, a áreas cerebrais e circuitos neurais (causas próximas); e à origem evolutiva desses elementos (causas últimas).

Meu palpite é que há alguma variação nesses elementos, parcialmente selecionada pelas variantes culturais dos últimos milênios, que pode resultar em variações no grau de altruísmo dos indivíduos humanos, sendo altruísmo aqui definido como grau de sacrifício pessoal ao qual uma pessoa pode se submeter para beneficiar um ESTRANHO, uma pessoa não-aparentada. Essas variações podem ter uma distribuição normal, tendo pessoas muito egoístas numa cauda e pessoas genuinamente altruístas na outra cauda (a distribuição normal tem forma de sino), estas últimas se aproximando do ideal utópico de pessoa altruísta concebível. Gandhi estaria estre estas, Madre Teresa de Calcutá com certeza não.

Para testar se estou certo ou não, entretanto, é preciso ser possível que o altruísmo saia das rotinas explicativas circulares em termos psicológicos, e adentre os termos neurocientíficos e até genéticos. Eu acredito que isso vai acontecer, e na verdade já está começando a acontecer. Vide as pesquisas do Dr. Jorge Moll, que estuda a neurociência da moralidade:

http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4709769Z6

Sobre o altruísmo para com indivíduos aparentados, suas origens evolutivas são mais satisfatoriamente explicadas pela teoria da seleção de parentesco e pelo altruísmo recíproco, parcialmente explicados neste meu artigo de divulgação:

http://evolucionismo.org/profiles/blogs/casais-gays-e-formigas-a

Um abraço,
Eli Pergunte-me qualquer coisa.