10th of October

O que é ser cético pra você?


É exigir critérios racionais para aceitar propostas de conhecimento, ou mesmo previsões probabilísticas sobre a ocorrência de eventos ou entidades quaisquer. É reconhecer que conhecimento é algo que se produz a duras penas, cumulativamente e com vários pontos questionáveis ao longo do caminho da justificação.

Um cético não precisa ter a atitude irracional do cético pirrônico, serrando o galho sobre o qual está sentado. Basta ser pudico no ato de crer – só acreditando no que tem justificação, como por exemplo a justificação do fazer científico, a justificação da previsão corroborada, a justificação da lógica analítica, entre outras.

O cético deve também amostrar adequadamente as proposições que estão em status similar de justificação. Por exemplo, antes de aceitar o cristianismo, o cético deve apresentar razões para aceitar o cristianismo e não o hinduísmo ou o budismo, razões estas que devem ser suficientes para convencer qualquer mente independente a tomar o mesmo caminho.

Se isso não pode ser feito, o cético deve reconhecer que há tantas razões para aceitar o cristianismo quanto para aceitar o hinduísmo ou o islamismo, o que equivale a dizer que esses sistemas estão em status similar de justificação, que é o da falta de justificação.

Se alguém tenta convencer um cético de que "existe uma coisa X", mas não consegue justificar a crença na existência de tal coisa X, o cético deve optar pela hipótese nula – ou seja, a hipótese de que não há tal coisa X, pois o número de coisas que de fato existem sempre será infinitamente inferior ao número de coisas que podem ser criadas pela imaginação motivada da mente humana.

O cético é alguém que se entrega à luxúria de saber, mas sempre usando camisinha. Pergunte-me qualquer coisa.

7th of October

"Conhece-te a Ti mesmo e conhecerás todo o universo e os deuses, porque se o que procuras não achares primeiro dentro de ti mesmo, não acharás em lugar algum"- frase do Templo de Delfos na Grécia. Concorda?


Não.

O universo é bem maior que nós. Conhecendo a nós mesmos não vamos saber o que está se passando nas galáxias do Campo Ultraprofundo do Hubble, que só vemos por um “retrato” que foi tirado delas há 10 bilhões de anos, que é a luz que está chegando aqui.

Conhecendo a nós mesmos, porém, podemos chegar a um limite importante: conhecer o que é conhecer. Dessa forma, observando/teorizando nossa própria capacidade de conhecer, teremos, eu penso, uma pista dos limites das nossas próprias mentes de destilar a ordem do mundo.

Como todo poeta sabe, há limites para o que as palavras podem expressar. Eu digo que há limites para o que os conceitos podem descrever e prever – os conceitos, unidades básicas do conhecimento, são sempre dotados de uma margem de imprecisão, que é variável entre eles.

Comparações de diferenças e igualdades são a base conceitual da estatística que auxilia os testes de hipóteses científicas, usados canonicamente nas ciências naturais. Einstein, por exemplo, trabalhou com a mecânica estatística depois de pensar no movimento browniano – batizado assim por causa da descoberta do naturalista Brown, que observou num microscópio que grãos de pólen se movem aleatoriamente mesmo numa água de placa de petri aparentemente estática a olho nu. Isso foi usado mais tarde na mecânica quântica.

O acaso existe sim, passa bem e manda um alô.

Os fenômenos naturais que estão em escalas nanométricas e em escalas de anos-luz nos são em muitos sentidos inescrutáveis. Ou melhor: são para nossos sentidos inescrutáveis, ainda que sejamos capazes de prevê-los e descrevê-los com precisão com o auxílio da estatística e outras ferramentas lógico-matemáticas.

Estou começando a trabalhar com genes ligados ao comportamento humano. A maior parte do conhecimento na área vem de estudos de associação, ou seja, estudos que mostram que pessoas que apresentam um certo comportamento (como por exemplo o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) têm uma tendência estatisticamente significativa de ter uma certa variação de um gene ou de uma região do DNA que não está presente nas pessoas que não apresentam este comportamento. O comportamento, como a maior parte das nossas características interessantes, sofre a influência não de um, mas de centenas, milhares de genes ao mesmo tempo, e ainda do que nós, ingenuamente e esperançosamente, chamamos de ambiente (um conceito de alta imprecisão, na minha opinião).

A genética do comportamento é uma das ciências nas quais nós nos dedicamos a conhecer a nós mesmos.

Hoje à tarde eu estava conversando com cientistas que trabalham nesta área há anos, e eles são plenamente conscientes de que o conhecimento que estão produzindo está engatinhando. Ainda vamos demorar muito para conhecer a nós mesmos completamente ou ao máximo possível. Isso não é apenas metalinguagem, é metaontologia.

Sobre conhecer a si mesmo num sentido reflexivo, eu penso que estamos enganando a nós mesmos quando achamos que vamos realizar isso apenas com a instrospecção. Você não conhece a si mesmo sentado na sua poltrona dentro de casa, pensando com seus botões.

Você conhece a si mesmo quando sai porta afora e vai se deixar marcar pelo açoite e pelo afago do tempo.

O sábio, no fim da história, não estava enfurnado lá no alto da montanha. Ele estava pulando de pára-quedas ou apertando os botões da urna eletrônica domingo passado.

Os sábios estão entre nós. Procure-os. Pergunte-me qualquer coisa.