23rd of August

Você é capaz de provar que a fé não é verdadeira?



Sua pergunta não faz sentido ao menos que você defina fé.

“Verdade” é, em resumo e grosso modo, uma propriedade de proposições, sentenças, enunciados. A sentença “existe um sapo azul voador na Amazônia” deve ser verdadeira ou falsa.

Sua proposição “a fé é verdadeira” só pode fazer sentido se você me disser que fé é alguma coisa específica como acreditar num deus ou acreditar nos dogmas do cristianismo, mesmo não havendo evidência alguma para isso. Vamos assumir que seja isso o que você queria dizer.

Bem… eu proponho um problema: como diferenciar a sua fé da crença de um esquizofrênico em seus delírios?

Como diferenciar a revelação (que justifica a fé) do processo delirante do esquizofrênico?

Tomemos um exemplo de esquizofrênico: Estamira, retratada no documentário de Marcos Prado: http://aguarras.com.br/2006/08/06/a-lucidez-na-loucura-de-estamira/

Estamira acredita, por exemplo, que o planeta é um ser consciente. Ela diria que isso lhe foi revelado. Há várias crenças análogas em outros esquizofrênicos e outros transtornos psiquiátricos, por exemplo a crença de que há uma conspiração e perseguição contra o sujeito transtornado.

São com essas crenças que o sujeito transtornado explica os mistérios do mundo. Enquanto isso, a fé consiste exatamente na contemplação dos mistérios esperando que dentro deles haja respostas agradáveis, ou respostas que reafirmem algum dogma adotado.

O “filósofo” cristão William Lane Craig diz, por exemplo, que ele sabe que o cristianismo é verdadeiro porque o “espírito santo” fala no “coração” dele. Ele diz inclusive que isso o faz continuar acreditando no cristianismo mesmo se as evidências apontarem que o cristianismo é falso. Para um observador externo não é muito diferente do que a Estamira diz sobre o que ela acredita, já que não se pode demonstrar com evidências ou racionalmente as crenças da Estamira nem as crenças do Craig.

A maioria dos teólogos falam sobre a fé como algo paralelo à razão, mas não algo que faz parte da razão, justamente para poderem justificar dogmas.

Nenhum deles teve a mente aberta suficiente para considerar a possibilidade de a fé ser um outro nome para a perpetuação do delírio e da fantasia (algo que seja parecido com o que sofre Estamira). Não que todos os religiosos sejam delirantes, mas eles perpetuariam uma crença que é indistinguível de uma crença que pode ter sido inventada por uma Estamira no passado e sobrevivido ao longo das gerações pela doutrinação.

A maioria dos teólogos, senão todos, assume simplesmente, por exemplo, que Deus existe, ou a Trindade, e parte dessa premissa para diante. Assim como Estamira assume a partir de seu quadro esquizofrênico que a Terra é viva e consciente.

A origem de crenças quaisquer ou alegações sobre o mundo pode ser chamada em filosofia da ciência de “contexto de descoberta”.

Não estamos falando de ciência, mas de suposto conhecimento religioso. Então eu me pergunto: qual é a diferença entre o “contexto de descoberta” da esquizofrênica Estamira e o “contexto de descoberta” da revelação que sustenta tão firmemente a fé de William Lane Craig e outros cristãos?

A minha resposta é: não há diferença alguma. Embora nem todo religioso seja delirante, ao ter fé ele deposita confiança em proposições que podem muito bem ter vindo do contexto de descoberta de gente como Estamira.

Não há, portanto, diferença demonstrável entre fé em delírios e fé em dogmas revelados. Justamente por isso a fé historicamente desestimulou o avanço do conhecimento funcional sobre o mundo (conhecimento científico).

Primeiro porque a fé é um estado de “arrogância epistêmica” por tentar sustentar conhecimentos em áreas em que na verdade há ignorância. Afinal de contas, a fé é usada para dar a impressão de certeza absoluta sobre alguma coisa, geralmente algum dogma religioso, e é simplesmente improvável que um ser tão inexato quanto o ser humano tenha acesso a coisas tão exatas quanto certezas absolutas.

Portanto, abdicar da fé é dar espaço à dúvida – e todo conhecimento que se preze é duvidoso, mesmo que de forma mínima. E digo mais, é apenas assim, com o abandono da fé, com o abandono da arrogância de afirmar certeza absoluta sobre o que existe no mundo não observável, que alguém pode realmente se deparar com o tamanho de sua ignorância.

Conhecer o universo que nos cerca demanda que primeiro possamos estimar quão grande é nossa ignorância, e isso, historicamente, a fé apenas desestimulou.

Fés diferentes alegam coisas diferentes e ainda pedem que você não duvide. Conhecimento firme é aquele que passou pelo teste da dúvida. Por isso, ter fé não é saber. Ter fé é enganar-se. Pergunte-me qualquer coisa.

20th of August

Por que não sou niilista – uma resposta a André Díspore Cancian


o-grito Recentemente comentei uma entrevista do André Díspore Cancian, criador do site Ateus.net, em que ele expressava o niilismo. Desenvolverei um pouco mais aqui.
Se o niilismo (do latim nihil, nada) é meramente notar o fato de que não há um sentido para a vida, ao menos não um que seja propriedade fundamental da nossa existência ou do universo, então eu também sou niilista. Ou seja, é muito útil o niilismo como ceticismo voltado para a ética.
Porém há mais para o niilismo de alguns: não apenas notam este fato sobre a ausência de sentido na natureza que nos gerou, como também descartam de antemão, dogmaticamente, qualquer tentativa de construção de sentido como uma mera ingenuidade. E nesta segunda acepção eu não sou, em hipótese alguma, um niilista.
Há duas razões para eu não ser um niilista:
1) Vejo uma inconsistência interna, que é técnica, no niilismo:
É uma posição circular, pois parte de uma questão de fato, que é a falta de “sentido” na vida, para voltar a outra questão de fato, que é nossa necessidade de “sentido” na vida apesar de o tal sentido não existir.
A inconsistência aqui é ignorar um enorme campo, a ética, que é o campo das questões de direito.
“Sentido” é algo que pode ser construído pelo indivíduo e pela cultura, como sempre foi, porém sem o autoengano de atribuir sentido ao mundo natural que nos gerou mas ver o tal sentido como vemos uma obra de arte.
Ninguém espera que a beleza das obras de Rodin seja uma propriedade fundamental da natureza. Da mesma forma, não se deve esperar que sentido seja uma propriedade fundamental da vida.
Filósofos como Paul Kurtz e A. C. Grayling estão estre os que explicitam e valorizam a construção do sentido da vida da mesma forma que se valoriza a construção de valor estético em obras de arte.  
Como niilista, o André Cancian acha que a decisão ética diária que tomamos por continuar a viver é fruto apenas de instintos moldados pela seleção natural, e que a razão deve apenas não se demorar em tentar conversar com estes instintos, pois se tentar, ou seja, se focarmos nossa consciência no fato do absurdo da natureza (tal como denunciado por Camus e Nietzsche) cessaríamos nossa vontade de viver voluntariamente.
É um erro pensar assim, porque um indivíduo pode, como Bertrand Russell e Stephen Hawking relatam para si mesmos, construir um sentido para sua própria vida, consciente de que esta vida é finita e insignificante no contexto cósmico. É uma alegação comum que era esta a posição defendida por Nietzsche – que valores seriam construídos após a derrocada dos valores tradicionais. Mas não sou grande fã da obra de Nietzsche como filosofia, sou da posição de Russell de que Nietzsche é mais literatura que filosofia. A posição do niilista ignora também os tratados de pensadores como David Hume sobre a fragilidade da razão frente a paixões. A razão é escrava das paixões – é um instrumento preciso, como uma lâmina de diamante, porém frágil frente à força das paixões.
A razão e a âncora empírica são as mestras do conhecimento e da metafísica. Por outro lado, as paixões, ou seja, as emoções, incluída aqui a emoção empática, são as mestras das questões de direito, como indicam pesquisas científicas como as do neurocientista Jorge Moll.
A posição niilista é inconsistente ao limitar a legitimidade do pensamento ao escrutínio racional e/ou científico. Na verdade, razão e ciência são para epistemologia e metafísica (não respectivamente, mas de forma intercambiável). Ética existe não apenas como objeto de estudo destas outras faculdades, mas como todo um alicerce sustentador das nossas mentes: o alicerce das questões de direito –
– "devo fazer isso?"
– "isso é bom?"
– "isso é ruim?"
São questões com que nos deparamos todos os dias, a respeito das quais as respostas epistemológicas e metafísicas (referentes a questões de fato) são neutras.
Na entrevista no blog Amálgama, André Cancian faz questão de citar que as emoções (ou paixões), que ele chama de "instintos", tiveram origem através da seleção natural.
Esta prioridade inusitada na resposta do Cancian é exemplo da circularidade do niilismo: nada teria sentido porque as emoções vieram de um processo natural de sobrevivência diferencial entre replicadores que variam casualmente.
Frente ao fato de também a razão ter vindo do mesmíssimo processo, como Daniel Dennett argumenta brilhantemente em suas obras, por acaso isso torna a razão desimportante ou então faz dela um instrumento que só gera respostas falsas?
Esta pergunta retórica serve para exemplificar que nenhuma resposta a ela faz sentido ao menos que se separe, como fez Kant, as questões de fato das questões de direito.
É algo que niilistas como o André Cancian insistem em não fazer.
Na UnB, tive aulas com um filósofo admirável chamado Paulo Abrantes. Quando entrava na questão metafilosófica de explicar o que é filosofia ou não, ele, como a maioria dos filósofos, dava respostas provisórias e incertas. Uma dessas respostas me marcou bastante: filosofia é a arte de explicitar. Todo trabalho de tomar uma ideia cheia de conceitos tácitos, dissecá-la e explicitá-la melhor, seria um trabalho filosófico.
Quando certas formas de niilismo ignoram a importantíssima explicitação kantiana da separação entre questões de fato e questões de direito, estão voltando a um estado não filosófico de aferrar-se a posições nebulosas e tácitas.
Concluindo a primeira razão pela qual eu não sou niilista, posso então dizer que é porque o niilismo parece-me antifilosófico.
2) Não sou niilista, também, por ser humanista. Em outras palavras, o vácuo que o niilista gosta de lembrar é preenchido em mim pelo humanismo.
Aqui vou ser breve: por mais que eu tente explicar, racionalmente, razões pelas quais sou humanista, todas estas tentativas são meras sombras frente a sentimentos reais que me abatem.
O fato de existir o regime teocrático no Irã, e o fato de dezenas ou centenas de pessoas estarem na fila do apedrejamento, entre elas uma mulher chamada Sakineh Mohammadi Ashtiani, é algo que açula "meus instintos mais primitivos", parafraseando uma frase famosa no Congresso alguns anos atrás.
Sinto de verdade que é simplesmente errado enterrar uma mulher até o ombro e atirar pedras contra a cabeça dela até que ela morra.
Sinto que também é errado achar que "respeitar a cultura" do Irã é mais importante que preservar a vida desta mulher e de outros que estão na posição dela.
Porque culturas não são indivíduos como Sakineh, portanto culturas não contam com nem um pingo da minha empatia. Mas aqui são denovo minhas capacidades racionais tentando explicar minhas emoções.
Tendo isto em mente, convido qualquer niilista a pensar, agora, o que acha de dizer a esta mulher, quando ela estiver enterrada até os ombros, que nada do que ela está sentindo tem importância porque as emoções dela são instintos que vieram da evolução pela seleção natural.
Estou apelando para a emoção numa argumentação contra o niilismo? Claro. Eu construí o sentido da minha vida, aliás estou sempre construindo, com a noção de que minhas emoções – e as dos outros – são importantes sim, mesmo tendo elas nascido do absurdo da natureza. Na verdade, este batismo de sangue as valoriza. Mas falar das emoções, que são a base da ética, à luz de seu batismo de sangue é assunto para outro texto. Quem sabe usar o personagem Dexter Morgan como mote para falar disso? Não decidi ainda se será bom ou ruim.

8th of August

Contra ou a favor do aborto?



A favor desta escolha nas primeiras semanas, antes da formação do sistema nervoso.

Até este estágio o embrião não é diferente de um punhado de células quaisquer, como as que saem da pele a cada vez que você passa a mão no rosto, como os gametas que são jogados fora nas ovulações sem implantação e ejaculações sem fecundação.

O potencial de gerar uma pessoa não pode ser argumento para proteger o embrião porque cria uma assimetria com o modo como tratamos estas outras células, principalmente os gametas que jogamos fora todos os dias, conscientemente ou não. Toda célula tem informação genética potencial para formar uma pessoa completa. Se é crime abortar, deveria ser crime roer as unhas ou arrancar fios de cabelo.

Quanto a religiões como a Católica, que se apressam tanto em condenar o aborto, é bom lembrar que são fundadas em textos sagrados de épocas em que os mecanismos de reprodução não eram compreendidos. Os padres nada sabem de desenvolvimento embrionário para darem palpite no assunto.

Quanto à afirmação absurda de que “a vida” se forma na fecundação, no encontro entre um ovócito II e um espermatozóide, é bom que se saiba que o ciclo da vida é ininterrupto e não tem fase morta. A vida, desde que surgiu neste planeta há 4 bilhões de anos, tem somente dois estados – extinção e continuidade; e nós estamos ainda na continuidade, sem estágios mortos no ciclo de gerações de adultos e gametas desses adultos.

Quanto à outra afirmação frequente dos “pró-vida” (vida de quem?), de que o espírito é implantado no embrião que se aborta, é responsabilidade deles demonstrar que tal coisa chamada “espírito” sequer exista. Como dizia H. L. Mencken, se os outros animais não têm espírito, parece que eles não sofrem inconveniente nenhum com isso.

Espíritos não existem até que alguém prove o contrário. As ciências do cérebro e da mente já demonstraram que nossas capacidades tidas como mais “humanas” acontecem em nosso cérebro. Basta uma lesão cerebral para alguém mudar seu comportamento moral, ou perder a capacidade de memorizar, ou perder a capacidade de reconhecer rostos e falar.

Basta beber uma dose de álcool para alterar sensivelmente a consciência.

Logo, estabelecer o começo do sistema nervoso como o ponto em que um embrião merece gozar de direitos de cidadão é cientificamente correspondente e moralmente cogente.

Resta aos outros demonstrar o que acontece com alguém que tem lesão no “espírito”, ou mesmo demonstrar que há fantasma na máquina. Até lá, seus argumentos contra o aborto de fetos em estádios iniciais de desenvolvimento são apenas fajutos e em plena circularidade com dogmatismos irracionais.

É irônico que as pessoas que se dizem “pró-vida” não se importem nem um pouco em proteger a vida de jovens mulheres com gravidez precoce cujas perspectivas futuras são sensivelmente melhoradas caso sejam submetidas a uma intervenção médica para interromper a gravidez logo que o embrião dá sinal de implantação no útero. Em algumas abortar é questão de vida ou morte, como aquela menina de 9 anos, abusada sexualmente, cuja mãe e cujos médicos foram excomungados pela Igreja Católica por salvar a vida dela interrompendo a gravidez.

A boa notícia é que, da mesma forma que nenhum incoveniente é sofrido por quem não tem espírito, também absolutamente nada de relevante acontece com quem sofre excomunhão (exceto talvez o aumento das fofocas das beatas escandalizadas).

E outra coisa, se foi um tal Deus quem inventou a gravidez e a implantação de embriões, ele é o maior abortista que a História já viu, porque a proporção de gravidezes que resultam em aborto espontâneo pode chegar a 25% (Wilcox et al. 1999, New England Journal of Medicine – http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM199906103402304 ).

Abraço,
Eli Pergunte-me qualquer coisa.