30th of July

como terminou o debate com o eliel vieira?


Terminou com o Eliel inventando falácia que não existe para tentar encobrir sua própria falácia do espantalho.

Mas eu levei vantagem nestes pontos:
– quando o Eliel diz que a "mente divina" é meramente instrumental e não literal, está contrariando todo o comportamento de evangélicos como ele que se referem a Deus como uma inteligência, uma consciência, ou seja, uma entidade mental com capacidades de entender emoções e linguagem humanas.

– o Eliel, como é de praxe, no fim resolveu apelar para as emoções para apoiar seu mito confortador. Disse que acreditar em Deus é como acreditar no amor da namorada. Eu só fico infeliz de pensar que o Eliel ignora todas as carícias, olhares, atenção e cuidados como evidências empíricas de amor. Onde estão as carícias e olhares de Deus? Apelar para um sentimento para tentar corroborar uma crença vale para qualquer coisa, qualquer pessoa poderia usar os argumentos do Eliel (ou mesmo de teólogos que ele admira como William Lane Craig) para defender Brahma, Alá, Krishna ou Tupã.

– a argumentação dele tentando apoiar pequenas certezas foi inócua. Basta ler um livro introdutório de epistemologia, como "Oposições Filosóficas: A Epistemologia e suas Polêmicas", de Luiz Henrique de Araújo Dutra (Editora da UFSC), para perceber que a argumentação do Eliel sobre ceticismo é desinformada e ingênua. E outra coisa, dissertar sobre possibilidades lógicas de ter "certezas" é bem diferente de firmar uma certeza legítima, muito menos uma certeza sobre mitos da idade do bronze como Deus e mitos da cristandade como a ressurreição.

Não saber que uma posição deve ter cogência intrínseca para se sustentar, em vez de meramente brotar de críticas a outras proposições, é um grave defeito filosófico do Eliel. Sem falar nos apelos subreptícios a autoridades anacrônicas como Leibniz, que depois ele diz que botou lá só para enfeitar!

Meus argumentos expostos em "Opiniões, mentes e peixes" continuam de pé, não vão ser os chiliques do Eliel que vão enfraquecer a obviedade de que as ciências têm algo a dizer sobre a origem da mente e este algo não está de acordo com atribuir mentes a fantasmas amorfos criadores de universos.

Abraço,
Eli Pergunte-me qualquer coisa.

24th of July

Mayr afirma que a falsificação de Popper é impossível ser aplicada a biologia evolucionista, você concorda? Estranhamente ele mostra-se muito satisfeito por isso


Antes de dizer se concordo ou não, vou passar a visão de Elliott Sober, grande filósofo da biologia, expressada por ele na segunda edição do livro Philosophy of Biology (Westview Press, 2000).

A falseabilidade, como você sabe, é um critério de demarcação proposto por Karl Popper para distinguir proposições científicas de proposições não científicas. As científicas “dão a cara a tapa”, ou seja, fazem previsões sobre o mundo que podem ser checadas por observação. As não científicas protegem-se dessa checagem com coerência interna e ajustes periféricos.

É importante que não se confunda ser falseável com ser falso. Uma teoria falseável pode ser verdadeira, uma teoria falsa é uma teoria falseável que não passou no teste da observação de suas previsões.

A crença em um deus criador não seria falseável, em princípio, porque para qualquer estado das coisas no mundo ela é compatível, bastando que se diga que ele escreve por linhas tortas.

Sober dá outros exemplos de teorias não científicas de acordo com o critério da falseabilidade:

“Popper também pensa que a teoria psicanalítica de Freud não é falseável. Não importa o que o paciente diga, o psicanalista pode interpretar o comportamento do paciente de forma que seja compatível com as ideias psicanalíticas. Se o paciente admite que odeia o pai, isso confirma a hipótese freudiana do Complexo de Édipo. Se ele nega que odeia o pai, isso mostra que ele está reprimindo suas fantasias do Complexo de Édipo porque elas são ameaçadoras demais.

Popper tem a mesma opinião sobre o marxismo. Não importa o que aconteça em sociedades capitalistas, o marxismo pode interpretar estes eventos de forma que sejam compatíveis com a teoria marxista. Se uma sociedade capitalista é acometida por uma crise fiscal, isso mostra que o capitalismo está ruindo sob o peso de suas contradições internas. Se a sociedade não está em recessão, deve ser porque a classe proletária ainda não se mobilizou o suficiente ou porque a taxa de lucros não caiu o suficiente.”

Popper chegou a dizer a mesma coisa sobre a teoria da evolução, porém mudou de ideia e alegou que a teoria da evolução é falseável, diferentemente do que ele havia pensado antes.

Sober ensaia um ‘teorema’ lógico da falseabilidade de Popper, enfatizando que só funciona se houver uma distinção clara entre teoria e observação:

“A proposição P é falseável se e somente se P implica dedutivamente ao menos uma sentença observacional O.”

Eis os problemas que Sober apresenta para este critério:

1) Observações são impregnadas de teoria. Para checar se “a galinha está morta”, é preciso ter uma teoria para o que é galinha e o que é morte. Não existe observação pura.

2) Problema do alinhavo (tacking problem): se uma proposição S é falseável, uma conjunção desta proposição S com uma outra proposição qualquer N deve ser também falseável. Isso abre uma porta para alinhavar proposições não falseáveis às falseáveis, e o problema é que se N não é aceitável como ciência, S+N não deveria ser também.

3) O problema da relação entre uma proposição falseável e sua negação. Se a proposição P diz “todos os A’s são B’s”, sua falseabilidade está na possibilidade de encontrar um único A que não seja B. Uma negação de P seria “existe um objeto que é A e não é B”. Esta negação não é falseável. O problema então é: se uma proposição é científica, sua negação também deveria ser científica. Isso pode mostrar insuficiência da falseabilidade em estabelecer o que é científico ou não.

4) O problema de teorias científicas fazerem previsões testáveis apenas quando em conjunto com uma hipótese auxiliar (esta ideia é chamada de tese de Duhem). Por exemplo, a teoria de que um meteoro matou os dinossauros não prevê sozinha que uma camada de irídio deve ser encontrada no estrato geológico do Cretáceo. Isso é feito por hipóteses auxiliares sobre meteoros terem mais irídio que a Terra e sobre camadas geológicas corresponderem ao período da extinção dos dinossauros (não todos, aves são dinossauros).

5) Enunciados de probabilidade não são falseáveis. Dizer que uma moeda honesta tem 0,5 de probabilidade de exibir “cara” quando jogada é compatível com qualquer resultado observacional. Este problema foi reconhecido pelo próprio Popper.

Sober conclui sua crítica da falseabilidade como critério de demarcação dizendo que a testabilidade deve ser sim uma característica essencial das proposições científicas, mas que ela acontece em função das hipóteses auxiliares. O criacionismo pode fazer previsões testáveis a partir de teses auxiliares – acontece que até hoje essas previsões falharam.

A tese “Deus criou os seres vivos” pode ser acompanhada da hipótese auxiliar “se Deus criou os seres vivos, então eles devem ser perfeitamente adaptados aos seus ambientes”.

Esta hipótese auxiliar pode ser considerada científica, tanto quanto a hipótese da Terra ser um disco achatado. Fizemos observações que contradizem isso, é por isso que os criacionistas modernos não dizem mais que os seres vivos são perfeitamente adaptados a seus ambientes – o que era feito por criacionistas de séculos anteriores.

O erro de Popper teria sido a ambição de estabelecer se uma tese é científica apenas a partir de sua configuração lógica. Popper partiu de uma assimetria logicamente estabelecida entre modus tollens e modus ponens na inferência dedutiva – em resumo, que é impossível provar dedutivamente que uma proposição é verdadeira, porém é possível provar que é falsa. Acontece que a ciência trabalha largamente com proposições não-dedutivas.

O acerto de Popper teria sido perceber o comportamento anticientífico de aderentes do marxismo, da psicanálise, do criacionismo e até certos defensores de teorias científicas estabelecidas. Mostrar que um comportamento dogmático e refratário a críticas é anticientífico não é, todavia, a mesma coisa que mostrar que as proposições do dogmático não são cientificamente testáveis.

É plenamente testável a afirmação de que os seres vivos são perfeitamente adaptados a seus ambientes. Foi testado e visto que não é o caso.Também é testável a afirmação de que a Terra tem forma de pizza. Se mesmo depois do suor do trabalho de testar e desconfirmar essas teses ainda existem pessoas defendendo-as, isso é um problema da psicologia delas (incluso aqui o contato que tiveram com a literatura e evidências relevantes), e não da lógica interna dessas proposições.

É possível que Mayr se mostre satisfeito com a impossibilidade de aplicar o critério de Popper à biologia evolutiva (ou, se procedem as críticas, a qualquer ciência) porque ele (Mayr) percebeu que a falseabilidade é mais uma Vênus intocável de um modelo idealizado de racionalidade filosófica – ou seja, uma recomendação de conduta cética para a epistemologia – do que uma receita de como fazer ciência na prática ou ainda como pensar cientificamente.

O desenvolvimento posterior da filosofia da ciência é onde eu buscaria respostas mais sofisticadas para um critério de demarcação entre ciência e não-ciência. Uma conciliação entre o pensamento de Thomas Kuhn (particularmente o pensamento de Kuhn reformado após as críticas ao “Estrutura das Revoluções Científicas”, como pode ser visto no posfácio à segunda edição deste livro) e a teoria da ciência de Imre Lakatos é um ponto de partida.

Estes dois filósofos percebem a cientificidade como um processo histórico, de acúmulo de resolução de problemas, de refinamento e lapidação de um programa de pesquisa com âncora empírica.

Também é preciso levar em conta a influência da probabilidade nas ciências, principalmente nos tratamentos estatísticos comumente empregados pelos cientistas.

A biologia evolutiva é justamente um programa de pesquisa assim. Por não termos todas as respostas prontas, trabalhamos para respondê-las. Nossas hipóteses auxiliares se refinam e se complementam, dando um status de plausibilidade à teoria evolutiva, mais do que uma mera verossimilhança.

Uma tese criacionista que diga “Deus criou os seres vivos como são hoje de tal forma que aparentam enganosamente compartilharem ancestrais comuns e serem aparentados a espécies extintas” é tão verossímil quanto a teoria evolutiva.

Note, porém, que para ter a mesma verossimilhança da teoria da evolução, esta tese criacionista precisa parasitá-la.

É isto o que eu vejo tanto no comportamento dos criacionistas quanto nas teses auxiliares que propõem hoje: parasitismo.

Mostrei antes por aqui que criacionistas brasileiros se comportam exatamente assim, parasitando a pesquisa dos biólogos:

– Enézio de Almeida vive de críticas cínicas a novos artigos publicados em biologia evolutiva, sem nunca apresentar novas pesquisas em “design inteligente”.

– Adauto Lourenço faz a mesma coisa e chega a mentir sobre as conclusões de novos trabalhos publicados na área.

– Michelson Borges e Marcos Eberlin, repetindo os mesmos erros dos criacionistas do passado (como a argumentação de William Paley), exemplificam a estagnação e a degeneração do criacionismo como programa de pesquisa – não há nada novo sob o sol.

Não representam ameaça alguma em qualquer debate sobre o assunto simplesmente porque nunca botam as mãos num único ser vivo para testar implicações de suas crenças.

Os criacionistas são notavelmente desinteressados em pesquisar os seres vivos sobre os quais têm tanta pressa em fazer afirmações. Isso explica de forma plausível a escassez de biólogos entre eles (e não uma conspiração global das desunidas universidades em doutrinar os alunos de biologia, como gostam de alegar – ainda que isso também seja verossímil).

Voltando a Popper e à sua pergunta: sim, concordo com Mayr e com Sober – o critério de Popper não é suficiente nem aplicável para dizer que uma teoria é ciência ou não.

O marxismo, a psicanálise e o criacionismo podem, em tese, fazer previsões testáveis de acordo com hipóteses auxiliares, tanto quanto a biologia evolutiva.

A biologia evolutiva é ciência não apenas por “dar a cara a tapa” para testes, mas por avançar em suas pesquisas, fazer perguntas que ampliam o conhecimento do ser humano sobre os seres vivos e sua origem. Ou seja, é ciência porque é um programa de pesquisa ativo em que novas hipóteses auxiliares são constantemente formuladas e suas previsões testadas, em que novos problemas são encontrados e solucionados na medida do possível para uma atividade falível e incompleta como a ciência. Isso torna o panorama geral da origem das espécies algo em constante construção com respostas mais plausíveis ou menos plausíveis que subjazem a uma explicação geral verossímil.

Se outras proposições não fazem nada disso, não devem ser consideradas científicas e, como disse Elliott Sober, se passaram tempo demais sem gerar nada novo então devem ser consideradas parte do “lixão” da história das ideias.

P.S.: Não pretendo tirar as mesmas conclusões sobre o marxismo e a psicanálise porque isso demanda um conhecimento do que essas duas tradições fazem hoje, do qual prescindo. Pergunte-me qualquer coisa.

11th of July

Falácias, dissonâncias cognitivas e contradições: réplica a Eliel Vieira


Aqui no Tetrapharmakos in Vitro eu já dei meu tchau para o Eliel Vieira. Um tchau não é um adeus, então vamos dar ao Eliel o benefício da cortesia social e responder à sua visita, agora que está batendo à minha porta novamente. E o Eliel vem bater à minha porta alegando ter respostas para meu argumento exposto no texto “Opiniões, mentes e peixes”. Entre evangélicos como ele reconheço que o Eliel é alguém acima da média, com ao menos interesse em debater racionalmente, coisa raríssima entre seus correligionários, que geralmente se dividem entre líderes proselitistas e seguidores cegos. (Algo facilmente percebido no caso do pastor que usava o oráculo do orkut [orkáculo? orákuto?] para fazer revelações ‘milagrosas’ aos seus fiéis.) No título da resposta Eliel batiza meu argumento como “argumento da contingência contra a existência de Deus”, e sobre este argumento ele diz:

Eu sinceramente não me recordo de ter visto esta objeção contingencial (se é que posso chamá-la assim) sendo exposta por outros ateus além de Eli. Apesar dela levar em conta algumas idéias propostas por Dawkins em Deus, um delírio, a formulação de Eli é original. Acho que ele merece todos os créditos por esta objeção que, reconheço, é interessante.

É curioso este tom elogioso vindo do Eliel, porque mostra como ele pode ser vítima de suas próprias contradições. Quando ele anunciou finalmente uma resposta ao meu texto pelo twitter, pedi aos meus colegas para dar uma lida e me dizer o que achavam. O Pedro Almeida achou no texto do Eliel a conhecida falácia do espantalho (também conhecida como strawman ou homem de palha), citada por Carl Sagan no livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios”. Eu achei a mesma coisa no texto, independentemente do Pedro: Eliel é falacioso ao dizer que assumo o ateísmo nas premissas, quando apenas assumi, corretamente e de acordo com as pesquisas científicas modernas sobre a mente humana, que a mente humana é fruto da evolução biológica, tanto quanto os pulmões, o coração e os rins. Portanto, dizer que assumi ateísmo é nada menos que criar um espantalho mais fácil de bater: aí está a falácia. Mas a contradição está na reação irritadiça do Eliel quando achamos a falácia que ele usou: agora ele diz que meu argumento não existe. Isso depois de ter dado um nome para meu argumento e ainda ter dito que era um argumento original e interessante. eliel_contradicao Acho que o Eliel é tão bom em evitar contradições quanto o livro sagrado dele. Mas talvez seja injusto mostrar essa contradição do Eliel, quando o que ele pode estar fazendo é pedir, formalmente, quais são as exatas premissas e conclusões do meu argumento. Meu argumento é diferente dos argumentos que os filósofos logicistas costumam elaborar. Acho fútil expor este argumento da forma formalizada que os logicistas tanto gostam, pela razão simples de que não consiste numa mera dedução, mas numa racionália, cientificamente fundada, com elementos dedutivos e indutivos interagentes. Não ser fácil de apresentar em lógica formal não signfica que é um argumento fraco. Significa que é um argumento complexo que necessita de conhecimentos prévios do interlocutor. Aliás, alego que todos os argumentos que envolvam a existência de entidades no mundo exterior são dessa mesma natureza, por isso é comum encontrar premissas não justificadas, que o proponente deseja introduzir sem ter o trabalho de explicitar as séries anteriores de premissas tácitas que resultam na premissa problemática. Abaixo, exponho algumas premissas, e entre colchetes premissas das premissas. Estou seguro, entretanto, de que todas essas premissas são aceitáveis, e quem não as aceita simplesmente não sabe o bastante sobre elas. Premissas: 1 – [Dadas as questões do ceticismo clássicas na filosofia,] Nenhuma certeza pode ser afirmada.
2 – [Dadas as sínteses filosóficas sobre supostas entidades do mundo natural,] Conhecimentos devem ser expostos em termos probabilísticos, não em termos absolutos, com base em justificação fundada em inferências hipotético-dedutivas contendo induções.
3 – [Dado o estado da arte das pesquisas biológicas e das ciências cognitivas,] É provável que a mente humana seja resultado de contingências históricas, sendo ela mesma contingente.
4 – [Dadas as previsões bem-sucedidas já feitas deste modo,] A probabilidade de algo existir deve ser fundada em conhecimentos anteriores sobre entidades correlatas.
5 – [Dado o que está em textos sagrados, sermões e testemunhos,] Deus é proposto pelos teístas como entidade dotada de mente e necessária, cuja existência é aferida com certeza. Conclusões: A – Sendo [5] contradita por [1], a certeza dos teístas é falsa.
B – Dado [2] e [4], deve ser levado em conta que [3], o que invalida a alegação de necessidade para a mente divina, e também torna a mente divina improvável segundo a mesma premissa [2], fazendo a proposição em [5] uma crença sem justificação, e, portanto, um falso conhecimento. Este resumo não substitui a argumentação fluida e coerente do texto original. Por ser um argumento de hierarquia superior a argumentos subjacentes, a tradução para a formalidade é previsivelmente problemática. Não menos problemática, entretanto, que as alegadas provas de existência de Deus, como a oferecida pelo próprio Kurt Gödel, que faz saltos muito maiores ao omitir as premissas de suas premissas ou ainda motivações mais basais no que é postulado. Voltando ao Eliel, ele diz que estou “implorando por pressupostos”. Como visto acima, nada nas minhas premissas implora pela aceitação do ateísmo, mas apenas a sensatez de aceitar teorias científicas tão bem estabelecidas quanto a gravitação universal. Eliel faz uma caricatura do meu argumento e neste afã comete a falácia do espantalho, e isto é demonstravelmente verdadeiro para qualquer um que leia meu texto sem um anseio apressado de tentar estabelecer seus mitos confortadores. O maior desafio que se pode fazer a teístas como o Eliel é perguntar como exatamente eles sabem que o Deus deles tem estados mentais como eles tacitamente assumem ao descrever seu mito de ressurreição, planos de salvação e outras historietas irrelevantes. Eles simplesmente não têm resposta. Pulam para o abismo da fé e fazem sua prosopopeia da mente divina ignorando qualquer critério racional de justificação de crenças (que faria dessas crenças conhecimentos), da mesma forma que uma criança pequena ignora as regras dos adultos quando está sozinha e se atira aos deliciosos doces proibidos. Eu não assumo que a mente é material por causa de meus compromissos metafísicos com o naturalismo. Não é minha culpa que a única maneira que existe de se obter conhecimento sobre a origem da mente humana é observando a óbvia relação entre mente e cérebro, como fazem todas essas ciências cuja importância estou levando em conta ao elaborar o argumento. Resta ao Eliel exibir qualquer relevância científica do dualismo. E outra coisa, resta ao Eliel o conhecimento de que o dualismo não é a única alternativa para tornar o livre arbítrio compatível com um universo governado por leis determinísticas como as leis de Newton. O compatibilismo é amplamente aceito entre filósofos da mente e cientistas cognitivos. Também não é minha culpa que a maioria deles não é mais dualista nem tem esperanças de afirmar espíritos ou mentes fantasmagóricas como existentes no mundo externo. Meu naturalismo é, ao contrário, o resultado disso tudo, e não a premissa, como bem foi mostrado acima. Especulo que a razão do Eliel não enxergar essas coisas simples é, além da pura ignorância sobre essas áreas, a dissonância cognitiva. A dissonância cognitiva é facilmente detectável em pessoas cujas crenças são incoerentes com outras crenças que possuem – Eliel diz que eu tenho um argumento depois diz que não tenho um argumento, Eliel diz que aceita a relevância científica do que eu digo sobre evolução, mas não está disposto a seguir as implicações subsequentes, preferindo inventar um espantalho. Decida-se, Eliel. Aceita ou não aceita a evolução biológica? Uma hora diz que aceita, outra hora diz que há controvérsias e flerta com criacionistas ingênuos e patéticos como William Lane Craig. Sobre a “origem” do Universo não ter mentes, não pergunte para mim, Eliel. Pergunte para quem estuda o assunto, como Stephen Hawking. Aponte para mim a necessidade de uma mente anterior à nucleossíntese, quando as únicas mentes que conhecemos surgiram após a nucleossíntese. Eliel diz que a noção de mente divina é uma mera analogia. Bem, e qual é a justificação para isso? Por que sua analogia da mente divina – eu diria sua prosopopeia irracional e injustificada – precisa envolver até mesmo algo tão caracteristicamente humano quanto a moralidade? Como eu disse, teístas como Eliel não têm respostas para isso. Simplesmente saltam no mundo fantasioso em que o que querem que seja verdade automaticamente se transforma em verdade absoluta: o mundo da fé. Você está certo Eliel, cristãos não acreditam num olho físico de Deus que a tudo observa. Mas acreditam LITERALMENTE que a entidade mitológica em questão é dotada da capacidade psicológica de observar. Sua alegação de que o antropomorfismo da mente divina é meramente instrumental não está de acordo com as evidências. Quais evidências? As orações, por exemplo, que assumem que ALGUÉM (uma mente) é capaz de “ouvir” e ainda responder. Você alega um Deus inefável e abstrato na sua argumentação, para o qual o antropomorfismo seria supostamente instrumental, e poucas horas depois fala com ele esperando que ele tenha uma mente capaz de entender o português ou a semiótica particular dos seus pensamentos! Dissonância cognitiva, rogai por nós. Sobre as citações do livrinho mitológico, dispenso, tanto quanto dispenso o Corão ou os Vedas. Eles são tão bons para amparar uma argumentação ou justificar um conhecimento quanto a Bíblia. O teísmo já sofreu sua obsolescência no mundo intelectual. A maioria dos cientistas e filósofos acadêmicos é avessa à ideia de uma mente divina que criou o universo. Eliel foi criado num ambiente cultural doutrinador que o fez acreditar que uma mente é necessária para a existência dele e do mundo exterior aparente que o cerca. Poderá Eliel vencer a explícita dissonância cognitiva pela qual está acometido, ou Eliel vai continuar seu blog de mal disfarçada pregação para confortar seus codogmáticos correligionários que necessitam alimentar suas pequenas certezas que o Blues da Piedade de Cazuza tão bem descreveu? Eliel continuará batendo à minha porta, depois de ouvir muitos tchaus, apenas para me trazer mais falácias e expressões contraditórias de uma mente cognitivamente dissonante que tem profunda esperança emocional de encontrar uma “analogia” de si acima do próprio Universo em que vive, não se dando ao trabalho de estudar este Universo pelas teorias científicas que melhor o descrevem? Cenas dos próximos capítulos, se esta novela não terminar agora mesmo neste ponto.

leibniz

Leibniz (1646 – 1716):

ele também propôs um argumento contingencial relacionado a Deus, contudo, sua conclusão foi de que Deus necessariamente deve existir. É claro que vamos ignorar que ele tendia fortemente ao deísmo e achava o teísmo intervencionista de Newton uma grande ingenuidade, e vamos ignorar que ele tinha, como dito por Bertrand Russell (“A History of Western Philosophy”), duas filosofias: uma particular, metafisicamente complicada (vide mônadas), e outra “popular” para agradar às ideologias vigentes em seu tempo. E também vamos ignorar que Leibniz é anterior a todas as ciências que estudaram as origens e a natureza da mente humana. Tudo isso para nossos coleguinhas teístas olharem para a cara de Leibniz e terem mais uma autoridade anacrônica para ampararem sua prosopopeia injustificada da mente divina. Ad verecundiam, rogai por nós.

3rd of July

Eli, resposta pessoal,nao precisa ser verdade, qual a resposta pra pergunta que nunca calou: Qual a origem do principio, o motor primeiro, o inicio do inicio, o "antes" do existente.. Ou até o Deus.. do universo?


Respostas pessoais sobre a natureza do universo não valem nada.

Obter conhecimento sobre a origem do Universo é um trabalho árduo que é ativamente executado por físicos teóricos e experimentais.

Não é algo que é feito por geneticistas como eu, muito menos por fanfarrões palpiteiros das igrejas e templos de plantão.

Mas se você quer insistir num palpite desinformado da minha parte, digo que me parece provável, dada a compreensão moderna de processos naturais históricos, que sempre se deve esperar um início simples para entidades complexas.

É por isso que eu digo que minha tese metafísica principal é que nucleossíntese precede hematopoiese.

Nucleossíntese foi o processo físico, posterior ao Big Bang, de surgimento dos primeiros núcleos atômicos de hidrogênio. Os físicos já têm bons modelos para explicar tudo o mais, a origem de galáxias, estrelas, planetas, e átomos mais pesados que o hidrogênio, tudo a partir de uma distribuição heterogênea desse simples elemento nascendo no espaço-tempo há mais de 13 bilhões de anos atrás.

Hematopoiese é o processo complexo de formação do nosso sangue, que é contínua ao longo de toda a nossa vida. Tomo-a como exemplo de processo complexo do qual dependemos e só pode ter vindo depois da origem dos átomos, galáxias, estrelas, sem esquecer bilhões de anos de evolução biológica neste planeta.

O que acredito é que tudo o que existe segue este padrão – nucleossínteses precedem hematopoieses.

Um Deus não pode ser a origem de tudo porque é definido como um ser dotado de mente. A mente é um processo da mesma categoria da hematopoiese – complexo, derivado de longas histórias que se passaram neste planeta (sobre isto leia "Opiniões, mentes e peixes" – http://bulevoador.haaan.com/2010/03/26/opinioes-mentes-e-peixes/ ).

A base do ser não pode ser um deus, não pode ter intenções nem consciência. A base do Ser, assim chamada por Parmênides, que filósofos chineses como Zhuang Zi chamavam de Tao há mais de 3 mil anos atrás, seria algo ontologicamente simples, uniforme, homogêneo. Seria para o universo o que é a água para um peixe.

Tudo o que falamos sobre este ser é impreciso, não faz nem sentido individualizá-lo com um substantivo no singular. Podemos chamar de "seres" e não fará a menor diferença. Podemos chamar de "aquilo", e penso que a única categoria ontológica de nossas pobres mentes que pode minimizar a imprecisão da compreensão sobre "aquilo" é a categoria de objeto inanimado.

"Aquilo" não responde a orações, nem cria nada, porque criar é um ato de uma mente consciente, e "aquilo" está mais longe de uma mente consciente do que a nucleossíntese está longe da hematopoiese.

Você quer prestar reverência "àquilo"? OK, faça… mas não espere resposta nem conexão maior do que a conexão causal e física que existe entre você e "aquilo".

Se o Alberto Caeiro de Fernando Pessoa podia prestar homenagem a um deus que não era um deus, e Zhuang Zi poderia apontar que o Tao é algo que "não tem forma nem faz nada", que está "na formiga, na telha quebrada, no excremento, na lama", você tem toda licença poética para prestar homenagem à coisa simples que permeia e deu origem ao Universo.

Mas eu duvido que a palavra origem faça algum sentido neste caso, porque origem pressupõe tempo, e, se o próprio tempo tem uma origem, nossa capacidade de abstração não nos ajuda mais a imaginar o que queremos dizer com "origem". Neste caso só nos resta abandonar tentativas de compreensão e confiar na funcionalidade de modelos matemáticos que descrevam e prevejam o funcionamento do mundo.

Não sou um poeta nem tenho grandes habilidades líricas para prestar homenagens ao "Tao", aos "seres", "àquilo". Não vejo utilidade em agradecer a uma coisa que não tem capacidade alguma de compreender meus anseios emocionais de expressar minha alegria de existir.

Certa vez fiquei bêbado e abracei uma árvore. Falei com a árvore sabendo que ela não é capaz de ouvir. Nesta carícia etílica não houve misticismo, nem "mistérios", apenas uma liberdade poética que torna a vida mais interessante.

E é esta a minha relação com esta(s) coisa(s) que creio ter(em) sido a origem de tudo o que existe: uma relação ébria, estética, dramática, cômica, lânguida, apoteótica, proparoxítona e sobretudo supérflua. Pergunte-me qualquer coisa.