30th of May

Por que viver toda uma vida se ela é desprovida de sentido?


Você afirma que a vida é desprovida de sentido. Isso implica que, por alguma razão, você ou alguém espera que ocorra o contrário, ou seja, que a vida tenha um sentido.

Eu já me cansei de bater na tecla das palavrinhas que têm vários conceitos diferentes, e uma delas é "vida", e outra é "sentido".

Vamos usar definições de trabalho. Aqui, vida = estado biológico de um ser humano que não está morto.

A palavra sentido também não é das mais claras. Aqui, a definição de trabalho de sentido é = meta planejada por uma mente para atingir fins que esta mente julga bons.

Dadas estas definições, esperar que a ‘vida’ tenha um ‘sentido’ é absurdo, porque a vida claramente não foi planejada por uma mente.

A vida existe porque processos naturais geraram a vida. Não há indicação nenhuma de que haja um sentido nos processos naturais, pelo fato de que processos naturais geram terremotos, vulcões, flores, mel, frutas deliciosas e cactos espinhentos, coalas bonitinhos e gambás fedorentos. Ou seja, os processos naturais, se tivessem sentido, seria o sentido de uma mente insana e contraditória (ainda estou usando as definições de trabalho acima!). Mente contraditória com metas aleatórias não difere em nada de uma mente inexistente.

Então tenho bons motivos para pensar que os processos naturais, quaisquer que sejam sua origem, são completamente desprovidos de SENTIDO.

E cá estamos nós, vivendo, com nossas vidas geradas por esses processos naturais sem sentido.

Introduzamos outro conceito aqui, e outra definição de trabalho: vivência. Vivência = conjunto de estados psicológicos de um ser humano ao longo do tempo em que está com vida.

Sendo a vivência definida assim, então segue-se que todo ser humano pode construir SENTIDO para sua vivência, porque metas são estados intencionais, ou seja, psicológicos.

Então, respondendo sua pergunta, viver PODE valer a pena para quem VIVENCIA e constrói SENTIDOS favoráveis à VIDA.

No meu caso, eu vivo porque minha vivência tem sentidos muito fortes e claros. A vida não ter sentido não tem nada a ver com isso, como expliquei, porque a falta de sentido da vida é uma coisa factual.

Meu fígado, meu baço, meus pulmões, meu coração, meu cérebro, simplesmente existem porque causas no mundo natural trouxeram sua existência à tona, sem nenhum ‘sentido’.

Eu nunca quis terminar a minha vida porque quero construir algo, quero sentir prazer, quero evitar que a dor aflija a mim e aos outros, quero ter uma carreira intelectual satisfatória, quero ver meu sobrinho crescendo, quero estar com minha família e com meus amigos, quero indagar sobre os mistérios do universo e da existência, quero saber o que é querer e saber o que é saber, e quero fazer tudo isso e um pouco mais durante mais algumas décadas, até que minha chance de vivenciar e viver seja ceifada, de preferência quando eu estiver velho e estiver preparado para dissolver o rio da minha vida e da minha mente no oceano de entidades naturais simples que, sem sentido algum, me geraram.

Depois da minha morte, num tempo muitíssimo mais breve que a duração da existência dos pterossauros neste planeta, ninguém mais se lembrará de mim e nenhum registro restará de que eu um dia existi.

E eu não protesto contra isso. Eu protesto é contra quem pensa que tudo o que é precioso precisa durar para sempre. Não há nada mais precioso para mim do que a memória. É a memória que me permite saber quem eu amo, quem me ama, o que eu quero, o que eu já quis e não quero mais, e o que vou querer no futuro dado tudo o que já tenho no presente.

A fugacidade da vida, à luz da falta de sentido em sua origem, torna a existência algo assombroso. As palavras não descrevem, você sente o vento batendo no rosto, observa toda a enormidade da improbabilidade de tudo o que te cerca, saboreia cada gota de tempo que lhe resta, prova um beijo de forma diferente, vê o ridículo das suas tentativas de inflar o próprio ego, e o que lhe resta é dizer:

– Eis aqui o sentido que eu fiz para a minha vida, é o presente que dei a mim mesmo, e darei a você se você quiser. Você quer? Muito me honra. Você não quer? Que pena, não sabe o que está perdendo.

Roubaram o fogo do Olimpo, distribuíram para os humanos. Eis que alguns se queimam, eis que outros esquentam guloseimas maravilhosas. Pergunte-me qualquer coisa.

30th of May

O que é ser ateu pra você?


É perceber que as religiões alegam ter um conhecimento que na verdade não têm.

É perceber que quem acredita em deuses acha que sabe algo que na verdade não sabe.

É perceber que a justificação para crenças em divindades e espíritos são derivadas de processos de inferência tipicamente míticos, que usam "categorias ontológicas" para construir conceitos que negam em algum ponto estas próprias categorias (como é descrito pelas pesquisas citadas por Pascal Boyer no livro "Religion Explained").

Categorias ontológicas são como "caixinhas" em que botamos as coisas que percebemos, de tal forma que não precisamos observar todos os detalhes dessa coisa para saber como se comporta. Exemplos de categorias ontológicas são as categorias ANIMAL, OBJETO, FERRAMENTA e PESSOA. Você, quando vê pela primeira vez na sua vida uma foca, já percebe que é um animal, e, como tem essa categoria ontológica para animais, não precisa observar a foca durante anos a fio para saber que ela se reproduz, que precisa comer, e que gera outras focas quando se reproduz.

Deuses pertencem à categoria ontológica de PESSOA.

Por exemplo, o Deus dos cristãos é uma pessoa, porém uma pessoa sem corpo, uma pessoa com poderes infinitos e conhecimentos infinitos, uma pessoa imaterial. Todos os teístas acreditam que Deus tem uma mente, que ele entende os sentimentos humanos, que ele entende quando alguém fala ou faz uma oração, que ele tem um sistema de moralidade,

portanto, todo teísta, sem exceção, acredita que Deus tem uma mente.

Porém, a categoria ontológica de PESSOA, cujo atributo mente é indispensável, foi formada num processo de evolução de nossos ancestrais primatas vivendo em grupo. Ao ver uma pessoa de outro grupo étnico ou outra cor de pele pela primeira vez, as primeiras pessoas que existiram neste planeta não precisavam testá-la a fundo para saber que se tratava de uma PESSOA, pelo modo como age, pelas intenções que demonstra, etc.

Todo mito é construído a partir de uma categoria ontológica, porém, exagerando as características da categoria ou violando algumas delas, deixando sempre algumas características intactas.

Deus, portanto, é uma pessoa com capacidades intelectuais e autocráticas exageradas, e sem corpo. É um caso típico de construção mítica.

Enquanto as ciências mostram que a única mente a que temos acesso evoluiu, e mostram como funciona a atitude religiosa na construção de mitos, o conceito de um deus se torna cada vez mais improvável de corresponder a algo que existe no mundo real, e a pessoa crente se torna cada vez mais transparente, previsível e prevista pelas teorias científicas do humano.

É por isso que hoje, dentro de grandes centros de conhecimento científico como as grandes universidades, defender o ateísmo é uma coisa redundante e até desnecessária. Mais de 70% dos cientistas e filósofos acadêmicos são ateus/agnósticos.

Existe gente preocupada em afirmar o ateísmo no espaço público, como eu, por uma simples razão: muita gente que acredita em Deus não suporta que existam pessoas que não acreditem, ainda mais por motivos tão claros e racionais como os que eu citei acima.

E essas pessoas, previsivelmente motivadas por seus conceitos míticos construídos como já descrevi, não só não têm a humildade de reconhecer que fé não leva a conhecimento, mas também fazem campanhas de desinformação e desconstrução de conhecimento estabelecido em nome da tal "fé".

Como todas as pessoas são racionais (têm a capacidade de raciocínio lógico, usando ou não), nem que seja racionalidade aplicada apenas ao modo como preparam o café, muitos desses teístas prosélitos percebem e sabem que fé não é conhecimento, que fé é incerta e que fé não é confiável como conhecimento.

E é por isso que eles adoram dizer que é preciso ter muita fé para ser ateu, ao mesmo tempo em que dizem que a fé é uma coisa fantástica e que transforma vidas.

Essas contradições resultam tipicamente do fato de eles usarem uma inferência mítica para acreditarem em Deus, enquanto usam uma inferência racional para perceber que acreditar em algo por simples fé é como calçar um sapato de geleia e dizer que está firme.

Seres humanos são sujeitos a essas contradições pelo fato de suas mentes terem sido construídas por um processo natural de tentativa e erro chamado evolução. Sobre isso, leia o livro "Kluge" de Gary Marcus.

Em conclusão, ser ateu é usar as capacidades lógicas da sua mente imperfeita para descobrir as imperfeições de crenças sem fundamentos como o teísmo. Por ser algo aparentemente simples, ateus existiram desde que existe a Humanidade, temos textos milenares de ateus indianos duvidando da existência dos deuses hindus, de filósofos chineses questionando os conceitos sobrenaturais e antropomórficos de outros povos, de filósofos gregos de quase cinco mil anos atrás percebendo que o modo como o populacho acreditava em deuses tinha algo de automático e frouxo.

E então temos dois dados históricos:

Por um lado, ateus aparecendo independentemente por milênios, trazendo os mesmos argumentos lógicos e racionalistas, e em culturas diferentes.

Do outro lado, tradições religiosas de conceitos míticos, sendo passados adiante através de doutrinação, e esses conceitos míticos mudam radicalmente, indo do Olimpo ao monte das oliveiras, do gigante Purusa às virgens do paraíso de Alá, da montanha faminta à pessoa imaterial e onipotente cujo nome não deve ser pronunciado (YHWH, mais tarde Javé, mais tarde simplesmente "Deus").

Sou ateu porque é bem mais provável que estejam certas as mentes dos ateus trabalhando independentes nestes milênios, com suas conclusões em comum, do que as mil verdades dos mil mitos diferentes criados a partir de categorias ontológicas da mente humana cujas origens naturais são plenamente detectáveis. Pergunte-me qualquer coisa.

13th of May

Um tchau para Eliel Vieira


Para compreender melhor o texto abaixo, leia (ou assista a): 1) Dois ou mais enigmas para um Deus Improvável (Eli Vieira)
2) Resposta ao vídeo “Dois ou mais enigmas para um Deus Improvável” de Eli Vieira (Eliel Vieira)
3) Tréplica a Eliel Vieira (Eli Vieira)
4) Tetráplica a Eli Vieira (Eliel Vieira)
5) Morre Filósofo Antony Flew (Eliel Vieira – ler comentários)
6) Como explorar a senilidade de um filósofo “ex-ateu” para vender livros (Eli Vieira, Mark Oppenheimer [New York Times], no Bule Voador)
7) Google Acaba com Richard Dawkins! (Eliel Vieira – ler comentários)
8) Resposta a Eli Vieira: Teria Sido Antony Flew Manipulado por Cristãos? (Eliel Vieira)
Eliel, tchau-elielvocê continua ignorando, sistematicamente, os pontos relevantes que levantei no meu comentário anterior (no texto do ataque humorístico a Richard Dawkins se utilizando de uma “mera coincidência” da busca do Google). Nada diz sobre minha acusação de você ter se esquivado dos meus argumentos principais para meu ateísmo. Nada diz sobre minha pergunta concernente aos estados mentais. Prefere se ater a um ponto irrelevante, depois produz um texto deselegante em que tira uma frase minha do contexto, assim como tirou a lista humorística de adjetivos do contexto (e ignora minha resposta denovo sobre isso). A frase é aquela do meu vídeo. Você repetiu a frase do meu vídeo no mínimo QUATRO vezes no seu texto que supostamente responde ao meu desafio. Isso quando eu JÁ TE EXPLIQUEI, também há quase um ano, por que usei a frase e que sentido ela tem para mim. E você vem jogá-la na cara dos seus leitores para tentar me desmoralizar, o que foi a mesma coisa que você fez ao repetir os adjetivos que usei para descrever a Cynthia, vários dos quais ela própria reconheceu que descreviam as atitudes dela naquele tópico, por isso ela pediu desculpas (e eu também). Como eu já disse: muito cristã vossa atitude! Você aplica um ceticismo pirrônico ao caso da suposta senilidade de Flew e questiona a idoneidade de um dos maiores jornais do mundo, o New York Times. Usa o ceticismo de forma seletiva, assim como lê meus comentários aqui de forma seletiva. Ceticismo seletivo, pois simplesmente não quer aplicar seu ceticismo no caso de suas crenças cristãs arraigadas (presumo) desde sua infância. Não questiona a ridícula argumentação de Craig de que a única explicação para uma suposta tumba vazia é uma explicação sobrenatural, nem questiona a ridícula afirmação de Craig de que os quatro evangelhos são quatro fontes independentes, quando qualquer outro estudioso que publique em arqueologia dos manuscritos bíblicos dirá o contrário: os evangelhos não são independentes. Está se tornando pura perda de tempo argumentar com você, dado tudo isso. Começo a pensar que você não está na internet para debater. Está aqui para pregar. Você que critica tão bem Malafaia, qual é o seu diferencial? Você já pediu dinheiro aos leitores do seu blog. Você promete aos seus leitores um produto intelectual que nunca vem – por exemplo, mostrar onde e como Richard Dawkins está errado. Onde você fez isso aqui? Respondo: em  lugar algum… você prefere humoristicamente notar que o Google sugere adjetivos pejorativos junto com o nome do cientista nas buscas. Saiba que eu também já escrevi um esboço de resposta para sua "tetráplica" há mais de seis meses, inclusive editei e adicionei referências. Mas me pergunto por que publicar respostas a argumentos tão focados em autoridades quanto o seu. Você parece não perceber que debates são sobre ideias, e não sobre pessoas. Você continua tentando usar a autoridade de Antony Flew contra os indícios de senilidade dele no fim da vida apresentados por um jornal conceituado e com experiência em jornalismo investigativo que é o NYT. Eu não disse, em lugar algum, que estava "provado" que Flew esteve senil nos últimos anos de vida. Eu continuo pensando que é extremamente plausível que ele estivesse senil, dados os indícios (você, convenientemente, distorce os indícios apresentados pelo Oppenheimer e – surpresa – tenta também atacar a pessoa do jornalista). Outro ponto lamentável da sua resposta sobre Flew é perder parágrafo atrás de parágrafo num psicologismo especulativo barato sobre as motivações dos ateus em frases vazias como "estamos preocupados com o que o senhor vem dizendo sobre deus, Antony Flew". Se há um motivo para preocupação, é que, COMO EU DISSE ANTES E VOCÊ DENOVO IGNOROU, Flew teve uma carreira relevante em filosofia da religião, argumentando consistentemente pelo ateísmo, E A CONVERSÃO DE FLEW NÃO SE SEGUE LOGICAMENTE DA LITERATURA PRODUZIDA POR ELE EM SUA CARREIRA. Pelo contrário, é ignorada por ele nas últimas argumentações que ele elaborou pelo deísmo esquisito que ele disse ter adotado. E é este, Eliel (preste bem atenção), é este o maior indício de senilidade de Antony Flew: ignorar a própria argumentação anterior, e a argumentação de David Hume, para por seu nome num livro que PASSA LONGE de ser uma publicação técnica em filosofia, sendo uma mera obra propagandística que repete argumentações como a do Design Inteligente (que caso o senhor não saiba, esta argumentação do DI consistemente CAIU em publicações técnicas de filosofia como a Biology & Philosophy fundada por David Hull, sendo a parte desfavorecida no debate o criacionista Michael Behe – que chegou a prometer outra definição de “complexidade irredutível”, que fosse menos… bem… refutada, mas até hoje não cumpriu com o que  prometeu). É por essas e outras, Eliel, que sinto preguiça de responder às suas pseudo-respostas. Numa ("Tetráplica a Eli Vieira"), você ignora meus argumentos principais para tentar me desmoralizar com um videozinho que eu fiz em sete minutos de uma tarde de domingo há um ano e meio atrás, com a intenção de resumir ao máximo o trabalho acumulado no meu blog pessoal ( http://elivieira.com ). Noutra, você dissimuladamente usa de ceticismo de forma seletiva e injustificada, só para tentar levantar dúvidas não razoáveis sobre o caso da senilidade de Flew, usando termos consagrados entre os céticos como "inversão do ônus da prova", quando VOCÊ NÃO FEZ SEU TRABALHO DE CASA NO SEU CETICISMO, simplesmente pelo fato de amparar sua defesa do cristianismo em figuras desonestas como William Lane Craig, que diz o que eu já apontei aqui que ele diz (entre outras coisas, como dizer que não precisa de evidência para os dogmas cristãos, isso depois de perder rios de tinta tentando defender que a ressurreição é um fato histórico). Outra coisa: pare de colher meus comentários em blogs alheios por aí. Em inglês isso se chamam "stalking". Eu acho mesmo que muito do que C. S. Lewis disse na obra da vida dele é puro lixo, acho a saída dele para a teodiceia um mero ad hoc, e o "argument from wanting" é uma falácia nua e crua. (Este último parágrafo não pretende ser um ataque formal e exaustivo à obra de C. S. Lewis, caso você o escolha para rebater e, como de praxe, ignorar todo o resto do que eu disse). Enfim, por essas razões, nosso debate se tornou, quando muito, apenas um esgrimir entre alguém que tem seus argumentos principais ignorados (repito pela enésima vez, meu vídeo do YouTube é apenas um resumo, ou uma propaganda, de uma obra anterior, cujo apanhado mais geral que já produzi é o texto "Opiniões, mentes e peixes" – pode continuar ignorando isso se quiser), e alguém que fez um blog para mal disfarçar sua pregação religiosa na forma de argumentos. E eu não debato com pregadores, pois a pregação é apenas a reiteração de uma doutrina dogmática que foi incutida em mentes sem poder analítico para se defender. A seleção de amostras viciadas para formar opiniões sobre qualquer coisa é característica de pregadores. Pregadores são escravos do viés da confirmação, e se usam ceticismo, é só para com crenças alheias. Por isso, para pregadores, eu só digo “tchau”. Sinceramente,
Eli

“Uma almofada para um cristão em queda!”
Erasmus Darwin