12th of April

Por que não sou vegetariano


Acho natural e louvável que as pessoas apliquem sua empatia a animais não-humanos.
E acho ainda mais natural que isso costuma ser feito mais à medida em que o animal em questão é mais aparentado a nós. É por isso que cães fazem mais sucesso entre nós que lagartos. Lagartos nos parecem frios e indiferentes, cães demonstram ter várias das nossas emoções.
Alguns veganos dizem que você deve aplicar direitos iguais ou análogos aos direitos humanos a outros animais, na medida em que estes animais apresentam “senciência”.
Tenho para mim que o problema começa com a terminologia. Senciência é um termo muito obscuro. Não descreve as coisas bem. Se se refere à recepção sensorial, no quesito do tato por exemplo um peixe é mais senciente que um bugio; no olfato um porco é mais senciente que um chimpanzé, na visão um lêmure de Madagascar é mais senciente que um musaranho-toupeira.
Se se refere à capacidade de processamento cortical ou à dor, a coisa fica complicadíssima. Para começar, a maioria das espécies animais sequer tem um córtex cerebral. Em nós e outros vertebrados existe um sistema nocirreceptor (uma parte do sistema sensorial dedicada a detectar a dor), mas este sistema não servirá como comparação para saber se a maioria das espécies animais sente alguma dor.
Pode-se argumentar, entretanto, que os animais usados na pecuária como gado de corte têm homologias de córtex e sistema nociceptor, o que é verdade. Vacas realmente podem sentir dor como nós.
Mas uma ética baseada apenas em homologias de nocicepção e processamento cortical é incompleta, mais tarde direi o porquê.
O que importa para o momento é que “senciência” é um termo de uma obscuridade inadmissível para tentar impor a outros uma conduta.
Uma dieta vegetariana é bem mais custosa financeiramente que uma dieta onívora [que vem sendo praticada na nossa linhagem há milhões de anos].
Alguns dos motivos para tanto são os seguintes:
– os animais que comemos sintetizam, extraem e concentram em seus tecidos nutrientes essenciais que se formos extrair dos vegetais precisaremos ter um grande gasto energético com processamento industrial. Enquanto o refugo desse processamento é eliminado naturalmente e mais facilmente reciclável nos animais de criação [porque, apesar da inflação populacional que causamos, eles são parte de uma biosfera que evoluiu métodos de reciclagem eficientes por bilhões de anos], o lixo que seria gerado por nossa indústria que faria este trabalho seria de mais difícil reciclagem.
– os animais fazem o trabalho da indústria alimentícia bem melhor, porque sua economia fisiológica é resultado da seleção natural. Por isso, para alimentar a população mundial com todos os nutrientes essenciais, incluindo a vitamina B12, é bem mais barato [sustentando portanto mais vidas] usar o consumo de produtos alimentícios de origem animal.
Dizer, como dizem os veganos, que comer animais é imoral, traz consigo algumas premissas tácitas, como por exemplo um absolutismo moral, como se saber o que é moral e imoral fosse tão objetivo quanto saber a que temperatura e pressão a água ferve.
Não é bem assim. Fundamentos morais só existem na forma de postulados internos a escolas filosóficas particulares.
Fundamento moral será o imperativo categórico para os kantianos, será o cálculo de quantidade de dor e prazer para os utilitaristas, será a obediência cega a decálogos para fundamentalistas cristãos.
Filosofia moral [também chamada de Ética, a área da filosofia que se dedica à investigação da conduta (ethos), e a partir disso o discernimento de que condutas são desejáveis ou indesejáveis] não é álgebra.
É engraçado escutar de veganos que eu, por exemplo, seria imoral por comer carne, quando eles usam como premissas um termo obscuro (senciência) e uma ideia bastante simplória do que seria moralidade, filosofia moral ou ética.
Eu poderia mostrar facilmente que observando certas acepções de “senciência” e “moral”, eu estou agindo perfeitamente bem, sendo “ético”, ao comer carne apenas de animais anencéfalos. Ou seja, eu posso achar na ética que estes veganos defendem uma justificação para continuar comendo carne.
Mas o problema não pára aí.
Existe uma assimetria de tratamento da biodiversidade animal aqui, e uma incongruência filosófica.
Comecemos pela assimetria. Levando em conta o mantra de “respeitem os animais”, eu como biólogo devo chamar atenção para o seguinte:
Por que ninguém tem dó das moscas que caem na sopa ou das lombrigas assassinadas com licor de cacau?
Existem razões para salvar as Taenia spp. e outros animais nojentos, entre os quais presumo que estejam Necator spp., Ascaris spp., Tunga penetrans, Pulex irritans, Schistosoma mansoni, insetos das ordens Phthiraptera, Blattaria, Diptera, além de outros animais classificados como Annelida, Mollusca, Chelicerata, Platyhelminthes.
Por que estes invertebrados nojentos devem ser protegidos da extinção?
– Porque por estarem aqui neste planeta há milhões de anos, são parte do equilíbrio dos ecossistemas onde são encontrados naturalmente. A quebra desse equilíbrio pela extinção desses animais ameaça muitas outras espécies conectadas a eles, inclusive as que sustentam o ser humano.
– Porque são resultados improváveis e contingentes do processo da evolução biológica, e não existem em nenhum outro lugar neste universo. Eliminá-los seria como queimar todas as obras de Shakespeare.
– Porque a evolução lhes concedeu modos eficazes de sobrevivência, que se estudados podem gerar novas tecnologias.
Por outro lado, por que os invertebrados nojentos que parasitam APENAS o homem (não é o caso da maioria dos citados) devem ser extintos?
– Antes eles do que nós. Eu queimaria todas as peças de Shakespeare se conservá-las ameaçasse a minha vida.
Por que o PETA, o vegan-power, e movimentos afins são ridículos?
– Porque doutrinam pessoas com falácias, porque agem de maneira assimétrica na conservação da biodiversidade (não se importando com os invertebrados nojentos aqui listados), porque demonstram grande ignorância sobre a biodiversidade, e porque acham que os direitos dos outros animais têm de ser defendidos passando por cima dos direitos humanos.
Tratada a assimetria, falemos da incongruência. Alguns veganos e vegetarianos dizem não comer carne porque querem defender os direitos dos animais de corte.
Se deixarmos de abater estes animais para consumo, que vai ser deles? O ser humano fez foi favorecer o sucesso reprodutivo de espécies como Gallus gallus e Bos taurus. Sem nós, eles nunca seriam tão numerosos, não teriam a oportunidade de sequer nascer.
Nesta ética vegetariana, o que é melhor? Sofrer ou nunca ter existido?
Estariam alguns vegetarianos defendendo o direito de não existir?
Em conclusão, para não me estender demais, devo ressaltar que eu não defendo o sofrimento dos outros animais. Métodos de abate indolor são bem-vindos.
Mas alguns vegans/vegetarianos-moralistas estão querendo demais: a total e completa parada no consumo de produtos de origem animal. Isso é fanatismo, isso é doutrinação, isso é dogmatismo, isso é ser inflexível, parecem pastores pregando sua seitazinha por aí.
Uma informação que não deve constar em filmes veganos como “A carne é fraca” nem nos blogs veganos que estão se multiplicando pela internet feito bolor em pão guardado:
Crianças recém-nascidas por volta dos 7 meses de gestação precisam do extrato de pulmões de porcos para conseguirem respirar.
Porque os pulmõezinhos delas não produzem os surfactantes (que evitam que o pulmão fique colapsado como um saco molhado por dentro), que são jogados fora quando se mata um porco. Há sintéticos, mas funcionam mal.
Então, é preferível salvar os porquinhos a salvar bebês recém-nascidos?
Não? Então é aceitável o abate de porcos para esse fim, não é?
Então é melhor guardar certas ilações moralistas vegetarianas fanáticas, já temos muitos outros tipos de fanatismos prejudiciais na nossa sociedade para nos preocupar.
Não há nada melhor para uma criança desnutrida comer do que um bom e suculento fígado. Vamos ficar gastando rios de dinheiro para extrair os mesmos nutrientes de um fígado em toneladas de plantas, em vez de ir pelo caminho mais fácil que é criar um herbívoro que faz isso por nós?
A Ética existe em função do ser humano, que precisa seguir uma vida tranquila sem remorsos do que fez ou fará (se bem que não é grande o número de pessoas que realmente tem essa preocupação, não entre políticos). Não me venha dizer que eu tenho que me sentir culpado pelo salaminho que comi hoje, quando eu mal digeri a minha incapacidade de fazer alguma coisa pelo menininho que me pediu esmola.
Sistemas éticos absolutistas só servem aos dogmáticos, não aos céticos, e têm um saldo negativo para com a felicidade ao longo da história.

***

ATUALIZAÇÃO IMPORTANTE (29/12/2012): Mudei de ideia em vários sentidos sobre este texto. Comecei a refutar a mim mesmo aqui.

7th of April

Acha que evolucionismo e religião podem andar juntos?


Depende do que você quer dizer com "evolucionismo", "religião", e "andar juntos".

Se…

– evolucionismo = aceitação da teoria da evolução e entusiasmo pelo uso de seu poder explicativo em diversas áreas,

– religião = conjunto de ideias dogmáticas sobrenaturalistas em torno das quais existem tradições e ritos,

– e "andar juntos" = não contradizerem um ao outro em métodos, valores cognitivos e justificações epistemológicas,

então a resposta é:

não podem andar juntos, principalmente por causa da questão referente a métodos.

Evolucionismo tem a ver com apreciação de uma teoria científica (vinculada a uma justificação correspondentista), e religião tem a ver com a persistência de uma tradição fundada em sistemas de inferência da mente humana trabalhando sem compromissos de correspondência (vide "Religion Explained", de Pascal Boyer).

Inclusive, Pascal Boyer diz que não é objetivo da religião explicar qualquer coisa, não no mesmo sentido de explicação que é usado para uma teoria científica.

Só isso é suficiente para divorciar evolucionismo e religião.

Existem religiosos evolucionistas? Sim, muitos… mas eu, obviamente, disputo a suposta compatibilidade que alegam ter construído.

Geralmente, os assim chamados evolucionistas teístas aplicam o mesmíssimo argumento criacionista que abandonaram para as espécies biológicas, com ajustes, para as "constantes do universo" e "leis da física".

Ou seja, não dizem mais que é necessário criador para as espécies biológicas, para alegarem que é necessário criador para botar a matéria, o espaço-tempo, o universo em ordem.

Se esta argumentação fracassou para as espécies biológicas, há forte indicação que fracassará para a ordem física geral do universo.

Resultado disso: evolucionistas teístas como Kenneth Miller e Francis Collins usam do mesmíssimo expediente intelectual dos "teístas do deus das lacunas", que tanto criticam, além de usarem um argumento do desígnio, que caiu classicamente na filosofia com a obra "Dialogues Concerning Natural Religion", de David Hume, publicada em 1779.

Sem contar que estes teístas não conseguem justificar a aplicação de estados mentais tipicamente humanos (capacidade criativa, empatia, moralidade, planejamento) para o deus deles, que supostamente antecede o próprio universo.

Estes estados mentais também são resultado da evolução, e aplicá-los a um deus é tão justificado e racional quanto aplicar uma cauda de pavão, uma tromba de elefante (pobre Ganesha) ou um sonar de quiróptero (devidamente diluídos de suas propriedades mais terrenas, como fazem com o conceito da mente divina). Pergunte-me qualquer coisa.

2nd of April

Quais são seus livros sobre ateísmo preferidos?


"Carta a uma nação cristã", de Sam Harris, por ser sucinto, direto, e dizer tudo o que é relevante hoje no assunto (é ótimo para um pregiçoso como eu encontrar quem argumenta sucintamente).

Não é exatamente sobre ateísmo, mas "No que acredito" de Bertrand Russell é meu favorito sobre o tema geral das crenças.

Dos novos autores, só li Dawkins e Dennett, e gostei bastante. É difícil escolher quando não li tudo ainda.

"Deus, um delírio" de Richard Dawkins, é uma leitura de alto entretenimento e bastante informativo, como todos os livros dele.

Dos outros autores que ainda não li, os que mais tenho vontade de ler é Victor Stenger, por ser um físico e um pesquisador, e Michel Onfray, por ser um filósofo notável que está na tradição francesa, diferente da maior parte dos autores anglófonos que li.

No momento estou lendo "Uma Gota de Sangue" de Demétrio Magnoli, que não trata de ateísmo, mas da história do pensamento racial – o pensamento criador das famigeradas cotas para "negros" nas universidades.

Ler sobre ateísmo é meio chover no molhado para mim… para quê vou ficar só lendo quem eu sei que diz o que eu já penso?

Se eu me interessar por continuar debatendo teologia, vou ver os argumentos dos teístas direto na fonte. Por exemplo, li Paul Tillich ("A dinâmica da fé"), comentei a respeito por aí.

Mas me recuso a ler livros de apologia teológica escritos por autores zé ninguém para tentar convencer ignorantes do que os ignorantes já acreditam (como o livro escrito por um apologista cristão que se aproveitou da senilidade de Antony Flew e o colocou como co-autor de uma obra que Flew sequer conhece).

Tergiversei mas tanto faz, respondi. Pergunte-me qualquer coisa.