27th of April

Doutrinação: um mal maior ainda


Tenho um incômodo e um temor. Me incomoda o modo prosélita como alguns ateus têm se comportado, e eu temo que o número de pessoas ateias que pensem que ser ateu vem antes de ser cético e científico cresça demais. Na verdade, quando li a última página de "Deus, um delírio" [The God Delusion] há quase três anos, a primeira coisa que pensei foi "este livro é ótimo, mas justamente por ser didático e simplificado pode dar para alguns a falsa impressão de que é suficiente, e essas pessoas que pensarem assim serão prosélitas".

Talvez seja inevitável que seja este o caso: sempre que algo consistente se torna mais difundido, haverá a leitura preguiçosa, servirá como fonte para proselitismo e para aquele defeito sutil que se costuma chamar de"self-righteousness" (um termo que resume aquela atitude arrogante de quem tem um excesso de confiança em si mesmo ao ponto de ser surdo para contra-argumentação).

Lamento parecer levemente melindroso, mas tenho motivos para essas reclamações.

Por exemplo, a revista Época, em agosto do ano passado, noticiou que

O filósofo argentino Alejandro Rozitchner defende uma educação ateísta a seus três filhos e diz já saber o que falar quando um deles lhe perguntar sobre Deus. "Vou dizer que é um personagem como o Buzz Lightyear ou o Woody do Toy Story."

Neste quesito, eu sou quase tão contra Rozitchner quanto sou contra Ratzinger.

ChildIndoctrination2 Isso é doutrinação infantil e é ruim: gera crédulos, não céticos. Por quê?

Primeiramente porque as evidências não dizem terminantemente que Deus (o dos cristãos) é como Buzz Lightyear.
Buzz Lightyear foi uma entidade sabidamente inventada e proposta como ficção, enquanto deus, qualquer que seja, é proposto como pertencente à realidade. Avaliar a realidade cabe àqueles que a estudam. Minha conclusão é de que deuses são improváveis, tão evanescentemente improváveis que vivo minha vida na suposição de que não existem.

Este pai chamar suas crianças de ateuzinhos é tão adequado quanto chamá-las de humanistas seculares, de marxistas, ou de petistas: elas simplesmente não têm conhecimento e maturação mental para pertencer a nenhum desses rótulos.

Protestar contra a doutrinação de crianças, mesmo que seja doutrinação pelo meu ateísmo, é questão de honestidade intelectual.
Por mais ridículos e fantasiosos que sejam, os deuses fazem parte de hipóteses filosóficas dignas de apreciação. Imputar a crianças uma negação dessas entidades é sim doutriná-las. Um dogma negativo não deixa de ser um dogma.

Apresentar prontas suas próprias conclusões a crianças (que são seres volúveis e em maturação que acreditarão prontamente em qualquer coisa que digam os pais sem nenhum critério de rejeição), sem esperar que cresçam e sejam capazes de conhecer suas premissas e refazer a argumentação que você fez, não tem outro nome: é doutrinação.

AdoctrinamientoInfantil1Se nós ateus começarmos a doutrinar crianças, vamos agir  exatamente como os porcos de George Orwell (no livro A Revolução dos Bichos): nos tornaremos exatamente aquilo que condenávamos.
O exercício do raciocínio e da argumentação não pode ser passado na forma de doutrinação, muito menos doutrinação infantil. Que validade tem uma opinião construída por aceitação cega das conclusões de outrem?

Não pode ser uma educação libertadora e crítica a mera replicação de memes de pais para filhos.

Geocentrismo é mais errado que heliocentrismo, e heliocentrismo é errado à luz da cosmologia moderna, que tem evidências bem convincentes de que se há um centro do universo, este não é o sol.
Uma criança só compreenderá o que são geocentrismo e heliocentrismo quando puder apreender conceitos como sol, planeta, órbita, gravitação, estrela. Não é doutrinando que ensinamos o que são essas coisas, e a evidência de que heliocentrismo é mais correto que geocentrismo é universal e acessível, a criança deve crescer para ser capaz de ter acesso a essa evidência.

Falo em heliocentrismo para mostrar que não podemos comparar os cálculos de Galileu e as observações de Hubble (o cientista ou o telescópio) com a inexistência de toda e qualquer divindade. Não seria epistemicamente coerente (nem correspondente), nem intelectualmente honesto.

Não observamos nada como o que fala Antônio Vieira (não o padre, me refiro ao homônimo escritor moderno) em um de seus contos, em que astrônomos acham o enorme corpo de deus morto entre as galáxias.

É melhor explicitar a diferença que estou traçando tacitamente entre ensino e doutrinação.

Doutrinar não é apenas ensinar. Ensinar aos filhos como se portar, a ter higiene, não pode ser doutrinação, pois não há nessas coisas elementos inverificáveis e subjetivos. Ter higiene é ter mais saúde, isso é verificável, foi verificado, e ensinar isso aos filhos é dever dos pais. Isso faz parte do senso comum, ou seja, dos conhecimentos universais da humanidade.

Doutrinar é passar adiante fundamentos filosóficos/religiosos/políticos que não podem ser conhecimento universal pelos seguintes motivos:

– não dependem de evidências universalmente e facilmente verificáveis.

– são mais resultado de argumentação filosófica (doxa) do que de conhecimento objetivo (episteme).

Mostrar aos filhos que higiene é importante é ensino. Dizer aos filhos que lavar as mãos é ter pureza e que pureza é condição necessária para uma vida após a morte é doutrinação.

Dawkins e Dennett têm a sensatez que falta a Alejandro Rozitchner. O propósito das obras ateias de Dawkins e Dennett (e posso incluir Michael Martin, Sam Harris e talvez Christopher Hitchens) não se resume a mostrar que as bases sobre as quais se apóiam os dogmas religiosos são frouxas e por isso eles não merecem tanta crença.

Uma motivação mais nobre desses pensadores é mostrar que vários problemas pelos quais a humanidade já passou são resultado de doutrinação – ou seja, imposição de opinião, e pior, ‘conhecimento’ sem fundamentação racional alguma. Ensinar uma língua a uma criança é diferente de doutriná-la com afirmações como

– "Jesus morreu para salvar a humanidade e é filho de Deus."

– "Maomé é um profeta que recebeu a verdade absoluta do anjo Gabriel."

– "Todo e qualquer deus não existe, tenho absoluta certeza de que são invenções como Buzz Lightyear, então você não precisa pensar a respeito, apenas acredite em mim. Não se incomode em crescer e entender minhas premissas para essa conclusão, apenas engula o que eu digo porque sou seu pai e você confia cegamente em mim."


Bertrand Russell já alertava para a preguiça intelectual de aceitar a tradição sem entender minimamente o que a fundamenta. Passar o ateísmo adiante através da doutrinação infantil pode ser melhor que passar o cristianismo adiante da mesma forma, entretanto, isso não é estimular pensamento crítico, isso é criar outra tradição doutrinatória. Isso é fazer o que já é feito há séculos: se aproveitar da aceitação cega das crianças ao que dizemos para elas para dá-las já mastigada uma conclusão nossa que, mesmo racional e fundamentada, muito tem de subjetiva.

Somos livres para, como apontou Russell, escolher a razão para ir até as fronteiras do nosso conhecimento e desconsiderar métodos não-racionais de obter respostas, como a revelação. Mas esta tem que ser uma decisão consciente e argumentada pela própria pessoa consigo mesma.

Se a maioria das pessoas nem percebe a fragilidade das crenças religiosas, é por causa da doutrinação (ou da preguiça intelectual, ou da falta de prioridade que dão ao assunto). Se as pessoas não reconhecem prontamente o erro da homofobia ou do racismo, também é por causa da doutrinação (não é conhecimento objetivo dizer que todo mundo tem que se comportar da mesma forma ou ter a mesma aparência). Se não da doutrinação, do desenrolar de um barbarismo mental que não encontrou a luz do pensamento civilizatório, o que é outro assunto.

Se nos próximos anos começarem a ver por aí filhos de ateus que fazem proselitismo e não têm nenhuma capacidade de pensamento crítico ou argumentação racional, lembrem-se do que eu disse sobre doutrinação infantil ser prejudicial.

Doutrinação é um mal, assim como é um mal o dogmatismo, e os dois estão intima e indissoluvelmente associados.

Se meus argumentos não foram suficientes até aqui para mostrar que a doutrinação é um mal, ainda posso usar estudos de caso. 180px-JohnStuartMill Que resultados gera uma educação rigorosa? Um dos resultados de uma educação rigorosa foi o brilhante filósofo John Stuart Mill, que entre outras coisas foi um dos primeiros a defender o direito das mulheres ao voto.   Que resultados gera uma doutrinação rigorosa? Imagens valem mais que mil palavras. silas  453px-George-W-Bush Imam_Khomeini_-_has_exiled   450px-Mahmoud_Ahmadinejad

10th of April

Educação in vitro


Agora que meu nome está na co-autoria de um artigo na revista Com Ciência da SBPC, e dado que este artigo trata de educação, resolvi publicar aqui uma resenha que fiz no ano passado sobre um livro de Paulo Freire e Ira Shor. Deixo claro que minha visão política não é marxista. Sequer pode ser considerada de “esquerda”. Também não é de “direita”. É algo que ainda não defini, sequer defini se será necessário definir. O motivo para publicar esta resenha aqui é mostrar que minha visão sobre educação está incluída nos valores expressados na fundação deste blog. Se necessário, mais tarde acrescentarei outras ideias nesta mesma entrada. _____

Medo e ousadia: uma resenha crítica

Logo na introdução, o leitor de Medo e Ousadia – O cotidiano do professor (Freire & Shor, 1987) se depara com algo diferente: um livro ‘falado’. Ou, fazendo jus à proposta da obra, um livro dialogado. Ira Shor expõe uma série de perguntas sobre a educação libertadora, esperando que ao longo do livro sejam respondidas, ou ao menos que elas incitem algumempowerment para o educador que o lê. Não que o livro seja dedicado a responder perguntas que foram feitas de fato aos dois autores. Como Freire se conscientiza ao longo do começo do diálogo, é errôneo ver a motivação como anterior e destacada da ação. A motivação é a própria ação. Por isso, um livro escrito por dois educadores em diálogo tem o poder de dissecar a motivação de ambos, na tentativa de despertar a motivação de seus leitores. Porque, de um ângulo diferente, este é um livro sem autores. São dois leitores que se lêem mutuamente e o compõem nesse processo. Aqui, não se trata de um escritor, sentado em seu escritório, com todas as limitações do isolamento, que tece um projeto de livro em sua mente antes de executá-lo. Esta atividade pode ser muito produtiva na lírica de um poeta ou romancista, mas talvez seja limitante para um livro cuja proposta seja pensar a educação, e mais especialmente, a educação libertadora. Talvez não seja surpreendente que textos em forma de diálogo, como os de Platão, sejam seminais para a nossa civilização. Mesmo que seja através de personagens fictícios, o diálogo é uma práxis esclarecedora para nós, quando traduz a linguagem do indivíduo para a linguagem das relações sociais, do constante reconhecer e conhecer em que estão envolvidas. Quando Paulo pergunta a Ira como fazer para motivar os estudantes, a leitura de Ira sobre suas experiências desemboca numa conclusão importante, que conta também com a intervenção e insight de Paulo: o sistema fossilizado de ensino desmotiva porque o professor e o aluno são obrigados a trocar informação de uma maneira não dialógica, como se tudo se restringisse ao “bom dia” que Freire não considera diálogo. O professor, em vez de falar, apenas emite o programa imposto pela autoridade, não dando espaço à espontaneidade (a pesquisa é desestimulada). O aluno, em vez de ouvir e interagir, apenas decora um ‘conteúdo’ que parece ser alienígena à sua realidade. Nessa forma de educação, ambos são apenas atores de uma peça cujo enredo e autoria pertencem a outrem! Por isso, o intento maior da educação libertadora é transformá-los de atores a autores do fenômeno educativo, inclusive na dimensão epistemológica desse fenômeno. Apenas como autores, professor e aluno podem selecionar entre infinitas possibilidades aquilo que gerará “a ação, a reflexão crítica, a curiosidade, o questionamento exigente, a inquietação e a incerteza”. Não há educação libertadora sem mal-estar. É este mal-estar que impede que o conhecimento seja prostituído na forma de mercadoria de consumo – esta, inclusive, é a famosa acusação de Sócrates contra os sofistas, os mais clássicos ‘transmissores’ do saber. É de Sócrates, afinal, a ironia: justamente por provocar o mal-estar por questionamento é que a palavra tomou o sentido moderno de malícia. Um problema infeliz, penso, pode decorrer de algumas interpretações possíveis da obra de Freire e Shor: pode-se concluir que a proposta é deslocar a obediência dos alunos de uma classe para outra. Da ‘elite’ para o ‘proletariado’, mantendo-se uma certa constância, não no modo de pensar, que deixa de ser subserviente e passa a ser crítico com a educação libertadora, mas no modo de agir. O território do conhecimento não pode ser habitado por meros membros de um grande rebanho, ovelhas dóceis a pastar. Essa possibilidade é um corolário da educação tradicional, e um risco na educação libertadora. Talvez por seu pensamento marxista, Freire e Shor sejam enviesados ao interpretar o fenômeno educativo como uma luta de classes, em que classes são irredutíveis. Mas para levar o pensamento crítico adiante, é preciso reduzir (no sentido de analisar) as classes. É preciso que cada cabeça seja independente, de modo que o território do conhecimento não seja um pasto para ovelhas, mas sim uma presa para predadores. Pois um aluno com pensamento crítico, provido de empowerment, motivado pelo mal-estar e a ansiedade de conhecer, só agirá de acordo com a classe se sua ação for o resultado de um diálogo com outras mentes como a sua, um diálogo que resulta da convergência da fome de todos esses predadores pela presa chamada conhecimento. Há, entretanto, nesse ponto de vista, o risco do individualismo exacerbado, que, como o escritor que se tranca em si para produzir uma obra, lida com uma amostra viciada e extremamente pequena dos fenômenos sociais, incluída entre eles a própria educação. Mas, como é lembrado no livro, nenhuma pedagogia é neutra. Mas isso não justifica que a educação se torne um espaço de adestramento em vez de um espaço de libertação, mesmo sob o pretexto de que a libertação visa a cortar alguns tentáculos e cabeças de uma hidra político-econômica opressora que se infiltra na menor das lacunas dos fenômenos sociais. Em sala de aula (ou qualquer outro espaço educativo), como é bem observado, é mister que sejam exercidas a democracia e o rigor, em diferenças não-antagônicas entre o educador e os alunos. Um equilíbrio entre partes funcionais já presentes na educação opressora, e partes novas introduzidas pela educação libertadora, deve ser alcançado sem sacrificar os objetivos da libertadora. A transição precisa ser rigorosa e macia. Um obstáculo importante à pedagogia dialógica é a resistência do aluno à mudança, ou mesmo a passar a depositar confiança na figura de autoridade que foi opressiva para sua história pessoal até ali. As experiências de Shor ao lecionar em universidades com alta incidência de resistência são reveladoras neste ponto. Os alunos, após receberem alienação, pagam com a desordem em sala de aula. Muitas vezes, induzem até o educador libertador a adotar métodos autoritários de controle em sala de aula, para que haja alguma aula em vez de nenhuma. Para interpretar as dificuldades de um establishment repressor, tanto o da ditadura militar brasileira quanto o da autoridade bélica estadunidense, se esforçando por silenciar a voz jovem que, vítima de alienação, compactua da amnésia anti-dialógica empunhando a bandeira certa mas muitas vezes os métodos errados, precisamos mais uma vez voltar nossa atenção para aquele que possivelmente foi o primeiro partidário da pedagogia libertadora: Sócrates. Este filósofo ilustra, com sua vida, as dificuldades a serem transpostas frente à resistência à transformação social. Ele foi acusado, afinal, de corromper a juventude, ao tentar plantar a consciência crítica. Foi obrigado a tomar o veneno da cicuta e morrer por um ideal de não apenas sociedades, mas indivíduos mais críticos, que façam o parto de seu próprio pensamento e atitude como filhos, ao invés decomprarem o conhecimento prostituído e meramente transmitido dos sofistas. Hoje, apesar de pequenos avanços, a resistência à transformação educativa ainda está aí. Não obrigamos Paulo Freire a tomar cicuta, mas o condenamos ao ostracismo ao ensinarmos mal nossas crianças a ler, tornando-as mais distantes das capacidades mínimas de se desvencilharem da alienação. Mas alguma esperança pode ser depositada para vencer o medo do mal-estar e estimular a ousadia do diálogo, a começar pelos professores que entrarem em contato com este livro, feito de leitores para leitores.

 

Referência

FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e ousadia: O cotidiano do professor. 2. ed. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1987. 224 p