23rd of October

Adão e Eva nunca existiram (razões genéticas)


Premissas simplificadas
1 – O ser humano é dotado de 22 pares de cromossomos chamados autossômicos e um par de cromossomos sexuais em cada célula do corpo (com exceções), XX se for mulher e XY se for homem.
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2 – Os genes estão contidos nos cromossomos, sua posição no cromossomo é chamada locus. Já que nós somos 2n (temos duas cópias de cada gene em cada tipo de cromossomo), temos então duas cópias de gene em cada loco. A cada uma das versões do mesmo gene chamamos alelo.
3 – Todos os alelos surgem por mutação. Mutação pode ser causada por vários fatores, e um deles é a simples maquinaria de replicação dos genes, que nunca foi perfeita, e erra numa taxa baixa.
4 – As mutações podem dar origem a alelos deletérios. Chamamos deletério aquele alelo que prejudica ou impossibilita a vida do organismo. Um organismo que tem mais de uma cópia do mesmo cromossomo, como nós, não necessariamente morre ou é prejudicado por um alelo deletério, porque possui em outro cromossomo outro alelo "normal".
5 – Todas as pessoas possuem alelos deletérios em seus cromossomos. Como a taxa de mutação é baixa, se você encontra o mesmo alelo deletério em duas pessoas diferentes há boas chances que elas sejam descendentes de um ancestral comum em que houve essa mutação.
6 – Um filho herda 23 cromossomos do pai e 23 cromossomos da mãe, podendo então herdar alelos diferentes ou alelos iguais em cada locus. 7 – Quanto mais a mãe e o pai de uma criança são aparentados, maior chance a criança tem de herdar dois alelos iguais, e maior a chance de herdar alelos iguais que sejam deletérios. Exatamente por esse motivo a tradição já diz que filhos de um casal de primos em primeiro grau têm maiores chances de nascerem com defeitos.
Conclusões
Por mais que os alelos de Adão fossem diferentes dos alelos de Eva, se a humanidade toda fosse descendente desse casal haveria cruzamento entre irmãos e primos próximos nas primeiras gerações. Esse endocruzamento ou endogamia leva ao aumento do número pessoas que possuem alelos iguais em seus cromossomos, maior número de alelos iguais inclui deletérios iguais (por “alelos iguais” quero dizer a condição comumente chamada de homozigoto). Isso aconteceria com todos os descendentes de Adão e Eva. Ou seja, todos nasceriam com genes deletérios, e teriam sua sobrevivência prejudicada. Isso significa extinção da espécie humana.
A Genética moderna de fato aponta para uma origem comum de todos os seres humanos: uma população africana, não um casal. E de onde veio essa população africana de seres humanos? Empregando os mesmos métodos que usamos para saber quem é o pai de uma criança e para saber a ancestralidade comum de todos os seres humanos nessa população africana, que é a analise de semelhanças e diferenças no DNA, observamos que depois de juntar todos os seres humanos, semelhanças são compartilhadas entre todos os seres humanos e os chimpanzés modernos.
Ou seja, a humanidade não veio de um casal, veio de uma população, e essa população veio de outras populações mais antigas, e há cerca de 8 milhões de anos os mesmos ancestrais dos seres humanos foram também os ancestrais dos chimpanzés e bonobos. Os mesmos argumentos continuam valendo para a suposta descendência de toda a humanidade dos sobreviventes da Arca de Noé. Esses sobreviventes estavam em número pequeno demais (8) para evitar a depressão endogâmica, que é o nome desse fenômeno em que os descendentes de ancestrais aparentados sofrem a ação de genes deletérios em dose dupla em seus cromossomos. ___ O aumento de homozigotos causado pela reprodução entre parentes pode ser explicado por um mecanismo chamado deriva genética. Ela causa, por acaso, a fixação de alguns alelos e a extinção de outros. Eva mitocondrial e Adão do cromossomo Y Esses termos têm sido noticiados por causa de algumas pesquisas genéticas. Significa então que ninguém conhece esses argumentos e tem gente ainda acreditando em Eva e Adão na ciência? Não. A “Eva Mitocondrial” e o “Adão do cromossomo Y” são apenas metáforas (um tanto jocosas). Eva Mitocondrial quer dizer apenas que há um único genoma mitocondrial ancestral a todos que são encontrados hoje, que pode ser traçado a una única mulher. Mas não significa que ela era a única mulher da época dela. O mesmo vale para o cromossomo Y do “Adão”.
Os cromossomos não permitem a conclusão de que a mesma mulher (que não é necessariamente humana, pode ter pertencido a uma espécie ancestral do Homo sapiens) era a portadora ao mesmo tempo da forma ancestral de todas as variações encontradas hoje.
Isso significa que para cada trecho do genoma nuclear não determinado pelo sexo haverá um adão/uma eva. Isso dá milhares de adões e evas.
A análise genética, que é mais complicada que o que passo aqui, chega a apontar que a população ancestral comum imediata a todas as outras populações humanas atuais tinha cerca de cinco mil membros no leste da África (a margem de erro deve ser substancial, mas nunca permitiria um número tão baixo quanto apenas um casal ou mesmo os quatro casais sobreviventes do Dilúvio – que também não aconteceu como relata a Bíblia).
Cinco mil pessoas não enchem nem o Maracanã. Mas são suficientes para serem o substrato genético da nossa espécie que evitou drásticas depressões endogâmicas e permitiu o surgimento da variabilidade atual.
As contemporâneas da Eva Mitocondrial só não tiveram a sorte de terem suas mitocôndrias sobrevivendo até hoje. Pensem nisso como sobrenomes. Assumamos que os sobrenomes somente podem ser passados de mães para filhos.
Existem sobrenomes que não vão haver mais porque todos os portadores estão mortos e não tiveram filhos.
Se numa cidade do interior só há "Ferreiras", não quer dizer que todos descendem apenas da primeira Ferreira, quer dizer que nenhum descendente direto da linhagem materna das Oliveiras e das Silvas chegou até lá. Mas na linhagem paterna nada impede que os Ferreiras sejam descendentes também das Oliveiras e Silvas. Epílogo Penso que dos raros casos em que uma população pode ser fundada por um único casal, todos esses casos estão em outros reinos que não o Animalia. Plantas podem ter muito mais de dois lotes de cromossomos. Elas podem ser 4n, 5n, 6n, 8n, principalmente as cultivadas. Por isso um único indivíduo traz consigo vários alelos armazenados, então se uma população é fundada com uma única planta polinizando outra, a deriva será muito mais branda. (Isso de fato acontece, inclusive surgem espécies novas de planta a partir de um único organismo híbrido de duas espécies diferentes.) A afirmação contida no título desse texto só pode ser aceita pragmaticamente, como deve acontecer com qualquer conhecimento racionalmente aceito (vide minha exposição sobre intuição probabilística). Os argumentos apresentados aqui permitem apenas a conclusão de que a história relatada na Bíblia e a crença de que a humanidade veio de um único casal são coisas de uma improbabilidade Vasta e Cosmicamente gigantesca.

22nd of October

Levedura revela seleção sexual em ação


por Natasha Gilbert Por que os pavões desenvolveram caudas tão elaboradas? Um estudo que detecta como um gene se espalha por uma população de levedura pode finalmente ajudar a responder tais questões espinhosas da evolução.  800px-040411 Como as leveduras poderiam ajudar a desvendar os mistérios do rabo do pavão? Os biológos evolutivos conceberam vários modelos para explicar como a competição na reprodução afeta características como o rabo do pavão. A maioria concorda que uma característica que dê aos indivíduos uma vantagem na competição pela cópula se espalhará pela população. Mas discordam quanto à origem da preferência por essa característica. Alguns argumentam que caudas brilhantes, por exemplo, poderiam indicar que o macho está forte e saudável; outros dizem que as preferências por tal atributo aparecem arbitrariamente. Chegar a uma conclusão é difícil porque as características biológicas já evoluíram, e dependem de vários genes. David Roger, um biólogo molecular do Imperial College de Londres, Reino Unido, e seu colega Duncan Greig, um biólogo evolutivo do University College de Londres, desenvolveram agora um sistema que permite ver como a preferência por um atributo afeta a frequência de um gene na população. Seu organismo modelo: a humilde levedura. “As pessoas têm feito modelos teóricos de seleção sexual há anos como um modo de explicar como as características [traits] evoluíram,” diz Rogers. “Mas ao menos que você possa medir a aptidão [fitness] – isto é, como os genes se espalham pela população – você não pode realmente testar esses modelos.” “No sistema que desenvolvemos, perseguimos um único alelo de um gene e vimos como ele se espalha pela população”, acrescenta. A pesquisa foi publicada em Proceedings of the Royal Society B1.

Competições Sexuais

Os cientistas escolheram a levedura porque ela se reproduz rapidamente, e tem sua genética bem entendida – o que é ideal para estudar a seleção sexual. A levedura é um micróbio que pode se reproduzir assexuadamente, dividindo-se em dois organismos filhos que são geneticamente idênticos ao pai. Mas pode também fazer sexo, com duas células de levedura se fundindo para misturar seu DNA, criando um indivíduo novo e geneticamente único. Algumas células de levedura secretam um feromônio que atrai outras para parceria sexual. Concentrações mais altas desse feromônio fazem uma célula ser mais atraente – então, em teoria, o gene que expressa o feromônio se espalhará na população. Os pesquisadores modificaram um grupo de leveduras ‘sinalizadoras’ para secretar feromônios a mais e misturaram-nas com leveduras que sinalizavam em níveis normais. Depois de um ajuste genético posterior para garantir que não pudessem se reproduzir assexuadamente, os micróbios foram postos em competição entre si em duas competições sexuais.  

Você está me recebendo?

No primeiro cenário, os cientistas puseram um excesso de células de levedura sinalizadoras entre um número menor de células ‘receptoras’ que respondem ao feromônio, de modo que houve forte competição para encontrar uma parceira. Os cientistas descobriram que o gene para a produção do forte sinal de feromônio se espalhou rapidamente pela população. Inversamente [no outro cenário], um excesso de células receptoras encontrou mais facilmente uma parceira, e o gene não se espalhou tão rapidamente. “Os resultados do nosso experimento são bem simples e óbvios. O que é importante é que nós mostramos que a levedura pode ser usada para estudar a seleção sexual. Deve permitir progressos rápidos ao testar os modelos,” diz Rogers. “É um avanço importante sobre o que conseguimos fazer antes,” concorda Malte Andersson, um ecólogo evolutivo da Universidade de Gotemburgo na Suécia. “Permite a nós olhar os detalhes genéticos de como a seleção funciona.” Apenas a intensidade do sinal  foi alterada nessa pesquisa, mas experimentos futuros podem criar ‘receptoras’ com maiores ou menores preferências pelo feromônio. O gene da preferência também pode ser ligado a um marcador genético (um pedaço conhecido de DNA facilmente observável) que também enfraquece a vitalidade da levedura. Isso permitiria que os cientistas testassem teorias alternativas sobre por que as preferências evoluem. Por exemplo, um argumento sugere que a preferência por uma característica particular de um macho evoluirá e se espalhará pela população apenas se a característica oferece um benefício direto à fêmea. Rogers espera que outros pesquisadores usarão agora o sistema da levedura para enfrentar tais questões.  

  • Referência

    1. Rogers, D. W. & Greig, D. Proc. R. Soc. B doi:10.1098/rspb.2008.1146 (2008).

Traduzido de Nature News.

10th of October

Short testimonial by a young brazilian epicureanist


This text is an email sent to EPL (Epicurean Philosophy List).
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Regarding cities, I have an interesting (if you think) history from myself here in Brazil, and I would be pleased to share it with you guys, and to read yours also.

I lived the longest time of my early childhood in a little country town in Minas Gerais state, during that time the population grew from about 5 thousand to 8 thousand. There, I was indoctrinated as a Catholic, I learnt to appreciate books and nature (my dad owns a medium size farm there, with some cattle, a lake and many fruit trees), and I have fixed friendship ties with the few people who will accompany me (not necessarily in the places I will go but in my heart) to the rest of my days as Metrodorus had accompanied Epicurus.

I believe this small town (named Lagamar) was my Epicurean Garden in the sense of Ethics (the early infancy is quite important to the development of empathy, as Piaget would theorise – I regard empathy as the greater value of Epicurean Ethics).

When I was 10 we (the whole family: me, my parents and my three sisters) moved to a larger town, Patos de Minas (pop. about 120 thousand). There I continued to study nature, particularly Biology of which I was always fond. I continued what I was doing in the early infancy when I used to read encyclopedias for children – to found my personal Epicurean Garden of Materialism. I should not underestimate the impact of my earlier home in the small town, for there I was always in contact with trees, open field, and animals.

However, I was a moralist christian as a child. When I was 11/12 I had my first contact with Darwin’s theory of Evolution. I was awed by its simplicity and clearness. Meanwhile, I was getting a higher leap of faith in my first communion (when Catholic children eat the host – the supposed ‘body of Christ’ – for the first time). I remember dimly that I used to have a ‘dual mind’ to reconcile science and religion, and I was a sincere believer as a Christian.

When I was 13, I returned to Lagamar (the small town) and there I started to breed a deeper skepticism. I started reading science maganizes for laymen. Then I reached the age of 14, when I was appointed to write a newspaper linked to a group of Catholic teenagers. It was soon after 9/11/2001 that I wrote the first edition. The World Trade Center in NY had crumbled, and in my editorial about it in the first edition of the teen newspaper I was just reluctant to talk about God, any God (in a Christian paper!). I converged to another doctrine of Epicurus’: I didn’t think the gods cared about us anymore (9/11 was not a cause but a confirmation). Even further than this, I became an atheist (I remember I did this just by exchanging dogmas – I just had faith no god existed – I verbally acknowledged this).

When I was close to 15 years old, I moved again to Patos de Minas, this time without my parents, to live with my sisters and continue my studies in the brazilian equivalent of Highschool.
Empathy and friends played an important role in my life again, as ever since my childhood.

Although an atheist, I had a short (less than 6 months long) flirtation with a meager kind of spiritualism after hearing about NDEs (near-death experiences).

I reached the age of 17 as a skeptic. I didn’t believe in gods or in life after death. I had “received” Epicurus’ letter to Menoeceus, even though I hadn’t read it by the time. But the emotional acceptance of the latter has happened only after I was admitted to University of Brasília (in 2005) and read, in 2006, the Autobiography of Bertrand Russell (I was 19). The Antology of Epicurus has been also an enormous influence, not because I had read it with much attention, but because I met the earlier mind historically registered that shared at large my own views on ethics and knowledge.

In this process, from 2004 to this moment (october 2008) I can’t tell exactly when I ceased to be a dogmatic atheist. I recognised I couldn’t be a true freethinker while I was commited to any kind of dogma. So I thought it through and decided that in this question, as well as in many others, I should consider the proposition which I didn’t share as extremely improbable.

If I consider the gods to be extremely improbable, I don’t believe in them, and I call this atheism. I have coined the term Asymptotic Atheism to describe my case, but I could well be called Agnostic Atheist too. I have made a quick research in Philosophy about this sort of reasoning, which I now call Probabilistic Intuition – present in Epicurus, Locke, Hume, Clitomachus, Carneades, even in the stoic Sphaerus, and, most recently, Carl Sagan, Bertrand Russell, Richard Dawkins and Daniel Dennett, among others, seem to share this view (though not all of the cited have applied probabilistic intuition to the existence of gods).

Now I’m 21, two months away from my graduation in Biology, here in Brasília city. What I owe to Epicurus is that I have never felt stronger and happier. It is thanks to him I have some Ataraxia in my mind, unity and honesty in my thought, and awareness of empathy in my trail.

He is not an idol, for I don’t need any idols anymore. He is a friend, among others whom I cherish.