30th of August

Dois ou mais enigmas para um Deus Improvável


Primeiro vídeo oficial do blog Tetrapharmakos in vitro.

2nd of August

Dualismo Material, ou Apresentando O Grande Ininteligível


Abigail Hensel e Brittany Hensel são duas moças bem humoradas, cheias de vida, nascidas em 7 de março de 1990 em Minnesota, Estados Unidos.

Cresceram em New Germany, Minnesota, estudaram em escola luterana, andam de bicicleta, digitam rápido o teclado, correm, e recentemente conseguiram carteira de motorista. São duas personalidades distintas.

Um detalhe sobre Abigail e Brittany é que as duas moças compartilham um só corpo, e a aparência exterior é de um corpo humano dotado de duas cabeças.

Vídeo.

Cada lado desse corpo é controlado por um desses dois cérebros.
O corpo funciona muito bem, tem por exemplo três rins, dois intestinos, três pulmões, um fígado, um par de ovários, um útero, uma bexiga, uma vagina e uma uretra; e só passou por uma cirurgia preventiva quando Abigail e Brittany estavam com 12 anos de idade.

Isso não é evolução, mas dá um exemplo de como a natureza pode ser flexível.
Tão flexível, que, quem sabe, em milhões de anos um réptil pode virar um ser humano.

Há pessoas que, imersas numa sociedade teísta como a brasileira, diriam que seria injusto culpar “Deus” (o deus dos cristãos) pela condição das gêmeas. Isso com a idéia de que essa condição é necessariamente ruim ou horrenda.

Caso fosse de fato uma condição ruim e horrenda, não é injusto culpar uma certa definição de “Deus” que diz que este ser é ao mesmo tempo perfeitamente bom, onisciente, onipotente, e onipresente.
Como já indicou Epicuro, ao menos um problema ético emana dessa definição, e a única resolução para a questão do mal de Epicuro, à parte negar a existência de tal ser, seria mudar este conceito (definição). Isso não é uma falsa dicotomia, dado que a mudança de definição traz em si todas as outras alternativas à negação.

Mas a condição das gêmeas não é necessariamente um tormento. Achar que Brittany e Abigail sofrem um tormento é ignorar que elas vivem muito bem, como eu já informei. E achar que a condição delas é horrorosa é impor sobre elas uma estética própria, que é irrelevante a elas.

Pensar que a condição das duas implica um tormento horroroso é ter um demasiado centrismo em si mesmo, ao ponto de aplicar a outrem indevidamente os seus valores. Mas aplicar indevidamente valores a outrem nunca pareceu ser um problema entre religiosos, não é?

Muitos religiosos justificariam a condição de Brittany e Abigail por um argumento liberal de que o livre arbítrio não é atributo apenas dos indivíduos, mas também um atributo da própria matéria.

Me parece forçoso aplicar uma dicotomia implícita de determinismo / livre arbítrio à matéria, dado que ela não é só uma coisa nem outra. E me parece que ao menos que uma coisa muito louca esteja acontecendo aqui, deixar a Natureza chafurdar em si mesma promiscuamente, de modo a originar uma emergência de contingências que de forma não-determinística geram uma mente (ou duas mentes num corpo só, como é este caso) é incompatível com saber de antemão que esta mente surgiria, com todas as suas particularidades e limitações que podem determinar toda a sua trajetória (inclusive idéias de pecado, de beleza, de bem e mal, etc.).

E quanto à opinião dos espíritas, segundo a qual a condição dos corpos é resultado do que fez o espírito em vidas passadas?

Não tenho nenhuma opinião firme sobre isto, mas me basta desconfiar que a memória é algo que se perde na morte do corpo e é irrecuperável. Me basta desconfiar também que a personalidade não é herdada mas sim construída pacientemente durante a vida.
É lamentável que existam sistemas de crença que defendem que a moral deve ser apreendida de um grande teatro cósmico que me lembra os experimentos de Pavlov ou de B. F. Skinner.

Esta plasticidade da vida, que permite casos como o dessas irmãs americanas, é de certa forma uma pista de que o universo não está sob o controle de um deus. Por que não considerar, como deveria fazer uma mente racional, que essa possibilidade existe e não é fraca?

Me parece anti-racional descartar de antemão a hipótese de não haver qualquer tipo de divindade a nos olhar.

Desviantes existem porque as “leis” naturais permitem exceções, principalmente aquelas que se referem a entidades complexas como animais. E pessoas “anômalas” existem porque o homem é só mais um animal, e é uma amostra ínfima do universo que o cerca.

Pergunto uma coisa importante: Qual é o motivo para supor qualquer espécie de antropocentrismo ou antropomorfismo ao universo/natureza?

Assim como as gêmeas, o Universo não merece que enfiemos nele os nossos valores.

Aliás, qual é o motivo de propor esse deus ouroboros, uma cobra que devora a si mesma pelo rabo? (Uma entidade que tem características – como uma mente – que se originam de causação distal em relação a certos fenômenos, que é capaz de criar ou alterar esses próprios fenômenos. Ou seja, há evidências de que a mente humana surgiu no decorrer da evolução, e a evolução é um processo biológico que depende da existência da matéria, então por que creditar o atributo mente a um deus anterior à própria matéria? Esse ciclo que se completa com a mente divina criando a matéria que é o que eu chamo de deus ouroboros, comendo seu próprio rabo.)

Para os que pensam que Deus existe e é intangível e inefável, entretanto criam para ele altares, há uma expressão de Peter Medawar, que ele usa num comentário errôneo sobre os sonhos (em Induction and Intuition in Scientific Thought):

“Utter nonsensicality”, que traduzo como “Ininteligibilidade ulterior”. É isso que penso ser o atributo mais comum de qualquer coisa que consideremos sob a luz das capacidades de nossas mentes. Tudo isso que me cerca é de uma ininteligibilidade ulterior.

Sobre tudo isso que me cerca, que às vezes chamo de Universo, apenas o tolero, e o contemplo. Não merece altares, pois não cultuo algo ininteligível. Cultuo o que compreendo, ou o que mesmo não compreendendo me é acessível. Em vez de altares, sou todo dedicação a quem ou o que penso que tem merecimento: ciência, filosofia, Epicuro, Carl Sagan, Bertrand Russell. Têm merecimento porque tornam o mundo menos ininteligível para mim, portanto menos digno do meu temor.

(Não estou falando em apreciação estética, isso eu tenho para com as coisas independente de sua ininteligibilidade.)

Para mim, o grande erro dos místicos é fingir para si mesmos que estão desfrutando de gotas de compreensão, quando na verdade estão se perdendo em labirintos de antropização do que não é antrópico.

O que é antrópico, o que é cogito ergo sum, é uma amostra limitadíssima de tudo o que me cerca. Portanto, concluo que é no mínimo altamente fadado a equívoco aplicar essa amostra ao resto do universo, no sentido de pensar que o universo tem de conter em seu cerne ou ser governado por algo dotado de razão, mente, e conceitos de estética e ética.

Em termos mais técnicos (não que eu esteja fazendo ciência aqui), tentar afirmar “Deus existe” é algo que vai cair lá onde se aceita a hipótese nula na maioria das vezes, e mais afastado da hipótese alternativa quanto mais a definição de “Deus” for próxima da definição de “Homem”.

Abigail, Brittany e o Universo estão em seu pleno direito: apenas são. Se são bonitos ou feios, bons ou ruins, não compete a nós decidir. Mas para mim, sempre há beleza na autonomia, na complexidade e na emissão de luz própria. Não somos capazes de compreendê-los totalmente. Mas podemos ouvir o que têm a dizer, por mais diferentes que sejam de nós.
(Constelação de Gêmeos)
1st of August

Aging and Immortality in Biology


Human beings (and other animals) age and die for these probable reasons:

1 – The inaccurate replication.

We carry in each of our cells the chromosomes, long strands of DNA wound up into proteins. The ends of these strands are made of short-sequence repeats, and their assembly is known as telomere. When cells replicate in mitosis (the rate of replication differs from tissue to tissue – skin and gut cells renew every week or so, while neurons may last a lifetime), the DNA must be copied and inherited by daughter cells. Every cell carries in DNA the information which stands for the whole body.

But for molecular reasons, in each mitosis the telomeres shorten up. Imagine the telomeres are cushions protecting genes between one another. These cushions get thinner and thinner as replications go by, to the point that genes can be affected. If genes are affected, further replication and survival of the cells becomes jeopardized (what can be observed in elders, e. g., in scarceness of their defense cells).
If genes are deteriorated because they lack telomere protection, problems emerge. For instance, the cell may lose control over replication and it brakes loose. Maddened promiscuous replication of cells is famously known as cancer. This is one of the reasons why elderly people are more susceptible to cancer.

For a tumor to appear, it is not strictly necessary that replication-related genes are affected. The process may be triggered by mutation in specific receptor genes alone, those which allow the cell to perceive its neighbors. That is to say, a cell in solitude is a dangerous cell.

2 – The decay of biological structures

This second reason is intimately related to the first one. The very phenomenon of breathing (and by obvious extension, eating, since breathing is connected to food energy intake) causes decay to the tissues. By decay I mean mutation. Every woman who buys anti-wrinkle cosmetics has heard about free radicals – and these are produced due to bad reception of electrons at the end of respiratory chain in mitochondria. Free radicals are so damaging that natural selection favored cells owning peroxisomes, organelles capable of tackling them. These radicals interact with DNA and change it, causing mutations, spoiling genes which control cells and tissues. Mutations can also be caused by many other circumstances.

As our body is always renewing itself, and needs energy (food and respiration) in order to do so, it has no means to avoid gradual gathering of mutations throughout the tissues in the course of decades. This means stem cells (which give birth to themselves and to tissue-function-specialized cells all over the body) diverge from the ancestral type, and this ancestral type is the fertilized egg from our mothers.
When diverging from their ancestor, these cells may start misproducing elastin and collagen, then wrinkles thrive and skin slackens. They may overproduce melanin and bring about dark spots on the skin. May damage the brain and provoke diseases such as Parkinson’s and Alzheimer’s. And so cells keep up the noble art of aging.
Smart solutions
It is well known that our bodies are largely a result of natural selection, so there have been also genes selected during evolution because they diminish this biological decay in some ways. But they are not perfect, for evolution mainly privileges effective means to surviving until reproduction happens and offspring grants another chance to the lineage. Old age is not common in nature, so not many ways to restore genetic integrity to longer lasting have appeared. Some genes “detect” virus infection and cancer conspiracy, and oblige the cell to cease its activity, brake its DNA and dissolve into vesicles later “eaten” by defense cells. This is called apoptosis. Furthermore, defense cells can also detect carcinogenic activity in other cells and induce this programmed death to them. There are ways to thicken telomeres (namely, reconstruction from telomerase activity), mastered by stem cells such as those that produce sperms and eggs (gametes). Thus, although gametes are vulnerable to mutations, it is an evolutionary advantage that individuals are born from a single cell, for this grants at least in youth and reproductive age minimal resemblance among copies of genes in the various cells of the organism, so that they “agree” with each other, and work in harmony as a choir to be judged by natural selection, until the inexorable forces of aging hijack and shatter this agreement once again.

“Nothing in Biology makes sense except in the light of evolution”, said Dobzhansky in 1973, and now the statement has never been so truthful. It may be concluded that cancer is a microevolutionary process, in which the selection unit is the cell.

As Homo sapiens descended from bacteria, and bacteria are “immortal” beings (for there is no senility among them), cancerous cells from people can return to this condition of perpetual replication. This may happen because the only “purpose” of living beings, if it may be called this way, is to copy themselves.

On immortality

In Biology researches there are well known cell lines named HeLa. They are immortal, and carry an altered human genome.

HeLa stands for Henrietta Lacks, a woman who died in 1951. Scientists extracted tumor cells from Henrietta and bred them in culture medium. Nowadays, these cells sum up to tons, spread all over the world in laboratories. They caused Mrs. Lacks’s death, in a genetic takeover. Today, HeLa cells are not exactly human. Instead of 46 chromosomes, they can bear 82 chromosomes into their nuclei. Evolution and natural selection have acted upon them, so that they are particularly good at keeping their telomeres intact (if they don’t do so, they die out). If by any odds a HeLa cell produces a gamete, the different number of chromosomes prevents it from fertilizing with a human gamete.

Hence, HeLa are reproductively isolated from human species, that is to say, HeLa has turned into a new species, properly described as Helacyton gartleri. If the world were made of culture medium, HeLa would spawn itself freely and independently from researchers’s aid. Currently, from studies with very few multicellular species which seem to be rid of senility (such as the hydrozoan Turritopsis nutricula), and from telomere research, we may have some perspective of future breakthroughs on how to elongate human life span. If we manage to do to ourselves what has already been done to the worm Caenorhabditis elegans, humans will live up to about 200 years.
ReferencesHug, N., & Lingner, J. (2006). Telomere length homeostasis Chromosoma, 115 (6), 413-425 DOI: 10.1007/s00412-006-0067-3

VALKO, M., RHODES, C., MONCOL, J., IZAKOVIC, M., & MAZUR, M. (2006). Free radicals, metals and antioxidants in oxidative stress-induced cancer Chemico-Biological Interactions, 160 (1), 1-40 DOI: 10.1016/j.cbi.2005.12.009

Kenyon, C., Chang, J., Gensch, E., Rudner, A., & Tabtiang, R. (1993). A C. elegans mutant that lives twice as long as wild type Nature, 366 (6454), 461-464 DOI: 10.1038/366461a0

Lucey BP, Nelson-Rees WA, & Hutchins GM (2009). Henrietta Lacks, HeLa cells, and cell culture contamination. Archives of pathology & laboratory medicine, 133 (9), 1463-7 PMID: 19722756