29th of May

Elogio ao Hinduísmo


Há no ar uma certa obsessão por Espiritismo e Cristianismo no Brasil. Mencionemos religiões equiprováveis que também merecem atenção apesar do mero acidente de estarem longe daqui.

“O Hinduísmo engloba um conjunto de tradições culturais, sociais e religiosas que se originaram principalmente no subcontinente Indiano. Pode ser chamado de Bramanismo (ou Brahmanismo), pois é a cultura que originou do povo áriano, de cultura Brahmácharya (seguidores de Brahma, o pai, o conceito criador da trindade Hindu).”

(Fonte: Wikipédia)

“Os Hindus acreditam em um espírito supremo cósmico, que é adorado de muitas formas, representado por deidades individuais como Vishnu, Shiva e Shakti. O Hinduísmo é centrado sobre uma variedade de práticas que são meios de ajudar o indivíduo a experimentar a divindade que está em todas as partes e realizar a verdadeira natureza de seu Ser.

O Hinduísmo, como religião, é a terceira maior do mundo, com aproximadamente um bilhão de adeptos (censo de 2005), dos quais aproximadamente 890 milhões vivem na Índia. Outros países com grande população hindu são o Nepal, Bangladesh, África do Sul, Sri Lanka, Ilhas Maurício, Fiji, Guiana, Indonésia, Malásia, Estados Unidos e o Reino Unido.”

É uma das religiões mais antigas do mundo, se não a mais antiga, e em seu ambiente se desenvolveram várias práticas de medicina e filosofia, inclusive registros das primeiras cirurgias plásticas já feitas na História.

Meu elogio ao Hinduísmo tem como propósito não estimular fé nesta religião, mas mostrar que é uma religião muito melhor que as ocidentais em termos de compatibilidade com a ciência, credibilidade (de acordo com critérios de credibilidade bastante usados entre os religiosos ocidentais), e por fim farei uma modesta conclusão.

1 – Compatibilidade com a ciência

Há uma famigerada abordagem feita nas escrituras hoje por causa de sua inconsistência frente a teorias científicas. Principalmente as teorias concernentes à origem do universo, da vida na Terra e o destino de ambos no futuro mais remoto.

A abordagem a que me refiro é a interpretação de que os textos sagrados tratam de metáforas em alguns pontos.

A preocupação dos cristãos (principalmente aqueles filiados à Teologia Liberal, chamados freqüentemente de “moderados”) se direciona principalmente ao livro do Gênesis.
Diz-se, por exemplo, que os seis dias de criação não são literais, mas metafóricos para ilustrar os bilhões de anos que a Astrofísica aponta para a real idade do Universo, e o tempo que a Geologia indica que foi necessário para o surgimento das formas de vida citadas neste livro da Bíblia.

Outros pontos na Bíblia freqüentemente tratados como metáfora são a criação do homem e o Dilúvio Universal.

A Genética, bem como a Teoria da Evolução, apontam que uma espécie não pode surgir apenas com um casal. Se assim acontece, o endocruzamento obrigatório que se sucede leva invariavelmente à extinção da linhagem (e isso eu pude observar na minha própria pesquisa de iniciação científica em moscas).

O problema de compatibilidade nesses pontos com a Ciência não é muito grande para o Hinduísmo. Pois, para os hindus,

“o Universo é grande, cíclico e extremamente velho.

Os Vedas falam de um universo infinito e os Brahmanas mencionam “yugas” (eras) muito grandes. A visão Védica recorrente do universo exige que o próprio universo passe por ciclos de criação e destruição.

Esta visão cíclica se tornou parte da estrutura astronômica desenvolvida por eles e isso fez com que ciclos muito longos, de bilhões de anos, fossem considerados. Os Puranas falam do universo passando por ciclos de criação e destruição de 8,4 bilhões de anos embora também existam ciclos mais longos. Assim, na cosmologia hindu o universo tem uma natureza cíclica.

A unidade de medida usada é a “kalpa”, que equivale a um dia na vida de Brahma, o deus da criação. Uma kalpa tem aproximadamente 4,32 bilhões anos. O final de cada “kalpa”, realizado pela dança de Shiva, é também o começo da próxima kalpa. O renascimento segue à destruição. Shiva é representada tendo na mão direita um tambor que nuncia a criação do universo e na mão esquerda uma chama que destruirá o universo. Muitas vezes Shiva é mostrada dançando num anel de fogo que se refere ao processo de vida e mort e do universo.

O mais notável na cosmologia hindu, que lhe dá uma característica única, é o fato de que nenhuma outra cosmologia antiga usou períodos de tempo tão longos nas suas descrições cosmológicas.”

(Fonte : Observatório Nacional)

O Hinduísmo é superior ao Cristianismo na compatibilidade com a Ciência.
Eles não têm que dar desculpinhas furadas de interpretação de texto, podem dizer apenas que a idade do universo deles tem uma certa margem de erro.

Eles não caem no ridículo dizendo que o universo tem 6 ou 10 mil anos apenas como é possível inferir da Bíblia.

A existência do Hinduísmo data de 4000 a 6000 anos a.C., ou seja, eles já falavam e

ssas coisas muito antes de Jesus Cristo ser um ovócito dentro do ovário de Maria.

Sobre a compatibilidade com a Teoria da Evolução e a conhecida origem do homem também a partir desse processo como se verifica em fósseis na África, também com isso o Hinduísmo não tem muito problema.

Segundo o mito hindu da origem do homem, o primeiro homem foi Matsiendra . Era um peixe que ao ver a deidade Shiva executando sua dança, tentou imitá-la e o efeito foi se tornar homem.

Se é para encarar como metáfora, qual metáfora é melhor? Um peixe dançando (lembrando que a dança de Shiva representa em grande parte o próprio tempo) e virando homem, sabendo-se que a Teoria da Evolução aponta que os peixes que deram origem a nós são os Sarcopterígios; ou uma metáfora nebulosa com barro e sopro?

Ganha a metáfora mais clara. O Hinduísmo não necessita de muitos esclarecimentos se trata isto como uma metáfora.

O Hinduísmo nem mesmo precisa usar de artifícios antropocêntricos como faz o Espiritismo ao tratar da evolução biológica como se fosse um constante melhoramento destinado no passado a atingir uma espécie de pico no homem. Afinal, o peixe apenas dançou e o resultado da dança apenas surgiu, assim como o homem é apenas uma entre várias espécies que a seleção natural moldou.

2 – Credibilidade

Não são poucas as vezes em que se usa a falácia ad populum para dar credibilidade ao Cristianismo. Se muita gente acredita, então é verdade. Com isso também o Hinduísmo não tem problema, pois existem mais de um bilhão de hindus.

Perderia em número para os Católicos, mas ganharia de muitas outras correntes cristãs.

Outra falácia muito usada para dar impressão de credibilidade é o Argumentum ad antiquitatem, segundo o qual algo é verdade porque é dito há muito tempo.

O Hinduísmo provavelmente ganha de todas as religiões que ainda têm fiéis hoje no mundo, pois, como eu já disse, data de 4000 a 6000 anos a.C.

Para os que acreditam na força dessas falácias para dar credibilidade, o Hinduísmo deveria ser seriamente considerado como digno de culto.

3 – Conclusão

É bem curioso que em debates sobre ciência e religiões as pessoas se sintam tão inclinadas a ignorar religiões importantes como o Hinduísmo, o Budismo, o Confucionismo, o Jainismo, e até mesmo os animismos mais antigos que hoje não têm mais muitos fiéis, como a religião do antigo Egito, dos Etruscos, da antiga Núbia, dos Astecas, dos Maias, dos Incas…

O número de religiões é assustadoramente alto, sim. Mas o que garante que uma seja melhor que outra?

Como eu mostrei, se a ciência é uma preocupação há motivos muito bons para, por exemplo, abandonar o Cristianismo e seguir o Hinduísmo.

Será desconfiança minha ou a esmagadora maioria dos religiosos com os quais debato só seguem suas religiões porque por acidente nasceram onde nasceram, foram educados pelos pais que têm, ou toparam com algumas afirmações bonitas sem qualquer compromisso com consistência frente à natureza?

O Hinduísmo aí está para ser analisado, por que não analisar uma boa quantidade de religiões para ver se alguma merece tanta dedicação e fé?

20th of May

Livre arbítrio?


por Leonie Welberg”A questão sobre os humanos terem livre arbítrio tem sido discutida por séculos por filósofos e acadêmicos religiosos, e mais recentemente por neurocientistas. Haynes e seus colaboradores adicionaram lenha ao debate mostrando que a atividade em duas áreas corticais não relacionadas a movimento pode predizer o resultado de uma decisão motora em até 10 segundos antes que um indivíduo se torne consciente da decisão.

Voluntários foram postos num scanner de ressonância magnética funcional e foi pedido a eles que pressionassem um botão com o dedo indicador direito ou esquerdo quando quisessem. Ao longo do experimento os voluntários olharam para uma tela que mostrava uma sucessão de letras, e eles tinham que se lembrar da letra que foi apresentada na tela no momento em que decidiram qual botão apertar. Isso revelou que a maioria das decisões eram conscientemente formadas um segundo antes que a resposta motora fosse executada.

Então, os autores analisaram a atividade em diferentes áreas do cérebro durante o tempo precedente ao pressionamento do botão, usando decodificadores baseados em padrão. Esse tipo de análise pode detectar padrões-‘assinatura’ de atividade que estão associados com uma decisão particular. Os autores acharam tais padrões de atividade na área 10 de Brodmann no córtex parietal (o córtex cingulado pré-cúneo/posterior) – áreas que acredita-se serem envolvidas em função executora e auto-processamento – e os padrões previam com alta precisão qual botão seria apertado. Intrigantemente, as assinaturas apareceram até 7 segundos antes que os voluntários escolhessem conscientemente sua resposta motora. Pela razão de que acredita-se que a resposta hemodinâmica dependente de nível de oxigênio no sangue representa a atividade neuronal ocorrida por volta de 3 segundos antes, esta descoberta sugere que a atividade nas duas áreas codifica as decisões aproximadamente 10 segundos antes que elas entrem na consciência.

Padrões de atividade que foram observados na área motora suplementar e pré-suplementar aproximadamente 5 segundos antes de uma decisão ser consciente predisse seu compasso (timing), indicando que áreas cerebrais diferentes poderiam estar envolvidas na formação da intenção de fazer um movimento e na decisão de quando fazê-lo.
Embora seja difícil imaginar que nossas decisões possam ser feitas inconscientemente, essas descobertas têm implicações importantes. As pessoas podem ser responsabilizadas por suas ações se elas não se tornam conscientes de suas decisões até que elas sejam feitas? Você decide.”***Publicado originalmente em Nature Reviews – Neuroscience._O filósofo Daniel Dennett concebeu uma hipótese para o funcionamento da consciência, que pode ser lida nos livros “A perigosa idéia de Darwin” e “Consciousness Explained”.

3rd of May

Comunicação no mundo natural


Uma amiga me fez uma pergunta: “qual seria a primeira espécie a ter comunicação no planeta para você?”

Antes da resposta, precisarei de definições de trabalho que tive em mente ao responder:

1 – Comunicação é a troca de informação entre um emissor e um receptor, quaisquer que sejam essas duas entidades.

2 – Informação será definida como quantidade de “dados” (suas unidades mínimas), e dependerá da natureza da produção e leitura desses dados no emissor e no receptor. Ou seja, informação só pode ser entendida como pertencente a um sistema, um conjunto, uma população, e não faz sentido fora desse contexto.

Dadas essas definições de trabalho, vamos à resposta.

Entre células, por exemplo, existe comunicação. Uma molécula se liga a outra e provoca reações químicas – basicamente é isso. E eu acho que ainda é essa a base de todo e qualquer tipo de comunicação, aliás estou bem convicto disso (dadas as devidas correções – às vezes é uma propriedade física, como onda mecânica, fótons, que interagem com as moléculas orgânicas).

Mas quando complicamos as coisas, com sistemas nervosos, cérebros, é dificílimo detectar quando surgiu a comunicação que seria a forma mais primitiva da fala.

Em outros mamíferos, até aqueles dotados de pequenos cérebros, como os suricatos, a comunicação é bem clara, tem vocalização, e no caso dos suricatos uma vocalização diferente para cada significado: por exemplo, um certo grito significa um certo predador.

Esse tipo de comunicação deve ter algumas dezenas de milhões de anos (se foi assim também que acontecia nos primeiros primatas).

É claro que a fala como a conhecemos deve ter só entre 100 mil e 200 mil anos, e ainda não sabemos se outras espécies, como o homem de neandertal, a tinham.

A natureza, como sempre, manifesta gradações diversas, e há diferenças importantes entre espécies solitárias e espécies sociais ou gregárias. Cefalópodos como as lulas Sepiotheutis sepioidea, estas sociais, se comunicam por padrões de cores na pele. Mas também tem polvos solitários que são bem comunicativos, mas nesse caso a comunicação é direcionada a outras espécies, como o polvo mímico (Thaumoctopus mimicus) faz com possíveis predadores (Vídeo).

Então, a minha resposta não vai ser nem um pouco decisiva. A primeira espécie a ter comunicação bioquímica deve ter existido há mais de 3 bilhões de anos e era uma bactéria.

E a primeira espécie a ter comunicação dependente de um sistema nervoso deve ter existido há 500 milhões de anos, na “explosão” Cambriana, e possivelmente nem era um de nossos ancestrais. E esse tipo de comunicação deve ter surgido várias vezes, até mais vezes que a comunicação puramente bioquímica.

Existem muitos outros exemplos, como a comunicação entre cetáceos – baleias e golfinhos -, aves, lagartixas, crocodilos, cigarras, grilos, moscas (a drosófila, por exemplo, emite um “canto” vibrando as asas durante o ritual de acasalamento – e isso também acontece com mosquitos), besouros…

A fala surgiu quando a já existente emissão de som dos primatas foi unida a um cérebro cada vez mais complexo, capaz de representar o mundo em si mesmo, capaz de prever e analisar o comportamento de outros cérebros, capaz de executar experimentos mentais a partir da memória.
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Sugestão Bibliográfica: livro “O Instinto da Lingagem“, de Steven Pinker.