22nd of April

O mágico e o pedreiro


Em minha infância na cidade de Lagamar, aconteceram coisas mágicas que aquecem minhas memórias com uma sensação de conforto, saudade, e graça até.

Certa vez apareceu na cidade um circo, e junto dele veio um mágico sinistro. Ele tinha algum truque com uma vassoura encantada que se mexia sozinha e espantava as crianças com aquele terror primitivo – que agora me parece ter sido muito bom (como é bom para muitas pessoas assitir filmes de conteúdo destinado a provocar medo e susto).

Surgiu na cidade o boato de que o mágico compactuava com o demônio. Uma amiga das minhas irmãs mais velhas participou de um truque em que o ilusionista adivinhava o conteúdo de cartas lacradas; na carta dessa amiga a própria escreveu “Deus é amor”, e me contaram que esta frase desconcertou as habilidades mágicas do sinistro artista (talvez ele tenha até se assustado como um vampiro diante de um crucifixo).

Quem sou eu para estragar essas memórias acusando superstição e irracionalidade?
A mágica e o mistério fazem parte da infância.

Mas agora, se eu perdi essas sensações dramáticas, fervilhantes, e, por assim dizer, cinematográficas, o que tive a ganhar tem outro tipo de valor inestimável: é aquele valor do pedreiro que pacientemente constrói um abrigo sólido e seguro. Destruí aquele terror que me encantava quando criança, mas também me tinha como refém nas horas de desespero.

Era espetacular ouvir que dentro do redemoinho vivia um capeta que viria atrás de nós se recitássemos “pé de pato, pé de vento, vem aqui que eu pulo dentro”. E recitávamos, corríamos atrás do fenômeno atmosférico até que ele saltasse do penhasco, e ascendesse aos céus levando consigo algumas folhas rodopiantes que denunciavam sua existência até o derradeiro momento.

Agora, troquei o redemoinho por cada segundo que se atira ao nunca mais, e os mistérios são outros, como a própria natureza do tempo, mas não me causam mais aquele terror de desespero, mas reavivam o terror de júbilo daquelas mágicas.

O circo se foi, se atirou ao olvido de muitos que lá estiveram, e hoje, no mesmo lugar, se encontra um sólido ginásio poliesportivo.

Ginásio Poliesportivo da cidade de Lagamar, Minas Gerais.
11th of April

Entrevista sobre ateísmo (ou “Vira o disco!”)


O texto abaixo foi retirado da comunidade Debates Polêmicos do Orkut, em que os moderadores gentilmente me convidaram para uma entrevista com o assunto ateísmo.

Uma parte das minhas respostas, principalmente no final, já consta neste blog. Resolvi republicar esta parte sem alterar o texto da entrevista, primeiro porque não quero ter a impressão de estar manipulando um evento passado (embora eu tenha retirado pequenos trechos em que não há argumentação), segundo porque creio que a integridade do texto garante a compreensão de minha opinião sobre alguns assuntos que ainda não tratei de forma adequada neste blog (como ética, por exemplo).

Portanto, apesar do título alternativo que sugeri (“Vira o disco!”), há coisas inéditas para o blog.

Me esqueci de dizer na entrevista (e também antes) que o antropomorfismo é uma estratégia inútil para estudar o universo porque dá demasiada importância a uma fração cosmologicamente ínfima do universo – o que logicamente implica que as conclusões antropocêntricas e antropomórficas têm alta probabilidade de serem falsas.

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CONVIDADO ESPECIAL: ELI VIEIRA DEBATE O ATEÍSMO

Eli: Primeiramente, agradeço o convite cordial que me foi feito. Tenho o Adriano em grande consideração.
Desde que entrei na comunidade dei uma olhada em alguns tópicos, e gostei do nível da discussão. Minhas sinceras saudações a todos os membros.

Vamos às respostas.

Moderadores: Eli, obviamente a primeira pergunta é a pergunta título do tópico: é o ateísmo uma nova forma de religião?

Eli: Se por religião se entende uma manifestação cultural consensual e coletiva, voltada para uma origem distinta, não. O ateísmo pululou em mentes diversas ao longo da história, sob diferentes influências culturais circundantes, diferentes contextos e diferentes trilhas de argumentação. Houve convergência de várias partes. E também teremos o problema da definição do ateísmo, que trataremos mais adiante.

Exemplos de mentes que atingiram o ateísmo independentemente são Epicuro (com reservas), Bertrand Russell, Feuerbach, e alguns clérigos anônimos. Acredito que existam ateus em todas as culturas, que atingiram essa forma de pensar por si mesmos, mas que geralmente se mantêm em silêncio ou se abstêm de qualquer interferência (o que de certa forma é até admirável).

Se por religião entende-se um modo de explicar o universo que nos cerca ao máximo possível, e um modo de conduta que resulta dessa cosmovisão, sim, o ateísmo é isso.

Se analisarmos as cosmogonias (ou explicações enderaçadas à natureza que visam mais que as origens), veremos que invariavelmente são confeccionadas racionalmente, empiricamente e emocionalmente. Religião foi por muito tempo a “Ciência do passado”, principalmente no Ocidente, e em civilizações como as Mesopotâmicas, Ameríndias e Africanas.
Creio que no Oriente coisas como o Budismo, Taoísmo e Confucionismo não funcionavam dessa forma (o que quero dizer como “Ciência do passado” é tão somente que essas religiões tentavam explicar a natureza), tendo como maior prioridade a conduta.
Também neste aspecto o ateísmo se assemelha às religiões: é feito de racionalidade, empiria e influências emocionais.

Mas, creio que diferente de todas as outras religiões, o ateísmo é o único em que o aspecto emocional é diminuído – ou mesmo, inicialmente, negativo. Afinal, ninguém acha mais confortável um Universo sem um Deus que se importe com o que fazemos no dia-a-dia, nossa sobrevivência após a morte, e que seja o propósito último de coisas que parecem ser manobradas pelo acaso.

Sim, ateísmo pode ser doloroso no começo. Mas pode se tornar uma coisa inspiradora, e, principalmente, que nos bota no nosso lugar e nos obriga à humildade. Nenhuma outra forma de pensar leva o ser humano a uma posição tão próxima do húmus (palavra com a mesma raiz de “humildade”).
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Moderadores: A crença, através da religião, sempre traz parâmetros de moral e preceitos de conduta na sociedade. Sem possuir tais parâmetros, não estariam os ateus mais propensos à imoralidade, à contravenção e ao crime?

Eli: Não, de modo algum.
Entretanto, isso é crença minha. Seria algo muito difícil de analisar. Há estatísticas mostrando que o número de ateus nas prisões americanas é bem inferior ao número de religiosos.

Não duvido que existam pessoas que, uma vez convencendo-se da veracidade do ateísmo, sofram um declínio de senso de moralidade e respeito por leis. Mas isso pressupõe um contato primordial com religião, não seria “culpa” do ateísmo.

Não duvido, também, que existam pessoas de índole deplorável que só não cometem crimes por medo das leis religiosas, como as cristãs que ameaçam sofrimento eterno. Conhecemos, muitos de nós, a dor de uma queimadura com alguns segundos e minutos de duração. Os convido a imaginar a extensão dessa dor a não um ano, dez anos ou um século, mas por toda a eternidade. Sem direito a eutanásia.

É por isso que acredito que o senso de moralidade que devemos buscar tenha de estar desvinculado, ao menos em parte, de nossas fés ou cosmovisões.
Não se deve confiar na Bíblia, no Corão, no Imperativo Categórico, nas leis utilitaristas, ou em qualquer outra lei imutável para a conduta moral.

Boas atitudes éticas surgem das pessoas que foram encorajadas a ter empatia, principalmente na infância. De pessoas que vêem a humanidade como um todo indivisível em “ilusões” como nações, territórios ou etnias e outras formas de discriminar que geram o grupo do “nós” contra o grupo dos “eles”, tem de ser entendido que eles também somos nós. Sim, há nações e há etnias, mas isso não vem antes de haver uma Humanidade.

Mas há risco na empatia também.

Kevin Carter era um fotógrafo que esteve na África na década de noventa, e visitou o Sudão na ocasião de uma grande carestia da população. Carter tirou em 1993 uma foto de um urubu olhando atentamente para uma criança quase morta de fome:

http://pinguy.infogami.com/blog/vwm6

Em 1994, após ser premiado pela foto, Carter se matou. Não suportava viver com estas memórias.

Não estava errado em sentir empatia por aquelas pessoas, mas nada resolveu tirando sua vida, perdeu as esperanças, e isso é lamentável.
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Moderadores: Uma vez que seja impossível determinar a origem do universo, como um ateu pode descartar que Deus seja o responsável?

Eli: Um ateu que pense como eu não descarta nenhum Deus em absoluto, não em última análise, mas probabilisticamente. Explicarei melhor se necessário. Em poucas palavras, os deuses são apenas improváveis, assim como Papai Noel (a propósito, feliz Natal a todos!) e o Curupira.

Primeiro, precisamos tirar a falsa impressão, implícita na pergunta, de que há consenso quanto a que Deus estamos nos referindo. Seria o da Bíblia, ou o que é a Causa Primeira, ou outro da natureza de deuses alheios aos grandes monoteísmos?

Existe uma alegação amplamente espalhada de que todas as religiões falam do mesmo deus. Não é verdade.

Judaísmo, Islamismo e Cristianismo são monoteístas por que? Porque todas são derivadas de um monoteísmo ancestral. É uma condição ancestral em comum entre elas, o que na Filogenética (que trata de seres vivos), chamamos de plesiomorfia.

Uma plesiomorfia não é uma característica útil para ver diferenças entre grupos atuais. Ou seja, o fato de judeus, muçulmanos e cristãos acreditarem num deus único NADA diz a respeito das particularidades de cada um.

A alegação de unidade entre religiões só seria válida se as três religiões (e as outras) tivessem desenvolvido independentemente esse dogma, o que não é o caso.

Quanto ao objetivo da pergunta, de como eu descartaria “Deus”, eu proponho duas abordagens: a empírica e a metafísica.

Comecemos pela empírica. Vou usar o termo “Deus” como referente a todas as entidades já propostas pelas religiões. Mas, como ex-católico, essa definição coindicirá mais com o Deus católico. A abordagem empírica demandará algum conhecimento dos leitores sobre a Teoria da Evolução.

Deus é ontologicamente improvável porque características atribuídas a divindades até hoje partiram direta ou indiretamente de antropomorfismo.
Até mesmo o conceito básico de a divindade possuir inteligência, ou capacidade criativa, é um antropomorfismo, porque a inteligência criativa a que temos acesso e conhecimento é apenas a inteligência humana (é claro que outros vertebrados podem apresentar inteligência criativa notável, mas por comparação com o humano ignorarei respeitosamente este fato).
A inteligência e capacidade criativa humanas estão fundamentadas, pelo que se pode inferir de todas as pesquisas psicológicas e neurocientíficas, no cérebro.

Não há motivo para não atribuir o surgimento do cérebro humano à ação da evolução, não importa se exclusivamente pela seleção natural, ou por outros mecanismos evolutivos como a seleção sexual. Não há qualquer outra forma de surgimento do cérebro humano que seja tão plausível quanto a evolução. Isso tem como conseqüência, também, o surgimento da mente humana por processos puramente naturais.

Baseando-se nisso, torna-se desnecessário propor que haja uma inteligência que tenha surgido por acaso no universo. Seria astronomicamente improvável, exponencialmente mais improvável que o surgimento da nossa inteligência pela evolução cumulativa.

Se há uma divindade, ela precisa ter evoluído, e é muito pouco plausível que a evolução biológica atinja algo como a onisciência, onipotência e onipresença. Muito menos a capacidade criativa de alterar ou criar o âmago da matéria e da energia.

Se em algum lugar do universo existe uma entidade super inteligente, e com uma capacidade criativa notável, é pouco provável que seja onipresente, onisciente e onipotente. Menos provável ainda que tenha a capacidade de ouvir orações de milhões de seres humanos, de respondê-las ou atender os desejos.

Mentes surgem através da evolução. Mentes perfeitas são inacessíveis à evolução.

Quanto mais poderes são conferidos a uma divindade, menos provável ela é.
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[Deus] É metafisicamente contingente (desnecessário) porque é apenas uma entre diversas possibilidades já imaginadas ou imagináveis.

O que não é contíguo ao universo físico, ao mundo em que vivemos, é inescrutável e qualquer proposta se perde num mar de possibilidades.

Como eu disse, a discordância entre as Religiões quanto à identidade ou natureza dos deuses é notável.

Tupã e Jaci não são Javé, que não é Shiva, que não é Baal, que não é Anúbis, que não é Shitala Mata, que não é Quetzalcoatl.

A multiplicidade de deuses denuncia discordância absoluta, portanto dizer que todas as religiões acreditam no mesmo deus é subterfúgio desonesto.

A causa-primeira, ou motor imóvel, ou outras formas que os teólogos encontraram de sublimar seus deuses para o intangível, não descartam a possibilidade de esta causa ou este motor ser algo não-pessoal, de natureza material/energética, que seria para o Universo o que o cimento é para uma casa.

Converge então este argumento para o anterior: é improvável que seja uma inteligência. É mais provável que seja um cimento impessoal.
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Moderadores: Alguns estudiosos preferem separar a ciência da religião e consideram as duas coisas simplesmente como água e óleo. Um exemplo é o conceituado biólogo Setephen Jay Gould. Por que cientistas como Richard Dawkins e Daniel Dennet decidiram romper com essa linha de pensamento e inauguraram o que se chama atualmente de ateísmo militante?

Eli: Porque o Universo não é água e óleo, é um só. Ao menos o que se capta pelos nossos sentidos.

Evidências científicas servem para notar até que ponto conhecemos algo. São mais úteis ainda para medir nossa ignorância.

Se alguém propõe um universo distinto, tem de nos mostrar como atingi-lo. Tem de ser distinguido de algo que se confunda com uma simples imaginação, ou delírio como diz Dawkins. Muitas vezes o universo distinto que se propõe, onde estariam deuses, fadas, anjos, espíritos (denovo a variedade e a discordância) tem um forte cheiro de ter sido criado pelo proponente, com base no que ele gostaria que o Universo fosse e não é como captado pelos sentidos (passando pelo crivo da razão).

Como diz Sagan, não se deve acreditar em algo por simples “wishful thinking” (julgar que algo é verdade porque é agradável).

E como diz Dennett, há três instâncias de se julgar se algo provavelmente existe: sua consistência lógica (muitas proposições preenchem este pré-requisito, se não a maioria), sua consistência empírica (se viola as leis da Física, por exemplo, deve ser julgada improvável) e sua consistência histórica (o que aconteceu no mundo material para que tenha surgido?).

Naturalmente, a maioria, se não todas as proposições das pessoas que discordam do ateísmo não preenchem os dois últimos requisitos.

Devo mostrar a seguir que a separação entre religião e ciência é ilusória. Isso não significa que religião e ciência são a mesma coisa e que estão conciliadas, muito pelo contrário.

Dawkins considera a maior parte das hipóteses de divindade como hipóteses científicas, e elas são mesmo!
Para Popper, a hipótese científica pode ter qualquer origem (contanto que tente explicar a natureza), e será refutada pelas evidências angariadas na observação. Não existe religião que não recorra à natureza e ao universo físico para apontar evidência para a existência de seus mitos – mesmo que esse apelo se restrinja historicamente, ou de outras formas. Ciência e Religião não estão completamente separadas como já se propôs. Também a separação dos tais NOMA de Stephen Jay Gould (Ciência e Religião como magistérios que não se sobrepõem) está fortemente refutada por Dawkins.

Vejam com que ardor a Igreja Católica perseguiu a evidência do Santo Sudário, até a exaustão. Se houvesse essa separação realmente, a Igreja Católica simplesmente contemplaria o Santo Sudário com desinteresse admirador.
Se a separação fosse verdadeira, para verificar se os milagres de Fátima são significativos e diferem de qualquer outro placebo, os cientistas devem dizer “NÃO VAMOS TOCAR NISSO, ISSO É FÉ!”

Há inúmeros outros exemplos da fome religiosa por evidências. Os muçulmanos juram que Maomé subiu aos céus, Budistas descrevem um comportamento estranho de animais frente à figura de Sidarta Gautama. Animistas, por definição, fabricam divindades prosopopaicas todo o tempo. Mongóis que cultuam Gêngis Khan como deus atribuem o sucesso bélico do líder à vontade do “Céu Azul” (captado pelos olhos, não pelo órgão da fides quae creditur descrita por Paul Tillich).
Boa parte das afirmações religiosas são sim hipóteses científicas, e como tais devem ser devidamente verificadas quando possível.

A alegação comum de que os objetos de fé são obtidos apenas através do ato de ter fé em si é uma hipocrisia.

Discorrerei a seguir sobre possíveis dogmas não-contaminados por empiria, ou seja advindos apenas da fé.

É difícil isolar a fé dos dogmas que a cercam.
Entretanto, já foram feitas tentativas na Teologia.

Segundo Paul Tillich, pode-se dividir a fé em modus operandi e alvo crido. O alvo crido é o que eu chamo de dogma.
Fé é ser “incondicionalmente tocado pelo que é verdadeiramente infinito”. É uma releitura, me parece, do argumento ontológico de Anselmo da Cantuária (que diz que Deus é algo maior do que o qual nada pode ser pensado). Só que com acréscimos psicanalíticos, e outros acréscimos.

O argumento ontológico, apesar de ter fundamentação lógica perfeita, não garante que esse “incondicional” e “infinito” é uma divindade. Garante apenas que tem de haver “algo maior do que o qual nada pode ser pensado”.

Nesse caso, se uma pessoa desenvolve sua fé apenas através do argumento ontológico (ou da causa primeira), ela poderá atribuir as características que “quiser” (que acha que são defensáveis, ou que reflete suas impressões sobre a vida, a moral e a natureza) ao incondicional, e essas características vão para o dreno da metafísica. Nisso, se o incondicional é julgado como um Deus, a pessoa constrói um “conhecimento” baseado em pura fé.

Não estou certo se tenho mais exemplos de dogmas que vieram apenas de fé sem contaminação com percepção empírica. O “Céu Azul” dos mongóis tem origem empírica, como eu apontei. Entretanto, não se fundamenta apenas no sensível como um dogma religioso. Para se constituir como dogma religioso, o “Céu Azul” precisa conter os famosos “mistérios” (que caíram no gosto dos católicos).

Mistérios nesse sentido, que são adorados por si mesmos como se trouxessem o selo “contém divindade”, têm origem na pura fé. Em outras palavras, os mongóis são “incondicionalmente tocados” pelo Céu Azul, apesar da contaminação empírica.

Mas para Anselmo e Tillich, O Céu Azul não seria suficientemente maior ou infinito, portanto é uma idolatria – e o que está acontecendo quando as “idolatrias” são denunciadas? Volatilização para o intangível. Fuga do sensível. Sublimação para o infinito.

O que Anselmo e Tillich fazem sem perceber é tornar o Cristianismo uma gordura localizada, um peso morto.

Ora, se o “Céu Azul”, ou Zeus, ou Anúbis, ou Thor, ou a Homeopatia, ou o Marxismo, ou o Ateísmo Dogmático (o que não leva em conta probabilidades e apenas afirma que Deus não existe com certeza) são idolatrias, o que impede o Cristianismo de ser uma idolatria?

Se cada um desses elementos que eu citei são dogmas advindos em alguma medida do sensível, da empiria, de evidências histórico-naturais, não deixam de ser idolatrias também coisas como acreditar em

– Ressurreição de Cristo,
– ascenção corpórea de Maria aos Céus,
– milagres de Fátima,
– comprovação científica dos milagres professada pela ICAR,
– Dilúvio Universal
– ascenção corpórea de Maomé aos Céus,
– criação especial do homem a partir de barro,
– criação especial da mulher a partir da costela,
– memória da água,
– salvação da humanidade a partir da ditadura do proletariado,

etc.

As características atribuídas ao intangível (maior, incondicional, causa-primeira) são contaminadas pela empiria na vasta maioria dos dogmas religiosos.
Portanto, ao interferir na natureza, os dogmas religiosos podem ser avaliados em princípio pela Ciência. Se não em experimentação, em inferência baseada no conhecimento científico já produzido. Na noção intuitiva de probabilidade já conhecida na Filogenética e na Historiografia.

Sou ateu porque penso que o conhecimento advindo da fé pura que citei não difere das idolatrias mais antigas.

Porque o Deus intangível é, no fundo, nada mais que uma personificação do universo (conclusão prosopopaica).

Para me resumir e parar de colar textos meus que já estavam prontos, concluo com um resumo em tópicos.

Resumindo:

– Mentes surgem na evolução e são improváveis, por isso divindades são improváveis.

– As análises “profundas” da fé feitas pela Teologia não excluem a possibilidade forte da fé ser uma mera ilusão respeitada por ter raízes profundas historicamente e biologicamente.

– Crer não é sempre ter fé, e a noção quantitativa existente nas religiões, quanto a ter “mais” ou “pouca” fé abre espaço para a ausência de fé como possibilidade real.

– A Intuição emana da Razão, ao contrário da Fé. O cientista Peter Medawar, em “Induction and Intuition in Scientific Thought” discorre mais sobre o papel da intuição na ciência como ato humano independente de fé.

– Existem ateus que têm fé na não existência de Deus. Ateus dogmáticos, e eu não sou um deles.

– Probabilidades são acessíveis à razão. Isso se dá pela intuição matemática com profundas raízes cognitivas. Sabemos “calcular” a velocidade de um carro antes de atravessar uma faixa de pedestres, e para isso não pedimos auxílio à calculadora ou às fórmulas matemáticas.

– Ninguém prova que X não existe, só se pode analisar qual é a probabilidade de X existir. Se há ou não há um sapo azul voador na Amazônia, e em que medida esta entidade é mais ou menos provável que a Fada Sininho, são coisas capazes de sofrer análise da intuição probabilística.

– O Cristianismo não é justificável como superior a qualquer outra idolatria.

– A fé por si só não garantirá que um ou outro dogma advindo dela seja superior a qualquer outro dogma.

– Os dogmas religiosos são contaminados por empiria, seja constante ou restrita ao passado, e isso permite sua análise filosófica à luz das teorias científicas.

– O ateísmo que chamo de assintótico é possível como conclusão “frouxa”. Essa frouxidão está presente em toda e qualquer conclusão, em maior grau nos dogmas religiosos, em menor grau nas teorias científicas.
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Abraços a todos. Peço desculpas pelo texto excessivamente extenso.
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Manjí: As respostas, como um todo, foram muito boas e esclarecedoras.
Mas, você acredita que com a evolução do homem, as religiões serão aos poucos abandonadas ou substituidas por crenças menos empiricas?
E se isso representa um evolução das crenças (tornando-se menos questionaveis e de maior suporte aos humanos)ou mudança psicológicas em relação as necessidades da crença?

Eli: Com evolução você quer dizer melhoramento, não é? Nada a ver com evolução biológica, você deve saber. Por isso não uso mais o termo evolução como melhoramento, mas não tem nada de errado em usar se você souber que nada tem a ver com a teoria darwinista.

Não vejo obrigatoriedade de abandono das religiões no curso da história. É claro que tenho bons motivos para acreditar que quanto mais educadas as pessoas são, menos propensas a crenças irracionais elas ficam. Mas muitas vezes as crenças irracionais dentro das religiões são substituídas por coisas mais etéreas, menos “verificáveis”, como diria Nietzsche, que fazem menos barulho neste mundo. E aí temos “religiosos” como muitos judeus que não acreditam mais na literalidade do Torá.

Então, o abandono de certos aspectos das religiões é inevitável se no curso da história houver um inexorável melhoramento em termos educativos.

“E se isso representa um evolução das crenças (tornando-se menos questionaveis e de maior suporte aos humanos)ou mudança psicológicas em relação as necessidades da crença?”
Acho que já respondi em parte. De qualquer forma, eu já falei em wishful thinking.
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Elias: Você não acha que o ateu no fundo tem um “Q” de mágoa
com a figura de Deus (pai).
que aparentemente deixou a humanidade (os filhos)
em desamparo?

Eli: Muitos têm sim. Mas, pela minha experiência, deixar de acreditar não foi brusco nem partiu de muita revolta.
De qualquer forma, não faz nenhum sentido que alguém que se declare ateu e entenda o que isso significa sinta mágoa pelo inexistente. Deve haver mais mágoa por terem tentado fazê-lo acreditar antes. Mas já conheci um ateu que na verdade era um teísta magoado pelos motivos que você expôs.
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Romulus: Qual a diferença entre ser Ateu e Agnóstico?

Eli: O ateu se sente seguro o suficiente para dizer que não acredita na existência de deus, enquanto o agnóstico pensa que é impossível saber o suficiente para afirmar alguma coisa, ou pensa que os argumentos contra e a favor são igualmente bons.
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Hypatia: Eli,

Gostei muito das respostas. Não entendi algumas partes, mas acho que deu para compreender o cerne das questões.

Bem, minha pergunta é mais pessoal.

O que você pensa sobre o conceito de Estado laico?

Digo, algumas teocracias ainda vigentes, especialmente no oriente médio, são absolutamente injustas considerando-se o momento em que vivemos e o quanto evoluimos com relação a conhecimento.

Não seria quase uma obrigação dos ateus lutar pela defesa do Estado laico em todas as sociedades?

PS: para ser justa com os povos do oriente médio, não posso deixar de comentar que os EUA, uma nação que diz ser o bastião da liberdade no mundo ocidental não deixa de ser uma quase teocracia cristã fundamentalista. Que pode ser tão maléfica e prejudicial quanto as demais.

Eli: Concordo, Hypatia (ótimo nome!).
O Estado Laico é a maior garantia de defesa de coisas como liberdade do indivíduo e livre-expressão, e de manutenção de uma sociedade saudável e plural. Por mais que essas coisas pareçam hoje ilusórias nos Estados Unidos, os fundadores desse país tinham a idéia de Estado Laico bem amadurecida e sabiam que a implicação era essa (ler “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan, especificamente um capítulo que trata desse assunto).

Se um Estado não é Laico, por mais que a religião que o controla seja virtuosa, não poderá evitar que num futuro, próximo ou distante, outra religião aspire tomar o seu lugar (gerando possivelmente guerra civil) ou que seus líderes tenham a pretensão de forçar todos os cidadãos a pensar como eles. Um Estado Teocrático, por definição, acabará excluindo minorias.

“Não seria quase uma obrigação dos ateus lutar pela defesa do Estado laico em todas as sociedades?”
Sim. E que eles não tentem impor um Estado ateu.

Sobre o Estado Teocrático do Irã, as condições lá são deploráveis. São institucionalizadas ofensas aos direitos humanos, como vista grossa a apedrejamentos, à opressão das mulheres entre outras coisas.
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Manjí: Eli, poderia explicar a “tese da complexidade irredutível dos sistemas biológicos”.
Ao que entendi diz que a evolução de Darwin é impossivel?

Eli: A tese de “complexidade irredutível” tem como referência bibliográfica mais citada o livro “A caixa preta de Darwin”, de Behe.

Em suma, é proposto que se não se pode conceber como exatamente surgiu um sistema biológico atual, tal como um olho, ou o sistema imunológico, então necessariamente tais sistemas só podem ter sido criados como estão, e por um artífice inteligente que os concebesse anteriormente em seu intelecto privilegiado.

Entretanto, nenhum dos sistemas biológicos já propostos até hoje como irredutíveis resistem de fato a uma análise filogenética, ou uma simples análise baseada em lógica e evidências.

O olho, por exemplo, já foi imaginado por Darwin como sendo um resultado de um início simples. E isso tem sido confirmado tanto pela anatomia comparada quanto pela biologia molecular.

Não mudaram muito as proteínas receptoras de luz das retinas dos animais.
Existem inúmeros animais com ocelos, verdadeiros “simulacros” de olhos, que detectam tão somente a presença ou ausência de luz. Exemplos desses são algumas planárias, e algumas estrelas do mar, entre muitos outros invertebrados.

A gradação de sistemas imunológicos de inatos para ontogenéticos está também suficientemente clara para ser analisada e indicar se de fato estamos tratando de sistemas irredutivelmente complexos. Ainda não estudei imunologia a fundo (farei neste ano), mas já defendo, sem muita sombra de dúvida, que é possível explicar racionalmente e conceber prováveis hipóteses para o surgimento deste sistema como se apresenta na nossa espécie hoje.

A disputa entre criacionistas e evolucionistas tem sido interessante porque tudo o que criacionistas têm a seu dispor hoje é a deturpação de descobertas e a fuga para as penumbras que ainda não iluminamos com o trabalho científico.

Exemplifico esta batalha neste texto, e mostro a atitude de um criacionista brasileiro famoso neste outro.
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Rafa: Os cientistas até procuraram explicar deus, mas acabaram por chegarem nas conclusões mostradas nos textos. Acho que daí sim eles passaram a ser ateus, ou então ateus mais firmes nos pensamentos.

Uma outra forma de mostrar lógica no ateísmo é a de ver o comportamento humano, e não busca pela entidade em si.
Uma das coisas mais difíceis que enfrentamos na adolescência é nos dar conta que nossos pais não estarão lá para sempre pra nos apoiar. É confortável pensar que existe uma força superior e que nos guia e nos protege. Com base nisso, é lógica a criação imaginária de uma entidade com uma força superior que tudo pode (e que está a nosso favor). E essa idéia é tão confortável que dura até os dias de hoje.

E a propósito, muitos argumentos firmes nos textos, Eli!! Muito bons mesmo!! E obrigado por colabora com a comunidade!! Todos saímos ganhando!!

flw!

Eli: Olá Rafa, obrigado.
Só uma correção: nem todos os cientistas pensam assim, nem todos são ateus (embora sim, a vasta maioria não acredita num deus pessoal). Alguns juram conseguir conciliar ciência e religião, mas não têm bons argumentos.
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1st of April

Quem mudou a Bíblia e por que? As respostas surpreendentes de Bart D. Ehrman


Por Erich Vieth, originalmente publicado em 22 de outubro de 2006 em Dangerous Intersection.

“Com que freqüência ouvimos pessoas “explicando” crenças religiosas dizendo que “está na Bíblia”, como se a Bíblia tivesse caído do céu, pré-traduzida para o inglês [ou português] pelo próprio Deus? Não é assim tão simples, de acordo com um livro impressionante escrito com clareza que deveria ser leitura obrigatória para qualquer um que alega conhecer “o que diz a Bíblia”. O best-seller de 2005 O que Jesus disse? O que Jesus não disse?, não foi escrito por um ateu barulhento. Pelo contrário, foi escrito por um camarada que teve uma experiência de renascimento [como cristão renascido] no ensino médio, e então continuou a freqüentar o ultraconservador Instituto Moody Bible em Chicago. Bart Ehrman não parou por aí, entretanto. Ele queria se tornar uma voz evangélica com credenciais que o permitiriam ensinar em instituições seculares. Foi por essa razão que continuou sua educação em Wheaton e, finalmente, Princeton, adquirindo a habilidade de ler o Novo Testamento em grego no processo.
Como resultado de seu estudo disciplinado, Ehrman cada vez mais questionou a abordagem fundamentalista que diz que a “Bíblia é a perfeita Palavra de Deus. Não contém nenhum erro.” Através de seus estudos, Ehrman determinou que a Bíblia não era livre de erros:

Temos apenas cópias cheias de erros, e a vasta maioria delas foram afastadas há séculos dos originais e diferem deles, evidentemente, em milhares de maneiras. (Página 7*).

Em Princeton, Ehrman descobriu que os erros tinham sido feitos durante a cópia do Novo Testamento através dos séculos. Nesta descoberta, “as comportas se abriram.” Em Marcos 4, por exemplo, Jesus supostamente disse que a semente de mostarda é “a menor de todas as sementes que há na terra”. Ehrman sabia que isso simplesmente não era verdade. Quanto mais ele estudava os manuscritos antigos, mais ele percebia que a Bíblia era cheia de contradições. Por exemplo, Marcos escreve que Jesus foi crucificado no dia após a refeição da páscoa judaica (Marcos 14:12; 15:25) enquanto João diz que Jesus morreu no dia anterior à refeição da páscoa judaica (João 19:14).
Ehrman ouviu muitas vezes que as palavras da Bíblia tinham sido inspiradas. Obviamente, a Bíblia não foi originalmente escrita em inglês. Talvez, sugere Ehrman, o significado total e nuances do Novo Testamento só poderiam ser compreendidos quando fosse lido em seu grego original (e o Velho Testamento só poderia ser inteiramente apreciado quando estudado em seu hebreu original).(página 6*)
Por causa dessas barreiras lingüísticas e os inegáveis erros e contradições, Ehrman percebeu que a Bíblia não poderia ser “totalmente inspirada, perfeita Palavra de Deus.” Em vez disso, parecia ser para ele um “livro muito humano”. Autores humanos tinham escrito originalmente o texto em tempos diferentes e em lugares diferentes para se referirem a necessidades diferentes. Certamente, a Bíblia não fornece um “guia sobre como devemos viver. Esta é a mudança no meu próprio pensamento que acabei fazendo, e com a qual estou agora completamente comprometido”.

Quão difundida é a crença de que a Bíblia é infalível, que cada palavra da Bíblia é precisa e verdadeira?

Ocasionalmente eu vejo um adesivo que diz “Deus disse assim, eu acredito, e está tudo resolvido.” Minha resposta é sempre: e se Deus não disse? E se o livro que você toma como se lhe desse as palavras de Deus contém na verdade palavras humanas. E se a Bíblia não é infalível em dar uma resposta para as questões da era moderna – aborto, direitos da mulher, direitos dos gays, religiosos e de supremacia, democracia no estilo ocidental e afins? E se nós tivermos de descobrir sozinhos como viver e no que acreditar, sem estabelecer a Bíblia como um falso ídolo – ou um oráculo que nos dá uma linha direta de comunicação com o Todo Poderoso. (Página 14*)

Ehrman continua a apreciar a Bíblia como uma importante coleção de escritos, mas enfatiza que ela deve ser lida e entendida no contexto da crítica textual, “um atraente e intrigante campo de estudos de real importância não só para os estudiosos, mas para todas as pessoas com interesse na Bíblia.” Ehrman acha assustador que a maioria dos leitores da Bíblia não sabe quase nada sobre crítica textual. Comenta que não é surpreendente, dado que há pouquíssimos livros sobre crítica textual escritos para leigos (ou seja, “aqueles que não sabem nada a respeito, que não têm o grego ou outras línguas necessárias para o estudo aprofundado [da Bíblia], nem mesmo percebem que há qualquer “problema” com o texto”).(Página 14*)
O que Jesus disse? O que Jesus não disse? fornece muitas bases para como a Bíblia se tornou a Bíblia. Isso aconteceu através de numerosas decisões humanas pelos séculos. Por exemplo, a primeira vez que algum cristão conhecido listou os 27 livros do Novo Testamento como os livros do Novo Testamento foi 300 anos depois de os livros terem sido escritos (página 36*). E aqueles trabalhos foram radicalmente alterados ao longo dos anos nas mãos de escribas “que estavam não apenas conservando a escritura mas também mudando-a”. Ehrman aponta que a maior parte das centenas de milhares de mudanças textuais achadas entre os manuscritos foram “completamente insignificantes, não-substanciais, de nenhuma importância real.” Em resumo, foram erros inocentes envolvendo inadvertência e erros de ortografia.
Por outro lado, o próprio significado do texto mudou em alguns exemplos. Alguns estudiosos da Bíblia chegaram a concluir que não faz sentido falar no texto “original” da Bíblia (página 210*). Como resultado de estudo dos manuscritos em grego que sobraram do Novo Testamento, Ehrman concluiu que nós simplesmente não temos palavras originais constituindo o Novo Testamento.

Nós não apenas não temos os originais, não temos as primeiras cópias dos originais. Não temos nem mesmo as cópias das cópias dos originais, ou cópias das cópias das cópias dos originais. O que temos são cópias feitas muito mais tarde. Na maioria dos exemplos, são cópias feitas muitos séculos depois. E todas essas cópias diferem uma da outra, e muitos milhares de lugares… Possivelmente é mais fácil colocar em termos comparativos: há mais diferenças entre nossos manuscritos que palavras no Novo Testamento.

Em O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Bart Ehrman esmiúça os modos em que várias passagens críticas do Novo Testamento foram mudadas ou fabricadas. São exemplos surpreendentes:A) Todos sabem a história sobre Jesus e a mulher prestes a ser apedrejada pela multidão. Este relato é apenas encontrado em João 7:53-8:12. O povo perguntou a Jesus se deveria apedrejar a mulher (a punição recomendada pelo Velho Testamento) ou ter misericórdia dela. Jesus não cai nesta armadilha. Jesus supostamente diz “aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela”. O grupo se dissipa com vergonha. Ehrman afirma que essa história brilhante não estava originalmente no Evangelho de João ou em qualquer outro evangelho. “Foi acrescentada por escribas posteriores.” A história não é encontrada em “nossos melhores e mais velhos manuscritos do Evangelho de João. Nem é este estilo de escrita compatível com o resto de João. Os mais sérios críticos textuais afirmam que essa estória não deveria ser considerada parte da Bíblia (página 65*).
B) Depois da morte de Jesus, Maria Madalena e duas outras mulheres voltaram à tumba para ungir o corpo de Jesus, de acordo com Marcos 16:1-2. Elas se encontraram com um homem de vestes brancas que disse a elas que Jesus havia se erguido e não mais se encontrava lá. As mulheres fugiram e não disseram nada mais para ninguém por medo (16:4-8). Todos sabem o resto do Evangelho de Marcos, é claro. O problema com o resto da história é que não estava originalmente no Evangelho de Marcos. Foi adicionado posteriormente por um escriba. Os acréscimos incluem todos os seguintes:
Jesus em pessoa apareceu para Maria Madalena. Ela contou aos onze apóstolos (menos Judas) sobre essa visão, mas eles não acreditaram nela. Então Jesus apareceu para os apóstolos, repreendendo-os por não conseguirem acreditar. Ele diz a eles que aqueles que acreditam serão salvos e aqueles que não acreditam serão condenados. Segue então uma passagem criticamente importante da Bíblia.

17 E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas;
18 Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.

E então Jesus supostamente ascende aos céus e se senta à direita de Deus, enquanto os discípulos saem pelo mundo para proclamar o Evangelho de maneira miraculosa.Sem as passagens acima (que, denovo, não foram escritas por Marcos) os Pentecostais perdem sua justificativa para falar em “línguas.” E os manipuladores de serpentes dos Apalaches não têm bases para suas práticas perigosas.
C) João 5:7-8 [na versão da Bíblia do Rei James, ausente nas versões mais usadas no Brasil] é a única passagem em toda a Bíblia “que delineia explicitamente a doutrina da Trindade” (que há três pessoas e Deus mas todas as três constituem um Deus uno):

Há três que prestam testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito e esses três são um; e há três que prestam testemunho na terra, o espírito, a água, e o sangue, e esses três são um.

Ehrman cita fortes evidências de que essa passagem da Trindade foi totalmente fabricada e ludibriou Erasmo por teólogos ofendidos que precisavam de apoio para sua preciosa doutrina teológica (página 81*).
– Ehrman revela outras dificuldades numerosas com a suposição popular de que a Bíblia foi transmitida perfeitamente a partir da sua versão escrita original.
Muitos crentes confiam fervorosamente na versão do Rei James da Bíblia, por exemplo. Às vezes dizem até que “Se o Rei James foi suficientemente bom para São Paulo, é bom para mim.” Ehrman aponta muitos problemas com a versão do Rei James, advertindo que “precisamos encarar os fatos”.

A [versão do] Rei James não foi entregue por Deus, na verdade foi uma tradução de um grupo de eruditos no começo do século XVII que basearam sua versão num texto grego defeituoso.(página 209*)

Então o que deveriamos fazer da Bíblia? Ehrman argumenta que as partes do Novo Testamento não são apenas coleções de palavras óbvias, auto-interpretáveis. É o mesmo problema que temos com outros documentos importantes, como a constituição.

Os textos não revelam simplesmente seus próprios significados para investigadores honestos. Textos se interpretam, e são interpretados (assim como foram escritos) por seres humanos que vivem e respiram, que entendem os textos apenas os explicando à luz de outros conhecimentos, explicitando seu significado, colocando as palavras do texto “em outras palavras”. (página 217*)

Os escribas mudaram as palavras originais do Novo Testamento colocando-as em outras palavras. Em minha experiência, muitas pessoas que selecionam o que lhes agrada nos trechos da Bíblia para determinar o que é moral estão negando completamente que não temos cópias exatas dos escritos originais. A maioria dessas pessoas se recusam a reconhecer que versões populares atuais da Bíblia contêm inúmeras discrepâncias, mesmo quando comparadas aos manuscritos mais antigos que de fato temos. E sem contar que há centenas de contradições patentes na versão em inglês da Bíblia [e nas versões em português também]. Para a maioria dos crentes, nada disso importa. Mantenham a rota! Na verdade, na minha experiência a maioria dos crentes raramente lêem o que consideram ser a palavra inspirada de Deus.
O livro de Ehrman mostra numerosos pontos problemáticos que demandam atenção mesmo assumindo que os escritores originais da Bíblia relataram precisamente os eventos descritos em seus escritos originais (quaisquer que sejam esses escritos). O elefante na sala, entretanto, é que nenhum dos autores dos Evangelhos jamais alegou ter presenciado qualquer evento que relatam. Além disso, a natureza extraordinária das alegações da Bíblia demanda provas extraordinárias que textos antigos auto-contraditórios são simplesmente incapazes de fornecer, exceto para aqueles de nós que acreditam que a Bíblia é completamente verdadeira “porque a Bíblia diz que é”.
Para todas as pessoas que continuam por aí agarrando e brandindo as Bíblias que compraram no Wal-Mart, e para o resto de nós que quer entender a história direito, O que Jesus disse? O que Jesus não disse? de Bart Ehrman deveria ser leitura obrigatória.”___
*Números de páginas se referem à edição em inglês.