20th of December

Foucault e os rótulos


Em vários assuntos, especialmente em religião, já encontrei diversas pessoas evitando serem classificadas. Tudo bem, uma vez que se tenha insegurança quanto a não saber o suficiente, é natural que se evite um “rótulo” (o que equivale a estar indeciso sobre o voto no começo de uma campanha eleitoral – algo muito saudável).

Mas algumas delas mostravam uma compreensão acurada do assunto, o que mereceria uma classificação. Mesmo que não tivessem opinião, existem classificações ou rótulos para descrever este estado mental também – como cético, agnóstico.

Por que então tanta aversão a rótulos? Isso virou um clichê em papos-cabeça de mesa de bar, quase um chavão batido.
Percebo certa injustiça (e, confesso, a frivolidade dessa opinião me incomoda) e me proponho a defender os rótulos.

Diz-se, por exemplo, que não se deve rotular porque cada pessoa “é um universo distinto”.
Mas só por isso?

Eu e Drauzio Varella somos universos distintos, mas mesmo assim podemos receber o rótulo “brasileiros”.

Eu e Francisco Quiumento somos universos distintos, mas recebemos de bom grado o termo “evolucionista”, e o rótulo “ateu”, assim como Drauzio Varella.

Ser universo distinto não justifica uma aversão por “rótulos”.

Se não se escolhe um rótulo, é porque não se tem opinião firme sobre nada – o que infelizmente aparenta ignorância demais. Ou então, é porque se quer evitar debate sabendo antecipadamente que não se conseguirá defender uma dada opinião.

Se seguirmos o conselho de abandonar rótulos, não sairemos muito do lugar. Se eu não posso classificar minha opinião em uma categoria, ou numa palavra só que sintetize o que penso sobre determinado assunto – que é o rótulo – será muito difícil que se estabeleça uma comunicação se eu tiver que explicar tudo desde o princípio para cada novo interlocutor.

Rótulos servem para isso, entre outras coisas. Subestimam a totalidade de uma pessoa? Sim, se têm a pretensão de explicar todas as suas facetas. “Brasileiro” não explica todas as minhas facetas, apenas diz onde nasci, e pode prever por exemplo com que tipo de coisa eu já entrei em contato.

Mas se uma pessoa resolve tomar o rótulo “brasileiro” como se dissesse que eu adoro futebol, esta pessoa estaria redondamente enganada, pois eu sou quase que completamente indiferente a esse jogo.

O problema do rótulo é a interpretação a respeito dele que foge do escopo do rótulo. Se sou ateu, não significa que como criancinhas no jantar, não significa que sou imoral, e não significa que sou incapaz de amar.

O problema do rótulo não é ser classificado por ele, e sim não compreendê-lo.
Não é evitando ser classificado que vou conseguir fazer as pessoas entenderem minha opinião.

Evitar rótulos pode ser de motivação puramente emocional, e nesse caso é compreensível e ninguém deve pisar no calo.

Uma pessoa que pode exemplificar a aversão por rótulos é Michel Foucault (1926 – 1984), um não-confesso filósofo.

Em “Verité, pouvoir et soi.” (entretien avec R. Martain, Université du Vermont, 25 de octobre 1982.Traduzido a partir de FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. Paris:Gallimard, 1994, vol. IV, pp. 777-783, por Wanderson Flor do Nascimento.), eis a resposta de Foucault a uma pergunta:

– Se tem colado em você muito regularmente o rótulo de “filósofo”, mas também de “historiador”, de “estruturalista” e de “marxista”. Sua cátedra no Collège de France se intitula “história dos sistemas de pensamento”. O que isto significa?

“Não penso que seja necessário saber exatamente o que eu sou. O mais interessante na vida e no trabalho é o que permite tornar-se algo de diferente do que se era ao início. Se você soubesse ao começar um livro o que se ia dizer no final, você crê que teria coragem de escrevê-lo? Isso que vale para a escrita e para uma relação amorosa, vale também para a vida. O jogo vale a pena na medida em que não se sabe como vai terminar.

Meu campo é a história do pensamento. O homem é um ser pensante. A maneira como ele pensa está ligada com a sociedade, a política, a economia e a história e também está relacionada com categorias muito gerais, olhares universais e com estruturas formais. Mas o pensamento e as relações sociais são duas coisas bem diferentes. As categorias da lógica não estão aptas a dar conta adequadamente da maneira que as pessoas pensam realmente. Entre a história social e as analises formais do pensamento há um caminho, uma pista – bem estreita, talvez – que é o caminho do historiador do pensamento.”

O trecho em negrito me lembrou Wittgenstein. Mas Wittgenstein também denunciava a superfície sem atrito, escorregadia, que o uso distorcido das palavras pode se tornar na filosofia. “Abaixo a tergiversação”, diria ele.

Se Foucault acredita mesmo em abandonar completamente os rótulos, está criando para si seu próprio “jogo de linguagem” (termo de Wittgenstein), e está se isolando – o que não é raro na história da filosofia.

Mas eu sou do time dos rótulos, sou do time dos que não querem entrar nas torres de marfim, querem se misturar ao resto, aos outros rótulos, e no fim, meu rótulo será uma colcha de retalhos e não fará diferença tê-lo ou não tê-lo como um grão de areia em meio a um deserto. Mas se eu não tenho meu rótulo, sou um grão de areia mais igual a todos os outros, e não posso ser destacado para um olho que procure ao acaso.

Enfim, melhor que abandonar os rótulos é depurá-los. Foucault não pode ter a arrogância de se ver livre dos rótulos, se ele não os quer, vão dá-los a ele para compreendê-lo.
***

OUTROS ERROS DE FOUCAULT
________________________

Os comentários abaixo se referem à seguinte entrevista de Foucault:
http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/amitie.html

Me parece que Foucault concorda com os sexólogos que vêem a amizade entre duas pessoas do mesmo sexo como “homoerótica”.

A teoria da conspiração de que as instituições modernas lutam para extinguir a amizade é absurda. Só se for lá na França.

Das conversas que tenho com meus amigos homossexuais, não percebi que eles tratem amizades e parceria romântica como a mesma coisa. Me parece que entre eles a distinção é exatamente a que existe também nas relações heterossexuais (ou heteroeróticas se amizade entre pessoas de sexos diferentes também pode ser tratada dessa forma).

Não vejo razão alguma para considerar que a amizade está sendo atacada, e nem vejo razão para associar a amizade nos tempos antigos a relações eróticas em que não importava se existia sexo ou não.

Não duvido que duas mulheres, por exemplo, com tendências homossexuais possam desenvolver uma forte amizade para se manterem conectadas apesar de sua “caretice” de se fingirem heterossexuais.

Mas se Foucault generaliza isso, está indo longe demais e está escorregando no chão não-áspero, ou como se diz vulgarmente, tá viajando na maionese.

Amizade para mim é aquela de Epicuro, em que duas pessoas simplesmente se admiram mutuamente, ou têm idéias parecidas, ou querem anular o tédio de terem de se relacionar com as pessoas só por razões sexuais, profissionais ou de outras conveniências sociais.

Como diz Arnaldo Jabor em um texto que virou música da Rita Lee, “amor sem sexo é amizade”.

9th of December

Analogias



A ciência é um cachorro imortal.

O dono costuma achar que o controla enquanto o possui, e que o animal vai sempre se curvar aos seus caprichos. É um cão leal e obediente, mas tem algo de misterioso e independente.
Quando o dono antigo morre, o cachorro imortal vai para um dono novo, e lá o cão vai ter alimento, conforto e fará as tarefas que o dono quiser.

O cão imortal está sempre mudando a pelagem, mas sua anatomia interna continua basicamente a mesma. Quando a tarefa requisitada pelo dono ameaça a vida do cachorro imortal, o canino se recusa a executá-la.
Se o dono tenta forçar o cachorro a realizar a tarefa impossível, o canino foge de casa. O dono, frustrado com a fuga do cãozinho imortal, pode substituí-lo por cães mortais, lobos ferozes, gatos desobedientes, pássaros impossíveis de se capturar, mas nunca consegue um animal tão útil quanto o cão imortal.

Mas o cachorro imortal também comete travessuras contra o dono.
Sem querer, ao abanar o rabo, derruba e estilhaça louças finas que não tinham utilidade nenhuma mas embelezavam a casa. As louças finas são os dogmas religiosos.
Na calada da noite, o cãozinho mata as galinhas que estavam sendo cuidadas há meses. As galinhas são as hipóteses formuladas com todo o cuidado e carinho, mas que não sobrevivem à mordida do cão imortal.

O cachorro imortal não ama nem odeia o dono, mas faz qualquer tarefa que o dono quiser contanto que a tarefa não ameace sua própria vida (pode até ameaçar a vida do dono, mas não a sua própria). O cão pode ser usado para o bem ou para o mal, mas nunca para mudar sua anatomia interna básica, nem para achar sempre o que foi esperado em vez do que é capaz de encontrar com seu faro fino.

Uma vez que o dono tenha morrido, ou que o cachorro imortal tenha fugido de casa, este pode ou não achar um dono novo. Se não acha um dono novo, pode hibernar por tempo indeterminado. Pacientemente espera, até que um dono novo se desocupe de sua coleção de louças finas, e de sua criação de cães mortais, gatos, lobos, pássaros ariscos e galinhas despreocupadas. Espera até que o novo dono o encontre e o considere o bicho de estimação ideal por causa de toda a sua força e beleza perenes.

Um dono do cachorro imortal pode ser uma pessoa, uma civilização, uma instituição ou uma corrente filosófica.
***

A religião é uma velhinha simpática.

Uma velhinha carinhosa, acolhedora, sorridente e bonitinha. Nos recebe em sua casa, nos faz guloseimas apetitosas, e adora uma conversa acanhada e superficial.

Falar ou permanecer em silêncio não faz muita diferença para a visita, o importante para a velhinha é que a visita retribua o sorriso, elogie a comida e ouça o que a velhinha diz balançando a cabeça afirmativamente. A velhinha adora falar, conta muitas histórias e sempre tem conselhos a dar – e muitos conselhos se parecem com ordens.

A velhinha é solitária ou tem pouquíssimas amigas também velhinhas parecidíssimas com ela.
E entre elas adora falar mal de outras velhinhas que são diferentes – às vezes as condena ferozmente, às vezes se refere a elas com eufemismos maliciosos num tom aparentemente amigável.

Se a visita contraria a velhinha, no mínimo será convidada a se retirar pela anfitriã, que fará cara feia. Se a vizinhança não estiver olhando, a velhinha contrariada pode se voltar contra a visita com uma faca de cozinha na mão. E a velhinha não pensará duas vezes antes de ferir ou até matar a visita insolente.

A velhinha morre, e com ela morrem suas últimas visitas, mas ninguém chora sua morte. Afinal, sempre haverá outras velhinhas, parecidas ou diferentes da defunta, mas sempre oferecendo guloseimas, comida deliciosa porém não muito saudável, e uma agradável conversa superficial abundante em conselhos e histórias explicativas para qualquer coisa.

Por mais amáveis que sejam, as velhinhas nunca confiam em nenhuma outra velhinha, mesmo que seja uma amiga. Todas as velhinhas são viúvas que desejam reencontrar seus maridos. E para elas desejar é poder, e desejo é verdade. Os maridos falecidos são uma constante na conversa das velhinhas, e elas falam deles com uma nostalgia contagiante. Mas nenhuma delas tem certidão de casamento para mostrar, nem qualquer coisa que descarte a possibilidade de elas terem sido na verdade solteiras a vida inteira.

Para que suas vidas tenham sentido, as velhinhas tentam controlar as vidas de seus visitantes, e para isso podem viciá-los em guloseimas. Tentam convencer suas visitas de que não há velhinha melhor nem guloseima mais gostosa em todo o mundo, o que convence a maioria dos visitantes a ensinar seus filhos a visitar exclusivamente sua velhinha de preferência.

Cada velhinha conta uma história diferente, e velhinhas amigas contam histórias parecidas. Mas nenhuma velhinha filmou sua história acontecendo, e nenhuma história é isenta de ser afetada pela senilidade da velhinha.

Velhinhas não gostam muito do cachorro imortal, pois são fabricantes de louças finas. Procuram evitá-lo ou até mesmo eliminá-lo.
***

“Obit anus, abit onus.”
Schopenhauer