23rd of November

Preto, branco, e tons de cinza – o caso do racismo que não parecia racismo


Como estou na Universidade de Brasília, que, se não me engano, foi pioneira na implantação de Cotas para negros, vou colar aqui uma discussão travada num grupo de emails do Centro Acadêmico de Biologia (Grupo CABio no Yahoo!) sobre um incidente que foi noticiado nacionalmente na TV.

O incidente ao qual eu me refiro foi o incêndio no quarto dos africanos.
Relato da Secretaria de Comunicação da UnB:

“Na manhã de 28 de março de 2007, comunidade da Universidade de Brasília iniciou suas atividades assustada com a violência sofrida por estudantes africanos moradores da Casa do Estudante Universitário (CEU) na madrugada anterior. Eles acordaram por volta das 4h com as portas de seus alojamentos incendiadas e com muita fumaça no interior dos quartos. Grande parte deles escapou das chamas saindo pelas janelas dos apartamentos. O fogo atingiu quatro apartamentos. A primeira medida tomada pela UnB foi acionar as polícias Civil e Federal e remover as vítimas da CEU.”

Um ou dois dias após o incidente, certos estudantes saíram fazendo barulho pelo Campus protestando contra “racismo”. No dia 29 de março, apareceu no Grupo CABio uma mensagem com o título “TERRORISMO NA UNB“. Eu me recusava a aceitar a correlação automática que fizeram entre racismo e o atentado, e a classificação que fizeram do atentado como “terrorismo”.

Sugeri
que o autor do email estaria sendo dramático demais, como os outros estudantes que fizeram o protesto que vi em frente ao Restaurante Universitário (RU), ao que ele respondeu ” Sim Eli, estou sendo dramático sim. Mas acho que a situação exige que sejamos dramáticos”. A discussão seguiu assim (email meu):

“OK, seja dramático. Quanto a isso, só posso emitir minha humilde opinião de que a dramaticidade é o limiar da irracionalidade, e a irracionalidade tende à interpretação deturpada dos fatos. Da mesma forma alguns moradores da CEU (Casa do Estudante Universitário, onde aconteceu o incêndio) poderiam declarar “a resistência à socialização dos africanos da CEU vem de longa data…”.

É o que vi alguns moradores afirmarem, e palavras assim merecem tanto crédito quanto o que foi dito sobre os africanos terem de enfrentar a animosidade injustificada dos outros moradores há tempos. Não vou entrar no mérito da questão, é impossível saber quem tem razão, e é possível mesmo que seja um mosaico de razão entre as partes.

Terrorismo não é qualquer ação deletéria de um grupo. Este grupo precisa estar filiado a um rótulo particular (nazista, muçulmano) que é a suposta antítese de um rótulo-alvo (judeu, cristão), e as pessoas sob este rótulo-alvo muitas vezes não pertencem verdadeiramente a ele, até porque a classificação do terrorista é obtusa e obscura para seus próprios fins. Não há razão para achar que na UnB existe um grupo de pardos (como o suspeito que você citou) ou de quaisquer pessoas filiadas a uma ideologia particular que vise o contrangimento dos negros e/ou estrangeiros. Mas se houver, não duvido que seja uma pequena célula de tolos baderneiros confusos, que é diferente de uma organização terrorista.

Também não vi consistência na conclusão apriorística de que o atentado foi racista. No dia do ataque alguns já saíram dizendo “vem gritar conosco contra o racismo porque botaram fogo nos apartamentos dos africanos”. Por que se encontra esse tipo de lógica irracional na UnB? Foi aí que liguei o acontecido às cotas. Penso que elas têm responsabilidade na criação de tensão que leva certas pessoas a pensarem que se um negro sofre alguma coisa na UnB só pode ser resultado de racismo. (Veja bem, não estou falando que fizeram o atentado por causa das cotas!) Por isso acho que a primeira manifestação (que vi no RU) só pode ter sido irracional e crédula. Até aquele ponto nada havia sido apurado para corroborar a tal conclusão, e acho que ainda não há. Se houver, ou quando houver, quero ser informado, pois serei um defensor passional da ação contra o preconceito no caso se as evidências apontarem para ele.

Discriminar é separar, segregar, classificar. Vejam se há homogeneidade suficiente entre as etnias africanas para jogá-las num balaio e chamar todos de negros. É uma classificação inútil baseada num aspecto morfológico simplório. Eu sou um mestiço, mas antes disso, sou um cidadão que merece tantos direitos quanto os outros. Nunca vou me engajar em qualquer programa para assistência de mestiços, e pouco me importa se o IBGE me classifica como branco, mestiço, pardo ou coisa assim. Me importa é se vão se fazer algo pelos estudantes pobres, não interessa a morfologia deles. Sinceramente, Eli”

Apareceu então um texto de um estudante de Relações Internacionais, disponível na íntegra neste link.
Eis minha resposta a este email, citando trechos do aluno de REL em amarelo:

“Novamente a lógica distorcida. Denovo a afirmação de que se foram só os apartamentos dos africanos atacados isso significa que o que eles têm em comum como vítimas é só a cor da pele, e que essa é a única característica que têm em comum que foi alvo dos que fizeram o ataque. Não é. A hipótese de xenofobia é sim tão plausível quanto a de racismo, se não melhor.

“Novamente o racismo aparece como um tabu insuperável, procuram-se outros motivos que explique o racismo, e agora o da xenofobia, tudo com o intuito em negar o fato de sermos racistas.”

Que FATO é este? Eu não nego que existe o interesse de negar cegamente que existe racismo, até por ingenuidade, e às vezes por interesse ideológico também. Também me pergunto por que é que há esse interesse de dizer que somos todos racistas e que isso é um fato.

“de etnia negra” – e novamente a simplificação da heterogeneidade dos povos africanos em favor de uma classificação do senso comum nem um pouco criteriosa. Não se devia usar o senso comum arbitrariamente como régua de criação de políticas públicas também.

“Os movimentos sociais que defendem as cotas e outras medidas afirmativas para os negros, indígenas e mulheres precisam se valer de políticas que assegurem a identidade destes grupos, já que são elas que, de alguma forma, por causa do preconceito, do racismo, da xenofobia e afins, os impossibilitam de fazerem jus aos mesmos direitos universais a que poucos têm acesso.”

Assegurar a identidade não precisa ser segregação. Uma vez vi um cartaz de um movimento negro com citações de vários escritores em defesa da igualdade étnica. Nenhum dos escritores, até onde sei, era não-negro. Será que esse tipo de segregação está mesmo ajudando a identidade de alguém? O movimento feminista chegou a extremos tais que provocam até risos. Afirmou-se até que a Mecânica dos Fluidos é machista nas suas teorias. Em vez de ficar fazendo barulho irritadiço, eu aconselharia um fomento maior à socialização, e um pouco mais de estudo sobre o que é pertencer a uma etnia afinal, ou até mesmo o que é pertencer a um sexo, o que é pertencer a uma nação.

“mas são os veículos pelos quais nosso racismo jogado pra debaixo do tapete acha para se locomover entre nós disfarçadamente, através da pecha de discurso lógico e racional, nunca racista.”

O que posso concluir do trecho acima é que o racismo é uma força etérea, uma entidade sobrenatural, quase um demônio, e vaga entre nós sob diversas formas, e é capaz até de possessão ideológica. É muito comum em debates demonizar a opinião “adversária”, transformá-la num boneco de Judas que fica mais fácil de ser surrado.
O que muito pouca gente quer é analisar os fatos com um pouco menos de paixão e um pouco mais de ceticismo. Daqui a pouco vou ler respostas a este email (se é que alguma aparecerá) ao estilo “ideologia X, ame-a ou deixe-a”.
Ou “se não está comigo está contra mim”. Nesse caso eu abraçarei de bom grado o rótulo e sacrificarei alguns bodes ao meu racismo etéreo que se esconde no âmago mais profundo do meu epitélio intestinal. Esperançosamente, Eli”

Eis que a Polícia Federal encerrou o caso o tratando como XENOFOBIA, e não Racismo.

Se há algo que pode ser aprendido deste caso, é que tanto as cotas quanto o racismo cassificam as pessoas em PRETO e BRANCO, ignorando, para seus próprios fins, inúmeros e problemáticos tons de cinza.

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Post Scriptum
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A seguir uma resenha por mim apresentada à disciplina “Evolução Humana”, no primeiro semestre de 2008, na Universidade de Brasília.

Diz respeito a um artigo “científico” do século XIX tipicamente racista:

“On the Skin, the Hair, and the Eyes, as Tests of the Races of Man”, de John Crawfurd (Transactions of the Ethnological Society of London, 1868)

Acertadamente, Crawfurd identifica grande dificuldade de classificar grupos humanos com base apenas na coloração da pele. Entretanto, paradoxalmente, o autor realiza uma incessante descrição obtusamente subjetiva dessa característica morfológica, sugerindo apenas no final que raças podem ainda ser defensáveis apesar das dificuldades. Usa termos como marrom, marrom-amarelado, marrom-avermelhado, vermelho, marrom-claro, preto, amarelo, e – o que é de pasmar – “fair” (que significa tanto “claro” quanto “belo” no inglês); apesar de admitir que existem problemáticas gradações de coloração em cada população, e se exime de propor uma classificação objetiva – então como sustentar tantas afirmações (por exemplo, de que “esquimós são tão escuros quanto malaios”)?
O mesmo, neste trabalho, é descrito com alguma variação em padrões quanto à textura e cor do cabelo, posição dos olhos, e distribuição de pêlos pelo corpo e barba. Ainda critérios com alto grau de subjetividade, que não são fundamentos sólidos para apoiar as afirmativas e conclusões de Crawfurd (nada garante que não existam cabelos do tipo “lã de carneiro” também entre europeus, além de africanos como alegado).
O autor declara a inexistência de evidências para uma “raça nativa preta ou marrom” habitando no passado a Europa. Isso o tempo pôde curar, com a moderna Genética de Populações aplicada à Evolução Humana. Mas, para evitar a conclusão de parentesco entre brancos e negros, o autor alega também que não há fundamento nenhum para acreditar nisso, o que já está desatualizado para seu tempo, pois já estava publicado o “Origem das Espécies” – portanto, bases poderiam apoiar a hipótese de ancestralidade comum e habitação antiga de negros na Europa, por mais desacreditada que fosse.
Um erro crasso de Crawfurd, que também não pode ser justificado pela época em que o trabalho foi escrito, é classificar tanto as supostas raças humanas quanto outros animais em “superiores” e “inferiores”. O próprio autor entra em contradição – haveria uma única raça ou várias raças dentro da Europa? E, novamente, como acreditar na palavra de Crawfurd sobre um povo ser mais escuro que outro, quando o próprio admite que é difícil propor um método objetivo de classificação que distinga uma “raça” da outra?
A asserção de que os ameríndios são predominantemente homogêneos na cor da pele, dos nativos da Terra do Fogo aos Esquimós (Inuits), é enormemente irresponsável, mesmo de um ponto de vista subjetivo. Crawfurd parece ter feito grandes conclusões a partir de amostras viciadas, e pretende mostrar que há maior heterogeneidade entre os povos da Europa – provavelmente porque foram os povos em que ele pôde demorar-se mais em observar.
Além disso, Crawfurd faz conclusões pouco parcimoniosas e demasiado crédulas sobre, aparentemente, dados escassos, quando afirma que não há relação entre cor da pele e incidência de luz solar. Embora a relação não seja perfeita, ela existe (e poderia ser testada pelo autor), e Crawfurd não tinha evidências suficientes para dispensar esta hipótese com tanta segurança quanto foi demonstrada.
Crawfurd erra também em estimar o futuro. Proclama que o problema de entender a distribuição de cores de pele é inescrutável, também sem boas razões.
O exemplo usado do leão e do tigre poderia ser mais desenvolvido pelo autor. Afinal de contas, mesmo no século XIX não seria difícil ver que é muito difícil que leão e tigre se intercruzem, enquanto o cruzamento entre as “raças” humanas acontece e é viável.
Se a natureza distingue “menos definitivamente” as “raças” humanas por cor, não seria simplesmente porque não há raça humana, apenas polimorfismo morfológico de uma espécie homogênea? Crawfurd evita este raciocínio, o que é lamentável para uma mente que deveria estar aberta à típica prospecção científica já comum no século XIX.
21st of November

Duelo com Olavo de Carvalho


No dia 30/06/2006 elaborei o seguinte abaixo-assinado na internet:
“Pela refutação das imposturas intelectuais de Olavo de Carvalho ao exibir sua ignorância sobre a Ciência.
À imprensa brasileira:

O colunista Olavo de Carvalho, que se diz filósofo, trava uma batalha em seus artigos contra o conhecimento científico, especificamente contra a evolução biológica.

O colunista não parece estar minimamente credenciado ou capacitado para falar de ciência. Mas todavia o faz, e levianamente. Age de má fé ao dizer coisas como

“o evolucionismo mistura pedaços de boa ciência com o apelo quase irresistível do ódio anti-religioso, portador de ofertas sedutoras como a liberação sexual, o casamento gay, a satisfação de todas as exigências do feminismo enragé e a distribuição estatal de drogas para os aficionados.”

“Quando Darwin ainda não existia nem como espermatozóide, Immanuel Kant já havia notado que toda teoria evolutiva das espécies animais esbarraria no problema das séries infinitas, insolúvel por definição. Os evolucionistas não perceberam isso até hoje, mas não estão nem aí. Para o seu nível de exigência intelectual, esse problema é demasiado “metafísico”.”

“A brutalidade crescente das proclamações dogmáticas evolucionistas não é mera coincidência: ela vem junto com a instauração progressiva de uma Nova Ordem global cujo discurso legitimador é eminentemente de ordem “científica”. Prepotência globalista e autoritarismo científico são uma só e mesma coisa. A pretensão ao poder mundial absoluto tem de passar pelo desafio preliminar de dar à profissão científica uma autoridade final comparável à dos concílios. Por exemplo, é preciso impor à população a mentira idiota de que a falta de provas científicas de alguma coisa é prova cabal da inexistência dessa coisa. Esse preceito, para se sustentar de pé, exige a anuência geral a dois axiomas psicóticos: (1) a ciência já sabe tudo; (2) nada do que ela vier a descobrir amanhã pode impugnar o que ela diz hoje. “

Não é preciso estar num curso de ciências biológicas para notar a absoluta ignorância contida nessas afirmações.

No Brasil criou-se um hábito de dar voz a leigos mais que a especialistas, e Olavo de Carvalho é um exemplo-mor desta situação no que se refere à compreensão pública da ciência neste país. Afirma que “a Astrologia é um elemento obrigatório, por isto quem não a estudou, não estudou nada, é um analfabeto, um estúpido.” Se é estupidez não compreender pseudo-ciências como a Astrologia, mais grave é não compreender suficientemente teorias científicas comprovadas como a Evolução Neodarwinista e jactar-se disso ao emitir falácias contra a mesma. O conhecimento científico muito provavelmente já salvou a vida deste homem, e precisa ser divulgado, não caluniado desta forma.

Por essas razões, os abaixo-assinados solicitam a publicação de refutações contra tais afirmações de Olavo de Carvalho; e maior espaço para a compreensão pública da ciência e seu método, principalmente nas mesmas publicações em que Carvalho emitiu tais alegações.”

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Por razões logísticas, o abaixo-assinado nunca chegou às mãos dos publicadores das colunas de Olavo. Mas devo meus calorosos agradecimentos às seguintes pessoas:

Assinatura
Comentário do abaixo-assinado
Profissão (na época)
Ricardo Richard Vieira
A desonestidade de Olavo de Carvalho me assusta.
Sistemas de Informação
Deneau Dantas

Allysson Allan de Farias
Vamos acabar com pseudos-cientistas que ultrapassam a barreira da liberdade de expressão, ante uma sociedade leiga e dogmática
Biologia/Eng. Produção
Adriano Atuati aka NightHiker

Designer grafico / redator
Leandro
NÃO à censura! Mas SIM ao direito de resposta!
Estudante
Jorge Pinto Filho

Estudante
Luciano

Biólogo
Vitor Bathaus

Estudante
Ivan Eugênio da Cunha
Se essa é a maneira de tirar os artigos desse publicador de pseudociência de circulação, eu estou dentro.
Estudante
Marcelo Tomanik

Professor
Juliana Capitani

Estudante
Deivi Alan

Analista de Sistemas
José J.V.Carvalho

Biólogo
Rodrigo
ele está sendo desonesto.
Biólogo
Rafael Nicacio Correa
Não gosto de fanáticos religiosos!
Estudante
Sérgio João da Silva

Estagiário em Marketing
Erika Regina Manoel Andreeta
Em pleno acordo com o texto.
Física
Carlos Gabriel Gomes Gordo Stecca

Estudante
Humberto Francis Caetano
Jornalista da mentira e da “fe”. Triste que tenhamos que ler tanta tolice.
funcionario publico
Heron Sampaio da Cruz

Estudante
Frederico A. Ferreira

Funcionário público
André Ramalho Ortigão Corrêa

Estudante
Leonardo Dallacqua de Carvalho

Estudante
David G. Borges

Biólogo
Fernando Kokubun

Físico
Thales Henrique Guimarães e Silva

Estudante
Paulo de Oliveira Enéas

Tradutor
Alysson Ramos Artuso

Físico
André Herkenhoff Gomes

Universitário
Edson Luiz Kunde
A ciência quer seu direito de resposta!
PPP
Gabriel

Empresário
Anderson Luiz Raasch
a próxima crítica que surgir ao evolucionismo deveria, ao menos, vir acompanhada de alguma sugestão. Esse cara ganha pra tentar derrubar o pouco conhecimento científico de que atualmente dispomos. É preciso mais do que poesia para refutar-se de uma teoria.
Estudante
Yuri Suzano Silva

Estudante
Alberto Ricardo Prass

Físico
Gustavo Bueno Gregoracci

Biomédico
Lucas Yoshio Muraguchi
Autor ridiculo,qualquer estudante de ensino medio sabe mais que ele, e bem mais livre de preceitos
Estudante
josé alberto s do amarante jr

Estudante
Kátia Alessandra Rezende Weber

Bióloga
Guilherme Mauro Germoglio Barbosa

Estudante
Christopher D. Klein

Médico
Marco Tulio Todeschini Coelho
Olavo de Carvalho eh soh um velho caduquinho que simplesmente n sabe o que diz. Por isso, n deve ser levado a serio.
Estudante
Alexandre Coelho

Desenhista industrial
Manoel Almeida

Publicitário
Daniel Magérbio Almino de Lucena
Apóio totalmente esta idéia
Médico
leandro
so falta agora o olavo dizer que a questao se deve à infiltracao comunista nos meios científicos
Economista
Otávio Luciano de Campos

Estudante do Ensino Médio
Ciro Vasconcelos

Autônomo
Gerson Carlos Voigt

Gerente administrativo
Eduardo Santos de Souza

Estudante
Cristiano Besen

Engenheiro Civil
Peterson Leal

Ciências Sociais
ronaldo melo

Professor
Lucas Barros Bonine

Estudante
Victor Neves
sua ignorância sobre pensamento cientifico é evidente ao declarar q a ciência se afirma absoluta.Seus argumento são levianos e tentam deturpar o conhecimento cientifico baseado em sua fé cirstã.
Estudante
Renato Godoi

Estudante de ensino superior
Bruno Rodrigues de Faria

Advogado
Túlio Lima Vianna

Professor de Direito Penal
Lorena Peixoto Nogueira Rodriguez Martinez
Certamente a ciência (que significa ESTUDO) colabora em demasia para o desenvolvimento humano em todos os seus aspectos. Afirmar que estudar (fazer ciência) é ilogismo significa negar a existência da humanidade e de seu intelecto.
Estudante
Gabriel Tavares

Estudante
Robson Fernando B. M. de Souza

Estudante
Valtencir Moraes

Consultor
Eduardo Torres

Eng. Químico
Renan Oliveira Nunes

Estudante
Carlos Daniel Llosa
Pelo visto estudar filosofia demais faz mal à saúde. Saúde mental.
Estudante
Jorge Augusto Mendes Geraldo

Estudante
Bruno Lepri

Estudante
Melissa Weber Mendonça

Estudante
Felipe da Costa Hummel

Estudante
Gustavo Junior Alves

Inventor
Fernando Bianchi

Biólogo
Andrezza Quirino Ramalho de Moura

Estudante
Guilherme Moreira Magnavita
O idiota condena a ciência pois a mesma nada pôde fazer para salvar seu último neurônio
Estudante
Eduardo Costa

Engenheiro Civil
Felipe Dauerbach

Arquiteto
Teresa Cecilia Maraschin Klein

Estudante
Germano Jaeschke Schneider

Dentista
Ana Barros

Estudante
Rogério Marcus Tomaz Gomes

Desenhista
João Zocatelli

Engenheiro
Sergio

Bancário
Sebastiao Rocha A Neto

Empresário
Leandro Teles Rocha

Estudante de Direito
Michel

Estudante
Ana Paula Chermont

Advogada
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

Engenheiro de Produção
Lise Fernanda Sedrez

Professora de História
Orlando Augusto Lima de Siqueira

Estudante
Pedro Augusto Pinto

Estudante
Emanuel Diniz Magalhães

Analista de Sistemas
Fabrício

Estudante

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Apareceu certo dia nesta petição a assinatura de um tal Olavo de Carvalho. Usei do endereço eletrônico fornecido pela pessoa, e eis que o duelo começou assim:

Eli (05/07/2006): Sei que você não é Olavo de Carvalho, então por favor não cometa falsidade ideológica ao assinar a petição.

Olavo (06/07/2006): “Sei que você não é Olavo de Carvalho”? Que primor de certeza imbecil, no meio de tantas que há na sua cabeça! Você não sabe é coisa nenhuma. Sou o Olavo de Carvalho em pessoa, e não aposte na hipótese contrária que só vai se desmoralizar mais um pouco, se é que é possível pagar mais mico do que você já pagou ao inventar uma petição na qual bancários e comerciários posam de porta-vozes autorizados da “ciência”.
Se vocês querem discutir, por que não nomeiam um representante qualificado, um cientista profissional, para fazer comigo um debate de um contra um, com regras honestas na distribuição do tempo e do espaço concedidos a cada qual? Por que essa palhaçada de clamar coletivamente por uma refutação que nenhum dos signatários tem capacidade nem disposição de fazer? Por que dar voluntariamente mais uma prova de que vocês apostam na força da pressão social e não do argumento racional?

Eli (06/07/2006): Pressão social? Faça-me um favor, caro “Olavo”.
Não posso ter certeza de que é você mesmo.
Mas se for, tenho algo a lhe dizer.

A primeira coisa, é que você tem de aprender a não fazer apelos à autoridade de quem argumenta. O argumento tem que se validar por si mesmo.
O que você disse sobre o evolucionismo e a ciência nem merece resposta, tamanha a sua ignorância.

Se quer insistir nas suas costumeiras calúnias – como a acusação de que os signatários da petição nada têm de entendedores da ciência – muito me desanima. Leia mais uma vez as profissões e notará seu próprio equívoco.

Mas reitero que pouco importam as profissões lá listadas, e sim o mérito da questão: seu comportamento deplorável de falar sobre o que não entende e divulgar negativamente a ciência.

Eu sou um estudante de uma das ciências, a Biologia. Um mero estudante. Mas pude notar a sua ignorância sobre a evolução neodarwinista.

Posso pedir que um pesquisador da minha universidade, com todos os títulos que você quiser, fale com você. Mas posso contribuir para o caso do evolucionismo.

Quando você emitiu aquelas afirmações citadas pela petição, por acaso sabia até que ponto os cientistas têm evidência de que a evolução realmente acontece?
Sabia como acontecem as mutações de código genético quando as enzimas trabalham na replicação do DNA?
Sabia como funciona a permutação, mecanismo que permite eu seja diferente de você apesar de termos um ancestral em comum (no Brasil, ou na Europa, ou na África)? E os genes mutantes como o da anemia falciforme, e os transpósons e retrotranspósons, éxons, íntrons, bactérias resistentes, fósseis, comparação de genomas?

A evolução é de uma obviedade tal que não seria necessário você saber destes detalhes químicos para percebê-la. Mas a tradição o impede. O preconceito o impede.

Caso você se dedicasse a saber mais sobre não apenas este assunto, como outros dentro da ciência que insiste em criticar; duvido muito que continuaria cometendo este tipo de gafe.

18th of November

Da Incerteza


Fome de certeza. É isso que muitos de nós temos ao vagar por este vasto mundo.

Queremos ter certeza de que somos amados incondicionalmente ao menos por uma pessoa que conhecemos, queremos ter certeza de que valerá a pena viver mais um dia, de que nosso esforço terá o resultado que esperamos, de que há coisas que são indiscutivelmente belas e boas.

Entretanto, quando se fala em conhecer, não há como atingir a certeza. Não há como ter certeza de que não se pode atingir a certeza também. O gênio maligno de Descartes, que maquina para enganar nossos sentidos – melhor dizendo, enganar meus sentidos – é uma possibilidade irrefutável.

Como resolver o problema da falta de certeza?

Comecemos pela coerência, que ao menos obedece ao nosso maquinário lingüístico (ou à lógica). Descartes é coerente ao propor que primeiro comecemos a duvidar para então tentarmos encontrar pilares para nosso edifício do conhecimento.

Há que se tomar uma decisão: quem é mais enganador? Os sentidos ou a razão?

Não seria a razão demasiado delirante sem os sentidos, e os sentidos muito pouco informativos sem a razão? Assumamos que sim.

Hume é coerente ao afirmar que nosso conhecimento, ao menos a respeito do universo que nos cerca, advém das nossas impressões. Impressões subordinadas aos nossos sentidos que podem alimentar a razão, e a partir delas a razão faz apostas. Fazer apostas?

Uma pessoa que avalie se é mais ou menos provável ser atropelado fora da faixa ao atravessar uma rua está usando a razão para preservar sua vida, e não depende das estimativas probabilísticas oficializadas em números. Está fazendo uma aposta ao escolher atravessar na faixa ou fora dela.

Fazer apostas para decidir acreditar em algo coerente é o que chamo de Intuição Probabilística.

Aparentemente, a Intuição Probabilística é um componente primevo da cognição humana, associado à razão e independente da fé.

Historicamente esta forma de pensar está associada ao Ceticismo, e um bom exemplo é o pensamento de um dos primeiros filósofos céticos, posterior a Pirro, que é Clitômaco de Cartago (Asdrúbal):

“O chefe seguinte da Academia, após Carnéades (~180 a ~110 B.C.), foi um cartaginês cujo nome verdadeiro era Asdrúbal, mas, ao lidar com os gregos, preferiu chamar a si mesmo de Clitômaco. Diferente de Carnéades, que se ateve a dar palestras, Clitômaco escreveu mais de quatrocentos livros, alguns dos quais em língua fenícia. Seus princípios parecem ter sido os mesmos de Carnéades. Em alguns aspecos, foram úteis.

Esses dois Céticos se opunham à crença em divinação, mágica, e Astrologia, que estava se espalhando cada vez mais. Eles também desenvolveram uma doutrina construtiva, de acordo com graus de probabilidade; embora nunca possamos justicar a certeza, algumas coisas têm mais chance de serem verdadeiras que outras. A probabilidade deveria ser nosso guia na prática, pois é racional agir na mais provável dentre hipóteses possíveis. Esta visão é aquela com a qual a maioria dos filósofos modernos concordaria.” (Russell, Bertrand. A History of Western Philosophy.)

Decidir acreditar em graus de probabilidade em vez de se render a afirmações absolutas não é algo novo na Filosofia e na Ciência. Nas palavras de Bertrand Russell (A History of Western Philosophy):

“A autoridade científica, que é reconhecida pela maioria dos filósofos da época moderna, é uma coisa muito diferente da autoridade da Igreja, pois é intelectual e não governamental. Nenhuma punição incide sobre aqueles que a rejeitam; nenhum argumento prudente influencia aqueles que a aceitam. Prevalece apenas por seu apelo intrínseco à razão. (…) Há ainda outra diferença entre a autoridade científica e a autoridade eclesiástica, esta declara que suas afirmações são absolutamente certas e eternamente inalteráveis: as afirmações da ciência são feitas por tentativa, em uma base de probabilidade, e são consideradas como passíveis de modificação. Isto produz um temperamento bem diferente daquele do dogmático medieval”.

NO EMPIRISMO:

“A Razão, como Locke usa o termo, consiste em duas partes: primeira, um inquérito sobre que coisas conhecemos com certeza; segunda, uma investigação de proposições que aceitam-se sabiamente na prática, embora tenham apenas probabilidade e não certeza a seu favor. ‘Os alicerces da probabilidade’, diz Locke, ‘são dois: conformidade com nossa própria experiência, ou o testemunho da experiência de outro.'”

“Hume não quer dizer com ‘probabilidade’ o tipo de conhecimento contido na teoria matemática da probabilidade, como o de que a chance de atirar dois dados e obter duplo 6 é uma em 36. Este conhecimento não é provável em nenhum sentido especial; tem tanta certeza quanto o conhecimento pode ter. O que preocupa Hume é o conhecimento incerto, tal como o que é obtido de dados empíricos por inferências que não são demonstrativas. Isso inclui todo o nosso conhecimento a respeito do futuro, e a respeito de partes não observadas do passado e do presente. De fato, inclui tudo exceto, por um lado, observação direta, e, por outro, a lógica e a matemática.” (Russell menciona também que essa noção de probabilidade leva Hume a um pensamento cético.)

NO ESTOICISMO (que é uma escola filosófica originada no período helenístico, assim como o Ceticismo):

“Um filosofo estóico, Sphaerus, um discípulo imediato de Zenão, foi convidado uma vez para uma ceia pelo Rei Ptolomeu, que, tendo ouvido a respeito dessa doutrina, ofereceu a ele uma romã feita de cera. O filósofo tentou comê-la, e dele riu-se o Rei. O filósofo respondeu que não sentia certeza de que era uma romã de verdade, mas tinha pensado que seria improvável que qualquer coisa impalatável fosse servida na mesa real. Nesta resposta apelou a uma distinção estóica entre as coisas que podem ser conhecidas com certeza com base na percepção, e as coisas que, com a mesma base, são apenas prováveis. No todo, essa doutrina era sã e científica.”

Na Ciência, há rigor quanto à mensurabilidade de objetos de estudo e reprodutibilidade de resultados. Entretanto, a Intuição Probabilística é usada na manufatura de hipóteses e de conclusões a serem extrapoladas a partir de um dado experimento modesto.
Há também métodos como o da Parcimônia, usado na Filogenética para perceber que histórico evolutivo de dadas espécies biológicas é mais provável de acordo com a navalha de Ockham (Occam).

Pode-se concluir do pensamento de Karl Popper que existem muitas hipóteses científicas possíveis de serem concebidas e passíveis de passar pelo crivo das evidências. O heliocentrismo que chegou a Newton, por exemplo, teve origens obscuras em pensamentos quase místicos de antigos como Aristarco de Samos (c. 310 a.C. ? – 230 a. C.?), que tinham em suas épocas motivos não muito melhores que os motivos para acreditar no geocentrismo.
Como sabemos que uma dada hipótese é ridícula demais para que gastemos nosso tempo pesquisando a respeito dela? Pela probabilidade intuitiva.

E como poderíamos descartar uma concepção irrefutável como a do Gênio Maligno, ou de um idealismo similar (como o que é exibido nos filmes Matrix)?
Não podemos absolutamente, entretanto podemos tentar aplicar a intuição probabilística a esses casos, ou simplesmente avaliar se resolvem os problemas que se propõem a resolver.

Resolver problemas é funcionar. E a Ciência é um conhecimento funcional. A tal ponto que muitas vezes suas teorias se sobrepõem ao conhecimento empírico imediato, e são tão críveis quanto este.

Se há a Verdade, não vejo por que outras atividades cognitivas não-racionais estariam mais próximas dela do que a razão.

Se há a Verdade no mundo sensível, não vejo maneira melhor para atingi-la do que o empirismo.

Se a Ciência está vulnerável para ser concebida como maquinação do Gênio Maligno, sim, está. Mas Popper tem toda a razão quanto a isso não ser tão importante quanto os famintos pela Verdade pensam que é.

Funcionar é maravilhoso por si só. Se não compreendo todas as línguas para conhecer toda a literatura produzida, posso fazer a amostragem de ler apenas o que foi feito nas línguas que domino, o que inclui traduções.
Se não posso sair de casa para correr e fortalecer meu corpo, correr em círculos dentro de casa é melhor que se deixar consumir pelo ócio.

Então, se não há Verdade ou Certeza, é suficiente que eu tenha um conhecimento funcional.
É difícil que fundamentos últimos permaneçam de pé quando até mesmo a Lógica é questionada e classificada como uma contingência (como faz Wittgenstein em suas últimas obras).

Se não há fundamentos universais em conformidade com a Verdade ou a Certeza (se ela “é”), é suficiente que os fundamentos sejam construídos sobre as nossas ilusões e possamos regrá-las mais ainda.

Se não há alicerce para o edifício do conhecimento, que ele seja então uma nave flutuando sobre o caos.