28th of September

Nahor de Souza Jr. na UnB – o bom, o mau e o feio


Hoje foi apresentada, a partir das 13h na UnB, uma palestra com o título “Ciência e Religião são Compatíveis?”, pelo Dr. em Geologia Nahor Neves de Souza Júnior.

Eu e Silvia Gobbo (doutora em Paleozoologia) estivemos presentes para defender o evolucionismo.

Durante a palestra a Silvia refutou contumazmente as afirmações criacionistas de Nahor no campo da Paleontologia e da Arqueologia.
Silvia, acostumada com a maneira franca de dar palestras dentro da Paleontologia, interrompeu intermitentemente o Nahor, o que causou o protesto de alguns alunos de graduação e do engenheiro Rui Vieira, um dos veteranos da Sociedade Criacionista Brasileira.

Eu também o interrompi por três vezes, mas deixei meus argumentos principais para depois da palestra (nessa hora a Silvia também teve a oportunidade de falar).

Na primeira vez que o interrompi foi para defender os ateus, pois ele alegou que todos os ateus acham que o universo físico é totalmente submetível à prospecção científica.

Na segunda vez, perguntei se não era contraditório que ele reclamasse da “omissão” da comunidade científica para com os “princípios do protestantismo” sendo que (como eu tinha a impressão) ele tinha dito no início da palestra que as cosmovisões dos cientistas convivem e não interferem nas pesquisas. Ele respondeu que não fez esta última alegação (talvez esteja certo quanto a isso). Deu a entender que os cientistas cristãos são superiores em termos de coerência aos demais cientistas.

Na terceira vez, perguntei se ele tinha referências de pesquisas científicas que corroborassem a afirmação de que a prática da circuncisão diminui a incidência de câncer em judeus. Ele respondeu que sim, e alegou que a secreção que o pênis produz entre o prepúcio e a glande é cancerígena (esmegma). Em resposta eu franzi o cenho, não sei se é verdade que o esmegma é cancerígeno, mas não me pareceu plausível.

(Não me parece muito inteligente por parte do Artífice criar esmegma cancerígeno.)
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Pois bem, a palestra começou de uma forma bem cuidadosa, e o Dr. Nahor pôde demonstrar sua admirável habilidade retórica, e seu conhecimento substancioso em ciência, patrística e escolástica, metodologia científica indutivista e dedutivista; além de conhecimentos bíblicos e suas experiências pessoais com o cristianismo.

Isso eu tive a oportunidade de elogiar, e compartilhar (a inspiração emocional da Bíblia na infância). Isso foi o bom.

Quando Nahor disse que os cientistas cristãos tinham excelentes qualidades, como a curiosidade, perguntei a ele se isso não seria problemático com a afirmação de Agostinho de que a curiosidade é uma doença. O palestrante disse que discorda da escolástica nesse ponto.

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Foi dito também que a Bíblia merece status de literalidade, como os seis dias da criação. Eu comentei que isso não é recomendável, dado que Javé tem atitudes análogas ao terrorismo nos eventos da destruição de Jericó e do massacre perpetrado por Sansão. Eu disse também que a Bíblia afirma que pensamos com o coração, o que já é refutado pela ciência.

Nahor disse que todos os povos relatavam desastres antigos, e que isso é uma evidência da ocorrência do Dilúvio Universal. Eu refutei dizendo que os mongóis, por exemplo, não relatam coisas assim. Lembrei que há muitos textos sagrados por aí, como as Vedas, o Corão, etc., e que dar privilégio à Bíblia é fruto de acidente cultural e deliberação irracional, não de reflexão racional.
Reclamei, por esses motivos, que o nome da palestra é equívoco, pois Nahor se ateve ao cristianismo, e não só ao cristianismo, à sua vertente particular que implica criacionismo. Sugeri que da próxima vez ele usasse “Ciência e religião bíblico-cristã são compatíveis?”.

Relatei também que o hábito dos judeus de não cumprimentar mulheres por elas estarem “sujas” por causa da menstruação (como diz o Torá) é inaceitável e não tem bases na microbiologia. Isso refutou o que ele disse anteriormente, que a Bíblia antecipou a microbiologia em recomendações de higiene.

Incentivar o fanatismo religioso, privilegiar a Bíblia injustificadamente e fingir isenção na análise de religião e ciência: isso foi o mau.

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Por fim, apontei que Nahor, durante a palestra, usou apelos à autoridade, que consistem numa falácia lógica.
Chamei a atenção para o fato de que o Deus de Aristóteles não é o Deus do cristianismo, mas é derivado do Theos de Platão, que não é um artífice (um criador), mas uma espécie de “máquina” intermediária entre as idéias e os objetos. Nahor concordou.

Nahor, durante a palestra, citou muito Newton – tanto como um apelo à autoridade quanto como um exemplo de suposta conciliação entre ciência e religião. Eu disse a ele que Newton tentou calcular a profundidade do inferno em que sua mãe se encontrava, e que isso era literal para Newton, portanto Isaac Newton não é a pessoa mais adequada para conciliar ciência e religião.

Lembrei a Nahor que durante a palestra ele diversas vezes usou argumentos de incredulidade pessoal. Por exemplo, ele disse não acreditar que o experimento de Urey e Miller concedia evidências à abiogênese primordial, porque nunca tinha visto uma gradação entre aminoácidos, proteínas e seres vivos nos estratos geológicos.

Eu disse que se alguém colocar moléculas orgânicas num recipiente fechado com água, depois de pouco tempo a molécula seria degradada e isso pode ser explicado pela segunda lei da Termodinâmica. Disse que ele deveria levar em conta que os animais fossilizados eram uma minoria ínfima, e que a partir da observação dessa minoria é possível imaginar o que acontecia a todos.

Nahor disse ter preferência pelo indutivismo, e eu citei Karl Popper, que refutou o indutivismo do próprio Newton, porque as hipóteses que chegaram a Newton podem ter tido origens místicas, e não origem nos dados observados como alega o próprio Newton.

Popper mostrou que as hipóteses científicas podem ter qualquer origem, inclusive religiosa, e que o que as refuta e as descarta é a observação empírica.

Nahor, finalmente, passou adiante o relato sobre a visita de Dobzhansky ao Brasil e a suposta conversa que Dobzhansky teve com uma aluna de História Natural. Que Dobzhansky teria dito que “foi longe demais”. Eu convidei todos a ir longe demais: visitar o laboratório de biologia evolutiva da UnB, onde trabalho, e entrar em contato com a Teoria da Evolução.

Desafiei o Criacionismo e o Design Inteligente a explicar os dedos vestigiais que algumas cobras têm, bem como a possibilidade de aborto de fetos Rh+ em mães Rh-, e a semelhança de carpelos e pétalas com folhas. Principalmente explicar onde está a inteligência criadora nesses fatos, que evidenciam claramente a evolução – e o histórico “hábito” de trabalhar a partir de coisas já existentes: arcos branquiais viraram mandíbulas, e o osso sesamóide radial virou polegar no panda.

Não conseguir defender o Design Inteligente e o Criacionismo com coerência na Ciência e na Religião: isso foi o feio.

23rd of September

Homeopatia sob ataque


Títulos acadêmicos em Homeopatia rotulados como não-científicos no Reino Unido

Seis universidades [britânicas] atualmente oferecem títulos de bacharelado em homeopatia, apesar do fato de os testes científicos de tratamento a revelarem nada mais que placebo. Muitas dessas universidades se recusaram a revelar detalhes de seus cursos quando contactadas pela Nature e, separadamente, por críticos da homeopatia.

Por Jim Giles

“Enquanto o debate ruge sobre se o Design Inteligente deve ser ensinado em aulas de ciência nos EUA, outro assunto que muitos pesquisadores vêem como pseudociência está reivindicando um status científico no sistema educacional britânico.

A medicina homeopática é um grande negócio, mas dá-la o status de ciência é controverso.
P. MACDIARMID/GETTY

Na última década, várias universidades britânicas começaram a oferecer títulos de bacharel em ciência (BSc) em medicina alternativa, incluindo seis que oferecem BSc em homeopatia, uma terapia em que o ingrediente ativo é diluído tanto que a dose dada ao paciente muitas vezes não contém uma única molécula do ingrediente.
Alguns cientistas se preocupam que tais cursos dêem à homeopatia e aos homeopatas uma credibilidade científica não merecida, e estão em campanha para remover o rótulo.

Muitos cientistas e defensores da medicina baseada em evidências sentem que dar status científico à homeopatia é injustificável. Além do fato de não haver mecanismo conhecido pelo qual esse tratamento possa funcionar, eles alegam que a evidência contra a homeopatia é conclusiva. Das muitas revisões sistemáticas rigorosas conduzidas na década passada, apenas um grupo produziu evidência, no máximo marginal, a favor da homeopatia, com os autores em cada caso afirmando que os dados eram fracos. Muitos revisores não encontraram efeitos, e um estudo proeminente sugerindo que a homeopatia funciona mesmo (L. Linde et al. Lancet 350, 834–843; 1997), o qual é freqüentemente citado pelos homeopatas, teve sua metodologia criticada extensivamente desde sua publicação.

Mas os homeopatas envolvidos nos cursos universitários – ao menos aqueles que falaram à Nature – alegam que ensinam princípios científicos aos estudantes, incluindo a análise crítica de evidências.

Descobrir exatamente o que é ensinado nesses cursos não é fácil. Ben Goldacre, um médico e jornalista londrino, crítico contumaz da homeopatia, diz que muitas universidades se recusaram a deixá-lo ver seus materiais acadêmicos. “Não posso imaginar o que estão ensinando,” diz. “Posso apenas imaginar que estão ensinando que é bom ‘catar-milho’ nas evidências. Isso é totalmente inaceitável.””

Para saber mais (sexto parágrafo adiante):

http://www.nature.com/nature/journal/v446/n7134/full/446352a.html

O buraco é muito mais embaixo do que a grande mídia quer mostrar.

23rd of September

Experiências de quase-morte virtuais


“Illusion mimics out-of-body experiences
Camera trickery shows how easy it is to fool the mind.”

Na Nature: http://www.nature.com/news/2007/070820/full/070820-9.html

por Michael Hopkin

“Cientistas deliberadamente enganaram pessoas para pensarem estar olhando para si mesmas por fora de seus próprios corpos, usando tecnologia de realidade virtual. O achado revela como o cérebro pode ser confundido quando luta para integrar informação confusa advinda dos diferentes sentidos.Pessoas que alegam ter tido experiências de quase morte (EQMs) – mais notoriamente pacientes na mesa de operação ou aqueles que escaparam por pouco da morte – descrevem uma sensação de ter flutuado fora de si mesmos, por exemplo, em direção ao teto de uma sala de operação. Do teto eles observam seus corpos e as atividades ao redor.Tais experiências têm sido apresentadas por espiritualistas como evidência de uma alma. Mas a nova pesquisa mostra que é possível criar uma sensação similar simplesmente enganando a mente.Entender como a mente às vezes se percebe viajando fora do corpo poderia ajudar no desenvolvimento de jogos de computador mais realistas ou sistemas robóticos remotos, ou até mesmo ajudar a entender os cérebros daqueles que alegam experimentar o fenômeno naturalmente, tais como esquizofrênicos e epilépticos.

Você, eu, eu, você

O efeito foi criado em dois experimentos distintos descritos na Science esta semana, ambos usaram um método simples para enganar os voluntários para pensarem que suas mentes tinham sido destacadas de seus corpos. Em casa caso, os participantes usaram óculos de realidade virtual equipados com câmeras apontadas para seus corpos.Em um estudo, dirigido por Henrik Ehrsson na University College London, os voluntários foram então empurrados no peito precisamente no mesmo momento em que um objeto se aproximava da câmera. Nesse cenário, os voluntários se identificaram fortemente com a localização da câmera, pensando que lá se encontravam verdadeiramente – a visão de seus corpos era como a de outra pessoa.No outro experimento, dirigido por Olaf Blanke do Instituto Federal Suíço de Tecnologia em Lausanne, os pacientes viam uma imagem de suas próprias costas sendo empurradas, enquanto suas próprias costas eram empurradas da mesma forma. Neste exemplo, os voluntários se identificaram fortemente com a imagem de suas costas, pensando que se tratava de sua real localização – novamente fora de seus próprios corpos.

Informação demais

O efeito bizarro acontece porque, embora nos percebamos dentro de nossos corpos, o maquinário experimental tencionava que a informação sensorial fornecida ao cérebro não correspondesse a essa idéia, explica Ehrsson. ‘O cérebro pode se enganar internamente porque está sempre tentando extrair sentido da informação – se a informação é falsa ou errônea, ele poderia conceber uma interpretação errada.’O método não recria a EQM ‘clássica’ – mais impactantemente porque no ambiente do mundo real, não há maneira óbvia de uma pessoa “ver” a si mesma. Mas as pessoas poderiam, talvez, desenhar sua própria imagem mental do corpo para criar o efeito, diz Ehrsson. “Na sala de operação não há um espelho no teto, mas poderia haver um ‘espelho’ na cabeça”, diz ele. Ehrsson e Blanke suspeitam que esta ilusão poderia envolver algum tipo de malfuncionamento em regiões cerebrais tais como o córtex tempoparietal, que integra a informação sensorial.Entretanto, “este novo experimento trouxe finalmente EQMs para o laboratório e testou uma das teorias principais de como elas ocorrem”, comenta Susan Blackmore, uma psicóloga da University of The West of England em Bristol. “Descobrir que EQMs são um fenômeno perfeitamente natural não prova que não há corpo astral, ou alma, ou espírito, mas certamente faz sua invenção ser supérflua.”

Descrença suspensa

O efeito até funciona com manequins plásticos, como descobriu a equipe de Blanke que substituíram a imagem do voluntário pela imagem de uma boneca comprada por 100 francos suíços (83 dólares)(confira o vídeo). Mas quando usaram um simples quadrado de metal como imagem, o efeito de EQM não se materializou, mostrando que o truque só pode ser extendido até aí.Descobrir exatamente como muitos voluntários podem suspender sua descrença será crucial no desenvolvimento de tecnologia para permitir usuários a assumir personagens diferentes, de robôs remotos a avatares de realidade virtual, diz Blanke.Usando informações visuais e táteis apropriadas para transmitir a sensação de estar operando no corpo de um robô ou personagem virtual poderia ajudar com aplicações que vão do projeto Robonaut da NASA, que tem por objetivo controlar robôs na lua, a cirurgiões executando operações pela internet. “Essas aplicações poderiam ser melhoradas se você pudesse ter a ilusão de que realmente está naquele lugar – você poderia agir muito mais intuitivamente,” diz Ehrsson.”

Link para o vídeo:http://www.nature.com/news/2007/070820/multimedia/070820-9.avi

21st of September

Mais um ponto para os materialistas


Rapid Erasure of Long-Term Memory Associations in the Cortex by an Inhibitor of PKM{zeta}

Reut Shema e Yadin Dudai (do Departamento de Neurobiologia, Instituto Weizmann de Ciência, Israel), em parceria com Todd Charlton Sacktor (dos Departamentos de Fisiologia, Farcamologia, e Neurologia do Centro Robert F. Furchgott para Ciência Neural e Comportamental, SUNY Downstate Medical Center, NY, EUA)

conseguiram deletar uma memória de longo prazo em ratos.

Os ratos foram condicionados para sentir náusea ao tomar uma solução de sacarídeo. A injeção da proteína ZIP, que inibe a atividade de outra proteína, a enzima MPK-zeta, causou o esquecimento desse condicionamento nos ratos, tão rápido quanto duas horas após injetada no córtex insular (que processa informação de gosto, entre outras coisas).

Notícia resumida:
http://www.nature.com/nrn/journal/v8/n10/full/nrn2240.html

Abstract do artigo, com link para o artigo inteiro:
http://www.sciencemag.org/cgi/content/abstract/317/5840/951
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Esta notícia nos indica que a mente, ao menos sua parte mnemônica, está fundamentada em entidades materiais no cérebro. Uma explicação espiritualista para a mente não é apenas controversa, é desnecessária.

Faço agora uma previsão: a maioria dos espiritualistas e dualistas não vai se abalar. À medida que, nas próximas décadas, a mente for explicada a partir de fundações materiais inequívocas, as hipóteses espiritualistas e dualistas vão fugir da testabilidade, vão se volatilizar em direção à irrefutabilidade empírica, ao que Popper chama de não-falseabilidade.

Isso torna o dualismo só mais uma explicação religiosa, aquém da confiabilidade das evidências, junto com o criacionismo, fadas, duendes, papai noel e a fada do dente.

14th of September

Astrologia desmistificada


Kepler trabalhava com horóscopo para ter renda extra, mas deixou para a posteridade o que lhe dava menos lucro. Será que ainda hoje a Astrologia merece crédito por ser emocionalmente, culturalmente e criativamente lucrativa? Para lermos nosso horóscopo com confiança, primeiro a Astrologia terá de enfrentar ao menos as três provas de fogo expostas aqui.

Constelações: areia ao vento?
Constelações: areia ao vento?

Em programas de rádio e de TV, há pouca dúvida sobre a compatibilidade de librianos com arianos, sobre o ascendente e a forma das constelações. Ninguém pensa duas vezes antes de classificar certo comportamento de alguém como típico de quem pertence a tal signo.

Na Universidade de Brasília existe até um “Núcleo de Estudos dos Fenômenos Paranormais” que periodicamente promove debates, e estudos que supostamente validariam o poder de previsão do conhecimento milenar dos Astrólogos.

A Astrologia é para a Física o que a Homeopatia é para a Medicina – uma pedra no sapato, uma irmã bastarda de tempos antigos.

Mas existem três grandes obstáculos, ou impossibilidades à aceitação da Astrologia como um conhecimento científico que goza de evidências a seu favor.

Primeiro, a impossibilidade comportamental.
Os bilhões de seres humanos nesse planeta estão sujeitos a influências culturais (e ambientais) que moldam suas personalidades, e é justo supor que essas influências, ao menos no passado, divergiam conforme a distância em que os grupos humanos se encontravam. Não que seja impossível que um asteca tenha tido uma personalidade similar à de um assírio, mas é mais provável que um asteca tenha se parecido mais com um inca porque o trânsito de informação entre essas culturas era geograficamente mais fácil.
As influências genéticas à personalidade podem ser igualmente complexas e dependentes de contato sexual entre os grupos.
Levanto estes dados apenas para dar uma idéia do quanto as personalidades podem ser complexas, e que classificá-las em número limitado, como os 12 signos, é trabalhoso e bem questionável.

Achar que é possível prever o comportamento de um pisciano em oposição ao comportamento de um leonino é simples ignorância em relação à complexidade cultural da espécie humana.

Segundo, a impossibilidade biológica.
Pouca gente na ciência hoje adota a divisão cartesiana entre mente e cérebro (corpo). Se há um lugar em que a mente está, este lugar é o córtex cerebral, e as pessoas dependem de outros pontos do cérebro para armazenar memória (importante para o sentimento de unidade da personalidade). Enfim, não há mente sem cérebro.
Embora virtualmente todas as pessoas possuam os mesmos lobos cerebrais, e outros pontos anatômicos, no nível das conexões neuronais (e até número de neurônios e tamanho do cérebro) as pessoas divergem muito entre si.
Para que a Astrologia fosse verdade, os astros de alguma forma teriam de limitar as rotas do desenvolvimento das conexões neuronais no feto a 12, ou um número limitado de rotas que até certo ponto determinariam a personalidade das pessoas que tivessem passado por este desenvolvimento controlado cronologicamente (num ciclo anual).
Mas isso não acontece.

O cérebro humano é espantosa e admiravelmente plástico, tanto durante quanto depois do desenvolvimento. É um enriquecimento à nossa natureza que a Astrologia seja falsa.

Em terceiro lugar, a impossibilidade física, que parece mais simples e está conectada às duas outras impossibilidades, principalmente a biológica.

Além de não existir mecanismo conhecido ou concebível de influência dos astros ou constelações sobre o tecido cerebral, os astros e constelações são muito menos estáticos do que os astrólogos pensam.
Estrelas morrem e nascem, tanto que se não tivesse havido a explosão (supernova) de uma estrela “aqui” onde estamos (presume-se que a matéria que nos cerca tenha se mantido razoavelmente coesa em seu trânsito pela galáxia nos últimos bilhões de anos), os planetas não estariam aqui, e não haveriam elementos pesados para permitir a vida.

As constelações são um padrão que muitas vezes só faz sentido visto daqui da Terra (e além disso, esse sentido é atribuído diferentemente por “astrologias” diferentes, como a dos ameríndios), e este padrão muda no decorrer dos milênios – estabelecer padrões absolutos para as galáxias é como jogar um punhado de areia para cima, tirar uma foto dos grãos e depois dar nomes a eventuais desenhos entre eles nas limitações bidimensionais da foto retratando uma configuração efêmera no ar. A Astrologia mistura estrelas com galáxias inteiras, não há um critério de considerar o tamanho do astro, quantidade de luz que ele emite, ou espectros de luz que ele emite.

A Astrologia aos olhos da Física não passa de uma piada gigantesca, como a teoria dos miasmas e a da geração espontânea são uma piada para a moderna Microbiologia.

As dúvidas da Física Teórica hoje, sobre o âmago da matéria, sobre os limites, origem e futuro do universo, são distantes das hipóteses astrológicas.
Não há meio concebível de que coisas estranhas como o comportamento das partículas quânticas possam validar a Astrologia, é extremamente improvável também que as cosmogonias teóricas como o Big Bang o façam.

Embora saibamos que a matéria contida nos tecidos biológicos obedeça à Física Quântica no nível das partículas, é possível fazer muita coisa na Biologia ignorando isso, mesmo nas Neurociências. Assim como é possível fazer muito no lançamento de satélites usando só a física de Newton (ignorando os ajustes de Einstein).
Se os cientistas prestarem tanta atenção a detalhes, ainda assim a Astrologia não vai florescer como ciência.

A Astrologia agora só tem a saída das religiões e pseudociências, que trabalham com possibilidades lógicas improváveis no mundo físico.

Por que então as previsões da Astrologia podem funcionar? Coincidência, vontade de acreditar, e coisas simples disfarçadas de previsão como “queres ser feliz, ter sorte no amor e no trabalho” e “percebes que és diferente das outras pessoas e tens espírito de liderança”. Será difícil achar quem não queira essas coisas e não idealize sua própria personalidade dessa maneira.

Ainda assim, estamos fadados a passar nossas vidas tendo de responder a que signo pertencemos em primeiros encontros com prováveis cônjujes.

14th of September

Carta aberta aos parlamentares


Caros parlamentares,

como cidadão brasileiro e estudante de Biologia pela Universidade de Brasília, gostaria de fazer alguns comentários sobre a quantidade generosa de dinheiro público que Vossas Excelências recebem, como salário e outros benefícios, sem levar em conta o quanto uma parte significativa de Vossas Excelências consegue ganhar por meios, digamos, menos publicáveis.

Não pude deixar de traçar comparações entre este fato e alguns fatos que observamos em outros animais. Não vou mencionar nenhum gado de valor estupendo, nem as interações ecológicas que Vossas Excelências realizam entre si que envolvem sua absolvição compulsória às escuras.

Eu gostaria de ver meus representantes no Poder Legislativo agindo como os Morcegos-Vampiro, por exemplo, que regurgitam sangue para doá-lo para os outros membros do grupo que não conseguiram se alimentar, evitando que morram de inanição. Na política deste país, não consigo ver o que acontece com casais de pássaros que contam com a ajuda de outros adultos para cuidar de seus filhotes.

Os parlamentares brasileiros seriam nobres se se comportassem como o macaco Cercopithecus aethiops, que grita para avisar seus companheiros sobre a presença de predadores, correndo ele mesmo o risco de ser atacado enquanto faz isso.
Mas infelizmente não consigo ver um comportamento tão belamente altruístico em Vossas Excelências.

Pelo contrário.

Parasitas são os seres que se alimentam do trabalho de outros seres, como o carrapato faz grudado no couro de uma vaca. Como não precisa trabalhar muito, o parasita pode evoluir de modo a poupar o máximo de energia para continuar se reproduzindo às custas de seu hospedeiro, se tornando uma criatura simplificada. O vírus, por exemplo, é um parasita extremamente simples, e posso considerá-lo a mais estúpida das criaturas.

Pergunto agora a qual desses seres vivos que citei os parlamentares mais se assemelham ao tratarem a contribuição pública do modo como a tratam.

Aborrecidamente,
Eli Vieira

Cercopithecus aethiops
Cercopithecus aethiops

14th of September

A incerteza da realidade do filme “Quem somos nós?”


Aclamado por movimentos new-age e pretendendo divulgar um novo tipo de conhecimento sintético entre metafísica e física, o filme “What the bleep do we know!?” (EUA, 2005) não conquistou muita coisa além de polêmica e 11 milhões de dólares.
“A ciência, diferente de todos os assuntos, contém em si a lição do perigo de se acreditar na infalibilidade dos maiores professores da geração precedente. (…) Aprenda com a ciência que você deve duvidar dos especialistas. Na verdade, posso definir ciência de um outro modo: Ciência é a crença na ignorância dos especialistas.”

Richard Feynman, 1999

O filme “Quem somos nós?” [“What the bleep do we know!?”] se propõe, entre outras coisas, a uma árdua tarefa: uma grande síntese entre as ciências, as religiões e as filosofias, ao mesmo tempo em que procura mudar o conceito de realidade, ou até mesmo negá-lo. Muito disto com base em interpretação dos conhecimentos adquiridos em Física Quântica, Fisiologia, Neurociências, Química e Astronomia.
Começa com uma referência à teoria do Big Bang, em voga na Astronomia, e discorre sobre o caráter probabilístico da Física Quântica. Mas em pouquíssimos momentos deixa claro de onde vêm conceitos como o Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg e como eles são aplicados.

Todas as afirmações de caráter moral no filme, supostamente inevitáveis à luz da Física Quântica e outras ciências, são estritamente pessoais (embora os autores não o digam) e não são cientificamente verificáveis.

O termo “quântico” vem de quantum (pacote), e é usado desde o modelo atômico de Niels Bohr que demonstrava que orbitais atômicos poderiam ser ocupados com elétrons com valores determinados de energia. Descobriu-se que a elestrofera não é um continuum energético, mas divide-se em quanta de energia. Posteriormente, Werner Heisenberg postulou um princípio de incerteza sobre partículas subatômicas, que diz, grosso modo, que quanto mais se sabe a posição de uma partícula, menos é possível medir sua velocidade, e vice-versa. E que por este motivo existe uma espécie de superposição espacial de uma partícula, e probabilidades diferentes de encontrá-la em determinados pontos.

Este princípio assustou Albert Einstein, que para a defesa de suas acepções científicas, disse que “Deus não joga dados com o universo”. Infelizmente para Einstein, a Física Quântica pôde jogar dados com o universo e verificar empiricamente o princípio da incerteza. Esta ciência também se valeu da descoberta da essência dualista das ondas eletromagnéticas, a qual teve participação de Einstein, e das demonstrações empíricas de que qualquer corpo material pode ter comportamento de onda.

No método científico, existe uma regra-mor sobre os resultados de uma experiência: não se deve extrapolar os resultados. Os resultados de um experimento não são uma panacéia, são uma resposta modesta para uma verificação modesta de uma hipótese. Verificou-se experimentalmente o caráter probabilístico das partículas elementares. Mas isso não quer dizer que tenha sido verificado experimentalmente que bolas de basquete e pessoas se comportam como partículas quânticas. E nesse ponto o filme tropeçou crassamente, como nas cenas do basquete e da multiplicidade da protagonista.

A Física Quântica de fato escandaliza o senso comum que temos sobre a matéria e a energia. Mas como toda ciência, não se propõe a interpretações de caráter moral, ético, político, religioso e comportamental como as que são divulgadas do começo ao fim do filme (os cientistas podem e devem fazê-lo pessoalmente). Há espaço para que se pense a respeito, mas as teorias científicas quânticas dizem respeito às partículas, e não devem ser levianamente aplicadas a outros aspectos da natureza sem a devida experimentação. Toda matéria e energia é resultado das interações quânticas, mas não se vê trabalhos científicos sérios que atestem as afirmações que existem no filme, como a de que o “mundo nos sente” e de que a realidade natural é fruto de nossas mentes. Também são altamente controversas as idéias de que não há limites para se influenciar o corpo com idéias. Nenhum dos autores se preocupou em verificar sua segurança nesta hipótese, dado que nenhum deles tentou andar sobre a água (algo sugerido no filme), entortar talheres com a força do pensamento ou fazer crescer um membro amputado.

É algo extremamente negativo, no filme, que se compare partículas quânticas às decisões das pessoas, às “verdades” e “realidades” e outras facetas humanísticas, pois estas não são do escopo de aceleradores de partículas. Esta interpretação obviamente pessoal gera muita confusão e atribui à Ciência o que não é verificável experimentalmente. A ciência tem de partir do postulado de que os órgãos dos sentidos humanos são confiáveis e de que captam uma realidade física independente da espécie humana. Foi assim que se chegou a muitas coisas que não podem ser captadas pelos sentidos humanos, como ondas de rádio. Novamente, nenhum autor se preocupou em exibir evidências de que o mundo físico é apenas “a ponta do iceberg” num todo de universos paralelos. Essa afirmação também não foi verificada experimentalmente pelos físicos quânticos.

Pode ser muito positivo que haja no filme a divulgação de certos conhecimentos científicos, mas para compreendê-los a fundo os espectadores terão de fazer muito mais do que alugar um DVD.

É curioso que em nenhum momento os autores tenham falado sobre o método científico (ou evidências de suas afirmações). Sobre os mecanismos de obtenção de respostas que os pesquisadores usam. Tem-se a impressão de que os achados são revelações religiosas, ao ponto de desbancar a concepção que as pessoas têm sobre divindades. Não se compara o fisicamente testável com o metafísico. Os dois saem feridos dessa mistura.

É falaciosa a afirmação de que existe um composto químico para cada emoção humana. Novamente, não se apresentaram evidências. É passada a impressão de que cada célula no corpo percebe as emoções de uma pessoa, ou de que cada célula reage a elas. A informação foi obscurecida a tal ponto que as cenas cômicas com animações de células (que defendem a idéia de que as células possuem algum tipo de consciência) chegam a ser constrangedoras para alguém que já estudou os fundamentos de biologia celular e sinalização celular.

A representação e narração sobre as sinapses está em algumas partes equivocada. A transmissão de comandos nervosos não consiste apenas em corrente elétrica mas também em neurotransmissores. “Tempestade elétrica” é um termo mais usado para epilepsia do que para o funcionamento comum do cérebro. As informações transmitidas no filme sobre a relação entre neurônios e a relação do cérebro com o corpo também foram demasiado obscuras. Criticou-se o determinismo, mas ao mesmo tempo ele foi praticado quando sugeriu-se que as pessoas procurassem explicações exclusivamente bioquímicas sobre suas emoções e problemas. Alegou-se que as emoções foram “projetadas”, o que é uma idéia que vai contra a Biologia e não a favor dela. “O observador” não foi devidamente definido embora tenha sido uma constante na argumentação do filme. Se é a consciência humana, é louvável que se encoraje os espectadores à reflexão sobre si mesmos. É natural que o cérebro tenha apenas uma parcela de suas ações executadas voluntariamente, pois se houvesse consciência de todos os seus processos, a energia a ser gasta seria provavelmente insustentável.

A afirmação de que pensamentos e emoções humanas interferem na formação de cristais de gelo é falaciosa e pseudo-científica. Foi dito que a água é um dos “quatro elementos”, mas este modelo de elementos está ultrapassado há séculos e é usado apenas em cultos místicos. Foi infeliz para o filme falar tanto em ciência e sequer explicar que já existem mais de uma centena de elementos descritos, e que a água é formada por dois deles. Para se falar em formação de cristais no gelo, é obrigatório analisar interações intermoleculares, e fez muita falta a explicação exata de quais mecanismos o pensamento humano usaria para influenciar na forma final de um cristal de gelo. Sequer foram apresentadas evidências de que este fenômeno realmente acontece, apenas um relato com apelo à autoridade do autor do experimento.

Falou-se também em “ciência desconhecida”. Se esta é a razão de não apresentarem evidências no filme, apenas apelo à empatia dos espectadores e à autoridade dos autores, só o tempo dirá.

“Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.”

Carl Sagan, 1980

Embora a divulgação científica seja sempre algo muito bem-vindo, é preciso ter critérios para que a informação seja passada corretamente dentro de um contexto que seja o mais imparcial possível. É preciso separar ciência (que usa o método) e pseudo-ciência (que fracassa em aplicar corretamente o método). Também é preciso que se evite confrontos com a metafísica das religiões e filosofias.

Neste filme é passada uma visão perigosa sobre o homem. É uma visão narcisista de um ser humano quase onipotente, de um universo submetido à vassalagem do antropomorfismo ufanista aplicado às suas entranhas. Pois se afirma que a realidade é dependente do que o homem pensa e que tudo o que conhecemos é a combinação de pensamentos e idéias. Esta visão é natural para as religiões, mas pode apenas prestar um desserviço à ciência.

A Ciência é, como o filme tentou demostrar, algo extremamente transformador sem o qual mal se viveria atualmente. Mas a Ciência não é feita do que achamos emocionalmente lucrativo, e sim do que é corroborado empiricamente. Não se propõe a ser uma verdade absoluta, mas uma verdade aprimorável com mecanismos de auto-correção. Teorias científicas amplamente verificadas são tão verdadeiras quanto a necessidade de se respirar. Mas se um indivíduo se propõe a duvidar da verossimilhança deste fenômeno, de seus pulmões e do ar, num misto de credulidade ingênua e ceticismo exacerbado, não haverá muita resposta para ele dentro da ciência. Julgar se outras áreas fornecerão respostas afins, sem um método confiável, é algo estritamente subjetivo.

14th of September

Religião (cristã): o problema da coerência


Por algum tempo eu venho dizendo que moderação nas religiões abraâmicas é como uma galinha chocando os ovos do Godzilla. Os argumentos a seguir explicarão.
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Se os cristãos moderados propõem que o mito da criação é uma metáfora, não têm onde pôr freios à corrosão ácida que essa ‘metaforização’ vai causar nos relatos bíblicos.

Estarão somente selecionando o que lhes convém para julgar como literal, como a concepção da Virgem Maria (para os católicos), ou a paternidade divina de Jesus.

Metáfora por metáfora, Javé será uma metáfora para as leis da física? A história de Jonas e a baleia é uma metáfora? A história da ressurreição de Lázaro é metafórica? E a da filha de Jairo? E a multiplicação dos pães, o milagre de Canaã, o andar sobre as águas, a aparição para Tomé? Ora, todos esses relatos gozam de tanta santidade e evidências quanto o mito da criação em seis dias, a mulher vindo da costela e o dilúvio universal (os pontos favoritos para metaforizar atualmente).

Os fundamentalistas estão ‘certos’ em dizer que tudo é literal na Bíblia, porque foi assim que sempre funcionou e a metaforização contemporânea seria vista como uma heresia pela maioria dos líderes cristãos que já existiram.
É claro que para fazerem isso os fundamentalistas precisam se resguardar numa patética ignorância (e relutância) quanto aos fatos da natureza e as descobertas científicas.

Desse modo, mais coerentes ainda são os cristãos da chamada “ciência cristã” que se recusam a tomar remédios obtidos pela ciência (a verdadeira) e preferem esperar por milagres para curar coisas como gripe e câncer. Estão sendo coerentes com sua religião, assim como são os homens-bomba com o Islamismo.
Se o Corão incita os seus fiéis a matar os infiéis, quem são os moderados muçulmanos para dizer não?

Desconfio até que existem moderados porque eles não suportam a precariedade de seus próprios livros sagrados e são pessoas sem fé! Se a Bíblia diz que todas as espécies de animais foram botadas numa arca de alguns côvados de comprimento e largura, os moderados precisam ter fé na palavra sagrada! Se o Corão diz para cortar os pés e mãos dos infiéis em lados alternados, os muçulmanos precisam ter fé nisso também.

Certas coisas precisam ser absolutas e não admitem a hipocrisia da moderação ou do meio-termo. Moderados não seguem suas religiões, mas continuam se dizendo pertecentes a elas apesar delas mesmas.

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Se você se diz parte de uma religião, mas considera certos pontos do que ela diz mera metáfora, então você não é legitimamente parte da religião. Se cada um está livre para considerar este ou aquele ponto uma metáfora, e não há critério quanto até que ponto a metáfora vai, então podemos ter dentro dessa religião um ateu que levou a metáfora até suas últimas conseqüências (o que fica tão coerente quanto o fundamentalismo).

Se há tanto livre pensamento dentro da religião considerada, então ela se desmembrou e se decompôs por dentro. Não é mais uma religião (no sentido restrito de ser uma manifestação coletiva).

Meu ‘problema’ não é com o modo tão comum de interpretar a religião através de acepções pessoais – acho até admirável do ponto de vista de acalmar os ânimos. Meu problema é com a coerência filosófica que resultará disso.

É tradição querer organizar as coisas, e é isso que desejo saber, o que restará a ser organizado se for proposto algo menos que “8 ou 80” quanto às afirmações do cristianismo?

Bart D. Ehrman diz: “os textos podem ser interpretados, e são interpretados (assim como foram escritos) por seres humanos que vivem e respiram, que só podem extrair sentido dos seus textos explicando-os à luz de seus outros conhecimentos (…). Por isso é que ler um texto é, necessariamente, mudá-lo”.

Mas é de se espantar que um ser onisciente e onipotente prefira se manifestar por maneiras tão obscuras. Para mim parece uma pista da falsidade dele, pois o mínimo que eu posso esperar de um ser inteligente (mais inteligente que todos nós) é que ele se expresse com o mínimo de lógica num texto sagrado que não dê espaço para interpretações escusas de caráter íntimo. Afinal de contas, ele criou ou não criou o mundo? Se posso interpretar o mito bíblico como metáfora, o que me impede de interpretar a criação em si como metáfora, algo que não aconteceu literalmente?

Sem essa de ‘linhas tortas’, também. Se Deus quer ser adorado e receber orações, seria lógico que tivesse um comportamento livre de obnubilações. Se ele permite tanta liberdade de interpretação para o que ele disse, então ele permite muitas interpretações referentes à sua própria natureza, a maioria delas, por uma questão estatística, plenamente errôneas e até ofensivas. “Fiéis, podem me subestimar até como uma entidade antropomórfica vingativa que cria primatas a partir de barro, mas o importante é que me adorem e paguem o dízimo”.
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CIÊNCIA E RELIGIÃO

Modelos científicos não são completamente destruídos. Eles costumam ser melhorados, como o que aconteceu com Newton, com os modelos atômicos, e até com a teoria da evolução. Coisas como a geração espontânea, por exemplo, nunca chegaram a ser modelos científicos per se, porque não conseguiram excluir alternativas.
Já a religião, quando muda radicalmente, costuma ser por meio da força bruta ou do poder, nunca por causa das evidências.

O que deterá a corrosão ácida que a metaforização está causando?

Qual é a escala de fantasia que estão usando para dizer que certa coisa é fantástica demais para ser literal na Bíblia? Porque a história do messias não é tão fantástica quanto a da criação do gênesis?!

Há muitas limitações biológicas impostas à história da concepção da virgem, e elas podem ser tão numerosas quanto as limitações à criação divina de seis dias.

Se estou sendo radical demais ao exigir um 8 ou um 80, é porque não vi nenhum método confiável apresentado pelos cristãos que seja justo ao julgar o que é metáfora na Bíblia.
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TEOLOGIA LIBERAL

Três elementos da Teologia Liberal segundo o bispo anglicano Dom Sumio Takatsu (apenas os parágrafos com número):

(1) “É receptivo à ciência, às artes e estudos humanos contemporâneos. Procura a verdade onde quer que se encontre. Para o liberalismo não existe a descontinuidade entre a verdade humana e a verdade do cristianismo, a disjunção entre a razão e revelação. A verdade deve ser encontrada na experiência guiada mais pela razão do que pela tradição e autoridade e mostra mais abertura ao ecumenismo.”

Traduzindo: “caro fiel, se vire. Se acha que não consegue acreditar ao mesmo tempo em concepção virginal e genética molecular, faça uma sublimação dos dois conceitos, guarde para si, e não me venha com chorumelas. Pode xavecar com religiões que dizem coisas diferentes das que eu digo, não tô nem aí”.

(2) “Tem-se mostrado simpatia para com o uso dos cânones da historiografia para interpretar os textos sagrados. A Bíblia é considerada documento humano, cuja validade principal estar em registrar a experiência de pessoas abertas para a presença Deus. Sua tarefa contínua é interpretar a Bíblia, à luz de uma cosmo-visão contemporânea e da melhor pesquisa histórica e, ao mesmo tempo, interpretar a sociedade, à luz da narrativa evangélica.”

Traduzindo: “Caro fiel, lembre-se acima de tudo que a Bíblia diz coisas bonitas, portanto alguma coisa deve ter de verdade. Se não sabe por que outros documentos humanos como as cartas que você escreveu para a sua namorada não são considerados sagrados, saiba que a Bíblia é velha, chegou primeiro, então merece estar no altar. Interprete a sociedade baseando-se no sermão da montanha, não no massacre de Jericó, por favor”.

(3) “Os liberais ressaltam as implicações éticas do cristianismo. O cristianismo não é um dogma a ser crido, mas é um modo de viver e conviver, caminho de vida.”

Traduzindo: “Caro fiel, apenas se diga cristão porque a gente gosta de ver você fazendo isso. Faça o que é certo como nós dizemos, continue a tomar a hóstia mesmo achando que está só comendo um pedaço de farinha. Quanto a Cristo ser Cristo mesmo, esqueça, coma essa farinha e cale a boca”.

Os postulados da Teologia Liberal não resolvem o problemão de ter um Deus onipotente e onisciente que não se comporta como tal.

Se Deus deixou que um livro de homens como a Bíblia tivesse justificado tanta besteira em nome dEle, então não é ao mesmo tempo bom e intervencionista. Minha linha de argumentação me leva aos clássicos argumentos de Epicuro:

“Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então não é onipotente. É capaz, mas não deseja? Então é malevolente. É capaz e deseja? Então por que o mal existe? Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus?”

Nos moldes da teologia liberal o conceito de Deus como ser inteligente, dotado de poderes e criador da natureza é um conceito tão oco quanto um unicórnio com essas mesmas características.

Se é para metaforizar o Antigo Testamento dando privilégios de literalidade apenas para o Novo Testamento, ainda teremos o problema de saber se há uma ligação válida entre os dois quando o último cita o primeiro.

Existe a interpretação de que Cristo morreu para lavar o pecado original de Adão e Eva. Se a história de Adão e Eva é uma metáfora, Cristo morreu então em nome de caprichos de estilo literário de seu Pai – o que diminui o feito.

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ADAPTANDO EPICURO AO PROBLEMA LITERAL/METAFÓRICO

Deus deseja passar aos homens mensagens explicativas sobre si mesmo e sobre as origens, mas não é capaz de fazer de tal modo que seja uma mensagem literal que não permita interpretações mutuamente excludentes ou refutação com base em evidência? Então não é onipotente.

É capaz, mas não deseja? Então ninguém sabe sobre a sua natureza, nem mesmo que se trata de um ser único ou de um ser que criou o universo.

É capaz e deseja? Então por que os textos sagrados já produzidos pela humanidade são tão etéreos, perdem tanto tempo em homilias, e quase nunca acertam alguma coisa sobre a natureza (revelando assim a limitação de quem realmente os escreveu)?

Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus, e por que sequer o consideramos uma possibilidade plausível quando o único motivo para fazê-lo é nosso desejo de ter um universo aconchegante?

Ou então Deus é apenas algo sem inteligência, a base da matéria e da energia, por isso não é capaz de ditar textos sagrados, nem deseja, nem tem a capacidade de desejar qualquer outra coisa. Algo extremamente simples que deu origem a todo o universo, mas passa longe de ter a inteligência de uma bactéria e a sabedoria de um camundongo.
Me parece que essa é a metáfora para Deus.

Pode-se julgar que é metafórico apenas o que está escrito em linguagem poética na Bíblia?

Não. Isso é subjetivo e seria um método desonesto. O sermão da montanha está em linguagem poética. E então, os bem-aventurados aflitos serão ou não serão consolados? É metafórico, então devo interpretar que os aflitos serão consolados não porque há uma força consoladora que os aliviará, e sim porque o tempo cura a aflição, ou então porque a morte será um consolo porque extinguirá a aflição negativamente.

Cristo andou sobre as águas violando as leis de Newton e acusou os profetas de serem homens de pouca fé. Se a passagem me parece poética, então é metafórica, quer dizer apenas que a fé é um fortificante transformador da personalidade e não um artífice da natureza.
Mas se a passagem não é poética, quer dizer que Jesus violou as leis da Física.

Nenhum problema, afinal ele é o filho de Deus e tinha poder para isso, não é?
OK, ser religioso é acreditar nessas coisas que aconteceriam poucas vezes na história. Mas o que está em discussão aqui é: os religiosos estão dispostos a serem coerentes de modo a acreditar em eventos milagrosos relatados na Bíblia de forma a ignorar sua inconsistência frente à ciência?

Pode existir uma linha contínua de coerência quanto ao modo de considerar um ou outro evento milagroso uma metáfora porque é vergonhosamente inconsistente?
O fato de descartar a literalidade é reflexo de reflexão lógica profunda ou mera seleção com base em apetite?

Dizer que os milagres de Cristo são literais e o dilúvio universal é metafórico só transparece a motivação primordial da religião: humanizar o universo. Julgar que algo é verdade porque é bonito e reconfortante.

Esta motivação, apesar da absurda incoerência, é o que jaz por trás da retórica teológica, da ascenção e queda de dogmas, dos mistérios da fé, dos milagres, e todos os pilares fundamentais do cristianismo.

14th of September

Batismo


“No século XIX alguns arqueólogos descobriram em Enoanda, atual Turquia, os restos de uma muralha, com uma inscrição. Dela constavam trechos de ensinamento que Diógenes de Enoanda, discípulo de Epicuro, gravou para disponibilizar a todos quantos passassem por ali, fosse homem, mulher ou criança, de qualquer nacionalidade, o que seria um resumo da sabedoria humana em quatro frases, uma prescrição médica para a alma, um TETRAPHARMAKON [τετραφάρμακος] que dizia:


1) Não há nada a temer quanto aos deuses;

2) Não há necessidade de temer a morte;

3) A Felicidade é possível;

4) Podemos escapar à dor.”

Embora a cura em quatro partes (tetrapharmakos) possa não ser completamente verdadeira ou factível, este blog será uma tentativa de fazê-la verdadeira e factível.
Como biólogo e ateu, quero executar esta tentativa in vitro, pelas rédeas da razão e da ciência.
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18/03/2008

O aparente paradoxo acima merece explicação.
Quando digo que não é factível, mas mesmo assim o farei, o que tenho em mente é que não me esforçarei diretamente em convencer ninguém de que deuses não devem ser temidos.

Muitos sistemas de crença trouxeram justamente o contrário do que propunham ao terem a preocupação ávida de tentar mudar atitudes e pensamentos. Muito mal brotou da preocupação excessiva em estabelecer padrões pétreos de bem.

Me interesso apenas por conhecer, questionar, e argumentar. O que derivar disso, acredito, é que vai insuflar em mim e nos outros os princípios do Tetrapharmakos. Em buscar a amoralidade científica e tentar trazê-la para a Filosofia, para que nossas conclusões não sejam contaminadas por nossos desejos e nosso modelo de mundo não tenha cheiro de esperança ingênua ou desespero, podemos nos deparar eventualmente com uma resignação sábia para com a indiferença do Universo, uma contemplação vivaz da Natureza sem qualquer subserviência à sua força, apenas respeito.

A figura de Epicuro inspira uma atitude mental sã, de um ser humano que desperta e se vê como um simulacro racional; que vê a Natureza não como mãe bondosa, nem como madrasta má, mas como um berço inerte ao mesmo tempo confortável e desconfortável. E ainda assim, uma mente perspicaz, que usa de múltiplas hipóteses e intuição probabilística para explicar fenômenos e impressões, que tem uma atitude empática para com outras mentes, e que expurga a trivialidade do dia-a-dia dando lugar a uma sucessão de espetáculos.

Esta atitude filosófica, encontrada como subproduto de um modo de pensar e não como um santo graal digno de sede sôfrega, é que permite a libertação do temor da morte e dos deuses, e uma nova forma de suportar a dor e desfrutar da felicidade – esta também um subproduto, não uma jóia cobiçada.

11th of September

(Christian) Religion: The Coherence Problem


For some time I have been saying that moderation in abrahamic religions can be described as a hen hatching Godzilla’s eggs. The following arguments will explain.

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If moderate religious people claim the myth of creation is a metaphor, they will have no power to cease the acid digestion that this ‘metaphorization’ will cause to sacred historical reports (the contents of religious books).

Moderates will be just selecting what is convenient to judge as literal, like the Virgin Mary pregnancy (for Catholics), or the divine parenthood of Jesus. In short words, cherrypicking.

Concerning thoroughly these metaphors, would Yaweh be a metaphor for the laws of Physics? The story of Jonah and the ‘whale’ is a metaphor? The resurection of Lazarus is metaphoric? What about Jairus’ daughter? And the bread loafs being multiplied, the turning of water into wine, the walking upon waters, the apparition to Thomas?

These stories have as much evidence and santity as the six-day creation myth, Eve coming from Adam’s rib, and Noah’s ark (the favorite metaphor spots nowadays).

Fundamentalists are “right” on saying that everything is to be taken literally in the Bible, for thus has happened and worked for centuries and the modern metaphorization would be seen as a heresy by most christian leaders that ever lived.
Of course, by doing so the fundamentalists need to attach to a pathetic ignorance (and reluctance) about nature and scientific discoveries.

Thus, even more coherent are the “Christian Science” believers who would rather wait for a miracle than take medicine to cure diseases like flu and cancer. They are being coherent with their religion, and so are the suicide bombers with Islam.
If the Koran spurs muslims to kill the infidels, on what grounds could a muslim moderate possibly retort otherwise?

I even suspect there are moderates because moderation is the response for those who do not endure the precariousness of their own holy books, those of little faith! If the Bible says that every single animal species has been embarked in an ark of some cubits in length and width, moderates must have faith in the holy book! If the Koran recommends infidels should “have their hands and feet on alternate sides cut off”, muslims ought to have faith in the holy word.

Certain things must be taken in absolute terms and do not fit into moderate hypocrisy. Moderates do not actually follow their religions, but claim themselves to be part of them notwithstanding their basic dogmas.

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If you allege you belong to a religion, but regard certain claims of it as mere metaphor, is your allegation truthful? If anyone is free to consider which point is metaphoric, and there is no reliable criterion as to how far goes the metaphor, so we can have within this religion an atheist who has taken the metaphor to the furthest conclusion.

If there is so much free thinking within the given religion, it has probably scattered and decomposed from inside, and is not properly a true religion (in the strict sense of religion as a collective phenomenon).

The ‘problem’ is not the so common habit of interpreting religion through a personal scope – this is a rather admirable strategy from the perspective of calming down the fuss. But could any philosophical coherence be derived from such a stance?

It is traditional to try and organize ideas, and this is a much important task to be done if coherence is wanted out of complete metaphor or complete literality (apparently the only means to imediate coherence) of christian claims. Metaphor seems to be attempted as the fine line between literality and litterality (from litter, complete rubbish).

Bart D. Ehrman says: “Texts do not simply reveal their own meanings to honest inquirers. Texts are interpreted and they are interpreted (just as they were written) by living, breathing human beings, who can make sense of texts only by explaining them in light of other knowledge, explicating their meaning, putting the words of the text “in other words”.”(book Misquoting Jesus)

But wouldn’t it be unlikely that an almighty omniscient being could not find any clear enough means to convey his message? Wouldn’t God avoid such vulnerable obscure texts that allow opposite interpretations?

Such lack of clarity can be a clue to uncover this being as purely fictitious. The permissive attitude towards these texts is not to be expected from an ultra intelligent deity – on the contrary, minimal logic is to be expected, as well as avoidance of personal (not universal) interpretations on answers about whether he did or did not create the world, for instance.

If we are free to interpret the biblical myth as a metaphor, what could halt us when doing so about the creation of the universe, something that in this view did not happen literally?

The commonplace statement “God moves in mysterious ways”, when applied as an answer to these questions, plunges religious thought into ridicule. Where are the mysterious ways when Religion claims he wants to be worshiped and receive prayers? These godly cravings are all too hard to understand for an entity with this weird taste for mystery.

If this deity allows so much freedom of interpretation on what he supposedly said, his behaviour is too lenient: does not scrutinize the vast number of interpretations about his own nature, most of them wrong and even outrageous, for obvious statistical reasons.

“All faithful, ye may underestimate me even as an anthropomorphic revenge-thirsty entity who builds primates out of clay, but the most important is to worship me and pay your tithes”, God would say.

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SCIENCE AND RELIGION

Scientific models are not completely destroyed. They are usually enhanced, as happened to Newton’s, to the atomic models, and even to the theory of evolution. Things such as spontaneous generation, for instance, have never reached per se this status, for they failed to exclude other alternatives.
But for religion, when it changes substantially, it happens by means of force or power, never on an evidence basis.

This historical process of change by force seems to be in a crossways with modern interpretation of holy texts. What else but evidence could spur such condescending attitude?

What could halt the acid corrosion caused by metaphors?
On what fantasyometer can religions rely upon to weigh whether something is too fantastic to be taken as literal in the Bible?

The birth of a messiah is more or less fantastic than a divine creation as described in Genesis?

Some more problems rise: there are serious biological limitations to virgin conception (as Catholics believe), and these may be as numerous as physical limitations to a creation six days long.

If it is too radical to demand extreme position, the sole reason for this demand is the abscence of a reliable method (never mind text exegesis and hermeneutics) among those proposed by believers fair enough to judge what is and is not a metaphor in the Bible.
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LIBERAL THEOLOGY

Three elements of Liberal Theology according to the Anglican Bishop Sumio Takatsu (only numbered paragraphs):

(1) “It is receptive to science, to arts and present human studies. Seeks truth wherever it is. For Liberalism, there is no disconnection between the human truth e and the Christianity truth, [no] disjunction between reason and revelation. The truth is to be found in experience driven more by reason than by tradition and authority, and [Liberal Theology] shows itself open to ecumenism.”

This could be read this way: “dear Christian, if you reckon you can’t believe in virgin conception and molecular Genetics at the same time, just do some sublimation to both concepts, keep it to yourself, and cease your complaints. You may flirt with other religions which say things different from those that I say, I don’t really give a damn.”

(2) “Simpathy has been shown towards the usage of the Historiography canons [sic] to interpret holy texts. The Bible is considered a human document, whose mean validity is in registering the experience of people open to God’s presence. Its persistent task is to interpret the Bible, in the light of a modern cosmovision and of the best historical research and, at the same time, interpret society, in the light of the gospel narrative.”

An alternative translation to Takatsu’s words (not said by him literally – I’m just feeling free to put his ideas in other words): “dear Christian, remember, above all, that the Bible says cute things, therefore must be true about something. If you don’t know why other human documets (like the letters you write to your girlfriend) are not considered as holy as the Bible, be aware that the Bible is old, it came first, so it deserves a special place in the altar. And please, interpet society based on the Sermon on the Mount, not in the Jericho massacre.”

(3)”The liberals stress the ethical implications of Christianity. The Christianity is not a dogma to be believed, but a way of living and living together, a path of life.”

In other words: “dear Christian, just say you are a Christian because we like to see that happening. Do what is right as we say, keep on taking the bread even thinking it is not Christ’s body. About whether Chirst is really the Christ, forget about it, eat the bread and shut up.”

The Liberal Theology’s postulates do not solve the great elephant in the room of having an almighty and omniscient God who does not behave as such.

If God didn’t mind that a book of men like the Bible had been used to justify so much nonsense in His name, so he cannot be good and interventionist at the same time. My line of reasoning takes me to the classical arguments by Epicurus:

“Either God wants to abolish evil, and cannot; or he can, but does not want to. If he wants to, but cannot, he is impotent. If he can, but does not want to, he is wicked. If God can abolish evil, and God really wants to do it, why is there evil in the world? He cannot and doesn’t want to? Then why call him God?”

In the manners of Liberal Theology, the concept of God as intelligent, powerful and creator of nature is as hollow as an unicorn with the same abilities.

If the Old Testament is to be metaphorized, and the priviledges of literality are to be given solely to the New Testament, we will face the problem of whether there is any meaningful link between both when the last one cites the first one.

There is an interpretation according to which Christ died to wash away the original sin perpretated by Adam and Eve. If Adam and Eve’s story is a metaphor, Christ died on behalf of vagaries of his father’s literary style – what certainly diminishes the deed.

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ADAPTING EPICURUS TO THE LITERALITY/METAPHOR PROBLEM

God wants to convey explanatory messages to Humanity about himself and about origins, but he is not able to do it through literal messages that would not allow mutually exclusive interpretations or evidence-based rebuttal? Then he is not omnipotent.

He is able, but does not want to? So nobody knows anything about his nature, not even if he is only one or an assembly of entities, not even if he did create the universe.

He can and wants to? Then why the holy texts ever produced by Humanity are so ethereal, lost in nonsense and excessive moralism, and almost never predict anything really mysterious in nature (thus revealing who actually conceived them)?

He is not able nor wants to? Then why call him God, and why even consider him a plausible possibility when the only reason to do so is our wish to have a cozy universe?

God could be only something mindless, without any intelligence, the basis of matter and energy, so it is unable to produce holy texts. Neither wants to, nor has the ability to want anything else. Something extremely simple that gave birth to all universe, but is far from being as smart as bacteria or mice.
This seems to me the proper and ultimate metaphor for God (means both Pantheism and Atheism).
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Could be judged as metaphoric only what is written in poetic language in the Bible?

No. This would be too subjective and dishonest a method. The Sermon on the Mount is in poetic language (a beautiful one). So, will the blessed that mourn be comforted or not? If it is metaphoric, then I may interpret that “they that mourn” will be comforted not because there is a comforting force that shall relieve them, but because time heals grief, or because death will be a consolation extinguishing all perception including grief.

Jesus walked on the water violating the laws of Physics and called the prophets men of little faith. If the excerpt seems poetic, therefore metaphoric, this means that faith spurs stronger attitude, not that faith can make of mockery of Newton’s laws. But if the excerpt is not poetic, means that Jesus really did it.

No problem, after all he is the son of God and had the power to do it, right?
To be religious is to believe in things that would happen few times in the course of History. But what is being questioned here is: religious people are ready to be coherent in order to believe in miraculous events reported in the Bible and ignore their inconsistency before science?

Could a line of coherence be drawed when pointing one or another of these miraculous events a metaphor because it is embarassingly inconsistent?
Discarding literality begins among thorough logic reasonings, or sheer selection of explanations on an emotional appetite?

Stating that Christ’s miracles are literal and Noah’s ark is metaphor only denounces the primordial motivation of religion: to humanize the universe. To judge something as true because it is beautiful and comfortable.

This motivation, despite its absurd incoherence, is what lies behind the theological rhetoric, the rise and fall of dogmas, the mysteries of faith, the miracles, and all the fundamental pillars of Christianity.