23rd of fevereiro

Livro, Um Delívrio


Com o perdão do trocadilho, vim comentar o que vejo há muito tempo e considero um preconceito popular. Vou batizar de falácia felipenetiana. É a noção de que quantidade de leitura significa qualidade de leitura. Vemos a falácia felipenetiana também implícita nos vários youtubers que fazem vídeos na frente de uma estante lotada. (Não que eu seja contra, é bonito mesmo.)

Ler muito pode ser ruim. Mais importante que ler muito é ler com diversidade. Ler muito não é problema se é para distração com romances, ou com sequências de fatos pouco consequentes, ou seja, se é sua versão de passar horas vendo séries ou vídeos, que você não finge que é necessariamente melhor que outras formas de distração. O problema é a insinuação da falácia felipenetiana que ler muito é ler melhor, ou que vai te tornar uma pessoa mais inteligente e autônoma no pensamento.

Com frequência, quando eu critico um autor, um de seus fãs alega que eu tenho que ler ou a obra inteira, ou um livro inteiro antes de criticar. Minha resposta é que isso não é necessário, se eu sigo um método de amostragem representativa no que ele escreveu.

Além disso, sou preguiçoso, confesso. Não leio Dune por isso, apesar de achar o universo de Frank Hebert bem interessante. Por causa da preguiça uso esse método de amostragem, que tem o benefício de ter validação científica. Na ficção, só Harry Potter e Dostoievsky eu li vorazmente. Ler de capa a capa é perfeccionismo bobo. Então, leia só uma parte, mas não só a parte do começo. Para se permitir fazer isso você precisa perder esse preconceito perfeccionista bobo de ler do ISBN até o “impresso em papel Bíblia por Gráfica Fulana”.

Claro que, assim como no uso da amostra dentro da ciência, sua opinião vai depender da qualidade da sua amostra. Três páginas iniciais vai geralmente ser uma amostra viciada do resto. Daí a sugestão de introduzir um elemento aleatório. E aumentar a amostra também. Até que ponto? Depende, claro. Mas 10% é suficiente para qualquer livro, talvez até demais se é uma ficção que não está te ganhando. Outra dica para melhorar a amostragem é olhar citações célebres do autor ou da obra. Se você concordar com os fãs que aquilo é realmente bom, é um sinal de que talvez valha a pena aumentar a amostra, ou, se assim quiser, finalmente ler tudo. Só não entre nessa onda generalizada de desonestidade sobre o quanto se lê. Todo mundo sabe que é mentira.

Se eu acho que leio menos do que eu deveria ler? Sim, eu acho. Não conheço pessoa racional e interessada em conhecimento que não se flagele com isso. Moral da história, mesmo assim: não sou vaca para consumir quilos e quilos de celulose todo dia.

9th of dezembro

Transexualidade: um papo embasado


20 Minutinhos
Transexualidade: um papo embasado







/

Aprenda o que mais importa sobre transexualidade num papo com Ágata Cahill e Matheus Stonoga. Músicas de Matheus Souza Celius.

28th of outubro

FADIG-19: Não há problema em se cansar de falar do vírus e querer tocar a vida


Cansaram do coronga? Não aguentam mais falar em Covid? Pararam de acompanhar os números? Normal. Adam Smith comenta que uma pessoa pode lamentar a morte de milhões e dormir tranquila, mas, se for perder um dedinho amanhã, não dorme hoje. Não é algo a se lamentar sobre as pessoas: é uma limitação a se entender.

Quem não entende isso é quem esposa utopias como sistemas a serem implantados, e ataca “capitalismo” (liberdade econômica) sem entendê-lo. Seres humanos são limitados em preocupações e têm seus interesses em primeiro lugar. Que estejam livres pra praticar seu “egoísmo” é algo bom.

Daí a outra passagem famosa de Adam Smith: não é da boa vontade do padeiro que obtemos o pão. Ele segue o interesse de obter um lucro em cima de transformar farinha em pão. Você segue o seu objetivo de dar parte do que você tem para poder comer o pão. Ganho mútuo, motivações “egoístas”.

A liberdade de poder perseguir interesses “egoístas”, dando em mútuo ganho para quem se envolve nessas trocas, é o que faz uma sociedade produtiva e próspera. O que não a faz produtiva é próspera, em contraste, é ralhar com o padeiro que ele é um suposto monstro por não pagar certo valor mínimo arbitrário para seu assistente de forno.

Quem gosta de gente entende que gente é bicho limitado, que é normal que prefira o próprio filho a uma criança aleatória, que se preocupe mais com própria fome do que com o sofrimento das vacas. Quem quer que mais pessoas tenham uma boa vida quer mais liberdade, não mais interferência.

Não é surpresa, portanto, que, quanto mais uma cabeça se ocupa de utopias e sermões morais, por pensar que é ungida e tem a fórmula mágica do mundo melhor, mais esta cabeça é misantropa. Dos socialistas aos veganos. Observem quantos veganos dizem que gente é parasita do mundo.

Ora, é justamente entre os moralistas, que se ocupam profissionalmente de pensar tudo o que fazemos de errado por botar nossos interesses em primeiro lugar, e entre adeptos de utopias, que faz sucesso o antinatalismo de David Benatar: que seria errado trazer mais pessoas ao mundo.

Não é para dizer que moralistas e utópicos estão sempre errados: seus argumentos às vezes fazem sentido. Mas têm uma incompreensão fundamental da natureza humana, que vêem como infinitamente maleável e capaz de altruísmos artificiais como “posse coletiva dos meios de produção”.

Por que os progressistas identitários querem cancelar Steven Pinker? Aí está a resposta. Pinker, apesar de progressista, é um dos principais críticos da opinião de que seres humanos são uma folha em branco, uma tábula rasa, infinitamente moldável à imagem e semelhança do progressismo.

E não tem coisa que utópicos que não acreditam em limitação humana odeiem mais que ouvir de cientista que o ser humano tem limitações e não há problema nisso.

Então, relaxe: você não é uma pessoa pior porque parou de acompanhar notícias da COVID-19 há semanas ou meses. Ponha a máscara ao sair, passe o álcool gel, e cuide do seu jardim. Assim, o que você fará de bom no mundo será um subproduto do que você faz por si mesmo (seu vizinho verá o jardim e se alegrará — clientes e colegas desfrutarão do fruto do seu trabalho).

Não cobre de si mesmo a tarefa impossível de sofrer junto com multidões ou formular o próximo plano infalível do mundo melhor. Deixe os planos infalíveis para os seres infalíveis.

2nd of setembro

A História Profunda do Sexo


20 Minutinhos
A História Profunda do Sexo







/

Um resumo do que se propõe em biologia sobre a origem das espécies sexuadas e diferenças esperadas entre sexos.

6th of agosto

Apertem os cintos, os lacradores vêm aí


20 Minutinhos
Apertem os cintos, os lacradores vêm aí







/

Previsão negativa para o arrefecimento da ideologia da “justiça social crítica” no Brasil, com base no que anda acontecendo no mundo anglófono.

Livro de Ficção Científica lançado: O Quarto Mistério. Leia uma amostra grátis na Amazon: https://amz.onl/0glGPnl

Dissertação de mestrado de Shaun Cammack sobre o caso Evergreen: https://shauncammack19352070.files.wordpress.com/2020/08/final-the-evergreen-affair-shaun-cammack.pdf

3rd of abril

Práticas carreiristas de acadêmicos para inflar a própria importância


– Ciência salame: a pessoa “picota” vários estágios do que, num mundo mais honesto, seria um estudo só, e publica como vários estudos separados para obter mais citações. Número de citações contam para emprego.

– Trenzinho da alegria de autoria de artigos: a pessoa vira co-autora do artigo só por ser membro de algum laboratório ou grupo de pesquisa, mesmo sem ter feito nada pra contribuir pro artigo. É a forma desonesta do favorzinho, do “eu coço suas costas e você coça as minhas”. O favorzinho infla citações dos envolvidos.

– Trenzinho da alegria de citações: “eu cito você e você me cita”. O que não tem nada a ver com a qualidade dos trabalhos citados. É um pouco diferente porque é menos cara de pau, já que não se incluem mutuamente como autores nos artigos, só se citam como favor.

– Citação-sequestro: “ah, você está precisando do meu equipamento no seu experimento? Oh mas que peninha. Só vai usar se me incluir como autor no seu artigo depois.”-

– Citação-sequestro do revisor: para publicar artigos em revistas acadêmicas, é preciso passar pela chamada revisão por pares. Outros especialistas olham o artigo e dão um parecer por aceitar imediatamente, rejeitar imediatamente, ou aceitar contanto que o autor faça algumas correções ou inclusões. O último caso é oportunidade perfeita para revisores predatórios: só publicam o artigo se você citar o que eles querem, que “coincidentemente” inclui eles próprios ou os amigos deles.

Os pesquisadores que não fazem isso geralmente têm um tema ou um método que querem avançar, e chamam por colaboradores de forma diferente, pra realmente contribuir. Algumas revistas, pra coibir isso, listam o que cada pessoa fez no artigo.

Então, quando algum burocrata vem comemorar o número de citações de autores brasileiros na literatura científica, ou o número de artigos publicados, eu não me empolgo, não. Grande parte disso é ciência salame e trenzinho da alegria. Pesquisadores chineses fazem muito isso também.

A versão mais corrupta disso, como comentei numa live, é quando os favores ficam generalizados numa área porque as pessoas começam a fazê-los por afinidade política. A área vira um conjunto de “pesquisadores” que não compartilham curiosidade por um tema: compartilham uma fé.

Como disse na live: comunidade de crença é a coisa mais velha da humanidade. Porque acreditam juntos numa coisa, isso não significa que têm razão. Porque dão um verniz acadêmico às crenças deles, não significa que são diferentes de uma igreja qualquer. Citam uns aos outros para fazer afagos ideológicos entre si, não por progresso cognitivo.

8th of março

Esopo e a Esquerda Acadêmica


Primeiro, (parte d)a esquerda acadêmica criou o pós-modernismo, anunciando que perdeu a fé em objetividade, imparcialidade e neutralidade dos seres cognoscentes e nas peças epistemológicas que criam. Depois, partiu para cumprir essa profecia, destruindo essas coisas no que toca.

Comemoraram quando o New York Times publicou editorial anunciando que tinha lado político nas eleições (que tinha todo mundo sabia, mas o anúncio era oficialização do abandono da aspiração à imparcialidade). Fecham as portas dos acadêmicos que tenham evidências contrárias às suas teses. Fazem birra infantil quando qualquer opinião que não gostam encontra alguma liberdade de ser expressada, em qualquer espaço, partindo inclusive à violência, e deturpando pensadores da liberdade como Karl Popper para dar aparência de justificação à própria intolerância violenta.

Há muita sabedoria nas antigas fábulas e contos da carochinha. Várias atitudes dessa esquerda são descritas nessas histórias para crianças, especialmente as clássicas de Esopo.

O conto do menino que gritou “olha o lobo” é perfeito para descrever o pânico da opressão em todo lugar que olham. Já gritaram tanto “olha a opressão” que não é só a vila o seu alvo: gritam uns para os outros: “seu feminismo não é bom o suficiente porque não é um feminismo negro”, “homens gays têm privilégios acima de mulheres nesta sociedade patriarcal”.

Outro conto perfeito pra descrever a esquerda acadêmica é o da Raposa e as Uvas, que tem tudo a ver com a profecia autocumprida da objetividade impossível. Conta Esopo que, incapaz de alcançar as uvas deliciosas, a Raposa declarou que não as queria mesmo, pois estavam verdes. Como a esquerda acadêmica falhou em dar essas marcas de probidade epistêmica a várias de suas crenças: falhou o marxismo, falhou e continua falhando a ação afirmativa, etc.; ela declarou que essas marcas não podem ser atingidas por mais ninguém. Daí a condenação/ceticismo pirrônico contra a objetividade, a imparcialidade e a neutralidade de conhecedores e conhecimentos.

15th of janeiro

Stephen King tem razão: pedir para considerar “diversidade” de autores é, sim, pedir aceitação para trabalhos de má qualidade


Stephen King, escritor de enorme sucesso, está recebendo revolta como resposta por ter proferido uma mera sensatez:

“…Eu jamais consideraria a diversidade quando se trata de arte. Somente a qualidade. Parece, para mim, que fazer o contrário seria errado.”

As respostas revoltadas são, até onde li, regurgitações da pseudoteoria interseccional, dogma sob o qual está sendo fundada a Nova Igreja Reformada da Justiça Social.

Vocês podem não gostar do meu tom provocativo quando falo disso. Mas, trilhem essa sequência simples de pensamentos:

– Se valorizamos a literatura, é por causa da qualidade. A literatura é uma grande categoria da arte que atende a anseios nossos como espécie, que vão da simples quebra do tédio à apreciação estética da língua e de tramas fictícias.

– Demandar da literatura algo que pouco ou nada tem a ver com qualidade é instantaneamente tirar o foco da qualidade. Sim, podemos preferir mais de uma propriedade de um objeto. Podemos pedir qualidade ao mesmo tempo em que pedimos diversidade de autores baseada em características irrelevantes como cor da pele e sexo. Porém, vivemos num mundo com recursos limitados. Um desses recursos é justamente a atenção dos leitores e apreciadores de literatura. Deixar-se distrair por características irrelevantes de autores é, sim, algo que tende a dar um desconto negativo na atenção dada à qualidade.

– Se os dogmas da NIRJS estão corretos, os autores que são “homens brancos cis héteros” (ninguém explica por que são esses os atributos identitários escolhidos como relevantes, e não, por exemplo, se são diabéticos, se torcem para time de futebol, se consideram Dostoiévski boa literatura) têm sucesso porque são justamente isso, “homens brancos cis héteros”. Mas até esses militantes identitários não vão ousar alegar que não existe nenhuma qualidade literária no trabalho do King que também explique o sucesso dele. E mais, muitos vão dizer que o trabalho dele tem qualidade justamente porque ele desfruta de privilégios concedidos a ele por esses atributos identitários. Neste caso, os oprimidos, destituídos de privilégios, escreverão com qualidade inferior, por não terem os tais privilégios. Dessa forma, não há escapatória: segundo uma interpretação plenamente plausível dos dogmas da política identitária, pedir para apreciar autores por sua identidade oprimida equivale, sim, a pedir para apreciar trabalho de má qualidade. E é esse pedido que estão fazendo em todo assunto em que injetam suas ideias abjetas.

1st of dezembro

Exibicionismo Moral


Trechos do artigo “Exibicionismo Moral” (Moral Grandstanding), de Justin Tosi e Brandon Warmke.

“Este artigo examina o exibicionismo moral, uma proeminente forma de fala moral repugnante, e considera suas implicações morais.”

“Afirmamos basicamente que alguém está praticando exibicionismo moral quando faz uma contribuição para o discurso moral público com a meta de convencer aos outros de que é ‘moralmente respeitável’. Com isso, queremos dizer que o exibicionismo [moral] é um uso da fala moral que tenta fazer com que os outros cheguem a julgamentos desejáveis sobre si mesmo, isto é, que é alguém digno de respeito e admiração porque tem alguma qualidade moral — por exemplo, um compromisso impressionante com a justiça, uma sensibilidade moral altamente afinada, ou poderes de empatia sem paralelos. Exibir-se [moralmente] é transformar a própria contribuição ao discurso público num projeto de vaidade.”

“[S]uspeitamos que o exibicionismo funciona com frequência (mas não sempre) como uma forma de silenciar um rival ao apresentar o exibicionista como moralmente respeitável por contraste implícito. Assim, o exibicionismo [moral] funciona como uma tentativa de silenciar ou desacreditar outros participantes ao comunicar que suas opiniões não são dignas de consideração ou engajamento porque são defendidas por alguém que não é moralmente respeitável, ou que é menos que isso.”

Os autores classificam manifestações do exibicionismo moral, que são essas, em tradução livre:

– “Acumulação”: o exibicionista não acrescenta nada à discussão, mas se manifesta para se alinhar com a pressão social do grupo para o qual ou com o qual faz exibicionismo.

– “Radicalização”: os exibicionistas morais se engajam em competições implícitas de quem sugere a punição mais severa aos delitos morais percebidos, por exemplo, ou quem faz a afirmação mais “surpreendente” alinhada com determinada causa, para intensificar o sinal da exibição. É a corrida armamentista do lacre/mitagem mais impressionante que o lacre/mitagem alheio.

– “Falsificação”: os exibicionistas morais, para intensificar o sinal de sua exibição moral, forjam problemas morais que não existem, ou forjam a gravidade de problemas morais que existem. Como dizem os autores: “Onde algumas alegadas injustiças escapam ao radar moral de muitos, elas não são perdidas pelo olho clínico dos moralmente respeitáveis”, ou seja, dos exibicionistas morais.

– “Ultraje excessivo”: a ideia, aqui, é que a pessoa que demonstrar o maior grau de ofensa subjetiva com algum suposto problema é a que possui a maior capacidade de observação de problemas morais.

Os autores concluem que o exibicionismo moral, ubíquo na era da informação, é na maior parte moralmente problemático e não deveria, na maioria dos casos, ser praticado.

Na minha opinião, a maior arma contra o exibicionismo moral é a ridicularização. Quanto mais exibicionistas morais nós permitimos entre nós, mais contra-exibicionistas eles atraem, e somos todos arrastados para sua espiral descendente de masturbação psicológica disfarçada de insight.

20th of novembro

Vida longa a Galileu! A Revista Galileu Morreu!


O texto abaixo é de 6 de novembro de 2016. Estou republicando hoje para comemorar marcar a notícia do encerramento da Revista Galileu.

Há usos justos e injustos do nome de Galileu Galilei. Um uso justo recente está no título do livro da historiadora e bioeticista Alice Dreger, “Galileo’s Middle Finger” (“O dedo do meio de Galileu”, 2015, em tradução livre). Nesse livro, além de definir o que é uma “personalidade galileana” – “briguenta, articulada, politicamente incorreta, e firmemente centrada na crença de que a verdade [lhe] salvará” (p. 185, grifo meu) – Dreger conta vários casos de pesquisadores que, como Galileu e com essa personalidade, foram alvo de polêmicas públicas e tratados injustamente por gente com mais fervor moral que preocupação com a verdade. O dedo do meio de Galileu – que caiu do cadáver quando exumado e hoje é exibido para turistas na Itália – é uma marca engraçada acidental da falta de respeito do velho por autoridades e crenças do seu tempo.

Já a Revista Galileu, que usa o cientista herege como marca, deveria repensar seu nome. Não apenas por recentemente ter virado palanque para o politicamente correto, mas por errar repetidamente valorizando mais os brios morais de grupos ideologicamente motivados que seu propósito nominal aparente, a divulgação científica. Vamos a exemplos.

1 – Revista Galileu ignora ciência quando o assunto é gênero e sexualidade

Na edição de novembro de 2015, a revista publicou como capa uma matéria que prometia que “Tudo o que você sabe sobre gênero está errado”. Assim mesmo, com esse título isca de cliques. A matéria busca, corretamente na minha opinião, defender os direitos das pessoas transexuais. Porém, não tem nada de ciência, muito menos tem sucesso em demonstrar que tudo o que eu sei sobre gênero está errado. O título usa o verbo saber, mas na verdade a matéria inteira não está muito preocupada com saber, mas com moralidade, o que não seria problema se a revista se vendesse como uma revista de ativismo e ética. Mas não é o caso. Não só a matéria não tem muito a ver com saber, na verdade em algumas passagens está perto de atacar explicitamente o que se sabe cientificamente sobre sexo e gênero:

“O binário [feminino-masculino] é uma projeção arbitrária do “dimorfismo” corporal, ou seja, a ideia de que existem dois organismos distintos na espécie humana, um com pênis, outro com vagina. Mas essa taxonomia biológica é falha, pois ela é incapaz de dar conta dos corpos intersexos, aqueles que nascem com pênis e vagina, ou com genitália ambígua/indefinida. Enquadrar as pessoas em gêneros, desejos e categorias estáveis é também uma forma de castração.” (Negrito original.)

Só que “o binário” não é arbitrário. O ser humano é uma espécie sexualmente dimórfica (com duas versões estatisticamente agregadas distinguíveis), e é possível observar isso com algo tão simples quanto medir a altura. Segundo a própria Alice Dreger, que começou a carreira escrevendo sobre intersexualidade e explicando como cientistas dos séculos XIX e XX dificultaram a vida das pessoas anteriormente conhecidas como “hermafroditas”, cerca de uma em cada duas mil pessoas são intersexo. Isso significa que o tal “binário” se aplica para 99,95% dos seres humanos, em se tratando de genitália. O artigo, por algum motivo, não menciona a frequência da intersexualidade nem da transexualidade. Se uma classificação acerta em 99,95% das vezes, especialmente em biologia em que os fenômenos são tão variáveis, ela não pode ser simplesmente chamada de arbitrária.

Defender os direitos de pessoas com variações raras – que nascem com pênis mas têm um cérebro mais próximo da média feminina, por exemplo – não é atitude que precise ser acompanhada de afirmações contrafactuais como essa de que a classificação das pessoas em masculinas e femininas é completamente arbitrária. Sobre a alegação de que é castração acreditar no fato de que a maioria esmagadora das pessoas é classificável de forma estável no tempo (até para a vida toda): como dizem na Wikipédia, “carece de fontes”. Ninguém é transfóbico por simplesmente saber que intersexuais e transexuais são pessoas raras, parte da variação natural, mas raras, e que estranho e impraticável seria mudar todas as nossas categorias sociais para acomodar um conjunto muito pequeno de pessoas. Aliás, as categorias de gênero nem precisam mudar para acomodar a maioria dos trangêneros. Podemos chamar as pessoas transexuais como elas querem ser chamadas (não é tão difícil, já que a maioria delas está muito contente em ser classificada como homem e mulher, pois transicionam de uma coisa para outra), e negociar alguma forma de tratar respeitosamente as pessoas que se considerarem intermediárias entre masculino e feminino. Independente do debate sobre a ética do tratamento de pessoas transexuais e intersexuais, o que interessa aqui é que não é honesto fingir que a ciência nada tem a dizer sobre os fatos em torno dessas coisas, especialmente numa revista com nome de cientista.

Algo que eu acho meio assustador de se ver numa revista com o nome de um cientista é a absoluta falta de curiosidade até pelo assunto que está sendo discutido. Não há nenhuma menção a cientistas que têm algo a dizer sobre gênero no cérebro, como Larry CahillSimon Baron-Cohen e Melissa Hines. E no assunto escolhido, transexualidade, vemos histórias sofridas de pessoas transexuais, mas nenhuma menção à pesquisa de cientistas como Dick Swaab (vide gráfico abaixo), Ray Blanchard e J. Michael Bailey. Os dois últimos, especialmente Bailey, já viraram alvo de uma minoria de ativistas trans que não gostam da hipótese de que há dois tipos principais de transexuais que transicionam de expressão masculina para a feminina: a “transexual androfílica” e a com “autoginecofilia”. A segunda categoria é especialmente polêmica porque a sugestão dos cientistas é que a identidade de gênero desse tipo de mulheres trans é resultado de sua orientação sexual que envolve um “amor por si mesma como mulher”. Ou seja, a sugestão da revista de que orientação sexual e identidade de gênero são coisas completamente separadas não é aceita por cientistas que estudam ambos os fenômenos. Bailey, aliás, é um dos maiores especialistas em genética da homossexualidade. Quando ele publicou um livro sobre a autoginecofilia (“The Man Who Would Be Queen“, 2003), uma ativista (com indícios de ser ela mesma autoginecófila), tentando silenciá-lo, chegou a publicar num site fotos dos filhos do cientista e insinuar que ele os sodomizava. Dreger trata deste caso em seu livro. O importante a ser lembrado aqui é: quando a ciência e as ideias de ativistas entrarem em conflito, a revista Galileu ficará do lado da ciência? Não parece.

Adaptado de Bao & Swaab 2011 (Frontiers in Neuroendocrinology).

Note-se também que o termo “queer”, vinculado à “teoria” queer, é mencionado na matéria com certa frequência. A “teoria queer” é fruto do pós-modernismo, uma moda intelectual das últimas décadas hostil à ciência, à objetividade e à imparcialidade. O pós-modernismo é um falso amigo de causas sociais, mas esse é um assunto para outra ocasião. O que o pós-modernismo está fazendo numa revista “de ciência”, eu não sei.

2 – O caso do anticoncepcional químico para homens

“Que triste para esses coitadinhos desses homens”, disse Anna Rhodes no jornal britânico Independent. Ela se refere a um artigo publicado recentemente com origem em um estudo com tratamento contraceptivo hormonal para homens. “[E]les não conseguiram aguentar os efeitos colaterais com que tantas mulheres têm que lidar todos os dias apenas para evitar gravidez indesejada”. O estudo foi interrompido em 2011 por preocupações éticas, pois os homens estavam manifestando alterações de libido, de humor e outros efeitos como acne. A Galileu, prontamente, publicou que “‘Anticoncepcional’ masculino é adiado por ter reações semelhantes ao feminino” (negrito meu).

O problema é que a comparação é enganosa, e a manchete sobre a interrupção do estudo é mentirosa. Rhodes estava se baseando na taxa de abandono do tratamento pelos probandos do estudo (6,5%), que foi mais baixa que em estudos com tratamentos similares para mulheres (~10%). Como apurou Roberto Takata, os riscos do anticoncepcional masculino não eram “similares”, como alega a manchete da Galileu, aos efeitos colaterais dos anticoncepcionais femininos. A chance de desenvolver acne era mais de dez vezes maior para os probandos do estudo com o anticoncepcional masculino do que é típico para mulheres tomando pílula (ao menos tomando E2V/DNG). A chance de alteração da libido, quase 15 vezes maior, e 23% dos probandos tiveram dor no local da injeção (o anticoncepcional masculino não era uma pílula, mas uma injeção hormonal bimestral). Uma minoria dos homens ficou estéril, possivelmente em definitivo.

O artigo da Galileu a respeito parece ser derivado de leitura de segunda ou terceira mão da deturpação que começou, aparentemente, com Rhodes. Ou seja, nem mesmo o trabalho básico de jornalismo, que é a checagem das fontes primárias, foi feito pela revista. Mais interessante que os erros e exageros de Rhodes são as motivações: com toda probabilidade, o motivo das deturpações, conscientes ou não, foi a confirmação de ideias de uma forma de “feminismo” que mais parece guerra dos sexos. Por que outro motivo algumas publicações até chamaram os probandos do estudo de “covardes”? Não há nem mesmo sinal de covardia neles, pois a maioria queria continuar tomando o anticoncepcional mesmo com todos os riscos substanciais à saúde, além do risco de esterilidade permanente. Mas, como a ciência sabe, expor-se a riscos é um comportamento estatisticamente mais concentrado em homens que em mulheres.

Galileu, o original, ouvindo rumores sobre um instrumento recém-inventado para observar os astros, não perdeu tempo e criou sua própria luneta, e a aperfeiçoou. Logo estava vendo crateras na Lua, desafiando milênios de dogma e senso comum sobre a perfeição dos objetos do céu. A revista que tem o seu nome, talvez por problemas que o jornalismo em geral está tendo de enfrentar nos nossos tempos, não parece capaz de sequer ir a uma fonte original, lê-la e checar as alegações de outros veículos de imprensa a respeito. Será que a culpa é do público, que tem mais ultraje moral que curiosidade? Será que é dos jornalistas preguiçosos, que acham mais fácil citar fonte de segunda ou terceira mão, basicamente fazendo mais trabalho de tradução que de jornalismo? Independente do que for, eu não estou aqui reclamando que a revista faça o que está fazendo ou até apele para iscas de cliques, sensacionalismo e ativismo. Estou só dizendo que se ela está tão disposta a se afastar da divulgação científica para botar outras coisas no lugar, se lucra mais com o ultraje moral que com a curiosidade, que perceba que o nome da publicação pode até parecer fixo agora, eppur si muove.