3rd of abril

Práticas carreiristas de acadêmicos para inflar a própria importância


– Ciência salame: a pessoa “picota” vários estágios do que, num mundo mais honesto, seria um estudo só, e publica como vários estudos separados para obter mais citações. Número de citações contam para emprego.

– Trenzinho da alegria de autoria de artigos: a pessoa vira co-autora do artigo só por ser membro de algum laboratório ou grupo de pesquisa, mesmo sem ter feito nada pra contribuir pro artigo. É a forma desonesta do favorzinho, do “eu coço suas costas e você coça as minhas”. O favorzinho infla citações dos envolvidos.

– Trenzinho da alegria de citações: “eu cito você e você me cita”. O que não tem nada a ver com a qualidade dos trabalhos citados. É um pouco diferente porque é menos cara de pau, já que não se incluem mutuamente como autores nos artigos, só se citam como favor.

– Citação-sequestro: “ah, você está precisando do meu equipamento no seu experimento? Oh mas que peninha. Só vai usar se me incluir como autor no seu artigo depois.”-

– Citação-sequestro do revisor: para publicar artigos em revistas acadêmicas, é preciso passar pela chamada revisão por pares. Outros especialistas olham o artigo e dão um parecer por aceitar imediatamente, rejeitar imediatamente, ou aceitar contanto que o autor faça algumas correções ou inclusões. O último caso é oportunidade perfeita para revisores predatórios: só publicam o artigo se você citar o que eles querem, que “coincidentemente” inclui eles próprios ou os amigos deles.

Os pesquisadores que não fazem isso geralmente têm um tema ou um método que querem avançar, e chamam por colaboradores de forma diferente, pra realmente contribuir. Algumas revistas, pra coibir isso, listam o que cada pessoa fez no artigo.

Então, quando algum burocrata vem comemorar o número de citações de autores brasileiros na literatura científica, ou o número de artigos publicados, eu não me empolgo, não. Grande parte disso é ciência salame e trenzinho da alegria. Pesquisadores chineses fazem muito isso também.

A versão mais corrupta disso, como comentei numa live, é quando os favores ficam generalizados numa área porque as pessoas começam a fazê-los por afinidade política. A área vira um conjunto de “pesquisadores” que não compartilham curiosidade por um tema: compartilham uma fé.

Como disse na live: comunidade de crença é a coisa mais velha da humanidade. Porque acreditam juntos numa coisa, isso não significa que têm razão. Porque dão um verniz acadêmico às crenças deles, não significa que são diferentes de uma igreja qualquer. Citam uns aos outros para fazer afagos ideológicos entre si, não por progresso cognitivo.

8th of março

Esopo e a Esquerda Acadêmica


Primeiro, (parte d)a esquerda acadêmica criou o pós-modernismo, anunciando que perdeu a fé em objetividade, imparcialidade e neutralidade dos seres cognoscentes e nas peças epistemológicas que criam. Depois, partiu para cumprir essa profecia, destruindo essas coisas no que toca.

Comemoraram quando o New York Times publicou editorial anunciando que tinha lado político nas eleições (que tinha todo mundo sabia, mas o anúncio era oficialização do abandono da aspiração à imparcialidade). Fecham as portas dos acadêmicos que tenham evidências contrárias às suas teses. Fazem birra infantil quando qualquer opinião que não gostam encontra alguma liberdade de ser expressada, em qualquer espaço, partindo inclusive à violência, e deturpando pensadores da liberdade como Karl Popper para dar aparência de justificação à própria intolerância violenta.

Há muita sabedoria nas antigas fábulas e contos da carochinha. Várias atitudes dessa esquerda são descritas nessas histórias para crianças, especialmente as clássicas de Esopo.

O conto do menino que gritou “olha o lobo” é perfeito para descrever o pânico da opressão em todo lugar que olham. Já gritaram tanto “olha a opressão” que não é só a vila o seu alvo: gritam uns para os outros: “seu feminismo não é bom o suficiente porque não é um feminismo negro”, “homens gays têm privilégios acima de mulheres nesta sociedade patriarcal”.

Outro conto perfeito pra descrever a esquerda acadêmica é o da Raposa e as Uvas, que tem tudo a ver com a profecia autocumprida da objetividade impossível. Conta Esopo que, incapaz de alcançar as uvas deliciosas, a Raposa declarou que não as queria mesmo, pois estavam verdes. Como a esquerda acadêmica falhou em dar essas marcas de probidade epistêmica a várias de suas crenças: falhou o marxismo, falhou e continua falhando a ação afirmativa, etc.; ela declarou que essas marcas não podem ser atingidas por mais ninguém. Daí a condenação/ceticismo pirrônico contra a objetividade, a imparcialidade e a neutralidade de conhecedores e conhecimentos.

15th of janeiro

Stephen King tem razão: pedir para considerar “diversidade” de autores é, sim, pedir aceitação para trabalhos de má qualidade


Stephen King, escritor de enorme sucesso, está recebendo revolta como resposta por ter proferido uma mera sensatez:

“…Eu jamais consideraria a diversidade quando se trata de arte. Somente a qualidade. Parece, para mim, que fazer o contrário seria errado.”

As respostas revoltadas são, até onde li, regurgitações da pseudoteoria interseccional, dogma sob o qual está sendo fundada a Nova Igreja Reformada da Justiça Social.

Vocês podem não gostar do meu tom provocativo quando falo disso. Mas, trilhem essa sequência simples de pensamentos:

– Se valorizamos a literatura, é por causa da qualidade. A literatura é uma grande categoria da arte que atende a anseios nossos como espécie, que vão da simples quebra do tédio à apreciação estética da língua e de tramas fictícias.

– Demandar da literatura algo que pouco ou nada tem a ver com qualidade é instantaneamente tirar o foco da qualidade. Sim, podemos preferir mais de uma propriedade de um objeto. Podemos pedir qualidade ao mesmo tempo em que pedimos diversidade de autores baseada em características irrelevantes como cor da pele e sexo. Porém, vivemos num mundo com recursos limitados. Um desses recursos é justamente a atenção dos leitores e apreciadores de literatura. Deixar-se distrair por características irrelevantes de autores é, sim, algo que tende a dar um desconto negativo na atenção dada à qualidade.

– Se os dogmas da NIRJS estão corretos, os autores que são “homens brancos cis héteros” (ninguém explica por que são esses os atributos identitários escolhidos como relevantes, e não, por exemplo, se são diabéticos, se torcem para time de futebol, se consideram Dostoiévski boa literatura) têm sucesso porque são justamente isso, “homens brancos cis héteros”. Mas até esses militantes identitários não vão ousar alegar que não existe nenhuma qualidade literária no trabalho do King que também explique o sucesso dele. E mais, muitos vão dizer que o trabalho dele tem qualidade justamente porque ele desfruta de privilégios concedidos a ele por esses atributos identitários. Neste caso, os oprimidos, destituídos de privilégios, escreverão com qualidade inferior, por não terem os tais privilégios. Dessa forma, não há escapatória: segundo uma interpretação plenamente plausível dos dogmas da política identitária, pedir para apreciar autores por sua identidade oprimida equivale, sim, a pedir para apreciar trabalho de má qualidade. E é esse pedido que estão fazendo em todo assunto em que injetam suas ideias abjetas.

1st of dezembro

Exibicionismo Moral


Trechos do artigo “Exibicionismo Moral” (Moral Grandstanding), de Justin Tosi e Brandon Warmke.

“Este artigo examina o exibicionismo moral, uma proeminente forma de fala moral repugnante, e considera suas implicações morais.”

“Afirmamos basicamente que alguém está praticando exibicionismo moral quando faz uma contribuição para o discurso moral público com a meta de convencer aos outros de que é ‘moralmente respeitável’. Com isso, queremos dizer que o exibicionismo [moral] é um uso da fala moral que tenta fazer com que os outros cheguem a julgamentos desejáveis sobre si mesmo, isto é, que é alguém digno de respeito e admiração porque tem alguma qualidade moral — por exemplo, um compromisso impressionante com a justiça, uma sensibilidade moral altamente afinada, ou poderes de empatia sem paralelos. Exibir-se [moralmente] é transformar a própria contribuição ao discurso público num projeto de vaidade.”

“[S]uspeitamos que o exibicionismo funciona com frequência (mas não sempre) como uma forma de silenciar um rival ao apresentar o exibicionista como moralmente respeitável por contraste implícito. Assim, o exibicionismo [moral] funciona como uma tentativa de silenciar ou desacreditar outros participantes ao comunicar que suas opiniões não são dignas de consideração ou engajamento porque são defendidas por alguém que não é moralmente respeitável, ou que é menos que isso.”

Os autores classificam manifestações do exibicionismo moral, que são essas, em tradução livre:

– “Acumulação”: o exibicionista não acrescenta nada à discussão, mas se manifesta para se alinhar com a pressão social do grupo para o qual ou com o qual faz exibicionismo.

– “Radicalização”: os exibicionistas morais se engajam em competições implícitas de quem sugere a punição mais severa aos delitos morais percebidos, por exemplo, ou quem faz a afirmação mais “surpreendente” alinhada com determinada causa, para intensificar o sinal da exibição. É a corrida armamentista do lacre/mitagem mais impressionante que o lacre/mitagem alheio.

– “Falsificação”: os exibicionistas morais, para intensificar o sinal de sua exibição moral, forjam problemas morais que não existem, ou forjam a gravidade de problemas morais que existem. Como dizem os autores: “Onde algumas alegadas injustiças escapam ao radar moral de muitos, elas não são perdidas pelo olho clínico dos moralmente respeitáveis”, ou seja, dos exibicionistas morais.

– “Ultraje excessivo”: a ideia, aqui, é que a pessoa que demonstrar o maior grau de ofensa subjetiva com algum suposto problema é a que possui a maior capacidade de observação de problemas morais.

Os autores concluem que o exibicionismo moral, ubíquo na era da informação, é na maior parte moralmente problemático e não deveria, na maioria dos casos, ser praticado.

Na minha opinião, a maior arma contra o exibicionismo moral é a ridicularização. Quanto mais exibicionistas morais nós permitimos entre nós, mais contra-exibicionistas eles atraem, e somos todos arrastados para sua espiral descendente de masturbação psicológica disfarçada de insight.

20th of novembro

Vida longa a Galileu! A Revista Galileu Morreu!


O texto abaixo é de 6 de novembro de 2016. Estou republicando hoje para comemorar marcar a notícia do encerramento da Revista Galileu.

Há usos justos e injustos do nome de Galileu Galilei. Um uso justo recente está no título do livro da historiadora e bioeticista Alice Dreger, “Galileo’s Middle Finger” (“O dedo do meio de Galileu”, 2015, em tradução livre). Nesse livro, além de definir o que é uma “personalidade galileana” – “briguenta, articulada, politicamente incorreta, e firmemente centrada na crença de que a verdade [lhe] salvará” (p. 185, grifo meu) – Dreger conta vários casos de pesquisadores que, como Galileu e com essa personalidade, foram alvo de polêmicas públicas e tratados injustamente por gente com mais fervor moral que preocupação com a verdade. O dedo do meio de Galileu – que caiu do cadáver quando exumado e hoje é exibido para turistas na Itália – é uma marca engraçada acidental da falta de respeito do velho por autoridades e crenças do seu tempo.

Já a Revista Galileu, que usa o cientista herege como marca, deveria repensar seu nome. Não apenas por recentemente ter virado palanque para o politicamente correto, mas por errar repetidamente valorizando mais os brios morais de grupos ideologicamente motivados que seu propósito nominal aparente, a divulgação científica. Vamos a exemplos.

1 – Revista Galileu ignora ciência quando o assunto é gênero e sexualidade

Na edição de novembro de 2015, a revista publicou como capa uma matéria que prometia que “Tudo o que você sabe sobre gênero está errado”. Assim mesmo, com esse título isca de cliques. A matéria busca, corretamente na minha opinião, defender os direitos das pessoas transexuais. Porém, não tem nada de ciência, muito menos tem sucesso em demonstrar que tudo o que eu sei sobre gênero está errado. O título usa o verbo saber, mas na verdade a matéria inteira não está muito preocupada com saber, mas com moralidade, o que não seria problema se a revista se vendesse como uma revista de ativismo e ética. Mas não é o caso. Não só a matéria não tem muito a ver com saber, na verdade em algumas passagens está perto de atacar explicitamente o que se sabe cientificamente sobre sexo e gênero:

“O binário [feminino-masculino] é uma projeção arbitrária do “dimorfismo” corporal, ou seja, a ideia de que existem dois organismos distintos na espécie humana, um com pênis, outro com vagina. Mas essa taxonomia biológica é falha, pois ela é incapaz de dar conta dos corpos intersexos, aqueles que nascem com pênis e vagina, ou com genitália ambígua/indefinida. Enquadrar as pessoas em gêneros, desejos e categorias estáveis é também uma forma de castração.” (Negrito original.)

Só que “o binário” não é arbitrário. O ser humano é uma espécie sexualmente dimórfica (com duas versões estatisticamente agregadas distinguíveis), e é possível observar isso com algo tão simples quanto medir a altura. Segundo a própria Alice Dreger, que começou a carreira escrevendo sobre intersexualidade e explicando como cientistas dos séculos XIX e XX dificultaram a vida das pessoas anteriormente conhecidas como “hermafroditas”, cerca de uma em cada duas mil pessoas são intersexo. Isso significa que o tal “binário” se aplica para 99,95% dos seres humanos, em se tratando de genitália. O artigo, por algum motivo, não menciona a frequência da intersexualidade nem da transexualidade. Se uma classificação acerta em 99,95% das vezes, especialmente em biologia em que os fenômenos são tão variáveis, ela não pode ser simplesmente chamada de arbitrária.

Defender os direitos de pessoas com variações raras – que nascem com pênis mas têm um cérebro mais próximo da média feminina, por exemplo – não é atitude que precise ser acompanhada de afirmações contrafactuais como essa de que a classificação das pessoas em masculinas e femininas é completamente arbitrária. Sobre a alegação de que é castração acreditar no fato de que a maioria esmagadora das pessoas é classificável de forma estável no tempo (até para a vida toda): como dizem na Wikipédia, “carece de fontes”. Ninguém é transfóbico por simplesmente saber que intersexuais e transexuais são pessoas raras, parte da variação natural, mas raras, e que estranho e impraticável seria mudar todas as nossas categorias sociais para acomodar um conjunto muito pequeno de pessoas. Aliás, as categorias de gênero nem precisam mudar para acomodar a maioria dos trangêneros. Podemos chamar as pessoas transexuais como elas querem ser chamadas (não é tão difícil, já que a maioria delas está muito contente em ser classificada como homem e mulher, pois transicionam de uma coisa para outra), e negociar alguma forma de tratar respeitosamente as pessoas que se considerarem intermediárias entre masculino e feminino. Independente do debate sobre a ética do tratamento de pessoas transexuais e intersexuais, o que interessa aqui é que não é honesto fingir que a ciência nada tem a dizer sobre os fatos em torno dessas coisas, especialmente numa revista com nome de cientista.

Algo que eu acho meio assustador de se ver numa revista com o nome de um cientista é a absoluta falta de curiosidade até pelo assunto que está sendo discutido. Não há nenhuma menção a cientistas que têm algo a dizer sobre gênero no cérebro, como Larry CahillSimon Baron-Cohen e Melissa Hines. E no assunto escolhido, transexualidade, vemos histórias sofridas de pessoas transexuais, mas nenhuma menção à pesquisa de cientistas como Dick Swaab (vide gráfico abaixo), Ray Blanchard e J. Michael Bailey. Os dois últimos, especialmente Bailey, já viraram alvo de uma minoria de ativistas trans que não gostam da hipótese de que há dois tipos principais de transexuais que transicionam de expressão masculina para a feminina: a “transexual androfílica” e a com “autoginecofilia”. A segunda categoria é especialmente polêmica porque a sugestão dos cientistas é que a identidade de gênero desse tipo de mulheres trans é resultado de sua orientação sexual que envolve um “amor por si mesma como mulher”. Ou seja, a sugestão da revista de que orientação sexual e identidade de gênero são coisas completamente separadas não é aceita por cientistas que estudam ambos os fenômenos. Bailey, aliás, é um dos maiores especialistas em genética da homossexualidade. Quando ele publicou um livro sobre a autoginecofilia (“The Man Who Would Be Queen“, 2003), uma ativista (com indícios de ser ela mesma autoginecófila), tentando silenciá-lo, chegou a publicar num site fotos dos filhos do cientista e insinuar que ele os sodomizava. Dreger trata deste caso em seu livro. O importante a ser lembrado aqui é: quando a ciência e as ideias de ativistas entrarem em conflito, a revista Galileu ficará do lado da ciência? Não parece.

Adaptado de Bao & Swaab 2011 (Frontiers in Neuroendocrinology).

Note-se também que o termo “queer”, vinculado à “teoria” queer, é mencionado na matéria com certa frequência. A “teoria queer” é fruto do pós-modernismo, uma moda intelectual das últimas décadas hostil à ciência, à objetividade e à imparcialidade. O pós-modernismo é um falso amigo de causas sociais, mas esse é um assunto para outra ocasião. O que o pós-modernismo está fazendo numa revista “de ciência”, eu não sei.

2 – O caso do anticoncepcional químico para homens

“Que triste para esses coitadinhos desses homens”, disse Anna Rhodes no jornal britânico Independent. Ela se refere a um artigo publicado recentemente com origem em um estudo com tratamento contraceptivo hormonal para homens. “[E]les não conseguiram aguentar os efeitos colaterais com que tantas mulheres têm que lidar todos os dias apenas para evitar gravidez indesejada”. O estudo foi interrompido em 2011 por preocupações éticas, pois os homens estavam manifestando alterações de libido, de humor e outros efeitos como acne. A Galileu, prontamente, publicou que “‘Anticoncepcional’ masculino é adiado por ter reações semelhantes ao feminino” (negrito meu).

O problema é que a comparação é enganosa, e a manchete sobre a interrupção do estudo é mentirosa. Rhodes estava se baseando na taxa de abandono do tratamento pelos probandos do estudo (6,5%), que foi mais baixa que em estudos com tratamentos similares para mulheres (~10%). Como apurou Roberto Takata, os riscos do anticoncepcional masculino não eram “similares”, como alega a manchete da Galileu, aos efeitos colaterais dos anticoncepcionais femininos. A chance de desenvolver acne era mais de dez vezes maior para os probandos do estudo com o anticoncepcional masculino do que é típico para mulheres tomando pílula (ao menos tomando E2V/DNG). A chance de alteração da libido, quase 15 vezes maior, e 23% dos probandos tiveram dor no local da injeção (o anticoncepcional masculino não era uma pílula, mas uma injeção hormonal bimestral). Uma minoria dos homens ficou estéril, possivelmente em definitivo.

O artigo da Galileu a respeito parece ser derivado de leitura de segunda ou terceira mão da deturpação que começou, aparentemente, com Rhodes. Ou seja, nem mesmo o trabalho básico de jornalismo, que é a checagem das fontes primárias, foi feito pela revista. Mais interessante que os erros e exageros de Rhodes são as motivações: com toda probabilidade, o motivo das deturpações, conscientes ou não, foi a confirmação de ideias de uma forma de “feminismo” que mais parece guerra dos sexos. Por que outro motivo algumas publicações até chamaram os probandos do estudo de “covardes”? Não há nem mesmo sinal de covardia neles, pois a maioria queria continuar tomando o anticoncepcional mesmo com todos os riscos substanciais à saúde, além do risco de esterilidade permanente. Mas, como a ciência sabe, expor-se a riscos é um comportamento estatisticamente mais concentrado em homens que em mulheres.

Galileu, o original, ouvindo rumores sobre um instrumento recém-inventado para observar os astros, não perdeu tempo e criou sua própria luneta, e a aperfeiçoou. Logo estava vendo crateras na Lua, desafiando milênios de dogma e senso comum sobre a perfeição dos objetos do céu. A revista que tem o seu nome, talvez por problemas que o jornalismo em geral está tendo de enfrentar nos nossos tempos, não parece capaz de sequer ir a uma fonte original, lê-la e checar as alegações de outros veículos de imprensa a respeito. Será que a culpa é do público, que tem mais ultraje moral que curiosidade? Será que é dos jornalistas preguiçosos, que acham mais fácil citar fonte de segunda ou terceira mão, basicamente fazendo mais trabalho de tradução que de jornalismo? Independente do que for, eu não estou aqui reclamando que a revista faça o que está fazendo ou até apele para iscas de cliques, sensacionalismo e ativismo. Estou só dizendo que se ela está tão disposta a se afastar da divulgação científica para botar outras coisas no lugar, se lucra mais com o ultraje moral que com a curiosidade, que perceba que o nome da publicação pode até parecer fixo agora, eppur si muove.

14th of novembro

Das origens banais do relativismo e do vitimismo


Algo que eu penso que os intelectuais contrários ao relativismo pós-moderno nem sempre percebem é que a adesão a ele raramente deriva da leitura de gente como Rorty, Foucault e Derrida. Mas não estou falando do que Thomas Sowell chama de “penumbra” em torno dos intelectuais, que são aquelas pessoas que adotam suas ideias de segunda ou terceira mão. (Como a multidão de incautos que insistem em chamar tudo de narrativa, mas nunca ouviram o nome Derrida nem o termo metanarrativa.)

Quem teve uma infância cercada de outras crianças teve oportunidades preciosas de observar aspectos do comportamento humano que continuam na vida adulta, mas de forma mais velada, pois nós adultos aprendemos a fingir que somos mais civilizados.

Um desses comportamentos é a explosão das regras quando elas não lhe são pessoalmente favoráveis em um dado momento. A criança que está perdendo um jogo pode alegar que nunca teve interesse nele para começo de conversa. Às vezes pode atirar o tabuleiro para cima ou derrubar as peças. É nesse tipo de birra que surge um relativismo de conveniência, e há espaço para ressonância com aqueles intelectuais. “Estou errado?”, pensa o relativista pueril de conveniência, “não importa, pois as suas regras de certo e errado não têm validade aqui”. Se estivesse ganhando, as regras seriam mais que válidas, é claro.

Habitando um mundo de problematização de tudo e controle politicamente correto da linguagem, jamais vi “cientistas sociais” (em cujo curral o relativismo é endêmico) que queiram problematizar com muito afinco o termo “cientista social”, tentando destruir essa conexão entre as ditas ciências moles e as duras. Então temos este efeito: muitas das mesmas pessoas que alegam que qualquer respeito pela ciência é “cientificismo”, que ciência é uma mera narrativa tão verdadeira quanto mitos aborígenes, não têm problema algum em serem chamadas de “cientistas”, e talvez até insistam nisso, para tomarem um banho sob o sol da glória científica, mesmo que indiretamente.

Quando não conseguem gerar conhecimento tão firme quanto a lei de Ohm ou a teoria da evolução, as regras do conhecimento não valem. Quando é para desfrutar do prestígio causado por essas regras, elas valem.

A observação casual do comportamento infantil também explica muito do que observamos agora com a política identitária. Por que, meu Zeus, por que alguém usaria supostas marcas de vitimização como galardões de status? Ora, pelo mesmo motivo que, quando o caçula mente que a irmã mais velha bateu nele, ele sabe que vai receber apoio e mimos das autoridades parentais presentes. Removam a percepção de que haverá socorro de autoridades, que a corrida armamentista do vitimismo também cai.

31st of agosto

“Gene Gay”: cobertura de novo estudo mostra que a imprensa não aprendeu nada em 25 anos


No começo da década de 1990 o geneticista Dean Hamer teve o nome citado pela maior parte da imprensa ocidental ao propor que havia um “gene gay”. A verdade, é claro, era mais complicada. Hamer havia sido parte de um estudo que apontou que uma região do cromossomo X parecia estar significantemente associada à presença da homossexualidade em famílias. A cobertura fez um enorme desserviço à divulgação científica, mas Hamer partilha parte da culpa. Ele não aprendeu muito, pois na década seguinte lançou um livro que propunha no título um “gene de Deus”. Parece até que genes são feitiços do Harry Potter, que conjuram coisas complexas como crença em Deus e homossexualidade do nada, e sozinhos.

Saiu um novo estudo sobre a genética da homossexualidade, com uma enorme amostra, e tudo indica que a imprensa nada aprendeu em um quarto de século. A Globo News já interpretou tudo errado com esta manchete: “Estudo feito com DNA de quase meio milhão de pessoas conclui que não existe um gene que determine a homossexualidade. Ambiente, educação e personalidade influenciam escolha, dizem pesquisadores”. Para mim, ao menos, está claro que os jornalistas pegaram a notícia de segunda ou terceira mão, em vez de simplesmente abrir a página do estudo.

Desde 2011 estou aqui falando em público que QUALQUER comportamento é influenciado por um grande número de genes. Ninguém na genética espera que nem mesmo o reflexo patelar, um dos mais simples dos nossos comportamentos, venha de um gene só. O estudo definitivamente não é sobre isso e não teve o objetivo de derrubar a ideia de que um gene só causa a homossexualidade, pois ninguém na genética acredita nisso.

O novo estudo tem um ótimo tamanho amostral (mais de 470 mil participantes). Minha principal crítica a ele é que perguntar só se as pessoas já tiveram uma experiência sexual com alguém do mesmo sexo é uma forma imprecisa de aferir o desejo espontâneo delas. Entrevista é um método cheio de imperfeições.

Aqui entra o aspecto da personalidade. Se alguém é propenso a ter uma personalidade aberta a novas experiências (e esse é um dos principais 5 ingredientes da personalidade), esta pessoa pode fazer sexo com pessoas do mesmo sexo apesar de esta não ser sua principal preferência sexual.

Portanto, só perguntar se alguém fez sexo com alguém do mesmo sexo ao menos uma vez na vida não é um instrumento preciso para aferir a orientação sexual. Na verdade, é um método fadado a incluir heterossexuais na amostra. Além disso, sabemos também que os componentes da personalidade têm também base genética. A sugestão aparente de uma dicotomia entre personalidade e genes não faz sentido nenhum.

Aqui está o link do estudo original, que parece que jornalistas têm alergia de dar. https://science.sciencemag.org/content/365/6456/eaat7693

A última frase do resumo diz tudo: “o comportamento não-heterossexual é poligênico“, não destituído da influência dos genes, portanto. Em momento algum o estudo sugere que a orientação sexual pode ser mudada pela via da educação. Não sei de onde a Globo News tirou isso.

Sobre ética e por que dois grupos políticos comemoraram a manchete que induz a erro

Certo tipo de conservador quer que a homossexualidade seja resultado da cultura e escolhas, para facilitar a condenação moral dos gays. Pois, como disse Kant, “dever fazer” implica “poder fazer”. Só pode ser imoral comportamento que pode ser mudado de livre e espontânea vontade.

Ao mesmo tempo, certo tipo de progressista quer que a homossexualidade seja resultado da cultura e escolhas porque declarar tudo “construção social” faz parte de seu projeto de poder baseado na engenharia social, em moldar a sociedade à sua imagem e semelhança.

Pensando bem, os dois não são tão diferentes assim. Ambos os grupos põem seus projetos sociais e suas crenças sagradas na frente dos fatos.

Sobre “comportamento”

Percebo que há uma confusão semântica sobre o que a genética do comportamento quer dizer com “comportamento”, também. É a mesma confusão do Malafaia. Não há, no tratamento científico do comportamento, qualquer pressuposição de que sua causa é ambiental/cultural/educacional.

Talvez essa confusão vem da influência do behaviorismo, um arcabouço teórico que dominou a psicologia na metade do século XX e pressupunha uma importância exagerada para o ambiente. Esse arcabouço, apesar do continuado protesto de alguns, já caiu, e o empurrão veio de dentro.

Comportamento é uma característica fundamental dos animais. É qualquer fenótipo que derive da atividade das células excitáveis: neurônios e fibras musculares. Ter um desejo não concretizado de sexo gay, portanto, ainda é ter um comportamento.

É este comportamento, concretizado em camas ou não, que é o real alvo da controvérsia sobre as origens da homossexualidade. São as pessoas que têm essa preferência, com predominância ou exclusividade, que são alvo principal do preconceito, também.

8th of maio

Parlamento dos Valores


Imaginem uma família orientada total e unicamente pela liberdade. Os pais não forçariam os filhos a nada. Os filhos escolheriam se querem estudar, quando e como. Os pais se considerariam livres para pular a cerca quando e como quiserem, sem consideração por acordos mútuos ou pela estabilidade da relação e o efeito dela sobre os filhos.

A maioria de nós sabe ver que isso não daria certo. Júnior preferiria passar 14 horas por dia jogando Fortnite e zero horas aprendendo a multiplicar números de três dígitos. 

Valores são abstrações que tentamos usar para nos orientarmos num mundo complexo. No momento em que passamos a eleger um valor como soberano sobre todos os outros, nos arriscamos a perder alguma coisa.

Uma família ou sociedade orientada pela adoração da igualdade também daria errado, e temos exemplos dos efeitos nefastos de tentar elevar a igualdade acima dos outros valores: na cova, de fato todos são iguais.

Pensemos num terceiro valor, o mérito. Nós precisamos que haja alguma forma de as pessoas serem recompensadas pela competência. Vários serviços de que dependemos têm sua qualidade dependente de hierarquias de competência. Uma sobrevalorização do mérito pode ser um pouco mais difícil de imaginar como algo negativo, mas é possível: por trás da busca da meritocracia há a competição. Sobrevalorizar o mérito é sobrevalorizar os efeitos da competição. A competição é antagônica da cooperação (em última análise, mas isso não quer dizer que não possam conviver de forma estável). Uma sociedade em que a cooperação é assassinada pela competição é mais um pesadelo distópico.

E temos o outro lado dessa última moeda, que é a valorização exagerada dos aspectos comunais da cooperação. Nós temos sempre preferências. Preferimos cooperar com um grupo seleto. A forma extrema disso é a política identitária: cooperarei apenas com quem partilha de certas características minhas, e tratarei como suspeitos todos os que diferem de mim.

Uma cabeça sã precisa ter dentro de si um parlamento de valores diferentes. Muitas enfermidades mentais de várias formas de ideologia vêm de golpes de um ou mais valores sobre os outros.

24th of fevereiro

Ciência, política identitária, transexualidade, ação afirmativa e relativismos


Entrevista originalmente publicada em 30/01/2019 na Gazeta do Povo.

Francisco Razzo: Minha coluna desta semana traz entrevista com o biólogo Eli Vieira, que nos últimos anos tem feito críticas contundentes e consistentes ao relativismo pós-moderno e às políticas identitárias. Para não dizer que só entrevisto pessoas que concordam comigo, Eli Vieira e eu já tivemos oportunidades de debater a questão do aborto e do ateísmo. Temos visões diametralmente opostas a respeito desses temas e nem por isso deixamos de trocar boas ideias.

A propósito, umas das coisas mais importantes que eu aprendi estudando filosofia foi conseguir conversar com pessoas com ideias diferentes das minhas. Não que eu tolere tudo, não sou Gandhi ou Madre Teresa e não faço meditação; dependendo do assunto, meu pavio é bem curto. Mas estou longe de querer ouvir só a minha “patota ideológica” — confesso que não é tão difícil lembrar que a possibilidade de estar errado é uma boa maneira de cultivar a sabedoria.

Nesta entrevista você terá a oportunidade de conhecer uma visão muito provocadora sobre o atual debate da transexualidade, como a biologia pode nos ajudar a pensar a construção da identidade, por que o relativismo é simplesmente um absurdo, como as “minorias” devem ser protegidas e quais os riscos sociais das chamadas políticas identitárias — e, mesmo depois de tudo isso, saber por que ainda permanecemos tribais.

FR: Como você entende o atual debate da transexualidade?

Eli Vieira: É uma guerra de absurdos sendo atirados de todos os lados. De um lado, correndo à defesa das pessoas trans como cavaleiros correm ao socorro de donzelas em apuros em contos de fadas, temos pessoas pouco curiosas sobre o mundo real; aquelas que vivem no mundo das letras e, por isso mesmo, pensam que tudo se resume a esse mundo, tudo é linguagem. Confundem seu paroquialismo das letras com erudição, se radicalizam (como é de esperar em qualquer grupo pouco diverso em ideias), alegam que tudo é “construção social” num determinismo cultural ganancioso e não querem ouvir nada que venha das ciências empíricas. De outro lado, temos os simplistas, cujo entendimento de biologia se resume ao ensino básico: homem = XY; mulher = XX, isso é tudo o que há para dizer sobre o assunto, e querer saber mais é esquerdismo. Parece que os dois grupos se unem na falta de curiosidade. Quanto mais polarização, menos curiosidade.

FR: Há um “lugar-comum” que diz que “a teoria de gênero não pode ter respaldo na biologia”; afinal, qual a importância da biologia na construção da identidade de gênero (se é possível falar assim)?

EV: Estou de acordo com a filósofa Helena Cronin: a invenção do termo “gênero” só nos atrapalhou a entender melhor o sexo. O sexo, em seres humanos, é um fenômeno complexo o suficiente para ter expressões sociais e culturais. Ceifar essas expressões de sua relação com a realidade biológica do sexo faz tanto sentido quanto alegar que “altura” e “estatura” não são sinônimos; que “altura” é a realidade biológica de quantos centímetros um corpo humano pode crescer e que “estatura” diz respeito a uma “estrutura socialmente construída de privilégios para pessoas altas e opressão para as baixas”, para usar um pouco do vocabulário carregado das áreas acadêmicas em que se confunde ativismo com pesquisa.

Um dos principais responsáveis pela adoção do termo “gênero” na psicologia, John Money (1921-2006), foi um pesquisador que recomendou criar o menino David Reimer (1965-2004) como menina, pois David havia perdido o pênis ainda bebê, num erro médico durante uma circuncisão. Money usou o caso para tentar provar que a identidade sexual depende apenas da criação e do ambiente cultural, em vez de ser algo com bases genéticas. A intervenção consistiu também num processo transexualizador, incluindo remoção dos testículos. Money estava errado. Reimer cresceu com disforia, talvez o primeiro caso de disforia de alguém que se identificava com o sexo de nascimento. Abandonou a identidade socialmente imposta de menina, teve uma vida difícil e cometeu suicídio mais tarde.

Uma ideologia popular nas humanidades, que é a que prega que tudo o que somos é construção social, corretamente cataloga todo tipo de crime já feito em nome das ciências empíricas: o movimento da eugenia envolvendo vários cientistas, a castração de pessoas de baixo QI nos Estados Unidos no começo do século 20, o racismo científico etc. Previsivelmente, não cataloga crimes cometidos em nome de seu próprio credo acadêmico da tábula rasa/construção social: além do crime de John Money, temos aqui também Pol Pot, Stálin e Mao Tsé-Tung, que explicitamente diziam que seus cidadãos eram folhas em branco e que, portanto, não havia uma natureza humana que oferecesse resistência aos princípios da revolução socialista (Jean-Paul Sartre, que foi stalinista e maoísta, é citado até hoje para defender que não existe natureza humana – acho que não é coincidência). Tanto o determinismo biológico quanto o determinismo cultural motivaram crimes contra pessoas inocentes.

Engana-se, no entanto, quem pensa que o caso David Reimer prova que sempre, sem falha, a identidade sexual saudável é a observada nas genitálias ao nascer. Estamos só começando a estudar a transexualidade, mas há dois bons motivos para considerar seriamente que é possível que algumas meninas nasçam com pênis e alguns meninos nasçam com vagina. O primeiro é que há uma independência temporal, no desenvolvimento do feto, da formação da genitália e da formação das partes do cérebro que diferem na média entre homens e mulheres. Enquanto a forma da genitália já se faz presente nos dois primeiros meses de desenvolvimento fetal, o cérebro só forma suas conexões neuronais, inclusive as importantes para a identidade sexual, da metade para o fim da gestação. Havendo essa separação temporal, é possível que haja alguma independência nas causas do sexo entre as pernas e do sexo entre as orelhas.

O outro motivo para acreditar que a transexualidade é natural é que, em muitas características, os homens são mais variados que as mulheres. Isso é verdade tanto para características físicas quanto psicológicas, como o QI. Aceitando que há bases biológicas por trás das diferenças de comportamento de homens e mulheres que fazem os dois sexos serem categorias sociais distintas, teremos de aceitar também que alguns homens podem se distanciar tanto da média de homens nessas bases, devido à maior variação masculina, que eles na verdade são mulheres no cérebro. E é por isso que há mais transexuais que se identificam como mulheres que como homens.

Há algumas pesquisas com transexuais indicando que isso é verdade: núcleos de uma parte do cérebro chamada hipotálamo dos transexuais são mais semelhantes ao sexo com o qual se identificam do que ao sexo indicado por suas genitálias de nascença. Já alguns outros estudos mostram que, em algumas características, o cérebro dos transexuais se assemelha ao sexo identificado ao nascer. Teremos de ter paciência e curiosidade para entender as pessoas transexuais, e o estudo delas revelará muito sobre o resto de nós.

Isso não é para dizer que todas as respostas estão na biologia, embora resposta nenhuma no assunto estará completa se ignorar a biologia. Na opinião de Alice Dreger, estudiosa dos intersexuais (hermafroditas) e crítica dos excessos do ativismo, um indivíduo que é um gay muito afeminado numa sociedade poderia ser uma transexual em outra sociedade – essa outra sociedade, ela pensa, seria menos tolerante ao jeito de ser desse indivíduo, fazendo com que ele (ou ela) precise dar “um passo à frente” na afirmação de sua identidade. É uma hipótese interessante e promissora, e em nada contraria a biologia.

De qualquer forma, os dois sexos (incluindo as variações raras dos intersexuais e transexuais) são mais semelhantes que diferentes: somos uma só espécie. E falar mais de sexo que de gênero me parece um bom ponto de partida para que a curiosidade e o respeito falem mais alto que a sanha persecutória das tribos políticas e o fervor moral dos ativistas cheios de certezas. Antes de agir, devemos saber.

FR: Quem acompanha seu trabalho sabe que você é um ferrenho crítico do relativismo pós-moderno; você poderia discorrer quais são as implicações do relativismo e por que é preciso combatê-lo?

EV: A forma mais resumida que eu encontrei para mostrar o problema dos relativismos é o que eu chamo de “a vingança das intuições”: Você pode alegar que não acredita em padrão universal de beleza, mas quando vê uma pessoa com aquela razão entre cintura e quadril, ou entre ombro e quadril, aquele timbre de voz agradável, e aquela pele saudável, sabe que fica impactado(a). Você pode dizer que moral é relativa à subjetividade, à cultura e aos tempos; mas, quando vê um animal sendo torturado, pensa que há algo de realmenteerrado naquilo e se esquece de qualificar “errado para mim” ou “errado para os brasileiros do século 21”, como mandam os relativismos morais. Você pode se pavonear de entendido e dizer que a ciência é só uma narrativa entre várias igualmente boas, que verdade é poder, que quem fala em “verdade” é positivista antiquado; mas, quando é acusado de um crime que não cometeu, quer que a verdade objetiva venha à tona, quer que a investigação seja imparcial, neutra e melhor que meras narrativas fictícias.

Relativismos são projetos falidos, cognitivamente insustentáveis, e seus defensores não se cansam de hipocritamente contrariá-los todos os dias das formas mais banais. A aderência insincera ou autoenganosa aos relativismos é mais uma bandeira política que um fruto do bom pensamento.

Se os relativismos um dia vencerem na disputa de poder, podemos dar adeus a todas as coisas em que esperamos que haja hierarquias baseadas em competência. Um artista não relativista tem uma lixeira cheia de rascunhos abortados. Um artista relativista bota qualquer rascunho na galeria. Um intelectual não relativista busca justificação para suas crenças que escape à sua subjetividade e ao paroquialismo em torno de si. Um intelectual relativista tem incentivo extra para querer ser julgado somente pela aclamação de seus pares, com todos os vieses que isso traz na bagagem.

FR: Na sua opinião, as chamadas “minorias” devem ser protegidas politicamente?

EV: À primeira vista parece que sim, se houver evidência de que são alvo diferencial de dificuldades que não ocorrem aos outros cidadãos – como é o caso dos deficientes, que precisam de rampas, textos em braile etc. Mas devemos saber disso antes de propor que o Estado interfira. A comparação com os deficientes é um balde de água fria proposital: antes de pedir favores do resto da sociedade, é preciso que perguntemos se alguma das outras minorias é mesmo comparável aos deficientes de alguma forma.

Isso não é para insultar as minorias (afinal, deficiência não é demérito), mas para deixar claro que os recursos são sempre finitos e que receber tratamento diferenciado requer motivos sérios como a deficiência. Talvez por saber intuitivamente disso, alguns dos ativistas da causa LGBT, por exemplo, insistem que o Brasil “é o país que mais mata LGBT”. Usam essa alegação para pedir, por exemplo, leis que limitem a liberdade de expressão em nome da causa.

Eu fui atrás da principal fonte dessa alegação, junto com colaboradores. Analisamos os dados. Concluímos que somente 7% do que essa fonte diz serem crimes homofóbicos se confirmam como tais. Portanto, há dúvidas de que o país é realmente tão ruim quanto alguns ativistas tentam fazer parecer com seu ativismo “Cidade Alerta”. Manter a liberdade de expressão intacta parece mais importante que chamar o Estado para agir com base em dados que não são dignos de confiança. Neste caso, a mim parece que a cultura está progredindo por si só, que o Judiciário já fez tudo ou quase tudo o que era necessário para haver igualdade perante a lei, e que, portanto, não há necessidade de clamar por mais Estado nesse assunto, ainda que haja ampla necessidade de a sociedade continuar conversando.

Resultado preliminar da checagem de dados do Grupo Gay da Bahia que a imprensa usa para alegar que o Brasil é o país que mais mata por homofobia. Só 7% dos casos se confirmam. 42% não foram mortes por motivação homofóbica. 47% inconclusivos https://bit.ly/2VxEIfg

Os asiáticos nos Estados Unidos, hoje, estão se saindo melhor que a base étnica que fundou o país (anglo-saxões protestantes), e nisso não devem nada ao Estado. Na verdade, nos últimos séculos, o Estado serviu como obstáculo para eles. Eles são a prova de que programas de “ação afirmativa” não são necessários. Como um golpe de ironia, estão precisando processar a Universidade de Harvard porque políticas de ação afirmativa na seleção de alunos na instituição prejudicam os asiáticos por se saírem bem demais.

Os proponentes das ações afirmativas, portanto, têm o ônus de provar por que pensam que outras minorias são incapazes de sucessos similares sem que os critérios de admissão, seleção e competição sejam ajustados para elas. Como esses proponentes pensam que a diferença entre etnias é mais cultural que biológica (e eu tendo a concordar), precisam procurar explicações na cultura. Evidentemente, a explicação que sempre usam é que a cultura dominante discrimina injustamente as minorias. Essa explicação é verdadeira, mas ela não é a história completa, então há aqui o risco da “mentira por omissão”. Todo fenômeno sociológico tem uma miríade de fatores causais diferentes. Mas, como há dogmatismo político, se agarram à explicação do preconceito e acusam de preconceito quem quer aventar outras hipóteses. Essa é uma postura de inquisidor, não de investigador.

FR: Quais os riscos das “políticas identitárias” para o desenvolvimento do trabalho científico?

EV: Quando eu penso nas faces que eu via no Departamento de Genética da Universidade de Cambridge, lembro de todas as categorias identitárias que tantas pessoas tratam hoje como donzelas em apuros. Vi lá mulheres negras, mulheres muçulmanas com véu, cristãos, ateus, até transexuais (e digo “até” porque são bem menos de 1% da população, então não aparecem em muitos espaços por mero efeito do acaso – aí está uma explicação alternativa à obsessão de creditar tudo a preconceito!). A diversidade que observei ali era apenas um efeito colateral dos valores da instituição: estávamos ali porque nos interessávamos por genética e, por sorte ou determinação, conseguimos fundos para seguir nossos interesses.

Como o interesse em genética é bem distribuído em grupos de identidade e as pessoas são livres para tentar entrar lá, há diversidade identitária em quem tenta. Não sendo essas identidades critério de admissão ou exclusão, o resultado era um grupo fisicamente diverso. Como o interesse em matemática não é tão bem distribuído nas identidades quanto a genética, a cara da plateia nos seminários dos departamentos de exatas deve ser diferente. Certamente é mais masculina, pois os homens herdaram de seus ancestrais masculinos um cérebro mais propenso a se interessar por coisas e abstrações do que pelo tratamento de animais e pessoas. Há evidência científica para essa previsão de qual será a plateia. Pressões sociais para que as pessoas se conformem a estereótipos podem contribuir para manter alguns grupos menos presentes em alguns espaços. Mas pouca pesquisa rigorosa é de fato feita para mostrar o quanto disso está por trás do que observamos.

De qualquer forma, o que importa é que exista a liberdade de seguir nossos interesses, não que os interesses sejam artificialmente distribuídos na população, o que geraria mais profissionais desinteressados e desiludidos. As ciências são investigações que empregam métodos lapidados pela experiência das gerações passadas de cientistas. Os melhores cientistas eram genuinamente interessados em suas áreas, se atraíram naturalmente por elas. A moda ideológica da política identitária leva ao risco de tentar forçar a plateia dos seminários de matemática a ser mais parecida com a plateia da genética, atropelando liberdades e curiosidades genuínas no processo.

Portanto, é uma tendência preocupante para a pesquisa científica, tanto quanto discriminações “clássicas”, talvez mais preocupante que elas. Quando os geneticistas começarem a prestar muita atenção na identidade da colega que está falando, darão menos atenção ao conteúdo do que está dizendo e à qualidade do trabalho.

Pelo que indicam as evidências, não é o racismo, a homofobia, ou a misoginia que estão em grande parte nos genes, mas uma tendência ao tribalismo. Nós somos capazes de usar qualquer coisa, inclusive identidades políticas abstratas, para nos dividirmos em tribos, passando a agir de forma condescendente/simpática a quem consideramos confrades e de forma hostil/desconfiada a quem rotulamos como estranhos ao nosso grupo. São vieses de fábrica da nossa natureza. Podemos enfatizá-los ou desenfatizá-los, mas não nos livrar completamente deles. Insistir nos marcadores de identidade ao fazer política, indicam resultados replicados, é receita certa para exacerbar racismo, homofobia, misoginia etc. Ao menos em se tratando de marcadores de identidade que são ideias, mudar de ideia é possível, embora raro, quando o tribalismo tem essa natureza. Quando o tribalismo é baseado em características identitárias que não escolhemos e das quais não podemos nos livrar, o prognóstico de longo prazo é o desastre, mesmo que a intenção de curto prazo seja a defesa de oprimidos.

1st of fevereiro

Estudei o conservadorismo com um amigo. Ele virou conservador. Eu não. Por quê?


Desde 2014 venho me informando melhor sobre o que é o conservadorismo. Roger Scruton, Edmund Burke, John Kekes e Thomas Sowell são alguns dos nomes que estudei. Um amigo que estudou comigo virou conservador. Eu não. Continuei “laconicamente” liberal. Buscarei explicar aqui o porquê, depois de uma breve discussão terminológica.

A primeira coisa que estou presumindo é que você só está realmente aberto ao liberalismo e ao conservadorismo quando desistiu de achar boas respostas na cartilha batida da esquerda que quase todo mundo conhece: igualdade acima de liberdade. Revolução acima de evolução. Trabalhadores acima de patrões (como se um jogo de soma zero capturasse completamente a natureza dessa relação). Não acredito em “posições políticas com sobrenome”: liberal conservador, conservador nos costumes e liberal na economia, esquerda liberal. Para mim, essas posições com sobrenomes, embora possam ser uma tentativa de dar nuance e variedade ao cardápio, podem ser resultado de um tribalismo estilhaçado e racionalizações sobre posições mínimas mal compreendidas e adotadas pela metade. Mas esse é outro assunto, que não será desenvolvido aqui.

O liberalismo e o conservadorismo oferecem heurísticas mentais diferentes. Heurísticas são receitas para resolver problemas que são imperfeitas, mas que as circunstâncias nos obrigam a adotar. Por exemplo: uma solução heurística para a malária seria secar todos os mangues. Funcionaria, mas não vai realmente à causa do problema, que são mosquitos infectados com o plasmódio. As heurísticas se fazem presentes especialmente quando você tem informações imperfeitas para apontar para a melhor solução, o que em política é a maior parte do tempo.

A heurística do liberalismo é priorizar um valor, a liberdade, num universo de outros valores. É maximizar a liberdade individual. Notem que é implausível que a liberdade sempre seja o valor mais importante em cada situação. É por isso que se trata de uma heurística: uma receita sujeita a erro mas que se espera que funcione na maior parte do tempo. Aqui cabe a famosa analogia conservadora contra o liberalismo: a liberdade é um cavalo que a gente monta. A montaria nada diz sobre o destino para onde devemos ir. Só defender que se tenha a montaria é insuficiente. E o conservadorismo supostamente ofereceria um norte.

A heurística conservadora é outra. Ela diz que, se você não vê razão para a existência de algum hábito, instituição ou crença, isso não significa que não existe razão nenhuma. Podem haver razões não articuladas pelos aderentes. Inovações que substituam esses hábitos, instituições e crenças, portanto, poderiam estar atropelando boas razões para que fiquem como estão. Essas inovações vêm na forma de ideias para reforma social que a heurística conservadora vê como arrogância intelectual e pressa de revolucionários. É isso que chamam de um ceticismo político característico do conservadorismo.

Ambas as heurísticas têm sua sensatez. Se sou liberal e não conservador, é porque considerei a heurística liberal melhor que a heurística conservadora. Devo dar minhas razões para rejeitar o conservadorismo, portanto.

O conservadorismo e o liberalismo ambos resultam do iluminismo (Esclarecimento). O primeiro surgiu com uma reação de Burke aos erros da Revolução Francesa, e o segundo veio das especulações de Locke e posteriores. Como indica a origem, o conservadorismo na verdade é uma receita sobre o que não deve ser feito, não um norte definido.

Por isso, não é realmente um norte para a montaria da liberdade, mas uma cerca: “Não pise para além desta cerca com seu cavalo. Lá há dragões. Coisas terríveis vão acontecer.” Essa cerca independe do terreno sendo cercado. Crenças absurdas podem ser protegidas por essa cerca.

E às vezes há dragões mesmo. Às vezes há comunismo cuspindo fogo, esperanças de engenharia social que ignoram a natureza humana, e elas não vêm apenas da esquerda, mas também de liberais (considere, por exemplo, as propostas de reforma da educação do libertário Bryan Caplan e de reforma da democracia do libertário Jason Brennan). E às vezes dá em tragédia, sim, que podemos contabilizar em dezenas de milhões de mortos só no século XX. Apesar de tudo isso, essa disponibilidade ao risco, de cruzar a cerca, ecoa com um antigo conselho: sapere aude. Ouse saber. Lema do iluminismo.

Essa disponibilidade a correr riscos é característica de um ser cognoscente que busca ser livre. Sem riscos, a razão é um mero instrumento de manutenção de estruturas herdadas cuja justificação frequentemente já foi esquecida, se existente — como quer a heurística conservadora.

Levar a razão às últimas consequências, abandonando as tradições se preciso (dentro da própria cabeça, não necessariamente recomendando isso à sociedade), é algo que lembra mais o liberalismo que o conservadorismo. O liberalismo é o filho favorito do Esclarecimento, portanto. Tanto é assim que a afirmação de que o conservadorismo e a esquerda são filhos do iluminismo é mais controversa. Alguns conservadores podem considerar que a real raiz do conservadorismo é o conhecimento de tentativa e erro acumulado nas comunidades tradicionais ao longo das gerações: um pacto entre os vivos, os mortos e os que estão para nascer, como belamente descreveu Burke; não as ideias do próprio Burke. E muitos consideram que muitas das ideias populares da esquerda são reações ao iluminismo dentro do idealismo alemão e mais tarde dentro da moda pós-moderna que hoje nos dá de presente a péssima moda da política identitária, embora outros considerem a esquerda outra filha do iluminismo, desde Rousseau, que já expressou tantas das ideias que perduram na esquerda até hoje.

Dizer que o liberalismo é o filho favorito do projeto da razão não é o mesmo que xingar conservadores de burros ou de irracionais. Não é o caso, claramente, e há muitos conservadores mais racionais que muitos liberais. Mas isso explica por que o tal ceticismo dos conservadores costuma ser apenas político e poucos deles são ateus ou agnósticos, por exemplo.

Tomemos como exemplo o Caio Coppola. É um cara inteligente, jovem, racional que está merecidamente popular entre os conservadores brasileiros. Na complexa rede de crenças dele, ele abandonou o ateísmo para abraçar um conservadorismo completo que vem com religião. E, o que é mais importante: ele confessa que os motivos dele para abandonar o ateísmo e abraçar a religião não foram racionais.

O fato de ele e outros adotarem uma “teologia do coração” (como dizia Bertrand Russell) é uma evidência a favor da minha tese: preferem a cerquinha segura, preferem não arriscar uma crença ousada como o ateísmo, e explicitamente confessam que, nesse assunto, largaram a “montaria” racional/liberal. Isso não quer dizer que os liberais são ou devem ser na maioria ateus ou agnósticos (a maioria não é), a tese é outra: liberais são mais abertos a novas ideias avançadas racionalmente, não importando tanto assim o risco delas para as tradições.

É por isso, senhoras e senhores, que eu não posso ser um conservador, por mais que critique a esquerda e respeite o conservadorismo. Estou comprometido com o ideal do Esclarecimento (e, portanto, liberdade) em todas as avenidas e vielas. Não abro exceções. Se não há que filosofar, há que filosofar. Desconfio de todas as alternativas.

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P.S.: Alguns que leram meu Manifesto Isentão podem perguntar como é que minha postura de defender abandonar os rótulos e as tribos políticas poderia ser compatível com a minha defesa do liberalismo. A resposta é que, como dito acima, o liberalismo deve ser considerado como um conjunto de ideias que resultam de uma heurística. Ainda assim, é preciso ter cuidado com a adoção do rótulo “liberal” e a participação de grupos que o adotam, pois, como eu disse no manifesto, nenhuma ideologia é imune à tribalização, que é uma tendência natural.