8th of May

Parlamento dos Valores


Imaginem uma família orientada total e unicamente pela liberdade. Os pais não forçariam os filhos a nada. Os filhos escolheriam se querem estudar, quando e como. Os pais se considerariam livres para pular a cerca quando e como quiserem, sem consideração por acordos mútuos ou pela estabilidade da relação e o efeito dela sobre os filhos.

A maioria de nós sabe ver que isso não daria certo. Júnior preferiria passar 14 horas por dia jogando Fortnite e zero horas aprendendo a multiplicar números de três dígitos. 

Valores são abstrações que tentamos usar para nos orientarmos num mundo complexo. No momento em que passamos a eleger um valor como soberano sobre todos os outros, nos arriscamos a perder alguma coisa.

Uma família ou sociedade orientada pela adoração da igualdade também daria errado, e temos exemplos dos efeitos nefastos de tentar elevar a igualdade acima dos outros valores: na cova, de fato todos são iguais.

Pensemos num terceiro valor, o mérito. Nós precisamos que haja alguma forma de as pessoas serem recompensadas pela competência. Vários serviços de que dependemos têm sua qualidade dependente de hierarquias de competência. Uma sobrevalorização do mérito pode ser um pouco mais difícil de imaginar como algo negativo, mas é possível: por trás da busca da meritocracia há a competição. Sobrevalorizar o mérito é sobrevalorizar os efeitos da competição. A competição é antagônica da cooperação (em última análise, mas isso não quer dizer que não possam conviver de forma estável). Uma sociedade em que a cooperação é assassinada pela competição é mais um pesadelo distópico.

E temos o outro lado dessa última moeda, que é a valorização exagerada dos aspectos comunais da cooperação. Nós temos sempre preferências. Preferimos cooperar com um grupo seleto. A forma extrema disso é a política identitária: cooperarei apenas com quem partilha de certas características minhas, e tratarei como suspeitos todos os que diferem de mim.

Uma cabeça sã precisa ter dentro de si um parlamento de valores diferentes. Muitas enfermidades mentais de várias formas de ideologia vêm de golpes de um ou mais valores sobre os outros.

24th of February

Ciência, política identitária, transexualidade, ação afirmativa e relativismos


Entrevista originalmente publicada em 30/01/2019 na Gazeta do Povo.

Francisco Razzo: Minha coluna desta semana traz entrevista com o biólogo Eli Vieira, que nos últimos anos tem feito críticas contundentes e consistentes ao relativismo pós-moderno e às políticas identitárias. Para não dizer que só entrevisto pessoas que concordam comigo, Eli Vieira e eu já tivemos oportunidades de debater a questão do aborto e do ateísmo. Temos visões diametralmente opostas a respeito desses temas e nem por isso deixamos de trocar boas ideias.

A propósito, umas das coisas mais importantes que eu aprendi estudando filosofia foi conseguir conversar com pessoas com ideias diferentes das minhas. Não que eu tolere tudo, não sou Gandhi ou Madre Teresa e não faço meditação; dependendo do assunto, meu pavio é bem curto. Mas estou longe de querer ouvir só a minha “patota ideológica” — confesso que não é tão difícil lembrar que a possibilidade de estar errado é uma boa maneira de cultivar a sabedoria.

Nesta entrevista você terá a oportunidade de conhecer uma visão muito provocadora sobre o atual debate da transexualidade, como a biologia pode nos ajudar a pensar a construção da identidade, por que o relativismo é simplesmente um absurdo, como as “minorias” devem ser protegidas e quais os riscos sociais das chamadas políticas identitárias — e, mesmo depois de tudo isso, saber por que ainda permanecemos tribais.

FR: Como você entende o atual debate da transexualidade?

Eli Vieira: É uma guerra de absurdos sendo atirados de todos os lados. De um lado, correndo à defesa das pessoas trans como cavaleiros correm ao socorro de donzelas em apuros em contos de fadas, temos pessoas pouco curiosas sobre o mundo real; aquelas que vivem no mundo das letras e, por isso mesmo, pensam que tudo se resume a esse mundo, tudo é linguagem. Confundem seu paroquialismo das letras com erudição, se radicalizam (como é de esperar em qualquer grupo pouco diverso em ideias), alegam que tudo é “construção social” num determinismo cultural ganancioso e não querem ouvir nada que venha das ciências empíricas. De outro lado, temos os simplistas, cujo entendimento de biologia se resume ao ensino básico: homem = XY; mulher = XX, isso é tudo o que há para dizer sobre o assunto, e querer saber mais é esquerdismo. Parece que os dois grupos se unem na falta de curiosidade. Quanto mais polarização, menos curiosidade.

FR: Há um “lugar-comum” que diz que “a teoria de gênero não pode ter respaldo na biologia”; afinal, qual a importância da biologia na construção da identidade de gênero (se é possível falar assim)?

EV: Estou de acordo com a filósofa Helena Cronin: a invenção do termo “gênero” só nos atrapalhou a entender melhor o sexo. O sexo, em seres humanos, é um fenômeno complexo o suficiente para ter expressões sociais e culturais. Ceifar essas expressões de sua relação com a realidade biológica do sexo faz tanto sentido quanto alegar que “altura” e “estatura” não são sinônimos; que “altura” é a realidade biológica de quantos centímetros um corpo humano pode crescer e que “estatura” diz respeito a uma “estrutura socialmente construída de privilégios para pessoas altas e opressão para as baixas”, para usar um pouco do vocabulário carregado das áreas acadêmicas em que se confunde ativismo com pesquisa.

Um dos principais responsáveis pela adoção do termo “gênero” na psicologia, John Money (1921-2006), foi um pesquisador que recomendou criar o menino David Reimer (1965-2004) como menina, pois David havia perdido o pênis ainda bebê, num erro médico durante uma circuncisão. Money usou o caso para tentar provar que a identidade sexual depende apenas da criação e do ambiente cultural, em vez de ser algo com bases genéticas. A intervenção consistiu também num processo transexualizador, incluindo remoção dos testículos. Money estava errado. Reimer cresceu com disforia, talvez o primeiro caso de disforia de alguém que se identificava com o sexo de nascimento. Abandonou a identidade socialmente imposta de menina, teve uma vida difícil e cometeu suicídio mais tarde.

Uma ideologia popular nas humanidades, que é a que prega que tudo o que somos é construção social, corretamente cataloga todo tipo de crime já feito em nome das ciências empíricas: o movimento da eugenia envolvendo vários cientistas, a castração de pessoas de baixo QI nos Estados Unidos no começo do século 20, o racismo científico etc. Previsivelmente, não cataloga crimes cometidos em nome de seu próprio credo acadêmico da tábula rasa/construção social: além do crime de John Money, temos aqui também Pol Pot, Stálin e Mao Tsé-Tung, que explicitamente diziam que seus cidadãos eram folhas em branco e que, portanto, não havia uma natureza humana que oferecesse resistência aos princípios da revolução socialista (Jean-Paul Sartre, que foi stalinista e maoísta, é citado até hoje para defender que não existe natureza humana – acho que não é coincidência). Tanto o determinismo biológico quanto o determinismo cultural motivaram crimes contra pessoas inocentes.

Engana-se, no entanto, quem pensa que o caso David Reimer prova que sempre, sem falha, a identidade sexual saudável é a observada nas genitálias ao nascer. Estamos só começando a estudar a transexualidade, mas há dois bons motivos para considerar seriamente que é possível que algumas meninas nasçam com pênis e alguns meninos nasçam com vagina. O primeiro é que há uma independência temporal, no desenvolvimento do feto, da formação da genitália e da formação das partes do cérebro que diferem na média entre homens e mulheres. Enquanto a forma da genitália já se faz presente nos dois primeiros meses de desenvolvimento fetal, o cérebro só forma suas conexões neuronais, inclusive as importantes para a identidade sexual, da metade para o fim da gestação. Havendo essa separação temporal, é possível que haja alguma independência nas causas do sexo entre as pernas e do sexo entre as orelhas.

O outro motivo para acreditar que a transexualidade é natural é que, em muitas características, os homens são mais variados que as mulheres. Isso é verdade tanto para características físicas quanto psicológicas, como o QI. Aceitando que há bases biológicas por trás das diferenças de comportamento de homens e mulheres que fazem os dois sexos serem categorias sociais distintas, teremos de aceitar também que alguns homens podem se distanciar tanto da média de homens nessas bases, devido à maior variação masculina, que eles na verdade são mulheres no cérebro. E é por isso que há mais transexuais que se identificam como mulheres que como homens.

Há algumas pesquisas com transexuais indicando que isso é verdade: núcleos de uma parte do cérebro chamada hipotálamo dos transexuais são mais semelhantes ao sexo com o qual se identificam do que ao sexo indicado por suas genitálias de nascença. Já alguns outros estudos mostram que, em algumas características, o cérebro dos transexuais se assemelha ao sexo identificado ao nascer. Teremos de ter paciência e curiosidade para entender as pessoas transexuais, e o estudo delas revelará muito sobre o resto de nós.

Isso não é para dizer que todas as respostas estão na biologia, embora resposta nenhuma no assunto estará completa se ignorar a biologia. Na opinião de Alice Dreger, estudiosa dos intersexuais (hermafroditas) e crítica dos excessos do ativismo, um indivíduo que é um gay muito afeminado numa sociedade poderia ser uma transexual em outra sociedade – essa outra sociedade, ela pensa, seria menos tolerante ao jeito de ser desse indivíduo, fazendo com que ele (ou ela) precise dar “um passo à frente” na afirmação de sua identidade. É uma hipótese interessante e promissora, e em nada contraria a biologia.

De qualquer forma, os dois sexos (incluindo as variações raras dos intersexuais e transexuais) são mais semelhantes que diferentes: somos uma só espécie. E falar mais de sexo que de gênero me parece um bom ponto de partida para que a curiosidade e o respeito falem mais alto que a sanha persecutória das tribos políticas e o fervor moral dos ativistas cheios de certezas. Antes de agir, devemos saber.

FR: Quem acompanha seu trabalho sabe que você é um ferrenho crítico do relativismo pós-moderno; você poderia discorrer quais são as implicações do relativismo e por que é preciso combatê-lo?

EV: A forma mais resumida que eu encontrei para mostrar o problema dos relativismos é o que eu chamo de “a vingança das intuições”: Você pode alegar que não acredita em padrão universal de beleza, mas quando vê uma pessoa com aquela razão entre cintura e quadril, ou entre ombro e quadril, aquele timbre de voz agradável, e aquela pele saudável, sabe que fica impactado(a). Você pode dizer que moral é relativa à subjetividade, à cultura e aos tempos; mas, quando vê um animal sendo torturado, pensa que há algo de realmenteerrado naquilo e se esquece de qualificar “errado para mim” ou “errado para os brasileiros do século 21”, como mandam os relativismos morais. Você pode se pavonear de entendido e dizer que a ciência é só uma narrativa entre várias igualmente boas, que verdade é poder, que quem fala em “verdade” é positivista antiquado; mas, quando é acusado de um crime que não cometeu, quer que a verdade objetiva venha à tona, quer que a investigação seja imparcial, neutra e melhor que meras narrativas fictícias.

Relativismos são projetos falidos, cognitivamente insustentáveis, e seus defensores não se cansam de hipocritamente contrariá-los todos os dias das formas mais banais. A aderência insincera ou autoenganosa aos relativismos é mais uma bandeira política que um fruto do bom pensamento.

Se os relativismos um dia vencerem na disputa de poder, podemos dar adeus a todas as coisas em que esperamos que haja hierarquias baseadas em competência. Um artista não relativista tem uma lixeira cheia de rascunhos abortados. Um artista relativista bota qualquer rascunho na galeria. Um intelectual não relativista busca justificação para suas crenças que escape à sua subjetividade e ao paroquialismo em torno de si. Um intelectual relativista tem incentivo extra para querer ser julgado somente pela aclamação de seus pares, com todos os vieses que isso traz na bagagem.

FR: Na sua opinião, as chamadas “minorias” devem ser protegidas politicamente?

EV: À primeira vista parece que sim, se houver evidência de que são alvo diferencial de dificuldades que não ocorrem aos outros cidadãos – como é o caso dos deficientes, que precisam de rampas, textos em braile etc. Mas devemos saber disso antes de propor que o Estado interfira. A comparação com os deficientes é um balde de água fria proposital: antes de pedir favores do resto da sociedade, é preciso que perguntemos se alguma das outras minorias é mesmo comparável aos deficientes de alguma forma.

Isso não é para insultar as minorias (afinal, deficiência não é demérito), mas para deixar claro que os recursos são sempre finitos e que receber tratamento diferenciado requer motivos sérios como a deficiência. Talvez por saber intuitivamente disso, alguns dos ativistas da causa LGBT, por exemplo, insistem que o Brasil “é o país que mais mata LGBT”. Usam essa alegação para pedir, por exemplo, leis que limitem a liberdade de expressão em nome da causa.

Eu fui atrás da principal fonte dessa alegação, junto com colaboradores. Analisamos os dados. Concluímos que somente 7% do que essa fonte diz serem crimes homofóbicos se confirmam como tais. Portanto, há dúvidas de que o país é realmente tão ruim quanto alguns ativistas tentam fazer parecer com seu ativismo “Cidade Alerta”. Manter a liberdade de expressão intacta parece mais importante que chamar o Estado para agir com base em dados que não são dignos de confiança. Neste caso, a mim parece que a cultura está progredindo por si só, que o Judiciário já fez tudo ou quase tudo o que era necessário para haver igualdade perante a lei, e que, portanto, não há necessidade de clamar por mais Estado nesse assunto, ainda que haja ampla necessidade de a sociedade continuar conversando.

Resultado preliminar da checagem de dados do Grupo Gay da Bahia que a imprensa usa para alegar que o Brasil é o país que mais mata por homofobia. Só 7% dos casos se confirmam. 42% não foram mortes por motivação homofóbica. 47% inconclusivos https://bit.ly/2VxEIfg

Os asiáticos nos Estados Unidos, hoje, estão se saindo melhor que a base étnica que fundou o país (anglo-saxões protestantes), e nisso não devem nada ao Estado. Na verdade, nos últimos séculos, o Estado serviu como obstáculo para eles. Eles são a prova de que programas de “ação afirmativa” não são necessários. Como um golpe de ironia, estão precisando processar a Universidade de Harvard porque políticas de ação afirmativa na seleção de alunos na instituição prejudicam os asiáticos por se saírem bem demais.

Os proponentes das ações afirmativas, portanto, têm o ônus de provar por que pensam que outras minorias são incapazes de sucessos similares sem que os critérios de admissão, seleção e competição sejam ajustados para elas. Como esses proponentes pensam que a diferença entre etnias é mais cultural que biológica (e eu tendo a concordar), precisam procurar explicações na cultura. Evidentemente, a explicação que sempre usam é que a cultura dominante discrimina injustamente as minorias. Essa explicação é verdadeira, mas ela não é a história completa, então há aqui o risco da “mentira por omissão”. Todo fenômeno sociológico tem uma miríade de fatores causais diferentes. Mas, como há dogmatismo político, se agarram à explicação do preconceito e acusam de preconceito quem quer aventar outras hipóteses. Essa é uma postura de inquisidor, não de investigador.

FR: Quais os riscos das “políticas identitárias” para o desenvolvimento do trabalho científico?

EV: Quando eu penso nas faces que eu via no Departamento de Genética da Universidade de Cambridge, lembro de todas as categorias identitárias que tantas pessoas tratam hoje como donzelas em apuros. Vi lá mulheres negras, mulheres muçulmanas com véu, cristãos, ateus, até transexuais (e digo “até” porque são bem menos de 1% da população, então não aparecem em muitos espaços por mero efeito do acaso – aí está uma explicação alternativa à obsessão de creditar tudo a preconceito!). A diversidade que observei ali era apenas um efeito colateral dos valores da instituição: estávamos ali porque nos interessávamos por genética e, por sorte ou determinação, conseguimos fundos para seguir nossos interesses.

Como o interesse em genética é bem distribuído em grupos de identidade e as pessoas são livres para tentar entrar lá, há diversidade identitária em quem tenta. Não sendo essas identidades critério de admissão ou exclusão, o resultado era um grupo fisicamente diverso. Como o interesse em matemática não é tão bem distribuído nas identidades quanto a genética, a cara da plateia nos seminários dos departamentos de exatas deve ser diferente. Certamente é mais masculina, pois os homens herdaram de seus ancestrais masculinos um cérebro mais propenso a se interessar por coisas e abstrações do que pelo tratamento de animais e pessoas. Há evidência científica para essa previsão de qual será a plateia. Pressões sociais para que as pessoas se conformem a estereótipos podem contribuir para manter alguns grupos menos presentes em alguns espaços. Mas pouca pesquisa rigorosa é de fato feita para mostrar o quanto disso está por trás do que observamos.

De qualquer forma, o que importa é que exista a liberdade de seguir nossos interesses, não que os interesses sejam artificialmente distribuídos na população, o que geraria mais profissionais desinteressados e desiludidos. As ciências são investigações que empregam métodos lapidados pela experiência das gerações passadas de cientistas. Os melhores cientistas eram genuinamente interessados em suas áreas, se atraíram naturalmente por elas. A moda ideológica da política identitária leva ao risco de tentar forçar a plateia dos seminários de matemática a ser mais parecida com a plateia da genética, atropelando liberdades e curiosidades genuínas no processo.

Portanto, é uma tendência preocupante para a pesquisa científica, tanto quanto discriminações “clássicas”, talvez mais preocupante que elas. Quando os geneticistas começarem a prestar muita atenção na identidade da colega que está falando, darão menos atenção ao conteúdo do que está dizendo e à qualidade do trabalho.

Pelo que indicam as evidências, não é o racismo, a homofobia, ou a misoginia que estão em grande parte nos genes, mas uma tendência ao tribalismo. Nós somos capazes de usar qualquer coisa, inclusive identidades políticas abstratas, para nos dividirmos em tribos, passando a agir de forma condescendente/simpática a quem consideramos confrades e de forma hostil/desconfiada a quem rotulamos como estranhos ao nosso grupo. São vieses de fábrica da nossa natureza. Podemos enfatizá-los ou desenfatizá-los, mas não nos livrar completamente deles. Insistir nos marcadores de identidade ao fazer política, indicam resultados replicados, é receita certa para exacerbar racismo, homofobia, misoginia etc. Ao menos em se tratando de marcadores de identidade que são ideias, mudar de ideia é possível, embora raro, quando o tribalismo tem essa natureza. Quando o tribalismo é baseado em características identitárias que não escolhemos e das quais não podemos nos livrar, o prognóstico de longo prazo é o desastre, mesmo que a intenção de curto prazo seja a defesa de oprimidos.

1st of February

Estudei o conservadorismo com um amigo. Ele virou conservador. Eu não. Por quê?


Desde 2014 venho me informando melhor sobre o que é o conservadorismo. Roger Scruton, Edmund Burke, John Kekes e Thomas Sowell são alguns dos nomes que estudei. Um amigo que estudou comigo virou conservador. Eu não. Continuei “laconicamente” liberal. Buscarei explicar aqui o porquê, depois de uma breve discussão terminológica.

A primeira coisa que estou presumindo é que você só está realmente aberto ao liberalismo e ao conservadorismo quando desistiu de achar boas respostas na cartilha batida da esquerda que quase todo mundo conhece: igualdade acima de liberdade. Revolução acima de evolução. Trabalhadores acima de patrões (como se um jogo de soma zero capturasse completamente a natureza dessa relação). Não acredito em “posições políticas com sobrenome”: liberal conservador, conservador nos costumes e liberal na economia, esquerda liberal. Para mim, essas posições com sobrenomes, embora possam ser uma tentativa de dar nuance e variedade ao cardápio, podem ser resultado de um tribalismo estilhaçado e racionalizações sobre posições mínimas mal compreendidas e adotadas pela metade. Mas esse é outro assunto, que não será desenvolvido aqui.

O liberalismo e o conservadorismo oferecem heurísticas mentais diferentes. Heurísticas são receitas para resolver problemas que são imperfeitas, mas que as circunstâncias nos obrigam a adotar. Por exemplo: uma solução heurística para a malária seria secar todos os mangues. Funcionaria, mas não vai realmente à causa do problema, que são mosquitos infectados com o plasmódio. As heurísticas se fazem presentes especialmente quando você tem informações imperfeitas para apontar para a melhor solução, o que em política é a maior parte do tempo.

A heurística do liberalismo é priorizar um valor, a liberdade, num universo de outros valores. É maximizar a liberdade individual. Notem que é implausível que a liberdade sempre seja o valor mais importante em cada situação. É por isso que se trata de uma heurística: uma receita sujeita a erro mas que se espera que funcione na maior parte do tempo. Aqui cabe a famosa analogia conservadora contra o liberalismo: a liberdade é um cavalo que a gente monta. A montaria nada diz sobre o destino para onde devemos ir. Só defender que se tenha a montaria é insuficiente. E o conservadorismo supostamente ofereceria um norte.

A heurística conservadora é outra. Ela diz que, se você não vê razão para a existência de algum hábito, instituição ou crença, isso não significa que não existe razão nenhuma. Podem haver razões não articuladas pelos aderentes. Inovações que substituam esses hábitos, instituições e crenças, portanto, poderiam estar atropelando boas razões para que fiquem como estão. Essas inovações vêm na forma de ideias para reforma social que a heurística conservadora vê como arrogância intelectual e pressa de revolucionários. É isso que chamam de um ceticismo político característico do conservadorismo.

Ambas as heurísticas têm sua sensatez. Se sou liberal e não conservador, é porque considerei a heurística liberal melhor que a heurística conservadora. Devo dar minhas razões para rejeitar o conservadorismo, portanto.

O conservadorismo e o liberalismo ambos resultam do iluminismo (Esclarecimento). O primeiro surgiu com uma reação de Burke aos erros da Revolução Francesa, e o segundo veio das especulações de Locke e posteriores. Como indica a origem, o conservadorismo na verdade é uma receita sobre o que não deve ser feito, não um norte definido.

Por isso, não é realmente um norte para a montaria da liberdade, mas uma cerca: “Não pise para além desta cerca com seu cavalo. Lá há dragões. Coisas terríveis vão acontecer.” Essa cerca independe do terreno sendo cercado. Crenças absurdas podem ser protegidas por essa cerca.

E às vezes há dragões mesmo. Às vezes há comunismo cuspindo fogo, esperanças de engenharia social que ignoram a natureza humana, e elas não vêm apenas da esquerda, mas também de liberais (considere, por exemplo, as propostas de reforma da educação do libertário Bryan Caplan e de reforma da democracia do libertário Jason Brennan). E às vezes dá em tragédia, sim, que podemos contabilizar em dezenas de milhões de mortos só no século XX. Apesar de tudo isso, essa disponibilidade ao risco, de cruzar a cerca, ecoa com um antigo conselho: sapere aude. Ouse saber. Lema do iluminismo.

Essa disponibilidade a correr riscos é característica de um ser cognoscente que busca ser livre. Sem riscos, a razão é um mero instrumento de manutenção de estruturas herdadas cuja justificação frequentemente já foi esquecida, se existente — como quer a heurística conservadora.

Levar a razão às últimas consequências, abandonando as tradições se preciso (dentro da própria cabeça, não necessariamente recomendando isso à sociedade), é algo que lembra mais o liberalismo que o conservadorismo. O liberalismo é o filho favorito do Esclarecimento, portanto. Tanto é assim que a afirmação de que o conservadorismo e a esquerda são filhos do iluminismo é mais controversa. Alguns conservadores podem considerar que a real raiz do conservadorismo é o conhecimento de tentativa e erro acumulado nas comunidades tradicionais ao longo das gerações: um pacto entre os vivos, os mortos e os que estão para nascer, como belamente descreveu Burke; não as ideias do próprio Burke. E muitos consideram que muitas das ideias populares da esquerda são reações ao iluminismo dentro do idealismo alemão e mais tarde dentro da moda pós-moderna que hoje nos dá de presente a péssima moda da política identitária, embora outros considerem a esquerda outra filha do iluminismo, desde Rousseau, que já expressou tantas das ideias que perduram na esquerda até hoje.

Dizer que o liberalismo é o filho favorito do projeto da razão não é o mesmo que xingar conservadores de burros ou de irracionais. Não é o caso, claramente, e há muitos conservadores mais racionais que muitos liberais. Mas isso explica por que o tal ceticismo dos conservadores costuma ser apenas político e poucos deles são ateus ou agnósticos, por exemplo.

Tomemos como exemplo o Caio Coppola. É um cara inteligente, jovem, racional que está merecidamente popular entre os conservadores brasileiros. Na complexa rede de crenças dele, ele abandonou o ateísmo para abraçar um conservadorismo completo que vem com religião. E, o que é mais importante: ele confessa que os motivos dele para abandonar o ateísmo e abraçar a religião não foram racionais.

O fato de ele e outros adotarem uma “teologia do coração” (como dizia Bertrand Russell) é uma evidência a favor da minha tese: preferem a cerquinha segura, preferem não arriscar uma crença ousada como o ateísmo, e explicitamente confessam que, nesse assunto, largaram a “montaria” racional/liberal. Isso não quer dizer que os liberais são ou devem ser na maioria ateus ou agnósticos (a maioria não é), a tese é outra: liberais são mais abertos a novas ideias avançadas racionalmente, não importando tanto assim o risco delas para as tradições.

É por isso, senhoras e senhores, que eu não posso ser um conservador, por mais que critique a esquerda e respeite o conservadorismo. Estou comprometido com o ideal do Esclarecimento (e, portanto, liberdade) em todas as avenidas e vielas. Não abro exceções. Se não há que filosofar, há que filosofar. Desconfio de todas as alternativas.

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P.S.: Alguns que leram meu Manifesto Isentão podem perguntar como é que minha postura de defender abandonar os rótulos e as tribos políticas poderia ser compatível com a minha defesa do liberalismo. A resposta é que, como dito acima, o liberalismo deve ser considerado como um conjunto de ideias que resultam de uma heurística. Ainda assim, é preciso ter cuidado com a adoção do rótulo “liberal” e a participação de grupos que o adotam, pois, como eu disse no manifesto, nenhuma ideologia é imune à tribalização, que é uma tendência natural.

31st of December

Não é água, é úgua


Estamos acostumados com a ideia de que a água é H2O e apenas isso, com boas razões. Duzentos anos atrás, se você perguntasse a cientistas / filósofos naturais se a água é infinitamente divisível, muitos responderiam que sim. Hoje sabemos que as moléculas dotadas de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio são o limite do que podemos considerar água, e que, havendo divisões além disso (como na eletrólise), o resultado não será água, mas outra coisa.

Podemos dizer que H2O é o limite ontológico da água nas dimensões espaciais.

Mas podemos dizer também que ainda não sabemos tudo sobre o que é água, pois não temos teorias completas do seu comportamento em condições de turbulência. A turbulência dos fluidos ainda é uma coisa que deixa os físicos perplexos.

Sabemos mesmo, então, que água é só H2O? Essa é realmente a definição de água? Aqui não há escapatória para problemas filosóficos como a definição de definição. Teorias científicas são um esforço de definir da melhor forma possível o que são as coisas que elas descrevem. Se um ser de um universo paralelo nos perguntar o que é água, mas exigir saber como a água se comporta em condições de turbulência, passaremos alguma vergonha.

Recorro ao exemplo da água quando estou pensando em propriedades humanas como sexo, sexualidade, comportamento político, autoengano, motivações explícitas, motivações inconspícuas, valores estéticos, etc.

Façamos a seguinte analogia: dada a dificuldade de gerar agora uma definição da água que dê conta da turbulência, faria algum sentido dizer que temos sim uma definição completa de água, mas que em condições de turbulência temos outra coisa que não é água, mas “úgua”? A invenção do termo “úgua” para separar o conceito de água “bem comportada” do conceito de água sob turbulência parece uma manobra intelectual no mínimo desnecessária.

Penso que a invenção de termos como “gênero” é quase perfeitamente análoga ao que descrevi sobre a “úgua”. Temos o fenômeno sexo, que nada na biologia impede que tenha implicações comportamentais, sociais e culturais. Algumas pessoas tomam a “turbulência” das relações sociais e da herança cultural e consideram que seria melhor separar sexo de “gênero”. Eu discordo, é uma atividade intelectual que não nos ajuda a ter boas definições de sexo, que precisam tomar por completo suas dimensões “bem comportadas” e “turbulentas”.

Outras analogias são uma tentativa de separar entre orientação sexual e identidade de gênero (compreendo os efeitos didáticos, mas não está claro que é uma distinção com diferença); padrão de beleza de atração sexual e “biofilia”; enfim, todas as instâncias em que algum instinto humano pode ter expressões bem além das que os genes podem influenciar de forma direta e determinante.

A ideia por trás do problema é chamada pelos filósofos de “partir a natureza em suas juntas”, ou seja, fazer descrições que não fazem distinções inúteis com motivações políticas, ideológicas ou outras; mas apenas distinções conceituais que correspondem a diferenças reais.

28th of December

Entrevista à Vice sobre Olavo de Carvalho


Como de praxe no meu blog, publico na íntegra minhas respostas a perguntas de jornalistas, já que o trabalho deles requer usar pouco do que digo em resposta a entrevistas. Publiquei na íntegra, por exemplo, uma entrevista sobre genética do comportamento a O Diário, e outra entrevista à BBC sobre ateísmo. Agora, na íntegra, o que eu disse à Vice sobre Olavo de Carvalho. Usaram muito pouco do que está a seguir na matéria original.

VICE: Entre artigos em jornais e postagens em redes sociais, Olavo de Carvalho já acusou o evolucionismo de ser “o pai do comunismo e do nazismo” e que, ao contrário do criacionismo, “não pode ser provado, nem refutado”. Qual sua opinião a respeito? Qual dessas declarações considera a mais descabida ou sem sentido? Apontaria outra(s)? Qual(is)?

EV: É uma afirmação descabida que denuncia uma confusão fundamental entre questões de fato e julgamentos de valor (que filósofos reais não fazem), e, além disso, é uma tentativa de uso da falácia de culpa por associação para tentar desacreditar uma teoria muito bem embasada em evidências, especialmente hoje, com a genética molecular. Por muitos séculos, os marinheiros sofreram com o escorbuto, que é o resultado de deficiência de vitamina C. Durante todo esse tempo, eles carregaram genes para a produção de vitamina C no próprio corpo, mas um deles, o gene GLO, foi desligado por uma mutação. Todos os primatas antropoides carregam essa mutação, que ocorreu no nosso ancestral em comum milhões de anos atrás, e, por isso, se postos num ambiente pobre em vitamina C como uma caravela portuguesa do século XVI, também sofreriam de escorbuto. Já os cães e gatos não sofreriam, pois produzem a própria vitamina C. Evidências como essa são a razão do domínio inconteste da teoria da evolução sobre todas as ciências biológicas. Darwin jamais leu Marx, apesar de serem contemporâneos, e, como mostrado num livro biográfico chamado “A Causa Sagrada de Darwin” (Desmond & Moore, 2009), Darwin não apenas descendia de dois avós abolicionistas, como era contra o racismo e a escravidão, e portanto também seria contra qualquer outra forma de opressão racial como as premissas do nazismo. Mesmo se Darwin tivesse sido uma má pessoa, isso em nada afetaria a teoria da evolução. Se ele não tivesse nascido, a pessoa famosa por ter proposto a teoria seria Alfred Russell Wallace, co-descobridor independente da seleção natural.

Olavo também já afirmou que Darwin plagiou o próprio avô Erasmus na proposição da teoria, mas Erasmus apenas escreveu um poema chamado Zoonomia em que defendia ideias similares às do francês Lamarck, faltando ali o principal, que era a seleção natural, à qual Darwin chegou como analogia da seleção artificial de pombos, cães e outros animais domesticados. Olavo também escreveu que os biólogos de hoje consideram falsa a seleção natural. Quase sempre que fala de ciência, Olavo não sabe do que está falando. E é algo preocupante para alguém que quer ser reconhecido como filósofo, pois algum contato com a ciência é importante nesse sentido, sendo a ciência uma filha da filosofia.

VICE: Em 2006, o senhor elaborou um abaixo-assinado pela “refutação das imposturas intelectuais de Olavo de Carvalho”. Nele, diz que o colunista “trava uma batalha contra o conhecimento científico, especialmente contra a evolução biológica” e “não parece estar minimamente credenciado ou capacitado para falar de ciência”. Doze anos depois, o que mudou? A que o senhor atribui o fato de Olavo de Carvalho ser um “negacionista científico”? O que há por trás disso?

EV: Eu tinha 19 anos quando fiz o abaixo-assinado, e hoje me parece uma ideia meio boba fazer um abaixo-assinado pela refutação de erros científicos. O número de assinaturas nada faz pelos argumentos, mas ao menos mostra alguma oposição e protesto pela má escolha de colunista por parte dos jornais. Eu poderia simplesmente ter escrito cartas a esses jornais respondendo às falsidades que Olavo estava divulgando sobre ciência. No entanto, como muitos sabem, produzir bobagens demanda muito menos energia do que refutá-las, e é uma tarefa ingrata sair desmentindo cada falsidade que o professor Olavo emite no mundo. Ainda não sei se ele faz de propósito, provavelmente não, mas deveria aprender a virtude da humildade no campo da ciência.

O professor não é exatamente um “negacionista” da evolução, ele alega que é neutro a respeito da sua veracidade. No entanto, jamais chegou a mim qualquer crítica dele aos criacionistas, o que levanta dúvidas sobre esse suposto agnosticismo. Há ao menos um motivo que explica a desconfiança dele contra a comunidade científica e o mundo acadêmico em geral, que é a prevalência de opiniões de esquerda nesse meio. Segundo uma pesquisa de Mitchell Langbert deste ano, há 21 professores de esquerda na biologia para cada professor de direita nas 51 melhores universidades americanas. Nas humanidades a desproporção é ainda maior, na sociologia é 44 para 1, e zero professores de direita (Republicanos) foram achados na área da comunicação e da antropologia entre mais de 5 mil amostrados. Não creio que a biologia precise refletir a proporção de opiniões políticas da população em geral, mas a quase ausência de discordância política em áreas que formam jornalistas e sociólogos gera um problema sério, pois são áreas mais destacadas das evidências empíricas, em que a popularidade entre os colegas às vezes é o mais importante critério de julgamento da qualidade do trabalho. Olavo tem razão em se preocupar com isso, mas Jonathan Haidt e a organização Heterodox Academy fazem um trabalho melhor que ele em analisar o problema.

Não creio que não haja valor algum na obra dele; algumas coisas que ele afirma sobre uma aprovação de autoridades ao declínio nos padrões de arte e cultura me parecem corretas. Algumas críticas à esquerda que ele faz são pertinentes. Mas, se eu fosse um conservador, eu preferiria mil vezes ler Roger Scruton, Thomas Sowell, John Kekes e Burke a ler o Olavo, pois o ruído de teorias da conspiração, grosserias e ataques à ciência seria muito menor.

VICE: Considerado o mentor intelectual de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho já indicou, até o momento, dois ministros: Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores. Quais as chances de essas e outras teorias pseudocientíficas, como o criacionismo, por exemplo, serem incorporadas, aos poucos, ao currículo escolar ou, quem sabe, influenciar as decisões do futuro presidente? Por quê? 

EV: Intelectuais adoram exagerar a sua importância no mundo. Acho um enorme exagero creditar a Olavo de Carvalho alguma parte importante na eleição de Jair Bolsonaro, ao menos uma parte tão importante quanto as descobertas da Lava Jato e a recessão econômica resultante das péssimas políticas econômicas do PT, por exemplo. Sobre as nomeações, é importante ver caso a caso, se é verdade que o indicado foi indicado por competência. É importante lembrar ao presidente eleito que essa foi a promessa: nomear ministros por competência, e não por alinhamento ideológico. E parece que às vezes ele se esquece da promessa. Na minha opinião, Olavo acertou numa dessas indicações e errou na outra. Então ele geralmente tem a mesma probabilidade de acerto que o lançamento de uma moeda.

26th of December

Um YouTuber contra o Utilitarismo


Um YouTuber político da linha libertária ensina seus seguidores a xingar John Stuart Mill e o utilitarismo. Isso gerou um fenômeno curioso, que é um tabu contra essa teoria filosófica e suas filhas com uma frequência não-negligenciável nas redes sociais. Tabu pois tudo o que têm a oferecer são xingamentos, não argumentos sobre o porquê da sua desaprovação.

O utilitarismo clássico teve como fundadores, além de Mill (1806-1873), Jeremy Bentham (1748-1832) e Henry Sidgwick (1838-1900). Todos ingleses. Sidgwick é considerado o mais cuidadoso dos três nessa teoria ética, e, para variar, é o menos conhecido dos três. Os sensatos e moderados geralmente não têm sua sensatez e moderação premiada com a fama.

O que é, então, o utilitarismo (clássico)? É uma teoria metaética, ou seja, que visa a dar diretrizes sobre como chegar a conclusões morais com rigor. Essas diretrizes são que a decisão moral correta visa a diminuir a dor e maximizar o prazer para o maior número possível de pessoas. Ao conjunto dessas duas ações deram o nome “utilidade”, daí “utilitarismo”. Essa ideia pode soar plausível à primeira vista, mas leva a problemas fatais, então basicamente ninguém mais, ao menos entre filósofos, é um utilitarista clássico hoje em dia. É correto selecionar ao acaso um paciente num hospital, ou um visitante saudável que estiver passando por lá, matá-lo, extrair seus órgãos e doar para os pacientes que esperavam por transplante, maximizando a utilidade? Segundo essa teoria, parece que sim, o que conflita com nossa intuição comum de que isso é errado, e uma intuição que parece mais moralmente sólida que as invenções dos três filósofos. O que é o sentido da vida? É aparentemente um problema moral que não parece ser prontamente solucionável com a sugestão metaética de falar só em dor e em prazer. As discussões modernas do problema levam mais à proposta de que o sentido da vida tem a ver com uma “entrega ativa a projetos de valor”, como resumiu o professor Desidério Murcho.

Em certo sentido, o utilitarismo é uma ideia radical. O YouTuber se diz defensor de ideias radicais outras a favor da liberdade. O problema das ideias radicais em geral, como diz a filósofa Susan Haack, é que são na maior parte radicalmente implausíveis.

É necessária uma classificação de ideias como essa entre verdadeiras e falsas, mas às vezes isso turva o fato de que há diferentes formas de estar errado. Há erros tão grotescos que sequer são inteligíveis. Não é o caso do utilitarismo clássico, que foi um erro na direção certa. Digo isso porque, examinando a vida desses três, vê-se logo que sua teoria ou causou ou foi resultado de sua inteligência aliada à sua correção moral.

Mill famosamente foi o primeiro parlamentar a tentar estender direitos plenos às mulheres britânicas. Bentham esteve à frente de seu tempo ao propor que gays tinham liberdade de exercer sua sexualidade e que era imoral a crueldade contra animais. Quanto a Sidgwick preciso confessar que também sou afetado pela falta de fama dele e não sei o suficiente de sua vida.

Então, especialmente no caso de Mill e Bentham, vemos que, ao tentar fundar a ética sobre um alicerce secular e objetivo, eles se libertaram de preconceitos morais de suas próprias culturas e propuseram progressos bem além de seu tempo. Não propuseram o desmembramento de indivíduos inocentes em hospitais nem nenhuma atrocidade do tipo. O que tinham era uma teoria errada por ser incompleta, não errada por ser propositalmente cruel.

Em consequência, propuseram a expansão das liberdades que esse YouTuber alega querer para o Brasil. Se quer mesmo, respeite mais os utilitaristas e pare de criar uma legião de difamadores dos filósofos e da teoria.

30th of November

Por que ‘teorias’ pós-modernas, ‘pós-coloniais’ e ‘críticas’ das humanas são falsas ou fatalmente defeituosas


Neste texto, apresento as principais ideias por trás de ‘teorias’ (sic) pós-modernas, ‘críticas’ (sic) e ‘pós-coloniais’ (sic) que tomaram as humanidades, como mostradas resumidamente por Connor Wood nos parágrafos numerados; e digo por que são falsas ou fatalmente defeituosas.

1 ) “O conhecimento e a verdade são na maior parte socialmente construídos, não descobertos objetivamente.”

O defeito mais evidente desse tipo de relativismo epistemológico é que ele instantaneamente se volta contra si mesmo: se o que está sendo sugerido é que a verdade depende da base cultural (que há alguma afirmação sobre o mundo natural, por exemplo, que seja ao mesmo tempo “verdadeira para americanos” e “falsa para brasileiros”, num sentido forte), essa sugestão também está sujeita a esses grilhões: o formulador do relativismo só está certo relativamente à sua cultura pós-moderna, ou universitária, ou americana; e errado nas outras culturas que rejeitam o relativismo. No fim das contas, há uma obrigação intelectual de avaliar a verdade independente das culturas que o relativismo cultural apenas tenta adiar.

Há, no entanto, algumas vias de argumentação que podem deixar uma sensação de falta de saciedade nessa refutação por recursão (ver “Medo do Conhecimento”, de Paul Boghossian). Mas não tem problema: há conhecimentos, ou hipóteses condutivas ao conhecimento, que não dependem da cultura de forma alguma.

Esta semana foi evidenciado, por exemplo, que homens conhecem a física do lançamento de objetos instintivamente, melhor que as mulheres. No ano passado, outro estudo mostrou que mulheres são geneticamente melhores que os homens em conhecer quais são as verdadeiras emoções das pessoas por trás das expressões faciais. Portanto, há conhecimentos com um fundo inato, completamente independente da cultura. Ou, para definições alternativas de “conhecimento”: há tendências de formar hipóteses mais ou menos prováveis de serem verdadeiras a depender da genética da pessoa que as formula.

Alguém pode responder que meus exemplos não servem, pois foi dito que “na maior parte” o conhecimento e a verdade são socialmente construídos, não que são completamente assim. Aqui o problema é a ambiguidade de “construção social”. O sentido mais brando de construção social é que, por exemplo, se outra cultura tivesse descoberto a teoria da evolução pela seleção natural, não a teria descrito exatamente com os mesmos termos, com o mesmo estilo, ou talvez até com a mesma unidade de seleção escolhidos por Darwin e a comunidade moderna de biólogos. O sentido mais radical, e presumivelmente preferido pelos construtivistas por não ser apenas um truísmo enfadonho, é que, se essa outra cultura tivesse observado as espécies com o mesmo afinco, poderia ter inventado uma teoria com uma espinha dorsal totalmente diferente da de Darwin, e com o mesmo direito de se reivindicar verdadeira.

Os contrutivistas sociais alternam entre o sentido brando e o radical de “construção social” numa estratégia desonesta chamada de “mota e terreno” (motte and bailey) por Nicholas Shackel, como divulguei aqui. Graças a essa estratégia de abuso da vagueza, parecem profundos e revolucionários falando coisas que na verdade são banais, ou então dizem coisas revolucionárias que, quando mostradas falsas, alegam que eram na verdade as banalidades de que ninguém discordaria.

Então, basta pressionar construtivistas para que esclareçam exatamente o que querem dizer, e logo se notará que é nada menos que um absurdo a alegação de que a constante de Planck pode ser uma coisa para chineses e outra diferente e igualmente verdadeira para indianos. É importante pedir exemplos dos conhecimentos, dignos do nome, ou das verdades que são claramente “socialmente construídas”, e daí destilar que sentido conveniente de “construção social” está sendo usado naquele momento. A falta de exemplos muitas vezes denuncia a estratégia de mota-e-terreno em ação.

2) “O que acreditamos ser ‘verdade’ é em grande parte um resultado do poder social: quem o tem, quem é oprimido por ele, [e] como ele tem influência sobre quais mensagens serão ouvidas.”

Essa é uma formulação mais moderada da afirmação (também estrategicamente ambígua) de Foucault de que verdade é poder. O sentido banal disso é que poder pode ser obtido descobrindo verdades. O radical é que se estabelece forçosamente o que é verdade pela via do poder e que o que é considerado verdade é apenas resultado de um bullying de autoridades. O sentido radical também se volta contra si mesmo: afirmar que a verdade é estabelecida pelo poder é algo que é afirmado em função do poder? Se Foucault tinha poder, “verdade é poder” é verdadeiro, e, se Foucault era um descamisado, “verdade é poder” é falso? Enxergar verdade e poder como coisas diferentes tem muito mais plausibilidade. Já no sentido banal, alguns exemplos darão nuance e esvaziarão interesse na tese.

Tomemos, por exemplo, a descoberta de que o escorbuto era resultado de uma dieta pobre em frutas cítricas séculos atrás: sendo uma das primeiras nações que obtiveram acesso a esse conhecimento, os britânicos se tornaram um pouco mais poderosos por causa dele nos mares. Uma quantidade de poder foi derivada de um conhecimento, como muitas vezes ocorre. Há muitos conhecimentos que circulam, no entanto, sem darem poder mais a uns que a outros, como é hoje o caso desse mesmo conhecimento sobre o escorbuto num mundo com abundância de frutas cítricas. O fato de esse conhecimento ter deflacionado o seu valor de poder em alguns séculos em nada toca o seu valor de verdade. Acreditamos que escorbuto é causado por deficiência de vitamina C porque é verdade que escorbuto é causado por deficiência de vitamina C, não porque isso dá poder ou é favorecido pelo poder.

O ideal de Kant de nos esclarecermos sobre muitas áreas diferentes é algo meio ingênuo, pois subestima o real tamanho do corpo de conhecimento de cada área e a real dificuldade de se esclarecer sobre cada uma delas. Nós dependemos de autoridades, queiramos ou não, nas áreas em que não temos tempo ou interesse de nos aplicarmos à altura do ideal iluminista. Nesse sentido, é verdade que muito do que sabemos vem do “poder”: o poder das autoridades sobre algum assunto. Mas, como mostra a resistência de negadores de teorias científicas, o poder dessas autoridades muitas vezes não é suficiente para que muitos acreditem que as suas teorias são verdadeiras. Há diferentes poderes, alguns derivam de notoriedade originada na competência, outros derivam de articulação política, voto, etc. São poderes substancialmente diferentes, e ainda assim nós temos na maior parte dos casos a opção de deixar de depender do poder das autoridades e avaliar por nós mesmos a verdade do que estão dizendo.

O problema da afirmação, além de levar a interpretações que são verdadeiras mas banais ou radicais mas falsas, é que parece ignorar que certos poderes existem em função da verdade, enquanto outros não; e que poder e verdade são coisas independentes: muitas pessoas acreditam, com base em autoridade, em coisas que são falsas. Há aqui uma questão empírica: quanto do que uma pessoa ou sociedade acredita é verdadeiro? Quanto disso ela sabe por análise, e quanto ela acredita com base em autoridades (por influência do poder)? Ao fazer essa investigação empírica, o construtivista se vê obrigado a esclarecer o que está dizendo para uma interpretação banal (devido à insustentabilidade da interpretação radical e mais interessante), e mais: também terá de diferenciar crenças verdadeiras de crenças falsas, não apenas crenças adotadas por força do poder e crenças adotadas por outros motivos. Isso dilui totalmente os interesses radicais por trás da máxima.

3) “O poder geralmente é opressivo e resultado de interesse próprio (e, implicitamente, de um jogo de soma zero).”

É preciso enfatizar a vagueza (proposital?) do termo “poder”, aqui. Não apenas por ignorar que há diferentes formas de ter poder (definido grosso modo como a liberdade de fazer o que se quer sem limitações impostas por outrem), mas também por ignorar que, na maior parte, há tanto interesses próprios e jogos de soma zero quanto consideração de interesses alheios e jogos de mútuo benefício no que as pessoas fazem com o poder. Reduzir o uso do poder a geralmente apenas uma coisa é uma visão demasiado cínica dos seres humanos. E falsa. Aqui, recomendo o livro “O Elefante no Cérebro”, de Simler e Hanson, para dar uma visão nuançada e mais abrangente das diversas motivações, tanto as nobres quanto as escusas, por trás do que as pessoas fazem. Eu escrevo textos para obter reconhecimento, mas também porque me importo se as pessoas acreditam em coisas falsas e danosas. As pessoas e as sociedades são complexas o suficiente para abrigar os dois conjuntos de motivações; e, mais uma vez, é uma questão empírica se numa pessoa ou sociedade há mais motivações de um tipo do que do outro, não é algo que o construtivista pode simplesmente estabelecer do alto da poltrona.

4) “Portanto, a maior parte das alegações de verdade supostamente objetiva na verdade são jogos de poder, ou estratégias para legitimar arranjos sociais particulares.”

Com o risco de ser repetitivo: é mais uma instância de uma visão cínica, pouco relacionada a coisas que sabemos concretamente sobre as pessoas. É uma asserção que pode ser voltada contra si mesma, pois pode ser objetiva ou subjetiva como qualquer outra afirmação e obrigará qualquer pessoa intelectualmente honesta a recorrer a métodos para aferir objetividade ou subjetividade, largando portanto compromisso com a forma radical da afirmação. E, finalmente, há um lado empírico que os construtivistas geralmente se recusam a tocar para dar justificação às suas alegações. Mas cínicos geralmente não se preocupam com esse tipo de coisa. Cínicos não se importam com a verdade, há algum grau de autodestruição nisso (como se vê na derrubada de cada uma das formas radicais e interessantes desses enunciados por via da recursão), e, como dizem os anglófonos, “misery loves company”, daí se afirma que todos são igualmente cínicos.

Enquanto não é difícil mostrar o sucesso de valores epistêmicos como objetividade, imparcialidade e apreço pela verdade até em intervalos curtos como os últimos três anos; é difícil fazer o mesmo em benefício de relativismos e radicalismos políticos por trás de áreas que adotam pós-modernismo, “teoria” “crítica” e “estudos pós-coloniais”. Não nos deram nada além de mais cínicos afirmando coisas sem rigor analítico ou empírico neste mundo.

Referências

Boghossian, Paul. Fear of Knowledge: Against Relativism and Constructivism. Clarendon Press, 2007.

Lombardo, Michael P., and Robert O. Deaner. “On The Evolution of The Sex Differences in Throwing: Throwing Is a Male Adaptation in Humans.” The Quarterly Review of Biology 93, no. 2 (May 22, 2018): 91–119. https://doi.org/10.1086/698225.

Shackel, Nicholas. “The Vacuity of Postmodernist Methodology.” Metaphilosophy 36, no. 3 (Abril 2005): 295–320. https://doi.org/10.1111/j.1467-9973.2005.00370.x.

Simler, Kevin, and Robin Hanson. The Elephant in the Brain: Hidden Motives in Everyday Life. Oxford University Press, 2017.

Warrier, Varun, K. Grasby, F. Uzefovsky, R. Toro, P. Smith, Bhismadev Chakrabarti, J. Khadake, et al. “Genome-Wide Meta-Analysis of Cognitive Empathy: Heritability, and Correlates with Sex, Neuropsychiatric Conditions and Cognition,” May 16, 2017. https://doi.org/10.17863/CAM.9675.

Wood, Connor. “Why Postmodernism and Science Can’t Stand Each Other.” Science On Religion (blog), November 29, 2018. https://www.patheos.com/blogs/scienceonreligion/2018/11/postmodernism-science-cant-stand-each-other/.

12th of November

Como descobrir se um comportamento “é genético”?


Quer saber se há genética num comportamento? É surpreendentemente fácil.

Primeiro, amostre aleatoriamente as pessoas, anotando genótipo e ambiente.

Digamos que há três genótipos e três ambientes, como nesse slide de uma palestra minha; e que o comportamento é contável. Pode ser, por exemplo, quantas vezes a pessoa rói as unhas num mês. Pode ser quantas vezes ao dia pensa em estrangular a sogra. Não importa.

Agora precisamos só de mais dois conceitos estatísticos bem básicos. Um é a média, que todo mundo sabe como calcular. A média é a soma das medidas da característica de interesse de cada elemento de um determinado grupo dividida pelo número de elementos no grupo. Como se vê no slide, vamos precisar de médias parciais, agrupadas por genótipo e ambiente, e da média total.

O segundo conceito, um pouco menos conhecido mas não menos importante que a média, é a variância. Enquanto a média mostra uma “tendência central” nos dados, a variância foi inventada para se ter uma medida de como os dados se espalham em torno dessa média. Então você vai precisar literalmente calcular a distância (ou desvio) de cada dado em relação à média. Então subtraia a média de cada elemento: elemento – média. Você vai notar que uns elementos são maiores e outros menores que a média, então algumas dessas distâncias serão negativas, e outras positivas. Tudo o que nos interessa é o número absoluto de distância do elemento à média, não se é negativo ou positivo. Para “nivelar” todas as distâncias, portanto, vamos elevar todas ao quadrado, o que elimina o problema de algumas distâncias serem negativas. Somando todos esses quadrados, ainda precisamos calibrar o cálculo pelo número de elementos, dividindo a soma por esse número como fazemos com a média. Por uma tecnicalidade estatística que não vem ao caso explicar agora, subtraímos 1 desse total de elementos antes de usá-lo no denominador da fração.

Como podemos fazer com a média, também podemos calcular “variâncias parciais”, uma genética e outra ambiental. Para fazer isso, repetimos o procedimento que usamos acima para calcular variância total do fenótipo, mas em vez de subtrair a média total dos elementos, vamos subtraí-la das médias parciais genéticas e depois das médias parciais ambientais (médias das linhas e das colunas).

Temos agora três variâncias: uma (Vp) nos diz o quanto os dados variam em torno da média total, outra (Vg) nos diz o quanto as médias dos estados genéticos (genótipos) variam em relação à média total; e outra (Ve) o quanto as médias para cada ambiente variam em torno da média total.

Como todas as três medidas vêm dos mesmos dados, elas têm uma relação muito simples: Vp = Vg + Ve.

Qual é a unidade desses valores? É o quadrado da contagem do fenótipo comportamental do nosso interesse (“estrangulamentos imaginários de sogra ao quadrado”). Não é uma unidade que diz por si só alguma coisa interessante sobre o comportamento. No fundo, essas estatísticas são só formas didáticas de entender o que os dados estão mostrando, porque nós somos seres burros demais para perceber isso só olhando para eles.

Mas não importa a unidade de medida se for possível expressar como uma fração: se você dividir a variância genética (Vg) pela variância total (Vp), obterá uma fração interessante, que é o quanto da variância total pode ser atribuído à genética. A essa fração, que é um número entre 0 e 1 facilmente convertido em uma porcentagem (x100), nós damos o nome de “herdabilidade”.

Como há formas mais detalhadas de calcular a herdabilidade, esse modo de calcular dá numa herdabilidade “em sentido amplo”. Podemos pensar na herdabilidade como uma ferramenta de prospecção inicial da participação genética numa característica que varie entre indivíduos de uma dada população. Note que é importante que varie, pois a herdabilidade é totalmente baseada numa medida da dispersão (variação) dos dados, que é a variância.

Por isso, quando você pergunta a um geneticista “isso é genético?”, melhor seria perguntar “quanto de variação genética nas prováveis causas dessa característica existe?” O número provavelmente já existe. Para o QI, a herdabilidade é de 50% a 80% (surpreendentemente, a herdabilidade do QI aumenta com a idade, ou seja, os indivíduos dependem mais da genética, não menos, nas habilidades cognitivas quando ficam mais velhos).

Um resultado já replicado à exaustão na genética do comportamento é que a herdabilidade nunca é 100%, mas também nunca é 0%. Não existe comportamento completamente livre de influência genética. O geneticista Robert Plomin até desafia os que negam a produzir exemplo de comportamento sem componente genético.

Já a afirmação de que determinado comportamento humano é “construção social”… qual é o método mesmo?

1st of October

Cal Newport: “Siga os seus sonhos” é péssimo conselho de carreira


Estamos numa era sentimentalista em que a paixão é vista como um dos principais pré-requisitos para o trabalho bem feito. Também estamos numa era de distrações sem rédeas, busca de atalhos para tudo e uma romantização do sucesso. O cientista da computação e escritor Cal Newport vai contra tudo isso, com razão.

Em seu livro “So Good They Can’t Ignore You” (“Seja tão bom que não possam te ignorar”, em tradução livre), Newport relata sua própria busca por uma carreira satisfatória, ou, mais precisamente, por formas de fazer satisfatória uma carreira que ele já tinha. No processo, ele explica por que outros projetos que ele perseguiu não deram certo. Mas a linha condutora principal do livro são exemplos de pessoas que obtiveram carreiras de sucesso pelas quais realmente se apaixonaram, que Newport usa como fonte de dados para apoiar um conjunto de regras heurísticas para encontrar um trabalho que você ama fazer.

A primeira dessas regras, que é a principal, é Não Siga Sua Paixão (ou, alternativamente, Não Siga Seus Sonhos). O conselho contrário, dado por celebridades como Steve Jobs, ignora que ter sonhos claros (ou paixões pré-existentes) é algo muito raro. Também ignora que pessoas sem experiência romantizam os empregos que alegam ser o seu sonho, ignorando suas partes difíceis. O que realmente acontece, inclusive no caso do próprio Steve Jobs, é que as pessoas desenvolvem paixão por seu trabalho após adquirirem competências específicas relacionadas a ele, e a escolha inicial é com frequência um acidente entre várias tentativas, não um resultado de uma paixão pré-existente. Evidentemente, não é todo tipo de trabalho que passará a ser uma paixão. É necessário que o trabalhador veja o próprio trabalho como algo de valor, que está acrescentando algo valioso ao mundo. Mas, novamente, essa reflexão vem com a experiência que os novatos não têm. Portanto, não é que a paixão é um pré-requisito do bom trabalho: é uma consequência. O bom trabalho não vem de sonhos: ele se torna eventualmente um sonho realizado.

O erro do conselho “siga seus sonhos” é similar ao que eu encontro em alguns liberais que propõem reformar o sistema de ensino para permitir uma máxima liberdade dos estudantes de escolherem aprender somente as coisas pelas quais têm interesse. O erro está em presumir que interesses genuínos são só os pré-existentes, quando é possível interessar-se por uma área e desenvolver mais curiosidade por ela somente após um contato com exemplares rigorosos dela. O modelo atual de ensino médio voltado ao vestibular certamente exagera a quantidade de conhecimentos obrigatórios, e esses liberais estão certos em fazer essa crítica. Um modelo melhor deve estar num caminho do meio: por exemplo, oferecer introduções curtas a todos os alunos e só depois deixar que abandonem algumas áreas a favor de outras. Créditos obrigatórios, conteúdos facultativos.

Regra 2: Seja Tão Bom que Não Poderão te Ignorar. Conheço muitas pessoas que obtêm diplomas e passam a esperar recompensa do mercado por isso. Essa espera de recompensa pelo esforço de formação acadêmica pode ser um grande fardo sobre a saúde mental, de ansiedade, estresse e até depressão. Esse sofrimento é desnecessário e há uma terapia cognitiva para ele: compreender a soberania da lei da oferta e demanda. Não importa a sua área, o seu diploma não é uma joia rara, há centenas de milhares de pessoas com a sua formação. O mercado não vai pagar (bem) por um produto que é abundante. Para ser bem pago, você deve desenvolver competências raras, que levam tempo para desenvolver. Para detectar a oportunidade no “possível adjacente”, como diz a literatura de autoajuda de carreira, você precisa estar no topo das habilidades na área. Não passe seu tempo simplesmente esperando: aproveite-o para lapidar-se com gana e persistência. Procure aprender as partes da sua área em que você menos se sente confiante. Diversifique suas habilidades e faça pequenas apostas em que tempo considerável foi investido. Obtenha um patrimônio de competências.

Regra 3: A Importância de Ter Controle. Será difícil desenvolver paixão pelo seu trabalho se você nunca se sente como alguém que tomou as rédeas do que você faz. No entanto, a cautela aqui é salutar. Só é possível barganhar por mais controle, mudando de área por exemplo, se você realmente trabalhou em obter o seu patrimônio de competências raras dessa nova área. Tentar obter controle sem esse patrimônio é dar um salto no escuro, e você poderá se machucar. Outra dificuldade é que, uma vez que você obteve o patrimônio de competências e conhecimentos, você encontrará alguma resistência da cadeia de comando. Há realmente um lado nefasto no mercado de trabalho que busca cortar as asas de quem já está pronto para voar. Aqui, coragem é uma das virtudes mais necessárias. Poderá  haver situações em que você precisará recusar uma promoção, por exemplo, em nome de não ceder mais do seu controle sobre a sua carreira.

Regra 4: A Importância de Ter Uma Missão. Sentir-se executando uma missão importante ao trabalhar é o que diferencia os profissionais experientes cínicos dos que se mantêm motivados e otimistas. Aqui, novamente, trabalhar bem vem antes. Você estará disposto a fazer sacrifícios, se cansar e aplicar centenas de horas numa missão genuína. Qualquer coisa diferente disso volta ao erro de “seguir seus sonhos”.

Há algo de artificial na separação das quatro regras de Newport. Não concordo com a separação da regra 4 da regra 1, por exemplo. Há detalhes importantes que as ajudam a fazer sentido omitidos aqui para manter essa resenha curta, no entanto. Talvez a maior dificuldade de aplicar alguns dos conselhos do livro é que eles foram formulados para uma realidade de muito mais liberdade econômica e riqueza já produzida do que é o caso no Brasil. Mas não nos deixemos desmotivar por isso, nem usar as insuficiências brasileiras como desculpa. O livro vale a pena e poderá te inspirar a abandonar as soluções fáceis e reformar a sua rotina para que você se torne um profissional satisfeito.

26th of September

De onde vem o autoengano?


Psicanalistas propunham que o autoengano é uma forma de o “ego” proteger a si mesmo. Pois, sendo doloroso reconhecer que se está enganado em alguma crença, o tal “ego” usaria um arsenal de defesas psicológicas (negação, racionalização etc.) para se proteger da dor psicológica de estar errado.

O problema dessa explicação é que ela é só um exercício de classificação — sistematização que somente aponta algumas coisas e bota nelas um nome. Não é uma investigação das origens desse tipo de comportamento. Entender as origens é importante, afinal, o autoengano pode até botar nossa vida em risco, quando diante de doenças e comportamento de risco mentimos para nós mesmos que estamos saudáveis (a maioria das pessoas superestima a própria saúde e aptidão física). Isso gera um enigma para as nossas origens, que estão na evolução biológica. A seleção natural em tese não deveria nos dotar de formas de diminuir ativamente nossas chances de sobrevivência e reprodução.

Mas há um fato sobre nossas origens que ajuda a explicar o autoengano: nossa espécie surgiu não apenas sobrevivendo a intempéries ambientais, mas também sobrevivendo a disputas sociais, nas quais um indivíduo enganar a si mesmo pode ser uma boa estratégia a depender do contexto social. É importante lembrar que estamos falando aqui de crenças que nós realmente temos sobre nós mesmos, com sinceridade, não mentiras. A mentira é muito mais difícil, pois o mentiroso precisa se lembrar de todo o cenário que precisou inventar e manter a aparência de que acredita na falsidade que está emitindo. Mentir é cansativo! O autoengano, que é energeticamente mais barato, volta a falsidade para dentro porque ela nos beneficia no ambiente social. Usando a máscara com sinceridade, nesse contexto nossas chances de sobreviver e reproduzir aumentam. Assim, pensar no autoengano num contexto evolutivo o explica de forma melhor do que a psicanálise jamais sonharia em fazer.

Para fins didáticos e tendo em mente essas explicações, podemos classificar o autoengano nas seguintes estratégias:

– Se fazer de maluco. Uma pessoa perfeitamente racional pararia uma disputa de poder ou luta de acordo com suas reais chances de vencer. Mas um bom lutador de boxe continua alegando que é o mais forte até perder a consciência na lona. Ao sinalizar que acredita em si até as últimas consequências, o blefe sincero de quem se faz de maluco pode dissuadir seu competidor de tentar fazer o mesmo. É, em outras palavras, uma boa estratégia no jogo. O maluco está disposto a fazer qualquer coisa para vencer, mesmo se isso significa um alto custo para si. No jogo do “frango”, em que dois motoristas avançam na contramão um do outro até que o perdedor desvie a direção por medo, ganha o maluco que arrancar o volante e o jogar pela janela.

– O cão leal. É a pessoa que realmente acredita nas coisas mais malucas não porque avaliou evidências ou argumentos, mas porque (e ela própria não sabe disso) acreditar sem verificar é uma sinalização de lealdade a uma tribo. Qualquer semelhança com quem insiste que Lula não sabia de nada, que a delação dos empreiteiros está toda errada, que pedalinhos com os nomes dos netos no sítio em Atibaia são só sinal de hospitalidade do real dono do sítio, etc., não é mera coincidência. Exemplos em outras tribos políticas são facílimos de encontrar.

– O propagandista. “Eu sei que isso é verdade”, diz esse. “Acredite comigo!” Esse tipo de autoengano é bem comum em quem vem às redes sociais não porque quer discutir ou apresentar um ponto de vista de forma clara, mas porque quer demonstrar *CONVICÇÃO* de alguma coisa. “Nossa”, pensam os que acreditam no autoengano do propagandista, “se ele fala com esse nível de confiança, deve saber do que está falando”. Malafaia é muito bom nisso, e eu acredito que ele muitas vezes é sincero. Quando respondi à sua alegação de que genética nada tem a ver com homossexualidade, cinco anos atrás, ele fez uma tréplica cheia de confiança, desfilando falácias de ataque pessoal contra mim. Eu, o biólogo acostumado com as incertezas e com seguir o que as evidências permitem que eu afirme, não podia demonstrar o mesmo nível de autoconfiança que Malafaia. E por isso mesmo não fui tão convincente para alguns quanto ele poderia ser: porque ele realmente acredita que está certo, e fala com convicção.

– O trapaceiro. “Respeito a sua opinião”, diz com convicção alguém que pensa que a tal opinião é falsa ou até imoral. A pessoa realmente acredita que RESPEITA algo que pensa que é errado. O que significa isso, afinal? Logicamente não faz muito sentido. Significa que a pessoa está tentando enganar a si mesma que seus motivos são todos puros, e que se ela discorda (e geralmente não quer fazer trabalho nenhum para mostrar que a certa é ela), ao menos ela “respeita” a opinião abjeta que se recusa a avaliar. Está sendo preguiçosa, tentando trapacear as regras de honestidade e diligência intelectual, mas todas as suas motivações são supostamente cândidas.

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Com ideias do livro “The Elephant in the Brain: Hidden Motives in Everyday Life”, de Kevin Simler e Robin Hanson