1st of February

Estudei o conservadorismo com um amigo. Ele virou conservador. Eu não. Por quê?


Desde 2014 venho me informando melhor sobre o que é o conservadorismo. Roger Scruton, Edmund Burke, John Kekes e Thomas Sowell são alguns dos nomes que estudei. Um amigo que estudou comigo virou conservador. Eu não. Continuei “laconicamente” liberal. Buscarei explicar aqui o porquê, depois de uma breve discussão terminológica.

A primeira coisa que estou presumindo é que você só está realmente aberto ao liberalismo e ao conservadorismo quando desistiu de achar boas respostas na cartilha batida da esquerda que quase todo mundo conhece: igualdade acima de liberdade. Revolução acima de evolução. Trabalhadores acima de patrões (como se um jogo de soma zero capturasse completamente a natureza dessa relação). Não acredito em “posições políticas com sobrenome”: liberal conservador, conservador nos costumes e liberal na economia, esquerda liberal. Para mim, essas posições com sobrenomes, embora possam ser uma tentativa de dar nuance e variedade ao cardápio, podem ser resultado de um tribalismo estilhaçado e racionalizações sobre posições mínimas mal compreendidas e adotadas pela metade. Mas esse é outro assunto, que não será desenvolvido aqui.

O liberalismo e o conservadorismo oferecem heurísticas mentais diferentes. Heurísticas são receitas para resolver problemas que são imperfeitas, mas que as circunstâncias nos obrigam a adotar. Por exemplo: uma solução heurística para a malária seria secar todos os mangues. Funcionaria, mas não vai realmente à causa do problema, que são mosquitos infectados com o plasmódio. As heurísticas se fazem presentes especialmente quando você tem informações imperfeitas para apontar para a melhor solução, o que em política é a maior parte do tempo.

A heurística do liberalismo é priorizar um valor, a liberdade, num universo de outros valores. É maximizar a liberdade individual. Notem que é implausível que a liberdade sempre seja o valor mais importante em cada situação. É por isso que se trata de uma heurística: uma receita sujeita a erro mas que se espera que funcione na maior parte do tempo. Aqui cabe a famosa analogia conservadora contra o liberalismo: a liberdade é um cavalo que a gente monta. A montaria nada diz sobre o destino para onde devemos ir. Só defender que se tenha a montaria é insuficiente. E o conservadorismo supostamente ofereceria um norte.

A heurística conservadora é outra. Ela diz que, se você não vê razão para a existência de algum hábito, instituição ou crença, isso não significa que não existe razão nenhuma. Podem haver razões não articuladas pelos aderentes. Inovações que substituam esses hábitos, instituições e crenças, portanto, poderiam estar atropelando boas razões para que fiquem como estão. Essas inovações vêm na forma de ideias para reforma social que a heurística conservadora vê como arrogância intelectual e pressa de revolucionários. É isso que chamam de um ceticismo político característico do conservadorismo.

Ambas as heurísticas têm sua sensatez. Se sou liberal e não conservador, é porque considerei a heurística liberal melhor que a heurística conservadora. Devo dar minhas razões para rejeitar o conservadorismo, portanto.

O conservadorismo e o liberalismo ambos resultam do iluminismo (Esclarecimento). O primeiro surgiu com uma reação de Burke aos erros da Revolução Francesa, e o segundo veio das especulações de Locke e posteriores. Como indica a origem, o conservadorismo na verdade é uma receita sobre o que não deve ser feito, não um norte definido.

Por isso, não é realmente um norte para a montaria da liberdade, mas uma cerca: “Não pise para além desta cerca com seu cavalo. Lá há dragões. Coisas terríveis vão acontecer.” Essa cerca independe do terreno sendo cercado. Crenças absurdas podem ser protegidas por essa cerca.

E às vezes há dragões mesmo. Às vezes há comunismo cuspindo fogo, esperanças de engenharia social que ignoram a natureza humana, e elas não vêm apenas da esquerda, mas também de liberais (considere, por exemplo, as propostas de reforma da educação do libertário Bryan Caplan e de reforma da democracia do libertário Jason Brennan). E às vezes dá em tragédia, sim, que podemos contabilizar em dezenas de milhões de mortos só no século XX. Apesar de tudo isso, essa disponibilidade ao risco, de cruzar a cerca, ecoa com um antigo conselho: sapere aude. Ouse saber. Lema do iluminismo.

Essa disponibilidade a correr riscos é característica de um ser cognoscente que busca ser livre. Sem riscos, a razão é um mero instrumento de manutenção de estruturas herdadas cuja justificação frequentemente já foi esquecida, se existente — como quer a heurística conservadora.

Levar a razão às últimas consequências, abandonando as tradições se preciso (dentro da própria cabeça, não necessariamente recomendando isso à sociedade), é algo que lembra mais o liberalismo que o conservadorismo. O liberalismo é o filho favorito do Esclarecimento, portanto. Tanto é assim que a afirmação de que o conservadorismo e a esquerda são filhos do iluminismo é mais controversa. Alguns conservadores podem considerar que a real raiz do conservadorismo é o conhecimento de tentativa e erro acumulado nas comunidades tradicionais ao longo das gerações: um pacto entre os vivos, os mortos e os que estão para nascer, como belamente descreveu Burke; não as ideias do próprio Burke. E muitos consideram que muitas das ideias populares da esquerda são reações ao iluminismo dentro do idealismo alemão e mais tarde dentro da moda pós-moderna que hoje nos dá de presente a péssima moda da política identitária, embora outros considerem a esquerda outra filha do iluminismo, desde Rousseau, que já expressou tantas das ideias que perduram na esquerda até hoje.

Dizer que o liberalismo é o filho favorito do projeto da razão não é o mesmo que xingar conservadores de burros ou de irracionais. Não é o caso, claramente, e há muitos conservadores mais racionais que muitos liberais. Mas isso explica por que o tal ceticismo dos conservadores costuma ser apenas político e poucos deles são ateus ou agnósticos, por exemplo.

Tomemos como exemplo o Caio Coppola. É um cara inteligente, jovem, racional que está merecidamente popular entre os conservadores brasileiros. Na complexa rede de crenças dele, ele abandonou o ateísmo para abraçar um conservadorismo completo que vem com religião. E, o que é mais importante: ele confessa que os motivos dele para abandonar o ateísmo e abraçar a religião não foram racionais.

O fato de ele e outros adotarem uma “teologia do coração” (como dizia Bertrand Russell) é uma evidência a favor da minha tese: preferem a cerquinha segura, preferem não arriscar uma crença ousada como o ateísmo, e explicitamente confessam que, nesse assunto, largaram a “montaria” racional/liberal. Isso não quer dizer que os liberais são ou devem ser na maioria ateus ou agnósticos (a maioria não é), a tese é outra: liberais são mais abertos a novas ideias avançadas racionalmente, não importando tanto assim o risco delas para as tradições.

É por isso, senhoras e senhores, que eu não posso ser um conservador, por mais que critique a esquerda e respeite o conservadorismo. Estou comprometido com o ideal do Esclarecimento (e, portanto, liberdade) em todas as avenidas e vielas. Não abro exceções. Se não há que filosofar, há que filosofar. Desconfio de todas as alternativas.

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P.S.: Alguns que leram meu Manifesto Isentão podem perguntar como é que minha postura de defender abandonar os rótulos e as tribos políticas poderia ser compatível com a minha defesa do liberalismo. A resposta é que, como dito acima, o liberalismo deve ser considerado como um conjunto de ideias que resultam de uma heurística. Ainda assim, é preciso ter cuidado com a adoção do rótulo “liberal” e a participação de grupos que o adotam, pois, como eu disse no manifesto, nenhuma ideologia é imune à tribalização, que é uma tendência natural.

31st of December

Não é água, é úgua


Estamos acostumados com a ideia de que a água é H2O e apenas isso, com boas razões. Duzentos anos atrás, se você perguntasse a cientistas / filósofos naturais se a água é infinitamente divisível, muitos responderiam que sim. Hoje sabemos que as moléculas dotadas de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio são o limite do que podemos considerar água, e que, havendo divisões além disso (como na eletrólise), o resultado não será água, mas outra coisa.

Podemos dizer que H2O é o limite ontológico da água nas dimensões espaciais.

Mas podemos dizer também que ainda não sabemos tudo sobre o que é água, pois não temos teorias completas do seu comportamento em condições de turbulência. A turbulência dos fluidos ainda é uma coisa que deixa os físicos perplexos.

Sabemos mesmo, então, que água é só H2O? Essa é realmente a definição de água? Aqui não há escapatória para problemas filosóficos como a definição de definição. Teorias científicas são um esforço de definir da melhor forma possível o que são as coisas que elas descrevem. Se um ser de um universo paralelo nos perguntar o que é água, mas exigir saber como a água se comporta em condições de turbulência, passaremos alguma vergonha.

Recorro ao exemplo da água quando estou pensando em propriedades humanas como sexo, sexualidade, comportamento político, autoengano, motivações explícitas, motivações inconspícuas, valores estéticos, etc.

Façamos a seguinte analogia: dada a dificuldade de gerar agora uma definição da água que dê conta da turbulência, faria algum sentido dizer que temos sim uma definição completa de água, mas que em condições de turbulência temos outra coisa que não é água, mas “úgua”? A invenção do termo “úgua” para separar o conceito de água “bem comportada” do conceito de água sob turbulência parece uma manobra intelectual no mínimo desnecessária.

Penso que a invenção de termos como “gênero” é quase perfeitamente análoga ao que descrevi sobre a “úgua”. Temos o fenômeno sexo, que nada na biologia impede que tenha implicações comportamentais, sociais e culturais. Algumas pessoas tomam a “turbulência” das relações sociais e da herança cultural e consideram que seria melhor separar sexo de “gênero”. Eu discordo, é uma atividade intelectual que não nos ajuda a ter boas definições de sexo, que precisam tomar por completo suas dimensões “bem comportadas” e “turbulentas”.

Outras analogias são uma tentativa de separar entre orientação sexual e identidade de gênero (compreendo os efeitos didáticos, mas não está claro que é uma distinção com diferença); padrão de beleza de atração sexual e “biofilia”; enfim, todas as instâncias em que algum instinto humano pode ter expressões bem além das que os genes podem influenciar de forma direta e determinante.

A ideia por trás do problema é chamada pelos filósofos de “partir a natureza em suas juntas”, ou seja, fazer descrições que não fazem distinções inúteis com motivações políticas, ideológicas ou outras; mas apenas distinções conceituais que correspondem a diferenças reais.

28th of December

Entrevista à Vice sobre Olavo de Carvalho


Como de praxe no meu blog, publico na íntegra minhas respostas a perguntas de jornalistas, já que o trabalho deles requer usar pouco do que digo em resposta a entrevistas. Publiquei na íntegra, por exemplo, uma entrevista sobre genética do comportamento a O Diário, e outra entrevista à BBC sobre ateísmo. Agora, na íntegra, o que eu disse à Vice sobre Olavo de Carvalho. Usaram muito pouco do que está a seguir na matéria original.

VICE: Entre artigos em jornais e postagens em redes sociais, Olavo de Carvalho já acusou o evolucionismo de ser “o pai do comunismo e do nazismo” e que, ao contrário do criacionismo, “não pode ser provado, nem refutado”. Qual sua opinião a respeito? Qual dessas declarações considera a mais descabida ou sem sentido? Apontaria outra(s)? Qual(is)?

EV: É uma afirmação descabida que denuncia uma confusão fundamental entre questões de fato e julgamentos de valor (que filósofos reais não fazem), e, além disso, é uma tentativa de uso da falácia de culpa por associação para tentar desacreditar uma teoria muito bem embasada em evidências, especialmente hoje, com a genética molecular. Por muitos séculos, os marinheiros sofreram com o escorbuto, que é o resultado de deficiência de vitamina C. Durante todo esse tempo, eles carregaram genes para a produção de vitamina C no próprio corpo, mas um deles, o gene GLO, foi desligado por uma mutação. Todos os primatas antropoides carregam essa mutação, que ocorreu no nosso ancestral em comum milhões de anos atrás, e, por isso, se postos num ambiente pobre em vitamina C como uma caravela portuguesa do século XVI, também sofreriam de escorbuto. Já os cães e gatos não sofreriam, pois produzem a própria vitamina C. Evidências como essa são a razão do domínio inconteste da teoria da evolução sobre todas as ciências biológicas. Darwin jamais leu Marx, apesar de serem contemporâneos, e, como mostrado num livro biográfico chamado “A Causa Sagrada de Darwin” (Desmond & Moore, 2009), Darwin não apenas descendia de dois avós abolicionistas, como era contra o racismo e a escravidão, e portanto também seria contra qualquer outra forma de opressão racial como as premissas do nazismo. Mesmo se Darwin tivesse sido uma má pessoa, isso em nada afetaria a teoria da evolução. Se ele não tivesse nascido, a pessoa famosa por ter proposto a teoria seria Alfred Russell Wallace, co-descobridor independente da seleção natural.

Olavo também já afirmou que Darwin plagiou o próprio avô Erasmus na proposição da teoria, mas Erasmus apenas escreveu um poema chamado Zoonomia em que defendia ideias similares às do francês Lamarck, faltando ali o principal, que era a seleção natural, à qual Darwin chegou como analogia da seleção artificial de pombos, cães e outros animais domesticados. Olavo também escreveu que os biólogos de hoje consideram falsa a seleção natural. Quase sempre que fala de ciência, Olavo não sabe do que está falando. E é algo preocupante para alguém que quer ser reconhecido como filósofo, pois algum contato com a ciência é importante nesse sentido, sendo a ciência uma filha da filosofia.

VICE: Em 2006, o senhor elaborou um abaixo-assinado pela “refutação das imposturas intelectuais de Olavo de Carvalho”. Nele, diz que o colunista “trava uma batalha contra o conhecimento científico, especialmente contra a evolução biológica” e “não parece estar minimamente credenciado ou capacitado para falar de ciência”. Doze anos depois, o que mudou? A que o senhor atribui o fato de Olavo de Carvalho ser um “negacionista científico”? O que há por trás disso?

EV: Eu tinha 19 anos quando fiz o abaixo-assinado, e hoje me parece uma ideia meio boba fazer um abaixo-assinado pela refutação de erros científicos. O número de assinaturas nada faz pelos argumentos, mas ao menos mostra alguma oposição e protesto pela má escolha de colunista por parte dos jornais. Eu poderia simplesmente ter escrito cartas a esses jornais respondendo às falsidades que Olavo estava divulgando sobre ciência. No entanto, como muitos sabem, produzir bobagens demanda muito menos energia do que refutá-las, e é uma tarefa ingrata sair desmentindo cada falsidade que o professor Olavo emite no mundo. Ainda não sei se ele faz de propósito, provavelmente não, mas deveria aprender a virtude da humildade no campo da ciência.

O professor não é exatamente um “negacionista” da evolução, ele alega que é neutro a respeito da sua veracidade. No entanto, jamais chegou a mim qualquer crítica dele aos criacionistas, o que levanta dúvidas sobre esse suposto agnosticismo. Há ao menos um motivo que explica a desconfiança dele contra a comunidade científica e o mundo acadêmico em geral, que é a prevalência de opiniões de esquerda nesse meio. Segundo uma pesquisa de Mitchell Langbert deste ano, há 21 professores de esquerda na biologia para cada professor de direita nas 51 melhores universidades americanas. Nas humanidades a desproporção é ainda maior, na sociologia é 44 para 1, e zero professores de direita (Republicanos) foram achados na área da comunicação e da antropologia entre mais de 5 mil amostrados. Não creio que a biologia precise refletir a proporção de opiniões políticas da população em geral, mas a quase ausência de discordância política em áreas que formam jornalistas e sociólogos gera um problema sério, pois são áreas mais destacadas das evidências empíricas, em que a popularidade entre os colegas às vezes é o mais importante critério de julgamento da qualidade do trabalho. Olavo tem razão em se preocupar com isso, mas Jonathan Haidt e a organização Heterodox Academy fazem um trabalho melhor que ele em analisar o problema.

Não creio que não haja valor algum na obra dele; algumas coisas que ele afirma sobre uma aprovação de autoridades ao declínio nos padrões de arte e cultura me parecem corretas. Algumas críticas à esquerda que ele faz são pertinentes. Mas, se eu fosse um conservador, eu preferiria mil vezes ler Roger Scruton, Thomas Sowell, John Kekes e Burke a ler o Olavo, pois o ruído de teorias da conspiração, grosserias e ataques à ciência seria muito menor.

VICE: Considerado o mentor intelectual de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho já indicou, até o momento, dois ministros: Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores. Quais as chances de essas e outras teorias pseudocientíficas, como o criacionismo, por exemplo, serem incorporadas, aos poucos, ao currículo escolar ou, quem sabe, influenciar as decisões do futuro presidente? Por quê? 

EV: Intelectuais adoram exagerar a sua importância no mundo. Acho um enorme exagero creditar a Olavo de Carvalho alguma parte importante na eleição de Jair Bolsonaro, ao menos uma parte tão importante quanto as descobertas da Lava Jato e a recessão econômica resultante das péssimas políticas econômicas do PT, por exemplo. Sobre as nomeações, é importante ver caso a caso, se é verdade que o indicado foi indicado por competência. É importante lembrar ao presidente eleito que essa foi a promessa: nomear ministros por competência, e não por alinhamento ideológico. E parece que às vezes ele se esquece da promessa. Na minha opinião, Olavo acertou numa dessas indicações e errou na outra. Então ele geralmente tem a mesma probabilidade de acerto que o lançamento de uma moeda.

26th of December

Um YouTuber contra o Utilitarismo


Um YouTuber político da linha libertária ensina seus seguidores a xingar John Stuart Mill e o utilitarismo. Isso gerou um fenômeno curioso, que é um tabu contra essa teoria filosófica e suas filhas com uma frequência não-negligenciável nas redes sociais. Tabu pois tudo o que têm a oferecer são xingamentos, não argumentos sobre o porquê da sua desaprovação.

O utilitarismo clássico teve como fundadores, além de Mill (1806-1873), Jeremy Bentham (1748-1832) e Henry Sidgwick (1838-1900). Todos ingleses. Sidgwick é considerado o mais cuidadoso dos três nessa teoria ética, e, para variar, é o menos conhecido dos três. Os sensatos e moderados geralmente não têm sua sensatez e moderação premiada com a fama.

O que é, então, o utilitarismo (clássico)? É uma teoria metaética, ou seja, que visa a dar diretrizes sobre como chegar a conclusões morais com rigor. Essas diretrizes são que a decisão moral correta visa a diminuir a dor e maximizar o prazer para o maior número possível de pessoas. Ao conjunto dessas duas ações deram o nome “utilidade”, daí “utilitarismo”. Essa ideia pode soar plausível à primeira vista, mas leva a problemas fatais, então basicamente ninguém mais, ao menos entre filósofos, é um utilitarista clássico hoje em dia. É correto selecionar ao acaso um paciente num hospital, ou um visitante saudável que estiver passando por lá, matá-lo, extrair seus órgãos e doar para os pacientes que esperavam por transplante, maximizando a utilidade? Segundo essa teoria, parece que sim, o que conflita com nossa intuição comum de que isso é errado, e uma intuição que parece mais moralmente sólida que as invenções dos três filósofos. O que é o sentido da vida? É aparentemente um problema moral que não parece ser prontamente solucionável com a sugestão metaética de falar só em dor e em prazer. As discussões modernas do problema levam mais à proposta de que o sentido da vida tem a ver com uma “entrega ativa a projetos de valor”, como resumiu o professor Desidério Murcho.

Em certo sentido, o utilitarismo é uma ideia radical. O YouTuber se diz defensor de ideias radicais outras a favor da liberdade. O problema das ideias radicais em geral, como diz a filósofa Susan Haack, é que são na maior parte radicalmente implausíveis.

É necessária uma classificação de ideias como essa entre verdadeiras e falsas, mas às vezes isso turva o fato de que há diferentes formas de estar errado. Há erros tão grotescos que sequer são inteligíveis. Não é o caso do utilitarismo clássico, que foi um erro na direção certa. Digo isso porque, examinando a vida desses três, vê-se logo que sua teoria ou causou ou foi resultado de sua inteligência aliada à sua correção moral.

Mill famosamente foi o primeiro parlamentar a tentar estender direitos plenos às mulheres britânicas. Bentham esteve à frente de seu tempo ao propor que gays tinham liberdade de exercer sua sexualidade e que era imoral a crueldade contra animais. Quanto a Sidgwick preciso confessar que também sou afetado pela falta de fama dele e não sei o suficiente de sua vida.

Então, especialmente no caso de Mill e Bentham, vemos que, ao tentar fundar a ética sobre um alicerce secular e objetivo, eles se libertaram de preconceitos morais de suas próprias culturas e propuseram progressos bem além de seu tempo. Não propuseram o desmembramento de indivíduos inocentes em hospitais nem nenhuma atrocidade do tipo. O que tinham era uma teoria errada por ser incompleta, não errada por ser propositalmente cruel.

Em consequência, propuseram a expansão das liberdades que esse YouTuber alega querer para o Brasil. Se quer mesmo, respeite mais os utilitaristas e pare de criar uma legião de difamadores dos filósofos e da teoria.

30th of November

Por que ‘teorias’ pós-modernas, ‘pós-coloniais’ e ‘críticas’ das humanas são falsas ou fatalmente defeituosas


Neste texto, apresento as principais ideias por trás de ‘teorias’ (sic) pós-modernas, ‘críticas’ (sic) e ‘pós-coloniais’ (sic) que tomaram as humanidades, como mostradas resumidamente por Connor Wood nos parágrafos numerados; e digo por que são falsas ou fatalmente defeituosas.

1 ) “O conhecimento e a verdade são na maior parte socialmente construídos, não descobertos objetivamente.”

O defeito mais evidente desse tipo de relativismo epistemológico é que ele instantaneamente se volta contra si mesmo: se o que está sendo sugerido é que a verdade depende da base cultural (que há alguma afirmação sobre o mundo natural, por exemplo, que seja ao mesmo tempo “verdadeira para americanos” e “falsa para brasileiros”, num sentido forte), essa sugestão também está sujeita a esses grilhões: o formulador do relativismo só está certo relativamente à sua cultura pós-moderna, ou universitária, ou americana; e errado nas outras culturas que rejeitam o relativismo. No fim das contas, há uma obrigação intelectual de avaliar a verdade independente das culturas que o relativismo cultural apenas tenta adiar.

Há, no entanto, algumas vias de argumentação que podem deixar uma sensação de falta de saciedade nessa refutação por recursão (ver “Medo do Conhecimento”, de Paul Boghossian). Mas não tem problema: há conhecimentos, ou hipóteses condutivas ao conhecimento, que não dependem da cultura de forma alguma.

Esta semana foi evidenciado, por exemplo, que homens conhecem a física do lançamento de objetos instintivamente, melhor que as mulheres. No ano passado, outro estudo mostrou que mulheres são geneticamente melhores que os homens em conhecer quais são as verdadeiras emoções das pessoas por trás das expressões faciais. Portanto, há conhecimentos com um fundo inato, completamente independente da cultura. Ou, para definições alternativas de “conhecimento”: há tendências de formar hipóteses mais ou menos prováveis de serem verdadeiras a depender da genética da pessoa que as formula.

Alguém pode responder que meus exemplos não servem, pois foi dito que “na maior parte” o conhecimento e a verdade são socialmente construídos, não que são completamente assim. Aqui o problema é a ambiguidade de “construção social”. O sentido mais brando de construção social é que, por exemplo, se outra cultura tivesse descoberto a teoria da evolução pela seleção natural, não a teria descrito exatamente com os mesmos termos, com o mesmo estilo, ou talvez até com a mesma unidade de seleção escolhidos por Darwin e a comunidade moderna de biólogos. O sentido mais radical, e presumivelmente preferido pelos construtivistas por não ser apenas um truísmo enfadonho, é que, se essa outra cultura tivesse observado as espécies com o mesmo afinco, poderia ter inventado uma teoria com uma espinha dorsal totalmente diferente da de Darwin, e com o mesmo direito de se reivindicar verdadeira.

Os contrutivistas sociais alternam entre o sentido brando e o radical de “construção social” numa estratégia desonesta chamada de “mota e terreno” (motte and bailey) por Nicholas Shackel, como divulguei aqui. Graças a essa estratégia de abuso da vagueza, parecem profundos e revolucionários falando coisas que na verdade são banais, ou então dizem coisas revolucionárias que, quando mostradas falsas, alegam que eram na verdade as banalidades de que ninguém discordaria.

Então, basta pressionar construtivistas para que esclareçam exatamente o que querem dizer, e logo se notará que é nada menos que um absurdo a alegação de que a constante de Planck pode ser uma coisa para chineses e outra diferente e igualmente verdadeira para indianos. É importante pedir exemplos dos conhecimentos, dignos do nome, ou das verdades que são claramente “socialmente construídas”, e daí destilar que sentido conveniente de “construção social” está sendo usado naquele momento. A falta de exemplos muitas vezes denuncia a estratégia de mota-e-terreno em ação.

2) “O que acreditamos ser ‘verdade’ é em grande parte um resultado do poder social: quem o tem, quem é oprimido por ele, [e] como ele tem influência sobre quais mensagens serão ouvidas.”

Essa é uma formulação mais moderada da afirmação (também estrategicamente ambígua) de Foucault de que verdade é poder. O sentido banal disso é que poder pode ser obtido descobrindo verdades. O radical é que se estabelece forçosamente o que é verdade pela via do poder e que o que é considerado verdade é apenas resultado de um bullying de autoridades. O sentido radical também se volta contra si mesmo: afirmar que a verdade é estabelecida pelo poder é algo que é afirmado em função do poder? Se Foucault tinha poder, “verdade é poder” é verdadeiro, e, se Foucault era um descamisado, “verdade é poder” é falso? Enxergar verdade e poder como coisas diferentes tem muito mais plausibilidade. Já no sentido banal, alguns exemplos darão nuance e esvaziarão interesse na tese.

Tomemos, por exemplo, a descoberta de que o escorbuto era resultado de uma dieta pobre em frutas cítricas séculos atrás: sendo uma das primeiras nações que obtiveram acesso a esse conhecimento, os britânicos se tornaram um pouco mais poderosos por causa dele nos mares. Uma quantidade de poder foi derivada de um conhecimento, como muitas vezes ocorre. Há muitos conhecimentos que circulam, no entanto, sem darem poder mais a uns que a outros, como é hoje o caso desse mesmo conhecimento sobre o escorbuto num mundo com abundância de frutas cítricas. O fato de esse conhecimento ter deflacionado o seu valor de poder em alguns séculos em nada toca o seu valor de verdade. Acreditamos que escorbuto é causado por deficiência de vitamina C porque é verdade que escorbuto é causado por deficiência de vitamina C, não porque isso dá poder ou é favorecido pelo poder.

O ideal de Kant de nos esclarecermos sobre muitas áreas diferentes é algo meio ingênuo, pois subestima o real tamanho do corpo de conhecimento de cada área e a real dificuldade de se esclarecer sobre cada uma delas. Nós dependemos de autoridades, queiramos ou não, nas áreas em que não temos tempo ou interesse de nos aplicarmos à altura do ideal iluminista. Nesse sentido, é verdade que muito do que sabemos vem do “poder”: o poder das autoridades sobre algum assunto. Mas, como mostra a resistência de negadores de teorias científicas, o poder dessas autoridades muitas vezes não é suficiente para que muitos acreditem que as suas teorias são verdadeiras. Há diferentes poderes, alguns derivam de notoriedade originada na competência, outros derivam de articulação política, voto, etc. São poderes substancialmente diferentes, e ainda assim nós temos na maior parte dos casos a opção de deixar de depender do poder das autoridades e avaliar por nós mesmos a verdade do que estão dizendo.

O problema da afirmação, além de levar a interpretações que são verdadeiras mas banais ou radicais mas falsas, é que parece ignorar que certos poderes existem em função da verdade, enquanto outros não; e que poder e verdade são coisas independentes: muitas pessoas acreditam, com base em autoridade, em coisas que são falsas. Há aqui uma questão empírica: quanto do que uma pessoa ou sociedade acredita é verdadeiro? Quanto disso ela sabe por análise, e quanto ela acredita com base em autoridades (por influência do poder)? Ao fazer essa investigação empírica, o construtivista se vê obrigado a esclarecer o que está dizendo para uma interpretação banal (devido à insustentabilidade da interpretação radical e mais interessante), e mais: também terá de diferenciar crenças verdadeiras de crenças falsas, não apenas crenças adotadas por força do poder e crenças adotadas por outros motivos. Isso dilui totalmente os interesses radicais por trás da máxima.

3) “O poder geralmente é opressivo e resultado de interesse próprio (e, implicitamente, de um jogo de soma zero).”

É preciso enfatizar a vagueza (proposital?) do termo “poder”, aqui. Não apenas por ignorar que há diferentes formas de ter poder (definido grosso modo como a liberdade de fazer o que se quer sem limitações impostas por outrem), mas também por ignorar que, na maior parte, há tanto interesses próprios e jogos de soma zero quanto consideração de interesses alheios e jogos de mútuo benefício no que as pessoas fazem com o poder. Reduzir o uso do poder a geralmente apenas uma coisa é uma visão demasiado cínica dos seres humanos. E falsa. Aqui, recomendo o livro “O Elefante no Cérebro”, de Simler e Hanson, para dar uma visão nuançada e mais abrangente das diversas motivações, tanto as nobres quanto as escusas, por trás do que as pessoas fazem. Eu escrevo textos para obter reconhecimento, mas também porque me importo se as pessoas acreditam em coisas falsas e danosas. As pessoas e as sociedades são complexas o suficiente para abrigar os dois conjuntos de motivações; e, mais uma vez, é uma questão empírica se numa pessoa ou sociedade há mais motivações de um tipo do que do outro, não é algo que o construtivista pode simplesmente estabelecer do alto da poltrona.

4) “Portanto, a maior parte das alegações de verdade supostamente objetiva na verdade são jogos de poder, ou estratégias para legitimar arranjos sociais particulares.”

Com o risco de ser repetitivo: é mais uma instância de uma visão cínica, pouco relacionada a coisas que sabemos concretamente sobre as pessoas. É uma asserção que pode ser voltada contra si mesma, pois pode ser objetiva ou subjetiva como qualquer outra afirmação e obrigará qualquer pessoa intelectualmente honesta a recorrer a métodos para aferir objetividade ou subjetividade, largando portanto compromisso com a forma radical da afirmação. E, finalmente, há um lado empírico que os construtivistas geralmente se recusam a tocar para dar justificação às suas alegações. Mas cínicos geralmente não se preocupam com esse tipo de coisa. Cínicos não se importam com a verdade, há algum grau de autodestruição nisso (como se vê na derrubada de cada uma das formas radicais e interessantes desses enunciados por via da recursão), e, como dizem os anglófonos, “misery loves company”, daí se afirma que todos são igualmente cínicos.

Enquanto não é difícil mostrar o sucesso de valores epistêmicos como objetividade, imparcialidade e apreço pela verdade até em intervalos curtos como os últimos três anos; é difícil fazer o mesmo em benefício de relativismos e radicalismos políticos por trás de áreas que adotam pós-modernismo, “teoria” “crítica” e “estudos pós-coloniais”. Não nos deram nada além de mais cínicos afirmando coisas sem rigor analítico ou empírico neste mundo.

Referências

Boghossian, Paul. Fear of Knowledge: Against Relativism and Constructivism. Clarendon Press, 2007.

Lombardo, Michael P., and Robert O. Deaner. “On The Evolution of The Sex Differences in Throwing: Throwing Is a Male Adaptation in Humans.” The Quarterly Review of Biology 93, no. 2 (May 22, 2018): 91–119. https://doi.org/10.1086/698225.

Shackel, Nicholas. “The Vacuity of Postmodernist Methodology.” Metaphilosophy 36, no. 3 (Abril 2005): 295–320. https://doi.org/10.1111/j.1467-9973.2005.00370.x.

Simler, Kevin, and Robin Hanson. The Elephant in the Brain: Hidden Motives in Everyday Life. Oxford University Press, 2017.

Warrier, Varun, K. Grasby, F. Uzefovsky, R. Toro, P. Smith, Bhismadev Chakrabarti, J. Khadake, et al. “Genome-Wide Meta-Analysis of Cognitive Empathy: Heritability, and Correlates with Sex, Neuropsychiatric Conditions and Cognition,” May 16, 2017. https://doi.org/10.17863/CAM.9675.

Wood, Connor. “Why Postmodernism and Science Can’t Stand Each Other.” Science On Religion (blog), November 29, 2018. https://www.patheos.com/blogs/scienceonreligion/2018/11/postmodernism-science-cant-stand-each-other/.

12th of November

Como descobrir se um comportamento “é genético”?


Quer saber se há genética num comportamento? É surpreendentemente fácil.

Primeiro, amostre aleatoriamente as pessoas, anotando genótipo e ambiente.

Digamos que há três genótipos e três ambientes, como nesse slide de uma palestra minha; e que o comportamento é contável. Pode ser, por exemplo, quantas vezes a pessoa rói as unhas num mês. Pode ser quantas vezes ao dia pensa em estrangular a sogra. Não importa.

Agora precisamos só de mais dois conceitos estatísticos bem básicos. Um é a média, que todo mundo sabe como calcular. A média é a soma das medidas da característica de interesse de cada elemento de um determinado grupo dividida pelo número de elementos no grupo. Como se vê no slide, vamos precisar de médias parciais, agrupadas por genótipo e ambiente, e da média total.

O segundo conceito, um pouco menos conhecido mas não menos importante que a média, é a variância. Enquanto a média mostra uma “tendência central” nos dados, a variância foi inventada para se ter uma medida de como os dados se espalham em torno dessa média. Então você vai precisar literalmente calcular a distância (ou desvio) de cada dado em relação à média. Então subtraia a média de cada elemento: elemento – média. Você vai notar que uns elementos são maiores e outros menores que a média, então algumas dessas distâncias serão negativas, e outras positivas. Tudo o que nos interessa é o número absoluto de distância do elemento à média, não se é negativo ou positivo. Para “nivelar” todas as distâncias, portanto, vamos elevar todas ao quadrado, o que elimina o problema de algumas distâncias serem negativas. Somando todos esses quadrados, ainda precisamos calibrar o cálculo pelo número de elementos, dividindo a soma por esse número como fazemos com a média. Por uma tecnicalidade estatística que não vem ao caso explicar agora, subtraímos 1 desse total de elementos antes de usá-lo no denominador da fração.

Como podemos fazer com a média, também podemos calcular “variâncias parciais”, uma genética e outra ambiental. Para fazer isso, repetimos o procedimento que usamos acima para calcular variância total do fenótipo, mas em vez de subtrair a média total dos elementos, vamos subtraí-la das médias parciais genéticas e depois das médias parciais ambientais (médias das linhas e das colunas).

Temos agora três variâncias: uma (Vp) nos diz o quanto os dados variam em torno da média total, outra (Vg) nos diz o quanto as médias dos estados genéticos (genótipos) variam em relação à média total; e outra (Ve) o quanto as médias para cada ambiente variam em torno da média total.

Como todas as três medidas vêm dos mesmos dados, elas têm uma relação muito simples: Vp = Vg + Ve.

Qual é a unidade desses valores? É o quadrado da contagem do fenótipo comportamental do nosso interesse (“estrangulamentos imaginários de sogra ao quadrado”). Não é uma unidade que diz por si só alguma coisa interessante sobre o comportamento. No fundo, essas estatísticas são só formas didáticas de entender o que os dados estão mostrando, porque nós somos seres burros demais para perceber isso só olhando para eles.

Mas não importa a unidade de medida se for possível expressar como uma fração: se você dividir a variância genética (Vg) pela variância total (Vp), obterá uma fração interessante, que é o quanto da variância total pode ser atribuído à genética. A essa fração, que é um número entre 0 e 1 facilmente convertido em uma porcentagem (x100), nós damos o nome de “herdabilidade”.

Como há formas mais detalhadas de calcular a herdabilidade, esse modo de calcular dá numa herdabilidade “em sentido amplo”. Podemos pensar na herdabilidade como uma ferramenta de prospecção inicial da participação genética numa característica que varie entre indivíduos de uma dada população. Note que é importante que varie, pois a herdabilidade é totalmente baseada numa medida da dispersão (variação) dos dados, que é a variância.

Por isso, quando você pergunta a um geneticista “isso é genético?”, melhor seria perguntar “quanto de variação genética nas prováveis causas dessa característica existe?” O número provavelmente já existe. Para o QI, a herdabilidade é de 50% a 80% (surpreendentemente, a herdabilidade do QI aumenta com a idade, ou seja, os indivíduos dependem mais da genética, não menos, nas habilidades cognitivas quando ficam mais velhos).

Um resultado já replicado à exaustão na genética do comportamento é que a herdabilidade nunca é 100%, mas também nunca é 0%. Não existe comportamento completamente livre de influência genética. O geneticista Robert Plomin até desafia os que negam a produzir exemplo de comportamento sem componente genético.

Já a afirmação de que determinado comportamento humano é “construção social”… qual é o método mesmo?

1st of October

Cal Newport: “Siga os seus sonhos” é péssimo conselho de carreira


Estamos numa era sentimentalista em que a paixão é vista como um dos principais pré-requisitos para o trabalho bem feito. Também estamos numa era de distrações sem rédeas, busca de atalhos para tudo e uma romantização do sucesso. O cientista da computação e escritor Cal Newport vai contra tudo isso, com razão.

Em seu livro “So Good They Can’t Ignore You” (“Seja tão bom que não possam te ignorar”, em tradução livre), Newport relata sua própria busca por uma carreira satisfatória, ou, mais precisamente, por formas de fazer satisfatória uma carreira que ele já tinha. No processo, ele explica por que outros projetos que ele perseguiu não deram certo. Mas a linha condutora principal do livro são exemplos de pessoas que obtiveram carreiras de sucesso pelas quais realmente se apaixonaram, que Newport usa como fonte de dados para apoiar um conjunto de regras heurísticas para encontrar um trabalho que você ama fazer.

A primeira dessas regras, que é a principal, é Não Siga Sua Paixão (ou, alternativamente, Não Siga Seus Sonhos). O conselho contrário, dado por celebridades como Steve Jobs, ignora que ter sonhos claros (ou paixões pré-existentes) é algo muito raro. Também ignora que pessoas sem experiência romantizam os empregos que alegam ser o seu sonho, ignorando suas partes difíceis. O que realmente acontece, inclusive no caso do próprio Steve Jobs, é que as pessoas desenvolvem paixão por seu trabalho após adquirirem competências específicas relacionadas a ele, e a escolha inicial é com frequência um acidente entre várias tentativas, não um resultado de uma paixão pré-existente. Evidentemente, não é todo tipo de trabalho que passará a ser uma paixão. É necessário que o trabalhador veja o próprio trabalho como algo de valor, que está acrescentando algo valioso ao mundo. Mas, novamente, essa reflexão vem com a experiência que os novatos não têm. Portanto, não é que a paixão é um pré-requisito do bom trabalho: é uma consequência. O bom trabalho não vem de sonhos: ele se torna eventualmente um sonho realizado.

O erro do conselho “siga seus sonhos” é similar ao que eu encontro em alguns liberais que propõem reformar o sistema de ensino para permitir uma máxima liberdade dos estudantes de escolherem aprender somente as coisas pelas quais têm interesse. O erro está em presumir que interesses genuínos são só os pré-existentes, quando é possível interessar-se por uma área e desenvolver mais curiosidade por ela somente após um contato com exemplares rigorosos dela. O modelo atual de ensino médio voltado ao vestibular certamente exagera a quantidade de conhecimentos obrigatórios, e esses liberais estão certos em fazer essa crítica. Um modelo melhor deve estar num caminho do meio: por exemplo, oferecer introduções curtas a todos os alunos e só depois deixar que abandonem algumas áreas a favor de outras. Créditos obrigatórios, conteúdos facultativos.

Regra 2: Seja Tão Bom que Não Poderão te Ignorar. Conheço muitas pessoas que obtêm diplomas e passam a esperar recompensa do mercado por isso. Essa espera de recompensa pelo esforço de formação acadêmica pode ser um grande fardo sobre a saúde mental, de ansiedade, estresse e até depressão. Esse sofrimento é desnecessário e há uma terapia cognitiva para ele: compreender a soberania da lei da oferta e demanda. Não importa a sua área, o seu diploma não é uma joia rara, há centenas de milhares de pessoas com a sua formação. O mercado não vai pagar (bem) por um produto que é abundante. Para ser bem pago, você deve desenvolver competências raras, que levam tempo para desenvolver. Para detectar a oportunidade no “possível adjacente”, como diz a literatura de autoajuda de carreira, você precisa estar no topo das habilidades na área. Não passe seu tempo simplesmente esperando: aproveite-o para lapidar-se com gana e persistência. Procure aprender as partes da sua área em que você menos se sente confiante. Diversifique suas habilidades e faça pequenas apostas em que tempo considerável foi investido. Obtenha um patrimônio de competências.

Regra 3: A Importância de Ter Controle. Será difícil desenvolver paixão pelo seu trabalho se você nunca se sente como alguém que tomou as rédeas do que você faz. No entanto, a cautela aqui é salutar. Só é possível barganhar por mais controle, mudando de área por exemplo, se você realmente trabalhou em obter o seu patrimônio de competências raras dessa nova área. Tentar obter controle sem esse patrimônio é dar um salto no escuro, e você poderá se machucar. Outra dificuldade é que, uma vez que você obteve o patrimônio de competências e conhecimentos, você encontrará alguma resistência da cadeia de comando. Há realmente um lado nefasto no mercado de trabalho que busca cortar as asas de quem já está pronto para voar. Aqui, coragem é uma das virtudes mais necessárias. Poderá  haver situações em que você precisará recusar uma promoção, por exemplo, em nome de não ceder mais do seu controle sobre a sua carreira.

Regra 4: A Importância de Ter Uma Missão. Sentir-se executando uma missão importante ao trabalhar é o que diferencia os profissionais experientes cínicos dos que se mantêm motivados e otimistas. Aqui, novamente, trabalhar bem vem antes. Você estará disposto a fazer sacrifícios, se cansar e aplicar centenas de horas numa missão genuína. Qualquer coisa diferente disso volta ao erro de “seguir seus sonhos”.

Há algo de artificial na separação das quatro regras de Newport. Não concordo com a separação da regra 4 da regra 1, por exemplo. Há detalhes importantes que as ajudam a fazer sentido omitidos aqui para manter essa resenha curta, no entanto. Talvez a maior dificuldade de aplicar alguns dos conselhos do livro é que eles foram formulados para uma realidade de muito mais liberdade econômica e riqueza já produzida do que é o caso no Brasil. Mas não nos deixemos desmotivar por isso, nem usar as insuficiências brasileiras como desculpa. O livro vale a pena e poderá te inspirar a abandonar as soluções fáceis e reformar a sua rotina para que você se torne um profissional satisfeito.

26th of September

De onde vem o autoengano?


Psicanalistas propunham que o autoengano é uma forma de o “ego” proteger a si mesmo. Pois, sendo doloroso reconhecer que se está enganado em alguma crença, o tal “ego” usaria um arsenal de defesas psicológicas (negação, racionalização etc.) para se proteger da dor psicológica de estar errado.

O problema dessa explicação é que ela é só um exercício de classificação — sistematização que somente aponta algumas coisas e bota nelas um nome. Não é uma investigação das origens desse tipo de comportamento. Entender as origens é importante, afinal, o autoengano pode até botar nossa vida em risco, quando diante de doenças e comportamento de risco mentimos para nós mesmos que estamos saudáveis (a maioria das pessoas superestima a própria saúde e aptidão física). Isso gera um enigma para as nossas origens, que estão na evolução biológica. A seleção natural em tese não deveria nos dotar de formas de diminuir ativamente nossas chances de sobrevivência e reprodução.

Mas há um fato sobre nossas origens que ajuda a explicar o autoengano: nossa espécie surgiu não apenas sobrevivendo a intempéries ambientais, mas também sobrevivendo a disputas sociais, nas quais um indivíduo enganar a si mesmo pode ser uma boa estratégia a depender do contexto social. É importante lembrar que estamos falando aqui de crenças que nós realmente temos sobre nós mesmos, com sinceridade, não mentiras. A mentira é muito mais difícil, pois o mentiroso precisa se lembrar de todo o cenário que precisou inventar e manter a aparência de que acredita na falsidade que está emitindo. Mentir é cansativo! O autoengano, que é energeticamente mais barato, volta a falsidade para dentro porque ela nos beneficia no ambiente social. Usando a máscara com sinceridade, nesse contexto nossas chances de sobreviver e reproduzir aumentam. Assim, pensar no autoengano num contexto evolutivo o explica de forma melhor do que a psicanálise jamais sonharia em fazer.

Para fins didáticos e tendo em mente essas explicações, podemos classificar o autoengano nas seguintes estratégias:

– Se fazer de maluco. Uma pessoa perfeitamente racional pararia uma disputa de poder ou luta de acordo com suas reais chances de vencer. Mas um bom lutador de boxe continua alegando que é o mais forte até perder a consciência na lona. Ao sinalizar que acredita em si até as últimas consequências, o blefe sincero de quem se faz de maluco pode dissuadir seu competidor de tentar fazer o mesmo. É, em outras palavras, uma boa estratégia no jogo. O maluco está disposto a fazer qualquer coisa para vencer, mesmo se isso significa um alto custo para si. No jogo do “frango”, em que dois motoristas avançam na contramão um do outro até que o perdedor desvie a direção por medo, ganha o maluco que arrancar o volante e o jogar pela janela.

– O cão leal. É a pessoa que realmente acredita nas coisas mais malucas não porque avaliou evidências ou argumentos, mas porque (e ela própria não sabe disso) acreditar sem verificar é uma sinalização de lealdade a uma tribo. Qualquer semelhança com quem insiste que Lula não sabia de nada, que a delação dos empreiteiros está toda errada, que pedalinhos com os nomes dos netos no sítio em Atibaia são só sinal de hospitalidade do real dono do sítio, etc., não é mera coincidência. Exemplos em outras tribos políticas são facílimos de encontrar.

– O propagandista. “Eu sei que isso é verdade”, diz esse. “Acredite comigo!” Esse tipo de autoengano é bem comum em quem vem às redes sociais não porque quer discutir ou apresentar um ponto de vista de forma clara, mas porque quer demonstrar *CONVICÇÃO* de alguma coisa. “Nossa”, pensam os que acreditam no autoengano do propagandista, “se ele fala com esse nível de confiança, deve saber do que está falando”. Malafaia é muito bom nisso, e eu acredito que ele muitas vezes é sincero. Quando respondi à sua alegação de que genética nada tem a ver com homossexualidade, cinco anos atrás, ele fez uma tréplica cheia de confiança, desfilando falácias de ataque pessoal contra mim. Eu, o biólogo acostumado com as incertezas e com seguir o que as evidências permitem que eu afirme, não podia demonstrar o mesmo nível de autoconfiança que Malafaia. E por isso mesmo não fui tão convincente para alguns quanto ele poderia ser: porque ele realmente acredita que está certo, e fala com convicção.

– O trapaceiro. “Respeito a sua opinião”, diz com convicção alguém que pensa que a tal opinião é falsa ou até imoral. A pessoa realmente acredita que RESPEITA algo que pensa que é errado. O que significa isso, afinal? Logicamente não faz muito sentido. Significa que a pessoa está tentando enganar a si mesma que seus motivos são todos puros, e que se ela discorda (e geralmente não quer fazer trabalho nenhum para mostrar que a certa é ela), ao menos ela “respeita” a opinião abjeta que se recusa a avaliar. Está sendo preguiçosa, tentando trapacear as regras de honestidade e diligência intelectual, mas todas as suas motivações são supostamente cândidas.

***

Com ideias do livro “The Elephant in the Brain: Hidden Motives in Everyday Life”, de Kevin Simler e Robin Hanson

20th of September

Rachel Dolezal: resultado de abuso infantil, pós-modernismo e redes sociais


Assisti ao documentário “O Caso Rachel Dolezal”, disponível na Netflix. Reconta a história da americana branca que atraiu a ira da maioria dos ativistas raciais americanos, e também de seus críticos, ao dizer que é negra. Por todo o ano de 2016 Dolezal foi alvo de escárnio público, além de alguns comentários anônimos ameaçadores nas redes sociais. Nos Estados Unidos, em que grande parte do ativismo aceitou o antigo critério racista de “uma única gota de sangue” na ancestralidade como suficiente para uma identidade negra, como se a condição de ser negro fosse uma contaminação hereditária em vez de uma origem participante na miscigenação, não seria de se surpreender que Dolezal fosse aceita por muito tempo como negra. Outros americanos que se dizem negros são tão brancos quanto Dolezal. O ativista Shaun King é um deles.

Shaun King, ativista antirracismo que se diz negro.

A polícia e a imprensa local acusaram Dolezal de forjar crimes de ódio contra si mesma ao presidir uma seção local da NAACP, Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor [sic], uma das mais importantes organizações do ativismo racial nos Estados Unidos. Alguns colegas de Dolezal na associação estranhavam que ela recebesse tanta correspondência de ódio que não era tão intensa para os presidentes anteriores com tonalidade de pele mais escura.

Até aqui, parece que há mesmo motivo de sobra para detestar Rachel Dolezal. Como mostra o documentário, ela tentou, com bastante coragem e diligência, restaurar a sua reputação e se fazer entendida. Falhou repetidamente: toda vez que aparecia na imprensa, só aumentava a quantidade de comentários negativos contra ela. Lançou um livro, mas o livro vendeu menos de 600 cópias no lançamento. Dolezal, mãe solteira de três filhos, estava tendo dificuldades de pagar o aluguel. Até que veio o documentário, e, dessa vez, ela conseguiu: o documentário tem sucesso em mostrá-la como um ser humano na maior parte benigno e bem intencionado, embora a veracidade dos “crimes de ódio” contra ela anteriores à revelação de suas origens continue em aberto.

Dolezal cresceu numa família chefiada por um casal de fundamentalistas religiosos que usavam a vara na educação dos filhos como manda a Bíblia. O casal sempre deixou claro para Rachel, filha biológica mais nova, que ela quase matou a mãe no parto. No registro de nascimento, consta Jesus Cristo como parteiro. Pelos depoimentos de Rachel e também sua irmã adotiva negra, ela sempre foi tratada como inferior ao irmão mais velho. A irmã de Rachel mostra marcas persistentes de açoites dados pelos pais adotivos. Estranhamente, o “filho” mais velho de Rachel era um de seus irmãos adotivos negros. Para piorar a situação, as duas irmãs acusam o irmão mais velho de abuso sexual, e antes do escândalo estava tramitando uma ação judicial contra ele por isso, o que pode ter motivado os pais a vir à imprensa para expor a filha ativista como falsa negra e testemunha não confiável no caso. Quando contempla a possibilidade de voltar a se declarar branca, Rachel chora, dizendo que isso seria voltar a ser alvo da punição de seus pais.

Rachel Dolezal é, portanto, uma pessoa com problemas de identidade resultantes de abuso infantil. Mas, evidentemente, não seria assim se raça não fosse tratada como um ponto tão saliente da identidade nos Estados Unidos, cultura que a cerca. Também provavelmente não seria assim se ela tivesse conhecimentos mais objetivos sobre raça. Em vez disso, ao buscar saber mais, o que ela encontrou foi pós-modernismo: raça é uma construção social, dizem os abundantes livros sobre o tema. Se é assim, por que não poderia ser simplesmente adotada, mudada como uma peça de roupa? É adágio do pós-modernismo, movimento intelectual difuso da esquerda acadêmica, declarar todo tipo de coisa construção social. A mania é tamanha que já foi documentada em livro por Ian Hacking e, no caso da raça, é repetida até por geneticistas que deveriam saber melhor. Ao estudar a estrutura genética da humanidade, os geneticistas decidiram abandonar o termo “raça”, para se afastarem da história eugenista da própria genética. No entanto, são distinguíveis cinco ou seis grandes “estruturas” da população humana, de distintas origens geográficas, que num mundo menos politicamente correto ou traumatizado pelo racismo poderiam sem problemas ser chamadas de raças, como já são seus correlatos no senso comum. Mas não param no construcionismo social as marcas de confusão pós-moderna na cabeça de Rachel Dolezal. Ela também usa o relativismo epistemológico e abusa de subjetivismo: se sinto que sou negra, sou negra, não importa que o grupo seja definido por um fenótipo que eu não tenho, e que o nome do grupo seja o nome de uma cor que não está na minha pele. Negações da realidade como essa têm amplo apoio na intelectualidade relativista e subjetivista do mundo acadêmico — ou teria, se fossem coerentes com essas ideias. Não são coerentes, pois essas ideias são um verniz de destacamento e tudo-vale em cabeças que na verdade se comportam com muito engajamento político e absolutismo moral cheio de certezas inabaláveis. Daí inventarão complicações para negar a identidade negra escolhida de Dolezal, ou praticarão seu costumeiro autoritarismo censor, como fizeram com Rebecca Tuvel, uma acadêmica que tentou ser coerente analisando o caso com essas ideias.

Também não é possível ignorar, no caso de Dolezal, o fenômeno das redes sociais. Ela diz que as redes sociais são a última forma de continuar “no mundo” após ser ostracizada, mas isso obviamente não é verdade. Insistir na identidade controversa não deixa de ser uma forma de narcisismo, bem compatível com o show de egos das redes sociais, um ambiente tóxico para a saúde psicológica de qualquer um.

Mas não é preciso complicar. Num mundo mais racional, raça é uma coisa simples: um conjunto de fenótipos correlacionados e ligados a certas origens geográficas de distintos grupos humanos, sem fronteiras muito definidas, especialmente em caso de miscigenação. Não é uma “cultura”, embora algumas variantes culturais também possam estar correlacionadas a variantes raciais.

O caso Dolezal e tantos outros mostram uma linha imatura de pensamento do ativismo racialista em que, na esperança de eliminar o viés antinegros em todas as suas facetas, busca-se adotar marcas de fenótipo negro (incorretamente chamadas de “cultura”) como honoríficas. Se Dolezal se diz negra por adotar uma suposta “cultura” negra, por que precisa do acessório do cabelo de textura mais típica do fenótipo negro? Isso não é cultura, é biologia. Nesse ativismo imaturo, pensa-se que o remédio contra um viés antinegros é um viés pró-negros excessivo, que termina por tratar negros com condescendência infantilizante e que alimenta a identidade de coalizão racial, o que por tabela mantém vivo o racismo. Para diminuir o racismo ao mínimo possível, é necessário jogá-lo fora junto com esse tipo de ativismo e esse tipo de coalizão. As verdadeiras ferramentas antirracismo estão no estímulo a outros tipos de identidade social que não a raça: time de futebol, religião, partido político, associação de moradores, etc. O problema é que essa solução respaldada pela ciência não tem o mesmo sucesso em dar carreiras para ativistas, e ativistas profissionais naturalmente não gostarão de soluções que tornam as suas carreiras obsoletas.

Se depender da obsessão com a raça tanto de racistas quanto de antirracistas, Dolezal continuará sofrendo em sua confusão identitária.

P. S.: Por que o foco em raça mantém vivo o racismo?

“Estudos anteriores estabeleceram que as pessoas codificam a raça de cada indivíduo que encontram, e o fazem através de processos computacionais que parecem ser tanto automáticos quanto obrigatórios. Se verdadeira, essa conclusão seria importante, porque a categorização dos outros por sua raça é uma pré-condição de tratá-los diferentemente de acordo com a raça. Aqui, relatamos experimentos que, usando medidas discretas, mostram que a categorização de indivíduos pela raça não é inevitável, e apoiam uma hipótese alternativa: que a codificação pela raça é na verdade um produto reversível de um maquinário cognitivo que evoluiu para detectar alianças de coalizão.

Os resultados mostram que os indivíduos codificam afiliações de coalizão como uma parte normal da representação de pessoas. De forma mais importante, quando pistas de afiliação a coalizões não seguem nem correspondem mais à raça, os indivíduos reduzem marcadamente a medida da categorização dos outros peça raça, e de fato podem parar totalmente essa categorização.

Apesar de passar a vida inteira usando raça como um preditor de alianças sociais, menos de quatro minutos de exposição a um mundo social alternativo foram suficientes para diminuir a tendência a categorizar pela raça.

Esses resultados sugerem que o racismo pode ser um constructo volátil e erradicável que persiste apenas se for ativamente mantido através da associação a sistemas paralelos de aliança social.”

Este é o resumo do artigo de 2001, publicado na PNAS, de Robert Kurzban, John Tooby e Leda Cosmides (ênfases minhas). Os resultados do artigo foram replicados com sucesso em 2014 por Wouter Voorspoels e colaboradores.

O estudo sugere que a política identitária racialista, que é o tratamento da raça como um fator saliente de identificação social, é diretamente responsável pela manutenção e perpetuação do racismo, não importa quão boas sejam as intenções.

A maioria dos ativistas anti-racismo está enganada. Como dizia o próprio Milton Santos muito antes desse estudo ser publicado, insistir em uma identidade “afrobrasileira” em vez de apenas brasileira não é algo que ajuda a combater o racismo realmente. Sem falar no governo categorizando as pessoas pela raça e as tratando difereciadamente com base nisso…

E mais: o desdém dos intelectuais pelas atividades de coalizão populares que nada têm a ver com raça está, desse ponto de vista, completamente errado também. Quanto mais as pessoas se identificarem como torcedoras de times de futebol, membros da associação de bairro e até igrejas, membros de algum clube besta pra se sentirem importantes, melhor. Isso do ponto de vista de combater o racismo, que não parece ter bases biológicas diretas. As bases indiretas são um tribalismo genérico que pode ser aplicado a qualquer coisa.

5th of September

O que é preconceito, afinal? Discutindo o preconceito com calma e contra a irracionalidade ativista dos nossos tempos


Em tempos em que as pessoas usam a sua postura contra o preconceito como o pavão usa o rabo dele, faz-se necessário pensar com alguma precisão o que é preconceito afinal. Assim poderemos ter esperança de distinguir a preocupação genuína com justiça do mero adorno.

Essas são as definições do dicionário Priberam, mantido por portugueses e meu favorito na nossa língua (eles inventaram essa joça, então devem saber do que estão falando):

pre·con·cei·to
(pre- + conceito)
substantivo masculino
1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial.
2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objectivos. = INTOLERÂNCIA
3. Estado de abusão, de cegueira moral.
4. Superstição.

O dicionário serve para capturar o significado dado pelo uso das palavras, e isso é importante: é o uso que faz o significado. O sentido das palavras que usamos depende literalmente de um concurso de popularidade de sentidos nos contextos sociais em que as usamos. Mas, como as palavras denotam coisas que estão no mundo, e o preconceito é uma delas, raramente os significados propostos pelo dicionário são satisfatórios.

O dicionário é útil aqui, em primeiro lugar, para afastar o jeito mais preguiçoso de definir preconceito: o uso literal da etimologia. Não, o preconceito que nos interessa aqui, que é o tipo social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta, não é simplesmente “pré-conceito”, como a etimologia parece sugerir. Se fosse só isso, significaria que todas as crianças são ativamente preconceituosas, quando são só ignorantes, com uma ignorância geralmente benigna: só têm noções superficiais das coisas (pré-conceitos) até aprenderem conceitos sobre elas. A etimologia é via de regra um guia impreciso para o sentido das palavras: ao menos na matemática, “cálculo” não é uma pedrinha (sentido literal da palavra de origem no latim), embora na nefrologia ainda seja. O Priberam dá a etimologia de preconceito, como é comum em dicionários, mas não a lista como definição. No entanto, a definição 1 parece influenciada pela etimologia. Tudo bem, há frases em que usamos realmente esse sentido: “meu preconceito sobre abrir uma empresa é que precisarei de muito capital inicial”.

Perceba que já comecei a definir de que preconceito estamos falando ao diferenciá-lo da definição influenciada pela etimologia. Mas eu não precisei fazer isso antes: apostei que o primeiro sentido de preconceito que você pensou ao ler o título deste texto foi justamente o social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta. Pois é um uso comum da palavra, especialmente nos nossos tempos, e o uso — com o perdão da repetição — faz o significado.

Pois continuemos. Na definição 2, sugere-se o sinônimo “intolerância”, e que o preconceito não é baseado em dados objetivos. É aqui que começaremos a nos distanciar do dicionário. Sempre que o assunto é tratado, é comum que se diga que preconceito tem a ver com estereótipos e que estereótipos são ideias imprecisas sobre certos grupos de pessoas. Manchetes de jornal e palavras de ordem chegam a tratar estereótipo como uma coisa intrinsecamente negativa que precisa ser quebrada, talvez sinônimo de preconceito (que as definições 3 e 4 também tratam como imoral, o que discutiremos a seguir sem voltar a elas).

Um fato testado e retestado pela psicologia social é que os estereótipos são precisosO estereótipo de que meninos gostam de carrinhos e o estereótipo de que meninas gostam de bonecas, por exemplo, mais acertam do que erram: englobam a maioria das meninas e dos meninos, deixando de fora as exceções. É isso o que queremos em qualquer teoria sobre a sociedade: que seja precisa o suficiente, descreva com sucesso a maior parte do grupo estereotipado. De fato, algumas das teorias mais respeitadas na própria psicologia social não chegam ao grau de precisão dos estereótipos. Sobre a precisão deles, as pesquisas mostram outra coisa interessante: os estereótipos são estatísticas intuitivas, que as pessoas formam por sua própria experiência como coletoras intuitivas de dados. E mais: as pessoas são racionais, atualizam suas crenças de acordo com novas informações: ao saberem de informações individualizadoras sobre uma pessoa, elas geralmente deixam de julgá-la com base nos estereótipos dos grupos aos quais essa pessoa pertence. E, se virem um número suficiente de pessoas de algum grupo com informações individualizadoras que contrariam o estereótipo, ele é atualizado com as novas informações.

Evidências empíricas mostram, portanto, que não serve alegar que o preconceito é baseado sempre em informações falsas. É importante aqui lembrar que os dados são coletados pela experiência. E que os estereótipos são levados em diferentes versões em cada cabeça, se cada cabeça tiver uma experiência diferente. Mas há consensos de estereótipos e esses são os mais precisos, assim como na ciência as teorias mais corroboradas são as que nascem de consensos de diferentes áreas de pesquisa: a evolução biológica, por exemplo, é apoiada por um consenso de geneticistas, paleontólogos, zoólogos, botânicos, microbiólogos etc., com base em diferentes evidências que contam a mesma história.

Se o preconceito pode ser baseado em informações verdadeiras, qual é o motivo de tanta desaprovação? Ainda é errado ter preconceito? A resposta é sim, nessa definição revisada:

pre·con·cei·to

  1. Juízo de valor moralmente enganoso sobre informações verdadeiras ou falsas a respeito de grupos de pessoas; frequentemente acompanhado de
  2. atribuição falaciosa de causa inevitável entre características biológicas ou identitárias (falsas causas) e mau comportamento (falsa consequência); e também
  3. atitude autoritária segundo a qual um indivíduo tem o dever de se comportar em conformidade com estereótipos a respeito de grupos aos quais pertence.

Creio que assim fica claro qual é o problema de ser preconceituoso e qual trabalho as pessoas contrárias ao preconceito deveriam estar fazendo.

Qual é o problema do preconceito, em três exemplos seguindo as três partes da definição:

  1. Não é que é falso que homens homossexuais são mais “promíscuos” que outros grupos de sexualidade: quem pensa que fazer muito sexo é antiético é que tem responsabilidade de mostrar que é mesmo imoral. Se não há problema moral inescapável na quantidade de sexo que gays fazem, a condenação desse comportamento é preconceituosa: é um juízo de valor enganoso.
  2. Não é que nunca é verdade que assaltantes são negros: em determinadas áreas, esse é um estereótipo preciso para boa parte dos assaltantes. No entanto, quem acredita que a causa do comportamento de roubar as pessoas com ameaças de violência é a cor da pele e demais características raciais de pessoas negras está enganado e é preconceituoso.
  3. Não é mentira que poucas mulheres gostam de engenharia e programação. Mas isso definitivamente não é desculpa para tentar obrigar Maria da Silva, uma engenheira de software, a largar a área, ou para alegar que ela não deveria ter entrado na área. Essa atitude e essa opinião são imorais, autoritárias e preconceituosas.

Atitudes recomendáveis para combater as três facetas do preconceito:

1. Discussão moral racional do julgamento de valor enganoso, para demonstrar que é mesmo enganoso. A vida sexual agitada dos gays solteiros não parece, à primeira vista, ser imoral. Afinal, estamos falando de pessoas adultas buscando o prazer privado com consentimento. O resultado disso é mais felicidade no mundo. Do ponto de vista dessas consequências, é perfeitamente moral. Do ponto de vista da liberdade, imoral seria impedi-los. Alguém pode dizer que essa “promiscuidade” pode resultar na propagação de doenças venéreas e, a longo prazo, depressão e falta de sentido na vida por ser correlacionado com falta de sucesso em relacionamento amoroso. Há respostas para isso: há prevenção para as doenças (e no caso, imoral é quem não se previne e põe outras pessoas em risco, e o problema deixa de ser a quantidade de sexo); e há relacionamentos abertos. O debate pode continuar, e pode até ser que alguém demonstre no futuro que excesso de sexo realmente é imoral. Neste caso, o preconceito é bom? Não, pois aí teremos a parte 2 da definição: ser gay não é a causa inescapável de ser promíscuo, portanto condenar a homossexualidade junto com a promiscuidade não faz muito sentido.

2. Para combater a segunda faceta do preconceito, é necessário ter curiosidade disposição para trabalhar em achar respostas. Duas coisas muito em falta na maior parte dos ativistas. E, para ser curioso e diligente, é preciso não ter medo do autoritarismo politicamente correto, que é uma resposta errada ao preconceito. É preciso não ter medo de achar informações que confirmem estereótipos, por saber que há uma separação rígida entre descrever como as pessoas são e julgar como deveriam ser. Não há, até hoje, motivo para suspeitar que ser negro causa uma propensão ao crime (para continuar no exemplo de preconceito dado antes). Mesmo se, em hipótese, as evidências levassem para esse lado, não há motivo para pânico ou para concordar com racistas: nós já sabemos com bastante segurança que as pessoas não são autômatos de propensões e que indivíduos sempre podem decidir não cometer crimes. Para forçar mais uma hipótese, e mais mirabolante: mas e se as pessoas forem autômatos? Afinal, há filósofos que não acreditam em livre arbítrio. Neste caso, a interpretação da informação precisaria ser muito mais afastada da punição do que seria hoje. Pois, como esclareceu Kant, “dever” implica “poder”: se um indivíduo não tem capacidade de agir diferente (não tem livre arbítrio), então não faz sentido alegar que ele deveria agir diferente, muito menos puni-lo. Mas não precisamos nos perder em especulações filosóficas: independentemente da diversidade das pessoas que cometem um crime, o problema moral continua sendo o crime, não as características biológicas ou identitárias das pessoas que o cometem, que provavelmente não são as causas mais determinantes do crime.

3. A solução para a mania dos preconceituosos de alegar que você deve se comportar de acordo com algum estereótipo não é a alegação falsa e popular de que o estereótipo não corresponde em nenhuma medida à realidade. Muito menos, como também é popular entre ativistas, criar políticas autoritárias que forçam “representação” de algum grupo em algum lugar em que ele é incomum. A solução é realçar a importância da liberdade, a importância de poder agir diferente das outras pessoas. A solução é também apontar para as qualidades de quem é exótico, excêntrico, incomum. Ninguém gosta de ser só mais um na multidão, sem nada em que se destaca. Apelemos para a empatia (mania de ativista, mas fazem errado também): se o preconceituoso não é igual aos outros em relação a alguma característica dele que é incomum (e sempre tem uma), por que você não pode destoar do estereótipo? Se ela é uma enfermeira apaixonada por Fórmula 1, por que você não pode ser um gaúcho que não gosta de chimarrão?

Com a idade as pessoas perdem velocidade no aprendizado de coisas novas. Não surpreende, portanto, que geralmente as pessoas mais preconceituosas da família são as mais velhas: elas não atualizam tão bem os estereótipos com base em novas informações, e elas fazem julgamentos morais inadequados sobre esses estereótipos sobre os quais os jovens se debruçaram e pensaram melhor. Na nossa sociedade, idade está correlacionada com menos oportunidades educacionais. Também não surpreende que as pessoas menos escolarizadas costumem ser consideradas mais preconceituosas. Esses são dois estereótipos sobre pessoas mais idosas e sobre pessoas com baixa escolaridade, que — agora sem surpresa para nós — são precisos, e coincidem com as pesquisas de opinião sobre grupos como os gays ao menos no último caso.

Cito isso porque também é o estereótipo das pessoas preconceituosas: mais velhas, menos escolarizadas, talvez com algum problema mental. Pensando assim, estereotipadamente, é até possível também repensar preconceitos contra preconceituosos, e lembrar que quem tem preconceito também é um ser humano, e que as respostas ao preconceito não precisam escalar a intolerância. Se não praticaram a discriminação injusta, mas só expressaram pensamentos intolerantes, por exemplo, é justo que os preconceituosos percam seus empregos, sejam forçados a uma vida de privação, ou sejam vítimas de agressões físicas? Sendo o preconceito imoral, tudo a respeito dele deve ser também ilegal? Certamente uma sociedade em que tudo o que é imoral é também ilegal é um Estado policial opressivo. Entendendo melhor o preconceito, ficamos mais preparados para agir contra ele da forma mais eficaz e humana, sem gritaria e sem pânico.