30th of January

O pior texto do meu blog Um exercício de falibilidade e revisão crítica de opinião


20th of July

Ética do bife: “porque é gostoso” não é resposta (ou: Parte 2 da resposta a mim mesmo quando ataquei o vegetarianismo)


Todos os dias, acordamos e começamos uma rotina de ações, como escovar os dentes. Escovamos nossos dentes porque sabemos que é a forma de evitar problemas como mau hálito, sorriso feio e coisas mais graves. Por estética ou por saúde, temos este hábito pelo nosso próprio bem-estar. Talvez nem saibamos todos os problemas que teremos se não escovarmos os dentes, e talvez até tenhamos uma ideia exagerada dos problemas que de fato aparecerão se falharmos em fazê-lo por um dia. Confiamos em quem nos ensinou que escovar os dentes assegura nosso bem-estar, mesmo que no princípio fosse desagradável. Temos até pastas de dente mais saborosas para convencer as crianças a tomar este hábito, tal é a importância que se atribui a escovar os dentes. E é uma importância justificada pelo que se sabe a respeito do hábito.
Alguém, talvez uma pessoa indígena, poderia perguntar se escovar os dentes é moralmente correto, se é ético, se é fazer o bem. Ou se é imoral, se é antiético, incorreto, indesejável, se é fazer o mal. Porém, a pergunta pode esconder uma terceira via: talvez eu acordar de manhã e escovar meus dentes no dia 2 de novembro de 2014 seja coisa moralmente neutra, inócua, inconsequente! Enquanto é certo uma pessoa escovar seus dentes todos os dias, no sentido de preservar seu próprio bem-estar e não desenvolver por imprudência problemas bucais que afetarão o orçamento da saúde pública, não escovar os dentes especificamente no dia 2 de novembro não parece ser coisa que afete a sua própria vida ou a vida de outrem. Há ações moralmente neutras, que não são certas nem erradas.
No começo dos anos 1990, após um estudo com camundongos, espalhou-se um pânico de que flúor na água e na pasta de dente poderia causar câncer nos ossos. Até hoje, a maior parte dos estudos tendem a concluir que essa suspeita é injustificada e que o flúor não tem essa propriedade. Supondo que fosse verdade, quem soubesse disso e continuasse recomendando a escovação dos dentes estaria agindo errado. Nosso julgamento sobre a moralidade de escovar os dentes pode, portanto, mudar de acordo com conhecimentos novos a respeito do hábito. 
Se um hábito tão corriqueiro quanto escovar os dentes está sujeito a ser reanalisado de acordo com novas informações, que diremos de hábitos como comprar e comer um bife?
Devemos ter, portanto, justificações morais onde forem necessárias. E, se uma ação ou hábito é moralmente neutro – se “não prejudica a ninguém”, como se diz popularmente, é preciso explicitar também os motivos pelos quais acreditamos nessa neutralidade. Note que estamos falando aqui de fazer a coisa certa ou a coisa errada, no sentido ético de certo e errado, e não de leis. Embora leis devam preferencialmente se basear no que é moralmente certo ou errado, nem tudo o que é incorreto deve ser ilegal – imagine se aplicássemos uma lei punitiva para cada vez que alguém se sente ofendido? Seria o fim da liberdade de expressão.
Existem respostas que não funcionam quando se põe em dúvida se uma ação é certa, que dão motivos que não justificam agir de certa forma nem mostram que a ação em questão é neutra. O tribunal de Nuremberg, por exemplo, que julgou crimes nazistas, não considerou por exemplo que “eu estava seguindo ordens” fosse motivo que justificasse que os membros do baixo escalão Nazi matassem e queimassem as pessoas presas em campo de concentração. Era um motivo que não isentava de responsabilidade esses funcionários do regime nazista. Manter em confinamento e matar pessoas por serem de origem judaica com certeza não é ação moralmente neutra ou ação que seja aliviada pela hierarquia relativa entre os agentes. Analogamente, dizer “porque eu estava com pressa” pode até ajudar a autoridade de trânsito a entender por que você estacionou na faixa de pedestres, mas não justifica sua atitude nem te isenta da multa. Porque estacionar na faixa não é moralmente neutro: pode aumentar o risco para os pedestres que desejam atravessar a rua, pode tirar de uma ambulância a oportunidade de aliviar o sofrimento de alguém atropelado, etc.
O hábito de comer carne dificilmente pode ser visto como completamente neutro. Talvez dizer “porque é gostoso” funcione como motivo para comer outros tipos de alimento. Mas não funciona para um bife. Primeiramente, porque o bife pode ser resultado da tortura de um animal (nem sempre é, mas pode ser). Tudo o que precisamos saber para concluir isso é se vacas sentem dor como humanos sentem. Se é errado causar dor desnecessariamente a um ser capaz de senti-la, não interessa se o ser em questão é uma pessoa ou não. Alguém poderia dizer que o problema com a tortura não é apenas infligir dor, mas infligir dor a um ser consciente. Como no caso da hipótese do flúor como tratamento odontológico, nos vemos numa dúvida que depende de pesquisa empírica: é verdade que vacas são seres conscientes? Se formos ouvir especialistas que trabalham com cérebros, que são as mais prováveis coisas no mundo responsáveis pela consciência, a resposta é sim. Vide a Declaração de Cambridge sobre a Consciência (http://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf ).
Mas nem todo bife vem de vaca torturada. “Porque a vaca não sofreu”, então, seria resposta melhor que “porque é gostoso”? Sim, mas talvez não seja suficiente: se estamos falando de um ser consciente, e você como ser consciente sabe que não seria correto alguém numa ocasião banal simplesmente tirar sua vida para, digamos, doar seus órgãos, usando como desculpa que você não sentiu dor na execução, então deveria considerar que, tanto quanto você, vacas podem ter genuíno *interesse em viver*. Se você tem interesse em viver para perseguir uma carreira, o conhecimento, o prazer, vacas também podem ter interesse em viver para fazer suas coisas de vaca. Novamente, não interessa a espécie: interessa se existe interesse em viver.
Se a espécie alvo de uma ação não importa para os critérios pelos quais julgamos moralmente uma ação, isso não parece ser verdade para as prioridades. Quando é preciso escolher entre a vida de um ser humano e a vida de uma vaca, o primeiro tem prioridade em função de suas capacidades de sofrimento e interesses. É por isso que os inuits (“esquimós”) que não têm escolha a não ser matar e comer animais, sendo a alternativa sofrimento e morte humanos, estão plenamente justificados em sua carnivoria. Se não podem fazer diferente, não devem. O dever moral de fazer algo vem sempre acompanhado de ter a capacidade de fazê-lo. Quem não pode não deve.
Mas hoje, no Brasil, há poucos que podem alegar que não podem. Se podemos ao menos nos perguntar se a carne que consumimos foi produzida com tortura, devemos. Quem decide que a carne que consome deve ser produzida sem dor está fazendo a coisa certa. Se algum tipo de carne que consumimos veio da interferência no interesse de viver de um ser consciente, está fazendo a coisa certa quem decide encerrar o consumo e procurar alternativa.
“Porque é gostoso” não responde a nada disso, e muito menos estabelece que é moralmente neutro comer o que é gostoso. Um canibal poderia responder o mesmo sobre comer carne humana, nem por isso o canibalismo estaria isento da necessidade de se justificar. Nem mesmo para um prato de salada “porque é gostoso” funciona na justificação, pois o que demonstra a neutralidade moral de comer o pé de alface são as propriedades da planta e as consequências de produzi-la, não seu sabor. 
Se essa resposta não resolve nada, talvez seja uma tentativa de usar o humor para silenciar a própria razão de considerar o problema. O humor, para o bem e para o mal, tem o efeito de apaziguamento mental – e a dúvida sobre a moralidade do que se faz rotineiramente traz um desconforto mental.
É uma atitude anti-intelectual, portanto, se esconder por trás de respostas preguiçosas como “porque é gostoso”. Uma atitude que em si é moralmente ambígua, pois foi usada no passado para tentar “justificar” atitudes de inócuas a gravemente danosas como a escravidão. No passado, pouca gente sabia que escravizar era errado, hoje não sobrou país que explicitamente permita a escravidão em suas leis. No passado, expulsar homossexuais de casa e tentar obrigá-los a mudar de orientação sexual era considerado correto, hoje, cada vez menos pessoas concordam com isso. A próxima fronteira no lento avanço da humanidade em coisas que podemos e devemos fazer diferente será, provavelmente, em direitos de animais não-humanos. Seu principal impedimento não será o sabor do bacon, mas a ignorância voluntária. Mesmo que comer bacon especificamente no dia 20 de julho de 2015 seja uma ação moralmente neutra.
29th of December

Por que não sou mais onívoro: resposta a mim mesmo – parte 1


Lisa Simpson crescida, por Jordan MeadEm abril de 2010 escrevi um texto que até hoje consta como primeiro resultado nas buscas para seu título, “por que não sou vegetariano”. Dois anos e meio depois, vim a tomar uma decisão que contradiz a posição que tentei defender – hoje vejo que de forma incorreta e até irracional – naquele texto. A maior guinada, que não pretendo justificar aqui nesta primeira parte, foi o abandono da ideia de que teorias éticas dependem de emoções para se justificar. Acredito no oposto hoje em dia: que embora emoções sejam importantes para motivar a ação ética ou importantes de outras formas para a moral (e ética e moral são muito melhor tratadas como sinônimos), até mesmo um psicopata completamente desprovido de empatia poderia tomar decisões eticamente corretas usando apenas a reflexão racional. A decisão que tomei foi de mudar minha dieta. Não há, até onde sei, um rótulo para as restrições alimentares e de consumo que adotei. Este primeiro texto de resposta não pretende ser uma resposta exaustiva a mim mesmo e aos erros que cometi neste assunto. Mais partes virão em algum tempo.

Eis, então: Breve diálogo fictício sobre minha decisão de não consumir mais carne vermelha.

– Não como carne vermelha porque tentei achar motivos pelos quais isso é correto e não achei nenhum. Na verdade só achei, inclusive no que eu próprio pensava a respeito, apelos irracionais à emoção (inclusive ao prazer gustativo) e tentativas de furar buracos nos argumentos de quem não come em vez de um caso completo defendendo a prática. Não saí por aí acusando ninguém de “imoralidade”, só penso que uma pessoa honesta deve reconhecer que ela come carne vermelha pelos mesmos motivos que eu baixo mp3 ilegalmente: porque não tem recursos / motivação / coragem / heterodoxia suficientes para parar algo que, olhando bem de perto e julgando a média dos modos como é feito e as consequências que traz, é errado.

– Mas você come milho, não come? Há uma grande probabilidade do milho que você come estar vindo de lavouras em que são colhidos com colheitadeiras que inevitavelmente matam ratinhos inocentes que ficam por ali. Portanto, você tem sangue nas mãos tanto quanto eu, o que eu faço é pegar da mão e botar na boca, e se isso tem algo de prejudicial é apenas a mim na eventualidade de ser comida pouco saudável.

– Este é um problema interessante porque lembra os experimentos mentais em ética sobre o bonde desgovernado. Enquanto a maioria das pessoas acha correto puxar uma alavanca para mudar um bonde de trilho para que ele mate menos pessoas, pouca gente acha correto atirar um homem gordo em cima dos trilhos para obter o mesmo efeito. Enquanto puxando a alavanca você só está matando pessoas indiretamente, empurrar o gordo é algo que parece mais com assassinato. Comprar e comer carne vermelha me parece trazer problemas inevitáveis, por estar muito mais diretamente ligado a causar sofrimento ou atentar contra a individualidade de um ser capaz de sofrer e capaz de experimentar o mundo ao ponto de ter interesse em viver, do que comprar vegetais, que são possivelmente colhidos com a consequência indireta e evitável de animais sofrerem e morrerem. Financiar o abate pecuário diretamente lembra empurrar o gordo, e comprar o milho parece puxar a alavanca.

– Mas de qualquer forma você não é isento de estar provocando – mesmo que mais indiretamente que eu – a morte e sofrimento do tipo de animal que você acredita ter status para consideração moral. Como pode então achar que pessoas que fazem o que você não faz deveriam reconhecer que o que fazem é errado?

– Seu argumento é que dois errados fazem um certo? Quando deixa de pagar impostos tenta se justificar dizendo que Al Capone também não pagava? Isso seria falácia, uma escapada à discussão em vez de uma resposta a ela. O que estou dizendo é outra coisa: que duvido que pessoas que comem carne vermelha (vamos deixar outros tipos de carne para outro debate) possam justificar este hábito como coisa correta, recomendável, justa ou louvável a se fazer. Se têm outros motivos para continuar fazendo, posso imaginar quais sejam e até imaginar explicações para eles, por isso mesmo não acho que repreensão e acusação sejam úteis (como não são úteis para o caso de consumo de obra intelectual e artística sem levar em conta os direitos de quem a criou). As pessoas fazem as mais variadas coisas pelos mais variados motivos. Mas só uma fração dessas coisas é correta, e só uma parte dessas coisas é justificável racionalmente. Deixar de comer carne vermelha é tanto correto quanto justificável. A atitude contrária não é – ainda mais quando consideramos como é feita hoje, e é claro que varia em mais e menos incorreta dependendo de como é feita, mas creio que ser incorreta é uma de suas propriedades fundamentais.

– Extratos de pulmões de porcos são necessários para dar surfactantes para bebês recém-nascidos, sem os quais os bebês não conseguem respirar. Surfactantes sintéticos, até onde sei, não funcionam tão bem. Está dizendo que abater porcos para este fim é errado?

– Não. Estou dizendo que abater porcos é geralmente errado. Não que é errado em absolutamente todas as circunstâncias possíveis e imagináveis – o que também vale para assassinatos e mentiras. É geralmente errado, e principalmente para fins de consumo dispensável e diversão. Porque porcos são seres capazes de sofrer e seres que têm interesse em viver. Abatê-los é interferir injustamente com este interesse e na maior parte dos casos causar-lhes dor desnecessária. Isso significa que, objetivamente falando, se ética diz respeito a evitar sofrimento e respeitar interesses, porcos devem necessariamente ser seres dignos de serem lembrados quando pensamos no que é a coisa certa a se fazer. Que eles próprios não tenham linguagem e capacidade complexa de julgamento não importa – isso significa que eles não podem ser agentes morais, mas não significa que não podem ser pacientes morais. Ou seja, não podem decidir eticamente, mas devem ser incluídos no grupo de seres que merecem a piedade de seres pensantes.

– Se porcos merecem esse status moral, então, se uma fazenda estivesse sendo invadida por um tsunami e você tivesse um helicóptero, você daria igual prioridade para salvar as pessoas e os porcos?

– Não. Porque eu acredito que porcos são dignos de serem pacientes morais, não significa que eu acredite que todos os pacientes morais têm a mesma prioridade. Pode-se tentar orientar as prioridades pelos interesses – pessoas têm mais interesses (e potencialidades, que talvez possam ser incluídas nos interesses) que porcos, portanto, em geral, têm mais prioridade. Mas uma pessoa em iminência de ralar um joelho com certeza tem menos prioridade que um porco em risco de morrer com uma facada no coração, para mim. De novo, a prioridade em geral ser maior para uma espécie não significa que ela seja sempre maior em toda e qualquer circunstância concebível. E não é, na verdade, a espécie que define a prioridade, mas a natureza dos indivíduos em determinado problema moral, além de, como ilustrei, as possíveis consequências de uma ou outra decisão. Num prédio em chamas com uma única criança num quarto e trezentos mil embriões humanos em outro, eu com certeza daria prioridade total a salvar a criança, e minha prioridade de evitar que os embriões fritassem seria equivalente à prioridade que eu dou a evitar que minha salada apodreça na geladeira. Porque não parece ser o caso que embriões humanos mereçam o mesmo tratamento de indivíduos humanos.

– Foda-se, vou comer minha picanha porque é gostosa e ponto final, ninguém pode me impedir.

– Ninguém tentou tirar seu direito legal de fazê-lo. O que é imoral nem sempre tem que ser ilegal, e vice-versa. Pense nisso. E pense, se quiser é claro, se “porque é gostosa” é realmente um motivo que justifique alguma coisa. Hannibal Lecter diria o mesmo sobre cérebros de gente viva.

12th of April

Por que não sou vegetariano


Acho natural e louvável que as pessoas apliquem sua empatia a animais não-humanos.
E acho ainda mais natural que isso costuma ser feito mais à medida em que o animal em questão é mais aparentado a nós. É por isso que cães fazem mais sucesso entre nós que lagartos. Lagartos nos parecem frios e indiferentes, cães demonstram ter várias das nossas emoções.
Alguns veganos dizem que você deve aplicar direitos iguais ou análogos aos direitos humanos a outros animais, na medida em que estes animais apresentam “senciência”.
Tenho para mim que o problema começa com a terminologia. Senciência é um termo muito obscuro. Não descreve as coisas bem. Se se refere à recepção sensorial, no quesito do tato por exemplo um peixe é mais senciente que um bugio; no olfato um porco é mais senciente que um chimpanzé, na visão um lêmure de Madagascar é mais senciente que um musaranho-toupeira.
Se se refere à capacidade de processamento cortical ou à dor, a coisa fica complicadíssima. Para começar, a maioria das espécies animais sequer tem um córtex cerebral. Em nós e outros vertebrados existe um sistema nocirreceptor (uma parte do sistema sensorial dedicada a detectar a dor), mas este sistema não servirá como comparação para saber se a maioria das espécies animais sente alguma dor.
Pode-se argumentar, entretanto, que os animais usados na pecuária como gado de corte têm homologias de córtex e sistema nociceptor, o que é verdade. Vacas realmente podem sentir dor como nós.
Mas uma ética baseada apenas em homologias de nocicepção e processamento cortical é incompleta, mais tarde direi o porquê.
O que importa para o momento é que “senciência” é um termo de uma obscuridade inadmissível para tentar impor a outros uma conduta.
Uma dieta vegetariana é bem mais custosa financeiramente que uma dieta onívora [que vem sendo praticada na nossa linhagem há milhões de anos].
Alguns dos motivos para tanto são os seguintes:
– os animais que comemos sintetizam, extraem e concentram em seus tecidos nutrientes essenciais que se formos extrair dos vegetais precisaremos ter um grande gasto energético com processamento industrial. Enquanto o refugo desse processamento é eliminado naturalmente e mais facilmente reciclável nos animais de criação [porque, apesar da inflação populacional que causamos, eles são parte de uma biosfera que evoluiu métodos de reciclagem eficientes por bilhões de anos], o lixo que seria gerado por nossa indústria que faria este trabalho seria de mais difícil reciclagem.
– os animais fazem o trabalho da indústria alimentícia bem melhor, porque sua economia fisiológica é resultado da seleção natural. Por isso, para alimentar a população mundial com todos os nutrientes essenciais, incluindo a vitamina B12, é bem mais barato [sustentando portanto mais vidas] usar o consumo de produtos alimentícios de origem animal.
Dizer, como dizem os veganos, que comer animais é imoral, traz consigo algumas premissas tácitas, como por exemplo um absolutismo moral, como se saber o que é moral e imoral fosse tão objetivo quanto saber a que temperatura e pressão a água ferve.
Não é bem assim. Fundamentos morais só existem na forma de postulados internos a escolas filosóficas particulares.
Fundamento moral será o imperativo categórico para os kantianos, será o cálculo de quantidade de dor e prazer para os utilitaristas, será a obediência cega a decálogos para fundamentalistas cristãos.
Filosofia moral [também chamada de Ética, a área da filosofia que se dedica à investigação da conduta (ethos), e a partir disso o discernimento de que condutas são desejáveis ou indesejáveis] não é álgebra.
É engraçado escutar de veganos que eu, por exemplo, seria imoral por comer carne, quando eles usam como premissas um termo obscuro (senciência) e uma ideia bastante simplória do que seria moralidade, filosofia moral ou ética.
Eu poderia mostrar facilmente que observando certas acepções de “senciência” e “moral”, eu estou agindo perfeitamente bem, sendo “ético”, ao comer carne apenas de animais anencéfalos. Ou seja, eu posso achar na ética que estes veganos defendem uma justificação para continuar comendo carne.
Mas o problema não pára aí.
Existe uma assimetria de tratamento da biodiversidade animal aqui, e uma incongruência filosófica.
Comecemos pela assimetria. Levando em conta o mantra de “respeitem os animais”, eu como biólogo devo chamar atenção para o seguinte:
Por que ninguém tem dó das moscas que caem na sopa ou das lombrigas assassinadas com licor de cacau?
Existem razões para salvar as Taenia spp. e outros animais nojentos, entre os quais presumo que estejam Necator spp., Ascaris spp., Tunga penetrans, Pulex irritans, Schistosoma mansoni, insetos das ordens Phthiraptera, Blattaria, Diptera, além de outros animais classificados como Annelida, Mollusca, Chelicerata, Platyhelminthes.
Por que estes invertebrados nojentos devem ser protegidos da extinção?
– Porque por estarem aqui neste planeta há milhões de anos, são parte do equilíbrio dos ecossistemas onde são encontrados naturalmente. A quebra desse equilíbrio pela extinção desses animais ameaça muitas outras espécies conectadas a eles, inclusive as que sustentam o ser humano.
– Porque são resultados improváveis e contingentes do processo da evolução biológica, e não existem em nenhum outro lugar neste universo. Eliminá-los seria como queimar todas as obras de Shakespeare.
– Porque a evolução lhes concedeu modos eficazes de sobrevivência, que se estudados podem gerar novas tecnologias.
Por outro lado, por que os invertebrados nojentos que parasitam APENAS o homem (não é o caso da maioria dos citados) devem ser extintos?
– Antes eles do que nós. Eu queimaria todas as peças de Shakespeare se conservá-las ameaçasse a minha vida.
Por que o PETA, o vegan-power, e movimentos afins são ridículos?
– Porque doutrinam pessoas com falácias, porque agem de maneira assimétrica na conservação da biodiversidade (não se importando com os invertebrados nojentos aqui listados), porque demonstram grande ignorância sobre a biodiversidade, e porque acham que os direitos dos outros animais têm de ser defendidos passando por cima dos direitos humanos.
Tratada a assimetria, falemos da incongruência. Alguns veganos e vegetarianos dizem não comer carne porque querem defender os direitos dos animais de corte.
Se deixarmos de abater estes animais para consumo, que vai ser deles? O ser humano fez foi favorecer o sucesso reprodutivo de espécies como Gallus gallus e Bos taurus. Sem nós, eles nunca seriam tão numerosos, não teriam a oportunidade de sequer nascer.
Nesta ética vegetariana, o que é melhor? Sofrer ou nunca ter existido?
Estariam alguns vegetarianos defendendo o direito de não existir?
Em conclusão, para não me estender demais, devo ressaltar que eu não defendo o sofrimento dos outros animais. Métodos de abate indolor são bem-vindos.
Mas alguns vegans/vegetarianos-moralistas estão querendo demais: a total e completa parada no consumo de produtos de origem animal. Isso é fanatismo, isso é doutrinação, isso é dogmatismo, isso é ser inflexível, parecem pastores pregando sua seitazinha por aí.
Uma informação que não deve constar em filmes veganos como “A carne é fraca” nem nos blogs veganos que estão se multiplicando pela internet feito bolor em pão guardado:
Crianças recém-nascidas por volta dos 7 meses de gestação precisam do extrato de pulmões de porcos para conseguirem respirar.
Porque os pulmõezinhos delas não produzem os surfactantes (que evitam que o pulmão fique colapsado como um saco molhado por dentro), que são jogados fora quando se mata um porco. Há sintéticos, mas funcionam mal.
Então, é preferível salvar os porquinhos a salvar bebês recém-nascidos?
Não? Então é aceitável o abate de porcos para esse fim, não é?
Então é melhor guardar certas ilações moralistas vegetarianas fanáticas, já temos muitos outros tipos de fanatismos prejudiciais na nossa sociedade para nos preocupar.
Não há nada melhor para uma criança desnutrida comer do que um bom e suculento fígado. Vamos ficar gastando rios de dinheiro para extrair os mesmos nutrientes de um fígado em toneladas de plantas, em vez de ir pelo caminho mais fácil que é criar um herbívoro que faz isso por nós?
A Ética existe em função do ser humano, que precisa seguir uma vida tranquila sem remorsos do que fez ou fará (se bem que não é grande o número de pessoas que realmente tem essa preocupação, não entre políticos). Não me venha dizer que eu tenho que me sentir culpado pelo salaminho que comi hoje, quando eu mal digeri a minha incapacidade de fazer alguma coisa pelo menininho que me pediu esmola.
Sistemas éticos absolutistas só servem aos dogmáticos, não aos céticos, e têm um saldo negativo para com a felicidade ao longo da história.

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ATUALIZAÇÃO IMPORTANTE (29/12/2012): Mudei de ideia em vários sentidos sobre este texto. Comecei a refutar a mim mesmo aqui.