26th of January

Santos Morais Por que a santidade moral não é desejável


por Susan Wolf 

 Não sei se existem santos morais. Mas se existem, fico feliz por nem eu nem aqueles com quem mais me preocupo estarmos entre eles. Por santo moral estou me referindo a uma pessoa cuja totalidade de ações é tão moralmente boa quanto possível, isto é, uma pessoa que é tão moralmente digna quanto se pode ser. Embora em breve eu vá reconhecer a variedade de tipos de pessoas que poderiam satisfazer essa descrição, parece-me que nenhum desses tipos serve como um ideal pessoal inequivocamente convincente. Em outras palavras, creio que a perfeição moral, no sentido de santidade moral, não constitui um modelo de bem-estar pessoal pelo qual seria particularmente racional ou bom ou desejável para um ser humano lutar.

Fora do contexto da discussão moral, isso vai parecer para muitos uma coisa óbvia. Mas, dentro desse contexto, a conclusão, se for aceita, será aceita com algum desconforto. Pois, dentro desse contexto, geralmente é assumido que se deve ser tão moralmente bom quanto possível e que os limites que há para a impressão da moralidade sobre nós são delimitados por facetas da natureza humana das quais não devemos nos orgulhar. Se, como eu acredito, os ideais que são deriváveis do senso comum e das teorias morais filosoficamente populares não apoiam essas presunções, então algo tem de mudar. Ou precisamos mudar nossas teorias morais de formas que as façam gerar ideais mais palatáveis, ou, como discutirei, precisamos mudar nossa concepção do que está envolvido na afirmação de uma teoria moral. (…)

[O santo moral] terá os valores morais comuns em um grau incomum. Será paciente, ponderado, equilibrado, hospitaleiro, caridoso tanto no pensamento quanto na ação. Ele terá grande relutância em fazer julgamentos negativos de outras pessoas. Terá cuidado para não favorecer algumas pessoas sobre outras com base nas propriedades que elas não poderiam não ter.

[S]e o santo moral está devotando todo o seu tempo a alimentar os famintos, curar os enfermos e arrecadar dinheiro para a Oxfam, então necessariamente ele não está lendo romances vitorianos, tocando oboé, ou melhorando suas habilidades no tênis. Embora nenhum desses interesses ou gostos na categoria contendo essas atividades possa ser alegado como sendo um elemento necessário numa vida bem vivida, uma vida na qual nenhum desses possíveis aspectos de caráter são desenvolvidos pode parecer uma vida estranhamente estéril. (…)

Por exemplo, uma inteligência cínica ou sarcástica, ou um senso de humor que aprecia esse tipo de inteligência nos outros, requer que se tome uma atitude de resignação e pessimismo para com os defeitos e vícios a serem encontrados no mundo. Um santo moral, por outro lado, tem motivo para tomar uma atitude oposta a isso – ele deve tentar ver o melhor nas pessoas, dar-lhes o benefício da dúvida tanto quanto possível, tentar melhorar situações desagradáveis enquanto houver qualquer esperança de sucesso.

Um interesse em algo como a cozinha gourmet será, por razões diferentes, difícil para um santo moral aceitar de bom grado. Pois parece-me que nenhum argumento plausível pode justificar o uso de recursos humanos envolvidos em produzir um paté de canard en croute contra fins beneficientes alternativos possíveis para os quais esses recursos poderiam ser aplicados. Se há uma justificação para a instituição da alta cozinha, é uma que depende da decisão de não justificar cada atividade contra alternativas moralmente benéficas, e essa é uma decisão que um santo moral jamais faria. (…)

Um santo moral precisará ser muito, muito gentil. É importante que ele não seja ofensivo. A preocupação é que, como resultado, ele terá de ser enfadonho, ou sem humor ou sem graça. (…)

Parece que, quando observamos nossos ideais para pessoas que atingem variedades não-morais de excelência pessoal em conjunto com ou coloridas por alguma versão de alta tonalidade moral, procuramos nos nossos baluartes de excelência moral por pessoas cujos feitos morais ocorrem em conjunto com ou são coloridos por alguns interesses ou características que têm uma baixa tonalidade moral. Em outras palavras, parece que há um limite para quanta moralidade podemos aguentar.

***

Leia o artigo completo, em inglês, em:
Wolf, Susan. “Moral saints.” The Journal of Philosophy (1982): 419-439.
http://philosophyfaculty.ucsd.edu/faculty/rarneson/Courses/susanwolfessay1982.pdf

26th of July

Em defesa da indecidibilidade


Nós ainda não sabemos o que é a consciência, do que ela é feita, como ela é gerada, como ela funciona. Há quem defenda que jamais saberemos. Isso não significa que devemos desistir de debater a respeito nem impede que saibamos que algumas respostas são mais erradas que outras. Ter vontade de encontrar a verdade não implica que você já a tem, nem tira da sua frente os obstáculos a serem transpostos para obtê-la. E alguns obstáculos devem ser, sim, intransponíveis, e te deixam com duas ou mais respostas entre as quais, em vista do obstáculo, é impossível decidir.

Isso tudo é muito fácil de aceitar. Mas em assuntos mais mundanos, que têm a ver com ética, parece que nós temos uma forte tentação a não reconhecer a indecidibilidade. Exemplos:

– Woody Allen é um monstro abusador de crianças, ou Mia Farrow influenciou sua filha supostamente abusada (Dylan Farrow) a denunciá-lo para se vingar dele por tê-la trocado por… outra filha (Soon Yi), adotiva, na idade de consentir? Muita gente, especialmente por compromissos ideológicos, quer fingir saber a verdade. Alguns antifeministas querem fingir que sabem a verdade para poder dizer “estão vendo? Mais uma acusação falsa nesta perseguição cultural feminista contra homens!”, enquanto algumas feministas querem dizer “estão vendo? Mais um predador machista, devemos acreditar nas vítimas, ouvir e acreditar”. Pois estão ambos os campos errados: não devemos concluir que algo é verdade só porque confirma nossas narrativas ideológicas do que ocorre na sociedade. Ter razão neste caso significa ter acesso a evidências fortes, e não escolher o que é “verdade” porque afaga nossos pressupostos. O caso é indecidível. Allen ser inocentado pelo sistema judicial por falta de provas não é a mesma coisa que ele ser de fato inocente, e ser acusado por gente que se encaixa em perfis de vítima não quer dizer que é de fato culpado. Quem gosta e quem desgosta de Woody Allen terá de viver com a dúvida, se tem honestidade intelectual. Neste caso, certeza é para quem é intelectualmente desonesto e ideologicamente motivado. Até, é claro, que surjam evidências conclusivas, o que se torna cada vez menos provável com a passagem do tempo.

– Há algum tempo, uma decisão judicial obrigou uma mulher a fazer uma cesariana, pois a opinião médica era que se ela não fizesse a cesariana o bebê morreria e talvez ela também. A mulher se opunha fortemente a ser submetida a isso, mas foi submetida pela autoridade do Estado com a justificativa de proteger o direito à vida do pequeno cidadão que ela trazia dentro de si. Diferentes intuições entram em conflito, aqui: autonomia individual deve ser preservada, mas também deve ser preservado o direito à vida de bebês já sencientes, como é o caso na fase final da gestação. Radicais libertários olharão o caso e já concluirão: “mais uma vez o Estado abusando de poder e interferindo na autonomia individual”. Radicais leitores de Foucault concordarão por motivos ligeiramente diferentes: “mais uma vez o biopoder esmagando a dignidade individual em função de uma narrativa médica que é supostamente verdadeira”. Já quem tem muita fé na autoridade médica dirá “lá vem os apologistas da ignorância tentando atropelar a expertise médica e botar vidas em risco”. Sabem o que eu acho? Que era indecidível. Que a opinião médica podia estar errada, mas tinha que tomar uma decisão que aumentasse a probabilidade de sobrevivência de gestante e bebê. Que a mulher estava certa em rejeitar que uma autoridade interfira no seu direito de fazer com seu corpo o que bem entende, que ela poderia estar certa em ver riscos em ser submetida a uma interferência invasiva, que ela talvez soubesse do que estava falando quando duvidou da opinião médica. Dependendo, é claro, dos motivos objetivos para dar razão à opinião médica ou à gestante, talvez fosse decidível. Mas na ausência desses detalhes, é indecidível. 

Temos que perder o medo de expressar dúvida nos casos indecidíveis em que a dúvida é a posição mais sensata que se pode ter. Claro que às vezes, quando somos nós os envolvidos, temos que tomar uma decisão rápida e somos forçados a decidir. Mas devemos deixar claro que havia dúvida quando decidimos. Se acertamos, não vai ser muito relevante que estávamos em dúvida, mas admitir que havia tem o efeito humilde de aceitar que o acerto não foi um completo mérito. Se errarmos, a admissão da dúvida aliviará ao menos em parte a nossa culpa, pois pode ser que, diante das informações disponíveis e da limitação de tempo, tenhamos feito o melhor que podíamos, e se erramos não foi por má fé nem ignorância, mas por termos sido forçados a decidir no que era indecidível.
9th of September

Sobre homofobia e soltar pum em elevador


Flatulências em público podem ser consideradas pequenos delitos éticos. Porque incomodam as pessoas ao redor, causando-lhes mal estar olfativo.
Se Pedrão peida no elevador, é justo que as pessoas ao redor exprimam descontentamento. Pedrão deve concluir que é uma verdade moral que insultar os narizes alheios com os vapores de suas entranhas é errado. Não é errado no mesmo grau que é errado torturar e matar, mas é errado.
Imaginem que Dona Astrogilda, por sua vez, é uma idosa de 95 anos que sofreu um AVC e está acamada há meses. O AVC causou a perda do controle que ela tinha sobre as flatulências, então ela solta puns tão logo são produzidos por sua flora intestinal, mesmo que o quarto esteja cheio com todos os seus netos e bisnetos.
A pequena imoralidade de peidar pode ser atribuída à Astrogilda? Não. Porque ela não pode fazer diferente, e se não pode, então não deve. Não se pode esperar dever ético de uma ação sobre a qual ela não tem poder voluntário.
Esse pequeno exemplo malcheiroso é para ilustrar a tese de Kant de que “deve implica pode”. É uma tese simples e poderosa.
Se um(a) homossexual não pode evitar ser homossexual, então não interessa o que diz a sua respeitável teologia: ele(a) não deve deixar de ser homossexual, porque ele(a) não pode – não consegue, não é capaz, é impraticável. Se deixar de fazer o que sua libido o(a) impele a fazer, sofrerá. Então incitá-lo(a) a deixar de fazer é errado, e mais errado que peidar em elevador.
23rd of April

Risco moral


Risco moral é um conceito usado por alguns eticistas (filósofos especialistas em moral). Vou ilustrar, como o entendo, com dois exemplos que doam nos nossos calos.

1 – Usar drogas ilícitas pode ser moral ou imoral. Uma vez que uma parcela da população é viciada em certa substância, e sofre muito se parar de usá-la ‘de supetão’, existe mais risco moral em ser extremamente duro negando qualquer acesso à droga do que em fornecer pequenas quantidades para que consigam diminuir o consumo e passar do baixo consumo para consumo nenhum (política chamada de ‘redução de danos’). Há menor risco moral na redução de danos também porque corta-se o financiamento que o viciado dá ao traficante (e o traficante obviamente não está interessado em reduzir o consumo dos viciados). Assim, o Estado transforma-se num “traficante brando”, aparentemente violando sua própria regra de proibição do acesso à substância, para o bem dos viciados (diminuição de seu sofrimento em crises de abstinência com a meta de que parem de consumir no futuro).

2 – Comer carne pode ser moral ou imoral. Se nós já comemos carne (é o meu caso, exceto para a vermelha), ainda que não tenhamos dúvidas de que é certo há coisas que podemos fazer para reduzir o risco moral desse hábito, sem mudá-lo (mesmo coisas que acreditamos ser certas podem vir acompanhadas de risco moral). Há mais risco moral em comer carne procedente de um abatedouro desconhecido, que não dá nenhuma informação sobre o tratamento do animal até o abate e durante o abate, do que comer carne de procedência conhecida, com alguma garantia de que o animal não foi criado em confinamento nem submetido a requintes de tortura, e de que foi abatido com procedimentos maximamente indolores. Isso é algo que raramente passa pela cabeça da maioria dos onívoros, e raramente aparece no discurso de ativistas de direitos animais, mas é algo bastante importante que poderia fazer pessoas em posições antagônicas sobre a questão da ética da dieta finalmente colaborarem nesses detalhes pela diminuição do risco moral.

Quando digo, aqui, que uma atitude “pode ser moral ou imoral”, não quer dizer que eu pense que os argumentos pró e contra são igualmente persuasivos. Quer dizer que eu penso que pode ser útil, de vez em quando, suspender o juízo sobre as grandes conclusões e focar-se em maneiras de fazer a coisa mais correta possível no nível dos detalhes, da diminuição dos riscos de estar causando sofrimento desnecessário a qualquer ser capaz de sofrer, o que para mim orienta qualquer coisa digna de ser chamada de ética ou moral.

Não furtar-se ao pensamento ético é ter respeito por si mesmo como ser capaz de pensar.

7th of April

Pela defesa da vida através da descriminalização do aborto: uma nota de apoio ao CFM


Em apoio ao Conselho Federal de Medicina, que se manifestou pelo aborto legal e seguro, eis uma argumentação sucinta que desenvolvi dois anos atrás:
1 – A questão sobre o aborto não diz respeito à “vida”, mas à “vida humana”, ou seja, ao indivíduo. Não é uma questão de saber como começa a vida, é uma questão de saber em que etapa do desenvolvimento o nosso Estado laico deve aceitar um embrião como um cidadão digno de direitos.
2 – Para estabelecer se um embrião é um cidadão, o Estado deve ser informado pela ciência sobre quando surgem no desenvolvimento os atributos mais caracteristicamente humanos.
3 – Os atributos mais caracteristicamente humanos não são ter um rim funcionando, nem um coração batendo, mas ter um cérebro em atividade. Isto é razoavelmente estabelecido porque é a morte cerebral que é considerada o critério para dizer quando uma pessoa morreu, e não a morte de outros órgãos. Por isso mesmo transplante de coração não é acompanhado de “transplante” de registro de identidade.
4 – Se a morte do cérebro é o critério médico que o Estado aceita para considerar o indivíduo humano como morto, o início do cérebro deve ser logicamente e necessariamente o critério para considerar o início do indivíduo, e não a fecundação.
5 – Considerar a fecundação como o início do indivíduo humano é perigoso, porque é definir um indivíduo apenas por seus genes. Isso é determinismo genético.
6 – O cérebro não tem sua arquitetura básica formada no mínimo até o terceiro mês da gestação. Isso significa que o embrião não percebe o mundo, não tem consciência, é um punhado de células como qualquer pedaço de pele. Por isso não é moralmente condenável que as mulheres tenham direito de escolher não continuar a gestação antes deste período.
7 – Usar o argumento de que o embrião ou o zigoto tem o potencial de dar origem a um ser humano para protegê-lo não vale, porque seria o mesmo que tentar proteger os óvulos que se perdem logo antes das menstruações em todas as mulheres, ou os espermatozoides que são jogados fora na masturbação masculina. Além disso, hoje a ciência sabe que toda célula humana, até as células da pele, tem o potencial de dar origem a um ser humano inteiro, bastando para isso alguns procedimentos de clonagem. No entanto nós destruímos essas células diariamente: arrancando a cutícula, roendo as unhas, passando a mão no rosto, arrancando fios de cabelo, etc. Potencial não concretizado não é argumento para defender coisa alguma.
8 – Se você acha que o embrião precoce ou o zigoto tem consciência, é responsabilidade sua provar isso, não é o que os cientistas dizem. E num Estado laico, vale o que pode ser estabelecido independentemente da crença religiosa. Se sua crença religiosa diz que uma única célula é consciente, você não tem o direito de impor sua crença a ninguém ao menos que possa prová-la e torná-la científica. Todos os que tentaram fazer isso falharam até hoje: uma célula formada após a fecundação não é essencialmente diferente de qualquer outra célula do corpo.
9 – A vida, em sentido mais amplo, que inclui os outros animais, as plantas e os microorganismos, é um processo ininterrupto que começou neste planeta há aproximadamente 4 bilhões de anos atrás. Por isso é importante reiterar: não é o “começo da vida” que está sendo debatido, mas sim o começo do indivíduo humano como um ser consciente, dotado de uma mente e digno de proteção do Estado.
10 – Concluindo, é a mulher, um ser humano adulto, uma cidadã com direitos, quem merece prioridade de proteção, e não um embrião de poucas semanas. Se ela não se sente preparada para cuidar de uma criança, ela deve ter o direito de interromper sua gestação, caso esta gestação esteja no começo e o embrião não tenha cérebro desenvolvido. Deixar as mulheres terem poder de decisão sobre seus próprios corpos é reconhecer um direito natural delas e assegurar que só tenham filhos quando sentirem que podem trazê-los a este mundo com amor e saúde, para que o próprio mundo em que crescerão seja também mais saudável.
E é por isso que defender que o aborto seja uma escolha, e não um crime, é também defender a vida humana.
P. S.: Se você já se chocou com imagens sangrentas usadas pelo lado sem argumentos, o lado dos autointitulados “pró-vida”, há uma forma de tratar seu trauma: ver qual é a aparência de um aborto legal e seguro, feito respeitando o limite de 12 semanas que o Conselho Federal de Medicina defende. Você pode fazer isso neste site, e prometo que não vai se chocar: http://www.meuaborto.com.br/
29th of December

Por que não sou mais onívoro: resposta a mim mesmo – parte 1


Lisa Simpson crescida, por Jordan MeadEm abril de 2010 escrevi um texto que até hoje consta como primeiro resultado nas buscas para seu título, “por que não sou vegetariano”. Dois anos e meio depois, vim a tomar uma decisão que contradiz a posição que tentei defender – hoje vejo que de forma incorreta e até irracional – naquele texto. A maior guinada, que não pretendo justificar aqui nesta primeira parte, foi o abandono da ideia de que teorias éticas dependem de emoções para se justificar. Acredito no oposto hoje em dia: que embora emoções sejam importantes para motivar a ação ética ou importantes de outras formas para a moral (e ética e moral são muito melhor tratadas como sinônimos), até mesmo um psicopata completamente desprovido de empatia poderia tomar decisões eticamente corretas usando apenas a reflexão racional. A decisão que tomei foi de mudar minha dieta. Não há, até onde sei, um rótulo para as restrições alimentares e de consumo que adotei. Este primeiro texto de resposta não pretende ser uma resposta exaustiva a mim mesmo e aos erros que cometi neste assunto. Mais partes virão em algum tempo. Eis, então: Breve diálogo fictício sobre minha decisão de não consumir mais carne vermelha. – Não como carne vermelha porque tentei achar motivos pelos quais isso é correto e não achei nenhum. Na verdade só achei, inclusive no que eu próprio pensava a respeito, apelos irracionais à emoção (inclusive ao prazer gustativo) e tentativas de furar buracos nos argumentos de quem não come em vez de um caso completo defendendo a prática. Não saí por aí acusando ninguém de "imoralidade", só penso que uma pessoa honesta deve reconhecer que ela come carne vermelha pelos mesmos motivos que eu baixo mp3 ilegalmente: porque não tem recursos / motivação / coragem / heterodoxia suficientes para parar algo que, olhando bem de perto e julgando a média dos modos como é feito e as consequências que traz, é errado. – Mas você come milho, não come? Há uma grande probabilidade do milho que você come estar vindo de lavouras em que são colhidos com colheitadeiras que inevitavelmente matam ratinhos inocentes que ficam por ali. Portanto, você tem sangue nas mãos tanto quanto eu, o que eu faço é pegar da mão e botar na boca, e se isso tem algo de prejudicial é apenas a mim na eventualidade de ser comida pouco saudável. – Este é um problema interessante porque lembra os experimentos mentais em ética sobre o bonde desgovernado. Enquanto a maioria das pessoas acha correto puxar uma alavanca para mudar um bonde de trilho para que ele mate menos pessoas, pouca gente acha correto atirar um homem gordo em cima dos trilhos para obter o mesmo efeito. Enquanto puxando a alavanca você só está matando pessoas indiretamente, empurrar o gordo é algo que parece mais com assassinato. Comprar e comer carne vermelha me parece trazer problemas inevitáveis, por estar muito mais diretamente ligado a causar sofrimento ou atentar contra a individualidade de um ser capaz de sofrer e capaz de experimentar o mundo ao ponto de ter interesse em viver, do que comprar vegetais, que são possivelmente colhidos com a consequência indireta e evitável de animais sofrerem e morrerem. Financiar o abate pecuário diretamente lembra empurrar o gordo, e comprar o milho parece puxar a alavanca. – Mas de qualquer forma você não é isento de estar provocando – mesmo que mais indiretamente que eu – a morte e sofrimento do tipo de animal que você acredita ter status para consideração moral. Como pode então achar que pessoas que fazem o que você não faz deveriam reconhecer que o que fazem é errado? – Seu argumento é que dois errados fazem um certo? Quando deixa de pagar impostos tenta se justificar dizendo que Al Capone também não pagava? Isso seria falácia, uma escapada à discussão em vez de uma resposta a ela. O que estou dizendo é outra coisa: que duvido que pessoas que comem carne vermelha (vamos deixar outros tipos de carne para outro debate) possam justificar este hábito como coisa correta, recomendável, justa ou louvável a se fazer. Se têm outros motivos para continuar fazendo, posso imaginar quais sejam e até imaginar explicações para eles, por isso mesmo não acho que repreensão e acusação sejam úteis (como não são úteis para o caso de consumo de obra intelectual e artística sem levar em conta os direitos de quem a criou). As pessoas fazem as mais variadas coisas pelos mais variados motivos. Mas só uma fração dessas coisas é correta, e só uma parte dessas coisas é justificável racionalmente. Deixar de comer carne vermelha é tanto correto quanto justificável. A atitude contrária não é – ainda mais quando consideramos como é feita hoje, e é claro que varia em mais e menos incorreta dependendo de como é feita, mas creio que ser incorreta é uma de suas propriedades fundamentais. – Extratos de pulmões de porcos são necessários para dar surfactantes para bebês recém-nascidos, sem os quais os bebês não conseguem respirar. Surfactantes sintéticos, até onde sei, não funcionam tão bem. Está dizendo que abater porcos para este fim é errado? – Não. Estou dizendo que abater porcos é geralmente errado. Não que é errado em absolutamente todas as circunstâncias possíveis e imagináveis – o que também vale para assassinatos e mentiras. É geralmente errado, e principalmente para fins de consumo dispensável e diversão. Porque porcos são seres capazes de sofrer e seres que têm interesse em viver. Abatê-los é interferir injustamente com este interesse e na maior parte dos casos causar-lhes dor desnecessária. Isso significa que, objetivamente falando, se ética diz respeito a evitar sofrimento e respeitar interesses, porcos devem necessariamente ser seres dignos de serem lembrados quando pensamos no que é a coisa certa a se fazer. Que eles próprios não tenham linguagem e capacidade complexa de julgamento não importa – isso significa que eles não podem ser agentes morais, mas não significa que não podem ser pacientes morais. Ou seja, não podem decidir eticamente, mas devem ser incluídos no grupo de seres que merecem a piedade de seres pensantes. – Se porcos merecem esse status moral, então, se uma fazenda estivesse sendo invadida por um tsunami e você tivesse um helicóptero, você daria igual prioridade para salvar as pessoas e os porcos? – Não. Porque eu acredito que porcos são dignos de serem pacientes morais, não significa que eu acredite que todos os pacientes morais têm a mesma prioridade. Pode-se tentar orientar as prioridades pelos interesses – pessoas têm mais interesses (e potencialidades, que talvez possam ser incluídas nos interesses) que porcos, portanto, em geral, têm mais prioridade. Mas uma pessoa em iminência de ralar um joelho com certeza tem menos prioridade que um porco em risco de morrer com uma facada no coração, para mim. Denovo, a prioridade em geral ser maior para uma espécie não significa que ela seja sempre maior em toda e qualquer circunstância concebível. E não é, na verdade, a espécie que define a prioridade, mas a natureza dos indivíduos em determinado problema moral, além de, como ilustrei, as possíveis consequências de uma ou outra decisão. Num prédio em chamas com uma única criança num quarto e trezentos mil embriões humanos em outro, eu com certeza daria prioridade total a salvar a criança, e minha prioridade de evitar que os embriões fritassem seria equivalente à prioridade que eu dou a evitar que minha salada apodreça na geladeira. Porque não parece ser o caso que embriões humanos mereçam o mesmo tratamento de indivíduos humanos. – Foda-se, vou comer minha picanha porque é gostosa e ponto final, ninguém pode me impedir. – Ninguém tentou tirar seu direito legal de fazê-lo. O que é imoral nem sempre tem que ser ilegal, e vice-versa. Pense nisso. E pense, se quiser é claro, se "porque é gostosa" é realmente um motivo que justifique alguma coisa. Hannibal Lecter diria o mesmo sobre cérebros de gente viva.

20th of August

Por que não sou niilista – uma resposta a André Díspore Cancian


o-grito Recentemente comentei uma entrevista do André Díspore Cancian, criador do site Ateus.net, em que ele expressava o niilismo. Desenvolverei um pouco mais aqui.
Se o niilismo (do latim nihil, nada) é meramente notar o fato de que não há um sentido para a vida, ao menos não um que seja propriedade fundamental da nossa existência ou do universo, então eu também sou niilista. Ou seja, é muito útil o niilismo como ceticismo voltado para a ética.
Porém há mais para o niilismo de alguns: não apenas notam este fato sobre a ausência de sentido na natureza que nos gerou, como também descartam de antemão, dogmaticamente, qualquer tentativa de construção de sentido como uma mera ingenuidade. E nesta segunda acepção eu não sou, em hipótese alguma, um niilista.
Há duas razões para eu não ser um niilista:
1) Vejo uma inconsistência interna, que é técnica, no niilismo:
É uma posição circular, pois parte de uma questão de fato, que é a falta de “sentido” na vida, para voltar a outra questão de fato, que é nossa necessidade de “sentido” na vida apesar de o tal sentido não existir.
A inconsistência aqui é ignorar um enorme campo, a ética, que é o campo das questões de direito.
“Sentido” é algo que pode ser construído pelo indivíduo e pela cultura, como sempre foi, porém sem o autoengano de atribuir sentido ao mundo natural que nos gerou mas ver o tal sentido como vemos uma obra de arte.
Ninguém espera que a beleza das obras de Rodin seja uma propriedade fundamental da natureza. Da mesma forma, não se deve esperar que sentido seja uma propriedade fundamental da vida.
Filósofos como Paul Kurtz e A. C. Grayling estão estre os que explicitam e valorizam a construção do sentido da vida da mesma forma que se valoriza a construção de valor estético em obras de arte.  
Como niilista, o André Cancian acha que a decisão ética diária que tomamos por continuar a viver é fruto apenas de instintos moldados pela seleção natural, e que a razão deve apenas não se demorar em tentar conversar com estes instintos, pois se tentar, ou seja, se focarmos nossa consciência no fato do absurdo da natureza (tal como denunciado por Camus e Nietzsche) cessaríamos nossa vontade de viver voluntariamente.
É um erro pensar assim, porque um indivíduo pode, como Bertrand Russell e Stephen Hawking relatam para si mesmos, construir um sentido para sua própria vida, consciente de que esta vida é finita e insignificante no contexto cósmico. É uma alegação comum que era esta a posição defendida por Nietzsche – que valores seriam construídos após a derrocada dos valores tradicionais. Mas não sou grande fã da obra de Nietzsche como filosofia, sou da posição de Russell de que Nietzsche é mais literatura que filosofia. A posição do niilista ignora também os tratados de pensadores como David Hume sobre a fragilidade da razão frente a paixões. A razão é escrava das paixões – é um instrumento preciso, como uma lâmina de diamante, porém frágil frente à força das paixões.
A razão e a âncora empírica são as mestras do conhecimento e da metafísica. Por outro lado, as paixões, ou seja, as emoções, incluída aqui a emoção empática, são as mestras das questões de direito, como indicam pesquisas científicas como as do neurocientista Jorge Moll.
A posição niilista é inconsistente ao limitar a legitimidade do pensamento ao escrutínio racional e/ou científico. Na verdade, razão e ciência são para epistemologia e metafísica (não respectivamente, mas de forma intercambiável). Ética existe não apenas como objeto de estudo destas outras faculdades, mas como todo um alicerce sustentador das nossas mentes: o alicerce das questões de direito –
– "devo fazer isso?"
– "isso é bom?"
– "isso é ruim?"
São questões com que nos deparamos todos os dias, a respeito das quais as respostas epistemológicas e metafísicas (referentes a questões de fato) são neutras.
Na entrevista no blog Amálgama, André Cancian faz questão de citar que as emoções (ou paixões), que ele chama de "instintos", tiveram origem através da seleção natural.
Esta prioridade inusitada na resposta do Cancian é exemplo da circularidade do niilismo: nada teria sentido porque as emoções vieram de um processo natural de sobrevivência diferencial entre replicadores que variam casualmente.
Frente ao fato de também a razão ter vindo do mesmíssimo processo, como Daniel Dennett argumenta brilhantemente em suas obras, por acaso isso torna a razão desimportante ou então faz dela um instrumento que só gera respostas falsas?
Esta pergunta retórica serve para exemplificar que nenhuma resposta a ela faz sentido ao menos que se separe, como fez Kant, as questões de fato das questões de direito.
É algo que niilistas como o André Cancian insistem em não fazer.
Na UnB, tive aulas com um filósofo admirável chamado Paulo Abrantes. Quando entrava na questão metafilosófica de explicar o que é filosofia ou não, ele, como a maioria dos filósofos, dava respostas provisórias e incertas. Uma dessas respostas me marcou bastante: filosofia é a arte de explicitar. Todo trabalho de tomar uma ideia cheia de conceitos tácitos, dissecá-la e explicitá-la melhor, seria um trabalho filosófico.
Quando certas formas de niilismo ignoram a importantíssima explicitação kantiana da separação entre questões de fato e questões de direito, estão voltando a um estado não filosófico de aferrar-se a posições nebulosas e tácitas.
Concluindo a primeira razão pela qual eu não sou niilista, posso então dizer que é porque o niilismo parece-me antifilosófico.
2) Não sou niilista, também, por ser humanista. Em outras palavras, o vácuo que o niilista gosta de lembrar é preenchido em mim pelo humanismo.
Aqui vou ser breve: por mais que eu tente explicar, racionalmente, razões pelas quais sou humanista, todas estas tentativas são meras sombras frente a sentimentos reais que me abatem.
O fato de existir o regime teocrático no Irã, e o fato de dezenas ou centenas de pessoas estarem na fila do apedrejamento, entre elas uma mulher chamada Sakineh Mohammadi Ashtiani, é algo que açula "meus instintos mais primitivos", parafraseando uma frase famosa no Congresso alguns anos atrás.
Sinto de verdade que é simplesmente errado enterrar uma mulher até o ombro e atirar pedras contra a cabeça dela até que ela morra.
Sinto que também é errado achar que "respeitar a cultura" do Irã é mais importante que preservar a vida desta mulher e de outros que estão na posição dela.
Porque culturas não são indivíduos como Sakineh, portanto culturas não contam com nem um pingo da minha empatia. Mas aqui são denovo minhas capacidades racionais tentando explicar minhas emoções.
Tendo isto em mente, convido qualquer niilista a pensar, agora, o que acha de dizer a esta mulher, quando ela estiver enterrada até os ombros, que nada do que ela está sentindo tem importância porque as emoções dela são instintos que vieram da evolução pela seleção natural.
Estou apelando para a emoção numa argumentação contra o niilismo? Claro. Eu construí o sentido da minha vida, aliás estou sempre construindo, com a noção de que minhas emoções – e as dos outros – são importantes sim, mesmo tendo elas nascido do absurdo da natureza. Na verdade, este batismo de sangue as valoriza. Mas falar das emoções, que são a base da ética, à luz de seu batismo de sangue é assunto para outro texto. Quem sabe usar o personagem Dexter Morgan como mote para falar disso? Não decidi ainda se será bom ou ruim.

23rd of November

Nietzsche segundo Russell e Heidegger