5th of June

Identidade de gênero e orientação sexual: militância versus evidência


O que diz a militância:
 
Identidade de gênero e orientação sexual são coisas completamente separadas. Identidade de gênero é como a pessoa se vê (se homem, mulher, ou nenhum dos dois), orientação sexual é por quem a pessoa se atrai. Dessa forma, identidade de gênero e orientação sexual variam independentemente.
 
O que dizem as evidências:
 
Os fatores que causam a orientação sexual e a identidade de gênero são intimamente relacionados. Se não são os mesmos, ao menos a intersecção entre os dois conjuntos de fatores causais é grande. De outra forma não se poderia explicar por que, através das culturas, a maioria (90% ou mais) das pessoas são heterossexuais e mais de 99% não sofre disforia de gênero nem é intersexo.
 
Disforia é a sensação de sofrimento psíquico por crise identitária de quem não se conforma ao gênero com que foi rotulado ao nascer. Nos casos mais severos, manifesta-se bem cedo em crianças e pode levar à automutilação.
 
Pessoa intersexo era conhecida antes pelo termo “hermafrodita”, um termo bonito, que vem dos deuses gregos Hermes e Afrodite, termo que o politicamente correto – sisudo e sem poética – condenou ao ostracismo. 1 em 2000 pessoas são intersexo, apresentando variados graus de ambiguidade de características sexuais primárias e secundárias.
 
Claramente identidade de gênero é relacionada à orientação sexual também porque uma parte substancial (quiçá a maioria) de pessoas homossexuais apresentam alguma não-conformidade de gênero na infância e adolescência (em outras palavras: muitos homens gays foram meninos que já usaram vestidos, sapatos e maquiagem da mãe – é um indicativo, não uma sentença). Além disso, a maioria, entre 50 e 88%, das crianças que manifestam disforia a resolvem com o tempo sem transição para outro gênero. Isso sugere que a transição só é terapêutica para uma minoria das crianças que manifestam disforia. A maioria, que não cresce trans, geralmente é gay. Novamente: identidade de gênero e orientação sexual são intimamente relacionadas.
 
Isso contradiz a insistência de que tudo o que é necessário para considerar uma criança “trans” é que ela manifeste disforia. Na verdade, a probabilidade maior é que não seja trans, mas gay. Também contradiz a noção de que basta uma criança dizer que é de outro gênero para aceitar que é mesmo. Não é transfóbico pensar que há uma probabilidade substancial de ela não ser: é o resultado mais provável. Isso, obviamente, não é desculpa para forçar a minoria que cresce para ser trans a não ser trans: estamos falando aqui do resultado mais terapêutico para seu desenvolvimento, e repito que para 12 a 50% dos casos o melhor curso de ação é a transição. Se você acha que uma pessoa trans sofre (e geralmente sofre, disforia é horrível), imagine então como sofre uma pessoa que fez transição, retirou mamas, tomou hormônios, porque ouviu que essa era a sua única opção, e depois se descobre não-trans e tem que viver com resultados permanentes de uma decisão tomada sem clareza suficiente sobre quem ela é. É a minoria de transicionados, mas existem (a idéia não é proteger minorias?).
 
Disforia está correlacionada com outros trantornos psiquiátricos. Não se pode atribuir todos os problemas psíquicos das pessoas trans à resistência da sociedade à sua transição. Sim, há muita transfobia e sofrimento causado por ela. Mas há mais coisas. A narrativa de “nasceu no corpo errado” não se aplica a todas as pessoas trans.
 
Finalmente, para botar um último prego no caixão da idéia de que identidade de gênero e orientação sexual são totalmente distintas e não relacionadas, vou falar de um tipo de transexualidade que essencialmente é uma orientação sexual. Trata-se da autoginecofilia. Autoginecófilas são mulheres trans (nascidas com sexo masculino) que têm atração sexual por si mesmas como mulheres. O conceito é um pouco difícil de entender quando se ouve falar nele pela primeira vez, mas existe e já foi descrito pelo cientista do sexo Ray Blanchard em detalhes. As autoginecófilas, como as outras trans (estas mais próximas de “nascidas no corpo errado”), podem fazer a transição hormonal e genital como terapia. Não é um fetiche, mas uma orientação-sexual-identidade-de-gênero que é parte fundamental de quem elas são. Alice Dreger, estudiosa da intersexualidade e de conflitos entre pesquisadores e ativistas, descreve o caso de uma mulher trans autoginecófila que chegou a raspar cirurgicamente o osso acima da sobrancelha, e conta que teve uma sensação de êxtase quando, depois da cirurgia, nos banhos o xampu passou a escorrer dos cabelos e chegar aos olhos, irritando-os. Porque tomar banho com um “guarda-chuva natural” acima da sobrancelha formado por esse osso seria coisa de homem. Alice, que é mulher nascida com vagina, diz que em toda a sua vida como mulher nunca tinha pensado nisso. Conto a história não para apontá-la como bizarra, mas para apontar o quão profunda é a identidade feminina para uma trans autoginecófila, tanto quanto para outras trans. (Outra evidência de que há ao menos esses dois tipos de mulheres trans é que as autoginecófilas tendem a gostar de mulheres e as outras tendem a gostar de homens.)
 
Portanto, enquanto ainda há muita ignorância sobre as origens tanto da orientação sexual quanto da identidade de gênero, está claro o suficiente que os dois conceitos são separados apenas para facilitar a compreensão de certas questões (ou por dogmatismo de ativistas), mas o mundo em si não os separa tão bem assim. Se engana quem pensa que não têm nada a ver com biologia, ou quem pensa que têm a ver apenas com biologia – os mais astutos devem ter percebido que a mulher trans de uma cultura pode ser o homem gay de outra.
 
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Referências
 
Sobre a provável maioria das crianças disfóricas não transicionar, vide Associação Psicológica Americana. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf
 
Sobre a proporção de intersexos na população, sobre histórias cabeludas de ativistas atrapalhando o avanço da ciência nessas questões, vide Alice Dreger: Galileo’s Middle Finger. https://g.co/kgs/oiUoOU
 
Sobre mulheres nascidas com pênis se assemelharem no cérebro a mulheres nascidas com vagina, e sobre homossexuais manifestarem não-conformidade de gênero, vide Bao & Swaab 2011. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21334362
 
Sobre disforia estar correlacionada a outros transtornos, ver este estudo escandinavo que relatou que ela é geralmente precedida por outros transtornos e que é muito comum o autismo: https://capmh.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13034-015-0042-y
1st of November

Sexo e Gênero


Assumir que há uma separação definitiva entre sexo biológico e gênero é acreditar erroneamente que uma coisa é 100% genes e outra é 100% ambiente cultural.
Eu não vejo muito sentido na maior parte das afirmações de influência cultural sobre o sexo biológico. Mas há um sentido em que elas poderiam ter um papel: o sentido da pressão seletiva da cultura ao longo dos últimos milênios sobre as bases biológicas do sexo. Essa influência cultural já foi convincentemente estabelecida para coisas como digestão da lactose e do amido – a frequência de alelos associados a isso nas populações humanas dependende da história milenar da cultura da pecuária e da agricultura / coletagem seletiva de raízes e tubérculos. Seria no entanto muito especulativo no momento dizer que a cultura influenciou nas características primárias e secundárias apresentadas por diferentes populações humanas. Nós ainda não sabemos se, por exemplo, o quão peludos os homens são em cada população (uma característica sexual secundária) é resultado de processos casuais (como deriva genética) ou de seleções, incluída entre elas a seleção cultural. Tudo o que estou dizendo portanto é que conforme nossos conhecimentos de evolução gene-cultura no momento, a possibilidade da cultura ter influenciado parte do que compõe o sexo biológico é real. O mesmo que eu disse sobre pelos masculinos pode ser dito sobre tamanho médio de seios, tamanho de pés, formato do rosto, altura, tamanho do pênis, pelos femininos. Há pesquisa sugerindo que nos últimos 50 anos as mulheres americanas foram selecionadas em direção a corpos de menor estatura e mais robustos, o que poderia ser uma preferência cultural. Dado que a pesquisa da Suzana Herculano-Houzel mostra que sem a cultura do fogo nosso cérebro nunca teria o volume e a demanda energética que tem hoje, há bons motivos para desconfiar que há cultura inscrita no sexo biológico, já que a influência da cultura vai tão fundo na natureza humana.
Portanto, não estão totalmente errados aqueles que vêem cultura no sexo biológico. Mas o problema é que exageram o papel da cultura e usam tradições intelectuais anticiência, muitas vezes.
E gênero? Podemos concordar que enquanto sexo está “entre as pernas” (ignorando as características secundárias), gênero está “entre as orelhas”. Aqui novamente o problema é exagerar o papel da cultura ou o papel da biologia. Quem exagera o papel da biologia (na verdade de uma biologia do senso comum distante da pesquisa de ponta) acha que não é possível existir homens nascidos com vaginas e mulheres nascidas com pênis, e isso está errado. Pesquisas iniciais com núcleos do hipotálamo sugerem que isso é não apenas possível como provável dependendo da base genética do feto e de seu ambiente hormonal dentro do útero e nos primeiros meses fora dele. Apesar de tentativas tacanhas de negar as pesquisas, há muita evidência acumulada de diferenças neurobiológicas e comportamentais entre homens e mulheres. Bebês recém-nascidos, cuja mente não se desenvolveu o suficiente para absorver informações culturais como a língua, já apresentam diferenças. O próximo passo é ver se os bebês que apresentam comportamento atípico para seu sexo nessa fase crescem mais tarde com maior probabilidade de serem gays ou transsexuais. Eu apostaria minhas fichas que sim.
Como eu disse em outras oportunidades, somos seres culturalmente moldados em nossa biologia e biologicamente moldados para a cultura. Alegar sem critério nenhum que uma dada característica é “construção social”, ignorando esse fato, é retroceder o conhecimento, não fazê-lo avançar.
4th of March

Sobre gêneros e deterministas culturais


A nova estratégia de deterministas culturais é “fearmongering” – incitação ao medo. Para expulsar a biologia da compreensão da dimensão biológica de gênero e orientação sexual (que é inegável), agora a moda para tentar censurar a curiosidade sobre isso é alegar que será apenas outra fonte de segregação. Pode até ser, é possível. Mas ser possível não é sinônimo de ser provável, e ser submetido a mau uso não significa ser falso.
Ferramentas boas como a ciência são eficientes tanto para o mal (aumento de sofrimento) quanto para o bem (diminuição de sofrimento, libertação de oprimidos). A pílula foi, afinal de contas, um instrumento poderoso do feminismo – e se não a pílula, os conhecimentos das ciências biológicas sobre as intimidades hormonais do sexo biológico feminino. Mas esses conhecimentos foram, também, usados para o mal. Quem julgará que um conhecimento deve ser silenciado, e não expandido, para que não cause mal? Pode ser verdade para armas nucleares, talvez, mas é muito mais nuançado para coisas como biologia humana.
Por décadas, a biologia evolutiva foi demonizada com o uso do “darwinismo social”, uma invenção de Herbert Spencer, não de Darwin – que era abolicionista e sem dúvidas humanista. Grandes divulgadores da biologia evolutiva como Stephen Jay Gould investiram enormes esforços para desmistificar essa demonização, infelizmente generalizada em certos círculos ideológicos da academia de humanidades. Felizmente, as coisas mudaram bastante, e quase não se vê mais defensores do mito da Tabula Rasa.
Quando não se tem rigor intelectual, qualquer ideia bem engendrada ou apenas defendida com retórica ofuscante já se torna verdade absoluta para alguns. Felizmente, ciências empíricas têm mecanismos de correção – e outras investigações também, no entanto as áreas acadêmicas variam em rigor entre si, pelo seu processo histórico, e também pela variação de atividades em universidades diferentes – tanto em ciência quanto em humanidades.
A ideia de que o gênero é uma pura construção social, por exemplo. Papel de gênero não é tudo por trás de gênero. Evidentemente, de Luís XIV para Barack Obama, papel de gênero masculino, ao menos quanto a estética, mudou enormemente e isso salta aos olhos. Mas por que motivo a maioria das sociedades limitam suas categorias de gênero a poucas, e na maioria a apenas duas – homem e mulher? Porque há mais para essas categorias que simples construção social e papéis impostos. Não é plausível supor que sociedades ameríndias e da oceania, separadas culturalmente por mais de 50 milênios, tenham construído números similares de gênero por razões puramente culturais, mesmo que papéis de gênero sejam sem dúvida marcadores dessa distância cultural.
Gênero é invenção, no entanto a maioria das sociedades, que é patriarcal, sabe identificar muito bem que gênero oprimir: as mulheres, em todas as suas diferentes manifestações culturais – porém compartilhando algo em comum que é tanto sócio-cultural quanto biológico: o gênero feminino.
Se a cultura é onipotente sobre invenções de gêneros, onde estão sociedades com mais de 30 gêneros? Se castas indianas contam como gêneros, isso, creio, é no mínimo surpreendente, dado que dentro de cada uma dessas castas, as categorias homem/mulher (entre outras) existem e sabemos bem quem leva a pior.
Quando sua teoria sobre gênero é permissiva o bastante para com determinismo cultural, fica difícil compreender como é que mulheres simplesmente não optaram por ser homens para não sofrer mais opressão em algum lugar, em alguma época (e, como sou tolinho, é claro que algumas tiveram que fazer isso – ou melhor, fingir, e exemplos históricos não faltam – nosso caso emblemático é Maria Quitéria). Ao longo de toda a história, mulheres trans e pessoas que são algo diferente de mulher ou homem sofreram, sim, com os papéis impostos sobre elas. Sofreram porque há uma constância na identidade – a esmagadora maiora das pessoas é parte de uma mesma categoria na maior parte da vida – seja esta categoria uma categoria minoritária fora do binário homem-mulher. E, num grau menor, podemos incluir homens que sofreram por não serem vistos como “homens o bastante”, incluindo gays.
Como se diz comumente, somos seres biopsicossociais (bio-psico-sociais, como queira), mas em alguns círculos, psico sim, social também, mas se falar em bio, as comportas do inferno se abrem.

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(Publicado originalmente no Facebook em setembro de 2013.)

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Bônus: evidências da possível participação de recursos biológicos na identidade de gênero.

Existem mulheres que nascem com pênis e homens que nascem com vagina. Eis evidência cerebral de que mulheres trans e mulheres cis compartilham um mesmo gênero, e possivelmente homens trans e homens cis também, apesar de haver um único indivíduo testado no grupo dos homens trans neste estudo.
Os pontos representam os indivíduos testados. As alturas das barras coloridas são as médias. As linhas verticais no meio dessas barras são medidas de erro, e indicam que a diferença entre homens cis e mulheres tanto trans quanto cis é significativa, enquanto mulheres cis e mulheres trans não diferem entre si nesta região cerebral. Os tamanhos amostrais deste estudo são bons, porém mais estudos se fazem necessários para confirmar este achado.
Referências:
Bao, A.-M., and Swaab, D.F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Front Neuroendocrinol 32, 214–226.
Garcia-Falgueras, A., and Swaab, D.F. (2008). A sex difference in the hypothalamic uncinate nucleus: relationship to gender identity. Brain 131, 3132–3146.
23rd of July

Resposta à cartilha obscurantista da Igreja Católica para a Jornada Mundial da Juventude


Entidades ligadas ao Vaticano distribuíram milhares de cópias de um “Manual de Bioética para Jovens” na ocasião da visita do Papa Francisco ao Brasil. Achei curioso o nome, dado que bioética é uma área séria de pesquisa filosófica, completamente secular. A seguir, comento alguns trechos do manual selecionados pela Folha de S. Paulo.

1. “Sejamos realistas: nascemos menino ou menina. A procriação necessita de pai e mãe. A criança precisa de pai e mãe para se desenvolver”.

A Universidade de Cambridge, Reino Unido, já divulgou estudo mostrando que não há qualquer diferença em competência sócio-psicológica entre crianças criadas por casais tradicionais e crianças criadas por casais do mesmo sexo. A realidade é esta, e a “realidade” do “realismo” da Igreja é uma invenção ideológica sem qualquer âncora em fatos. Fonte: http://www.cam.ac.uk/research/news/ive-got-two-dads-and-they-adopted-me

2. Um menino pelado olha para o próprio pênis e questiona: “Não sou homem? Eu? Então o que é isto?”.

Existem meninas que nascem com pênis. Isso é um fato reconhecido por publicações médicas recentes. Vamos falar um pouco da realidade do desenvolvimento embrionário. Até os dois primeiros meses de gestação, desenvolve-se a genitália. Mas só da metade da gestação adiante desenvolvem-se os circuitos cerebrais associados à identidade de gênero. O desenvolvimento da genitália de qualquer organismo com genoma humano, independentemente de haver cromossomo Y ou não, seguirá para o surgimento da vagina na ausência de hormônios masculinizantes.

Existem pessoas XY que se desenvolvem com insensibilidade a androgênios – são mulheres com vagina, em sua maioria heterossexuais. Isso fica difícil de conciliar com o dogma de que Deus criou primeiro o homem e depois modificou-o em mulher (como acreditava Tomás de Aquino, notório misógino que defendia que mulheres eram formas degeneradas de homem), quando nos detalhes genéticos do desenvolvimento embrionário são estruturas mais tipicamente femininas que servem como substrato para o desenvolvimento de estruturas mais tipicamente masculinas, quando hormônios e fatores de transcrição acionam cascatas bioquímicas de desenvolvimento.

Como existe uma independência temporal entre desenvolvimento do sexo biológico genital e desenvolvimento de estruturas associadas a diferentes gêneros no cérebro, é natural, possível, e sempre acontecerá numa minoria da humanidade que o sexo biológico se desenvolva de uma forma e o “sexo cerebral” se desenvolva de outra, de forma que a também importante contribuição do ambiente cultural atuará sobre cérebros já mais propensos a aceitar uma categoria ou outra. Casos de pessoas transgênero na pré-infância não são desconhecidos, inclusive em famílias cristãs, que só aumentam o sofrimento da família e de seus filhos transexuais ao tentar mudar a identidade de gênero que começou a se formar já no útero.

Fonte: Ai-Min Bao (Ministério da Saúde da China) & Dick F Swaab ( Instituto Holandês de Neurociência e ao Instituto da Real Academia Holandesa de Artes e Ciências). 2011. Sexual Differentiation of the Human Brain: Relation to Gender Identity, Sexual Orientation and Neuropsychiatric Disorders. Frontiers in Neuroendocrinology 32(2): 214–226.

A não-aceitação preconceituosa de pessoas transgênero (ou transexuais), diante dos fatos acima, é nada mais nada menos que um preconceito, pois, ainda que alguém acredite que seja doentio ou imoral ser trans (posição que carece de argumentos), não pode culpar trans por sê-lo e muito menos esperar que consigam mudar sua identidade sexual ou de gênero. A Igreja Católica Apostólica Romana é transfóbica em sua cartilha.

O mesmo pode ser dito quanto à orientação sexual e a condição de qualquer pessoa como heterossexual, bissexual ou homossexual. Quem apresenta a orientação sexual majoritária e aprovada pela Igreja precisa no mínimo examinar-se honestamente e estabelecer quando foi que escolheu se sentir atraído por um sexo/gênero diferente do seu. E a resposta honesta é que não escolheu, e portanto não tem qualquer elemento evidencial para alegar, como faz o pastor fundamentalista Silas Malafaia, que homossexuais escolhem ser homossexuais. Poucos meses atrás a Sociedade Brasileira de Genética desmentiu essas alegações do pastor em nota oficial ( http://sbg.org.br/2013/03/manifesto-da-sociedade-brasileira-de-genetica-sobre-bases-geneticas-da-orientacao-sexual/ ).

Felizmente, os católicos que são contra os direitos de adoção dos casais do mesmo sexo, ou contra seu casamento civil sob os auspícios de um país laico, já são minoria, como publicado pela Folha de S. Paulo. Isso atesta que a Santa Sé continua mais conservadora que seus próprios fiéis, por isso produz cartilhas como esta tentando trazê-los para posições ultrapassadas e que só aumentam o sofrimento no mundo.

3. “Recusar a adoção aos homossexuais não representaria homofobia? Não, porque a questão é outra. Ter um filho não é um direito! O filho não é um bem de consumo, que viria ao mundo em função das necessidades ou dos desejos dos pais. Embora o fato de alguém não poder ter filhos seja fonte de sofrimento, essa reivindicação dos lobbies homossexuais não é legítima”.”

Sim, recusar um direito dos casais do mesmo sexo é um preconceito, e o nome é homofobia. Sim, a Igreja está defendendo uma posição homofóbica, e trocar o nome do preconceito ou tentar se distanciar do nome que ele tem não apaga o fato de que o Vaticano, representando pela CNBB, mandou um advogado ao STF, no julgamento que reconheceu a união estável homoafetiva, para tentar barrar os direitos desses casais e impedi-los de serem reconhecidos como família. Tudo isso numa interferência explícita e inconveniente numa estrutura de poder secular que se declara como tal, laica, a qual a Igreja está usando neste momento para pagar com dinheiro público brasileiro por uma visita que de “diplomática” e “visita de chefe de Estado” não tem absolutamente nada. O nome que se dá a subverter a laicidade Constitucional do Brasil para proveito próprio, mantendo privilégios e falta de igualdade entre as crenças dos contribuintes brasileiros, é tráfico de influência, e os governantes que permitiram isso são igualmente culpados.

E sim, ter um filho é um direito, e não, como a Igreja acredita, um dever. Crença que ela faz questão de impor nos úteros de todas as mulheres brasileiras, que são impedidas de decidir sobre suas próprias gestações por causa de outros tráficos de influência religiosa mais antigos que criminalizaram o aborto. Isso porque a própria história da Igreja mostra um notável dissenso sobre a questão, com alguns teólogos permitindo o aborto até certa fase do desenvolvimento, e outros decidindo dogmaticamente e magicamente que a união dos gametas é a origem do indivíduo. O fato da Bíblia ter sido escrita num período histórico em que ninguém sabia o que era ovócito nem espermatozoide não impede o clero de se intrometer impertinentemente nos direitos civis brasileiros, de querer palestrar sobre assuntos que são da competência de médicos e profissionais das ciências biológicas e ciências humanas. E por falar em médicos, o Conselho Federal de Medicina já deu a correta opinião de que o aborto deve ser permitido até a décima-segunda semana (período seguro anterior ao desenvolvimento do cérebro, o mesmo órgão cuja morte dá o direito às famílias para desligar os aparelhos e doar os órgãos de um indivíduo), pela simples razão de que a criminalização ideologicamente patrocinada pela Igreja Católica é assassina e faz diversas vítimas anualmente neste país. Vítimas essas que só tiveram o azar de ter se desenvolvido com a identidade de gênero e sexo biológico femininos, que a Igreja rejeita de seu quadro eclesiástico e com os quais tem uma longa história de desprezo, apesar da simbologia de Maria.

Já está ficando para o passado os tempos em que a Igreja Católica percolava pela cultura e pelo poder brasileiros, infelizmente usando-os nem sempre de forma sábia. Os católicos são em sua maioria mais progressistas e respeitadores dos direitos de seus concidadãos que a instituição bilionária à qual se afiliam e com a qual frequentemente discordam, bastando usar o exemplo do uso da camisinha para atestar isso.

Por falar em camisinha, foi notório que a primeira desistência de papado em quase 600 anos aconteceu neste momento, e foi feita pelo mesmo ex-papa que passou por cima do conhecimento científico alegando que a camisinha pioraria a incidência da AIDS na África. Temos nesta cartilha aos jovens brasileiros mais um exemplo de palpite eclesiástico errado no território da ciência. Além de termos, é claro, justificativas as mais absurdas para sorver mais de 100 milhões do erário público para um líder religioso que não representa todas as crenças no Brasil.

O que me pergunto é onde foi parar a ideia de dar “a César o que é de César”. Temos diversos césares se escondendo com batinas.

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Eli Vieira
biólogo geneticista,
ex-presidente da LiHS,
feliz em compartilhar um país com quem acredita em poder público laico em que todos são bem-vindos e ninguém é privilegiado.