“Dividir os seres humanos em raças distintas, com base num erro científico, pois poucos países possuem raças verdadeiramente puras, só pode levar a guerras de extermínio, a guerras ‘zoológicas’, se me permitem, análogas àquelas encontradas entre espécies diversas de roedores ou mamíferos carnívoros. Isso seria o fim daquele fértil amálgama que chamamos de humanidade, que é composto de muitos elementos, todos eles necessários. Vocês levantaram uma nova bandeira política no mundo para substituir o liberalismo; essa sua política etnológica e arqueológica vai lhes matar.”*

Esta citação visionária é de Ernest Renan (1823–1892). Antecede as grandes guerras e faz uma previsão acertada.

Antes, Renan era favorável às ideias nacionalistas de “sangue e terra” que surgiram como reação aos universalismos dos iluministas, especialmente os mentores da Revolução Francesa. Quando veio a guerra franco-prussiana e a anexação da Alsácia-Lorena justificada por intelectuais dos dois países como justa por causa da identidade cultural germânica dos alsacianos, mesmo à revelia deles próprios, Renan retornou aos valores de cidadania iluministas que enfatizavam a vontade e o contrato implícito de indivíduos autônomos em vez de uma subserviência deles a forças históricas associadas à cultura e à língua. Ainda hoje no meio intelectual há quem enfrente essas ideias e ponha em dúvida o indivíduo racional abstrato como ideia de cidadão, enfatizando interesses maiores, supostas forças históricas e culturais, por exemplo quem ataca a ideia de direitos humanos com relativismo cultural. A pureza racial foi substituída pela pureza cultural. Estou com Renan nessa e considero essas ideias perigosas.

* Apud Alain Finkielkraut. The Defeat of the Mind. Columbia University Press. 1995.