6th of April

Por que pedofilia é doença e homossexualidade não é


A humanidade é um fenômeno natural. Como uma cachoeira ou uma árvore também são. E, como elas, é intrigante e suscita curiosidade sobre seu funcionamento, suas partes, sua variação, seu comportamento ao longo do tempo. Mas, diferente de como agimos ao pensar sobre uma cachoeira ou uma árvore, quando elaboramos ideias para responder às nossas curiosidades sobre a humanidade precisamos tratar de certas consequências morais de carregar essas ideias, pois nós podemos sofrer e temos interesses sobre nossas próprias vidas e as vidas de nossos semelhantes, o que não é o caso de cachoeiras e árvores.
A humanidade tem uma origem, alguns futuros previsíveis (outros imprevisíveis), pode ser descrita com tendências centrais e uma variação em torno dessas tendências centrais. Para entender completamente um fenômeno natural como a humanidade, compreender tendências centrais é importante, mas só teremos uma boa imagem do que ela é, e também um julgamento do que é positivo a seu respeito, considerando a variação. Como o assunto aqui é homossexualidade e pedofilia, falemos da variação.
Na variação do que é humano, há a parte normal e a parte patológica (ou seja, relacionada a doenças). Há ambiguidades nos dois lados desta distinção. Primeiro, “normal” pode ser “semelhante às tendências centrais observadas” e “comum”, ou também pode ser sinônimo de “aceitável” e “inofensivo”. Homossexualidade é incomum (estimativas diferentes giram em torno de menos de 10% da população), aceitável e inofensiva; pedofilia também é incomum (estimada em menos de 5% dos homens, e dez vezes menos entre mulheres) mas inaceitável e ofensiva.
Outra parte da variação humana é patológica. A homossexualidade já foi considerada parte dessa variação patológica, e a pedofilia atualmente é. Aqui, é necessário analisar o que consideramos doença. Ser inaceitável e ofensivo é algo que faz da pedofilia uma doença? Não necessariamente: sonegar impostos é inaceitável e ofensivo, mas não é uma doença. Há coisas que são claramente doenças: portar um gene que no começo da idade adulta degenerará seu cérebro até a completa incapacidade e a morte é com toda certeza uma doença (coreia de Huntington). Para afirmar que certa parte da variação humana é doença, outras considerações são necessárias: considerações sobre sofrimento e interesses. 
A pedofilia é mais rara do que se imagina, pois muitos abusadores de crianças não se sentem de fato atraídos por crianças e abusam por outros motivos, assim como muitos estupradores estupram mais para expressar desprezo do que para dar vazão a uma libido incontrolável. Ou seja: quem comete abuso sexual contra crianças não é necessariamente pedófilo. E essa parte dos abusadores não deve ser vista como doente, mas como na categoria dos sonegadores de impostos: criminosos. A outra parte dos abusadores sexuais de crianças que é de fato pedófila é, além de criminosa, doente. Por que doente? Porque sua condição, atração sexual por crianças, leva inevitavelmente a certa classe de consequências similares às consequências de portar o alelo da doença de Huntington. 
Como a pedofilia leva (1) ao sofrimento psicológico de alguns pedófilos que sabem que sexo com crianças é errado, por terem de resistir a um impulso interno a cometer abusos; (2) ao sofrimento das crianças vítimas de outros pedófilos que cedem a seus impulsos sexuais se tornando abusadores; e/ou (3) a uma desconsideração da incapacidade de consentir de uma criança; então faz todo sentido que seja classificada como doença: as fontes de sofrimento são todas consequências quase inevitáveis da pedofilia.
Portadores de um alelo de degeneração cerebral como o citado sabem que têm cerca de 20 anos para viver. Boa parte de seu sofrimento é de natureza psicológica, como é o sofrimento de pedófilos e suas vítimas. Enquanto uma doença interfere no interesse de um jovem adulto de ter uma vida plena e mais longa, a outra interfere no interesse de uma criança de não ser abusada sexualmente e ter um desenvolvimento afetivo livre das consequências do abuso.
Sentir-se atraído por pessoas adultas do mesmo sexo e agir de acordo com isso, por sua vez, nada tem das consequências similares a essas doenças, não ao menos na origem dessas consequências. Se uma pessoa homossexual sofre por ser homossexual, não é de fato “por ser homossexual” mas por entender como ela é vista por outras pessoas e temer não ser aceita por elas. É mais semelhante ao sofrimento de pessoas que se acham feias ou são vistas como tal, que temem uma vida solitária, desaprovação social, etc. Se ser homossexual fosse doença, ser feio também precisaria ser, se formos julgar pelas consequências objetivas das duas coisas. Quem ama o feio, bonito lhe parece e quem ama o mesmo gênero, normal lhe parece.
Adultos poderem fazer o que bem entendem, consensualmente, na sua intimidade é uma marca da liberdade. Quase toda liberdade que deve ser protegida é um interesse que incomoda a outrem: o interesse de um país em se manter territorialmente íntegro incomoda o interesse de países expansionistas. O interesse das pessoas negras em serem tratadas com igualdade incomoda os interesses dos racistas explícitos. E o interesse dos homossexuais em viver sua afetividade incomoda aos homofóbicos. Os sentimentos associados à atração sexual mútua entre adultos são louvados na nossa cultura por razões óbvias: nos emancipam, nos tornam pessoas melhores, nos aliviam, nos distraem frente aos problemas, tornam a existência algo mais leve – e não há razão convincente para negar isso a pessoas homossexuais. Portanto, a homossexualidade não apenas não faz sentido sob a classificação de doença, como vivê-la é uma verdadeira cura para quem é gay: cura de sofrimentos.
É compreensível que, por homossexualidade e pedofilia serem incomuns, algumas pessoas pensem que ambas são repugnantes. Porém, como pretendi defender, algumas de nossas reações emocionais às variedades raras da humanidade têm âncora em argumentos, enquanto outras não têm. O nojo da pedofilia tem amplo apoio racional, mas a aversão à homossexualidade não tem, assim como a aversão a pessoas anãs, albinas, muito altas, gagas, disléxicas, com sardas, canhotas etc.
Quando temos interesse em aprender mais sobre a humanidade, nossos gostos sobre as raridades têm oportunidade de serem moldados pelos nossos conhecimentos. Como os gostos dos apreciadores de cachoeiras raras e árvores raras, que ao saber mais sobre cachoeiras e árvores têm mais interesse – e argumentos – para defendê-las, recomendá-las e estarem precavidos diante daquelas que forem uma ameaça.
7th of June

Curiosidade


Para quem observar de longe, meu trabalho parece chato: lá estou, em quantidades de horas variáveis do meu dia, às vezes zero, às vezes 14 horas, mexendo com códigos num computador, lendo textos soporíferos cheios de jargão. Seria meio difícil para um observador achar o que tem de biologia em ficar de olho vidrado no computador ou anotando coisas. E, sinceramente, às vezes é chato sim, e minha quantidade de trabalho diário depende bastante do meu humor: ou seja, se um prazo tá começando a apertar, o desespero vai me transformar em workaholic.
Mas o pequeno inconveniente de fazer coisas que eu já fiz, como editar planilhas de 200 mil linhas, contar cabelinho de mosca, e tirar números de centenas de artigos que se esforçam em escondê-los no texto, é eclipsado por uma luz, meio de soslaio, que só se vê se focar a atenção.
Não é um canhão de luz gigantesco, não. É uma frestinha, só. Que deixa passar um brilho tremeluzente, meio vago, não tão brilhante que você não consiga ignorar, nem tão penumbroso que não possa te manter acordado à noite. Deram o nome de “curiosidade”, mas acho que o nome não faz jus. Curiosidade soa como uma coisinha boba, banal como, sei lá, usar crocs. Essa coisa não é nada disso. É meio ambígua, te chama com a promessa de um senso de propósito. “Deixa eu ver mais!”, você grita. “Só com esforço”, ela parece responder.
Trabalho com bactérias que infectam insetos, basicamente. Bactérias capazes tanto de matar quanto de dar vida, como uma espécie de deus Shiva infinitesimal. Às vezes parecem mais deuses gregos, submetendo os bichos aos seus caprichos: “que tal infectar uma espécie inteira de vespas, fazer com que se reproduzam sem necessidade de fecundação, ou que precisem estar infectadas com a gente para poderem se desenvolver como fêmeas?”, propõem, como comediantes decidindo o próximo esquete. “Que tal matar os machos enquanto são embriões?”, “Que tal só permitir que o sexo gere prole se os dois estiverem infectados?”, conspiram. Eu ouço, olho pela fresta. “Presta atenção naquilo ali”, me dizem os colegas, que já estavam observando antes de eu chegar, e eu vejo a bactéria indo de zero a 98% de prevalência na população de hemípteros em apenas 6 anos. Certamente uma doença virulenta? Não, as fêmeas infectadas têm mais filhos, vivem mais, crescem mais depressa e até suportam melhor o calor.
As conspiradoras unicelulares guardam a chave de como inimizade pode virar amizade. Parasitas virando mutualistas. Quando não parasitas se fingindo de mutualistas para barrar a entrada de outros parasitas. Tudo isso numa dança de milhões de anos num dos grupos mais diversos do planeta, e essas bactérias podem ter sido as responsáveis pela nascença de um grande número dessas espécies.
Mas não é só sobre bactérias e insetos, é sobre interações de agentes físicos complexos. Saber um pouco disso pode significar que você sabe algo sobre o fenômeno da vida, em qualquer lugar que ele acontecer, qualquer que seja sua natureza mais íntima. A fresta de luz é ambígua, porque ela te encanta com um quase nada, e não revela o todo que esse quase nada indica. A curiosidade – vá lá, usemos o nome tolo – também é meio parasítica, pois inflige custos, mas também é mutualística, concedendo pequenas vantagens. Chega um momento que você percebe que já não vive sem. Como um afídio, que não vive sem Buchnera, mas para isso renunciou a uma parte enorme de suas defesas imunológicas. Era só um passatempo no começo, agora pode bem ser uma razão pela qual vale a pena viver. Despido de um pouco da ingenuidade inicial, você percebe que pela fresta não vão passar todos os segredos, e que mesmo se passassem, não vão caber todos na sua cabeça. O parasita na história pode bem ser você, tentando sugar os humores de um enorme hospedeiro misterioso por uma fresta que na verdade é uma ferida, causada por você. Talvez só o velho hábito de ter tanta gana de querer saber como funciona que disseca, mata, e destrói o que queria entender.
Mas vale a pena tentar de novo, você se convence, e se senta lá, olhando para a fresta, um pouco perplexo, talvez menos perplexo do que originalmente, mas com uma gratidão imensa de ter tido a sorte de ver mais. E por mais que você consiga ignorar aquela luz fugidia e esquecer que ela existe de vez em quando, sempre que lhe vem novamente à mente é instantâneo sentir o que ela te deu e te acompanhará para a cova: uma imensa saudade, parafraseando o Russo, de tudo o que eu ainda não vi.