24th of March

Resumidíssimo: por que gênero não é construção social Explicado em menos de 2600 caracteres, publicado originalmente no jornal O Tempo, 24 de março de 2017.


No livro “The Social Construction of What?”, Ian Hacking lista mais de 50 coisas que já se alegou que são construções sociais: emoções, sexualidade, doença, quarks etc., até fatos, realidade e conhecimento. É moda alegá-lo sem provas. Algo construído não estava ali para ser descoberto, e socialmente construído é algo que foi feito por uma sociedade e não por qualquer outra coisa. Alega-se que gêneros são também construídos socialmente. Esta é uma alegação determinista cultural sobre o gênero, uma inversão de determinismos biológicos igualmente equivocados, como o cromossômico. Já no berço, antes de aprender qualquer cultura, meninas já diferem de meninos no tempo em que olham para móbiles ou faces.

Se gênero fosse construção social, sob o igualitarismo homens e mulheres se aproximariam em escolhas de carreira. Ocorre o oposto: quanto mais igualitárias as sociedades, maior a diferença na escolha de carreira entre gêneros. A preferência masculina por carrinhos e feminina por bonecas vai além da espécie humana, macacos também a manifestam. Não parece ser o caso com preferência por azul ou rosa, que depende da cultura.

A maior descoberta da genética do comportamento é que nenhum comportamento é destituído de biologia. Outra é que nenhum comportamento é livre de ambiente. A dicotomia “natureza vs. cultura” é obsoleta, temos “natureza e cultura”. Somos culturalmente moldados na nossa natureza: sem a cultura do fogo, a savana em que evoluímos não teria energia suficiente para suprir o cérebro. Somos também biologicamente propensos à cultura: somente nossos filhotes ensinam já no início da infância. O gênero é feito de um cerne natural fruto da evolução ao qual são adicionados acessórios que são construções sociais. Gênero é o sexo que está entre as orelhas.

Contraste o gênero com uma categoria que é construída: a casta indiana. As castas começaram com uma invasão, e chegaram a milhares em poucos milênios. Não é o caso do gênero: não há cultura em que o número de gêneros tenha sequer chegado a dez, mesmo com gêneros precedendo castas. O que temos são culturas com categorias como “homem”, “mulher” e “fa’afafine” (em Samoa). O número de gêneros tem um limite inferior ao das castas, dado pela biologia. Há dimorfismo anatômico e comportamental, orientações sexuais, características que culturas lêem como essenciais às suas categorias de gênero.

Quem tem medo desses fatos confunde o projeto ético da igualdade de direitos e oportunidades com a engenharia social de forçar paridades. Além de tratar pessoas diferentes com igualdade, também devemos contar-lhes a verdade.

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Para referências, leia este texto do Dr. Larry Cahill.

The Androgynous Form of Shiva and Parvati (Ardhanarishvara). India, Uttar Pradesh, Mathura, 2nd-3rd century sculpture. Mottled red sandstone. Los Angeles County Museum of Art.
11th of July

Por que gênero NÃO É construção social


Embora a alegação de que várias propriedades humanas são “construção social” tenha se tornado moda em setores das humanidades e ciências sociais, geralmente pouca evidência é fornecida para justificar alegações de construção social. O próprio conceito de “construção social” é frequentemente ambíguo demais. Depois de remover as maiores ambiguidades, o filósofo Paul Boghossian providenciou uma definição de construção social mais clara e mais alinhada com os próprios interesses dos acadêmicos do ramo. A definição dele pode ser parafraseada assim: o que se quer dizer quando se alega que uma coisa é socialmente construída é que ela foi criada intencionalmente por uma sociedade em particular para atender a seus próprios interesses, e é contingente aos caprichos dessa sociedade de tal forma que essa coisa não existiria de outro jeito (não existiria, por exemplo, se essa sociedade tivesse interesses diferentes, ou se a construção tivesse sido feita por uma sociedade diferente).

Algumas coisas socialmente construídas ocorrem através de diferentes culturas. O dinheiro, por exemplo, foi construído independentemente por algumas sociedades para fazer a troca de bens, e porque a maioria das sociedades de hoje está interessada em trocar bens eficientemente, o dinheiro se tornou quase universal. Mas se as sociedades que usam dinheiro tivessem interesses diferentes, o dinheiro poderia nunca ter existido. Então é claro o bastante que o dinheiro é construção social.

Mas e as categorias de gênero como “homens”, “mulheres” e “fa’afafine” (uma categoria de Samoa que se aproxima do que chamamos de homens gays afeminados)? São construção social? Eu penso que não. Pelas seguintes razões:

  • As culturas são criativas, então coisas socialmente construídas costumam ser diversas e numerosas, como as diferentes moedas que o mundo teve na história. Pense também em castas indianas. Há 3000 castas diferentes na Índia, e ainda mais subcastas. Comparado a castas e moedas, o número de categorias de gênero parece ser tediosamente baixo – duas no Brasil, três em Samoa, com nenhuma sociedade tendo atingido números de dois dígitos, até onde sei. As castas indianas parecem ser mais prováveis de serem construções sociais, ao ponto de ser possível explicar sua existência com base em fatos históricos conhecidos sobre as culturas indianas.
  • As culturas têm certo poder de decisão sobre com quais categorias de gênero trabalharão e quantas existirão. Mas as razões pelas quais elas têm categorias de gênero não são construção social. São elas: (1) o dimorfismo sexual dos corpos humanos, seguido estritamente por todos os corpos com exceção de um pequeníssimo número deles; (2) um número limitado de orientações sexuais que ocorrem naturalmente e que existem por causa do dimorfismo sexual dos corpos (homossexualidade, heterossexualidade e bissexualidade) – a herdabilidade da orientação sexual é de moderada a alta e algumas das regiões genômicas envolvidas nisso já foram mapeadas; (3) agregados de comportamento que ocorrem naturalmente (além das orientações sexuais), alguns dos quais têm origem evolutiva e são associados a organismos com base em se eles produzem uma abundância de gametas ou se têm poucos gametas e são responsáveis por abrigar o desenvolvimento de fetos.

  A pesquisa sobre essas últimas razões está em andamento e as alegações sobre quais exatamente são essas diferenças de comportamento (previstas por causa da evolução) são altamente contestadas. Alguns resultados são consistentes, no entanto: homens tendem a se sair melhor na tarefa de rotacionar mentalmente objetos 3D, enquanto mulheres parecem ter uma vantagem em tarefas relacionadas à empatia, como ler as emoções de alguém. Mas mesmo se diferenças de gênero apontadas no passado se revelarem falsas, podemos ter confiança de que, enquanto foi detalhista ao moldar corpos, a evolução provavelmente não parou acima do pescoço em relação a sexo no cérebro.

É inteiramente possível que, enquanto o gênero em si não é construção social – porque culturas diferentes chegam a categorias similares de gênero com base em diferenças naturais no corpo e no comportamento – algumas coisas associadas como papéis e expressões de gênero provavelmente sejam constructos sociais, ao menos exemplos delas como a cor que meninas e meninos supostamente preferem, quem é responsável por iniciar flerte, etc. Há evidência de que homens e mulheres fazem em média decisões de carreira diferentes, mesmo em sociedades igualitárias – o que conta como evidência de que essas categorias não são construção social, enquanto não significa, evidentemente, que um indivíduo em particular devesse ser discriminado por fazer escolhas de carreira atípicas de seu gênero.

É importante reconhecer a diferença entre o cerne não socialmente construído do gênero e suas propriedades auxiliares socialmente construídas, de modo que políticas e decisões morais baseadas em gênero sejam mais justas. Isso ficou claro na medicina, em que há resultados mostrando que cérebros masculinos e femininos podem responder de forma diferente ao mesmo medicamento. Agora a falha da hipótese da construção social do gênero deve ser reconhecida nos debates culturais também. Muitos ativistas saltam à acusação de sexismo ao menor sinal de que as pessoas estão se comportando de forma típica para seu gênero, revelando uma esperança ilusória e fora de lugar de que seja possível erradicar categorias de gênero da existência. Para evitar bater de frente com a ciência ainda mais, esses ativistas têm de reconhecer que a ação para mitigar a discriminação injusta não deveria ser acoplada a uma esperança de atingir uma paridade de gênero em tudo. Forçar as pessoas a se comportarem do mesmo jeito onde elas naturalmente divergem não é ativismo, é engenharia social utópica. Pessoas livres precisam apenas de igualdade de oportunidades para perseguir seus interesses diversos. Homens e mulheres (e fa’afafine etc. onde aplicável), incluindo os que são trans, apreciam-se entre si e uns aos outros sem necessidade de paladinos morais que tentam forçá-los a ser o que não são. E certamente não precisam de falsidades propagandeadas como o único caminho para a justiça – pois a justiça prefere a verdade.

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Referências comentadas

As pessoas interessadas no assunto devem estar cientes de que há um pequeno número de grupos de pesquisa dentro da neurociência que tem interesse ideológico de alegar que todas as diferenças no cérebro e no comportamento encontradas por outros pesquisadores são falsas ou infinitesimais. Há também um grupo menor ainda, rejeitado por todos, de cientistas conservadores com papéis de gênero que se apressam em aprovar qualquer diferença biológica alegada, independentemente da qualidade das evidências. Então, às vezes, a revisão por pares falha e estudos de baixa qualidade são publicados e publicizados como verdade revelada por blogs e veículos de mídia interessados em confirmar suas narrativas. Cientistas como Melissa Hines, Simon-Baron Cohen e Larry Cahill, que estudam gênero cerebral, evidentemente afirmam que as diferenças existem com base em evidências (no caso de Baron-Cohen, também porque tem a ver com autismo, muito mais comum em meninos que em meninas). Em oposição a esses há Cordelina Fine,  Daphna Joel e seus colaboradores, que parecem estar interessados em negar as diferenças ou reinterpretá-las como um “mosaico cerebral” inclassificável como masculino ou feminino, em que todas as pessoas são vistas como “intersexuais” no cérebro. Recomendo lê-los todos e decidir por si quais estão amparados em evidências.

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Boghossian, Paul. “What is social construction?.” (2001).

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Cahill, L. (2006). Why sex matters for neuroscience. Nature Reviews Neuroscience, 7(6), 477–484. http://doi.org/10.1038/nrn1909
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Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Cahill, L. (2015). Diferenças de Sexo no Cérebro Humano. Xibolete | Cerebrum, 5. Disponível aquihttp://xibolete.uk/sexo-cerebral/
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Hines, Melissa. Brain gender. Oxford University Press, 2005.
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Bao, A.-M., & Swaab, D. F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Frontiers in Neuroendocrinology, 32(2), 214–226. http://doi.org/10.1016/j.yfrne.2011.02.007
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Sanders, A. R., Martin, E. R., Beecham, G. W., Guo, S., Dawood, K., Rieger, G., … Bailey, J. M. (2014). Genome-wide scan demonstrates significant linkage for male sexual orientation. Psychological Medicine, 1–10. http://doi.org/10.1017/S0033291714002451
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Resenha crítica do livro de Cordelia Fine:
Araujo-Jnr, E. V. (trad.), Baron-Cohen, Simon. “‘Neurossexismo’: Homens não são de Marte, Mulheres não são de Vênus e Cordelia Fine não faz jus à neurociência”. Xibolete (2015) | The Psychologist 23.11 (2010): 904-905. Disponível aquihttp://xibolete.uk/neurossexismo/
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Artigo mais recente de Joel et al. alegando que não é possível prever o gênero de uma pessoa com base em características cerebrais:
Joel, Daphna, et al. “Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic.”Proceedings of the National Academy of Sciences 112.50 (2015): 15468-15473. Disponível aqui.
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Respostas a Joel et al. mostrando que estão errados em alegar que cérebros humanos não podem ser categorizados em masculino e feminino:
Del Giudice, Marco, et al. “Joel et al.’s method systematically fails to detect large, consistent sex differences.” Proceedings of the National Academy of Sciences 113.14 (2016): E1965-E1965. Disponível aqui.
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Rosenblatt, Jonathan D. “Multivariate revisit to” sex beyond the genitalia”.”Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (2016). Disponível aqui.
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Chekroud, Adam M., et al. “Patterns in the human brain mosaic discriminate males from females.” Proceedings of the National Academy of Sciences113.14 (2016): E1968-E1968. Disponível aqui.
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Imagem: Forma andrógina de Shiva e Parvati (Ardhanarishvara). Índia, Uttar Pradesh, Mathura, escultura do século II ou III. Em arenito vermelho manchado. Los Angeles County Museum of Art.
21st of January

O que é “construção social”?


“Geralmente, dizer que algo é construído é dizer que não estava ali simplesmente para ser encontrado ou descoberto, mas que foi edificado, trazido à existência pela atividade intencional de alguma pessoa em algum tempo. E dizer que algo foi socialmente construído é acrescentar que foi edificado por uma sociedade, por um grupo de pessoas organizadas de certa forma, com certos valores, interesses e necessidades. Há três maneiras importantes com que um teórico da construção social no qual estamos aqui interessados se afasta ou acrescenta a essa noção perfeitamente comum de construção social.

Primeiro, no sentido comum, são tipicamente coisas ou objetos que são construídos, como casas ou cadeiras; mas nosso teórico não está tão interessado na construção de coisas, mas na construção de fatos – no fato de que algum pedaço de metal é uma moeda, em vez de no pedaço de metal em si.

Segundo, nosso teórico da construção social não está interessado em casos em que, por uma questão contingente, algum fato é trazido à existência pelas atividades intencionais das pessoas, mas apenas em casos em que tais fatos somente poderiam ter sido trazidos à existência dessa forma. No sentido técnico pretendido, em outras palavras, é preciso ser constitutivo de algum dado fato que ele foi criado por uma sociedade se é para chamá-lo de “socialmente construído”. Por exemplo, no sentido comum, se um grupo de pessoas se unem para mover um pedregulho pesado para o topo de uma colina, nós teríamos de dizer que a posição do pedregulho no topo da colina é um fato socialmente construído. No sentido técnico mais exigente do teórico, a posição do pedregulho no topo da colina não é um fato socialmente construído, pois é possível que pudesse ter acontecido puramente através de forças naturais. Por outro lado, que um pedaço de papel seja dinheiro é um fato socialmente construído no sentido técnico, pois é necessariamente verdadeiro que só poderia ter se tornado dinheiro ao ser usado de certas formas por seres humanos organizados como grupo social.

Finalmente, uma alegação típica de construção social envolverá não meramente a alegação de que um fato em particular foi edificado por um grupo social, mas que foi construído de tal forma que reflete suas necessidades e interesses contingentes, e assim, se não tivessem essas necessidades e interesses, poderiam não ter construído esse fato. A noção comum de um fato construído é perfeitamente compatível com a ideia de que uma construção em particular foi forçada, que nós não tínhamos escolha exceto construí-lo. De acordo com Kant, por exemplo, o mundo que experimentamos é construído por nossas mentes para obedecer certas leis fundamentais, entre elas as leis da geometria e da aritmética. Mas Kant não achava que éramos livres para fazer diferente. Pelo contrário, ele pensava que qualquer mente consciente estava limitada a construir um mundo que obedecesse a essas leis.

O teórico da construção social não está interessado, tipicamente, em tais construções obrigatórias. Ele quer enfatizar a contingência dos fatos que construímos, mostrar que eles não precisavam ser assim se tivéssemos feito outra escolha. No sentido técnico pretendido, então, um fato é socialmente construído se e apenas se for necessariamente verdadeiro que ele poderia somente ser obtido através de ações contingentes de um grupo social.”

Boghossian, Paul. Fear of knowledge: Against Relativism and Constructivism. Oxford University Press, 2006. Sinopse em português na revista Crítica: http://criticanarede.com/medo.html

Coisas que acadêmicos das humanidades alegam ser “construção social” e eu duvido:
– Gênero e identidade de gênero.
– Orientação sexual.
– Gostos pessoais quanto a quem o indivíduo considera sexualmente atraente.
– (Padrões de) Beleza (tanto a mais abstrata, de obras de arte e paisagens, quanto a mais humana, de rostos e corpos).