10th of August

Saber antecede fazer Sobre a tendência preocupante de passar o carro na frente dos bois em planos de "mudar o mundo"


Para mudar o mundo para melhor, primeiro é necessário saber como ele é. Por isso, saber antecede fazer, em importância e em sequência razoável. Quem quer forçar as coisas a mudarem em certa direção mas não fez o trabalho de explicar como elas estão e por que devem ir na direção desejada, portanto, está metendo o carro na frente dos bois. Devemos ficar desconfiados de qualquer ativista que não parece ter muita curiosidade pelo assunto do qual trata.

Se alguém quer defender direitos LGBT mas afirma, apesar das evidências coletadas e publicadas na genética, que ser LGBT é puramente cultural e nada tem a ver com genes, esta pessoa é não apenas mal-informada: sua preocupação com a justiça é pouco sincera. Quem se preocupa com justiça para LGBT se preocupa com justiça em geral, e quem se preocupa com justiça em geral tem curiosidade pelos assuntos que tocam a (in)justiça.

Quem quer que pessoas autistas tenham boas vidas arregaça as mangas e busca saber por que elas existem, em vez de cair na primeira teoria da conspiração sobre vacinas serem a causa.

Quem quer que homens e mulheres sejam tratados de forma justa, como seres humanos dignos do mesmo acesso a oportunidades e tratamento respeitoso, não cai na teoria da conspiração de que essas categorias existem apenas porque uma é inerentemente malvada e quer oprimir a outra, inerentemente vítima, como se fossem castas indianas.

E assim por diante. Fervor moral divorciado de curiosidade e interesse pela verdade, mesmo se sincero, é uma receita para o desastre, não uma força para o bem.

17th of May

Conselhos a LGBT no dia de combate à homofobia #LoveIsLove


Hoje é Dia Internacional de Combate à Homofobia. Eis os meus comentários como um gay que atacou essa questão com ciência e argumento.

– Nós já conquistamos o que era legalmente relevante. Eu lamento pelos métodos: ativismo judiciário em vez de decisão de representantes democráticos, como fez a Argentina. Lamento porque o potencial desses métodos é deixar a homofobia inercial da cultura supurar e fermentar, levando muitos a querer revanche.

– Há muita homofobia (que eu chamei de inercial porque penso que está refreando) na cultura brasileira, mas isso é largamente um resultado da escolaridade baixa e mal aplicada educação. Há uma correlação entre nível educacional e abandono da homofobia. Portanto, os LGBT deveriam estar mais interessados em propor reformas à educação do que em reclamar da última celebridade que disse “viado” (se é que sobrou alguma, dado o sucesso da mordaça politicamente correta). Eu não acho que a solução para a educação no Brasil é enfiar mais dinheiro nela, ao menos não sem um plano detalhado de como será aplicado. Se for simplesmente enfiar dinheiro, é um buraco negro de dinheiro que continuará devolvendo pouco.

– A insistência de criminalizar o que chamam de “discurso de ódio” tem mais potencial de aumentar a hostilidade aos LGBT e ativistas da questão do que de ajudar a resolver o problema. “Discurso de ódio” é um termo mal definido, as pessoas têm uma tendência a quererem expandir conceitos (especialmente os mal definidos) para calarem a boca de seus desafetos. Como é um fato que os cidadãos tendem a errar a favor do autoritarismo e da censura, a margem de erro das autoridades deve favorecer a liberdade, contra a maré da população. Eu testemunhei o erro de boa parte ou de uma maioria de ativistas ao tentarem calar a boca de Silas Malafaia e Levy Fidélix, fazendo malabarismo interpretativo para transformar o que disseram em incitação à violência (limite justo e legal da expressão), por pura conveniência, para calar a boca de dois desafetos. Isso é uma mancha na história do ativismo LGBT brasileiro, deve ser visto como tal por qualquer pessoa defensora de direitos humanos, dos quais a liberdade da expressão é um dos mais importantes, se não o mais importante (como saberemos se o direito à vida foi violado, por exemplo, sem termos liberdade de comunicar o fato?). Meu conselho aqui é de desistir da criminalização do “discurso de ódio” contra LGBT, até porque isso não faz absolutamente nada para mostrar erradas as idéias veiculadas por esse tal “discurso de ódio”, é apenas uma tentativa de varrê-las para debaixo do tapete. O problema de idéias perniciosas varridas para debaixo do tapete é que o ambiente sob o tapete é escurinho, úmido e quente, ou seja, propício para seu fortalecimento e proliferação.

– Despolitizem e despartidarizem a questão LGBT. Cada gay de direita que aparece é um sinal de progresso, não uma trombeta do Apocalipse. Parem de pensar que a esquerda é reduto obrigatório de LGBT, a esquerda não foi justa conosco, e as conquistas sob o último governo foram todas resultado de ativismo judiciário, não de “vontade política” (essa quimera) de líderes das tribos políticas que os ativistas mais amam.

– Você, jovem LGBT, não se deixe tribalizar por ser LGBT. Não ache que você faz parte de uma “cultura” especial por ser LGBT. As pessoas ainda devem ser julgadas por seu caráter, e se é para ser membro de grupos, que seja em função de interesses e idéias em comum, não em função de acidentes de nascença. Os grupos identitários só vão te ensinar a se ver como vítima e atrasar o seu desenvolvimento como pessoa.

– Rejeite “teoria queer” e alegações de “construção social” da sexualidade onde quer que as encontrar, são tão pseudocientíficas e desinteressadas do conhecimento quanto a homeopatia.

#LoveIsLove

(Arte: cálice romano retratando sexo gay, atualmente no Museu Britânico, conhecido como “Warren Cup”. Foto por Ashley Van Heaften.)

16th of May

Estereótipos estão aqui para ficar, ou, Como minhas crenças anti-estereótipo me levaram a ser assaltado


Estereótipos são um horror, dizem. São racionalização de preconceitos, fazem mal, causam sofrimento. Talvez, mas nós não somos capazes de viver sem eles, e mais, muitos deles são precisos, descrevem algo que realmente existe no mundo.

Pedir que analisemos cada pessoa a fundo, sem estereótipo algum, é pedir demais. Um dia não seria suficiente para conhecer melhor uma pessoa e saber onde ela rompe estereótipos, se assim o faz. O ano tem só 365 dias – isso não é suficiente para conhecer sequer a vizinhança de um único prédio.

Estereótipos existem porque nós precisamos literalmente economizar energia ao tomar decisões sobre pessoas que mal conhecemos. Pois há um custo de energia e tempo em analisar a fundo cada pessoa que encontramos. Certa dia anos atrás, em Porto Alegre, fiquei no laboratório até tarde, tendo de tomar um ônibus diferente do que tomava diariamente. Desci no centro histórico à 1h da manhã, num avenida larga, de um lado que é margem do Parque da Redenção. Ao olhar à frente, a uns 300 metros de mim vinha uma pessoa cujas características distinguíveis eram essas: homem, alto, negro, pobre. “Vou ignorar os estereótipos e não atravessar a avenida”, pensei e decidi conscientemente. O resultado foi um assalto em que perdi um laptop contendo o primeiro rascunho da minha dissertação de mestrado, e um ticket para o show do Roger Waters que me deram de presente, além de algumas horas inutilmente tentando ajudar a polícia a pegar o assaltante e seu parceiro de crime que apareceu de um arbusto assim que me aproximei. Paguei o preço de tratar os estereótipos como se não correspondessem à realidade de forma alguma.

Há um risco de o estereótipo corresponder a um estado de coisas que já mudou. Este é um dos motivos das pessoas mais velhas serem consideradas as mais preconceituosas da família (o que é em si um estereótipo preciso). Mas, em toda a psicologia social, a precisão dos estereótipos, que costuma ter correlação mais forte com a realidade até que muitos dos efeitos descritos pela própria pesquisa da área, é um dos resultados mais bem replicados.*

Nenhum ativismo contra preconceito será “científico”, portanto, enquanto continuar popular entre ativistas a alegação de que os estereótipos não correspondem à realidade de forma alguma. O ativismo deve se focar em outras coisas. Não em alegar que estereótipos são imprecisos.

Além de a pessoa média ser minimamente racional ao tratar os próprios estereótipos (suspendendo o julgamento por estereótipo assim que informações individualizadoras relevantes emergem), as pessoas se comportam de modo a estereotipar a si mesmas. Não é coincidência que as garotas que usam o corte de cabelo que eu chamo de “o cachorro comeu aqui do lado” (raspam um lado da cabeça) tendem a adotar certas idéias sobre feminismo e gênero. Elas imitam umas às outras, estereotipando-se. Se as próprias pessoas se estereotipam voluntariamente, como poderiam ser os estereótipos todos imprecisos? Impossível. Na verdade, a maioria tem precisão suficiente para o propósito da existência dos estereótipos: ajudar um ser cognitivamente limitado a navegar por um mundo complexo.

Às vezes o problema não está no estereótipo, mas nos pressupostos morais. Tomem por exemplo o estereótipo de que homens gays são “promíscuos” (que têm mais parceiros sexuais que outros grupos). Este é um estereótipo preciso sobre gays.*** No entanto, a crença de que “promiscuidade” é uma coisa imoral merece exame: por que as pessoas pensam assim? Certamente há elementos ruins, como aumento de risco de contrair doenças venéreas, e talvez rompe princípios sobre a forma apropriada de tratar pessoas ou de ter uma vida emocionalmente saudável (há controvérsia aqui, e, para confirmar outro estereótipo, parece que o sexo casual faz bem a homens e mal às mulheres** – em média, é claro).

Mas há aspectos positivos, como:

(1) uma perda de inibições potencialmente irracionais, como a antiga expectativa maluca de se casar virgem, que no passado jogava pessoas às cegas numa situação que poderia ser uma condenação a passar a vida sem saciedade sexual – e no caso de algumas mulheres, uma vida sem orgasmo nenhum. O que chamam de “promiscuidade” pode ser simplesmente experimentação para encontrar qualidade: é a lei dos grandes números, se o evento de encontrar alguém com quem se tem boa “química” tem uma probabilidade pequena p, várias instâncias de p aumentam a probabilidade de achar o que se quer: p+p+p+p… tendendo ao número infinito de tentativas tem probabilidade total 100%. Quem não tenta o suficiente tem menos chance de encontrar.

(2) um sintoma de que há liberdade na sociedade onde é possível ser promíscuo. Certamente não é nem permitido nem aplaudido ser promíscuo em sociedade teocráticas com Estado policial. Portanto, haver promiscuidade tolerada numa sociedade é um sinal de que esta sociedade é livre, mesmo se a promiscuidade for algo que é de fato imoral. Nem tudo o que é imoral deve ser ilegal, e é a marca das sociedades autoritárias a rejeição dessa distinção.

Em suma, o pensamento crítico sobre o que se alega por aí ser “imoral” é mais importante do que uma condenação geral aos estereótipos.


* Vide http://www.spsp.org/blog/stereotype-accuracy-response

** Um dos estudos que encontraram que sexo casual faz mais bem a homens que a mulheres: https://link.springer.com/article/10.1007/s11199-010-9765-7

*** Há fontes citadas na Wikipédia que alegam que a promiscuidade entre homens gays e homens héteros é similar, estando apenas os extremos da promiscuidade mais entre homens gays. No entanto, achei alguns desses dados não confiáveis, como dados do site de encontros OK Cupid, que são baseados em auto-descrição, ou seja, cheios de mentiras convenientes dos usuários para se venderem no mercado de relacionamentos. Um estudo conduzido por uma marca de camisinhas não resumiu os dados de forma a tornar possível comparar homossexuais a heterossexuais. Estou tentando ter acesso aos dados. Minha aposta é que o estereótipo é preciso e que um homem gay tem em média mais parceiros sexuais ao longo da vida que um homem heterossexual.

24th of March

Resumidíssimo: por que gênero não é construção social Explicado em menos de 2600 caracteres, publicado originalmente no jornal O Tempo, 24 de março de 2017.


No livro “The Social Construction of What?”, Ian Hacking lista mais de 50 coisas que já se alegou que são construções sociais: emoções, sexualidade, doença, quarks etc., até fatos, realidade e conhecimento. É moda alegá-lo sem provas. Algo construído não estava ali para ser descoberto, e socialmente construído é algo que foi feito por uma sociedade e não por qualquer outra coisa. Alega-se que gêneros são também construídos socialmente. Esta é uma alegação determinista cultural sobre o gênero, uma inversão de determinismos biológicos igualmente equivocados, como o cromossômico. Já no berço, antes de aprender qualquer cultura, meninas já diferem de meninos no tempo em que olham para móbiles ou faces.

Se gênero fosse construção social, sob o igualitarismo homens e mulheres se aproximariam em escolhas de carreira. Ocorre o oposto: quanto mais igualitárias as sociedades, maior a diferença na escolha de carreira entre gêneros. A preferência masculina por carrinhos e feminina por bonecas vai além da espécie humana, macacos também a manifestam. Não parece ser o caso com preferência por azul ou rosa, que depende da cultura.

A maior descoberta da genética do comportamento é que nenhum comportamento é destituído de biologia. Outra é que nenhum comportamento é livre de ambiente. A dicotomia “natureza vs. cultura” é obsoleta, temos “natureza e cultura”. Somos culturalmente moldados na nossa natureza: sem a cultura do fogo, a savana em que evoluímos não teria energia suficiente para suprir o cérebro. Somos também biologicamente propensos à cultura: somente nossos filhotes ensinam já no início da infância. O gênero é feito de um cerne natural fruto da evolução ao qual são adicionados acessórios que são construções sociais. Gênero é o sexo que está entre as orelhas.

Contraste o gênero com uma categoria que é construída: a casta indiana. As castas começaram com uma invasão, e chegaram a milhares em poucos milênios. Não é o caso do gênero: não há cultura em que o número de gêneros tenha sequer chegado a dez, mesmo com gêneros precedendo castas. O que temos são culturas com categorias como “homem”, “mulher” e “fa’afafine” (em Samoa). O número de gêneros tem um limite inferior ao das castas, dado pela biologia. Há dimorfismo anatômico e comportamental, orientações sexuais, características que culturas lêem como essenciais às suas categorias de gênero.

Quem tem medo desses fatos confunde o projeto ético da igualdade de direitos e oportunidades com a engenharia social de forçar paridades. Além de tratar pessoas diferentes com igualdade, também devemos contar-lhes a verdade.

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Para referências, leia este texto do Dr. Larry Cahill.