10th of August

Saber antecede fazer Sobre a tendência preocupante de passar o carro na frente dos bois em planos de "mudar o mundo"


Para mudar o mundo para melhor, primeiro é necessário saber como ele é. Por isso, saber antecede fazer, em importância e em sequência razoável. Quem quer forçar as coisas a mudarem em certa direção mas não fez o trabalho de explicar como elas estão e por que devem ir na direção desejada, portanto, está metendo o carro na frente dos bois. Devemos ficar desconfiados de qualquer ativista que não parece ter muita curiosidade pelo assunto do qual trata.

Se alguém quer defender direitos LGBT mas afirma, apesar das evidências coletadas e publicadas na genética, que ser LGBT é puramente cultural e nada tem a ver com genes, esta pessoa é não apenas mal-informada: sua preocupação com a justiça é pouco sincera. Quem se preocupa com justiça para LGBT se preocupa com justiça em geral, e quem se preocupa com justiça em geral tem curiosidade pelos assuntos que tocam a (in)justiça.

Quem quer que pessoas autistas tenham boas vidas arregaça as mangas e busca saber por que elas existem, em vez de cair na primeira teoria da conspiração sobre vacinas serem a causa.

Quem quer que homens e mulheres sejam tratados de forma justa, como seres humanos dignos do mesmo acesso a oportunidades e tratamento respeitoso, não cai na teoria da conspiração de que essas categorias existem apenas porque uma é inerentemente malvada e quer oprimir a outra, inerentemente vítima, como se fossem castas indianas.

E assim por diante. Fervor moral divorciado de curiosidade e interesse pela verdade, mesmo se sincero, é uma receita para o desastre, não uma força para o bem.

17th of May

Conselhos a LGBT no dia de combate à homofobia #LoveIsLove


Hoje é Dia Internacional de Combate à Homofobia. Eis os meus comentários como um gay que atacou essa questão com ciência e argumento.

– Nós já conquistamos o que era legalmente relevante. Eu lamento pelos métodos: ativismo judiciário em vez de decisão de representantes democráticos, como fez a Argentina. Lamento porque o potencial desses métodos é deixar a homofobia inercial da cultura supurar e fermentar, levando muitos a querer revanche.

– Há muita homofobia (que eu chamei de inercial porque penso que está refreando) na cultura brasileira, mas isso é largamente um resultado da escolaridade baixa e mal aplicada educação. Há uma correlação entre nível educacional e abandono da homofobia. Portanto, os LGBT deveriam estar mais interessados em propor reformas à educação do que em reclamar da última celebridade que disse “viado” (se é que sobrou alguma, dado o sucesso da mordaça politicamente correta). Eu não acho que a solução para a educação no Brasil é enfiar mais dinheiro nela, ao menos não sem um plano detalhado de como será aplicado. Se for simplesmente enfiar dinheiro, é um buraco negro de dinheiro que continuará devolvendo pouco.

– A insistência de criminalizar o que chamam de “discurso de ódio” tem mais potencial de aumentar a hostilidade aos LGBT e ativistas da questão do que de ajudar a resolver o problema. “Discurso de ódio” é um termo mal definido, as pessoas têm uma tendência a quererem expandir conceitos (especialmente os mal definidos) para calarem a boca de seus desafetos. Como é um fato que os cidadãos tendem a errar a favor do autoritarismo e da censura, a margem de erro das autoridades deve favorecer a liberdade, contra a maré da população. Eu testemunhei o erro de boa parte ou de uma maioria de ativistas ao tentarem calar a boca de Silas Malafaia e Levy Fidélix, fazendo malabarismo interpretativo para transformar o que disseram em incitação à violência (limite justo e legal da expressão), por pura conveniência, para calar a boca de dois desafetos. Isso é uma mancha na história do ativismo LGBT brasileiro, deve ser visto como tal por qualquer pessoa defensora de direitos humanos, dos quais a liberdade da expressão é um dos mais importantes, se não o mais importante (como saberemos se o direito à vida foi violado, por exemplo, sem termos liberdade de comunicar o fato?). Meu conselho aqui é de desistir da criminalização do “discurso de ódio” contra LGBT, até porque isso não faz absolutamente nada para mostrar erradas as idéias veiculadas por esse tal “discurso de ódio”, é apenas uma tentativa de varrê-las para debaixo do tapete. O problema de idéias perniciosas varridas para debaixo do tapete é que o ambiente sob o tapete é escurinho, úmido e quente, ou seja, propício para seu fortalecimento e proliferação.

– Despolitizem e despartidarizem a questão LGBT. Cada gay de direita que aparece é um sinal de progresso, não uma trombeta do Apocalipse. Parem de pensar que a esquerda é reduto obrigatório de LGBT, a esquerda não foi justa conosco, e as conquistas sob o último governo foram todas resultado de ativismo judiciário, não de “vontade política” (essa quimera) de líderes das tribos políticas que os ativistas mais amam.

– Você, jovem LGBT, não se deixe tribalizar por ser LGBT. Não ache que você faz parte de uma “cultura” especial por ser LGBT. As pessoas ainda devem ser julgadas por seu caráter, e se é para ser membro de grupos, que seja em função de interesses e idéias em comum, não em função de acidentes de nascença. Os grupos identitários só vão te ensinar a se ver como vítima e atrasar o seu desenvolvimento como pessoa.

– Rejeite “teoria queer” e alegações de “construção social” da sexualidade onde quer que as encontrar, são tão pseudocientíficas e desinteressadas do conhecimento quanto a homeopatia.

#LoveIsLove

(Arte: cálice romano retratando sexo gay, atualmente no Museu Britânico, conhecido como “Warren Cup”. Foto por Ashley Van Heaften.)

9th of March

Pior jogada LGBT: tentar obrigar confeiteiros homofóbicos a fazer bolo de casamento gay Casal de confeiteiros do Oregon alega liberdade religiosa para defender a recusa de fazer bolo de casamento para casal de lésbicas


Melissa e Aaron Klein, donos da confeitaria “Sweet Cakes” em Oregon, foram condenados em primeira instância a pagar 135 mil dólares por se recusarem a fazer o bolo de casamento das lésbicas Rachel e Laurel Bowman-Cryer. O casal Klein alega objeção de consciência por crença religiosa, recorreu da decisão, e hoje foi ouvido por uma corte de apelações. Eles dizem também que a batalha judicial os levou à falência, e que tiveram de fechar a confeitaria devido a ameaças. Enquanto isso, o casal Bowman-Cryer alega que o caso dificultou sua vida e a criação de suas duas filhas adotivas com deficiência.

A defesa dos Klein alega que a manufatura do bolo é arte, e, portanto, também expressão, sendo protegida como uma liberdade inalienável pela primeira emenda da constituição americana.

O efeito dessa alegação é meio divertido. Ao contrário dos conservadores, o grupo político mais afeito a defender os direitos LGBT (ou a querer ser visto como se defendesse mais que os outros, fazendo muito barulho no processo) costuma também defender definições extremamente amplas de arte, em que qualquer coisa pode ser arte, uma vez eleita pela vontade de um artista e aprovada pela elite artística, como no exemplo histórico do mictório escolhido por Marcel Duchamp (e apelidado de “A Fonte”). Nos últimos anos tenho visto um crescimento na incidência de “arte” contemporânea e “expressiva” no Brasil, do tipo que parece feita sob encomenda para ofender a vovó: numa peça de teatro em São Paulo, dois atores injetaram vinho em seus ânus e expeliram no palco. Num evento sobre gênero numa universidade federal, uma pessoa transexual e obesa, nua, se cobriu de óleo de dendê (a “performance” se chama “gordura trans”), e uma moça, aparentemente tentando representar o status da mulher na sociedade brasileira, pôs chifres na cabeça e uma sela nas costas e engatinhou, nua, cercada de espectadores, atuando como uma vaca. Mais recentemente, neste ano, outra moça se cobriu de tinta preta e se prostrou no chão para seu parceiro de expressão “artística” urinar em seu corpo. Não esqueçamos uma “peça” notória chamada “Macaquinhos”, em que um grupo de atores faziam uma ciranda nus, cada um com um dedo no ânus do próximo. Numa entrevista, os artistas responsáveis pela peça explicaram que sua arte representa o domínio do hemisfério norte sobre o sul. Se cada uma dessas coisas é “arte” e por isso é protegida como liberdade de expressão (concordo com a proteção, mas não com o diagnóstico), por que assar – ou recusar-se a assar – um bolo de casamento não poderia ser a mesma coisa? Está abolida a livre expressão que irrite ou chateie pessoas LGBT? Somente o que irrita e chateia a vovó (e entendia a juventude cansada de ver pornografia) pode ser arte?

Se a defesa está certa, então a decisão de primeira instância foi injusta e inconstitucional, pois o Estado americano não pode compelir a expressão dos cidadãos, ou seja, forçá-los a expressar o que não necessariamente está em conformidade com suas crenças. Um argumento melhor que a alegação de que o bolo era arte é que fazer um bolo de casamento é participar, mesmo que indiretamente, de uma cerimônia de casamento, e no caso sua crença cristã (fundamentalista?) não concorda que duas mulheres possam se casar e os confeiteiros não podem ser obrigados a participar da cerimônia. O caso poderá terminar na Suprema Corte dos Estados Unidos. Até lá, com prováveis novas nomeações de juízes conservadores por parte de Donald Trump, é possível que a decisão de primeira instância seja revertida.

A discussão na corte sobre o apelo do casal Klein não pôde ser um debate completo, pois é uma discussão que precisa seguir as leis do estado de Oregon, que proíbem a discriminação pela negação de serviço com base em categorias protegidas (raça, orientação sexual, gênero, religião). Então, ao ouvir a discussão no tribunal, algo que está ausente é o questionamento de que é mesmo justo que exista a lei anti-discriminação, que impede pessoas preconceituosas de agir de acordo com seus preconceitos em seus próprios negócios.

Creio que recusar-se a atender clientes gays num negócio de bolos de casamento é, sim, discriminação injusta nascida no preconceito, e que crenças religiosas são uma desculpa frágil para essa atitude. Na verdade, crenças religiosas são quase sempre uma base fraca para justificar qualquer atitude, de guardar o sábado à mutilação genital. Mas essas crenças preconceituosas e essa atitude discriminatória em torno do caso deveriam estar contempladas pelas liberdades legais. Nem tudo o que é imoral deve ser ilegal, e eu não penso que a imoralidade de ser um empreendedor confeiteiro preconceituoso com seus clientes seja algo que justifique conjurar o poder do Estado para proibi-lo de sê-lo. Uma sociedade saudável para com as minorias é aquela em que as ideias preconceituosas contra elas encontram resistência suficiente para haver outros confeiteiros que façam seu bolo de casamento. É aquela em que os casais gays podem simplesmente elevar a concorrência não preconceituosa, sendo clientes e propagandistas, em vez de se engajar em batalhas judiciais para fazer os confeiteiros preconceituosos pararem de agir como preconceituosos. Se a intenção é diminuir ou combater o preconceito, não é o efeito esperado dessa batalha. Na verdade, o que se espera nesse tipo de batalha é a escalada do despeito, em que ninguém reexamina o que acredita nem se o que está fazendo em nome dessas crenças é correto, focando-se, em vez disso, em sua liberdade de poder acreditar em qualquer porcaria, da homofobia ao igualmente tolo autoritarismo contra a expressão da homofobia.

Interferir injustamente na liberdade de religiosos preconceituosos é uma má estratégia para qualquer defensor dos direitos LGBT. Não é coerente defender direitos pisando em um dos direitos mais importantes de todos, que é a liberdade de expressão. E se assar um bolo não for expressão, estamos falando de liberdade de escolher clientes, mesmo com base em crenças torpes como a homofobia, o racismo ou a misoginia. Numa sociedade em que o preconceito genuinamente está perdendo, donos de negócios preconceituosos lucram pouco ou vão à falência.

 

15th of January

BBC toca no tema explosivo de crianças transexuais


Este tema, como outros, está cada vez mais intratável por causa da politização. Quando se politiza um tema, as pessoas passam a vê-lo como uma disputa tribal, e defenderão com unhas e dentes suas posições independentemente das evidências. Não foi surpresa, portanto, quando saiu um estudo recentemente mapeando padrões cerebrais relacionados ao posicionamento político aos mesmos relacionados à afiliação religiosa.*

Fiquei positivamente surpreso com a qualidade do documentário “This World: Transgender Kids”** que saiu na BBC há dois dias, é muito informativo e corajoso. O documentário comenta alguns dados importantíssimos. De todas as crianças que manifestam disforia de gênero (o sentimento de estar “no corpo errado” para seu gênero), 80% se resolvem e desistem de transicionar para outro sexo, vindo a aceitar o sexo com que nasceram. A maioria dessas crianças cresce para ser gay, lésbica ou bissexual.

O ativismo na área se foca em casos em que a disforia não se resolve e, por isso, a transição de um sexo para outro se faz terapeuticamente necessária. Apaixonados por ideias de destruir papéis de gênero, alguns ativistas simplificam demais a questão, culpando expectativas sociais de papel de gênero que crianças mal entendem por todos os casos de suicídio entre crianças com disforia de gênero. No entanto, é importante apontar que está longe de claro que as expectativas sociais são tudo o que há por trás da ansiedade e ideação suicida de uma fração preocupante dessas crianças. Alguns pais resistiram à afirmação de gênero de suas crianças, persistiram durante anos com terapeutas, e ao fim desse processo encontraram que suas crianças se encaixam no grupo da maioria que não era “realmente” trans, mas “apenas” gay.

Um dos terapeutas que ajudavam pais nessa direção era Ken Zucker. Por causa do lobby de ativistas com sua narrativa simplificada, ele perdeu o emprego e teve sua clínica fechada, acusado de tentar “terapia de conversão”. O problema nisso é que, como ele mesmo diz no documentário, a razão pela qual alguns pais insistem que suas crianças tomem hormônios e façam cirurgias genitais é justamente porque não querem que elas sejam gays. Então, em muitos casos, é a própria narrativa simplificadora dos ativistas que está facilitando “cura gay”, em que se produz uma menina hétero transicionada em vez de um menino gay afeminado.

O assunto é muito difícil, e diante da ignorância parece que alternativa mais cautelosa é acompanhar as crianças em sua descoberta de identidade até que elas estejam preparadas, especialmente depois de crescerem e terem acesso a terapia, a decidirem sem risco de se arrependerem depois. Acima de qualquer coisa, é muito decepcionante ver que ativismos tão importantes para fazer avançar a liberdade individual nas décadas recentes estejam agora começando a se perder aceitando que devemos levar a sério tudo o que sai da boca das crianças, que a única forma de cuidar de uma criança é dando o que ela quer. Crescer LGBT sob a autoridade de pais que claramente te rejeitam é ruim, mas crescer sob autoridade nenhuma de pais seduzidos por ideias simplistas que não põem ordem alguma no seu mundo pode ser igualmente ruim. A identidade não é simplesmente um sentimento que brota espontaneamente de dentro. Ela é também um resultado do que negociamos com quem divide a existência conosco, e do que aprendemos sobre nós mesmos (introspecção não é o mesmo que se deixar levar por qualquer sentimento). Pessoas trans merecem os mesmos direitos que pessoas não-trans, mas não é fazendo crianças de cobaias que se chega à justiça. E, como provam transtornos psiquiátricos diversos, às vezes nós precisamos de ajuda para lidar com nossa própria identidade, e afirmá-la porque soa inclusivo não é tudo o que há para a questão.

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* Kaplan, J. T., Gimbel, S. I., & Harris, S. (2016). Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence. Scientific Reports, 6, 39589. https://doi.org/10.1038/srep39589

** Transgender Kids: Who Knows Best? (2017). British Broadcast Corporation. http://www.bbc.co.uk/iplayer/episode/b088kxbw/transgender-kids-who-knows-best

17th of December

Os novos carolas Como ativistas irracionais prejudicam suas causas


Uma moça foi contratada para posar de maiô junto a móveis de aço inoxidável, na publicidade de uma empresa que os vende. Em resposta, por considerarem isso errado, muitos ativistas atacaram a página em bando, chamando por avaliações baixas para a página e em consequência a empresa inteira. A empresa, muito espertamente, fez uma campanha nova oferecendo doar somas cada vez maiores a uma associação de deficientes conforme a avaliação de sua página subir, em reação às avaliações dos ativistas.

Algo similar aconteceu em Londres, quando em 2015 uma empresa que vende shakes de proteína botou no metrô uma campanha com uma modelo usando um biquíni amarelo, acompanhada de uma pergunta: “você está com o corpo pronto para a praia?”. Centenas de reclamações choveram sobre a autoridade responsável por regular anúncios no metrô, e o anúncio acabou sendo retirado por isso. Em resposta, a empresa foi a um país com mais liberdade de expressão publicitária, Estados Unidos, e simplesmente botou o mesmo anúncio na Times Square. A empresa ganhou popularidade e suas vendas aumentaram. Algumas outras marcas, também espertas, embarcaram na controvérsia, com imitações mais simpáticas às crenças dos ativistas. Mas a estrela acabou sendo a empresa que provocou a ira dos ativistas.

Muitos desses ativistas são incapazes de articular o que exatamente está errado, e são só seguidores de uma onda ideológica que se analisada de perto por sociólogos pode revelar como surgem novos tabus (religiosos), como o tabu bíblico contra tecer panos misturando fibras diferentes. Alguns poucos, no entanto, tentam explicar seu ultraje. Alguns dizem que diz respeito à imagem corporal, que há pessoas cuja auto-imagem depende bastante do que está na mídia popular, e que falta de sensibilidade com essas pessoas pode criar ou piorar problemas como a anorexia nervosa. Já ouvi também a alegação de que se trata de “objetificação” sexista, que causa ou piora o estereótipo de que mulheres devem ser valorizadas pela aparência acima de tudo.

Embora haja um ou outro ponto justo nisso, há pouca coisa que se aproveite nessas tentativas de justificação. Quem acha que a responsabilidade do cuidado a anoréxicos, bulímicos e vigoréxicos está na mídia é culpado de futilidade. O problema das pessoas que se deixam influenciar tão profundamente por mídia popular é principalmente falta de repertório cultural, falta de desligar a TV e deslogar do Facebook. É de impressionar como hoje as pessoas ficam comentando assuntos superficiais, como Tilda Swinton ser escalada para interpretar um personagem que nos quadrinhos é um homem asiático velho e sábio (outro estereótipo), como se estivessem libertando Mandela da cadeia ou repetindo o feito heroico de Rosa Parks. Desculpem-me os ativistas (ingenuidade minha achar que está sobrando nuance para me desculparem por qualquer coisa, eu que já sou difamado com todo tipo de adjetivo), mas eles deveriam baixar a bola: estão apenas comentando assuntos que em última análise são apenas passatempos para a maioria das pessoas, em que elas se engajam por futilidade. Se isso é ativismo, é uma forma inferior de ativismo.

É estranho também dar o nome “objetificação” ao problema, quando é fato que nossos corpos são objetos e o tempo todo fazemos uso desse objeto: se você utiliza os serviços de um motorista do Uber, você está “objetificando” o corpo dele para se deslocar de um ponto ao outro. Mulheres não são crianças, se elas trabalham o próprio corpo ao ponto de alugá-lo para a publicidade (e por mais que seja irracional, funciona), estão “objetificando” a si mesmas, e todos os envolvidos estão ganhando alguma coisa: elas estão sendo pagas, as empresas estão fazendo sua publicidade. Nada que ativistas disserem vai reduzir a soberania de mulher bonita ou homem sarado nenhum sobre seus próprios corpos, e corpos são objetos. Negar a realidade alegando que não existe atratividade intrínseca em certos tipos de corpos mais que em outros só piora a mensagem e só faz com que pareçam mais loucos ainda. A mídia existe por causa da sociedade e por causa do que as pessoas são, há muito pouco que a mídia de fato pode fazer para mudar o que as pessoas já consideram atraente. No máximo, ondas ideológicas podem convencer um certo setor da população a se engajar em ilusão coletiva alegando que obesidade mórbida é tão atraente quanto a média dos corpos.

Muitos dos ativistas não estão vendo, mas já são os novos carolas. São os novos moralistas que, devido a seus tabus injustificados, mais e mais pessoas consideram divertido ofender (e é tão fácil ofendê-los!). Muita gente fã de telenovelas adora ver a personagem carola se dando mal: da Perpétua em “Tieta” ao inquisidor em “A Muralha”. Continuem assim, que logo a cultura vai usar o arquétipo do ativista irracional, ofendido por tudo, nas novelas, séries e filmes brasileiros (se é que já não usaram – eu lembro de rir em “Tropa de Elite” dos estudantes rococós pomposos falando de Foucault). Estereótipos não surgem do nada. Se ativistas estão sendo estereotipados assim, é porque mais e mais ativistas que se comportam assim são visíveis. E, como já sugerido em pesquisa empírica*, o estereótipo do ativista raivoso e irracional, que nem mesmo explica o porquê de tanta ira, serve para prejudicar as próprias causas que ativistas tentam defender. Tentam, mas falham frequentemente, tudo porque sucumbem ao pensamento de manada, e estão mais interessados em abusar da ferramenta de avaliação do Facebook do que em discutir adequadamente ou ensinar alguma coisa. O caso é que não se pode ensinar o que não se sabe. Tabu e ultraje moral estão correlacionados com ignorância, não com conhecimento.

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* Bashir, Nadia Y., et al. “The ironic impact of activists: Negative stereotypes reduce social change influence.” European Journal of Social Psychology 43.7 (2013): 614-626.

2nd of May

“Apropriação cultural”, mais uma vez


Contribuí dando entrevista para uma matéria d’O Fluminense sobre “apropriação cultural”, assunto de que já tratei aqui. Como é normal, não houve espaço para tudo o que eu disse na matéria, então reproduzo minhas respostas na íntegra abaixo.

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O termo “apropriação cultural” pode descrever o interesse de alguém de adotar elementos de uma cultura estrangeira. Mas, recentemente, foi ressignificado numa parte radical (e radicalmente errada) do ativismo como não apenas isso, mas também, adicionalmente, como algo imoral, indesejável. Esse novo conceito vem do norte do continente americano, especialmente dos Estados Unidos, onde houve uma história recente de segregação racial codificada em lei, onde pessoas ditas “brancas” e as ditas “negras” eram coagidas socialmente a se separarem.

O lema dessas políticas racistas era “separados, mas iguais”. Como muitos outros lemas, incoerente, pois se você precisa se apartar de alguém por causa da cor da sua pele, isso já presume que você não trata essa pessoa como um igual, ou seja, como alguém cujos interesses têm tanta prioridade em serem atendidos quanto os seus: afinal, quando os interesses forem os mesmos (por exemplo, o interesse de ser contratado num bom emprego), a segregação será algo que dificultará o atendimento dos interesses de uma ou ambas as partes, por isso a segregação é imoral. E essa segregação foi obliterada por lá graças a ativistas como Martin Luther King Jr. e Rosa Parks. Mandela e outros também tiveram sucesso contra o Apartheid sul-africano.

O Brasil teve uma história mal resolvida de abolição da escravidão, pois não ofereceu plenas oportunidades para os libertados, mas jamais chegou a codificar em lei essa segregação. Hoje, quem mais chama por segregação no Brasil são justamente as pessoas que reclamam de “apropriação cultural”. São as que abominam (em vez de celebrar) a miscigenação brasileira como se fosse puramente um fruto da “política de embranquecimento”.

Essa política racista de fato existiu, mas não é mais responsável pela miscigenação brasileira que outros fatos históricos sobre o país – por ter inúmeras populações nativas, por ter sido colonizado por europeus, por ter importado mão-de-obra escrava da África e semi-escrava de lugares como Itália e Japão. A política do embranquecimento veio numa época de grande ignorância sobre genética. Talvez os racistas pensassem que os genes europeus eram “mais fortes” e que “melhorariam a raça” (uma expressão racista que infelizmente ainda está na boca de alguns brasileiros) através da mistura. Mas isso é uma noção ridícula. Como sabemos hoje, quando há relação de dominância mendeliana (que não contém qualquer noção moral ou estética de “melhor” e “pior”) nos genes que participam da cor da pele, geralmente a pele mais escura é favorecida nos filhos de uniões entre pessoas de cores diferentes. Mas, por causa de um fenômeno chamado de “equilíbrio de Hardy-Weinberg”, todos os fenótipos, do olho claro à pele escura (às vezes uma coisa junto com a outra, como aconteceu com o comediante Hélio de La Peña), continuarão se manifestando nas gerações subsequentes de miscigenados. O Brasil não é um país destituído de racismo, mas a população brasileira, com sua enorme variação, é vista pelo resto do mundo como um modelo de diversidade genética (modelo porque em um mundo com menos racismo presume-se que há mais mistura dos fenótipos). E eu acho que também é um modelo de diversidade cultural em alguns sentidos. Não faz qualquer sentido tentar barrar essa diversidade alegando, como alegam as pessoas contrárias à “apropriação cultural”, que há problema em um paulista loiro usar tranças ou dreadlocks mais frequentemente associados a pessoas negras. Problema há em tentar impedir que indivíduos sigam suas preferências estéticas e se apropriem de elementos culturais de qualquer lugar. É a liberdade do indivíduo, não a identidade de grupos, o que tem prioridade na declaração universal dos direitos humanos.

Nós estamos na era genômica, ou seja, na era em que temos acesso a quase todas as informações genéticas que são parte integral do indivíduo. Digo quase todas porque, mesmo se você tiver em mãos a sequência completa do DNA de todos os seus cromossomos, haverá algumas coisas sobre a sua biologia que permanecerão um mistério, porque a pesquisa ainda não revelou o que certas partes da sequência fazem, ou porque essas coisas estão em outro tipo de codificação nas suas células (como a codificação epigenética), ou porque são resultado de acidentes de desenvolvimento e influência do ambiente. Para azar dos racistas, é quase consenso entre biológos e antropólogos físicos que raças não existem na espécie humana, então sequer faz sentido a sua tola busca por superioridades e inferioridades essenciais a grupos na diversidade humana. Alan Templeton é um dos cientistas que deram os melhores argumentos a respeito: nós temos mais variação dentro de cada um dos grupos vistos como “raças” do que entre eles, e o que se entende por “raça” parece ser mais próximo do que pode ser descrito como “subespécie” em biologia, e não há subespécies entre humanos. Poderá haver no futuro, se alguns de nós formos para outro planeta e seguirmos um curso de mudanças genéticas (inevitáveis) diferente. Nem nesse futuro hipotético em que raças existem o racismo se tornará correto.

Nós já temos pessoas que são biologicamente diferentes das outras, biologicamente menos capazes que outras de realizar certas tarefas: são os deficientes físicos. E a atitude correta é ajudá-los a superar suas dificuldades, não segregá-los. Ou seja, o racismo é incorreto mesmo se fosse verdade que raças humanas existem e que diferem em habilidades. Os racistas perderam o debate, e hoje o termo “racista” é uma arma, pois qualquer pessoa que seja rotulada de forma justa com ele na nossa sociedade irá perder certos confortos e privilégios (o que é também justo). Como toda arma, essa rotulação pode ser usada para fins escusos. E um desses é a acusação de racismo por “apropriação cultural”, que faz parte, na verdade, até de uma tentativa de ressignificar o que a palavra “racismo” quer dizer, enquanto se mantém sua marca poderosa de desqualificação. Algumas pessoas, influenciadas por acadêmicos que perderam a fé em noções como verdade, justiça, imparcialidade e individualidade, e as substituíram todas por jogos de poder, estão tentando defender que racismo não é preconceito e discriminação injusta por causa de características superficiais (cor de pele, textura de cabelo, etc.). Querem mudar a definição de “racismo” para algo que inclui “desequilíbrios de poder estruturais” na sociedade, uma linguagem propositalmente mal definida e pouco clara, para tornar impossível que grupos que não eram alvos de racismo na história brasileira possam ser vistos como alvo de uma onda de acusação racista por fazerem dreadlock em cabelo da cor e da textura “erradas”. Para quem é astuto com lógica, dada a definição clássica de racismo, atacar pessoas dessa forma, tentando, por causa de sua cor de pele, evitar que usem turbantes ou façam tranças de certo tipo, é claramente racista. Afinal, isso é tratar diferentemente as pessoas com base em sua cor de pele, em vez de com base no conteúdo de seu caráter: é fazer o contrário do que Martin Luther King aconselhou.

A intelectualidade brasileira deve resistir contra essa onda de irracionalidade neorracista nas redes sociais. O que é apenas, afinal de contas, resistir ao racismo em toda a sua diversidade – às vezes, ideias ruins também têm manifestações diversas. É trocando de máscara que ideias ruins como o racismo sobrevivem. A atitude cada vez mais comum de xingar homens negros que namoram mulheres brancas de “palmiteiros”, de fazer ataques em bando a quem usa turbante ou dreadlocks sem ser negro, é racismo e deve ser tratada como tal.

9th of April

“Objetificação” não faz sentido O conceito usado frequentemente no ativismo como justificação de tentativas de censura não resiste à análise


Ouve-se com frequência a queixa de que o emprego de mulheres com pouca roupa em peças de mídia, especialmente obras de arte popular e publicidade, seria “objetificação”. E que essa “objetificação” seria discriminação injusta do tipo sexista, por vários motivos. O termo sugere que um desses motivos é que isso desumaniza as mulheres e as transforma em objetos, ou que a objetificação incentiva que sejam tratadas como objetos. Exibir mulheres como seres sensuais seria, portanto, algo problemático.

Um exemplo comum dessas peças de mídia é a propaganda de cerveja, em que a mulher sexy é vista tomando ou servindo a cerveja. Enquanto isso, os homens são mostrados como os “agentes” da situação, os seres com quem os espectadores devem se identificar, em oposição ao ser que devem desejar junto com a cerveja. Ao menos essa é a interpretação dos críticos.

Em primeiro lugar, é importante lembrar que mulheres ganharem fama e dinheiro por serem “gostosas” é algo pelo que elas tiveram que lutar também, especialmente contra conservadores antigos, estilo beata de igreja, que acham que mulher deve ser “pura” (leia-se destituída de sinais explícitos de interesse em sexo). Esta é uma opinião comum e ainda praticada por religiosos ao redor do mundo, inclusive os que fazem pressão para que elas se escondam com véus e burcas. Uma opinião que está errada, pois termina por violar os interesses daquelas mulheres que querem dar vazão às suas libidos e às suas preferências estéticas sobre a própria aparência.

A alegação é que ser “objetificada” é pouco “empoderador”, ou seja, uma coisa que pouco contribui para que mulheres sigam seus próprios interesses livremente. Mas poucas pessoas são mais “empoderadas” que a “gostosa” famosa do momento. Se ela, uma pessoa adulta, entende a que tipo de risco está se expondo por sua escolha de carreira, mas decidiu mesmo assim aceitar o dinheiro e mostrar um pouco de decote e glúteos, por que ela deveria dar ouvidos às carolas da igreja ou às pessoas que combatem a “objetificação”? A reclamação é que não há tantos homens que se submetem a isso? Que a pressão sobre a aparência das mulheres é maior? Se ambas alegações forem verdade, é relevante notar que há profissões insalubres em que há mais homens que mulheres, e eles também aceitaram certos riscos em troca dos benefícios. Fica difícil ver, portanto, como esses problemas têm a ver com uma “objetificação”, quando boa parte das profissões que pagam bem envolvem riscos ao corpo e à imagem, e as pessoas que entram nessas profissões têm liberdade de fazê-lo, como pessoas que são, não como “objetos”.

E é estranho que o nome do suposto problema seja “objetificação”. Em primeiro lugar, quase ninguém realmente prefere um objeto a uma pessoa para sexo. São relativamente raras as pessoas que estão dispostas a ignorar completamente os atributos psicológicos das pessoas com quem querem transar, especialmente se for mais de uma vez. Pense no sadomasoquismo, por exemplo: o que excita seus adeptos são quase que completamente atributos psicológicos: há aqueles que são dominantes e aqueles que são submissos – os apetrechos são só acessórios orbitando em torno dessa atmosfera psicológica. Mesmo se as tais bonecas de sexo ficarem impossíveis de distinguir na aparência de mulheres de verdade, eu duvido que os homens heterossexuais vão preferir as bonecas a mulheres de verdade (se realmente puderem optar). A atração sexual, além de ter o elemento psicológico (automaticamente personalizante, e não objetificador), também envolve elementos inconscientes chamados popularmente de “química” (o cheiro, a atitude etc.). Levando tudo isso em conta, é falso dizer que o uso publicitário da libido masculina heterossexual em direção à figura feminina sensual é uma “objetificação”, pois eles se atraem por elas por serem pessoas de feminilidade exuberante, e não por serem objetos. Até a diversão de um adolescente que se masturba diante de um objeto como uma revista de mulheres nuas está mais dentro da cabeça dele que nos pixels das fotos que ele homenageia, está mais em imaginar seres humanos femininos. E muitas lésbicas se comportam exatamente assim.

Outro sentido possível de “objetificação” é que, ao se submeter a esse tipo de emprego, essas mulheres estariam abdicando de seus atributos mais humanos, por assim dizer, e se reduzindo ao objeto que é seu corpo. Se o que se quer dizer com “objetificação” é que o corpo é um objeto e a pessoa é mais que seu corpo, e que essas atrizes dos comerciais de cerveja são valorizadas apenas por seu corpo, a resposta contrária é que existem outros empregos em que há (presumilvemente) pouca aplicação de esforço mental e consistem mais no uso do corpo como um objeto, especificamente como um instrumento. São os trabalhos braçais, boa parte deles feitos por homens, e a enorme maioria por gente da classe baixa. São indignos? Se não são, então não é indigno usar o corpo como chamariz sexual para produtos (por mais irracional que isso pareça). Não parece ser indigno usar seu corpo como instrumento para seu ganha-pão. E sim, estou incluindo prostituição aqui.

Por fim, é preciso comentar uma alegação frequente: que a mulher “objetificada” perde sua agência, enquanto os homens héteros babões continuam sendo vistos como seres capazes. Mas essa interpretação do ato de sedução é nova. Existe outra, presente como paródia em desenhos antigos como os do Pernalonga: quem é capaz de seduzir tem muito poder, enquanto quem é seduzido é o “otário”, que se deixa abusar. Certamente uma interpretação com sua contraparte verdadeira acontecendo no mundo. A verdadeira parte hipossuficiente da sedução, nessa interpretação, é o seduzido. Essa é uma verdade imemorial que nossos tempos querem negar. Por que? Porque o poder de seduzir dessa forma poderia ser tipicamente feminino, ainda que tenha suas contrapartes masculinas, e muitas feministas querem negar que homens e mulheres são em média naturalmente diferentes e não há problema necessário nisso. A equidade está em poder perseguir seus interesses sem amarras, até o de ficar rica por ser gostosa. Por dogmaticamente negar que homens heterossexuais são factualmente diferentes de mulheres heterossexuais especialmente na manifestação da libido, essas feministas precisam alegar que a mulher gostosa na propaganda não é um recurso que a publicidade naturalmente usaria quando seu público alvo tem um excesso de homens heterossexuais. O problema em fazer isso, com um conceito mal construído de “objetificação”, é que essas feministas estão se aproximando daqueles religiosos conservadores na finalidade, mesmo que não nas premissas.

Há sexismo nessas peças de mídia? Pode ser que sim, mas não por causa da “objetificação”. Demonstrar que o sexismo está ali é mais difícil que isso. Na dúvida, ficamos do lado da liberdade, não no lado que quer banir e censurar.

29th of January

Richard Dawkins e J. K. Rowling alvos de justiceiros sociais na mesma semana Ninguém está a salvo da polícia do pensamento


Nos últimos dois dias, Richard Dawkins e J. K. Rowling foram alvos de acusações injustas no Twitter.

Dawkins postou uma animação satírica em que a extremista feminista canadense “Big Red” toca um piano enquanto um “islamista”* canta. É um comentário político bem atual sobre os eventos do reveillon em Colônia, Alemanha, em que várias mulheres foram atacadas e até estupradas por um grupo de imigrantes muçulmanos. O hábito de assédio coletivo por fundamentalistas muçulmanos tem nome: taharrush gamea, que é literalmente “assédio coletivo” em árabe. Esses homens premeditam um ataque em que passam a mão, roubam, mordem, assaltam e até estupram mulheres. Diz-se que o taharrush foi usado como arma contra manifestantes políticas na praça de Tahrir durante a revolução egípcia. Muitas publicações feministas, diante do ocorrido, consideraram uma prioridade maior “respeitar” a cultura desses imigrantes e reclamar da “islamofobia” do que defender as mulheres alvos do taharrush. É disso que trata a paródia que Dawkins compartilhou.

A forma como Dawkins compartilhou, aliás, não poderia ter sido mais cuidadosa. Ele diz que, enquanto ele mesmo é feminista (no sentido igualitário), há uma minoria de extremistas no feminismo que merecem a crítica.

Pois não adiantou para um encontro de céticos britânico. Por tuitar a crítica, Dawkins foi “desconvidado” como palestrante. A justificação, soando meio incoerente, diz que o motivo tem a ver com o vídeo ser “ofensivo” enquanto o encontro é a favor da liberdade de expressão inclusive de opiniões ofensivas. Justificaram o desconvite com um apelo contrário ao “discurso de ódio” (sem definir o que é isso nem por que o vídeo é isso). Um fiasco para quem alega apoiar o racionalismo, e mais um sinal de que tendências autoritárias e dogmáticas são encontradas nas melhores das intenções.

Um dia depois do episódio de Dawkins, foi a vez de J. K. Rowling ficar no banco dos réus da polícia do pensamento. Com base num print aparentemente forjado, uma política eleita britânica, Natalie McGarry, acusou Rowling de apoiar a “misoginia” e o assédio de mulheres no Twitter. Rowling respondeu pedindo evidências disso repetidamente. Só muitas horas depois McGarry pediu desculpas e fechou seu Twitter. Ora, não é preciso muito mais que ler os livros de Rowling para saber da implausibilidade da alegação de McGarry.

Notem que os dois episódios são conectados ao “feminismo”. Ou a pessoas que alegam estar agindo a favor das mulheres e contra o sexismo. Mas percebe-se uma pressa em interpretar mal, uma exigência cheia de soberba para que os outros peçam desculpas não acompanhada de qualquer vontade de explicar como e porquê estão errados. O modus operandi é o uso de jargão: Dawkins está desconvidado em nome do “discurso de ódio” e Rowling merece acusações difamatórias públicas por falar com uma persona non grata (“unperson”?) num print como se ela pudesse ser responsabilizada pelas ações (assumidas) de outrem. Começa-se com intenção de fazer ativismo e termina-se emulando o comportamento de autoritários em distopias.

Feministas de pensamento claro, comprometidas de fato com melhorar as condições das relações de gênero, precisam recuperar seu movimento das mãos de “feministas” corporativistas de gênero e justiceiras sociais.

* Em inglês está se popularizando uma distinção entre muçulmano, praticante do Islã, e “islamista”, que é quem acha que o Islã precisa ser imposto à sociedade e ao Estado, que quem não acredita no islã é má pessoa, etc. Talvez esses termos possam funcionar em português também, mas esse esclarecimento é necessário pois “islamista” ainda é sinônimo de “muçulmano”.

– Vídeo “feministas amam islamistas”: https://www.youtube.com/watch?v=ecJUqhm2g08
– Big Red: https://www.youtube.com/watch?v=mpNapJK1uMg
– Taharrush gamea: https://en.wikipedia.org/wiki/Taharrush_gamea
– Sobre Dawkins e seu tweet: http://www.washingtonexaminer.com/richard-dawkins…/…/2581704
– Sobre o policiamento do pensamento de J. K. Rowling: https://twitter.com/EliVieira/status/692840130826997761

28th of September

Carta aberta sobre conhecimento e política no Brasil


Conhecimentos deveriam se complementar mutuamente. As ciências naturais e as ciências sociais
deveriam se sobrepor com o mínimo de inconsistências, como um mapa de estradas
e um mapa de topografia do mesmo território se sobrepõem. Ou, como se seus
problemas fossem palavras cruzadas, as palavras já resolvidas pelas primeiras
deveriam servir como pista para preencher as lacunas que ainda faltam para as
últimas, e vice-versa.
Enquanto é previsível que diferentes vocabulários e verdades emerjam de diferentes grupos
de pesquisa na mesma área ou em áreas diferentes, seria estranho que uma
ciência mais jovem e mais baseada em tentativa e erro tivesse não apenas
vocabulário diferente para falar do mesmo território, mas negação peremptória
de ciências mais maduras e suas descobertas, especialmente as corroboradas
amplamente.
Quando há essa negação peremptória, essas áreas já estão em conflito e então alguma
comparação de garantia epistemológica se faz necessária. Em outras palavras: há
que se perguntar “de onde tiraram isso”?
No ano passado, bati de frente nas redes sociais, errando no tom mas acertando no
propósito, com uma mestranda da filosofia política e blogueira de revista
semanal, quando julguei que ela estaria fazendo afirmações tanto em seu
trabalho de divulgação quanto em seu trabalho acadêmico que estavam em franca
contradição com conhecimentos ou com o escopo da minha área, a biologia. Numa
dessas ocasiões, a blogueira nega dogmaticamente que em “qualquer hipótese” a
biologia possa contribuir para o entendimento do fenômeno misterioso que
chamamos de consciência – e essa blindagem seria completa, já que ela alega que
isso ocorre se a consciência fizer “jus à sua definição” (sic), ou seja, que
por definição haveria impedimentos à investigação biológica da consciência.
Conheço pessoas que estão trabalhando com neurônios piramidais que disparam de forma errática
justamente nos momentos de vigília consciente, e, em 2012, foi em um evento de
neurociências e ciências cognitivas que foi publicada a “declaração de Cambridge” sobre a consciência, em que os
cientistas alertam à população que vários dos seres vivos dos quais fazemos uso
são seres conscientes. Tudo isso largamente baseado em conhecimentos da
biologia. Não são desconhecidas, portanto, indicações de relevância da biologia
para investigações desse fenômeno. O filósofo John Searle, que trabalha com
filosofia da mente, acredita que a consciência “é um fenômeno biológico como a
fotossíntese”. Considero que seja possível, embora implausível, que nada de
biológico ou dentro do escopo da biologia exista na consciência. Mas está claro
que, para ter tanta certeza de que em hipótese alguma a biologia pode
contribuir, no mínimo alguma onisciência e presciência é necessária. Pergunto-me
“de onde ela tirou isso?”, e nas respostas possíveis não parece haver presciência, mas noções pré-ciência. Uma visão desdenhosa ou até
hostil ao conhecimento científico, portanto.
Respostas minhas a ataques à ciência como esse não são novas, na verdade, desde a
graduação venho elaborando essas respostas, a mais famosa das quais foi a Silas
Malafaia. Mas não se limita a Silas Malafaia a atitude contraditoriamente ao
mesmo tempo desdenhosa contra a ciência mas deturpadora e aproveitadora sobre
seu prestígio. Leitores lembrarão de livros como “Imposturas Intelectuais”, de
Alan Sokal e Jean Bricmont, e “Higher Superstition”, de Paul Gross e Norman
Levitt, dedicados a responder a coisas assim. Também entendo que ocorre por
vezes (tanto entre acadêmicos quanto em leigos) uma supervalorização da ciência
ao ponto de diminuir à irrelevância outras investigações. Não é minha posição,
tanto que traduzi um artigo da filósofa Susan Haack que define claramente e
critica o cientificismo. (Disponível em http://genetici.st/cientificismo .)
Em meu otimismo, pensei que a postura anticiência da blogueira e outras pessoas das
ciências sociais fosse a exceção na área ou entre ativistas como ela. Mas
encontro cada vez mais motivos para pensar que o ceticismo contra a razão e a
ciência já é dominante nas ciências sociais e no ativismo no Brasil, com estudantes dessas
áreas saindo da universidade pensando que fatos não existem, que teorias
científicas são apenas mitos particulares de uma cultura, que qualquer posição
pode ser defendida bastando ter para com ela fervor moral, pois “pressupostos
epistemológicos” podem ser conjurados ex
nihilo
sem precisar de justificação argumentada e baseada em premissas ao
menos tentativamente universais.
Vivemos hoje em sociedades cada vez mais dependentes da tecnologia e do
conhecimento científico. Até mesmo para espalhar ideias céticas contra ciência
e conhecimento objetivo e ideias excessivamente subjetivistas e mágicas, afinal
de contas, usa-se preferencialmente a internet, que não resulta desse tipo de
pensamento. Talvez por essa contradição, cresce o cinismo contra as
humanidades, como exemplificado nas recentes decisões do Japão visando a cortar
fundos para essas áreas. Uma decisão lamentável e que não faz bem à sociedade
japonesa.
Enquanto a face pública das humanidades no Brasil continuar sendo de “afrontas artísticas”
ao senso comum, pelo prazer de chocar os conservadores e entediar o resto, enquanto for mais a respeito de pregar algo “segundo fulano” do que analisar criticamente se o que fulano disse se sustenta com evidências e argumentos, os
conservadores continuarão marcando gols como vêm marcado desde as últimas eleições.
A atitude dadaísta, seja na arte, seja no pensamento acadêmico, contraditória e
desdenhosa de instrumentos de investigação que rechaçam contradições, mais
simpática à astrologia que à biologia, mais afeita às obscuridades que à clareza, vai ferir as humanidades mais que o
pânico anticomunista dos conservadores. Pois enquanto comunistas (ao menos os clássicos)
ao menos costumam tentar responder aos conservadores apelando para princípios
universais de igualdade e justiça social, tendo alguma chance no debate
público, os adeptos do novo dadaísmo sequer tentam fazer isso, negando portanto
a legitimidade dos conservadores de participar desse debate público, e
frequentemente fetichizando a resposta violenta e a imposição autoritária de
suas pautas com desculpas esfarrapadas como “reação do oprimido”.
Ou o progressismo redescobre o conhecimento e a razão, ou vai continuar perdendo feio no ambiente público para as forças conservadoras do país. Dada a atual prioridade de levar pessoas que defendem esse conjunto de ideias danosas ao estrelato, tenho desesperança de que isso vá acontecer no curto prazo e perco eu mesmo o interesse de ajudar em movimentos em que a segregação e a atribuição de privilégios epistemológicos de acordo com características pessoais de quem argumenta estão sendo a palavra de ordem. Sem humanidades não há progresso para a humanidade. Quando humanidades não acreditam em qualquer forma de progresso pela força da verdade e da investigação, quando fecham os ouvidos a outras áreas e caem em exercícios circulares de contemplação do próprio umbigo, a profecia de não existir progresso é autocumprida.
13th of August

A nova religião da “justiça social”


Pecado original – “você foi socializado como…”
Isso é pecado – “isso é ofensivo”
Não blasfeme – “respeite meu lugar de fala”
Não questione – “não roube meu protagonismo”
Você precisa ter fé – “você precisa ter vivência”
Pague pelos seus pecados, você sempre será pecador – “você é racista/machista/LGBTfóbico em desconstrução, jamais será feminista/inclusivo/ético/correto”

Amaldiçôo sua família até a quarta geração – “Você tem que pagar porque seu povo oprimiu o meu povo, é dívida histórica”
Eu não larguei uma religião para entrar em outra. Vade retro, Satanás da “justiça” social.